| João Vasconcelos Costa 28.05.2010 | |||||
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O meu outro sítio: |
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Luís Costa, o meu pai
Pais são todos especiais, com todo o amor de gerar posterioridade. O meu foi muito especial. Instruiu-me, deu-me conhecimento, alimentou-me as leituras, estimulou-me, deu-me muita companhia, muitas vezes muda, nas suas tarefas ou nos seus lazeres. Queria fazer-me sentir bem como a minha simples presença a seu lado era um seu prazer. O silêncio sabedor foi sempre coisa essencial na nossa relação, quando o silêncio fazia falar o amor. O silêncio das noites de pesca, em que me ensinou a beleza do preto e pouco azul marinho que te quero e da prata do céu e do mar nocturnos dos Açores. O silêncio dos passeios pela marginal, quebrado apenas por uma música subtil da sua mão no meu ßombro de criança. O silêncio era o reconhecimento de que valia a pena eu dar conta da vida, a seu lado, sem ele precisar de me dizer nada, confiante na minha reduzida argúcia de criança. Depois, dezenas de anos depois, as visitas à minha casa, tagarelice da minha mãe com a minha mulher, nós no jardim, em silêncio eloquente, como direi adiante. O silêncio amoroso que hoje tenho com o meu filho. O máximo do respeito no amor, o gozo sublime da identificação mútua, um olhar que vale por todo um texto. Mas nada disto é comparável com o de mais importante o meu pai me deu, só com o seu exemplo: a formação do carácter. Com esta referência ao carácter, passo agora a outro registo. Estes textos, sobre o meu avô e agora sobre o meu pai, têm como tema a "earnestness", coisa tão fora da cultura portuguesa e dos seus valores. É um conceito que sinto muito mas dificilmente traduzível numa só palavra, em português, mau sinal. É a composição de seriedade, dedicação, espírito de missão, sinceridade, honestidade intelectual, modéstia e aversão à pompa, tudo embrulhado em grande gosto de viver. É uma questão de carácter e nunca conheci carácter tão forte como o do meu pai. Ao falar do meu avô, referi só de raspão a sua "earnestness", que passou para filhos e netos, porque isto tem de ficar reservado para o retrato do meu pai. Luís Gonzaga de Viveiros Costa, o Sr. Luís Costa, era o seu único título, um modesto título simbólico do maior respeito na sociedade de Ponta Delgada onde ele era um Senhor. Na escala dos catorze filhos dos meus avós, estava exactamente ao meio e, no entanto, sempre foi considerado por todos os irmãos como o sucessor do meu avô como "chefe" da família. Com toda a razão. Sendo indiscutivelmente o mais brilhante de uma brilhante família de inteligência invulgar, assumiu esse papel de chefe de família com uma generosidade magnífica. Na sua juventude, passou muitas dificuldades económicas, com a insuficiência do ordenado de professor do meu avô e das suas explicações para sustentar a família. Terminado brilhantemente o liceu, abria-se-lhe o sonho de ser médico e ainda se inscreveu na universidade. Entretanto, um irmão, extremamente dotado como artista, tinha ido estudar para o continente. O meu pai adiou o seu projecto, porque compreendeu a grande qualidade do seu irmão, quase também meu pai, tal foi a amizade exemplar desses dois irmãos até ao fim da vida. Depois, mais um irmão e outro irmão a nascer, a sustentar e a educar, e foi-se o sonho. Alguns dos meus muitos tios tiveram problemas diversos na sua vida. Sempre o meu pai esteve presente, com o seu sentido de herdeiro da responsabilidade do meu avô. Duvido de que ainda haja este espírito de família, que me traz responsabilidades. Tenho hoje primos que adoram a memória do meu pai e que eu pressinto que me consideram o seu sucessor patriarcal. Isto dá-me muita responsabilidade. Com todas essas peripécias, e depois de um curso de magistério primário sem o qual eu não seria eu, porque foi onde conheceu a minha mãe, e abro parênteses, para a bonita declaração de amor do meu pai: colheu uma flor, mostrou-a à minha mãe, sua colega, e disse: "esta flor tem uma cor linda, vagamente parecida, mas obrigatoriamente distante, com a cor dos teus olhos, por que me apaixonei". iniciou um brilhante carreira de autodidacta, na construção civil. Primeiro como desenhador, depois como projectista, com grande sentido estético para a arquitectura (de quem herdei uma secreta frustração de não ter estudado para arquitecto), também uma grande capacidade para cálculo de estruturas, fruto da sua enorme intuição matemática e reconhecida por um diploma do LNEC. Esta é a vida do homem, mas não do meu pai. O meu pai era o homem que me pegava pela mão para me explicar todo o museu de Ponta Delgada e que, diante de cada quadro, de cada pássaro empalhado, de cada mineral, me apaixonou pelo milagre do universo e que me abriu a mente. O meu pai era o homem que, quando eu regressava do liceu, choroso com algum episódio, me fazia reflectir sobre a pouca importância dos pequenos episódios da nossa vida. O meu pai era o homem que me obrigava a apanhar e lançar para a sarjeta alguma casca de banana que eu encontrasse na rua. O meu pai era o homem que me obrigava a só atravessar a rua nas passadeiras. O meu pai era o homem, muito religioso, que até ao fim da sua vida me dizia que eu, não crente, tinha a salvação assegurada porque eu era o essencial para ele, ser "um homem de bem". E também era o pescador apaixonado que me levava com ele para uma noite de nem uma palavra mas de um contacto sentimental indescritível. Com tudo isto, construímos ao longo da vida uma relação muito especial. Já velho e doente, não dispensava a tarde de domingo no meu pequeno pátio, então no Estoril. A fotografia que acompanha este texto vem daí. Que maravilha de conversas! Algumas palavras trocadas, muitos sorrisos, mas, principalmente, enormes silêncios eloquentes, só a sentirmo-nos juntos. Sempre o silêncio eloquente, símbolo da nossa relação. Não há coisa mais sublime do que percebermos que, ao quebrá-lo, estamos a ir ao encontro de coisas adivinhadas. Acho que devia ficar por aqui, mas tenho de voltar à "earnestness". Não era preciso mais do que olhar para a fotografia e para a dignidade, seriedade e sabedoria que dela emana, mas vou dizer mais alguma coisa. O meu pai sempre me disse qual foi a sua experiência mais marcante da juventude, a das obras da doca de Ponta Delgada, que o ocuparam, em muito jovem, de manhã à noite. Lidou intimamente com um grande grupo de engenheiros ingleses, de quem ficou muito amigo. Daí herdei a minha "bifofilia", em todo caso muito abaixo da do meu pai. Podia dizer muito, mas resumo numa simples frase: o meu pai era um gentleman, e não posso esquecer a grande lição que me deixou impregnada, coisa óbvia para um "bifófilo", mas tão esquecida entre nós: "a tua liberdade é essencial, mas acaba onde ofenderes a liberdade dos outros". Finalmente, para amenizar, três heranças de miúdo dessa "bifofilia" do meu pai: a obrigação que me impôs de lições de inglês no 3º ciclo de ciências (hoje, muito obrigado, pai), o "porridge" de todos os pequenos almoços, e o velho arenque fumado, carrascão, com ovos estrelados (ai, que saudades!). Com tudo isto, perceberam como é que o meu pai me educou a ser "earnest"? E porque é que o meu avó José da Costa, sem o saber, também era "earnest"? |