Trajes académicos
Toda a gente se sente um pouco mal ao escrever sobre coisas irrelevantes, até talvez um pouco ridículas para muitos leitores críticos. Por exemplo, vale a pena perder tempo com pompas e circunstâncias académicas, a começar pelos trajes? Diria que não, que se o fizer, e vou fazê-lo, estou mesmo a pedir que me considerem senil ou retrógrado. Todavia, uma pergunta de ordem prática que me fizeram ontem não é a primeira, nem de longe: o que é, em Portugal, o traje académico e como deve ser usado? E não sabemos todos como os académicos gostam do cerimonial, símbolo da vetustez saudável da sua instituição? Portanto, não é mesmo assunto sem importância e justifica que me ocupe um pouco, nem que seja por alguma dose de gozo.
Desde logo, o que quer dizer traje académico? O dos estudantes, de que não vou falar, mas outros dois que se confundem entre nós: o traje doutoral e o traje professoral. Na tradição anglo-saxónica (AS), é mais importante o primeiro, na nossa o segundo. Conhecendo mal a prática europeia continental (com excepção do traje uniforme de todas as universidades espanholas, seguindo a tradição das suas universidades medievais), começo por alguma coisa sobre a tradição anglo-saxónica, que cada vez mais é conhecida pelos nossos muitos doutorados por essas paragens.
Tipicamente, o traje AS é composto por uma beca ou toga (“gown”), sobre a qual se usa uma peça tipo capelo largo e longo caído pelas costas (“hood”) e um chapéu (“cap”), normalmente aquela coisa bizarra com uma placa quadrada no topo e um cordão pendente. Na Grã-Bretanha, a toga é mais frequentemente aberta, a deixar ver o fato e a gravata, enquanto que nos EUA é mais vulgar ver-se com o corte de beca, fechada à frente. Atente-se na definição, bem conhecida dos juristas: a beca (juízes) é abotoada à frente; a toga (advogados) é aberta, deixando ver o fato.
Nos tempos medievais, em Oxbridge (gíria para Oxford+Cambridge), usava-se só a toga e o chapéu, muito simples, pretos. Só mais tarde é que Oxford introduziu, para ocasiões solenes, a sua toga azul e vermelha. Ainda hoje, em Oxbridge, se usam ambas, a rotineira “undress gown”, preta e simples e a das ocasiões solenes, “festal gown”. Também se evoluiu para a diferenciação entre o traje académico estudantil (ou de graus pré-doutorais) e o traje doutoral.
Tipicamente, a toga doutoral é única e usada por todos os doutorados da mesma universidade, independentemente da universidade em que ensinam. Com excepção de algumas situações de “senior doctorate”, não há traje professoral, não considerando também os trajes de grande gala dos “chancellors” e outros “officers”. Aliás, é prático, atendendo à grande mobilidade universitária no mundo AS. Imagine-se estarem a comprar um traje professoral a cada contrato. Levam sempre consigo o seu traje doutoral e basta.
Nos EUA, o traje também é tipicamente doutoral, sem referência à universidade em que se ensina. A beca, normalmente fechada à frente, é geralmente preta, com três faixas coloridas nas mangas. Há algumas excepções, de becas coloridas, como a beca vermelha com faixas pretas de Harvard. Sendo a beca uniforme para todos os doutorados de uma universidade, a situação varia quanto ao capelo (“hood”). Geralmente, como na nossa antiga tradição coimbrã, o capelo pode incluir variantes, elementos coloridos que simbolizam a área científica do doutoramento. A situação portuguesa é de alguma confusão desse simbolismo de cores, depois da profusão de novas áreas depois das tradicionais de Coimbra para Direito (vermelho), Medicina (amarelo), Ciências (azul claro ou branco e azul claro para Matemática), Letras (azul escuro) e Farmácia (roxo). Nos EUA, o American Council on Education, por intermédio do Committee on Academic Costumes and Ceremonies, tem padronizado as cores disciplinares em todos os EUA.
Em Portugal, cada universidade instituiu o seu traje (alguns feíssimos!), sempre com a ambiguidade que apontei de não se saber ao certo se é um traje doutoral se um traje professoral. Até à criação das novas universidades dos anos 70, havia duas situações marcantes. Secularmente, Coimbra ditava a regra, porque única. O traje académico, simples, para professores e estudantes, era a capa e a batina. Divergiram. Desde há décadas, no meu tempo, os estudantes usam a batina aberta, vendo-se a camisa e a gravata, e enrolam a capa ou usam-na caída do ombro ou do braço. A forma tradicional, hoje mantida no traje académico professoral ou doutoral, é a batina fechada até à gola e a capa pelos ombros, caída e atada no pescoço, o que a diferencia do traje estudantil. É desconfortável e, porque em lã, penosamente quente no verão.
Em rigor, pode-se dizer que é o traje doutoral, a que qualquer doutor por Coimbra tem direito. Só não faz isto muito sentido histórico porque, até há muito pouco tempo, em Portugal, eram raros os doutores que, não sendo também professores universitários, tivessem oportunidade de usar um traje doutoral. Lembro-me de algumas provas académicas em que doutores não professores pela universidades de Coimbra ou do Porto usavam simplesmente a capa preta sobre o fato corrente. A favor do uso generalizado do traje coimbrão como traje doutoral de todas as universidades portuguesas joga o facto de os estudantes de muitas universidades, públicas e privadas, o terem adoptado como traje de praxe. Também o de ser o traje mais neutro para sobre ele realçarem as insígnias de cada universidade.
O outro traje vulgar é o das escolas do século XIX, em Lisboa e Porto, não inseridas em universidades (médico-cirúrgicas, politécnica, letras), que adoptaram um traje inspirado na beca dos juízes e com a característica de ser essencialmente um traje professoral, não doutoral. É feio, pesado, pomposo. E caro!
Criadas as Universidades de Lisboa e Porto, consagrou-se esse traje, ainda hoje em vigor e manteve-se o carácter de traje professoral, não doutoral, o que até é manifesto na diferença de categoria professoral, com o uso de alamares restrito aos professores catedráticos. No entanto, isto não é rígido. Sempre foi hábito os professores de direito da UL usarem a borla e capelo coimbrões, provavelmente por a faculdade ter sido criada de novo, com professores de Coimbra. Ainda falando de Lisboa, refira-se o traje feio, sem qualquer referência tradicional, da Universidade Técnica de Lisboa. A Universidade Nova é outro exemplo de confusão. Até há poucos anos, usava o traje da UL, depois adoptou um traje simples e elegante, uma beca preta lisa e de tecido leve, avivada com faixas de cetim, eventualmente com a insígnia, medalha pendente de fita com a cor da faculdade. No entanto, novamente, não sei se isto é traje doutoral (sem a insígnia) se professoral. É um caso muito semelhante ao da Universidade do Minho.
Coisa diferente são as insígnias, o nosso equivalente ao “hood” AS mas muito menos ostensivo. Em Coimbra, o capelo e a borla, nos Açores também uma espécie de capelo, em muitas outras universidades uma fita da cor da disciplina com a medalha universitária pendente. Parece-me que são a característica do traje professoral, usadas sobre seja qual for o traje doutoral. É isto que hoje se vê com frequência: um professor da Universidade de Lisboa a usar o traje doutoral da universidade inglesa ou americana onde se doutorou e com a fita e medalha da universidade em que é professor.
Parece-me que esta seria a regra mais simples: uso do traje doutoral da universidade portuguesa ou estrangeira em que se obteve o grau, com as insígnias da universidade de que se é professor, quando se é. No entanto, isto põe problemas estéticos e de entendimento. Estéticos: o traje de gala coimbrão é muito bonito, mas imaginemos um doutorado por Oxford, com a sua toga azul e vermelha, a usar por cima um capelo coimbrão. Ou mesmo o incrível casacão de Évora, coisa invernal, com o capelo dos Açores. Entendimento: o que é, em cada universidade, o traje simples e as insígnias? Fora Coimbra e os Açores, só conheço como insígnias a simples fita de cor de faculdade com a medalha pendente. Depois, a falta de entendimento do que é o traje doutoral. Com excepção de Coimbra (e, na prática, Lisboa e Porto) creio que não há uma outra universidade que atribua sem ambiguidade um traje aos seus doutorados, não professores.
O que proponho? Que o CRUP aprove um traje doutoral comum para todas as universidades, que proponho que seja a capa e batina coimbrãs simplificadas. Por exemplo, uma batina transformada em beca, de corte simples, de tecido leve, fechada à frente a partir do terço superior do tórax e uma capa também de tecido leve, atada ao pescoço. Para se distinguir da batina estudantil, esta beca doutoral teria duas faixas contrastantes, de cetim, à frente. Seria um traje que permitiria facilmente a adição de insígnias, quando os doutorados fossem professores universitários.
Entretanto, o que é que eu faço? Como doutor pela Universidade de Lisboa, sempre usei o seu traje, embora normalmente considerado como professoral. Eu considero-o como doutoral. Com ou sem alamares? Tendo a agregação e, por o ter comprado quando era professor catedrático, habituei-me a usá-los, bem ou mal, embora prevenindo, sempre sem sucesso, os meus amigos professores auxiliares a quem empresto o traje. Insígnias? Usei-as quando era professor da UNL, fita e medalha. Hoje sou professor da Universidade Lusófona, que tem um traje próprio, tipo toga, a que se sobrepõe, pendente do ombro esquerdo, uma faixa de veludo azul com o símbolo da universidade. Tomo isto como insígnia e é o que vou passar a usar sobre a minha beca doutoral (?) da Universidade de Lisboa. Vai ser original, mas tem graça fazer a moda!
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