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| João Vasconcelos Costa 10.01.2010 | |||||
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Ao estilo dos blogues, sobre o que me for saindo. Só difere dos blogues por não ter pressão de escrita. Uma vez por semana permite-me notas mais ponderadas e seleccionadas. Só o que me parecer importante sobre a sociedade, a política, a cultura, as grandes questões do nosso viver de hoje. Filosofices? |
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Gente socraticamente culta conhece as células umbilicais? |
Coisas simples Enviei hoje esta mensagem aos amigos do meu "inner circle": Uma esquadra da PSP, no programa Idosos, acompanha e garante a segurança dos velhos sozinhos. Provavelmente se passa o mesmo por todo o país, mas refiro-me a este caso por ver uma reportagem de uma meia dúzia de polícias se ter cotizado para comprar um bolo e ir cantar os parabéns a uma das suas velhinhas, que chorava convulsivamente de comoção, entre muitos beijos aos fardados. Não é preciso muito para transformar este país num país decente. Bastam muitas coisas pequenas destas. Mas também que as elites, a começar pelo governo e dirigentes, tenham a sensibilidade humana desses polícias. Admito que isto possa parecer demagogia, mas o nosso povo não merece as elites que sustenta e para cuja formação pagou bem. Respondeu-me o meu amigo José António: Meu caro, grande verdade que acabas de dizer. Respondi, e por aqui me fico: A primeira resposta à minha última mensagem. Subscrevo. A minha primeira reacção foi a de pensar "é a idade, estamos mais sábios". Felizmente, não é verdade, não é nenhum exclusivo de idade. Este meu amigo é uns anos mais novo do que eu e a sua Teresa, a que se refere, é bastante jovem, comparada comigo. Há, em todas as idades, é quem perceba a mudança e se adapte ou até a faça ainda mais avançar e os conservadores de todas as idades. Hélas, eu professor universitário conheço-os ainda tão novinhos e já tão engravatados! E o que é a mudança hoje? Pese-me ou não na memória e na vaidade das lutas antigas, já não é nada o código rígido das ideologias. É coisa muito mais flexível, neste tempo que creio ser de adivinhar uma mudança de civilização. Mas se calhar ainda valem os clássicos: "liberté, égalité, fraternité", relido hoje como "liberdade só limitada pela liberdade do outro, principalmente do outro diferente; igualdade de oportunidades e estímulo do mérito; solidariedade social". E também, se o conseguirmos ler num metadiscurso que esbata o objectivo panfletário honesto e historicamente muito importante mas agora datado, o Manifesto Comunista. Mas talvez, acima de tudo, e foi o que me impressionou na história que motivou a minha mensagem, sermos bons, a um nível muito básico. A nível superior, lermos e aprendermos alguma coisa com os mestres epicuristas e, desde logo, importante neste país, começarmos por lutar contra essa coisa horrorosa instalada que é a aceitação passiva de "não se ser sério". E a afectividade, senhores, o desejo de dizer uma graça à velhinha, de fazer uma festa à criança, de ficar a ver o amor de um casal de namorados, de deixar pingar uma lágrima perante uma cena comovente, de apetecer pagar a posta de bacalhau do velho que a vai devolver no supermercado, em dia de consoada sem dinheiro para a pagar, que bonito! No meu tempo de criança, diziam-me que é caridade cristã. Que seja, desde que os cristãos que a sentem partilhem comigo a solidariedade social não alienante porque doutrinada por muita hipocrisia da sua máquina religiosa. O acordo ortográfico Assunto que não me apetece muito discutir é o acordo ortográfico, por o debate me parecer essencialmente emotivo. Cultivando o respeito pela língua, coisa viva que me estrutura a mente, porque fiz o meu cérebro fazendo-o funcionar a pensar em português, considero a ortografia uma simples convenção. Isto vale para todas as linguagens e a mais bela construção da mente humana, E=mc2, ficaria intocável se agora decidíssemos que “igual” passa a simbolizar-se como \ e Einstein tivesse de escrever E\mc2. Porquê, então, gastar tempo meu e dos leitores com coisa para mim pouco relevante? Porque não gosto de desonestidades intelectuais e, há dias, li o último argumento usado pelos fanáticos opositores do acordo: no caso de algumas palavras exdrúxulas (aprendi este nome e não sei de modernices gramaticais), como António, vai ser facultativo os portugueses escreverem como escrevi e os brasileiros, que fecham a vogal, escreverem Antônio. Acho bizantino, preferia que ambos escrevessem Antonio, mas não posso aceitar é que um linguista português, António Emiliano, venha dizer que "posso passar a escrever o meu nome como António ou Antônio, as duas formas passam a ser oficiais. Posso até escrever António numa linha e Antônio na seguinte e ninguém pode dizer que está errado." Como este linguista não deve ser ignorante, só pode ser a tentar levar à certa. É evidente que a facultatividade não é no interior do mesmo país, muito menos no interior do mesmo texto. O critério ortográfico da etimologia, tão defendido pelos opositores do acordo, é respeitável, mas julgo que deve ser limitado pelo requisitos instrumentais da convenção ortográfica. Tenho pena de não conhecer as discussões de 1911, mas imagino como os defensores da legitimidade etimológica da ortografia devem ter barafustado contra a extinção do y, ph, das consoantes dobradas. Lembro-me de uma velha piada: "Achilles Machado é Aquiles Macado ou Achiles Machado?". Não sou especialista, mas creio que, na fixação antiga da ortografia, valeu muito mais a fonética. Provavelmente muita gente ignora hoje porque é que os “mesmos” sons se podem grafar como x ou ch, como ç ou ss, como s ou z. É que não eram os mesmos sons, como ainda hoje não são na aldeia transmontana de um amigo meu, Vale Fre”tch”oso, onde se cose a roupa mas se codze a sopa. Mas sendo isto hoje apenas um regionalismo, justifica-se martirizarmos crianças de escola e estrangeiros com estas variantes ortográficas já sem sentido? Ou então, porque é que os meus patrícios açorianos não têm direito à grafia específica dos seus fonemas típicos, o “ou” monotongal, o som intermédio entre “o” e “a” do queijo de ca/obra (também em La/ogos) e os bem diferentes “e” apical inferior ou com a língua toda recuada? E quando os italianos, uniformizando relativamente mais tarde a sua ortografia, passaram a cometer o crime de tirarem o h ao homo latino despromovendo-o a uomo, foi como se tirassem a folha de parra a Adão? Ou umilta é para disfarçar o orgulho italiano? Pior ainda é que muitos se batem por ambos os princípios, o etimológico e o fonético, numa mistura que pode ir ao limite do conservadorismo, com aspectos que até podem ir ao insulto à inteligência dos aprendizes da língua. Dizer-se, como fez um notável poeta mas mentalmente muitas vezes a léguas dessa sua notabilidade, que era essencial acentuar cágado para as crianças da escola não se confundirem, é indigência mental. Começa-se logo pelos homónimos. Alguém tem dificuldade em perceber, em qualquer texto, quando é que banco é coisa para nos sentarmos, que é coisa que nos guarda o dinheiro, mal ou bem, que é coisa que nos trata das urgências médicas ou ainda aquilo que, num computador, guarda dados? Numa coisa têm razão. Percebo agora porque é que “Britania ruled the waves”, porque é que os EUA lideram o mundo. Notem que são os mais inteligentes do mundo, revelam-se logo em crianças, capazes de aprender uma língua sem acentos e outros sinais diacríticos. Vendo bem, esta dos acentos é interessante. Fiz um teste e verifiquei que, nas línguas latinas mais conhecidas, essa frequência, crescente, corresponde à ordenação italiano, francês, castelhano, português. Em vez de os nossos filósofos da angústia ou tragédia ou destino de se ser português se esmifrarem em elucubrações, limitem-se a proporem o fim dos acentos. E julgam que é coisa menor, em tempos de tecnologia em que “time is money”? Teclei este texto, “Não é João nem Joaquim quem quer que assim se chame de facto ou assim foi baptizado mas efectivamente quem se dá à atenção de chamada por esse nome. Óptimo é escolher-se designação baptismal como facto para a vida mas se tal acto não é possível, não virá daí grande prejuízo.” Demorou 100 segundos. Teclei depois esta versão “Nao e Joao nem Joacim cem cer ce asim se xame de fato ou asim foi batizado mas efetivamente cem se da a atensao de xamada por esse nome. Otimo e escolherse designasao batismal como fato para a vida mas se tal ato nao e possível, nao vira dai grande prejuizo.” Demorou 85 segundos. Ganho modesto, é facto, só 15%. Mas já pensaram o que é um ganho de 15% da nossa produtividade? É coisa muito estranha, esta grafia biunívoca? Não será tanto como “escola politécnica de física e de química” para quem escrevia “escola polytechnica de physica e de chimica”? “I rest my case”. P. S. (7.1.2010) - Alguns leitores manifestaram-me estranheza por alguma ligeireza ou coisas equivalentes deste texto. Admito que fiz uma coisa perigosa, misturar no mesmo discurso raciocínios sérios e algumas "boutades" provocadoras, para contrapor ao iracionalismo de muitas discussões. Fica tudo um pouco desconexo e ambíguo. Para dar um exemplo, óbvio, é claro que não advogo uma ortografia do tipo daquela, brincalhona, que me poupava 15% de teclagem. Mas já a minha opinião de que temos excesso de acentos, a meu ver supérfluos, mantenho-a. Por exemplo, este "por": alguém precisa do acento circunflexo para perceber, no contexto da frase, que o verbo "pôr" não é essa preposição? A paixão pelo cinema Há quem me critique, admito que com razão, por muitas vezes eu escrever “ad hominem”. Não creio que seja grande culpa, quando o destacarmos o homem, como exemplo, simplifica e exprime com ênfase o discurso crítico ou valorativo abstracto. Hoje, vem à baila coisa menor, o que eu estava a ver na SIC-N. O canal tem dois programas de cinema. Um é de João Lopes, crítico sério de quem discordo por vezes, mas a quem atribuo todos os requisitos para se intitular um homem do cinema. Depois, há o palhaço. Chama-se Mário Augusto, diz já ter entrevistado milhares de estrelas, tem um ar de sabujice veneradora nessas tais entrevistas, misturado com a patetice de um óbvio contentamento pelo contacto entrevisteiro-cachet com as estrelas. Diz “eu adoro cinema e gosto de partilhar esta paixão”. É tudo, não há a recomendação de um filme, a notícia das tendências do cinema, a chamada de atenção para o que por aí ainda vai lutando contra a Lusomundo/Warner. Nada para além das fofoquices. E não será que ele vê cinema a comer pipocas? Já que é tudo o grupo Impresa (lembrando o cinema, o "charme discreto da burguesia" balsemânica dá para tudo), e recordando que lá escrevia em velhos tempos Jorge Leitão Ramos, João Lopes fala na SIC-N a nível do Expresso e Mário Augusto ao nível da Caras. O problema é a SIC-N ser a mistura de ambos, mais a exibição tristemente circense de personagens que os amigos deviam impedir de aparecer em público, como o guru Medina Carreira. Será que já é de bom gosto assistir à exibição da senilidade? O tempora, o mores! Porque não sou político? Hoje vou falar um pouco de amigos próximos, “amigos do peito”, desculpem a deselegância da personalização mesmo que sem identificações. Pior seria se falasse de mim. É que, com o correr dos anos, vou tendo a ilusão de que alguma coisa na vida quase anónima de homens de qualidade que todos temos como amigos pode ser instrutiva. Por exemplo, a pergunta em epígrafe: porque não sou político? Isto é, porque não desempenho ou desempenhei cargos políticos? É pergunta alguns amigos meus se podem pôr a si próprios, com razão. A resposta mais honesta de qualquer desses meus amigos é que, provavelmente, nunca mereceram que os convidassem para os exercer. No entanto, talvez não seja a mais exacta, porque a questão tem duas abordagens. A tal resposta correcta, em relação a um independente, pode bem ser essa, mas também outra, ainda na mesma abordagem, se ele tiver a imodéstia de pensar que teve qualificações para alguns cargos mesmo que modestinhos. É que ele e muitos outros nunca foram independentes com a necessária dose “quantum satis” de dependência (pronto, não quero ser mau, chamo antes proximidade ou simpatia) que faz o independente de serviço. A outra abordagem, muito mais realista e sem deixar lugar a juízos de valor, é que nunca exerceram cargos políticos porque nunca fizeram carreira política. Aqui sim, também eu posso falar à vontade, não tem nada de mérito, é só uma opção pessoal. É pensar que quatro anos de afastamento da actividade profissional, com actualização obrigatória de leituras diárias e de contactos internacionais, destruiriam essa carreira e aprisionariam a uma carreira política. Política para o meu “pessoal do peito”, vício dos anos 60, era paixão, desinteresse, nunca uma profissão. Além do mais, há quem se tenha apercebido que estar num parlamento seria um sofrimento. Confrange principalmente o estilo, o espectáculo circense, o gosto pela rasteira e pela canelada. Como melhor exemplo, o aparte. Já percebem agora a que propósito vem esta nota, depois do lamentável episódio, para ambas as partes e para o nosso sistema parlamentar, da peixeirada na comissão da saúde. Se fosse convidado para deputado, era coisa em que pensaria. Eu serei capaz de manter compostura se, ao expor uma ideia, argumentar a seu favor ou criticar qualquer coisa com que não concordo, for sujeito a dichotes imbecis, a perturbações espertinhas da minha atenção ao raciocínio? Lembrar-me-ia da fama fácil conquistada pelo conde de Abranhos por uma sua primeira intervenção na câmara, uma pilhéria com muita graça. E quantos deputados desta nossa república ganharam fama de deputados muito inteligentes pelo humor (?) e acutilância dos seus apartes, sem que haja memória de propostas suas ou intervenções de fundo? E quantas vezes ouço argumentações que ofendem grosseiramente a lógica elementar até dos silogismos que aprendi no liceu - para já não falar na lógica dialéctica? Neste recente episódio triste, assinalei que o deputado do PS se defendeu principalmente com o argumento de que o aparte está na natureza do trabalho parlamentar. Deve-se distinguir trabalho em plenário e em comissão. Já fui a reuniões de comissões e nunca ouvi um aparte. E, no plenário, será costume parlamentar geral ou coisa “tuga”? Não tenho muita experiência de acompanhamento de sessões parlamentares no estrangeiro, mas nas que vi, principalmente na televisão, não me lembro de grande frequência de apartes. Mais, e é diferença essencial, quando os ouço, são provocações sérias à discussão, chamadas de atenção em relação à falta de rigor de um facto ou argumento. Não são a tristeza sem graça e sem inteligência do que ouvimos como ruído de fundo, pimbismo de feira de província, do nosso parlamento. Nota adicional - Num registo um pouco diferente, não “humorístico” mas igualmente lamentável, começa a dar nas vistas o discurso oco, pomposo e pretensamente articulado do vice-líder da bancada do PS. Como sou muito bairrista, custa-me ver esse estilo destacado também por associação com o meu querido sotaque micaelense. Mediacracia Mais valia eu ter sempre a televisão desligada, ouvir os meus CD de estimação. Estou a ver uma pessoa por quem tenho apreço, apesar de estarmos em antípodas. Dou por ele agora como comentador residente da SIC Notícias, num programa de debate. Este tipo de programas opina sobre tudo, sobre política, economia, questões sociais. Qual é a autoridade dos membros desses painéis? Sabem mais de política do que eu, melhor, de ciência política, porque opinião política pessoal não é matéria de comunicação social? Sabem de economia, quando não são sequer licenciados em economia? Sobre questões sociais, a mundivisão, a perspectiva do mundo? Precisam de mais protagonismo do que aquele que merecidamente têm, no seu trabalho e intervenção especializada? Há-de chegar a uma idade, como a minha, em que é preciso exercitar alguma gentileza na recusa de convites para intervenção mediática, muito mais quando são para intervenção no segundo balcão. Ainda há dias me aconteceu isto, recusar e depois ver o programa, com tanta gente empertigada no segundo balcão. Respondi o suficiente para crer que a apresentadora nunca mais me convidará. E eu ralado, só com pena do bom cachet que ela paga, como em qualquer programa internacional do género... Mas é o panorama da nossa “cultura mediática”. O que interessa, primeiríssimamente, é que a personagem seja mediática. Porque é famoso, porque aparece na TV, porque está na mailing list dos notáveis, porque tem um contrato esquisito de comentador num jornal de impacto, sabe-se lá porquê, porque anda no circuito das citações em ciclo vicioso de tudo o que é célebre, "io te do un capello a te, tu me das un capello a me", ou "I scratch your back while you scratch my back", porque sei lá que mais, porque tudo isto é podre e medíocre. Sei lá que mais, sim, sei que é porque um barbeiro de aldeia ouviu dizer que lá em Lisboa há um rapaz muito brilhante, o Pacheco (não é piada…). Ah, meu velho patrício açoriano, de teu nome Fradique! (Reeditado) Porcariofilia
"O Primeiro-Ministro foi escutado sem respeito pelas leis vigentes." Não me parece que seja verdade. Pelo menos se exercer algum bom senso em relaçãàs opiniões jurídicas que vou lendo, eu que não sou jurista. Se eu for escutado com todos os fundamentos legais, é indiferente quem é o meu interlocutor, porque obviamente que o juiz que validou a escuta a mim não pode adivinhar com quem eu vou falar e está interessado é no que eu digo. Outra coisa é aquilo que o meu interlocutor me disse e, se for PM, poder ou não ser usado contra ele. É a tal questão das certidões, que têm de ser validadas de novo, agora por envolverem o PM e portanto passando para a alçada do presidente do STJ. Mas é evidente que o PM foi apanhado imprevisivelmente em escutas perfeitamente legais, decididas em relação a Vara. Chegaríamos ao absurdo de um suspeito, sob escuta, conseguir falar com o PM para que toda a escuta fosse nula. E também o que aconteceria se, por absurdo, nessa escuta a Vara, Sócrates confessasse explicitamente um crime, crime mesmo do tipo roubo ou suborno? Nada aconteceria? Estou a escrever isto com o que me parece ser sólido bom senso, com total ignorância do Direito. O formalismo legal não pode ser imperativo absoluto e definitivo. Um caso aberrante de cumprimento da lei com prejuízo da justiça, da moral consensual, da valorização da ética democrática, deve é obrigar à revisão urgente da lei. Eu não tenho nada de saber o que os amigos Sócrates e Vara conversam sobre coisas íntimas e pessoais. Mas eu, cidadão contribuinte, tenho todo o direito de saber o que eles conversam sobre coisas da governação, da política e dos negócios, TVI ou seja o que for de negociatas entre essa cambada de potenciais vírus da nossa democracia. Talvez eu esteja a exagerar, mas confesso que estou com medo pelo futuro da nossa democracia. Ainda só não consigo adivinhar quem será o nosso Berlusconi, mas candidatos não faltam. E com o silêncio provavelmente bem intencionado, mas lá por isto não menos prejudicial, do "supremo magistrado". De qualquer forma, tudo isto me parece um formalismo. Estou certo de que, mais dia menos dia, talvez já nos semanários daqui a dois dias, toda a conversa entre Vara e Sócrates vai aparecer nos jornais. Nessa altura, o problema passa a ser político. E, novamente, como nos seus muitos casos, Cova da Beira, engenharia Independente, projectos foleiros assinados por conta de outros, Freeport, apartamentos de família, coisas em que provavelmente não tem culpas de ilegalidade, Sócrates não perceberá que à mulher de César não basta ser honesta. Não perceberá que, no meio de tanta porcaria que tem deixado crescer à sua volta, só lhe resta limpar-se publicamente, com coragem e frontalidade, ou demitir-se, porque Portugal não pode ficar refém de tão duvidosa personagem. Já começa a ser demais. Ninguém pode acusar Sócrates de qualquer ilegalidade. Mas começa a ser demais a quantidade de casos pelo menos pouco limpos e pouco sérios em que tem estado metido, directamente ou por intermédio de amigos, familiares e colaboradores. Só para dar o exemplo mais flagrante, a sua licenciatura é perfeitamente legal, mas também é exemplo de um carácter pouco exigente em rigor intelectual e ética de trabalho. Não me basta um PM que nunca ofenda a lei. Quero um PM que seja exemplo indiscutível de pessoa séria e de elevação de carácter. Quero uma pessoa até normal, como qualquer dos meus amigos que não tem uma coisa a dizer-se-lhe nas fofocas do café da esquina. Talvez Sócrates seja um azarado, mas não há dúvida de que já há muita coisa de suspeita de porcaria para uma só pessoa. Eu não o incluiria no meu “inner circle”, de gente muito diversa mas “band of brothers” na verticalidade. Eu não queria ser PS com dever "aparatchik" de o defender “à outrance”, com o rigor intelectual de um académico tão ilustre como Santos Silva, o homem que falava sempre nos distantes Estados Gerais com aquela subtileza portuense de quem está mesmo a dizer “olhem que eu quero ser ministro, o governo não pode ser só desses tipos de Lisboa”. Bem me lembro, nunca mais consegui suportar a criatura, com quem até nunca falei. Não conheço ninguém que se compare ao porcaria-atraente Sócrates, a não ser o Pig Pen dos inesquecíveis Peanuts. O muro, a mescla dos 27 e as culpas dos povos Caiu o muro de Berlim há vinte anos, toda a gente sabe, nem que seja por ter sido hoje manancial rememorativo de televisões e blogues (...). Chega de muro, não tenho nada a acrescentar. Aproveito é para chamar à colação algum olhar atento para um artigo que me caiu sob olhos por alerta do J. M. Correia Pinto. Intitula-se “Memoria tapa memoria” e é escrito por Jorge Martínez Reverte (JMR), um reputado escritor e jornalista espanhol bem conhecido pelos seus desassombrados escritos sobre a Guerra Civil, contra as tentativas de silenciamento das culpas de tantos hoje instalados. E é sobre esta questão da culpa que ele escreve este excelente artigo. Isto não é gente de bem Podem não ser criminosos, Varas, Penedos e outros que tais, políticos que ameaçam a nossa democracia. Mas certamente, se pensarmos que imoral não é igual a ilegal, não são gente de bem. Como os que se lhes parecem como pães da mesma fornada, Sócrates incluído. "Face oculta". Que se pode dizer mais? Talvez duas notas, relacionadas na pequenez das personagens e comportamentos. Primeiro, como se fazem carreiras políticas? No meu tempo de jovem, “contra-faziam-se”, porque tudo o que de política fosse e que não fosse na órbita do regime era desafiar qualquer perspectiva de carreira. Depois, a seguir à Revolução, uma grande ambiguidade e diferença de gerações: os “puros” que vinham de antes e que, patetamente, julgaram que ainda por muitos anos transportariam a lanterna da pureza democrática e progressista; e logo os oportunistas mais velhos, da mesma geração - nem vou falar deles, já não contam, na sua actual terceira idade - e, principalmente os super-oportunistas jovens, os jotas. Os jotas fizeram grandes estudos políticos. Colaram cartazes, animaram cervejadamente as sedes, berraram slogans nos comícios, agitaram bandeiras e organizaram arruadas. Veio-me agora à cabeça, entre parênteses, a indignação de um jovem deputado que conheci há mais de dez anos quando lhe perguntei se era deputado indigitado pela sua jota. Fui injusto. Hoje, é um deputado brilhante, agora a nível europeu, embora nos antípodas da minha posição. Ainda não percebi se os jotas são inteligentemente pacientes ou se apenas surfam. Quero dizer que os mais sucedidos são os que têm paciência para gerir bem o seu tempo, adaptarem-se a cada momento ao seu terreno de apoio, ganhar tempo, com paciência. Primeiro, ganhar na jota, tanto melhor se também, ao mesmo tempo, com uma perninha de assessor, aprendiz ou simples campanha-man em autarquia, seja em Trás-os-Montes varense seja na Cova da Beira socrática. Tanto melhor se com ajuda carinhosa de mais velho. Estou a lembrar-me da história do António Garotinho, governador carioca, com este encosto ao velho Brizola. Fica para contar de outra vez. Com muito trabalho jotinha, mas grande investimento, descuraram os estudos, a formação cultural. Ou nem concluiram a licenciatura e hoje sofrem por serem o senhor presidente fulano, sem doutor - e há um - ou levaram a bom fim a sua chico-esperteza, singraram por universidades michuruncas com professores e examinadores deles dependentes politicamente. Comum a todos os jotas, tudo isto num galope de actividade política frenética, sem uma única actividade de vida realmente vivida, profissional, cívica, essas banalidades desprezíveis para quem anda entre o Rato e S. Bento ou entre a Lapa e o dito santo, essas banalidades que qualquer pessoa de bem sabe que são o suporte da experiência, da sabedoria, do conhecimento da vida, da confrontação dos valores com a prática. Estes carreiristas medíocres da política são hoje as luzes da nossa democracia, tenham ido para administradores de bancos ou para primeiro ministro. Estes carreiristas medíocres da política vão dar cabo dos sonhos da nossa democracia, dos quase esquecidos suspiros de Abril. O Zé não os tolera. Claro que o Zé não conta, só rosna, mas lavra o terreno para coisas perigosas, o Zé que permitiu o filho Miguel de Carlota Joaquina (talvez também de D. João VI), João Franco, Sidónio, que se reviu no bom pai Salazar, que até lhe dava sovas de cinto, como o bom pai do interior ainda hoje acha que só faz bem aos filhos. Depois, mais à moderna e multinacional, os mais jovens, mais articulados e melhor educados, com o seu estilo de executivos potenciais, não aceitam ser ultrapassados por essa canalha toscamente tuga, que só fala portunhol ou inglês técnico e que nunca leu o NYT. Também as corporações virtuosas (juizes, militares) estão à espreita de uma oportunidade de afirmação das “mãos limpas”. Pensando nesta dos juízes de mãos limpas, lembro-me de Itália. Aguentou dezenas de anos de “compromisso”, afinal, como cá, um pântano podre, centrão, de corrupção política, carreirismo, mediocridade do sistema político. Rebentou, explodiram os suportes do regime, DC, PS (Craxi!), PCI. Mas o que resultou? Berlusconi! Entretanto, palavra puxa palavra, afastei-me daquilo que pode justificar alguma originalidade desta nota, uma mexer na bosta que ainda não vi. É que esta gente é mesquinha, medíocre, faz-me pensar, de forma execravelmente elitista, que quem nasce ao estilo das berças dificilmente se faz ao estilo de Londres. A crer nas notícias, o Sr. Vara, ao suspender-se, perde cerca de 30000 euros por mês. É obra, como fim de vida de um obscuro funcionário bancário transmontano. Fim de vida? Qual quê, acho que ele está nos princípios dos seus 50s, que futuro radioso tem pela frente! Mas vamos aos 30000. Se é verdade, não posso acreditar no que se diz, que ele se deixou corromper por 10000, quando todos os parceiros da história não se ficaram por menos de Mercedes topo de gama. Não pode ser verdade que um ex-ministro, um administrador bancário nomeado pelo seu amigo Sócrates, se corrompa por uma imperial e um prato de amendoins. Mas também não é verdade que Melancia ofendeu gravemente os chineses ao corromper-se por 50000 contos quando estava em causa um aeroporto de muitos milhões? Em conclusão: roubem, façam pela vida, ganhem dinheiro para comprarem beluga que não distinguem de ovas dinamarquesas, corrompam-se, mas ao menos, por favor, façam isso com classe. Cavaco está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? “O PR não é responsável pelos actos dos membros da presidência, só se reflecte nas declarações dos chefes das casas civil e militar”. Quem é que sabe isto, que CS só diz hoje, sem nunca ter esclarecido que não são fidedignas as chamadas “fontes de Belém”? CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? “A leitura que CS faz das declarações dos deputados do PS, no verão de 2009, é de que era uma tentativa de o envolver na campanha e de o encostar ao PSD. Mas pergunta-se como é que esses deputados sabiam do que se passava em Belém”. Outra vez a insinuação das escutas, mas que afinal já data de há ano e meio, muito antes dessa coisa dos assessores de Belém estarem a colaborar com o PSD. CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? “O PR nunca teve conhecimento da actuação de Fernando Lima, nunca ninguém lhe falou disto. E alguém (quem?) lhe garantiu que Fernando Lima nunca piou”. CS não sabe o que faz o seu principal homem de confiança? E são outros que têm que lhe garantir que ele não fez nada, não o próprio, que nunca abriu a boca nestes tempos de brasa? CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? “E qual é o crime de Fernando Lima, ao alertar para um problema importante de segurança?”. Mas quem fala em crime? Já Talleyrand dizia que, em política, um erro é pior do que um crime. E se Fernando Lima é um anjinho, porque foi removido da assessoria da comunicação social? Mas também porque ficou na casa civil, não se sabe em que funções? CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? “O PR tem dúvidas sobre a questão do mail publicado pelo DN”. Tem dúvidas sobre a veracidade do mail? Ou tem dúvidas sobre a fonte da passagem para o DN? Se é isto, também eu, bem queria ele saber quem foi o jornalista do Público que fez de garganta funda e o lixou. E também ao chefe manobrador, José Manuel Fernandes. CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? Depois a coisa de ópera bufa da viagem à Madeira, de quem se senta à mesa ou não, coisa importantíssima para entrar numa declaração presidencial solene ao país. CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? Eu não gosto que me tomem por estúpido, chateia-me, pá, lá dizia o almirante. Mas também não foi só CS. Logo a seguir, na SIC, veio o cada vez mais inefável Ricardo Costa manipular escandalosamente a declaração presidencial, branqueando o homem. E digo o homem porque devemos respeito ao PR, mas CS, como pessoa, hoje manchou hoje a imagem que construiu laboriosamente ao longo dos anos. E voltei a ver agora uma jornalista a observar há dias a CS que “a história partiu de Belém” e ele a retorquir “a senhora não é ingénua e eu também não”. O que é que hoje, na declaração presidencial, ilumina minimamente esta alusão sibilina do PR? Depois, também gozaram comigo todos os partidos, excepto o PS, que se agarraram a uma pequena passagem da declaração, sobre alegadas vulnerabilidades do sistema informático da PR. “Será possível alguém entrar no meu mail?”, CS dixit. Espantoso! Alguém imagina o que isto significa, como coisa elementar da tecnologia informática de um órgão de soberania. Que vergonha, e no entanto toda a gente está a falar disto com a maior das naturalidades. E no meio de tanta confusão, vou ter de acreditar nesta novidade? Se for verdade, emigro já, com vergonha de alguém saber que sou português. Claro que os partidos sabem isto, ao fazerem estas declarações piedosamente preocupadas. Pelos vistos, nesta fase crítica de negociações para a formação do governo, ninguém quer afrontar CS. Os partidos estão a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? Chateia-me, pá. Honra ao PS, o último a falar, há pouco, pela voz de Pedro Silva Pereira: “O PR não substanciou nenhuma suspeita, a suspeita nunca passou de uma invenção e foi uma manipulação lamentável para o prestígio das instituições”. As coisas estão cada vez mais difíceis entre S. Bento e Belém. Se o povo português não fosse curto de memória, CS nem se candidataria a um novo mandato. Mas não digo nada, porque toda a gente está a gozar comigo. Custa muito o arrependimento? Saíu com grande publicidade mais um semi-histórico do PCP (semi-histórico quer dizer quadro destacado mas, ao que sei, principalmente no pós-25 de Abril, não os históricos da geração do CC da clandestinidade). Foi Domingos Lopes, homem estimável, inteligente e culto, sempre prazenteiro, hoje advogado, curso que concluiu muitos anos depois de o ter abandonado em favor da actividade política profissional e que lhe permite, meritória e felizmente para ele, a independência económica que não tinha antes em relação ao PCP. Ouvi as suas razões. Requentadamente, a ideia de que o PCP já não corresponde às possíveis (?) perspectivas revolucionárias no mundo de hoje. Mas, principalmente, as razões partidário-familiares, as que tendem a determinar estas decisões, as que dizem respeito às normas internas do PCP, à sua não democraticidade, como se isto fosse coisa que interesse ao não-militante (a não ser por darem uma ideia do que seria o comportamento do PCP no poder). Com excepção de alguma teorização menos caseira na cisão do grupo dos 9, o resto tem sido muito centrado nesta discussão familiar, até com muito de psicanalítico, pensando em Cunhal-pai. Foi assim com Zita Seabra (o caso mais primário mas talvez o mais sincero e menos hipócrita, PCPmente hipócrita, com salto brusco para o PSD), com os dissidentes a seguir ao golpe de Moscovo de 1991, com Carlos Brito e os seus companheiros, será ainda com alguns que não percebo bem onde estão, se dentro se fora. A diferença em relação a Domingos Lopes é que, ao que me lembro, é o primeiro a pôr o dedo na ferida do pior mal da concepção leninista do partido revolucionário: o funcionário político profissional, tipicamente um burocrata cinzento, sabujamente obediente em relação aos chefes, arrogantemente controleiro (é o termo consagrado) em relação aos militantes de base. Por isto, Domingos Lopes tem razão ao afirmar que os militantes eram muito mais livres e dotados de iniciativa na clandestinidade, antes de se ter construído, depois do 25 de Abril, todo um imenso aparelho de funcionalismo no PCP. O que Domingos Lopes não diz é que ele próprio foi funcionário durante largos anos. O que ele não diz é se teve ou não consciência desse vício leninista na sua prática de funcionário e se tomou alguma atitude. O que ele não diz agora é esta coisa muito simples: “cometi os mesmos erros, depois reflecti sobre eles, hoje estou arrependido”. Não é só ele. Não me lembro de algum dissidente do PCP, a partir dos anos 80, que tivesse tido essa atitude. No PCP, nunca viram, nunca ouviram, claro que nunca falaram, mas nunca por sua responsabilidade, sempre por culpa do PCP, mormente de Cunhal - e não estou a desculpar uma figura por quem tenho o máximo grau de “mixed feelings”. Miraculosamente, por razões as mais variadas, até de ordem profissional e de posição na vida social, acordam para o momento decisivo mas não conseguem assumir, talvez por não haver nada a assumir, uma rotura ideológica e filosófica, nem sequer os erros próprios e a co-responsabilidade pelos vícios domésticos que eram muito da direcção mas impossíveis sem a submissão cúmplice dos funcionários. Admitam essa cumplicidade e valerão como homens íntegros e de carácter, afinal como verdadeiros revolucionários. P. S. - É óbvio que estou a ser reducionista. Há dissidentes de muitos tipos. Há os que nada beneficiaram com isso, tantos que hoje são dignos profissionais respeitados mas relativamente anónimos; há quadros do PCP importantes que estão na penumbra (Carlos Brito, Raimundo Narciso e outros); há o académico de serviço de Sócrates; há os que tiveram imediatamente lugares de administração e acabando um no actual governo; há o cardeal iberdrólico, etc. P. S. (17.9.2009) - Ver sobre este assunto um comentário bem esclarecedor no Incursões. Foi difícil ser-se de esquerda
Mas a Checoslováquia vinha-nos pela sua própria televisão, pelos seus jornais, pelos documentos oficiais do seu partido governante. Nenhuma razão para dúvidas. Com tudo isto, Dubcek foi meu herói durante meses, simbolizou a minha esperança no socialismo de rosto humano que eu e muitos amigos já discutíamos com base nas leituras de Gramsci e de Lucacks, também do romantismo bonito (depois relativamente defraudado) da revolução cubana. 21 de Agosto de 1968, o dia da invasão pelos tanques soviéticos e dos acólitos do pacto de Varsóvia, foi um dia de pesadelo para muitos de nós. Como foi possível? Depois, como foi possível o PCP mudar a sua atitude anterior de alguma expectativa para a aprovação incondicional da invasão? Ou como foi possível Fidel fazer o mesmo? Seis anos depois, ao retomar a actividade partidária (actividade política mantive sempre) foi com o compromisso a alto nível de que a missão revolucionária depois do 25 de Abril exigia a participação de todos, mas que ficava prometida a discussão aberta e internamente democrática da primavera de Praga. Viu-se, como se viu a promessa que também me fizeram de autocrítica do verão de 75. Por isto, não precisei de perestroikas e golpes de Moscovo para dizer adeus, definitivo. Vem a propósito uma observação tocante que ouvi há dias a uma pessoa que até não anda pelos meus quadrantes ideológicos. Falando-se de alguém à esquerda, essa pessoa, conservadora, observou que esse alguém não lhe causava simpatia política mas que ela achava que era um homem bom e que isto era muito mais importante. Estou convencido de que Dubcek também era um homem bom. Nota - De facto, a invasão foi ao fim da noite de 20 de Agosto, mas o que ficou na memória foi a entrada dos tanques em Praga, no dia 21. É difícil ser-se de esquerda Há muitas razões para ser difícil ser-se hoje genuinamente de esquerda. Não rende. Já dá uns bons lugares políticos, mas comezinhos, sem perspectivas de passagem para administração de empresas (até se ver). Dá muito trabalho, para não se ser confundido (como dizia um meu filho, há 20 anos, “em tempo de perestroika, o que mais há por cá são pré-históricos”). Depois, “last but not the least”, machuca qualquer susceptibilidade porventura exagerada de racionalidade, objectividade, saudade dos velhos gregos (e até, quem diria, de Tomás de Aquino). Propositadamente, não vou usar um discurso oficial como objecto de crítica. Vou aproveitar um de muitos comentários nos jornais online, porque é coisa ignara e que me permite responder com conhecimento de causa. Além do mais, é coisa bem elaborada, aparentemente fundamentada, nada de delírios que qualquer zé detecta. Parece-me ter óbvia origem na esquerda pura e dura. Ninguém imagina que seja um neo-socrático ou um bloquista central a escrever isto. Vou responder como advogado do diabo, partido entre a minha solidariedade de esquerda, em termos gerais, e o meu rigor intelectual e a minha mentalidade científica. Afinal, o que me atraiu em jovem no marxismo, em boa parte, não foi o “socialismo científico”? Vamos a dissecar o tal escrito, coisa a coisa. E nem sequer me vou irritar com coisa para mim insuportável, a arrogância de pessoas “que sabem coisas”. Lembram-se, genial Solnado, “pois!, dizia a minha irmã, que sabe coisas”. “A cada ano morrem milhões de pessoas vitimas da Malária que se podia prevenir com um simples mosquiteiro.” Meia verdade, embora não negue o que tem de dramático. O plural é traiçoeiro. Milhões, neste caso, são dois milhões, o que é impressionante, mas que é desonestidade intelectual quando, numa discussão, se refere a ordem e não as unidades. Depois, claro que não basta nada um simples mosquiteiro, é preciso muito mais, saneamento, erradicação dos mosquitos, novos medicamentos a compensar as resistências frequentes, preparação de uma vacina. E já que este escriba gosta de conspirações, chamo a atenção para que o combate à malária é do interesse das multinacionais. É condição para a enorme possibilidade de turismo, para defesa dos técnicos e trabalhadores da extracção de petróleo, para militares em bases nos trópicos. E quem é que mais está a financiar o combate à malária? A Fundação Bill Gates! Como é que esse comentador não aproveitou este tema? “No mundo, por ano morrem 2 milhões de crianças com diarreia que se poderia evitar com um simples soro que custa 25 cêntimos.” Não é verdade. Morrem cerca de 800.000, admito que um número à mesma muito impressionante. Mas nada se resolveria com um frasco de soro. Em África, onde há maior incidência de diarreias a rotavírus, são precisos muitos frascos de soro por doente, transportá-los, armazená-los em boas condições, ter enfermeiros para saberem administrá-los por canulação intravenosa. “Sarampo, pneumonia e enfermidades curáveis com vacinas baratas, provocam a morte de 10 milhões de pessoas a cada ano. Os noticiários disto nada falam!” Claro que não, e bem, porque isto é uma total inverdade. O total de casos mortais de sarampo em todo o mundo, desde a vacinação, anda por menos de 200.000 e para a pneumonia as vacinas contra os pneumococos e o Hemophilus reduziram o número de casos a dezenas de milhar. “Então, porque se armou tanto escândalo com a gripe das aves? Porque atrás desses frangos havia um "galo", um galo de crista grande. A farmacêutica transnacional Roche com o seu Tamiflu.” Já cá faltava! O oseltamivir (Tamiflu©) nunca foi indicado como medicamento para a gripe aviária H5N1, por inconclusividade dos ensaios terapêuticos. Foi usado em casos humanos, mas “just in case”. Acho que chega, senão os meus amigos começam a desconfiar da minha sanidade mental, ao gastar cera com tão ruins defuntos. Com isto, apetecia-me discorrer sobre o acrescento de qualidade e racionalidade à democracia que é a “política deliberativa”. Não tenho tempo nem capacidade, recomendo a leitura de Habermas. E sem cedência à acusação de elitismo. Igualdade é um valor estrutural da minha construção ideológica, mas não a inexistente igualdade real, antes a igualdade de oportunidades. P. S. - Espero que não se suspeite de que estou a olhar com mais simpatia para outra esquerda. É que já tanto escrevi sobre Sócrates que já me enjoa. Parto do princípio de que é um homem honesto. Mas será um homem sério? Sobre a sua habilidadezinha parlamentar gouvarinhenta, a sua ligeireza de estudante universitário, a sua flexibilidade deontológica e bom gosto nas suas casas da Guarda, o Magalhães, o relatório da OCDE sobre a educação, vou ali e já volto. Vou gritar ao vento que “à mulher de César…” P. S. (2.8.09) - Verifiquei hoje que esse tal comentário anónimo na página online do Público é uma transcrição de um mail que circula por toda a net, muito mais extenso e principalmente sobre a conspiração da pandemia da gripe. É apresentado, com endereço de e-mail e tudo, como sendo da autoria de uma investigadora portuguesa que muito considero, a Prof. Isabel Portugal, da Faculdade de Farmácia da U. Lisboa. Já lhe dei notícia deste abuso. A net é um pau de dois bicos, dá-nos acesso a fontes de informação que não imaginávamos há uma dúzia de anos mas também é veículo das mais abomináveis desinformações e manipulações da opinião. Eu defendo-me como posso: regularmente, entro o meu nome numa pesquisa do Google, para ver se há alguém a abusar da minha credibilidade. Os manifestos Estão na moda os manifestos. Primeiro o dos economistas da direita fina, com alguns PS a disfarçar. Em resposta, os economistas de uma esquerda que ainda vai merecendo o nome, entre outros os economistas que escrevem o "Ladrões de bicicletas". Depois, o manifesto mais estranho, de gente ligada a lugares de gestão de empresas dependentes do governo. Lançado ontem, outro manifesto, o da Renovação Comunista, que ainda não consegui encontrar “online”. Não tenho nada contra estas iniciativas, muito pelo contrário, como expressão da sociedade civil, em tempos em que a partidocracia medíocre (isto é, a aparelhocracia) cada vez mais talha e azeda a nata da democracia. Quando muito, posso lamentar que todos esses manifestos sejam claramente identificáveis com pessoas, correntes de opinião ou movimentos que, no essencial, jogam de uma forma mais ou menos evidente no quadro partidário. Entretanto, surgiu-me um outro manifesto, “O Nosso Presente e o Nosso Futuro - Contributo para um Debate Político”. Da lista dos seus autores e dos seus subscritores, não consigo adivinhar nenhuma ligação partidária instrumentalizadora. Li o documento com cuidado. Pareceu-me muito bem intencionado, com um posicionamento progressista, de ideais que até posso qualificar de esquerda, tal como a entendo, com abrangência. Mas também me pareceu um pouco tosco, redigido sem cuidado, com omissões importantes, com pouca profundidade. Os comentários no "sítio" mostram que há mais pessoas como eu, que acham que o essencial é muito bom e merecia maior cuidado. Mas talvez isto seja eu, sempre perfeccionista. Por isto, não me sinto impedido de chamar a atenção para esta iniciativa, que apoio, mesmo com as reservas que referi. Eu, democrata triste Mandei este texto só a alguns amigos, por várias razões. Não quero que pequenos episódios, tristezas da minha memória de elefante, possam ser usadas para diminuir o que é essencial, neste caso a democracia, o parlamento. Sempre detestei dar tiros nos pés ou oferecer munições aos meus inimigos. Mas não são os parlamentares os primeiros a deverem garantir que são respeitados? E, insistindo um caro amigo em que esta nota merecia publicação, cá vai. Estive a ver a tia Manuela Ferreira Leite e não sei bem o que dizer. Começo logo por essa da tia. Não é pejorativo. Pelo contrário, Sócrates que se cuide. As minhas tias também falam assim, nas reuniões de família, na província ou nas ilhas. Dizem coisas simples e dão ideia de que podem governar bem o país porque sabem governar bem as suas casas. Velha sabedoria de S. Comba Dão, embora, longe de mim a ideia, não creia que ela foi buscar aí a inspiração. Acho que não é nada de genial eu ter achado, como disse, que o cidadão comum, nas europeias, penalizou muito mais o estilo socrático (desculpa lá, ó velho ateniense que não tens culpa da homonomia!) do que as suas políticas. Assim, creio que o estilo, até Setembro, vai sobrepor-se ao conteúdo. É assim que esta tia pode ser perigosa. O tuga gosta de beijocar as tias, mas não gosta dos primos videirinhos que os defrontam com o seu sucesso arrogante. É claro que pode jogar com a incapacidade para lhe criticarem fraquezas embrulhadas em conversa de tia. Por exemplo, o principal problema português e da política deste governo é o endividamento. Mas MFL não quer aumento de impostos nem diminuição das prestações sociais. Como é? E a senhora, dolicodoce, também é capaz de farpas envenenadas e certeiras. A questão do negócio PT/Media-Capital ainda vai dar que falar. Alguém mente? Ou MFL faz afirmações sem provas? Claro que não sei, vou aguardar para ver. P. S. - MFL tem-se apresentado com maior cuidado de imagem. É importante, nos tempos que correm. Rangel, que me dizem não ser nada disso, é feito parecer o pachola que toma uma imperial connosco, dizendo umas coisas simpáticas e simples, não parece doutor. Vital apareceu como figura postiça e pomposa, logo identificada pelo homem da rua com coisas ridículas e antiquadas, como o Avô Cantigas. Quantos votos terão sido decididos nesta base? Alguém aposta? P. S. 2 - Enquanto escrevia isto, ouvi pela primeira vez o novo porta-voz do PS, José Silveira. O PS está louco! Vitalino Canas era mau, este é péssimo. Discurso banal e monótono, do qual não fica uma ideia. Cara inexpressiva, penteado à antiga, má voz, vestuário mal escolhido. Sócrates, só tens 3 meses, corre, corre! Fiz há dias a minha terceira viagem à Cova da Beira, em 20 anos. Sempre pelo mesmo trajecto, embora por estradas diferentes: Lisboa, Santarém, Torres Novas, Abrantes, Castelo Branco, Covilhã. Lembro-me bem da primeira, calma, por uma boa estrada convencional mas confortável para o condutor, boas vistas para o Tejo, oportunidade fácil e rápida para ver a fachada da matriz de Constância e dar uma olhada ao castelo de Almourol. Uns anos depois, era estrada já modernaça, creio que o IP6. Boa estrada, com pouco trânsito, a provocar a pisadela excessiva no acelerador. Agora, auto-estrada, A23. Deserta, um carro de minutos a minutos. Sem portagem, SCUT. Mas feita sobre as estradas anteriores e, assim, sem alternativa razoável. Estamos todos a pagar o luxo de auto-estrada de alguns, mas que não têm culpa de terem de a usar porque lhes tiraram as antigas. Têm andado a brincar com os contribuintes. Todos os dias somos bombardeados com terrorismo intelectual veiculado pela net. É eficaz e bem feito, pelo menos ao que se vê por uma consequência: gente inteligente, educada, faz difusão em cadeia a dezenas de correspondentes. Dezenas a multiplicar depois por dezenas e dezenas, é uma enorme reacção em cadeia de estupidez, de desinformação, infelizmente também de crueldade. Os resultados de ontem foram tão claros em significado que qualquer comentário se arrisca a ecoar as banalidades que toda a comunicação social e bloguística escreveu hoje. Vou tentar resistir e só adiantar algumas provocações à reflexão, avulsas, não elaboradas, por isto até numeradas mas a eito. Há muito tempo que me questiono sobre a vantagem de os “sites” de jornais respeitáveis darem acesso a comentários anónimos, em geral inaceitáveis. Eu sei que é negócio, a publicidade vende-se a preços dependentes das visitas ao”site”, nem que seja para escrever coisas incivilizadas. Ou então, transparentemente, coisas organizadas de intervenção partidária, de todos os lados do espectro político. Mas isto não envergonha a gente que respeito na comunicação social, muitos meus bons amigos? Habitualmente, nem leio tais porcarias, mas hoje, sentindo-me com responsabilidades cívicas de informação sobre um assunto da minha área profissional, a gripe mexicana ou nova gripe, dei-me ao trabalho de compilar algumas pérolas do que é esta magnífica “democracia” directa da net. São comentários no "site" do Público.
Nefelibatas e diletantes Há duas palavras que me sugerem coisas que detesto: nefelibata e diletante. Ambas me evocam superficialidade, desonestidade intelectual, narcisismo. Deve vir da infância, de me lembrar do seu uso pejorativo pelo meu pai. Afinal, indo ao dicionário, verifico que não é bem assim. Nefelibata: pessoa que anda nas nuvens, escritor excêntrico. Diletante: amador das artes; o que brinca com teorias, conceitos, sem levar a sério nada disso. Ora o que os diletantes de que vou falar fazem é levar muito a sério o que dizem. Então, o que lhes chamar? Vou por coisa bem popular: parvalhões! Ainda há outra esquerda Foi dado destaque mediático a um apelo para a apresentação de uma candidatura única de esquerda às eleições autárquicas de Lisboa, numa situação perigosa em que a lista comum PSD-CDS pode bem ganhar. (...). Infelizmente, tudo indica que esta iniciativa não terá sucesso prático. Todos os partidos e movimentos de esquerda já anunciaram que vão concorrer isoladamente. Realisticamente, não era de esperar outra coisa. Como é que o PCP, pertinaz opositor do PS e do seu governo, podia apresentar-se coligado com o PS? E, por parte deste, o que esperaria dos viperinos ataques ao BE, no congresso do PS, e logo disparados pelo presidente da CML, António Costa? Ideias brilhantes Hoje quase não vou escrever nada nesta nota, basta a citação. Vem a propósito de António Barreto (AB). De AB há muito que não conheço uma ideia nova, original, estimulante. Agora tem responsabilidades, preside a uma fundação (F. Francisco Manuel dos Santos) que se pretende incubadora de ideias, com orçamento anual de 5 milhões de euros. Começou mal, ontem, no Público, a apoiar a proposta de F. Ulrich de uma solução miraculosa para a crise: a total liberalização dos despedimentos e o emprego sem contrato, temporariamente. E promete vir a ter mais novas ideias: “Ao lado desta, muitas outras medidas de excepção deveriam ser estudadas e postas em prática. Dada a doutrina geral do Estado de protecção social e do "modelo europeu", feitos, note-se, para tempos de fartura, é pouco provável que haja em Portugal coragem e liberdade suficientes para pensar em soluções que, aparentemente, prejudicam os trabalhadores e são de cariz liberal. Mas é verdade que precisamos de imaginação e desprendimento ideológico, sem os quais será muito difícil sair da crise.” Disse que me ia ficar por uma citação. É que concordo inteiramente com a crítica a AB feita hoje por João Rodrigues, no blogue “Ladrões de bicicletas”, cuja leitura recomendo vivamente. Ausência Timothy Garton Ash, no Guardian, "The G20 summit in London will be missing one great power. Guess who?": When President Barack Obama comes to London next week, he will find one great power missing at the world's summit table: Europe. Five of the 20 leaders at the G20 meeting will be Europeans, representing France, Germany, Britain, Italy and the EU, but the whole will be less than the sum of its parts. There will be plenty of Europeans but no Europe. (...) Ler mais. Big brother? Parafraseando às avessas uma frase célebre, exemplo da arrogância inculta e boçal que está sempre por detrás da humildade hipócrita do Zé Povinho, eu engano-me frequentemente e muitas vezes tenho dúvidas. Vou hoje desvariar sobre isto, a propósito do que se pode considerar um “fait divers”: o parlamento vai legislar hoje sobre o teor de sal no pão. Hoje de manhã, ouvi um daqueles programas típicos em que toda a gente opina, em geral com certezas absolutas. E eu cada vez com mais dúvidas. (...) Que viva Keynes! Esta súbita reconversão geral ao keynesianismo, como tentativa de combate à crise, é afinal, para mim, o mais evidente sinal de uma globalização que, até agora, era um pouco exercício de retórica e brilharete de analistas planantes na esfera dos favoritos dos deuses. Agora não, a globalização é palpável, é a noção que tem o homem da rua de que as “poupanças” malucas em francos suíços dos húngaros podem pôr em risco a capacidade de controlo a nível europeu, que pode abanar até o euro, e lá se vai à vida a pobre economia portuguesa, vestida com esse roupão de lantejoulas de puta cara mas que não tem o hábito de tratar minimamente da sua higiene diga-se, economia). (...) O poder da palavra Hoje, 12 de Fevereiro de 2009, o mundo celebra o 2º centenário do nascimento de Darwin. Emendo: quase todo o mundo, porque ainda há muitos irredutíveis rupestres que consideram Darwin como o grande satã contra a fé criacionista. Comemoração merecida, mas a fazer esquecer, relativamente, a coincidência de, exactamente no mesmo dia, ter nascido numa aldeia esquecida do Illinois outra figura marcante da história da Humanidade, Abraham Lincoln. Foi ele que, como direi adiante, me suscitou o título desta nota. A literatura portuguesa é pobre nesse género “pobre” que é o da oratória. (...) Ressalto logo isto quando comparo com a oratória de língua inglesa. Discursos de frase curta e precisa, incisiva, mas sem prejuízo - ou até por isso mesmo - de uma grande elegância literária, depurada. Neste estilo geral, sobressai a invenção de frases que fazem história. Lembram-se de Churchil? “Never in the field of human conflict was so much owed by so many to so few”. Ou “I have nothing to offer but blood, toil, tears, and sweat”. Não basta não ser desonesto Indo escrever sobre Sócrates, provavelmente os leitores esperarão coisas sobre o caso Freeport. Não, ainda é nebuloso, parece-me inquinado por incompetência jornalística, sei lá se por interesses de magnatas da comunicação social com necessidade de exercer pressão sobre o governo para ainda maiores benesses a respeito de bancos privados (mantendo públicas virtudes). Escrever sobre outras coisas, como vou fazer, tem a ver com que a credibilidade do primeiro ministro, aliás do cidadão José Sócrates - que é quem me interessa - se mede também por muitos outros casos talvez menores. Entendamo-nos sobre o conceito de honestidade. Não o considero nunca por antinomia, como significando apenas “não desonestidade”. Não é o mesmo que legal, que claramente se distingue do ilegal, a meu ver sem margem de ambiguidade se a lei for bem feita. Mesmo assim, sabemos todos como no legal cabe boa parte do não ético, coisa que já não é tão claramente distinguível do ético. Da mesma forma, para mim, não ser desonesto não é obrigatoriamente atributivo da qualificação de honesto, se por honesto entendermos uma forma superior de atitude, comportamento, auto-imposição. No entanto, para não ser mal acusado de difamação, vou usar outro termo para esta minha concepção de honestidade a um nível superior de carácter: “seriedade”. Isto quer dizer que eu posso emprestar dinheiro a qualquer pessoa honesta, mas só a uma pessoa séria é que o faço sem papéis, com um simples aperto de mão. Gente socraticamente culta conhece as células umbilicais? No debate parlamentar de 14 de Janeiro, houve por parte do primeiro ministro uma revelação espantosa, a da criação em Portugal de um banco de células do cordão umbilical. Fiquei boquiaberto. Também preocupado por recear que tão abstrusa matéria pudesse ficar à margem da crítica de muitos cidadãos. Sou assim levado a um esforço de explicação - em linguagem oxalá acessível - do que está em causa e de acusação pública do que entendo ser a desonestidade de tal medida. (...)
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