eu
João Vasconcelos Costa
Espaço de conversa de um epicurista ou, pretensiosamente, a sabedoria (?) de/dos 60s. Açoriano, muitos anos investigador científico, depois professor universitário, passando por diretor de uma instituição de investigação e ensino, tudo isto com algum trabalho feito de estudo da educação superior. Hoje, novamente com responsabilidades de direção universitária. Albergando aqui a perplexidade angustiada da falta de perspetivas de concretização de ideais nunca realizados. Também, mais prosaicamente, o gosto de bem comer. E peripatético, que isto de ficar sentado é coisa de velhos.

 

Os romeiros de S. Miguel, segundo eu

(Excerto de "O mastro das alminhas")

romeiros1É altura de deixar as festas alegres, bem conhecidas dos turistas, e passar ao que considero a mais genuína e secular manifestação da humildade e sensação de fraqueza dos intrépidos povoadores, perante os mistérios de uma natureza hostil. Neste caso, não me importo de passar de ficcionista a jornalista, tão desconhecidos são os romeiros de S. Miguel – e só de S. Miguel, de mais nenhuma outra ilha. Romarias há muitas por este pais, mas festivas. Romeiros de S. Miguel não têm nada de festa, só sacrifício e penitência.

Os primeiros ranchos de romeiros formaram-se em consequência de calamidades que açoitaram o povo micaelense e que, na linguagem popular, têm o nome de “castigos”. O micaelense de 500 nada sabia das forças da natureza, mas tinha consciência dos seus pecados, cujo castigo era a ira divina, terramótica ou vulcânica. Segundo a tradição, os romeiros tiveram origem no grande sismo de 1522 que parcialmente destruiu Vila Franca do Campo, destruição completada pelo desabar de um monte que lhe ficava a cavaleiro. Visitantes de S. Miguel, não se esqueçam de que as vossas paradisíacas férias podem ser interrompidas por um súbito despertar de Vulcano, que dorme no fundo dos mares ilhéus, normalmente despertar molinho de pequeno bocejo, mas às vezes acordar colérico e cheio de azia, depois de sono mal dormido, de pés de fora e a torcer-se toda a noite, irritado com o ressonar da Vulcana, que nem sargento de artilharia.

De facto, parece que as romarias são um pouco posteriores e datam de outro cataclismo, as enormes erupções vulcânicas de 1563, que atingiram praticamente toda a ilha. A lava escorria por todos os montes, iluminando a noite, enquanto as cinzas e fumos toldavam o dia. O melhor é transcrever Gaspar Frutuoso.

“Uma hora da manhã começou a terra subitamente a tremer com horrendos e contínuos abalos, que se sentiram mais em Vila Franca por ser esta mais próxima do monte onde rebentou o fogo. Fizeram uma devota procissão à casa de Nossa Senhora do Rosário, do mosteiro de São Francisco e daí ao mosteiro de Santo André, das religiosas de Santa Clara, que já pelo mesmo motivo tinham feito outra procissão, por dentro de sua crasta; daí tornando à igreja de São Miguel donde se sairam, sendo já manhã clara. No qual tempo tremeu a terra mais de quarenta vezes, tremendo também o sábado no qual sendo horas de Ave Marias se eclipsou a lua como ser cheia, do qual eclipse nenhuma fé deram em algumas partes da ilha, e também alguns da mesma vila desatinados com medo, pelo que à tarde fizeram outra procissão com muitos géneros de penitências aos mesmos lugares dantes.”

“No domingo seguinte, à tarde, como começasse a terra a tremer mui impetuosamente, ordenou-se novo cortejo com o mesmo percurso; e como continuassem os abalos até à segunda-feira imediata, 28 de Junho, tremendo o solo mais horrenda e espantosamente quando cantavam vésperas na Igreja de São Pedro, saíram daqui processionalmente até ao mosteiro das freiras e deste para a Matriz, sendo entrementes tão grandes os abalos que muitas pessoas fugiram para o ilhéu fronteiro. Como crescessem os tremores, numerosa multidão se dirigiu processionalmente à igreja de Nossa Senhora da Piedade, indo os que ficaram na vila em procissão ao Mosteiro de San Francisco e ao das freiras e à Matriz, fugindo outros para o ilhéu, uns em barcos e navios, outros a nado.”

Castigos de Deus, ainda hoje assim os vê o micaelense e pede misericórdia nas romarias da Quaresma. São dezenas, cada ano, os ranchos de romeiros, grupos só de homens, não só populares mas também, com frequência, gente abastada. Confessados e comungados na manhã do domingo de partida, percorrem a pé toda a ilha, subindo e descendo montes para visitar todas as igrejas e ermidas de invocação da Virgem. A indumentária é uniforme: sapatos grossos, roupa simples, um xaile de lã aos ombros e um lenço enramado ao pescoço ou na cabeça, saca de pano à bandoleira para os víveres, um bordão e, inevitavelmente o terço, aliás dois, um na mão e outro ao pescoço.

Formam em duas filas, de cada lado da estrada. Ao meio, só algumas figuras destacadas. À cabeça, o porta-cruz, o mais novo do rancho, geralmente uma criança, que isto de romeiros começa de pequenino, quase que como um rito de iniciação. Até nisto há regras; a cruz está erguida e virada para a frente enquanto os romeiros rezam cantando, mas o porta-cruz vira-a para si e reclina-a sobre o braço esquerdo enquanto os romeiros descansam. Na igreja, é pousada no chão, virada para o altar. Ainda ao meio, mas no fim, vem o mestre, obedecido por todos os romeiros como se fosse abade medieval. A fechar, o procurador das almas, o que recebe os pedidos de oração das pessoas que vêem passar o rancho e o único com quem se pode falar.

A disciplina é rigorosa. A boca do romeiro só se abre para cantar as rezas, qualquer outra conversa necessária só depois de autorizada pelo mestre; regra cumprida mesmo nos momentos de descanso, deitados nos taludes de leiva à beira da estrada, abrigados debaixo de uma criptoméria da chuva incessante de Março ou Abril.

Nas conversas excepcionalmente consentidas, nunca o tratamento pelo nome. Durante a romaria todos têm só um e o mesmo nome, irmão. Mesmo à noite, recolhidos por quem os acolhe, evitam conversas uns e outros, quase que só um agradecimento pelo jantar obrigatoriamente frugal, banho e cama que lhes são dados. E é sagrado dar-lhes abrigo, como sempre fez a minha mãe. Muitas vezes fui eu dormir para o sótão – a falsa, como se diz na minha terra – para um romeiro dormir na minha cama, não sem antes rezar um terço pela família de acolhimento. Este terço é rezado com aquele que trazem ao pescoço e é deixado à guarda da dona da casa – que frequentemente também reza por ele, com a família – até ser recolhido antes da partida para mais uma jornada.

Uma das obrigações dos romeiros é a encomendação das almas, cantada como que num lamento vindo ainda dos tempos medievais. As gentes por que passam os ranchos de romeiros limitam-se a um código simples, pergunta quase silenciosa do procurador das almas, “Quantas?” E é uma troca de deveres, orações por quem pede, tantas quantas o número de romeiros, e, tantas quantas as almas encomendadas, ave-marias cantadas pelos romeiros, ao longo da estrada, a terminar, à chegada a cada igreja ou ermida, pela tal linda e comovente oração medieval da encomendação das almas. Curioso é que o número real de romeiros é sempre acrescentado de três, porque com eles vão também três romeiros invisíveis, Pai, Filho e Espírito Santo, outras vezes Jesus, Maria e José.

Nas igrejas por onde param, e onde se vê que há um rancho pelos bordões todos alinhados no adro, cantam a encomendação das almas. Ao longo do caminho, naquela contabilidade complicada de almas encomendadas e de orações, gerida pelo procurador, que as vai abatendo da lista terço a terço, vão recitando incessantemente a sua característica Ave Maria, completamente diferente da litúrgica, um poema belíssimo.

No fim de uma longa lista de cânticos de sabor medieval, enriquecidos pela pronúncia micaelense, o sublime “Misericórdia”. Nada me impressiona mais na música religiosa micaelense. Cantam-na os romeiros mas também os devotos do Espírito Santo, no terço vesperal. É o meu máximo de sensibilidade em relação às minhas origens e às minhas gentes, a oração que considero a mais sublime de entre as várias que são cantadas tradicionalmente.

É um cântico que vem das raízes do povoamento, um apelo de quem se sente pequeno e irmanado pelas fúrias da natureza que foram encontrar, na aventura de uma vida nova perdida nos mares infindos. Este texto de pouco vale se não ouvido cantado, numa toada pungente, quase um grito angustiado vindo do fundo da alma, de pessoas inteiras e orgulhosas, como os micaelenses, mas também conscientes da sua pequenez. Não posso reproduzir a música, mas impõe-se que aqui deixe a letra:

Senhor Deus, misericórdia,
Senhor Deus, misericórdia,
Senhor Deus, misericórdia,
Virgem mãe de Deus e mãe nossa,
Virgem que tanto amais vosso filho, misericórdia,
Seja louvada e bendita a sagrada paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo,
Seja para sempre e amen, com nossa Maria santíssima.

Com esta vivência infantil e com os meus hábitos de família, não admira que um impenitente incréu, como eu, me continue a impressionar tanto com as manifestações religiosas do meu povo, genuínas e ancestrais. É uma dimensão cultural que não enjeito. Como se retrata um amigo meu, intitulando-se paradoxalmente de ateu-católico, acho que só assim se sente a religião, vista de fora da fé. E entendo que Deus deve existir, porque para isto basta que exista na alma dos meus outros, embora não na minha.

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