João Vasconcelos Costa              24.03.2010    
cambridge REFORMAR A EDUCAÇÃO SUPERIOR
A educação superior em Portugal: artigos, opiniões e documentos - Higher education in Portugal: papers, opinions, documents
O meu outro sítio, pessoal:

A INQUIETUDE PERMANENTE

 

Trajes académicos (II)

Não me surpreende que a minha nota anterior tenha dado origem a tantas mensagens. Coisa ligeira, porventura antiquada, o traje académico. No entanto, como diz um dos meus leitores, simultaneamente académico e militar, “Não são só os académicos que gostam do cerimonial. Todo o poder tem cerimonial. Seja ele qual for.” A liturgia religiosa, hpje cpompreensivelmente banalizada mas antes, para um incréu, excelente encenação, o aparato cerimonial da justiça, as paradas militares e todas as praxes castrenses, incluindo a ordenação rigorosa dos símbolos, o uso da espada e das condecorações contra o uso vulgar das fitas. E acrescenta o meu amigo que a diversidade "amalucada" dos nossos trajes, sem coerência, sem raizes históricas, é coisa que choca o seu lado militar, em que todo o cidadão e todo o militar sabe o que significa o seu uniforme da Armada. Este é um aspecto que não abordei, a da total falta de sentido tradicional de alguns trajes. Em que se baseiam os feíssimos trajes de trajeevÉvora (ver figura) ou Aveiro, ou o mais recente da Nova de Lisboa, um devaneio nem água nem peixe, sem qualquer simbolismo, de um reitor efémero?

A tradição do traje académico, por todo o mundo, tem duas raízes. Uma é a transformação, ao longo dos séculos, de trajes religiosos, mais ou menos pomposos conforme a categoria clerical. Tem influências de costumes próprios da reforma, no mundo anglo-saxónico, é tipicamente católico em Coimbra e todas as universidades espanholas. Pelo contrário, em França, é vincadamente laicista e evocativo do poder de estado, jurídico. Na mesma linha, os trajes professorais de Lisboa e Porto. Repare-se que professorais, porque, ao contrário da longa tradição universitária, eram escolas profissionais em que o grau pouco interessava ao cerimonial universitário, importantes eram os professores. Coimbra, por um lado, Lisboa e Porto por outro, são as nossas tradições de traje académico, que, sendo bem definidas e lógicas, podiam chegar a um entendimento. Tudo o que apareceu depois foram arremedos de usos estrangeiros, sem lógica, afirmação de cada universidade. Por vezes, eclecticamente aberrantes, como o dos Açores, a beca lisboeta feiamemnte sobreposta por uma caricatura de capelo coimbrão e usado com uma espécie de borla. Curiosamente, os nossos vizinhos espanhois, mesmo de universidades recentes, adoptaram sempre o traje tradicional de Salamanca, claramemnte na lógica da tradição talar religiosa e até bastante semelhante ao de Coimbra.

A dúzia de colegas que me escreveu converge em alguns aspectos. Os estudantes uniformizaram o seu traje pelo de Coimbra, em quase todas as universidades, excepto uma patetice folclórica do Minho. Só lamento que o traje académico estudantil esteja hoje tão associado à praxe e às suas aberrações. Na mesma onda, deve haver um único traje doutoral com raízes históricas, a da capa e batina, com uma pequena diferença distintiva da situação académica, estudantes, licenciados e mestres, doutores. As insígnias professorais só devem ser usadas sobre esse traje doutoral português, independentemente do direito ao uso do traje estrangeiro, mas não em cerimónias académicas portuguesas com uso de insígnias e, eventualmente, condecorações. Lembro que insígnias são professorais e próprias de cada universidade, sobrepostas ao traje doutoral, este usado sem insígnias por todos os doutores, mesmo que não professores universitários.

Com isto, o que começou por ser uma brincadeira provocadora leva-me a uma proposta ao CRUP de normalização do traje académico. É tolice desviar o CRUP de tarefas importantes? Mas também as universidades inglesas criaram a Groves Classification of Academic Dress e até há uma sociedade dedicada a tão importante (?) assunto, a Burgon Society. Também o American College of Education não achou que era importante regular os trajes académicos americanos, por via do Committee on Academic Costumes and Ceremonies?

Assim, aqui vai uma proposta:

barrete1. O traje académico português, em todas as universidades, é o que radica na história do cerimonial académico e na origem por transformação dos trajes sacerdotais, a capa e batina, usada tanto por estudantes como por graduados. Com as pequenas variantes seguintes, é o traje estudantil de Coimbra, usado depois pela maioria das nossas universidades.
a) A capa, em ocasiões cerimoniais, tanto para graduados como para estudantes, é usada caída e pode ser usada com um cordão a atar com um laço, no pescoço. É de tecido mais leve do que a lã espessa até agora usada. Os emblemas vulgarmente usados pelos estudantes só podem ser cosidos no lado interior da capa.
b) A batina, com o corte habitual mas em tecido leve de meia-estação, tem as bandas da gola em cetim, com três variantes: i. preto, no caso dos estudantes, ii. preto, debruado com um filete da cor da disciplina, no caso de licenciados e mestres; iii. da cor da disciplina, no caso dos doutores. A batina é usada aberta, vendo-se a gravata preta ou o laço preto ou branco (maior cerimónia) sobre a camisa branca. É abotoada, dispensando o uso de colete.
c) Os estudantes podem usar o barrete tradicional. Os doutores podem usar um chapéu derivado do barrete eclesiástico (ver figura), preto, com borla e cordão pendente da cor da disciplina do doutoramento.

2. Assim, o traje doutoral, envergado por si só ou com acrescento de insígnias no caso de professores universitários, é o que é descrito em 1.b.iii. (figura 1, no fim do texto, com o caso de Direito, vermelho). As cores disciplinares são definidas para todo o sistema universitário português, respeitando as cores antigas de Coimbra. Não são permitidas misturas de cores nas insígnias, a não ser as duas cores históricas de matemática, azul e branco. Sempre que possível, as cores das disciplinas mais recentes devem aludir à disciplina mais próxima de entre as tradicionais, como variante da cor base. Por exemplo, amarelo torrado ou amarelo limão para veterinária ou medicina dentária, a lembrar o amarelo de medicina, carmim para economia, com relação ao vermelho de direito, azul turqueza para engenharias, a lembrar o azul claro de ciências, etc.

3. O traje doutoral simples, sem insígnias, é usado em actos de solenidade baixa ou média, como provas académicas ou de agregação ou em cerimónias matinais ou em que a assistência possa estar em traje informal. Nestes casos, é substituível pelo traje doutoral estrangeiro a que o doutor tenha direito.

4. Os trajes doutorais estrangeiros nunca podem ser usadas com insígnias de universidades portuguesas ou, portanto, quando o protocolo universitário exigir o uso de insígnias.

5. Assim, em cerimónias solenes em que o destaque seja dado a professores (abertura solene, dia da universidade, etc.), estes usarão apenas o traje doutoral português, descrito em 1.b.iii, com as insígnias da universidade em que são professores. Por exemplo, a borla e o capelo de Coimbra ou dos Açores (figura 2), a fita e medalha de Lisboa e Porto (figura 3) ou “estolas” como a da Universidade Lusófona (figura 4). No entanto, o protocolo pode admitir que outros doutores, que não participem em cortejo académico ou não ocupem lugares de professores na sala, possam usar o traje doutoral estrangeiro, sem insígnias. Nestas cerimónias solenes, que devem ser marcadas sempre para o fim da tarde, deve-se encorajar os estudantes a usar o seu traje académico, e deve-se pedir aos convidados que usem fato escuro.

6. Continuam em vigor os actuais trajes académicos portugueses, mas só para os que já os possuem (questão prática importante, para quem já pagou um caro traje académico actual).

Vem também a propósito o uso das condecorações. É matéria que até está regulada por lei (Decreto-Regulamentar 71-A/86) segundo a qual, exceptuando os militares, só se pode usar a condecoração com casaca, a não ser a roseta na lapela do fato (pelo gozo de perguntarem de que clube é aquele emblema). No entanto, como o uso faz o costume, todos os universitários as usam com o traje académico com insígnias. Um pouco ao gosto pessoal, como aqueles que só usam a placa no traje de Lisboa, porque a fita e medalha ficam misturadas com a medalha (insígnia) da universidade. Deve é haver bom senso e bom gosto. Usar uma condecoração às nove da manhã, como já vi? Nesta situação, só se deve usar a miniatura. Uso de banda ou medalha e placa só devia ser quando o protocolo institucional o define, em cerimónias importantes e obviamente que sempre pelo menos ao fim da tarde e quando se exija a toda a gente fato escuro (como dito no ponto 5).

Há pouco tempo, na cerimónia de posse de um reitor, o protocolo de uma universidade foi impecável, rigoroso e informativo. Os próprios estudantes, naturalmente informais, acataram e não se via ninguém de jeans e mangas de camisa, assim como o meu filho se veste diferentememnte ao fim de semana ou durante o trabalho, de jovem executivo de uma multinacional. Devia ser exemplo. Excepto do que disse, uma profusão confusa e incoerente de trajes académicos de todas as origens. Se virmos uma cerimónia solene inglesa ou americana, não se vê isso. Será porque em Portugal fica bem mostrar que se é doutorado no estrangeiro?

trajes

 

 

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