| João Vasconcelos Costa 22.08.2010 | |||||
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O avô que não conheci
O meu bisavô Ávila de Vasconcelos (nomes sempre associados, nos Açores, desde há muitas gerações da minha família, mas agora perdidos) tinha uma mania detestável, a de dar aos muitos filhos o nome do santo do dia de nascimento. Assim, tive um tio avô Atanásio, mas pior dita calhou ao meu avô: Pretextato! Só vi este nome uma outra vez, no "Mau tempo no canal", para uma personagem amaricada e ridícula. Uma vez, conversando com Nemésio, humoradamente, mostrei-lhe o meu "desgosto". Ele disse-me que nunca quis identificar o meu avô, seu muito amigo mais velho, com tal personagem, mas que não tinha resistido ao exotismo do nome. Cheirava-lhe a nome de maricas, embora sabendo que o meu avô andava por outras águas. Portanto, Pretextato Ávila de Vasconcelos era o meu avô conhecido só através das histórias e da ternura e do olhar da minha avó e da minha mãe. Aliás, era só Pretextato Ávila, nome que tinha adoptado em traição à secular aliança dos dois nomes de família. Daí a pergunta frequente que me fazem, "como é que a tua mãe é Ávila e tu és Vasconcelos"? Hesitei na epígrafe: "um enorme coração" ou "um homem menino". Não são contraditórias, talvez até inseparáveis. Vejam o que escrevi sobre a infância. Uma das coisas que considero uma das minhas grandes riquezas é conseguir ver em mim muito e cada coisa do que foram as minhas raízes, com herança de todos. Acaso genético, mas talvez menos importante do que são para nós as memórias, os sentimentos, as histórias que nos são transmitidas e que refazemos, na nossa própria construção. Mais uma vez, o meu querido "Big Fish". Mas a genética nem sempre vai para onde gostamos. Uma das características do meu avô era a sua extrema generosidade, mesmo com prejuízo do seu conforto. Eu tenho uma grande dose de egocentrismo, o que descamba muitas vezes para o egoísmo. Mas as coisas nem sempre são o que parecem. Tenho um irmão que faz alguma gala (defesa dele) em se apresentar duro, cínico, desprendido. Só quem o conhece, foi o que herdou por inteiro o coração gigante do meu avô Pretextato. O avô Pretextato foi, uma vez mais, uma típica personagem terceirense, harmonizando uma vida muito caseira de amor familiar com uma vida social de generosidade para com os amigos, quase que de família, jantares e ceias de estardalhaço, que assim era a vida de então. Amigos muitos, por toda a parte. Não era difícil, na pequenez belíssima de Angra, pequenez física mas compensada pela grandeza de “mui nobre, leal e sempre constante”. Apesar dos meios do seu pai comerciante de prestígio local, bem refastelado na conta bancária, o avô Pretextato não quis estudar e acomodou-se a uma vida de funcionário, afinal bem sucedida, à boa maneira da pequenez de horizontes da terra. Este espírito reclusivo no meio e nos afectos reflectiu-se na queixa compreensiva que sempre fez a minha mãe, a de o pai Pretextato não lhe ter permitido o sonho universitário, não concebendo que a filha jovem se afastasse do ninho familiar. Terá isto, o seu enorme espírito de família, vindo de uma experiência de juventude? Como disse, não quis ir para a universidade mas o pai decidiu que então, para ir para os negócios, tinha de ir aprender com um tio, muito bem estabelecido no Brasil. Creio que foi um ano de estroina, de que eu tenho heranças mínguas mas divertidas: uma ametista para anel de bispo, se algum neto o fosse; um par de coralinas, a enfeitar hoje uns brincos bonitos; um punhal índio; mas, importantíssimo, a lição futura à minha avó de que uma feijoada se comia sempre com farinha torrada de mandioca, como sempre se fez em casa dos meus pais, quando ainda ninguém conhecia cá a feijoada à brasileira. O avô Pretextato conseguia ser uma criança grande, em bom equilíbrio com a seriedade da profissão de administrador do hospital e das responsabilidades familiares, mulher e filha para que o seu coração não chegava, de tanto que lhes queria dar, não esquecendo o apêndice familiar, o gato Farroupilha, cuja morte caquética foi grande desgosto de família. É um exemplo da sua maneira de ser. Tinha um gato siamês valioso a que nunca se afeiçoou muito (eu também detesto bichinhos anormais de raça apurada), mas encontrou um dia, vadio, o Farroupilha (que nome, só do meu avô), um gato estropiado, quase sem pescoço, de cabeça ao lado, por quem se decidiu, rifando o siamês. O avô Pretextato era ecléctico e um pouco invulgar nas suas amizades. Um seu grande amigo era o Caralta, um pobre contínuo do hospital que o avô administrava, mas que a minha mãe diz que tinha um grande carácter e sabedoria de vida e com quem o meu avô trocava experiências de memórias engraçadas ou de simples anedotas. Ao certo, só sei o que o Caralta disse à minha mãe, no funeral do meu avô, "morreu o meu segundo pai", sendo o Caralta mais velho do que o meu avô. Como eu, tantos anos depois, com um bom amigo e também homem bem notável, o motorista do meu instituto, em conversas intermináveis de engarrafamentos de auto-estrada. Amigos muitos os do avô Pretextato, como disse, mas os grandes amigos, aqueles que provavelmente o faziam sentir-se menino, eram os alunos do colégio infantil da minha mãe. Antes de ir para o hospital, assistia sempre à chegada da miudagem. Fazia-lhes partidas, inventava brincadeiras malucas que obrigavam a minha mãe a dizer “Pai, já chega, tenho que começar o trabalho”, que para a minha mãe carinho pelo pai era enorme mas trabalho era coisa muito séria. Acho que era tão marcante que os alunos da minha mãe, hoje nos setenta e sempre meus amigos por herança, tanto falam da sua educadora infantil, minha mãe, como do Sr. Pretextato. Há uns anos, indo a Coimbra a uma reunião profissional, conheci, pela primeira vez, um dos alunos dilectos da minha mãe, então médico reputado. Conversámos longamente, mas notei que, no meio de muita conversa sobre a minha mãe, vinha sempre ao José Gabriel era a memória terna do meu avô Pretextato. Entre muitas coisas, contou-me que jogavam sempre ao “balamente”, uma velha tradição açoriana provavelmente já esquecida. Na Quaresma, formam-se duplas de adversários que pontuam diariamente a prioridade em se verem os adversários e dizerem “balamente”. O avô Pretextato jogava com toda a miudagem e claro que, com ar muito pesaroso e de aparente inábil no jogo, perdia sempre e lá pagava o preço, um bom pacote de amêndoas para todos os “vencedores”, orgulhosos de terem derrotado aquele senhor respeitável. Senhor respeitável na altura, para eles, só descoberto muito mais tarde na sua imensa graça e amor pela infância pelos miúdos como o José Gabriel. Herdei esta ternura pelas crianças, o melhor do mundo, mas os tempos são outros. Amor diz-se filia, mas, salvo seja, há filias e filias. Há já algum tempo, tive uma experiência muito desagradável, que envolveu uma mãe e uma criança. Gosto imenso de crianças, acho que são do melhor que há neste mundo, talvez eu tenha muito de criança grande. Foi uma época em que eu passava o dia com a minha mãe de hospital em hospital. Num dia desses, enquanto aguardava que ela fosse submetida a um exame, estava sentado na sala de espera da pequena cirurgia. A meu lado, uma mãe jovem, com um miúdo giro de talvez dois anos, com um grande penso na testa e a chorar com a dúvida do que ia ser aquela sutura. Fui eu que fiz parar o choro: “tens um lindo doidói, mas ali dentro é que te vão pôr muito mais bonito”. “O que é que vão fazer?”. “Vão-te pôr um penso muito giro, com um adesivo com o rato Mickey”. “Como é que te chamas? Já és velho, já não tens bebés”. E por aí fora. Comecei então a compreender que a mãe estava muito incomodada e, daí a pouco, levantou-se com a criança e foi-se sentar no extremo oposto da sala. Pensei e penitenciei-me, não devia ter-me metido na conversa. Se fosse hoje, provavelmente também eu teria insistido fortemente com os meus filhos para não falarem com estranhos. Tempos novos para mim, de Casa Pia e farfalhas. Felizmente, meu avô, não os viveste e pudeste ser criança, sem suspeita de maldade, com o que o mundo melhor tem, as crianças. |