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João Vasconcelos Costa
Espaço de conversa de um epicurista ou, pretensiosamente, a sabedoria (?) de/dos 60s. Açoriano, muitos anos investigador científico, depois professor universitário, passando por diretor de uma instituição de investigação e ensino, tudo isto com algum trabalho feito de estudo da educação superior. Hoje, novamente com responsabilidades de direção universitária. Albergando aqui a perplexidade angustiada da falta de perspetivas de concretização de ideais nunca realizados. Também, mais prosaicamente, o gosto de bem comer. E peripatético, que isto de ficar sentado é coisa de velhos.
 

Indice

Imagino que muitos dos leitores fiéis desta página continuarão a cá vir, clicando como habitualmente no seu bookmark. Continua aqui o acervo deste últimos anos de escrita de notas políticas, sociais, culturais, mas a sequência passou para o blogue No moleskine. Façam bookmark, ficarei muito contente com a vossa visita e os vossos comentários.

26.12.2010

RTP: o serviço público, Colombo português e mais conversa fiada

mlsDevia ser sensível, mas confesso que não sou, à reflexão sobre a televisão, entre nós. Vejo muito mais programas temáticos do que os generalistas, mas não devia esquecer que pago, como todos os meus concidadãos, muito dinheiro para o "serviço público" de TV, diga-se RTP-1, porque a 2 ainda passa muita coisa que, talvez por questões de negócio, não vejo nas comerciais. Isto sim, é serviço público, como é nos EUA o de cadeias estaduais, públicas, que emitem o que não cabe na lógica do mercado audiovisual.

Qual é o papel do estado na comunicação social? Já houve tempos em que eu o sabrevalorizava, como garantia (?) de uma reserva de objetividade e de rigor na selva dos interesses e manipulação informativa dos grandes grupos privados da comunicação social. Claro que hoje não sou nenhum neoliberal a diabolizar o estado, mas também não sou ingénuo devoto da isenção, pureza, inocência, dessa coisa mítica e não conspurcada pelos humanos que é o estado.

Até posso ser provocador. Admito racionalmente, num discurso maquiavélico e não emotivo, que a comunicação social seja muito importante como instrumento de influência, de propaganda. Vale por milhares de cartazes e é muito mais barata para o partido no poder do que pagar do cofre do Rato ou da Lapa a propaganda. Admito que nunca, mas nunca, a RTP foi verdadeiramente "pública", desde Salazar até agora, passando pelo verão quente. Lembram-se de como o 25 de Novembro se decidiu significativamente quando a RTP calou Duran Clemente e passou para um filme de Danny Kaye? E a RTP dos hábeis e inteligentes manipuladores partidários como foram, por exemplo, num lado e noutro, Soares Louro e Proença de Carvalho?

À margem, porque daria todo outro texto, lembremo-nos de que tudo mudou com a net, os blogues, os sítios pessoais, as redes de mail. Muitas vezes intoxicantes mas hoje a grande defesa contra a forma antiquada de uso manipulador da comunicação social. "Wikileaks, stupid!"

Continuando na onda de cinismo, a incompetência da RTP pública irrita-me, mesmo que a competência fosse para a maldade, mas porque se calhar me seduz mais, perversamente, um malandro muito inteligente do que um virtuoso burro. Repito, é se calhar o que mais me irrita hoje, a incompetência da RTP.

Ressalvando a minha declaração de interesses de admitir que sou fraco tele-espetador, pergunto em que é que se distinguem dois programas muito populares, manhã inteira, "panem et circenses" em versão moderna de "Companheiros da Alegria", Praça da Alegria na RTP-1 e Você na TVI?

Isto é a RTP-1? Pode haver mais, como vi há pouco e me motivou esta escrita tonta. Coisa que julgava já fora de moda, mas obviamente não para quem dessas estórias vive como José Rodrigues dos Santos, notícia bombástica no telejornal, entrevista vinda de Washington do correspondente (triste linhagem, essa dos correspondentes em Washington!). "Investigador português prova que Colombo era português!".

Foi anunciada à cabeça do noticiário. Disse para mim "olha, o Mascarenhas Barreto ainda anda por aí, ou será o Manuel Luciano da Silva?". Nada, é outro, eles sucedem-se por partenogénese. Bizarro é que nenhum traga uma ideia nova, são reimpressões que tiram partido de os livros anteriores ficarem esquecidos. E merecido seria o esquecimento se, depois do livro de Mascarenhas Barreto, com especialidade anterior em traduções da coleção Vampiro e um livro sobre tauromaquia, não tivesse havido uma campanha internacional dirigida por uma certa "historiadora" polaca com tais insultos a gente séria que Luís Albuquerque e Luís Távora tiveram de vir a público arrasar o pateta (creio que mais psicopata). Manuel Luciano é um médico emigrado nos EUA que leu a verdade absoluta sobre os Cortes Reais na pedra de Dighton, a célebre pedra que permite que cada um leia nela o que quiser. Basta ver como ele desfilava em cortejos do Espírito Santo, como mostra a imagem. Este mundo é um manicómio? E os doentes que ele atendia no dia seguinte? É que é mesmo verdade, "it's a mad, mad, mad world". E o que ando eu a fazer cá?

Não sou historiador e, claro, não vou dar lições de história. Estas notas testemunham apenas o respeito pelo que julgo ser o entendimento consolidado dos historiadores sobre isso do Colombo português. Esta história é recorrente. Já vem da primeira metade do séc. XX, normalmente baseada numa (de muitas) das célebres assinaturas de Colombo, a permitir leituras tanto simbólico-cristãs como cabalísticas, bem como a "escrita de origem" de Colombo, numa época em que o seu dialeto genovês não tinha escrita fixada e que obrigava a que alguém como ele, fazendo a sua vida de adulto entre Portugal e Castela, tivesse construído uma linguagem própria. Ou nunca lemos Gil Vicente, a passar do português pré-moderno (antes de Sá de Miranda e Camões) para o castelhano que toda a gente da corte também falava?

A única coisa que ouço de novo neste agora descoberto historiador luso nos EUA (com entrevista tendo em fundo um bonito "college" da Nova Inglaterra), Manuel Rosa de seu nome, é uma versão mais "sólida" de um velho argumento dos lusocolombistas: nunca um tecelão genovês poderia ter casado com uma alta fidalga portuguesa, como Filipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo, capitão de Porto Santo. Esta história está mais do que desmontada. Nunca Colombo se apresentou em Portugal como tecelão. Com o irmão, eram comerciantes prósperos, provavelmente cartógrafos - profissão de alto prestígio, esteve envolvido em navegações na costa da Guiné na época em que elas eram concessão respeitada, Fernão Gomes. Perestrelo era de pequena nobreza e estrangeira, simples cavaleiro da ordem de Santiago. Já tinha morrido nessa altura, deixando a família em dificuldades económicas. Como a família Moniz estava ligada à ordem de Santiago, provavelmente bastava esta relação com Perestrelo para tornar aceitável o casamento. Onde é que foram ler que esses Monizes eram alta fidalguia?

O que, espantosamente, este novo historiador vai descobrir, para reforçar a sua tese, é que Filipa Moniz não era filha de Isabel Moniz, sogra de Colombo, por sua vez não filha de um obscuro Vasco Martins Moniz, mas sim filha da condessa de Montemor! (e de que pai?).

Numa coisa pode ter razão, mas não diz. É que, de fato, as comendadeiras de Santiago, no convento de Santos, entre as quais foi criada, desde criança órfã, Filipa Moniz Perestrelo, tinham grande prestígio, mas como alfobre de amázias reais. Por lá andou a mãe do primeiro Bragança (desculpe, Sr. D. Duarte!) e também Ana Mendonça, mãe do D. Jorge (o primeiro Lencastre, como é que D. João II se foi lembrar do nome da bisavó?) que a bondozíssima D. Leonor das misericórdias, exemplo de virtude e de generosidade, possivel/provavelmente envenenadora do Príncipe perfeito, nunca permitiu que viesse a ser rei. Também se tivesse sido rei não teria sido possível ao execrável marquês, por via bragantina, ter mandado martirizar o descendente de D. Jorge, o duque de Aveiro, que, afinal, ao contrário dos Távoras, parece que tinha culpas no cartório. Passem por Azeitão, como eu há dias, e lá está o brazão picado.

A seguir, sempre a descoberta nova e bombástica, afinal ex-libris de todos esses "historiadores", a prova provada de que Colombo era agente secreto de D. João II, para desviar os castelhano-aragoneses da rota do Cabo (como se eles tivessem a mínima capacidade de conhecimento e experiência para se poderem atrever-se a competir com os portugueses nessa rota). Mascarenhas Barreto deve ter tido algumas dúvidas, porque só se assegurou desta tese de 007 quando "descobriu" que Colombo era primo do rei, por via do tio, o infante de Beja.

A tese até é um insulto para Colombo, porque se baseia na consciência do genial navegador de que estava a aldrabar propositadamente os reis católicos e toda a história. Tudo o que Colombo depois escreveu até mostra, com total sinceridade, que ele estava ressentido era por não ter sido suficientemente reconhecido, como Almirante das Índias, nunca tendo percebido, ironicamente, de que tinha dado ao mundo a América, muito mais do que as Índias, coisa só depois intuída por Vespucci, que lhe carimbou o nome. Se não, era EUC, não EUA.

Com o que sabemos hoje, e é muito, da geografia das navegações, qualquer amador sabe que o grande problema que os portugueses resolveram, ou melhor, levaram a solução máxima, foi o da latitude, principalmente depois de passado o Equador. O da longitude teve de esperar dois séculos, pelos dois relógios que vemos hoje no museu de Greenwich. Era mais curto atingir a Índia por ocidente ou por oriente? A pergunta não tem resposta científica, em relação à época; os argumentos eram quase mitológicos, com muito de ptolomaico, sem rigor científico. A resposta é política. D. João II já estava suficientemente avançado na rota oriental para apostar noutro cavalo. Aos reis católicos, só restava esse outro cavalo, ocidental. Ou isso, mesmo que totalmente incerto, ou nada. Por isto, pela incerteza, hesitaram longamente, a desesperar Colombo.

E não é que, com tudo isto, o último filme do nosso venerando cineasta foi sobre esta tese?

Voltando à RTP, afinal nada disto é estranho. A notícia, com aquele ar babado de "intelectual" pueril que ele arvora, veio por boca de José Rodrigues dos Santos. Mas não é de coisas destas, códigos, mistérios e hetero-história, que o rapaz vive, como "escritor"? Nesta época de compras, veja-se o que vai pelas estantes de destaque da FNAC. Claro que também a inefável Margarida. Também, mais lamentavelmente, outro "escritor", Sousa Tavares. Lamentavelmente, porque é outro caso. O leitor típico de Rodrigues dos Santos e das Margaridas é provavelmente menos instruido (menos culto?) do que o leitor de MST, mas que, mesmo assim, pode não dar pelos tropeções estilísticos e fatuais-históricos do autor. Antes o Santos do código, que se esmera em copiar bem (?) o Dan Brown.

Nota 1 - Será que este historiador Manuel Rosa está nos EUA com bolsa de investigação portuguesa? Não tenho tempo para ir ver o "site" da FCT, mas não ficaria embasbacado, já tenho o rabo pelado (com desculpas pela rima tosca).

Nota 2 - Porque falamos de livros, para não desanimar, a boutade do meu estimado editor Zeferino Coelho, de que daqui a vinte anos leva outro português à cerimónia de Estocolmo: Gonçalo M. Tavares. Tem toda a razão! Estou a ler e reler, deliciado. Diz-se que Saramago o ameaçou de uma chapada, porque era o que merecia um jovem a escrever tão bem. Para Saramago escrever isto, ele que era um exemplo de modéstia...

(Editado)

7.12.2010

O 4º Reich

Eurofin de hoje: aumento do valor do fundo de auxílio europeu? NEIN! Emissão de eurobonds? NEIN!

Vamos votar soberanamente em próximas eleições portuguesas? NEIN! Quem for eleito, seja Dupont ou Dupont, será apenas um gauleiter da chanceler do 4º Reich. Chanceler que ironicamente representa a mentalidade, cultura, educação, dos "ossies". Até nisto se manifesta a aberração antimarxista do "comunismo", já não bastava a máfia russa e o clube dos ex-KGB.

(Declaração de interesses - isto é dito, como sabem, por quem foi comunista, com honra e integridade, "mágoa" que nunca vai carpir, mas que não precisou das revelações da perestroika ou de sair mediaticamente em nenhuma dissidência a caminho do PS ou até do PSD).

E pur si muove! Veja-se, significativamente, a tomada de posição de hoje da Itália, juntamente com o Luxemburgo (a primeira vez que se manifesta um nórdico) - ver o Jornal de Negócios de hoje. No entanto, são vozes baixinhas, contra a ideologia dominante, contra aquele alegre entendimento que deve alegrar as reuniões bruxelenses, este novo congresso dançante que nos vai levar à ruina. Estranhamente - ou não - os nossos maiores amigos estão hoje no meio económico americano, Krugman, Stiglitz, outros. Os que sempre preveniram quanto à estupidez do euro e agora é tarde para os ouvir.

Mas a voz tronituante do "establishment" é hegemónica, tritura as cabeças do homem comum que não tem biblioteca nem sabe nada de finanças. Há as vozes dos magnatas e dos banqueiros, é natural. Também naturais as dos políticos, a culpa é nossa de eles lá estarem. Pior são as das prostitutas inteletuais que se intitulam de economistas e que vão - ganhando, certamente - a tudo o que é debate "democrático" na comunicação social, "eu dou-te um chapéu a ti, tu dás-me um chapéu a mim" (velho filme delicioso, Carrossel Napolitano). Uma das coisas que aprendi nestes tempos, eu cientista de toda a vida, foi que, afinal, como sempre suspeitei, na maior parte dos casos a economia não é uma ciência, é pura ideologia.

Em próximas eleições, julgo que, pela primeira vez - mas já devia ter sido antes - a grande separação e discussão política não é sobre a política nacional. É sobre a proposta de cada partido sobre a forma como vai atuar na Europa. Porque, afinal, já não há política nacional. Nós somos minúsculos Maine ou Vermont, mas não de um país solidário e com identidade comum, mesmo que federal. Somos parte arcaica e ridiculamente estado-nação de uma entidade que tem o pior de uma federação, nomeadamente o domínio de um eixo constitutivo franco-alemão (com o Reino Unido na sua insularidade ambígua), sem ter o lado bom, um orçamento federal, uma FedReserve, mecanismos de solidariedade, ausência de egoismo dos estados federados. O melhor de uma federação que vive de uma atitude económica comum de relação com o exterior, não de um membro rico que se enriquece à custa do empobrecimento dos seus parceiros federais e que depois os deixa cair.

Sabem o que me dava muito gozo, se não fosse uma catástrofe a dar cabo de todos nós? Que todos os PIGS abrissem falência e com isto arrastassem para a bancarrota os seus principais credores, os bancos alemães.

Isto assim não vai lá, diz o Zé CP. E eu digo que 2011 vai ser 1848. E o Vítor que é o amigo agudíissimo do nosso bando e que tem a rábula dos Gerais de se fingir de tonto, diz que será "en la calle". Mas também recebo mensagens de pessoas que estimo e que transmitem o discurso estabelecido: não culpes os alemães, eles são disciplinados e rigorosos (até a aceitarem a contração dos seus direitos sociais e da parte do trabalho na repartição do rendimento nacional, digo eu), nós sulistas é que somos esbanjadores e nos endividámos, etc. A minha única resposta é: eu posso endividar-me se alguém não lucrar em conceder-me o crédito que me vai afogar? Quantas vezes nos últimos anos eu tive de dizer não ao meu gestor de conta? E, em contrapartida, quantos desses meus interlocutoires andam à rasca, mesmo com posições profissionais priveligiadas, porque não resistem ao Big Brother invisível que lhes diz "compra, compra, compra". Invisível? Estes Big Brothers não têm nomes?

29.11.2010

Há alternativas

Há políticas alternativas. Como escreve Paul Krugman, "heterodoxy is working a whole lot better than orthodoxy". Isto por causa da comparação entre a Islândia e a Irlanda. Os "links" são para dois pequenos artigos seus sobre ambos os países em crise. Também hoje, no Público, Rui Tavares toca no assunto e vem lembrar a Islândia. E vale a pena recordar que o caso paradigmático do sucesso da "heterodoxia" foi o do recém-falecido presidente Kirchner da Argentina. Há muita coisa escrita sobre isto, mas pode-se começar por aqui.

Felizmente, cada vez mais gente em Portugal vem escrevendo, com autoridade, ao invés dos "economistas" (melhor, ideólogos) de serviço, ducais, bentais e medinais - este senilmente desculpável mas não desculpável a televisão que o afaga mais ao seu menino Crato, por mão do execrável Crespo -, mas também aqueles que fizeram o mal e agora se querem limpar da caramunha, à Bessa e outros ex-ministros, também o angélico Constâncio que até foi SG do PS e negociador de uma inesquecível reforma constitucional, tudo gente de esquerda, que não conseguem adormecer a pensar naqueles a quem eles condenam ao salário mínimo.

E, muito pior, os banqueiros, essa gente intocável porque, se levarem os seus porta-moedas para o estrangeiro, nos deixam na penúria. Baixo IRC, foi a receita irlandesa. Ainda hoje, em pleno recurso ao FMI, vão despedir milhares de funcionários públicos, vão penalizar todo o sistema de solidariedade social mas, pecado que nunca farão, não vão aumentar o IRC. Porque as empresas, senhores, o que seríamos nós sem elas?! Eu até compreenderia isto se os capitalistas pagassem em IRS o que não pagam em IRC. Mas não é verdade. Eu pago sobre os meus rendimentos o dobro do que os jogadores de bolsa pagam sobre as suas demais-valias que não criam a riqueza que eu crio, que só são compra e vende.

Tudo isto, esta crescente intervenção diria que de esquerda se o termo não causasse confusão a queridos amigos que não sabem que são de esquerda (M. Jourdain...) é muito importante, é determinante como começo de uma revolução (no sentido teórico do termo) que, à Marx (sem mais qualificativos póstumos e abusivos) já começa a alimentar-se da revolta, mesmo que incipiente, dos que já não querem e da incapacidade dos que já não podem.

No entanto, estes que já não deviam poder, que até mde fato já não podem, banqueiros, especuladores predadores, seus serviçais políticos, ainda têm a hegemonia, no sentido gramsciano. E, na hegemonia, a hegemonia do discurso, da ideia martelada e martelada até ser indiscutível e que é uma arma pesada da defesa do domínio conservador (Goebbels não era nenhum pateta; e, já agora, também não António Ferro; ou quem está por detrás da pateta Sarah Palin). No entanto, e por isso, este discurso económico alternativo que felizmente está a aparecer, sendo muito reconfortante, não é solução, porque a solução é económica mas submetida à política. Foi na Islândia com a escolha de um governo de esquerda que teve a coragem e a coerência da heterodoxia.

Resultou de uma coligação entre o seu equivalente "PS" e o grupo "verde-vermelho". É um PS afastado do poder há quase vinte anos, com tempo para se ter reconstruído na sua velha identidade de verdadeira social-democracia escandinava. É um grupo "verde-vermelho" de um "radicalismo realista", se é que se percebe o que quero dizer. Onde está isto em Portugal, com um PS que, pelo menos em crise, se ajoelha perante o deus nervoso e irritadiço, colérico e temeroso que conhecemos do Velho Testamento e que hoje se chama "mercados"? Um PS que, por isto, e não estou a ir na cassete do PCP (até porque cassetes todos têm e o PS se calhar mais do que qualquer outro) é mesmo direita, objetivamente (!) - embora tendo muita gente de esquerda que todavia é cúmplice do socratismo, mesmo que só por omissão. Gente que conheci moderada em costumes, revolucionariamente estoica, crítica do modo de vida burguês e que hoje é deslumbrada, nova-rica, aperaltada em sobrecasaca vinda de adelo pícalo parisiense, e que lhe fica curta nas mangas?

Dir-me-ão que o PSD será pior. Antecipo que sim, mas entre um e outro que venha o diabo e claro que não voto em nenhum deles. Mas então quem, para uma política à islandesa? É que PCP, BE e Verdes são a fábula do velho, do rapaz e do burro.

Independentes? Talvez, mas não esquecendo que os independentes têm muito de mítico, de recurso último mas frágil. Tendo a vantagem de não serem peças do aparelhismo partidário (mas muitas vezes sendo peças de uma forma menos desavergonhada do clientelismo, quando não são mais papistas do que o papa, lá em Estrasburgo), têm muitas vezes a desvantagem de serem politicamente menores, muito menos políticos do que técnicos, sendo que ambas as coisas são essenciais neste momento. E teriam de ser muito bem enquadrados por uma figura com autoridade e alguma forma de legitimidade democrática, claro que o PR, o que coloca problemas constitucionais. Se resolvidos estes, um governo de regeneração - mas o que haveria a estudar sobre o que foi de fato e o que deu a regeneração de 1851! - sob a égide de Manuel Alegre era coisa que eu veria com expetativa favorável. O mal é que o PR vai voltar a ser Cavaco.

Apetece-me dizer como um grande amigo meu: "isto assim não vai lá!" Pois não, mas o que fazer? Talvez um esforço imediato para coisa quase milagrosa, nesta situação de crise. Voltando ao velho renano (era assim que antes torneávamos a censura bronca...) é urgente que os que agora cada vez mais convergem na análise se decidam a pôr em realidade imediata a máxima de que "mais importante do que analisar o mundo é transformar o mundo" (adaptação minha). Passemos rapidamente da ação académica, da escrita bloguística, para a ação política. Ainda vamos a tempo.

E em circunstâncias únicas, infelizmente únicas, favorecedoras da unidade, pelo menos da convergência. Não temos de nos perder em velhas querela, em bizantinices ideológicas. O que está em causa é uma pequena - mas enorme - lista de questões essenciais em que cada vez mais se vê entendimento:

- a solução é o ciclo vicioso infernal da austeridade-recessão-mais austeridade, ou é o do crescimento económico, da defesa do emprego e do poder de compra, logo da reanimação da economia?

- a solução é o agachamento servil perante os especuladores no mercado financeiro, os tomadores da dívida, os políticos que só pensam em "acalmar" essa menina histérica que como qualquer histérica usa a histeria no seu maior proveito, ou é ser firme, mostrar que um povo soberano pode mobilizar energias para ir até riscos e trabalhos como os de uma reestruturação da dívida?

- a solução é a de bem comportados na eurolândia ou de país por inteiro que diz "basta" à Alemanha e seus acólitos?

- a solução é a continuação de formas de luta tradicionais hoje cada vez mais paroquiais, ou o empenhamento dos agentes da luta social numa ação a nível europeu, hoje determinante?

- a solução é a de não ver o mundo e julgar que é crise mundial afinal o que é só um problema atlântico, de um lado e outro do oceano do norte, ou é a de procurarmos águas mais seguras em espaços novos, lembrando-nos até de que uma grande economia real, Brasil, e outra potencial, Angola, são lusófonas?

- e muito mais.

O que quero mostrar é que há perguntas legítimas que me parece que têm a validade de se basearem em alternativas reais, não desprezadas por quem acha que tudo está determinado por inevitabilidades. É preciso um movimento político que coloque frontalmente essas perguntas e que escolha claramente as respostas. Quem dá o primeiro passo? Hoje, com a blogosfera, até não é tão difícil como até há tão poucas décadas.

10.10.2010

A demissão do governo é um drama?

Toda a comunicação social, não sei se a recado de alguém, mailos opinadores de serviço, anda a transmitir a ideia de que a demissão do governo, na decorrência de possível reprovação do orçamento, significaria o vazio governativo, a manutenção do atual governo em gestão, com poderes limitados, até à possibilidade de eleições antecipadas, depois da posse do novo PR, lá para maio de 2011. Agita-se o espectro do drama que isto seria no meio das finanças internacionais, Portugal ingovernado até lá e sem orçamento.

Há dias, ouvi outra versão do cenário de impossibilidade. A alternativa teórica seria a de um governo de iniciativa presidencial, coisa eanista ao arrepio da prática constitucional atual.

Às vezes fico em dúvida sobre se serei intelectualmente arrogante e a pensar que sou soldado a marchar com o passo certo contra todos com passo errado ou se há muita gente a tomar-me por parvo. Não sou constitucionalista, mas também não o são a grande maioria dos opinadores de serviço. O que sou é capaz ainda de ler criticamente um texto e parto do princípio de que a Constituição foi feita para ser lida e percebida por qualquer cidadão com um mínimo de literacia.

No caso de demissão de um governo, o PR não tem de convocar obrigatoriamente eleições parlamentares, muito menos quando disso está impedido, no caso por estar no último semestre do seu mandato. Tem plenos poderes para, respeitada a representação parlamentar dos partidos, e ouvindo-os, indigitar um novo primeiro ministro e nomear um governo com plenos poderes, não de gestão, incluindo o poder de apresentar uma nova proposta de orçamento. A responsabilidade final é dos partidos ouvidos pelo PR, de viabilizarem ou não uma alternativa que respeite o quadro parlamentar. O país não está refém de que a única solução seja Sócrates, porque não devia ser (infelizmente, como direi adiante, vendo o atual PS, parece que é mesmo).

Se os apelos beatos à responsabilidade nacional, nesta crise - e nem interessa agora chorar à Mofina Mendes, a culpa julgar-se-á em devido tempo - querem enganar o povo pelos dois lados da tenaz do centrão, do "marais", é preciso dizer que é aldrabice, mesmo que homens de boa vontade, como Jorge Sampaio, alinhem incrivelmente nesse jogo hipócrita. O PS não pode chantagear com a "inevitabilidade" do governo Sócrates. O PSD do gémeo jota, Passos Coelho, não pode pedir desculpas por não ter solução "patriótica" contra essa "inevitabilidade".

É claro que, no caso de demissão do atual governo, não se vislumbra solução alternativa que o PR possa seguir que não a de um novo governo PS. Mas este é que é o ponto crucial, como já tantas vezes escrevi aqui. O PS é Sócrates? Este homem nefasto já secou a tal ponto o PS que, neste momento de enorme responsabilidade patriótica, decisiva para o próprio futuro do partido (lembrem-se de Craxi), não é possível a solução óbvia de demissão do atual governo e indigitação pelo PS de um novo primeiro ministro, com um novo programa e um novo orçamento? O PS, agitando o cenário de pânico e não reconhecendo publicamente esta possibilidade constitucional - se não estou em erro - está a ser desonesto, como infelizmente nos está a habituar. Porque quem liga a alguma diferença, se a há, entre Sócrates e PS?

A personalidade desviante ("personality disorder") de Sócrates impede-o em absoluto de considerar por si próprio, para bem do país e até do seu partido, que bem o avisou Portas, "saia, enquanto é tempo" (e eu diria, tempo também para Sócrates ter uma velhice em que possa sair à rua com os netos sem que lhe cuspam).

Por isto, é claro que a resposta à pergunta que deixei em destaque é evidentemente negativa. Ninguém no PS, em que os ribeiros possíveis se somem no deserto, como no Calaári, tem um programa alternativo. Ninguém vai mais além do que pias declarações sobre a tristeza de as medidas PEC-3 afetarem principalmente os mais fracos. Ninguém, principalmente, tem força para arrostar com a máquina clientelar que Sócrates e a sua cultura jota, mais os seus Silvas Pereiras de "caráter" espelhado na expressão facial e no sorriso maroto, mais um Santos Silva que envergonha a academia portuguesa.

Já aqui escrevi e repito. Tenho amigos e conhecidos políticos no PS que considero, mas que estava a recear que não vissem o caminho suicida para o seu partido (e para o sistema democrático, pela importância do PS) para que estão a ser arrebanhados por Sócrates. Agora, com muito mais pesar, começo a ter tendência, que estou ainda a conseguir rejeitar, para lhes colar o rótulo de cobardes.

Já agora, o que vai ser a candidatura de Alegre, agora sob o manto da oficialidade PS? Votei nele há cinco anos, tudo me indica que desta vez voto branco. Parece que começa a ser a minha regra fatal de voto.

P. S. - Escrevi isto à luz de uma análise política que considerou que, sendo toda a gente honesta, em princípio, nada pareceria permitir a aprovação do orçamento. Afinal, Passos Coelho, com toda uma imagem jota manipulada por construtores de imagem os mesmos que o outro jota Sócrates, um dia diz que vota contra aumento de impostos (2% de IVA!), hoje já diz que talvez se compensado com diminuição de descontos, amanhã sei lá o quê, no dia da votação aposto que viabiliza o orçamento. Tão amigos que são, tudo pintos da mesma ninhada.

P. S. 2 - Lembrei-me agora, como caso ilustrativo da minha tese, do que aconteceu depois da demissão de Barroso para ir bruxelear-se. Sampaio não convocou eleições - e muitos até o criticaram, a começar por Ferro Rodrigues. Limitou-se a nomear um outro primeiro ministro indicado pelo mesmo partido, Santana Lopes.

1.10.2010

Apelo premente aos socialistas

Acabei de ouvir Sócrates dizer a Judite de Sousa (com ar de toda a entrevista de homem sábio, sereno, sério, muito devem ter trabalhado os homens da imagem) que estas medidas são plenamente suficientes até ao fim de 2011 e que nos levarão ao nível financeiro da Alemanha! Ele não se consegue conter, tem sempre de exagerar na aldrabice, nunca ouviu falar do despenseiro de marinha Vaga Morta, que dizia que nunca se deve roubar demais. Quem o vai responsabilizar, no tal fim de 2011, por tão desavergonhada aldrabice?

É aldrabão e mentiroso. Veja-se o episódio flagrante das declarações contraditórias, com Teixeira dos Santos a fazer de pateta, pelo meio, sobre se a redução dos salários da função pública vale só em 2011 ou se é definitiva.

Continua também a afirmar duas coisas que lhe saem obscenamente da boca. Primeiro, que tudo isto é necessário para "financiar a economia". Isto é, o estado ajoelha-se diante dos mercados financeiros predadores, sujeita-se à ditadura financeira-orçamental alemã, isenta a banca de todo o ónus, para pedir reverencialmente ao novo capital parasita que financie a economia, em vez de a financiar diretamente, investindo, promovendo o emprego, animando o mercado interno com aumento do poder de compra. Obama esteve-se nas tintas para o respeito euro-religioso pela limitação do défice, levou-o bem para cima, mas investiu na economia. Ou já acabou a economia, só há a finança? Consumimos bens ou dinheiro ao pequeno almoço?

Segundo, talvez mais inadmissível porque de total hipocrisia, diz que tudo isto é para manter o estado social. O que é para esse videirinho o estado social senão um chavão que agora fica bem para disfarçar o neo-liberalismo que hoje domina a UE? Ele nem sequer tem o nível cultural que permite a Vital Moreira discursar sobre coisa mais elaborada, mas mais antiga e mais gasta, o seu ordoliberalismo. Falar no estado social, quando parte considerável dos cortes agora anunciados na despesa dizem respeito à solidariedade social, às pensões, à saúde (e já virá a seguir o ensino público)?

Temos tendência para ver as mudanças políticas em ciclos curtos. Que a "esquerda", isto é, os partidos socialistas, foram varridos pela direita, na Europa, parece coisa recente. Não é. O fim do "socialismo" já vem de longe, com o fim da hegemonia social-democrata na Escandinávia e, principalmente, com a implosão do partido italiano de Craxi. Marcante foi também a falência da terceira via de Blair.

Que os socialistas portugueses não se iludam. Há anos, fechado o ciclo bizarro de social-cristianismo de Guterres (homem que até estimo muito), o PS entrou numa de "eficácia", eleitoralismo sem valores, escolha de um títere sem caráter, sem ética, sem altura humana, mas bom produto no mercado político-eleitoral.

Tivemos primeiros ministros de todos os tipos. Soares era o leviano irresponsável intelectualmente, o que nunca fazia trabalho de casa, mas que tinha alguma grandeza - pelo menos panache. Cavaco era quadrado, culturalmente medíocre, mas era sério. Guterres cometeu muitos erros mas era eticamente impecável. Com Barroso, começou a mudança para os carreiristas, videireinhos, oportunistas, sem princípios. De Santana, mais vale não falar. Mas Sócrates é melhor, como mente, como pessoa, como exemplo ético e de caráter? Quando estamos a celebrar o centenário da ética e das virtudes republicanas? Já para não falar em gente que a canalha de hoje desconhece, Cícero, Catão, Cincinato. Já agora, um certo Sócrates, de quem este de hoje certamente nunca teve curiosidade de conhecer alguma coisa. Por isto, que lhe sirvam, ao da cova da Beira, uma boa taça de cicuta. Morra Sócrates, morra, pim! (morra politicamente, entenda-se).

O PS, se ainda lhe restar algum ânimo lá no fundo da alma (tem alma?), deve ao país a obrigação de correr com esta sua canalha e limpar-se. Com urgência. Canalha é mais do que Sócrates, é a sua corte, Silva Pereira, Santos Silva, Assis, Lacão, Alberto Martins (que pena), até o senil Almeida Santos. E todos os jotas mais ou menos conhecidos. E todo o bando de parasitas do estado, nas autarquias, nos institutos, nas fundações. Pior ainda, os que até nem são oficialmente PS, mas mais papistas do que o papa, na escola de Pina Moura, Mário Lino, agora do patético António Mendonça (curiosamente, todos ex-comunistas fanáticos com quem lidei e de quem muito teria a contar).

Seja por iniciativa do PS seja por iniciativa do PR (que tem muita margem de manobra para influenciar a nomeação de um novo primeiro ministro, respeitada a proporção eleitoral), corram urgentemente com esse aldrabão. Se calhar, é uma das coisas com grande efeito na nossa credibilidade nos tais mercados. Ou melhor, talvez não, porque esses mercados predadores preferem quem lhes leve o prato à mesa, com muitos cumprimentos e vénias.

Ele é o nosso flautista de Hamelin. Tenham cuidado, não se queixem depois, à nossa boa maneira de carpir mágoas que não soubemos antever.

P. S. (2.10.2010) - Leio hoje que, para Sócrates, no caso de não passar o OE, "a demissão seria a única resposta possível, passando-se à oposição a responsabilidade de formar um novo Governo e apresentar uma nova proposta." Já chegou a tal ponto a submissão do PS a Sócrates? A derrota de Sócrates implica obrigatoriamente a vitória da oposição (diga-se PSD e CDS), porque o PS já é incapaz de gerar uma alternativa a Sócrates? E quando ele, certamente, perder as próximas eleições, como vai ser? Mantém-se como patrão do PS (a palavra patrão parece-me ajustada)?

18.7.2010

Calhordices!

1. Eu não disse isso!

Cada vez mais acho que a única maneira segura de comunicarmos é por fórmulas matemáticas. Mesmo discurso medido, escorreito, de "impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas", como dizia Graciliano - viva o acordo, porque os brasileiros escritores é que merecem - arrisca traição de retórico desonesto, disfarçado, encapotado, espertalhaço, empoadinho, capachinhado, engomadinho, ufa, faltam-me adjetivos. Duas notas atrás, deixei aqui expressa opinião simples mas julgo que sensata: "Sócrates, demita-se, para nosso bem e até do seu partido, avance outro dirigente do PS com alguma (?) credibilidade".

Essa exortação teve eco há dias, no debate parlamentar, mas na versão pórtica de uma saída para uma coligação PS-PSD-CDS sob direcção de outro primeiro ministro socialista. É óbvio que o meu escrito não apontava nada para isto, antes para uma abertura a entendimentos à esquerda ou, pelo menos, para a possibilidade de um governo minoritário com maior respeitabilidade para conversas (que bom, ao menos, poder-se conversar) à esquerda.

O PSD reagiu fortemente, não se dança tango a três. Pois não. O jotalíder do PSD tem tido tanto trabalho a entender-se com o jotalíder do PS para agora o espertinho, que ao menos não foi jotalíder e é muito melhor intelectualmente e em bom gosto, se querer dependurar no arranjinho?

É claro que quem viu o debate não acredita nesse arranjinho. Como eles se malharam! Os senhores são neoliberais! Os senhores querem é estado a mais! Mas tão amigos que nós somos… Há vinte anos, gente que eu detestava politicamente sempre era mais honesta. Em 83 chegou a hora de fazerem o bloco central, segundo entenderam, eu não, e fizeram, a mando do FMI. hoje, também estes estão a mando, pelo menos da sargenta prussiana. Estes hoje fazem o arranjinho à sucapa, se calhar em almoços de jaquinzinhos com natas, supimbas da sua cultura, pagos com cartão dourado por todos nós. Mas não confessam, fazem o triste espetáculo da oposição parlamentar, do solene e pimpão professor Assis (alguém se lembra do magnífico livro anedótico das histórias coimbrãs do Prof. Assis?), debitam ofensas ao cidadão que não é parvo, "só somos governo se o povo quiser". E se o povo um dia destes...?

2. Os palhaços do circo

Houve pelo meio a jornadice parlamentar do PSD, também em S. Bento, que fica bem ser economizado (e as despesas de representação? As despesas de telemóvel? Os contratos de serviços de consultoria?

Convidaram celebridades "independentes" (independente, hoje, felizmente que nem sempre, quer dizer intelectual que vai a todas, porque ninguém sabe quem é que dá o pão nosso de amanhã). São circo, com contrato de agência foleira com palhaços de lista de serviço. Independentes, bonito. Villaverde Cabral, homem tido como de esquerda, disse tais patetices que até nem consegui fixar, diluída a TSF no ruído do trânsito da segunda circular. Ernâni Lopes, agora economista de serviço, com a sua receita milagrosa, redução de 15-30% nos salários da função pública (sr. Professor, que tal dar o exemplo?). Faltou o velho guru Medina e o seu rapaz Crato, agora muito ocupado em aplicar a sua competência de matemático à presidência do TagusPark (de onde é que ele conhece o Isaltino?).

Também Campos e Cunha. É isto hoje a SEDES? Proposta genial, de atribuição de número de mandatos com desconto dos que correspondem ao voto em branco. Lendo bem, apenas para redução do número de deputados. Eu até aceitaria se fosse para contabilizar "deputados brancos" a valer para quórum. Mesmo assim, seria simbólico, porque os 3% de brancos, em que até me tenho incluído em eleições recentes, nem dão para um deputado, a não ser se concentrados em Lisboa e Porto. Também a sua proposta mirabolante de que, como no caso de Passos Coelho, um partido pudesse meter o líder pela porta de cavalo parlamentar quando ele não fosse já deputado. E este senhor é professor universitário, ex-ministro, opinador de serviço no "jornal de referência"? Andam a misturar mescalina na água das nossas torneiras?

3. A geração rasca chegou ao poder

O núcleo duro do socratismo é-me horroroso. Não bastava a carinha sorridentemente superior de Silva Pereira (sei que é muito inteligente, dizia-lhe o mestre-escola em menino), o ar de cultura de merceeeiro de Lacão, a pompa acaciana em versão nortenha de Augusto, o ar físico e mental de Droopy de Assis, a videirice do "mãozinha leve". No entanto, devo reconhecer que sabem alguma coisa da política, embora saber de segunda, de cábula. Pior (ou se calhar melhor, humanamente gente melhor) são aqueles que vão mesmo provocar remodelação, erros crassos de "casting" do primeiro.

O ministro Serrano, de quem ainda não se viu nada na agricultura a não ser a baralhada da nomeação de Apolinário jota como diretor geral. A do ambiente, como é que se chama? (pergunta venenosa, em política!). O eterno MCTES, Mariano Gago, que ficará em lugar triste na história da educação superior em Portugal, sem que a maioria dos cidadãos o percebam. A senhora simpática dos livros infantis, que toda a gente já percebeu que está lá para fazer esquecer a antecessora, sem dó nem piedade nem solidariedade para com quem pateticamente tudo deu ao chefe ingrato.

Pior os patetas, os que dão tiros nos pés, se desmentem, são trapalhões. António Mendonça tanto diz que se paga portagem em Trás-os-Montes como não se paga. Helena André que tanto assegura aumentos dos vencimentos da função pública como os desmente. Em ambos os casos, sempre por asneira de não terem sido bem ouvidos pelos jornalistas, como se desconhecessem que hoje um jornalista facilmente põe em antena as declarações gravadas, o "mãozinhas" que o diga. A minha patrícia Canavilhas (que azar, já me bastava o mãozinhas, como exemplo de ilhéus) merece nota destacada, a seguir.

4. A dama do baton rubro

A senhora não é para levar a sério, embora eu admita que a minha reação institiva contra ela é irracional, do que julgo vir de protesto do meu sentido de bom gosto. Creio que foi no governo do Santana (o único governante saneado por um subordinado) que houve umas secretárias de estado que parecia que só tinham como mérito o ar de tias de Cascais, de companheiras de Caras do inefável Santana. Sócrates foi buscar a Canavilhas. Alguém acha que aquele visual, ainda por cima arrebicadamente de mau gosto, tem alguma coisa por detrás?

A história da demissão do diretor geral das artes é surrealista. Ela queria demiti-lo e não o fez. Ele demitiu-se e ela veio dizer que estava muito feliz por ele se ter demitido, porque ele tinha feito um chorrilho de asneiras que ela desbobinou, como um comentador anónimo do Público faria no "site" do respeitável jornal. Afinal, demonstra-se que a principal asneira do diretor foi a abertura de um concurso que esgotou o orçamento do MC, por pressão da "linda Gabriela". E porque disse ela tais asneiras? Porque, como afirmado na comissão parlamentar, toda ela é transparente, sincera, coração na boca. E porque não o demitiu? Porque teria de pagar 44.000 euros de indemnização. Uma fortuna, comparada com os 5 milhões de euros que o seu ministério vai ter de cortar. Este país está louco?

5. Açorianos de antes e depois

Ainda na Assembleia da República, a apresentação do relatório final da comissão sobre o negócio PT-TVI. Doeu-me, por razões pessoais. Conheço Mota Amaral, o João Bosco, desde criança. Passeávamos pela avenida marginal discutindo cinema e literatura. Éramos ambos alunos exemplares do liceu. Afastamo-nos, eu a guinar à esquerda, ele à direita e a posições religiosas extremas que respeito. Nunca concordei com a sua política como presidente do Governo regional. Acho que, bem à portuguesa-salazarista ele se sentiu confortado no ego por se rodear de gente medíocre. Mas nunca o tive por desonesto, homem sem carácter e mantenho essa certeza. Ouvir ele ser entusiasticamente elogiado pelo nosso conterrâneo abafador fez-me imaginar que ele não deve ter dormido bem essa noite.

6. Cheiro a petróleo

Ia acabar, mas não resisto a nota final, embora apenas com "palavras para quê?". A Guiné Equatorial do supercorrupto Obiang quer entrar na CPLP, certamente graças ao enorme impacto da cultura lusófona nesse "país" e ao uso amplo da língua portuguesa. Dizem por aí que são sensibilidades especiais de Amado ao cheiro do petróleo, mas não acredito. Se não fosse coisa séria, não se teriam logo seguido as candidaturas da Ucrânia e da Suazilândia. E já me telefonou, interessado, um amigo meu do governo do Burkina-Fasso.

3.7.2010

Eu também sou brasileiro

Recebi de uma vaga amiga, e fez-me pensar, este “poema”. Começo por contextualizar. Ela é licenciada em letras, professora veterana de uma escola secundária, bibliotecária. Presume-se que seja pessoa culta e de bom gosto literário. E nem se presume, tem-se a certeza, de que é responsável por aconselhar aos nossos filhos leituras e reflexões sobre leituras, por lhes criar o gosto pela poesia, por lhes dar ferramentas críticas para um bom juízo do valor literário. Será?

Se eu pudesse deixar algum presente a você,
deixaria aceso o sentimento de
amor à vida dos seres humanos.
A consciência de aprender tudo o que nos
foi ensinado pelo tempo afora.
Lembraria os erros que foram cometidos,
como sinais para que não mais se
repetissem a capacidade de escolher novos rumos.
Deixaria para você, se pudesse, o respeito,
aquilo que é indispensável:
além do pão, o trabalho e a ação.
E, quando tudo mais faltasse,
para você eu deixaria, se pudesse, um segredo:
O de buscar no interior de sí mesmo a resposta para encontrar a saída.
(Gandhi)

(Nota - Não percebo por que raio é chamado o Mahatma; também estaria na moda Mandela, mas já vou por tudo em relação à capacidade de aldrabice. Pensando em brasileirices, já que o poema tresanda a “verde papagaio e amarelo caganeira”, quem já sabia disto de aldrabice, quem passeava baqueana pelo convés do Ita era o comandante Vasco Moscoso de Aragão, que eu não conheci mas gostava de ter conhecido, ilustre esplendor das marinhas lusófonas de cás e lás, de que fiz parte).

O texto é indigente, de filosofia de alcova ou de revista Maria. Relembro que termina chamando Gandhi como podia ser Cristiano Ronaldo. É coisa que até tem piada para exercício que fiz, pôr o texto corrido e partir “versos” ao acaso, para ver como soa. Dá resultados de rir às gargalhadas.

É uma brasileirice que nos deve fazer reflectir, porque condiz com o que hoje começam a ser para nós os brasileiros, reduzidos cá à imagem de exportadores de bispos e pastores de igrejas miraculosas, de jovens simpáticos/as sem habilitações para além de cabeleireiros/as e criados/as de restaurantes, esforçados, sem comparação com os que lá vão deixando, recordistas mundiais de malandrice, com tempo para não fazerem mais nada na vida do que difundir aldrabices na internet.

Corremos o risco de esquecer outro Brasil. O Brasil que conhece Eça melhor do que nós, comparando-o ao genial Machado de Assis. O Brasil de Alencar, Rui Barbosa, Heitor Villas-Lobo, Graciliano, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Jorge Amado, João Cabral, Josué de Castro, Glauber Rocha, João Ubaldo, etc., etc. Caso especial, de Chico Buarque, jovenzito que o vi da minha idade, figura tímida e frágil, a tocar no violão, teatro do Bairro Alto, a sua música de morte e vida severina, a dizer-nos que esta é a parte que nos cabe neste latifúndio. Chico que destaco porque hoje é para mim mais do que o músico que sabe como eu o que é morena de Angola, é principalmente o romancista do Budapeste, do espantoso Leite Derramado, do Benjamim que ainda não li e agora vou ler. Um grande escritor, um mestre da nossa língua comum, comum com ou sem acordo ortográfico, coisa menor e mera convenção, que não tira pedaço à virtude da língua (seja lá o que for uma língua virtuosa…).

Muito deste Brasil, na brasa da resistência ao salazarismo, era o único alimento de alma que tinha a minha geração, faltosa de arte pátria. Havia escritor luso que nos fizesse adormecer regalados com a leitura como Jorge Amado? Havia canções de protesto que nos animassem como as brasileiras? Por isto, e muito mais, sou brasileiro, "Senhora d'Aparecida".

Mas os brasileiros conhecem esse seu Brasil? Pergunta tão legítima como: os portugueses conhecem este seu Portugal? Não será que nos conhecemos cruzadamente? Quantos portugueses conhecem Eça como conhecia Dário Castro Alves? E quantos brasileiros já leram o “Viva o povo brasileiro”? Para já não falar, lembrando João Ubaldo, do deleite deste eu confessado, velho, leitor lúbrico - ponham as vírgulas onde quiserem - dos budas ditosos e admirador da Norma Lúcia.

Mais facilmente, quantos brasileiros conhecem mesmo os seus “tou aqui, meu”, Vinícius, Jobim, Gilberto, Chico Buarque, Ellis, para só falar nos imortais? Quantos, nas favelas, no sertão, na caatinga? Na terra em que esta cova “é de bom tamanho, / nem largo nem fundo, / é a parte que te cabe / deste latifúndio”? /// Já tinha dito isto, mas não há mal em repetir ///. Entre os milhares de “sem terra”?

Mais ainda, quantos portugueses percebem hoje o que é o lugar histórico, na crise económica mundial, na sua saída rapidamente por cima a ganhar lugar de grande superavit, de um Brasil muito brevemente potência mundial de primeiro plano, conduzido por um “pobre e inculto” metalúrgico chamado Lula da Silva (e achincalhado por uma pseudo-elite intelectual e snob em que tenho pena de ver gente como Caetano Veloso)?

Voltando ao início desta deambulação, o Brasil manda-nos o veneno diário da net, de aldrabice, mentira, desinformação, coisa que ainda não percebi por que vem tanto de lá. Manda-nos essas pirosadas inconcebíveis de filosofia rasca, de tudo gente boa, amor e paz, hippies com quarenta anos de atraso, “meu”, aqui vai poema bonito, tudo numa boa. Religiosidade postiça e filosofia pequeno-burguesa (melhor, pequenininho-burguesinha). Mesmo em termos de crendice, deslustra a genuinidade e a graça de coisa mesmo genuína, “meu padrinho Padre Cícero Romão Batista, mãozinha dada no céu com Nosso Senhor Jesus Cristo, ali logo sentadinho à sua direita”, como dizia o Zeca Diabo, vocação tardia de dentista gentil e sentimental depois de muita bala de morte matada. No meu laboratório, havia três frigoríficos com grande diferença de tamanho. Escrevi neles a sua identificação, Juju, Dodó e Didi. Lembram-se?

O Brasil é um mundo maravilhoso de contrastes, alegrias tristes de gente dançando com choro de pingo de violão, pingo de vinho tinto de sangue, a lembrar-me a “gente feliz com lágrimas” da minha terra. Solo farto que as gentes têm preguiça para explorar. Até um germânico como Stephan Zweig viu o futuro do Brasil, leitura minha de menino que recordo bem, “Livros do Brasil” que o meu pai “assinava”.

Lamento que algum Brasil, uma camada feita de tensões sociais estranhas entre a genuinidade popular e a gente de sucesso, um Brasil estranho e descaracterizado, o da “projecão social” telenovelística, em que vale mais o sonho da gata borralheira do que a inovação no trabalho, esteja a transmitir a um Portugal incapaz de crítica a imagem falsamente medíocre de um grande país que não a merece, a imagem de emigração pobre e pouco qualificada - mas tão simpática. Esquecendo um país em que devíamos ver um grande exemplo de alguma forma de grandeza portuguesa.

P. S. - Escreveu anteontem J. M. Correia Pinto, no Politeia: “… na América – a única parte do mundo onde Portugal foi efectivamente grande”. Creio que esta simples frase dele sintetiza todo este meu “post”.

16.6.2010

A crise é amiga de Sócrates

Esta comédia de enganos que foi a comissão parlamentar de inquérito ao caso TVI/PT foi mais uma machadada perigosa no prestígio residual do parlamento. Em época de crise, de desemprego crescente, de ameaças visíveis de tempos muito maus e prolongados de empobrecimento de fato das famílias, o descrédito das instituições, mais ainda, talvez, a tristeza com a democracia, abrem caminho a aventuras perigosas.

A história mostra-o, embora ela não se repita e não seja razoável temer fascismos como os que se conheceu na primeira metade do século XX. Mas será assisado subestimar o que se está a fortalecer como nova (?) mentalidade de direita agressiva em concepções económicas e sociais? Não dar por uma casta de jovens turcos feitos por outros que tais nas nossas escolas de economia, “yuppies” fora de tempo, ambiciosos, egoístas, não solidários, que hoje povoam as empresas mais importantes, nossas e multinacionais?

Voltando à comissão parlamentar, quem se deve estar a sentir completamente aldrabado é Pacheco Pereira. Também por sua culpa, porque se empenhou pessoalmente muito para além do que prudentemente lhe exigiria um mínimo de clarividência. De fato, desde logo se percebeu que o PCP e o BE não iam deixar de equilibrar vantagens propagandísticas com o cuidado de não perder o controlo da situação. Mais importante, quando Passos Coelho declarou que o PSD apresentaria uma moção de censura se a comissão concluísse que Sócrates tinha mentido, ao mesmo tempo que lhe dava o braço para aprovação do gravoso PEC-2, ficou óbvio - menos para Pacheco Pereira (ou terá sido jogo duplo combinado?) - que o relatório aos costumes diria nada. Pelo seguro, com uma ajuda extra do presidente da comissão, Mota Amaral, com o seu despacho sobre as escutas, mais papista do que o papa.

Assim, como vai em título, a crise é amiga de Sócrates, porque ninguém tem interesse em o substituir agora. Primeiro, porque seria penalizado por fazer jogo político em tempos de valores mais altos alevantados, depois porque ninguém tem interesse em gerir a crise. Todavia, esta amizade da crise por Sócrates é pérfida, envenenada, traiçoeira. É um jogo de marionetes a manter aparentemente em movimento um cadáver adiado.
Sócrates já não é primeiro ministro. Finge que governa, fala grosso, baralha cada vez mais o seu discurso, inventa coisas mirabolantes (como a célebre mudança do mundo em duas semanas), enquanto que, de fato, ocupa apenas o seu lugar de praça no pelotão político comandado prussianamente pela sargento Merkel. Ao menos Amado é mais transparente, curva-se às escâncaras às normas alemãs, agora fonte do seu pensamento constitucionalista. Antes passava por americanista, mas isso foi antes de Obama.

Sócrates já não é primeiro ministro também na perceção popular. Num país como o nosso, com a sua tradição de atentos e veneradores, a queda na vulgaridade da imagem do poder é o alçapão de Abranhos que se abre. Afinal, talvez mais do que a ação restrita da Rotunda, a monarquia caiu porque deixou de haver monárquicos. Sócrates vai cair porque deixou de haver socratistas. Já ninguém dá um tostão por pessoa tão desacreditada e tão desnorteada.

Por toda a parte onde ando, no trabalho, no café, nas filas do supermercado, pessoas desconhecidas metendo conversa, ou intervindo na comunicação social e na net, quase que inevitavelmente chamam Sócrates à piada. Não é a Sócrates primeiro ministro que criticam politicamente ou a que aludem pessoalmente, é a uma figura já caricata, que já não tem a auréola do poder, que já serve de chacota, que já é referência simbólica de aldrabice, mentira, ligeireza, falta de seriedade. O mais impressionante é que, nessa espécie de gozo popular, não aparece nunca quem também meta conversa para defender Sócrates. Será mesmo que toda a gente está de acordo em malhar ou ratar no homem? Deixou de haver socialistas, ou já têm vergonha de se mostrarem?

Como acontece tão frequentemente a “chefes” de pequena estatura intelectual e de carácter, sem capacidade de verdadeira liderança, Sócrates tem um grande talento para criar, manter e premiar uma corte de indefectíveis. É uma corte unida em sua volta por um instinto que já é cada vez mais defensivo. É uma corte que, vista com algum distanciamento, é uma mancha parda, de gente certamente inteligente mas que parece apostada em ver quem mais banalidades debita (ou mesmo patetices), seja Assis ou Lino, Silva Pereira ou Santos Silva, fora a tropa especial de Varas e boys, não faltando também o truão, mãozinha ao bolso. É uma corte tóxica, que seca tudo, que abafa a verdadeira vida democrática e a reflexão política, que leva a uma atitude de servilismo cívico e político os quadros partidários que deviam animar o PS, por este país fora.

Veja-se um exemplo notório, o do grupo parlamentar. Alguém se lembra num segundo de nomes de deputados socialistas para além de Assis, do inefável Ricardo e da nova vedeta (nova e já com tanto estilo partidário vicioso) Ana Catarina?
Essa corte e o seu chefe já foram tão longe no tecer a sua teia de poder que já não têm margem de manobra para o que ainda seria, a meu ver, a salvação do PS. Falo da demissão de Sócrates, por sua vontade e apresentação pelo PS de um candidato a primeiro ministro, o que não leva automaticamente à dissolução. Posso estar enganado, mas estou convencido de que, neste momento quente de crise económica e financeira, nem o Presidente da República usaria isso como pretexto para dissolução nem os outros partidos fariam fosse o que fosse para impedir a substituição do governo por iniciativa do próprio PS.

Disse que vejo isto como a última hipótese do PS. Se não, chegará inevitavelmente a queda de podre de Sócrates e do governo, sem alternativa que não seja a de eleições antecipadas. Parece-me que ninguém duvida da vitória do PSD, agora dotado de um líder que personifica claramente as expectativas da tal casta de direita pura e dura - mesmo que com fachada modernaça - e que chamará, por fator de novidade e de benefício de dúvida o voto de todo o “centrão”. Passando à oposição, o PS que o socratismo esterilizou entrará em crise partidária profunda, porventura fatal. E com riscos para toda a esquerda.

Estou a exagerar? Mas não se lembram do que aconteceu ao PS italiano? E a melhor prova deste estado quase agónico do PS é que, parecendo tão óbvio que a única salvação do PS é a de fazer Sócrates sair, não se vislumbra no PS qualquer movimentação ou qualquer pressão nesse sentido, nem sequer a sugestão pública de tal hipótese.

2.6.2010

Um crime ou um erro?

Poucas coisas me causam tantos “mixed feelings” como os judeus, a sua identidade, o comportamento de um estado por que são responsáveis. Penso sempre em me ter sido contada de menino a história de eu ter um trisavô judeu, embora isto pareça coisa distante e até, porque ele nem viu nascer a filha, sem essa trisavosice ter tido consequências práticas, culturais ou religiosas, numa família onde nunca ninguém deixou de comer carne de porco. Penso nas muitas conversas em que o meu pai me educava no antinazismo muito com base no Holocausto. Penso, ainda lembrando o meu pai, na sua admiração pelo contributo do povo judeu para a cultura da Humanidade. Penso na conquista filosófica-religiosa do monoteismo, em contraste com a ganga infantil da mitologia grega e romana.

No entanto, tudo isto tem muitos “emboras”. Holocausto, embora nunca tenha havido resistência judaica, com a notável exceção do gueto de Varsóvia. Embora seja cínico contabilizar o horror, foram seis milhões, quando se estima que mortos soviéticos, militares e civis, foram vinte milhões. Monoteismo, sim, baseado numa magnífica construção literária, embora muito distante das filosofias gregas que, implícita ou explicitamente (Epicuro ou Demócrito, por exemplo) foram muito mais além, no materialismo e na negação dos deuses. Israel é hoje a única democracia formal no Próximo Oriente, embora só formalmente, porque é um estado teocrático e objetivamente racista.

Tudo isto tem justificado, por vitimização, a história recente do povo judeu, em particular a política do seu estado. Talvez não por muito mais tempo, porque a memória do mundo não aguenta a confrontação com o grande sofrimento e remete os crimes históricos para o esquecimento: massacres de hereges, inquisição, genocídio de índios norte e sul-americanos, escravatura, colonialismo, nazi-fascismo, goulag, etc. Quando Pombal, Napoleão, até Salazar, já foram branqueados, só falta mesmo Hitler. Por outro lado, a crispação de opinião em torno de Israel vítima caía que nem mosca na sopa na bipolaridade da guerra fria, mas perde eficácia no mundo atual.

Hoje, a crítica a Israel deve ser outra. Deve-se reconhecer a Israel muita razão em muitas coisas, em muitos fatos da história, mas deve-se dizer claramente que nada disso justifica e muito menos desculpa a chantagem “afetiva” de Israel com base no Holocausto, nada disto justifica que Israel seja hoje o estado oficialmente terrorista que é. Pelo contrário, tudo o que os israelitas e os judeus têm como motivo de orgulho exigiria que, por esse orgulho e por questão de honra, a prática política de Israel fosse exemplar.

(Abro parênteses para explicar porque, no parágrafo anterior, escrevi israelitas e judeus. Escrevendo judeus, referia-me aos milhões da ainda atual diáspora que, mesmo quando inseridos nos seus países oficiais, constituem grupos de pressão internacional muito fortes em apoio da política israelita. Alguma vez se viu, até em relação aos acontecimentos de agora, uma declaração da comunidade israelita portuguesa de crítica à política do estado de Israel?)

Cumprindo a regra que enunciei, e antes de passar, nos finalmentes, ao caso atual, lembro coisas que abonam a favor de Israel, as tais que só se as reconhecermos é que impedimos que sejam usadas como álibis por Israel.
– Os judeus foram traídos pelo mandar para o lixo anglo-francês da declaração Balfour, no fim da I Guerra;
– Os árabes palestinianos não participaram na luta contra o império otomano liderada por Lawrence;
– Entre as duas guerras, foram os judeus imigrados que desenvolveram o país;
– A ideologia dominante dos imigrados, mau grado o espírito de povo eleito, era progressista e de inspiração socialista, ao contrário do conservadorismo feudal dos regimes árabes, em alguns casos perdurando até hoje;
– Na Segunda Guerra, os palestinianos, se seguiram o seu Mufti de Jerusalém, apoiaram o nazismo;
– A luta contra os colonizadores ingleses foi exclusivamente dos judeus;
– A decisão da partilha foi votada na ONU com os votos da URSS e das suas repúblicas membros da ONU;
– Em 1948, a partilha votada pela comunidade internacional foi posta em causa pela invasão dos exércitos árabes, resultando, com a sua derrota, num aumento significativo do território conquistado pelos israelitas (e alguma vez um ganhador de guerra devolveu território conquistado?);
– A guerra dos seis dias foi uma guerra preventiva justificável e a do Yom Kipur foi um ataque árabe traiçoeiro.

Dito e aceite tudo isto, repito: nada do que fica listado justifica o que Israel tem feito, multiplicado por muitas vezes, ao povo palestiniano. A palavra chave parece-me ser DESPROPORÇÃO. Cada judeu morto justifica 1000 vítimas palestinianas ou até libanesas, que nem foram chamadas a esta história. Veja-se até uma coisa cinicamente exemplificativa do “racismo” israelita e do desprezo pelos não-judeus: quantas vezes trocaram muitas vidas humanas, de “inimigos”, por um mero e apodrecido cadáver de um soldado israelita?

Vamos então ao acontecimento de anteontem. Deixo só algumas notas soltas.

1. Israel parece esquizofrenicamente alheio da opinião internacional. Há quanto tempo não se via uma condenação por unanimidade pelo Conselho de Segurança? Mesmo o governo de Obama, eleito com declarações de apoio a Israel, pede uma investigação rigorosa, fórmula que, longe de condenação, também está longe de um apoio.

2. O governo israelita é tonto? Neste caso, não lidou com o Hamas terrorista, atacou um navio turco, de um país que é, desde a fundação da NATO, um pilar essencial da política estrangeira dos EUA. Um país fundamental para se mostrar que o mundo islâmico pode ser formalmente democrático, laico e não fundamentalista. Um país com o qual a UE está a lidar com pinças e que certamente não perde para Israel na posição da UE.

3. Mas Portugal condenou? Posso estar enganado, mas ainda não li uma palavra lá do lado das Necessidades.

4. Lembram-se do Exodus? É triste quando vemos um filme a passar ao contrário. Também, a propósito, lembremo-nos do navio que foi simbolicamente “provocar” os indonésios no mar de Timor, com Eanes a bordo.

5. E Israel lança uma ação desproporcionada, em objetivos, com também desproporção de meios, uns poucos comandos. Cai no ridículo de os seus eficientes comandos apanharem uma coça de uns pobres diabos “armados” de paus, barras de ferro e garrafas partidas (isto segundo as próprias afirmações oficiais israelitas).

6. E foram provocados! Mas não é coisa elementar da política e da ação militar ou policial saber lidar com a provocação, sem reagir de forma a fazer com que a provocação tenha sucesso?

7. Atuaram em águas territoriais israelitas? Gaza e o seu mar são espaço israelita?

8. Foi tudo uma operação de luta política do Hamas? Talvez. Mas o resultado final é que, tendo o governo israelita (note-se, primeiro ministro de direita mas ministro da defesa trabalhista) procedido com tal infantilidade, o Hamas, com o qual até não simpatizo de todo, ganha em roda a linha. Esta história faz-me lembrar o dito célebre de Talleyrand: “Em política, pior do que um crime é um erro”.

P. S. - Vejo agora que o meu amigo e patrício José Medeiros Ferreira também se lembrou de Talleyrand.

17.5.2010

O ridículo mata - também a democracia

Todas as atividades, ou corporações, têm os seus tiques. Mais ou menos pomposos, mais ou menos ridículos. Servem muitas vezes como identificação para o vulgo, outras vezes como código, também como forma mais ou menos hábil de disfarçar a falta de uma resposta honesta. A prática parlamentar combina tudo o que de pior tudo isto tem, com a agravante do apelo bufão à habilidade para o aparte, o dichote, a exibição de uma cultura de teatro de revista, quando não de tasca.

Vem isto a propósito de um triste espetáculo que vi hoje, neste interessantíssimo e instrutivo palco que está a ser a comissão parlamentar de inquérito ao negócio TVI-PT, por onde têm passado exemplos dos restos caducos de gente paterno-amaralmente bem, outra gente de bem que são totós tontos de pera manca, boys como se sabe, novos dominadores que me assustam porque sobressaem muito bavamente como eficazes e inteligentes mas a quem eu não quero entregar o futuro dos meus netos.

João Semedo, do BE, fez uma justa e demolidora crítica ao comportamento da delegação do PS na comissão, como brigada bigodaço-farfalhuda de guardas de chanfalho em defesa trauliteira do chefe. Estou convencido de que, se a sessão não fosse aberta, os deputados do PS, pessoas que presumo minimamente honestas intelectualmente, ficariam calados e com atitude de modéstia. Exceto, claro, o meu patrício com estilo de Rabo de Peixe (onde há pescadores miseráveis mais dignos do que ele).

Todavia, manda hoje o código mediático. A sessão era pública e os deputados ficam como marionetas dependuradas das câmaras. Já toda a gente sabe que nos plenários dão caneladas videirinhas uns aos outros, interrompem os raciocínios com apartes patetas, dizem gracinhas estúpidas, só não fazem corninhos porque há ministros que se encarregam disso. A seguir vão para o bar e são muito amigos. De “panem et circenses”, temos hoje circo com fartura. É pena que falte o pão.

Dizia-se sempre que tudo isto era o mal do mediatismo, mas que, ao menos, se trabalhava bem nas comissões, fora das vistas. Voltando à cena de hoje, o que vi foi toda uma bancada, encabeçada pelo execrável “Ricardinho mãozinha leve”, a responder a Semedo como palhaços, melhor, como macacos de circo. Abanando o corpinho, galhofando, piscando o olhinho malandreco ao colega vizinho, tudo a dizer ao Zé televisivo, "que parvalhão é esse gajo". Mas o Zé já não vai nisso e aqueles senhores ainda não perceberam. Alto! Parei uns segundos, para reflectir. Talvez não tenha razão, talvez eu esteja a confiar demais no Zé, talvez eu tenha vício mental de "wishful thinking". Afinal, é seguro que o Zé não dê terceiro mandato ao Sócrates?

Olhando outra vez para aquele banco de meninos de velha escola primária, tudo cresceu de tontinhos de bibe até gente notável de hoje, uma Ana Catarina, um Vitalino Canas de quem não digo nada porque nada mais me parece ser do que um manga de alpaca partidário, um Osvaldo de Castro que renegou o que há muito tempo lhe deu algum mérito na vida.

Quando quero ir ao circo, pago bilhete. O pior é que, para este, estou a pagar bilhete sem me apetecer nada assistir ao espetáculo.

Este escrito é contraditório com o cuidado que habitualmente tenho de não diminuir o que devia ser o coração da nossa democracia, a sua ética republicana (que não se diminui pela crítica aos gouvarinhos, antes pelo contrário) e, neste caso, as suas instituições. Se escrevo isto, é como prefácio a futuro escrito - não sei quando, não é coisa de duas horas - de comentário a coisa que está a deixar muito perplexos os meus amigos.

É que um deles, o Correia Pinto do Politeia, terminou com provocação sibilina alguns dos seus “posts” recentes, com coisas tais como “… então este problema não pode ser resolvido através do voto. Tem que ser resolvido por outra via!” ou “… esgotou as possibilidades da sua defesa no quadro dos procedimentos tradicionais de legitimação. Doravante terá de ser por outra via…” ou ainda “Pois, mas vai ser preciso passar aos factos, melhor dizendo, aos actos…”.

Claro que isto suscita grande discussão, porque Correia Pinto não merece que se pense que ele sonha com gente nas ruas aos tiros revolucionários ao som da Internacional. Mas há rua e rua, há tiros e tiros e há toda uma teoria complexa - e uma variada prática - do que é uma revolução, da dialéctica do (não)querer e do (não)poder.

17.4.2010

Coisas da Igreja vistas por um ateu

José Manuel Correia Pinto, no seu imperdível blogue “Politeia”, alertou para um artigo do teólogo suíço proscrito Hans Küng, no El País, “Carta abierta a los obispos católicos de todo el mundo”. Também atribuo grande importância ao artigo de Hans Küng e, como Correia Pinto, estou a chamar a atenção para ele neste meu “site”. No entanto, isto não vai sem algumas notas.

Primeiro a relação entre a pedofilia padresca e o celibato. Não me convence inteiramente, embora ache justificável que Küng e outros agarrem esta oportunidade para chamar a atenção para a questão do celibato. A coisa é tão incómoda que, pelo lado oposto, o secretário de estado do Vaticano, cardeal Bertone, faz aquela declaração incrível relacionando pedofilia e homossexualidade, coisa sem fundamento científico. Mas compreende-se, é melhor para a Igreja admitir que tem padres "gays" do que pedófilos.

Sem qualquer base científica, só palpite de leigo, atrevo-me a pensar que a pedofilia tem muito a ver com uma patologia do sentimento de poder. Por isto é que, com o incesto com ela relacionado, é um sinal perverso da simbologia de poder familiar, tão vulgar nos estratos mais primitivos das nossas sociedades. E porque é que, mesmo em relação entre adultos, há alguns médicos que conseguem facilmente abusar das suas doentes? Ou executivos das secretárias? Por isto, só indiretamente é que relaciono o domínio pedófilo com o celibato eclesiástico, coisa amputadora da normalidade afetiva e do bem-estar da personalidade, propiciadora de compensações de agrado ao ego, como o poder. Durante séculos, o poder eclesiástico estava socialmente e institucionalmente consagrado. Além disto, o celibato resolvia-se com “os filhos de padre que chamam ao pai padrinho”.

Nos tempos modernos secularizados, o padre à antiga - que hoje os há muitos à moderna - tem de exercer o seu poder, medíocre e mesquinho, patológico, sobre os que lhe devem obediência no seu mundo fechado, a começar pelos indefesos. Não penso que seja uma coisa prioritariamente sexual, a não ser recuando na biologia até ao estádio animal em que o sexo é uma forma de poder e um instrumento da hierarquia “social”.

É certo que há uma margem de ambiguidade, aquela que Bertone tentou usar. Afinal, é tudo uma questão de homossexualidade? Certamente que a há entre padres, mas a aceitação atual da homossexualidade não faz disto, quanto aos padres, “cacha” jornalística. E se for tudo coisa entre adultos, para mim tudo bem. No entanto, repare-se que Bertone associa pedofilia e homossexualidade afirmando que muitos casos da pedofilia eclesiástica se situam na zona crepuscular dos adolescentes ainda legalmente protegidos mas já, de fato, conscientes. Mas como se define a idade da consciência responsável, nesta nossa sociedade culturalmente tão complexa? Conheço jovens de 14 anos muito maduros e responsáveis, outros de 18 totalmente acriançados.

Embora leigo, admito que haja uma inclinação especial para jovens, já não crianças, uma “efebofilia”, afinal a dos velhos gregos, que coloca problemas legais especiais. Por alguma razão uma pessoa bem conhecida não está no banco dos réus do processo Casa Pia e a “Catherine Deneuve” nunca foi acusada de crime. Mas também não haverá nesta relação erótica de velho e jovem uma relação de poder?

Outra nota, questão muito diferente, sobre os dois últimos papas, escrita por um ateu de fato (porque, em termos teóricos, há muito a discutir sobre o que é ser-se ateu). Com tudo o que me desgosta em Bento XVI, prefiro-o largamente a João Paulo II. Gosto mais de um cão de fila honesto na sua ferocidade do que de uma raposa matreira, de santidade de pau carunchoso.

Bento é obviamente muito mais elaborado intelectualmente do que João Paulo, coisa que me impressiona sempre. Bento é germanicamente transparente, brutal na sua determinação e no seu sentido de dever, um Torquemada moderno. Mas não esconde. João Paulo era provavelmente o mesmo mas com menor racionalidade e usando Ratzinger. Bento fala de Deus e de Cristo, como os velhos cristãos, não parece ter os problemas psicanalíticos da relação de João Paulo com a Virgem ("Totus tuum", não é saudável!), essa devoção mariana que primitiviza a religião a nível uterino. Bento é tocantemente tímido, não está à vontade no mundo mediático. João Paulo era um ator, com aquela margem de dúvida que nos fica sempre ao nos lembramos de que “o poeta [mais o ator] é um fingidor”. Enfim, para bem ou para mal, provavelmente para mal, Bento é pateticamente genuíno, João Paulo era uma personagem patética de outra forma, uma personagem em busca de autor para uma peça que cada vez está mais fora do nosso tempo.

Nota 1 - Gostaria de ver os meus amigos católicos discutirem uma coisa que se tem escamoteado, a meu ver. Quem acabou por condenar ao fracasso, na prática, o espírito de renovação do concílio Vaticano II, que só acompanhei indiretamente, por conversas com os meus pais, exemplo de “católicos progressistas”? Há muita gente que vejo pensar que foi João Paulo II. Mas não terá antes sido Paulo VI, o da “Humanae vitae” e da recusa de qualquer abertura da Igreja a uma reflexão sobre a sexualidade e, por extensão, à questão doméstica do celibato eclesiástico?

Nota 2 - Diz-se que há muitos padres que consideram o seu celibato como uma forma de entrega a Deus e à sua missão sacerdotal. Devo respeitá-los e em nada os atinjo com o que escrevi. É como o aborto. Legalizá-lo não é torná-lo obrigatório. A eliminação da obrigação do celibato obviamente que em nada prejudicaria a opção pessoal daqueles padres, opção que eu não adotaria mas com a mesma liberdade individual que se alimenta e só se justifica com a liberdade dos outros.

17.3.2010

Vergonha de ser açoriano

A mediocridade política e a miséria intelectual de muitos agentes partidários destacados atingiu hoje ponto de me indignar, coisa de que a idade me tem defendido, ou pelo menos moderado. Pior, foi por voz horrorosa de alguém que me envergonha quando me confesso ilhéu e micaelense, uma inefável figura pontapeada para cima, para o parlamento, depois de queimado no governo regional dos Açores que nem filamento fundido (melhor era que fosse como dizia o meu filho H em criança, que uma lâmpada estava f...).

Chama-se Ricardo Rodrigues (RR), ofende a graça do nosso sotaque, se pudesse saneava-o de meu patrício. Ofende a grandeza de alma do homem açoriano, a sua honestidade matricial, a seriedade do ilhéu que não precisa de cartório porque basta a palavra e um aperto de mão.

Este homem tem uma enorme crónica de histórias estranhas, misturando alegadas videirices misturadas com também alegadas demonstrações de incompetência profissional. Não garanto, são coisas que se dizem, mas que neste caso, lá pela ilha, se dizem em alta voz. Foram postas no papel por um jornalista, a quem o homem processou mas que um juiz absolveu, numa sentença histórica, por entender que porcessos ilibatórios por razões meramente formais não fazem prova contra coisas que andam pelo domínio público. Todavias, legalmente o homem é um anjo imaculado, como o seu chefe, que não comete crimes mas faz aldrabices que lembram Talleyrand, “em política, pior do que um crime é um erro”.

O que isto me lembra é uma velha história académica, sobre uma tese, dizendo o arguente que “o que é bom já é velho, o que é novo não presta”. RR diz coisas espertalhaças, no parlamento. O que é razoável, é velho. O que ele debita dia-a-dia é confrangedor.

Pior, estas coisas misturam inteligência e honestidade. Se RR percebe bem o que diz e o faz conscientemente, é desonesto. Se não, coitado, não é inteligente. Mas a nossa constituição requer que um deputado seja inteligente? Além do mais, pensando em termos de lógica formal, esse “ou” pode não ser um “ou” exclusivo. Quase que aposto que não é. As coisas não são tão lineares, há inteligência e espertice. E por aí íamos longe, chegando ao engenheiro espertalhaço, com discussão longa sobre o que isto tem a ver com seriedade, mas vamos ao caso de agora.

Como toda a gente sabe, há uma comissão de inquérito sobre o caso TVI/PT/governo. Como toda a gente sabe, coisas cruciais são saber se José Sócrates "encomendou" o trabalho aos seus boys na PT, se JS sabia e quando soube, se, por isto, mentiu ao parlamento quando disse que não sabia. Obviamente, nenhum inquérito dispensa, até para defesa do próprio, que JS seja ouvido .

No entanto, o inefável RR acha que é um escândalo que um "alto magistrado da nação" (raio de linguagem, não tresanda a salazarantigamente?!) seja interrogado por deputados. Daqui a pouco, está a defender que o poder executivo controla e fiscaliza o poder legislativo, com Montesquieu às voltas no túmulo. Vai daí, justificando-se por a oposição querer fazer deste inquérito um processo de tribunal, ameaça claramente que o PS vai usar todos os meios dilatórios que se usam nos tribunais (processo Casa Pia?).

Pior, como se o cu tivesse a ver alguma coisa com as calças, requer que Manuela Ferreira Leite também preste declarações. Espantoso: MFL tem alguma coisa a ver com o caso TVI/PT/governo? É administradora da TVI ou da PT, é boy de JS, é membro do governo, é suspeita de ter mentido ao parlamento?

Com gente desta, o PS e a corte de JS, chefe e cortesãos que secaram o PS (se é que ainda havia algum sumo para secar), estão a dar tiros nos pés. Peguem nesse tipo e devolvam-no às minhas ilhas. Todavia, tenho sentimentos mistos, como açoriano. Que culpa têm os meus patrícios, para terem de se cruzar na rua com o homem? Mandem-no é para o ilhéu de Vila Franca, com uma tenda de campismo e umas rações de combate. Pensando bem, acho que não, porque o Ilhéu de Vila Franca é uma maravilha para visitantes de S. Miguel. Para a Terceira, para os Ilhéus das Cabras!

17.3.2010

Alta Comissária

O Ministério da Saúde parece ter muito que se lhe diga. Não vou por más línguas, mas todas me dizem que é um saco de gatos, em que todos só têm relações institucionais, correctas para quem vê de fora, mas de cortar à faca lá visto de dentro.

Escrevo isto porque hoje tem aparecido em grande evidência na televisão a Alta Comissária para a Saúde. Talvez me julguem adepto da teorias da conspiração se lembrar a coincidência disto com uma reunião importante sobre a Sida nos PALOP, da responsabilidade da Comissão Nacional da SIDA. Mas, se pensarmos no que são as relações entre a comissão e a alta comissária, já não digo nada.

Esta coisa da alta comissária é herança de Correia de Campos, homem e amigo que estimo mas a quem não deixo de imputar graves responsabilidades de acção ministerial, essencialmente bem intencionada mas muitas vezes insensata. A hierarquia do aparelho político, em qualquer ministério, é simples: ministro, secretários de estado, directores-gerais ou equiparados (por exemplo, presidentes de institutos públicos). Na saúde, há ministra e secretários de estado. Há directores gerais e de institutos. Mas, no meio, aparece esta alta comissária, que não é governante mas que também é mais do que dirigente, o que só complica as relações funcionais. Eu sei porquê, porque, no tal saco de gatos em que ninguém era amigo de ninguém, se inventou esta solução. Custa uma remuneração choruda, custa opacidade funcional.

E quais as qualificações da alta comissária? Mais do que a mais notória, o “backup” de quem tem por maior génio ir a todas, prémios, prebendas, pompa e circunstância, bem com todos, mandatário de um e depois do seu oposto? Não sei dizer porque, sabendo googlar, não consegui encontrar o CV da alta comissária, a não ser um pseudo-CV, uma coisa insípida no sítio do comissariado. Parece ser uma pediatra competente, mas isto basta para o poder que tem?.

Aqui fica uma recomendação: todos os directores gerais e equiparados, mormente os ainda mais altamente colocados, mais os administradores de empresa nomeados pelo governo, devem ter o seu CV acessível na net.

P. S. - A confusão institucional prolonga-se para baixo. No Instituto Nacional de Saúde há um presidente e há laboratórios bem identificados. Mas, pelo meio, aparecem uns cargos não sei bem com que justificação (até porque nem sequer são para "boys") de uns coordenadores intermédios. Se lerem as minhas notas sobre a gripe, verão que podem ser prebendas para incompetentes.

Há pouco tempo, ouvi uma pessoa excelente e muito educada, mas na tensão de uma ocasião solene, dizer "mas por que raio" e "se não nos pomos a pau", o que lhe ia valendo - está escrito em acta - um voto contra de uma sumidade científica de antigamente (não tão antigamente quanto se possa pensar). Hoje sou eu que escrevo coisas destas. Por que raio acontecem coisas destas? E o que virá mais, se não nos pomos a pau?

10.3.2010

Bom gosto

Tenho recebido de várias fontes esta pérola de qualidade intelectual. O brilhante e genial administrador da PT por via jotesca, Rui Pedro Soares, gasta aos deputados - e a todos os contribuintes - largos minutos de conversa sobre as suas e familiares filiações portistas, de Bimbo da Costa. Tão ridículo, provinciano, pimba, que, ao princípio, duvidei, até porque tinha visto a audição e não me recordava desta passagem. Depois lembrei-me de que tinha visto na diagonal, muito ocupado com trabalho e que podia ter falhado esta cena.

Não sou técnico de imagem, mas, dando o benefício da dúvida, tenho-a passado repetidamente, a analisar pormenores. Estou convencido de que não é trucagem. As vozes, dele e de Marques Guedes, parecem-me inconfundíveis. O texto é perfeitamente compatível com o movimento dos lábios.

Portanto, o jovem "boy" jota deve mesmo ter dito isso. Se o disse, e tendo revelado ao longo da audição uma grande esperteza associada a igual malandrice, ambição, vaidade e amoralidade (mistura explosiva que está a corroer a ética republicana), foi lapso só compreensível por estar "à rasca". E porque é que nenhum deputado o interrompeu para perguntar uma coisa óbvia, "está a gozar connosco?"

O que me leva a outra coisa. A seguir, ouvimos homens respeitáveis, Granadeiro e Bava. Ambos aos costumes disseram nada sobre uma coisa essencial: como é possível que a maior empresa portuguesa, a única cotada em Wall Street, tenha como administrador, executivo!, tal garoto? E foi Granadeiro que, oficialmente, o propôs. Depois, vem falar no perigo dos fretes ao governo? Não foi frete propor tal administrador? E os accionistas de referência aceitaram sem discutir? As relações entre governo e empresários já são relações de chulo e prostituta (sem que eu saiba quem é um e outra)?

Achei curioso serem homens tão diferentes os dois presidentes da PT. Granadeiro conheço há muitos anos, português senhor e inteligente, típico, de bom gosto, comparável ao que tinha sido na véspera a exibição de "gentleman" de Balsemão, mas Granadeiro em posição mais desconfortável, a não conseguir desfazer inteiramente a ideia de que estava "a fazer o frete", ao contrário. É que a Impresa não tem "golden shares" do Estado. A meu ver, Granadeiro estava a fazer o frete. Certamente com desgosto, via-se na cara, mas cada um engole os sapos que quer.

Bava é o espertíssimo empresário, sem preocupação de boas maneiras (ou não usaria aquele visual...). Como é que ele conseguiu fazer da audição, com vénias vergonhosas dos deputados, uma excelente sessão de propaganda gratuita da PT, até com o estafado pormenor publicitário de que a PT não trabalha com "raspas de fibra"? Já não bastava a propaganda ao Magalhães feita pelo Sócrates na cimeira ibero-americana? Tuga, nascido ou até importado, tem mesmo de ser Oliveira de Figueira?

Sempre achei que, se houve fúria liberal nas privatizações, que ao menos, em empresas de interesse público, houvesse uma "golden share". Hoje tenho dúvidas. A "golden share" serve para mais alguma coisa de interesse público do que alimentar a máfia dos "boys" e, a nível superior, dos negócios de ex-ministros?

A propósito, propunha uma regra: ao fim de seis meses de saírem do governo, todos os ministros deviam tornar público qual é a sua situação actual, profissional, para-profissional ou de posição accionista. O que é que fazem hoje Manuel Pinho ou Mário Lino? Alguém sabe? De Vitorino e Pina Moura soubemos.

PS 1 - Como se vê, esta triste figura dá comprida corda para se enforcar. E como "assim se fazem as cousas", deixemo-lo enforcar-se com grande gozo nosso, sem coisas da geral misturadas com a peça. Não vale a pena inventar que a criatura é sobrinha de Mário Soares. Quem conhece a família Soares/Barroso sabe bem que isto é invenção que só serve para baralhar a história. Malefícios da net, contra tantos benefícios. A quem serve isso? Quando se mistura uma mentira óbvia a uma história verdadeira, a reacção pode ser "se há esta mentira descarada, o resto da história não será também mentira?"

PS 2 - "Boys" foi termo hoje usado pelo Ministro das Finanças para qualificar os presidentes de juntas de freguesia. O governo está todo louco, até um homem aparentemente maduro e sensato como Teixeira dos Santos? Já escrevi que acho que, neste tempo de crise em que a governação está paralisada (digam-me um decreto ou medida importante nestas últimas semanas), seria muito mau um tempo eleitoral. Diferente é o PS decidir urgentemente substituir um governo esgotado e paralisado, com um dirigente máximo que vai levar o partido ao suicídio. Mais, a maior distância, vai levar também à derrota a candidatura presidencial de Alegre, agora prasticamente a oficial do PS.

PS 3 (13.3.2010) - À enésima recepção do tal vídeo, cada vez mais duvido da sua veracidade. Todavia, não retiro esta nota porque há nela muita coisa que se mantém, mesmo em relação a RPS. Dê-se só o desconto do episódio pimba, possivelmente falsificado.

10.3.2010

Boa gestão

Começo por declaração de interesses: açoriano desterrado mas interessado na vida das minhas ilhas, tenho dado sempre o meu nome como sinal de apoio às candidatiras de Carlos César. Claro que não fico hipotecado, como se verá a seguir.

Passei recentemente por um problema oftálmico que me obrigou a fazer na excelente clínica do meu colega e amigo Pedro Abrantes, na CUF Descobertas, um exame à retina, OCT (tomografia de coerência óptica), hoje uma banalidade, cerca de 500 exames por ano só nessa clínica. A marcação que me tinham feito ficou perturbada por causa de quatro clientes prioritários. Enquanto esperávamos, alertou-me o ouvido para coisas familiares, um sotaque cantado, conversas sobre as Quatro Ribeiras e os Biscoitos. Claro, eram terceirences.

Tinham vindo a Lisboa porque nos Açores não há nenhum aparelho de OCT. A cada um, o governo regional pagou a passagem (cerca de 300 euros) e mais uma ninharia de alojamento, mas todas, senhoras, tiveram de pagar do seu bolso a viagem do marido, a fazer-lhes compreensível companhia. Disseram-me que isto se repete todas as semanas.

Quando fui atendido, conversei sobre isto com a minha colega especialista neste exame e perguntei-lhe qual era o preço do equipamento. Não pude acreditar, mas, chegado a casa, confirmei na página da Zeiss: cerca de 75000 euros! Façam as contas àquela despesa semanal dos quatro doentes, despesa para o governo regional e também para os próprios. Em poucos meses, estava amortizado o equipamento. Pode-se pôr também a questão da contratação de pessoal especializado, mas, segundo a minha colega, ela própria especializada, qualquer oftalmologista adquire em pouco tempo treino nesta tecnologia.

Ninguém é responsabilizado por tão inconcebível incompetência de gestão?

25.2.2010

Bom senso

O português comum tem dificuldade em usar com bom senso a justa medida. Se está zangado, não se limita a manifestá-lo, não controla a situação, recorre a outros, tem de pedir “agarrem-me, se não eu mato-o”. Não sabe nunca que o ótimo é o inimigo do bom. Que o exagero retórico é inimigo da compreensão simples e fácil do argumento. Que o excesso de acusações dilui a acusação essencial e confunde o problema. Tudo isto me parece óbvio no actual caso de Sócrates, que já nem sei bem como designar (vêem, é sinal da tal confusão).

Com o suceder de porcarias que se pegam magneticamente aos fatinhos Armani do homem antes das sapatilhas, jornalistas, bloguistas, conversadores de café, toda a gente quer apanhar o homem em ilegalidades. Claro que não o conseguem, mas será que isto é essencial? Não é uma forma de cobardia cívica, alijar para a justiça a responsabilidade de correr com o homem de triste figura? Não basta, para a ética republicana, que ele minta, que faça raciocínios sofismáticos, que não tenha rigor no seu percurso de vida, enfim, que não seja sério?

Parece que não basta. Perdeu a maioria absoluta mas ganhou as eleições. Fez uma corte de validos no partido, secando todo o terreno da crítica e da reflexão. Está a dar uma imagem do país que terá consequências perigosas na actual situação económica internacional e não aceita que lhe digam “não seja tão casmurramente autocêntrico, pense no país, veja que o seu tempo acabou”. Mas também quem lhe diz isto?

Voltemos aos exageros. Indícios de atentado ao estado de direito; liberdade de expressão em risco. Tolice. Porque é que só pensamos em termos pomposamente jurídicos? O que está aqui em causa é uma manobra política desavergonhada para resolver alguns pequenos casos de jornalismo ("problemas") que fazem comichões ao enorme, caricato, mas perigoso, ego do Senhor Sócrates (nunca ninguém foi tão mal batizado). Política, insisto, não jurídica. Ainda por cima, usando armas desmesuradas, a fragilizá-lo em consequências, para “resolver” coisas tão banais como um telejornal de óbvia mediocridade ou a posição do marido da dita cuja ou a má qualidade de um director de jornal que era motivo de chacota pela sua incapacidade de disfarçar a pequenez mental. Tanto trabalho, tanto esforço de "boys", de Zagalos (que até nem consta que ganhassem como administradores de grandes companhias), para tão pequenas coisas? Triste país, em que “assim se fazem as cousas”.

Disse o mestre de malandrice Talleyrand que, em política, pior do que um crime é um erro. Parece que isto não vale em Portugal.

O que mais me confrange em tudo isto é tratar-se de ópera bufa, com música desafinada e péssimo libreto. As personagens, José Sócrates (JS), Armando Vara (AV), Rui Pedro Soares (RPS), Paulo Penedos (PP), treinaram-se numa escola de teatro de aldeia que dá por nome de JotaS. A meio da peça, passa um compère ridículo, um certo Mário Crespo (MC). Só ainda não consegui perceber porque não entra o velho Medina Carreira, ajoujado a Nuno Crato.

Por onde começar a lista das asneiras? Talvez por coisa muito simples, exemplarmente estúpida. Toda a gente fala de escutas, mas não se interroga porque são elas tão importantes. Tenho o palpite de que, se eu quisesse fazer aldrabices, ninguém me apanhava em escutas, pelo simples facto de que, nos anos 60s, na minha vida de regras conspirativas políticas, nunca eu diria ao telefone as coisas que esses jotas, arrogantes, sobranceiros, senhores do mundo, se permitem dizer.

E há alguma dúvida sobre o que esses meninos conspiraram? Correr com o director de uma estação televisiva, extinguir um noticiário, usar uma empresa semi-pública para controlar a tal empresa televisiva. Crime? Claro que não, "só negócios", mas coisa execrável em termos de ética democrática. Lembro outra vez Talleyrand, que até nem era nada um modelo de virtudes e de integridade de carácter. Eu não tenho razão para pensar que JS vista um dia destes um uniforme de presidiário. Mas tenho razão para ainda esperar que os meus compatriotas, num daqueles levantamentos que de vez em quando dão na veneta ao Zé, mande o videirinho governar-se em negociatas aldrabonas para que está vocacionado.

Há dias, André Freire - que não é certamente um dos académicos bufões da corte socrática - socorreu-o com uma dúvida teoricamente aceitável. JS conhecia a tramóia ou foi tudo coisa de discípulos zelosos, mais papistas do que o papa? Afinal, quem é o chefe tão referido nas escutas, não será Zeinal Bava? Não brinquemos. Gente como PP ou RPS querem apresentar serviço, borram a pintura, tomam iniciativas mas que não vão para além do aluguer do jato de executivo e de pagar uma viagem à secretária para lhe ir levar a Madrid o computador esquecido. Ao mesmo tempo, defendem-se, são cobardes, não arriscam a vidinha. Não fazem nada sem cobertura do chefe. Mas, se molharam a pata, o chefe só tem a fazer é desautorizá-los, o que JS ainda não fez. Menos ainda aconselhou, publicamente, a sua demissão de lugares que ocupam imerecidamente, por razões jóticas.

Voltando aos exageros, o caso mais ridículo foi o do inefável Mário Crespo, feito herói por toda a blogosfera e pelas cadeias de "mails" (que, no meu tempo, eram de postais e "santinhos" de S. Judas Tadeu). É como disse, que MC seja também espertalhaço pouco sério, que venda logo um livro de sucesso, mas que não ofenda a nossa inteligência. No meio desta incrível porcaria de manobra reles partidário-socrática, JS teve a habilidade de dar um grande presente a MC. Falar dele naqueles termos, em público, em voz alta, numa mesa em que estava a mulher de um político que "adora" JS, reforça o que eu disse. Isto está tudo louco. Ou melhor, está de tal forma irresponsável que já nem é preciso ter-se cuidados inteligentemente mínimos.

Não devia falar de aspectos pessoais de MC, talvez irrelevantes para o caso actual, mas não resisto. Fazer de MC um exemplo de jornalista exemplar vítima da repressão da liberdade de expressão é de fazer rir. As suas entrevistas com seja quem for poderoso sempre foram exemplo de atitude veneradora. A mim, entrevistou-me uma vez com grande dificuldade minha porque nunca tinha “dialogado” com jornalista tão mal preparado sobre o tema da entrevista. Há semanas, deu uma longa entrevista em que confessa a sua oposição, à época, ao 25 de Abril e em que mostra grande admiração por Kaulza, de quem foi assessor de imprensa durante a guerra colonial. Isto são credenciais para se arvorar em herói da liberdade de imprensa?

A sua célebre crónica “censurada” parece-me a negação da boa prática jornalística. Um jornalista é isento, objectivo, imparcial, procura sempre a outra versão dos factos. Como classificar uma crónica em que o jornalista só fala de si próprio? Apesar de fora do meio, creio que teria feito como o director do Jornal de Notícias. Ainda por cima, não era um artigo de jornalista, era uma coluna de opinador. Quantas vezes já me aconteceu artigos meus serem recusados, porque fora do espírito editorial do jornal, sem que alguma vez me tenha passado pela cabeça que era censura? Será que MC, nos seus tempos kaulzianos, nunca aprendeu o que era verdadeiramente a censura? E, se admitirmos que foi alvo de censura, em que é que JS está metido nessa censura? E ficou, como diz, sem um jornal para escrever? Já procurou outro ou mais vale passar por vítima e vender livros? Não dispõe de pelo menos três programas na SIC-N? Objectivamente, pessoas destas, pelo seu papel de oportunista malandreco, acabam por ajudar JS, oferecendo-lhe um bom fato de camuflado.

Volto aos exageros. A comissão parlamentar faz muito bem em ouvir testemunhos. Mas vá ao miolo, esmiuce muito bem o caso JS/boys-PT-TVI, não se perca com podres diabos como MC, que só confundem o essencial da questão. Mais, e principalmente, não se refira a um problema de liberdade de expressão em risco, coisa obviamente delirante. O que está em causa, centrado nas videirices dos amigos jotas, com provável conivência de JS e AV, já é suficientemente grave, politicamente, para dispensar invocações constitucionais que podem diminuir por ridículo a vilania do caso.

Em todo este caso, também não se sai nada bem a PT. Granadeiro mete as mãos pelos pés, confunde datas, não se livra da imagem de defensor de JS, até se diz corneado, plebeísmo pouco de esperar da sua elegância. Zeinal Bava aos costumes diz nada. Mas, essencialmente, como é que a maior empresa portuguesa aceita como administradores os boys que JS lhes impingiu? Será muito instrutivo ver as relações de dependência em relação ao governo dos grandes accionistas da PT, os que, em assembleia geral, elegeram homem de currículo tão notável como RPS. A promiscuidade da política e das empresas está a ser escandalosa. Pina Moura era o melhor gestor que a Iberdrola podia escolher? Jorge Coelho idem, em relação à Mota Engil?

E, desvariando, como é que Joe Berardo tanto malha em Jardim Gonçalves (será coisa de complexos de classe, entre madeirenses?) mas ao mesmo tempo assegura o ordenado chorudo de Vara? Coisa de quem depende da Caixa que aceitou como penhor de um empréstimo as mesmíssimas acções, ainda virtuais, que iriam ser compradas com o tal empréstimo?

A lista de quem não se sai nada bem com esta história é longa, mas não se pode esquecer Pinto Monteiro. O seu caso é grave porque, segundo toda a evidência, é um magistrado que mentiu. O que sempre disse foi que as escutas que os magistrados de Aveiro julgaram incriminatórias eram as que envolviam, mesmo que fortuitamente, o primeiro ministro e que, por isto, submeteu ao juízo do presidente do STJ. Afinal, são escutas entre AV, RPS e PP. Pinto Monteiro mentiu ou não? Cada vez que fala, mais confunde. Eu só quero ouvi-lo dizer se mentiu ou não, em relação àquela coisa muito simples.

Com tudo isto, alguém - principalmente no PS - desliga a ventoinha JS, para que o esterco não se espalhe mais?

P. S. - Um abraço a Ana Benavente, uma voz única no PS. Pobre PS, que parece a imagem célebre dos três macacos, não vejo, não ouço, não falo. Um PS que vai naufragar com JS, num impulso suicida inconsciente. Será que Unamuno tinha razão?

P. S. 2 (19:20) - Estou a ouvir a audição de RPS. Ouvi ontem PP que, por comparação, é menino de coro. RPS é visivelmente muito inteligente. Quando esta qualidade se mistura com a arrogância, com o desprezo pela inteligência dos outros, com uma vaidade evidente, até com má educação, essa mistura é explosiva de porcaria, de mau cheiro, de canalhice. "E o peixe podre gera os focos de infecção!"

10.1.2010

Coisas simples

Enviei hoje esta mensagem aos amigos do meu "inner circle":

Uma esquadra da PSP, no programa Idosos, acompanha e garante a segurança dos velhos sozinhos. Provavelmente se passa o mesmo por todo o país, mas refiro-me a este caso por ver uma reportagem de uma meia dúzia de polícias se ter cotizado para comprar um bolo e ir cantar os parabéns a uma das suas velhinhas, que chorava convulsivamente de comoção, entre muitos beijos aos fardados. Não é preciso muito para transformar este país num país decente. Bastam muitas coisas pequenas destas. Mas também que as elites, a começar pelo governo e dirigentes, tenham a sensibilidade humana desses polícias. Admito que isto possa parecer demagogia, mas o nosso povo não merece as elites que sustenta e para cuja formação pagou bem.

Respondeu-me o meu amigo José António:

Meu caro, grande verdade que acabas de dizer.
Eu sou, por contágio com a Teresa, uma pessoa muito mais preocupada com a solidariedade social efectiva do que era há uns tempos. Com aquela que se pode fazer à nossa porta, no nosso bairro.
Evidentemente que há sempre aqueles desejos de ajudar os pretinhos em África que é mais colorido para as tias e há que não esquecer, também para as nossas mentes bem pensantes, mas de facto há um grande conjunto de atitudes diárias, quotidianas que podem tornar a vida menos infernal às pessoas que nos rodeiam e por ricohete a nós também.
Grande exemplo, é no fundo o que gabamos à polícia dos Ingleses.
Eu que sou por herança cultural, anti-policial, começo de facto a mudar de opinião, será a idade ???
Ultimamente tem-me acontecido uma coisa interessante.
Tenho cumprimentado sistematicamente alguns vizinhos que conheço "de vista" quie me retribuem o cumprimento mais simpaticamente do que estaria à espera.
De facto o ar carrancudo dos outros é o mais das vezes o espelho do nosso próprio ar de poucos amigos...
A pensar todos os dias ao erguer do leito matinal...

Respondi, e por aqui me fico:

A primeira resposta à minha última mensagem. Subscrevo. A minha primeira reacção foi a de pensar "é a idade, estamos mais sábios". Felizmente, não é verdade, não é nenhum exclusivo de idade. Este meu amigo é uns anos mais novo do que eu e a sua Teresa, a que se refere, é bastante jovem, comparada comigo. Há, em todas as idades, é quem perceba a mudança e se adapte ou até a faça ainda mais avançar e os conservadores de todas as idades. Hélas, eu professor universitário conheço-os ainda tão novinhos e já tão engravatados!

E o que é a mudança hoje? Pese-me ou não na memória e na vaidade das lutas antigas, já não é nada o código rígido das ideologias. É coisa muito mais flexível, neste tempo que creio ser de adivinhar uma mudança de civilização. Mas se calhar ainda valem os clássicos: "liberté, égalité, fraternité", relido hoje como "liberdade só limitada pela liberdade do outro, principalmente do outro diferente; igualdade de oportunidades e estímulo do mérito; solidariedade social". E também, se o conseguirmos ler num metadiscurso que esbata o objectivo panfletário honesto e historicamente muito importante mas agora datado, o Manifesto Comunista.

Mas talvez, acima de tudo, e foi o que me impressionou na história que motivou a minha mensagem, sermos bons, a um nível muito básico. A nível superior, lermos e aprendermos alguma coisa com os mestres epicuristas e, desde logo, importante neste país, começarmos por lutar contra essa coisa horrorosa instalada que é a aceitação passiva de "não se ser sério".

E a afectividade, senhores, o desejo de dizer uma graça à velhinha, de fazer uma festa à criança, de ficar a ver o amor de um casal de namorados, de deixar pingar uma lágrima perante uma cena comovente, de apetecer pagar a posta de bacalhau do velho que a vai devolver no supermercado, em dia de consoada sem dinheiro para a pagar, que bonito!

No meu tempo de criança, diziam-me que é caridade cristã. Que seja, desde que os cristãos que a sentem partilhem comigo a solidariedade social não alienante porque doutrinada por muita hipocrisia da sua máquina religiosa.

3.1.2010

O acordo ortográfico

Assunto que não me apetece muito discutir é o acordo ortográfico, por o debate me parecer essencialmente emotivo. Cultivando o respeito pela língua, coisa viva que me estrutura a mente, porque fiz o meu cérebro fazendo-o funcionar a pensar em português, considero a ortografia uma simples convenção. Isto vale para todas as linguagens e a mais bela construção da mente humana, E=mc2, ficaria intocável se agora decidíssemos que “igual” passa a simbolizar-se como \ e Einstein tivesse de escrever E\mc2.

Porquê, então, gastar tempo meu e dos leitores com coisa para mim pouco relevante? Porque não gosto de desonestidades intelectuais e, há dias, li o último argumento usado pelos fanáticos opositores do acordo: no caso de algumas palavras exdrúxulas (aprendi este nome e não sei de modernices gramaticais), como António, vai ser facultativo os portugueses escreverem como escrevi e os brasileiros, que fecham a vogal, escreverem Antônio.

Acho bizantino, preferia que ambos escrevessem Antonio, mas não posso aceitar é que um linguista português, António Emiliano, venha dizer que "posso passar a escrever o meu nome como António ou Antônio, as duas formas passam a ser oficiais. Posso até escrever António numa linha e Antônio na seguinte e ninguém pode dizer que está errado." Como este linguista não deve ser ignorante, só pode ser a tentar levar à certa. É evidente que a facultatividade não é no interior do mesmo país, muito menos no interior do mesmo texto.

O critério ortográfico da etimologia, tão defendido pelos opositores do acordo, é respeitável, mas julgo que deve ser limitado pelo requisitos instrumentais da convenção ortográfica. Tenho pena de não conhecer as discussões de 1911, mas imagino como os defensores da legitimidade etimológica da ortografia devem ter barafustado contra a extinção do y, ph, das consoantes dobradas. Lembro-me de uma velha piada: "Achilles Machado é Aquiles Macado ou Achiles Machado?".

Não sou especialista, mas creio que, na fixação antiga da ortografia, valeu muito mais a fonética. Provavelmente muita gente ignora hoje porque é que os “mesmos” sons se podem grafar como x ou ch, como ç ou ss, como s ou z. É que não eram os mesmos sons, como ainda hoje não são na aldeia transmontana de um amigo meu, Vale Fre”tch”oso, onde se cose a roupa mas se codze a sopa. Mas sendo isto hoje apenas um regionalismo, justifica-se martirizarmos crianças de escola e estrangeiros com estas variantes ortográficas já sem sentido?

Ou então, porque é que os meus patrícios açorianos não têm direito à grafia específica dos seus fonemas típicos, o “ou” monotongal, o som intermédio entre “o” e “a” do queijo de ca/obra (também em La/ogos) e os bem diferentes “e” apical inferior ou com a língua toda recuada?

E quando os italianos, uniformizando relativamente mais tarde a sua ortografia, passaram a cometer o crime de tirarem o h ao homo latino despromovendo-o a uomo, foi como se tirassem a folha de parra a Adão? Ou umilta é para disfarçar o orgulho italiano?

Pior ainda é que muitos se batem por ambos os princípios, o etimológico e o fonético, numa mistura que pode ir ao limite do conservadorismo, com aspectos que até podem ir ao insulto à inteligência dos aprendizes da língua. Dizer-se, como fez um notável poeta mas mentalmente muitas vezes a léguas dessa sua notabilidade, que era essencial acentuar cágado para as crianças da escola não se confundirem, é indigência mental.

Começa-se logo pelos homónimos. Alguém tem dificuldade em perceber, em qualquer texto, quando é que banco é coisa para nos sentarmos, que é coisa que nos guarda o dinheiro, mal ou bem, que é coisa que nos trata das urgências médicas ou ainda aquilo que, num computador, guarda dados?

Numa coisa têm razão. Percebo agora porque é que “Britania ruled the waves”, porque é que os EUA lideram o mundo. Notem que são os mais inteligentes do mundo, revelam-se logo em crianças, capazes de aprender uma língua sem acentos e outros sinais diacríticos. Vendo bem, esta dos acentos é interessante. Fiz um teste e verifiquei que, nas línguas latinas mais conhecidas, essa frequência, crescente, corresponde à ordenação italiano, francês, castelhano, português. Em vez de os nossos filósofos da angústia ou tragédia ou destino de se ser português se esmifrarem em elucubrações, limitem-se a proporem o fim dos acentos.

E julgam que é coisa menor, em tempos de tecnologia em que “time is money”? Teclei este texto, “Não é João nem Joaquim quem quer que assim se chame de facto ou assim foi baptizado mas efectivamente quem se dá à atenção de chamada por esse nome. Óptimo é escolher-se designação baptismal como facto para a vida mas se tal acto não é possível, não virá daí grande prejuízo.” Demorou 100 segundos. Teclei depois esta versão “Nao e Joao nem Joacim cem cer ce asim se xame de fato ou asim foi batizado mas efetivamente cem se da a atensao de xamada por esse nome. Otimo e escolherse designasao batismal como fato para a vida mas se tal ato nao e possível, nao vira dai grande prejuizo.” Demorou 85 segundos. Ganho modesto, é facto, só 15%. Mas já pensaram o que é um ganho de 15% da nossa produtividade?

É coisa muito estranha, esta grafia biunívoca? Não será tanto como “escola politécnica de física e de química” para quem escrevia “escola polytechnica de physica e de chimica”?

“I rest my case”.

P. S. (7.1.2010) - Alguns leitores manifestaram-me estranheza por alguma ligeireza ou coisas equivalentes deste texto. Admito que fiz uma coisa perigosa, misturar no mesmo discurso raciocínios sérios e algumas "boutades" provocadoras, para contrapor ao iracionalismo de muitas discussões. Fica tudo um pouco desconexo e ambíguo. Para dar um exemplo, óbvio, é claro que não advogo uma ortografia do tipo daquela, brincalhona, que me poupava 15% de teclagem. Mas já a minha opinião de que temos excesso de acentos, a meu ver supérfluos, mantenho-a. Por exemplo, este "por": alguém precisa do acento circunflexo para perceber, no contexto da frase, que o verbo "pôr" não é essa preposição?

12.12.2009

A paixão pelo cinema

Há quem me critique, admito que com razão, por muitas vezes eu escrever “ad hominem”. Não creio que seja grande culpa, quando o destacarmos o homem, como exemplo, simplifica e exprime com ênfase o discurso crítico ou valorativo abstracto. Hoje, vem à baila coisa menor, o que eu estava a ver na SIC-N.

O canal tem dois programas de cinema. Um é de João Lopes, crítico sério de quem discordo por vezes, mas a quem atribuo todos os requisitos para se intitular um homem do cinema. Depois, há o palhaço. Chama-se Mário Augusto, diz já ter entrevistado milhares de estrelas, tem um ar de sabujice veneradora nessas tais entrevistas, misturado com a patetice de um óbvio contentamento pelo contacto entrevisteiro-cachet com as estrelas. Diz “eu adoro cinema e gosto de partilhar esta paixão”. É tudo, não há a recomendação de um filme, a notícia das tendências do cinema, a chamada de atenção para o que por aí ainda vai lutando contra a Lusomundo/Warner. Nada para além das fofoquices. E não será que ele vê cinema a comer pipocas?

Já que é tudo o grupo Impresa (lembrando o cinema, o "charme discreto da burguesia" balsemânica dá para tudo), e recordando que lá escrevia em velhos tempos Jorge Leitão Ramos, João Lopes fala na SIC-N a nível do Expresso e Mário Augusto ao nível da Caras. O problema é a SIC-N ser a mistura de ambos, mais a exibição tristemente circense de personagens que os amigos deviam impedir de aparecer em público, como o guru Medina Carreira. Será que já é de bom gosto assistir à exibição da senilidade? O tempora, o mores!

11.12.2009

Porque não sou político?

Hoje vou falar um pouco de amigos próximos, “amigos do peito”, desculpem a deselegância da personalização mesmo que sem identificações. Pior seria se falasse de mim. É que, com o correr dos anos, vou tendo a ilusão de que alguma coisa na vida quase anónima de homens de qualidade que todos temos como amigos pode ser instrutiva. Por exemplo, a pergunta em epígrafe: porque não sou político? Isto é, porque não desempenho ou desempenhei cargos políticos? É pergunta alguns amigos meus se podem pôr a si próprios, com razão.

A resposta mais honesta de qualquer desses meus amigos é que, provavelmente, nunca mereceram que os convidassem para os exercer. No entanto, talvez não seja a mais exacta, porque a questão tem duas abordagens. A tal resposta correcta, em relação a um independente, pode bem ser essa, mas também outra, ainda na mesma abordagem, se ele tiver a imodéstia de pensar que teve qualificações para alguns cargos mesmo que modestinhos. É que ele e muitos outros nunca foram independentes com a necessária dose “quantum satis” de dependência (pronto, não quero ser mau, chamo antes proximidade ou simpatia) que faz o independente de serviço.

A outra abordagem, muito mais realista e sem deixar lugar a juízos de valor, é que nunca exerceram cargos políticos porque nunca fizeram carreira política. Aqui sim, também eu posso falar à vontade, não tem nada de mérito, é só uma opção pessoal. É pensar que quatro anos de afastamento da actividade profissional, com actualização obrigatória de leituras diárias e de contactos internacionais, destruiriam essa carreira e aprisionariam a uma carreira política. Política para o meu “pessoal do peito”, vício dos anos 60, era paixão, desinteresse, nunca uma profissão.

Além do mais, há quem se tenha apercebido que estar num parlamento seria um sofrimento. Confrange principalmente o estilo, o espectáculo circense, o gosto pela rasteira e pela canelada. Como melhor exemplo, o aparte. Já percebem agora a que propósito vem esta nota, depois do lamentável episódio, para ambas as partes e para o nosso sistema parlamentar, da peixeirada na comissão da saúde.

Se fosse convidado para deputado, era coisa em que pensaria. Eu serei capaz de manter compostura se, ao expor uma ideia, argumentar a seu favor ou criticar qualquer coisa com que não concordo, for sujeito a dichotes imbecis, a perturbações espertinhas da minha atenção ao raciocínio? Lembrar-me-ia da fama fácil conquistada pelo conde de Abranhos por uma sua primeira intervenção na câmara, uma pilhéria com muita graça. E quantos deputados desta nossa república ganharam fama de deputados muito inteligentes pelo humor (?) e acutilância dos seus apartes, sem que haja memória de propostas suas ou intervenções de fundo? E quantas vezes ouço argumentações que ofendem grosseiramente a lógica elementar até dos silogismos que aprendi no liceu - para já não falar na lógica dialéctica?

Neste recente episódio triste, assinalei que o deputado do PS se defendeu principalmente com o argumento de que o aparte está na natureza do trabalho parlamentar. Deve-se distinguir trabalho em plenário e em comissão. Já fui a reuniões de comissões e nunca ouvi um aparte. E, no plenário, será costume parlamentar geral ou coisa “tuga”? Não tenho muita experiência de acompanhamento de sessões parlamentares no estrangeiro, mas nas que vi, principalmente na televisão, não me lembro de grande frequência de apartes. Mais, e é diferença essencial, quando os ouço, são provocações sérias à discussão, chamadas de atenção em relação à falta de rigor de um facto ou argumento. Não são a tristeza sem graça e sem inteligência do que ouvimos como ruído de fundo, pimbismo de feira de província, do nosso parlamento.

Nota adicional - Num registo um pouco diferente, não “humorístico” mas igualmente lamentável, começa a dar nas vistas o discurso oco, pomposo e pretensamente articulado do vice-líder da bancada do PS. Como sou muito bairrista, custa-me ver esse estilo destacado também por associação com o meu querido sotaque micaelense.

28.11.2009

Mediacracia

Mais valia eu ter sempre a televisão desligada, ouvir os meus CD de estimação. Estou a ver uma pessoa por quem tenho apreço, apesar de estarmos em antípodas. Dou por ele agora como comentador residente da SIC Notícias, num programa de debate.

Este tipo de programas opina sobre tudo, sobre política, economia, questões sociais. Qual é a autoridade dos membros desses painéis? Sabem mais de política do que eu, melhor, de ciência política, porque opinião política pessoal não é matéria de comunicação social? Sabem de economia, quando não são sequer licenciados em economia? Sobre questões sociais, a mundivisão, a perspectiva do mundo?

Precisam de mais protagonismo do que aquele que merecidamente têm, no seu trabalho e intervenção especializada? Há-de chegar a uma idade, como a minha, em que é preciso exercitar alguma gentileza na recusa de convites para intervenção mediática, muito mais quando são para intervenção no segundo balcão. Ainda há dias me aconteceu isto, recusar e depois ver o programa, com tanta gente empertigada no segundo balcão. Respondi o suficiente para crer que a apresentadora nunca mais me convidará. E eu ralado, só com pena do bom cachet que ela paga, como em qualquer programa internacional do género...

Mas é o panorama da nossa “cultura mediática”. O que interessa, primeiríssimamente, é que a personagem seja mediática. Porque é famoso, porque aparece na TV, porque está na mailing list dos notáveis, porque tem um contrato esquisito de comentador num jornal de impacto, sabe-se lá porquê, porque anda no circuito das citações em ciclo vicioso de tudo o que é célebre, "io te do un capello a te, tu me das un capello a me", ou "I scratch your back while you scratch my back", porque sei lá que mais, porque tudo isto é podre e medíocre. Sei lá que mais, sim, sei que é porque um barbeiro de aldeia ouviu dizer que lá em Lisboa há um rapaz muito brilhante, o Pacheco (não é piada…). Ah, meu velho patrício açoriano, de teu nome Fradique!

(Reeditado)

14.11.2009

Porcariofilia

pigpenLeio habitualmente com interesse Rui Vitorino, no seu blogue O Grande Zoo, onde hoje deixei um comentário, que vai adiante, depois desenvolvido, a propósito da sua frase que cito a seguir, sinal de muito frequentes contradições suas entre abertura mental - sua "doença" de/dos 60s - e seguidismo partidário (PS manda). É um comentário que vai ao encontro do que muito bem tem escrito sobre este assunto J. M. Correia Pinto, no Politeia.

"O Primeiro-Ministro foi escutado sem respeito pelas leis vigentes."

Não me parece que seja verdade. Pelo menos se exercer algum bom senso em relaçãàs opiniões jurídicas que vou lendo, eu que não sou jurista. Se eu for escutado com todos os fundamentos legais, é indiferente quem é o meu interlocutor, porque obviamente que o juiz que validou a escuta a mim não pode adivinhar com quem eu vou falar e está interessado é no que eu digo. Outra coisa é aquilo que o meu interlocutor me disse e, se for PM, poder ou não ser usado contra ele. É a tal questão das certidões, que têm de ser validadas de novo, agora por envolverem o PM e portanto passando para a alçada do presidente do STJ. Mas é evidente que o PM foi apanhado imprevisivelmente em escutas perfeitamente legais, decididas em relação a Vara. Chegaríamos ao absurdo de um suspeito, sob escuta, conseguir falar com o PM para que toda a escuta fosse nula.

E também o que aconteceria se, por absurdo, nessa escuta a Vara, Sócrates confessasse explicitamente um crime, crime mesmo do tipo roubo ou suborno? Nada aconteceria? Estou a escrever isto com o que me parece ser sólido bom senso, com total ignorância do Direito.

O formalismo legal não pode ser imperativo absoluto e definitivo. Um caso aberrante de cumprimento da lei com prejuízo da justiça, da moral consensual, da valorização da ética democrática, deve é obrigar à revisão urgente da lei.

Eu não tenho nada de saber o que os amigos Sócrates e Vara conversam sobre coisas íntimas e pessoais. Mas eu, cidadão contribuinte, tenho todo o direito de saber o que eles conversam sobre coisas da governação, da política e dos negócios, TVI ou seja o que for de negociatas entre essa cambada de potenciais vírus da nossa democracia. Talvez eu esteja a exagerar, mas confesso que estou com medo pelo futuro da nossa democracia. Ainda só não consigo adivinhar quem será o nosso Berlusconi, mas candidatos não faltam. E com o silêncio provavelmente bem intencionado, mas lá por isto não menos prejudicial, do "supremo magistrado".

De qualquer forma, tudo isto me parece um formalismo. Estou certo de que, mais dia menos dia, talvez já nos semanários daqui a dois dias, toda a conversa entre Vara e Sócrates vai aparecer nos jornais. Nessa altura, o problema passa a ser político. E, novamente, como nos seus muitos casos, Cova da Beira, engenharia Independente, projectos foleiros assinados por conta de outros, Freeport, apartamentos de família, coisas em que provavelmente não tem culpas de ilegalidade, Sócrates não perceberá que à mulher de César não basta ser honesta. Não perceberá que, no meio de tanta porcaria que tem deixado crescer à sua volta, só lhe resta limpar-se publicamente, com coragem e frontalidade, ou demitir-se, porque Portugal não pode ficar refém de tão duvidosa personagem.

Já começa a ser demais. Ninguém pode acusar Sócrates de qualquer ilegalidade. Mas começa a ser demais a quantidade de casos pelo menos pouco limpos e pouco sérios em que tem estado metido, directamente ou por intermédio de amigos, familiares e colaboradores. Só para dar o exemplo mais flagrante, a sua licenciatura é perfeitamente legal, mas também é exemplo de um carácter pouco exigente em rigor intelectual e ética de trabalho. Não me basta um PM que nunca ofenda a lei. Quero um PM que seja exemplo indiscutível de pessoa séria e de elevação de carácter. Quero uma pessoa até normal, como qualquer dos meus amigos que não tem uma coisa a dizer-se-lhe nas fofocas do café da esquina.

Talvez Sócrates seja um azarado, mas não há dúvida de que já há muita coisa de suspeita de porcaria para uma só pessoa. Eu não o incluiria no meu “inner circle”, de gente muito diversa mas “band of brothers” na verticalidade. Eu não queria ser PS com dever "aparatchik" de o defender “à outrance”, com o rigor intelectual de um académico tão ilustre como Santos Silva, o homem que falava sempre nos distantes Estados Gerais com aquela subtileza portuense de quem está mesmo a dizer “olhem que eu quero ser ministro, o governo não pode ser só desses tipos de Lisboa”. Bem me lembro, nunca mais consegui suportar a criatura, com quem até nunca falei.

Não conheço ninguém que se compare ao porcaria-atraente Sócrates, a não ser o Pig Pen dos inesquecíveis Peanuts.

10.11.2009

O muro, a mescla dos 27 e as culpas dos povos

Caiu o muro de Berlim há vinte anos, toda a gente sabe, nem que seja por ter sido hoje manancial rememorativo de televisões e blogues, embora com alguma injustiça. Toda a gente celebra este acontecimento alemão, claro que com dimensão mundial, mas visto como coisa estritamente germânica, principalmente a grande vitória (de que luta?) dos “bons alemães”, os westies. Quando muito, seria estúpido negá-lo, elogia-se o papel histórico de Gorbatchov, embora eu tenha dúvidas sobre outra história, se Gorbatchov alguma vez pensou que isso do muro cuja queda creio que ele sinceramente desejava iria resultar na destruição da União Soviética, que julgo que ele não desejava.

Mas o que se esquece é um pequeno país, que a vingar-se do olhar zangado moscovita contra algumas veleidades independentistas, a Hungria, foi quem de facto destruiu o muro, ao permitir a abertura de fronteiras Hungria-RDA e Hungria-Áustria, que fez passar, nos dias anteriores, milhares de RDAs para o ocidente.

Também Gorbatchov escreveu em El País um bom artigo, “20 años después del muro, la historia continua”. Pode parecer apologético, mas, para mim, é mais um exemplo da superioridade de análise política de Gorbatchov, um homem que não merecia ter nascido russo num país de gente, aliás de grande qualidade, que nunca o compreendeu. Tenho uma amiga russa que, quando conversava com ela sobre a perestroika, só me retorquia com frivolidades e fofoquices da imprensa russa que ela lia, já impregnada de Ieltsin.

Chega de muro, não tenho nada a acrescentar. Aproveito é para chamar à colação algum olhar atento para um artigo que me caiu sob olhos por alerta do J. M. Correia Pinto. Intitula-se “Memoria tapa memoria” e é escrito por Jorge Martínez Reverte (JMR), um reputado escritor e jornalista espanhol bem conhecido pelos seus desassombrados escritos sobre a Guerra Civil, contra as tentativas de silenciamento das culpas de tantos hoje instalados. E é sobre esta questão da culpa que ele escreve este excelente artigo.

O tema não é apenas metafísico ou ético. Para JMR, é um problema muito actual, de riscos de perturbação grave de uma certa união europeia inicial e muito ocidental, confrontada agora com o alargamento a leste. Creio, como ele, que o alargamento foi um salto em frente, irreflectido. Por um lado, a Europa ocidental (incluindo a Nato, mais perigosamente, mas isto fica para outra história) tinha de consagrar a vitória do ocidente, o derrube do muro, como aspecto folclórico, mas, a sério, as teses sobre o "fim da história", do justamente esquecido Fukuyama. Ouçam-se ainda hoje os alemães de leste, unificados desde há vinte anos, e veja-se como ainda pesa a dualidade ocidente-oriente (contra a tradição histórica, porque todos esses países eram de uma coisa hoje esquecida, a Europa central, Mitteleuropa). No entanto, as potências do verdadeiro ocidente europeu, França e Reino Unido, viram com grande desconfiança essa oportunidade de alargamento da influência alemã a esse leste agora ocidentalizado. Mitterand e Thatcher torceram-se ao ver na televisão a queda do muro.

Com isto, e por compensação, a loucura expansionista a países recém-nascidos para as estruturas, regras, cultura democrática do ocidente europeu, como os bálticos. Só falta mesmo a Ucrânia e, já agora, o Cazaquistão, que nunca percebi como é que figura em organizações definidas geograficamente como europeias. Também, por arrastamento, coisas aberrantes, Chipre (sul ou norte?) e Malta. E se a Madeira fosse independente?

Passo ao artigo de JMR. Não o podendo reproduzir, chamo a atenção para o essencial. Todo o leste europeu, mesmo em tempos recentes, é um labirinto de crimes étnicos, de massacres em que todos colaboraram com todos, de sujeira horrorosa em que ninguém tem as mãos limpas. Alemães nazis que em Munique conquistam os Sudetas, mas checos que, ganha a guerra, expulsam os alemães dos Sudetas. Húngaros que (ouvi-os ao vivo, e mesmo comunistas ou outros de esquerda) só pensam na grande Hungria, com o dobro de população e território, principalmente à custa da Roménia. Também esses romenos especialistas em massacrar ciganos (e os húngaros não ficam muito atrás). Polacos que se juntavam alegremente aos nazis alemães para enviar judeus para os crematórios. Bálticos que se juntaram aos invasores alemães para exterminar os russos que os tinham invadido dois anos antes. Bálticos que ainda hoje, membros da UE, recusam direitos de cidadania aos russos lá residentes, filhos de pais cidadãos de um mesmo estado, a URSS. Muito mais, leiam o artigo que me parece sério, a mim que conhecem como sempre suspeitoso sobre o que se escreve na net. Para nós, acantonados nestas fronteiras seculares, sem problemas de minorias étnicas, sem nacionalidades com língua e cultura próprias, tudo isto é muito estranho. O problema é que, muitas vezes, o que é estranho é remetido para o sótão da reflexão.

Que Europa vamos construir sobre esta confusão? Como vai funcionar o tratado de Lisboa, essa construção artificial para acomodar um albergue espanhol de 27 realidades não só diferentes (o que era bom) mas contraditórias?

Mas, se falamos de culpas, e em Portugal? Tenho hoje uma atitude muito diferente da juvenil, de um tempo em que à esquerda (e esquerda era o PCP, o resto era brincadeira) se mitificava o povo português, isento de pecado de uma infelicidade de que não era culpado, o salazarismo. Pior, depois, o colonialismo e a guerra colonial. A revolução sonhada, o levantamento popular armado, tinham de ser feitos por esse povo. Ele não podia ter pecado original, tinha de ser o herói angélico, o S. Miguel da minha ilha, com asas de arcanjo e espada de fogo vingadora. Eu, jovem comunista, mas com muitos outros mais, dava como sagrado que o Povo, entidade mítica, era detentor de um destino histórico auto-redentor que, obviamente, era incompatível com qualquer aceitação contaminante do fascismo, mesmo que inconsciente. Lembram-se de depois do 25 de Abril, "o povo tem sempre razão"? Como tudo teria sido diferente se alguém tivesse conseguido meter que isto é asneira crassa naquela cabecinha de ouro que se chama Otelo!

Da mesma forma, centenas de milhares de soldados que foram combater em África eram populatres íntegros sacrificados, anticolonialistas em potência, inconscientemente à espera da iluminação que nós associativos universitários, aceitando como missão política a mobilização, iríamos converter em refractários à guerra, em simpatizantes da causa independentista. Bem o tentei, creio que com riscos, mas com total desilusão, quando, depois de uma noite de “doutrinação” via os meus amigos fuzileiros partirem alegremente para uma missão (diga-se que em geral ridícula, com captura de algumas pirogas e redes de pesca ou queima de umas palhotas há muito abandonadas). Muito diferente, isto sim, mas não prevista, foi a influência nos jovens capitães do quadro. Continuo a pensar que foi um factor determinante do 25 de Abril. Mas não eram o povo que, supostamente, íamos trabalhar politicamente.

E não houve massacres, barbaridades, violação de leis elementares sobre os direitos humanos ou mesmo sobre crimes de guerra? Eu compreendo que, a seguir ao 25 de Abril, era impolítico, perigoso para o sucesso da revolução democrática, levantar estas questões. Era o prestígio a defender das forças armadas, eram as solidariedades de caserna a preservar, para impedir golpadas militares (que afinal aconteceram, 11 de Março e 25 de Novembro). Era o tratamento de "Jaiminho" do Otelo a Jaime Neves. Mas já se passaram dezenas de anos e, salvo um ou outro livro obscuro ou a excelente série televisiva de Joaquim Furtado, não temos um “Apocalipse now”, um “Platoon”, uns “Jardins de pedra”, um “Caçador”, um “Nascido para matar”, muito mais.

E não houve gente culpada com nome bem visível na ficha de informador, no cartão da Pide, no cartão da Legião? Nos perintreps? Muitos morreram, mas os seus filhos, que certamente não rejeitam os pais, não herdaram a sua culpa? E, dos milhares de professores primários, regedores, párocos, médicos de aldeia, os suportes rural-boçais da ideologia salazarista, não há hoje vestígios, novamente pensando nos filhos?

É uma diferença para a Alemanha, honra se lhe faça. Lidei muito com uma certa esquerda alemã, principalmente os Verdes. Eram jovens, só conheciam o nazismo de ouvir dizer, mas tinham um enorme sentimento de culpa pelos seus pais, até exagerado em alguns aspectos. Por exemplo, na rejeição total de tudo o que fosse engenharia genética, lembrando-se do monstro Mengele e das suas experiências de “eugenia”.

No fim, este texto vai dedicado à Diana Andringa, a quem devo uma hora de deleite com o seu documentário de catarse da angolana privilegiada do Dundo, a conviver com ela portuguesa minha jovem companheira de lutas estudantis. No seu filme, ressalta o problema da culpa, que ela até explica no filme à sua filha, em partilha de vida funda. Fiquei perturbado com isso, muito mais a minha mulher angolana. Também eu sinto essa culpa, embora um pouco menos por não ter beneficiado directamente do colonialismo.

Volto ao que disse atrás, coisa até um pouco de raiz messiânica, judaico-cristã. Tínhamos, jovens eu e outros, de preservar a inocência do povo português, mas alguém tinha de ser culpado pelo salazarismo, pelo colonialismo, pela guerra. O que é paradoxal é que só vejo este sentimento de culpa naqueles que menos o deviam sentir, porque foram lutadores antifascistas. Pela minha parte, talvez parvamente, faço-me de pequeno Cristo. Se a canalha política que por aí anda não consegue sentir a culpa portuguesa, sinto-a eu, assumo-a, faço dela a razão da minha luta política, pequena luta mas de quem sentiu que tinha de se redimir de um pecado. Porque se não for eu, que não consegui pessoalmente mais do que pequeníssimas coisas nessa luta que levou ao fim do fascismo, certamente que não serão os pais dos jotas chico-espertos que por aí andam e muito menos esses, que não sentem nada o herdar culpas paternas.

Todavia, faz sentido mortificarmo-nos? Não é questão de penitência irracional, é de compreensão lúcida, de crítica construtiva. A nossa história não pode ser, facilmente e definitivamente, a triste submissão ao mal, predestinada. Se for assim, não somos culpados mas somos piores, somos animais inconscientes e acéfalos, desprovidos de motivações éticas. De uma vez por todas, mesmo que cada um, individualmente, nada tenha feito de mal; mesmo, que, no caso dos portugueses em África, muitos tenham sido bons amigos dos nativos, muitos, que conheço e estimo, se horrorizem com a violência colonial; que até desejavam uma independência utópica que as realidades não permitiram; somos todos portugueses de um Portugal culpado. É difícil distinguir a culpa colectiva de uma coisa muito diferente, a soma das culpas individuais, mas só seremos finalmente portugueses de parte inteira se assumirmos a nossa culpa como país.

Claro que há a alternativa, a reconciliação, como na África de Sul de Mandela e de Tutu. Mas isto é coisa de pretos! (Espero que se perceba que é ironia...)

P. S. (10.11.09) - A minha leitora mais crítica, sempre muito interessada na África do Sul, chama-me a atenção para uma omissão minha importante. O processo de reconciliação não é uma alternativa, não foi o esquecer de culpas. Pelo contrário, foi perdão mas só para os que reconheceram expressamente a sua culpa e mostraram arrependimento. A comissão Tutu foi um verdadeiro tribunal, embora sem sentenças. O processo espanhol também parecia prometer, mas as suas fragilidades e constrangimentos revelam-se com as dificuldades que Garzón tem tido.

6.11.2009

Isto não é gente de bem

Podem não ser criminosos, Varas, Penedos e outros que tais, políticos que ameaçam a nossa democracia. Mas certamente, se pensarmos que imoral não é igual a ilegal, não são gente de bem. Como os que se lhes parecem como pães da mesma fornada, Sócrates incluído.

"Face oculta". Que se pode dizer mais? Talvez duas notas, relacionadas na pequenez das personagens e comportamentos. Primeiro, como se fazem carreiras políticas? No meu tempo de jovem, “contra-faziam-se”, porque tudo o que de política fosse e que não fosse na órbita do regime era desafiar qualquer perspectiva de carreira. Depois, a seguir à Revolução, uma grande ambiguidade e diferença de gerações: os “puros” que vinham de antes e que, patetamente, julgaram que ainda por muitos anos transportariam a lanterna da pureza democrática e progressista; e logo os oportunistas mais velhos, da mesma geração - nem vou falar deles, já não contam, na sua actual terceira idade - e, principalmente os super-oportunistas jovens, os jotas.

Os jotas fizeram grandes estudos políticos. Colaram cartazes, animaram cervejadamente as sedes, berraram slogans nos comícios, agitaram bandeiras e organizaram arruadas. Veio-me agora à cabeça, entre parênteses, a indignação de um jovem deputado que conheci há mais de dez anos quando lhe perguntei se era deputado indigitado pela sua jota. Fui injusto. Hoje, é um deputado brilhante, agora a nível europeu, embora nos antípodas da minha posição.

Ainda não percebi se os jotas são inteligentemente pacientes ou se apenas surfam. Quero dizer que os mais sucedidos são os que têm paciência para gerir bem o seu tempo, adaptarem-se a cada momento ao seu terreno de apoio, ganhar tempo, com paciência. Primeiro, ganhar na jota, tanto melhor se também, ao mesmo tempo, com uma perninha de assessor, aprendiz ou simples campanha-man em autarquia, seja em Trás-os-Montes varense seja na Cova da Beira socrática. Tanto melhor se com ajuda carinhosa de mais velho. Estou a lembrar-me da história do António Garotinho, governador carioca, com este encosto ao velho Brizola. Fica para contar de outra vez.

Com muito trabalho jotinha, mas grande investimento, descuraram os estudos, a formação cultural. Ou nem concluiram a licenciatura e hoje sofrem por serem o senhor presidente fulano, sem doutor - e há um - ou levaram a bom fim a sua chico-esperteza, singraram por universidades michuruncas com professores e examinadores deles dependentes politicamente. Comum a todos os jotas, tudo isto num galope de actividade política frenética, sem uma única actividade de vida realmente vivida, profissional, cívica, essas banalidades desprezíveis para quem anda entre o Rato e S. Bento ou entre a Lapa e o dito santo, essas banalidades que qualquer pessoa de bem sabe que são o suporte da experiência, da sabedoria, do conhecimento da vida, da confrontação dos valores com a prática.

Estes carreiristas medíocres da política são hoje as luzes da nossa democracia, tenham ido para administradores de bancos ou para primeiro ministro. Estes carreiristas medíocres da política vão dar cabo dos sonhos da nossa democracia, dos quase esquecidos suspiros de Abril. O Zé não os tolera. Claro que o Zé não conta, só rosna, mas lavra o terreno para coisas perigosas, o Zé que permitiu o filho Miguel de Carlota Joaquina (talvez também de D. João VI), João Franco, Sidónio, que se reviu no bom pai Salazar, que até lhe dava sovas de cinto, como o bom pai do interior ainda hoje acha que só faz bem aos filhos. Depois, mais à moderna e multinacional, os mais jovens, mais articulados e melhor educados, com o seu estilo de executivos potenciais, não aceitam ser ultrapassados por essa canalha toscamente tuga, que só fala portunhol ou inglês técnico e que nunca leu o NYT. Também as corporações virtuosas (juizes, militares) estão à espreita de uma oportunidade de afirmação das “mãos limpas”.

Pensando nesta dos juízes de mãos limpas, lembro-me de Itália. Aguentou dezenas de anos de “compromisso”, afinal, como cá, um pântano podre, centrão, de corrupção política, carreirismo, mediocridade do sistema político. Rebentou, explodiram os suportes do regime, DC, PS (Craxi!), PCI. Mas o que resultou? Berlusconi!

Entretanto, palavra puxa palavra, afastei-me daquilo que pode justificar alguma originalidade desta nota, uma mexer na bosta que ainda não vi. É que esta gente é mesquinha, medíocre, faz-me pensar, de forma execravelmente elitista, que quem nasce ao estilo das berças dificilmente se faz ao estilo de Londres.

A crer nas notícias, o Sr. Vara, ao suspender-se, perde cerca de 30000 euros por mês. É obra, como fim de vida de um obscuro funcionário bancário transmontano. Fim de vida? Qual quê, acho que ele está nos princípios dos seus 50s, que futuro radioso tem pela frente! Mas vamos aos 30000. Se é verdade, não posso acreditar no que se diz, que ele se deixou corromper por 10000, quando todos os parceiros da história não se ficaram por menos de Mercedes topo de gama. Não pode ser verdade que um ex-ministro, um administrador bancário nomeado pelo seu amigo Sócrates, se corrompa por uma imperial e um prato de amendoins. Mas também não é verdade que Melancia ofendeu gravemente os chineses ao corromper-se por 50000 contos quando estava em causa um aeroporto de muitos milhões?

Em conclusão: roubem, façam pela vida, ganhem dinheiro para comprarem beluga que não distinguem de ovas dinamarquesas, corrompam-se, mas ao menos, por favor, façam isso com classe.

29.9.2009

Cavaco está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido?

“O PR não é responsável pelos actos dos membros da presidência, só se reflecte nas declarações dos chefes das casas civil e militar”. Quem é que sabe isto, que CS só diz hoje, sem nunca ter esclarecido que não são fidedignas as chamadas “fontes de Belém”? CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido?

“A leitura que CS faz das declarações dos deputados do PS, no verão de 2009, é de que era uma tentativa de o envolver na campanha e de o encostar ao PSD. Mas pergunta-se como é que esses deputados sabiam do que se passava em Belém”. Outra vez a insinuação das escutas, mas que afinal já data de há ano e meio, muito antes dessa coisa dos assessores de Belém estarem a colaborar com o PSD. CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido?

“O PR nunca teve conhecimento da actuação de Fernando Lima, nunca ninguém lhe falou disto. E alguém (quem?) lhe garantiu que Fernando Lima nunca piou”. CS não sabe o que faz o seu principal homem de confiança? E são outros que têm que lhe garantir que ele não fez nada, não o próprio, que nunca abriu a boca nestes tempos de brasa? CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido?

“E qual é o crime de Fernando Lima, ao alertar para um problema importante de segurança?”. Mas quem fala em crime? Já Talleyrand dizia que, em política, um erro é pior do que um crime. E se Fernando Lima é um anjinho, porque foi removido da assessoria da comunicação social? Mas também porque ficou na casa civil, não se sabe em que funções? CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido?

“O PR tem dúvidas sobre a questão do mail publicado pelo DN”. Tem dúvidas sobre a veracidade do mail? Ou tem dúvidas sobre a fonte da passagem para o DN? Se é isto, também eu, bem queria ele saber quem foi o jornalista do Público que fez de garganta funda e o lixou. E também ao chefe manobrador, José Manuel Fernandes. CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido?

Depois a coisa de ópera bufa da viagem à Madeira, de quem se senta à mesa ou não, coisa importantíssima para entrar numa declaração presidencial solene ao país. CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido?

Eu não gosto que me tomem por estúpido, chateia-me, pá, lá dizia o almirante.

Mas também não foi só CS. Logo a seguir, na SIC, veio o cada vez mais inefável Ricardo Costa manipular escandalosamente a declaração presidencial, branqueando o homem. E digo o homem porque devemos respeito ao PR, mas CS, como pessoa, hoje manchou hoje a imagem que construiu laboriosamente ao longo dos anos.

E voltei a ver agora uma jornalista a observar há dias a CS que “a história partiu de Belém” e ele a retorquir “a senhora não é ingénua e eu também não”. O que é que hoje, na declaração presidencial, ilumina minimamente esta alusão sibilina do PR?

Depois, também gozaram comigo todos os partidos, excepto o PS, que se agarraram a uma pequena passagem da declaração, sobre alegadas vulnerabilidades do sistema informático da PR. “Será possível alguém entrar no meu mail?”, CS dixit. Espantoso! Alguém imagina o que isto significa, como coisa elementar da tecnologia informática de um órgão de soberania. Que vergonha, e no entanto toda a gente está a falar disto com a maior das naturalidades. E no meio de tanta confusão, vou ter de acreditar nesta novidade? Se for verdade, emigro já, com vergonha de alguém saber que sou português. Claro que os partidos sabem isto, ao fazerem estas declarações piedosamente preocupadas. Pelos vistos, nesta fase crítica de negociações para a formação do governo, ninguém quer afrontar CS. Os partidos estão a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? Chateia-me, pá.

Honra ao PS, o último a falar, há pouco, pela voz de Pedro Silva Pereira: “O PR não substanciou nenhuma suspeita, a suspeita nunca passou de uma invenção e foi uma manipulação lamentável para o prestígio das instituições”. As coisas estão cada vez mais difíceis entre S. Bento e Belém.

Se o povo português não fosse curto de memória, CS nem se candidataria a um novo mandato. Mas não digo nada, porque toda a gente está a gozar comigo.

16.9.2009

Custa muito o arrependimento?

Saíu com grande publicidade mais um semi-histórico do PCP (semi-histórico quer dizer quadro destacado mas, ao que sei, principalmente no pós-25 de Abril, não os históricos da geração do CC da clandestinidade). Foi Domingos Lopes, homem estimável, inteligente e culto, sempre prazenteiro, hoje advogado, curso que concluiu muitos anos depois de o ter abandonado em favor da actividade política profissional e que lhe permite, meritória e felizmente para ele, a independência económica que não tinha antes em relação ao PCP.

Ouvi as suas razões. Requentadamente, a ideia de que o PCP já não corresponde às possíveis (?) perspectivas revolucionárias no mundo de hoje. Mas, principalmente, as razões partidário-familiares, as que tendem a determinar estas decisões, as que dizem respeito às normas internas do PCP, à sua não democraticidade, como se isto fosse coisa que interesse ao não-militante (a não ser por darem uma ideia do que seria o comportamento do PCP no poder). Com excepção de alguma teorização menos caseira na cisão do grupo dos 9, o resto tem sido muito centrado nesta discussão familiar, até com muito de psicanalítico, pensando em Cunhal-pai.

Foi assim com Zita Seabra (o caso mais primário mas talvez o mais sincero e menos hipócrita, PCPmente hipócrita, com salto brusco para o PSD), com os dissidentes a seguir ao golpe de Moscovo de 1991, com Carlos Brito e os seus companheiros, será ainda com alguns que não percebo bem onde estão, se dentro se fora. A diferença em relação a Domingos Lopes é que, ao que me lembro, é o primeiro a pôr o dedo na ferida do pior mal da concepção leninista do partido revolucionário: o funcionário político profissional, tipicamente um burocrata cinzento, sabujamente obediente em relação aos chefes, arrogantemente controleiro (é o termo consagrado) em relação aos militantes de base.

Por isto, Domingos Lopes tem razão ao afirmar que os militantes eram muito mais livres e dotados de iniciativa na clandestinidade, antes de se ter construído, depois do 25 de Abril, todo um imenso aparelho de funcionalismo no PCP. O que Domingos Lopes não diz é que ele próprio foi funcionário durante largos anos. O que ele não diz é se teve ou não consciência desse vício leninista na sua prática de funcionário e se tomou alguma atitude. O que ele não diz agora é esta coisa muito simples: “cometi os mesmos erros, depois reflecti sobre eles, hoje estou arrependido”.

Não é só ele. Não me lembro de algum dissidente do PCP, a partir dos anos 80, que tivesse tido essa atitude. No PCP, nunca viram, nunca ouviram, claro que nunca falaram, mas nunca por sua responsabilidade, sempre por culpa do PCP, mormente de Cunhal - e não estou a desculpar uma figura por quem tenho o máximo grau de “mixed feelings”. Miraculosamente, por razões as mais variadas, até de ordem profissional e de posição na vida social, acordam para o momento decisivo mas não conseguem assumir, talvez por não haver nada a assumir, uma rotura ideológica e filosófica, nem sequer os erros próprios e a co-responsabilidade pelos vícios domésticos que eram muito da direcção mas impossíveis sem a submissão cúmplice dos funcionários. Admitam essa cumplicidade e valerão como homens íntegros e de carácter, afinal como verdadeiros revolucionários.

P. S. - É óbvio que estou a ser reducionista. Há dissidentes de muitos tipos. Há os que nada beneficiaram com isso, tantos que hoje são dignos profissionais respeitados mas relativamente anónimos; há quadros do PCP importantes que estão na penumbra (Carlos Brito, Raimundo Narciso e outros); há o académico de serviço de Sócrates; há os que tiveram imediatamente lugares de administração e acabando um no actual governo; há o cardeal iberdrólico, etc.

P. S. (17.9.2009) - Ver sobre este assunto um comentário bem esclarecedor no Incursões.

21.8.2009

Foi difícil ser-se de esquerda

dubcekUma única palavra diferente no título, em relação à última nota, a remeter ao passado. São hoje 41 anos sobre um dia triste. Eu e muitos jovens da minha geração, convicta e generosamente comunistas nos anos 60s, seguimos com mais interesse o que se passava em Praga em 1968 do que em Paris, naquela primavera de todas as esperanças (claro que não só para a minha geração, também para mais velhos, com destaque para Flausino Torres e os outros exilados em Praga). Havia dúvidas larvares, nos meus meios juvenis de esquerda comunista sobre o socialismo real, mas a margem de escolhas era muito estreita, entre ficar quieto a pretexto dessas dúvidas, depois comprovadas como erros graves, e resistir onde parecia mais útil e consequente. Porque isso de erros, até ridículos, nem me permitia olhar para os lados chineses. Depois, o que se dizia, em plena guerra fria, que também era de propaganda feroz, de parte a parte, como podia ser valorizado com objectividade?

Mas a Checoslováquia vinha-nos pela sua própria televisão, pelos seus jornais, pelos documentos oficiais do seu partido governante. Nenhuma razão para dúvidas. Com tudo isto, Dubcek foi meu herói durante meses, simbolizou a minha esperança no socialismo de rosto humano que eu e muitos amigos já discutíamos com base nas leituras de Gramsci e de Lucacks, também do romantismo bonito (depois relativamente defraudado) da revolução cubana.

21 de Agosto de 1968, o dia da invasão pelos tanques soviéticos e dos acólitos do pacto de Varsóvia, foi um dia de pesadelo para muitos de nós. Como foi possível? Depois, como foi possível o PCP mudar a sua atitude anterior de alguma expectativa para a aprovação incondicional da invasão? Ou como foi possível Fidel fazer o mesmo?

Seis anos depois, ao retomar a actividade partidária (actividade política mantive sempre) foi com o compromisso a alto nível de que a missão revolucionária depois do 25 de Abril exigia a participação de todos, mas que ficava prometida a discussão aberta e internamente democrática da primavera de Praga. Viu-se, como se viu a promessa que também me fizeram de autocrítica do verão de 75. Por isto, não precisei de perestroikas e golpes de Moscovo para dizer adeus, definitivo.

Vem a propósito uma observação tocante que ouvi há dias a uma pessoa que até não anda pelos meus quadrantes ideológicos. Falando-se de alguém à esquerda, essa pessoa, conservadora, observou que esse alguém não lhe causava simpatia política mas que ela achava que era um homem bom e que isto era muito mais importante. Estou convencido de que Dubcek também era um homem bom.

Nota - De facto, a invasão foi ao fim da noite de 20 de Agosto, mas o que ficou na memória foi a entrada dos tanques em Praga, no dia 21.

29.7.2009

É difícil ser-se de esquerda

Há muitas razões para ser difícil ser-se hoje genuinamente de esquerda. Não rende. Já dá uns bons lugares políticos, mas comezinhos, sem perspectivas de passagem para administração de empresas (até se ver). Dá muito trabalho, para não se ser confundido (como dizia um meu filho, há 20 anos, “em tempo de perestroika, o que mais há por cá são pré-históricos”). Depois, “last but not the least”, machuca qualquer susceptibilidade porventura exagerada de racionalidade, objectividade, saudade dos velhos gregos (e até, quem diria, de Tomás de Aquino).

Propositadamente, não vou usar um discurso oficial como objecto de crítica. Vou aproveitar um de muitos comentários nos jornais online, porque é coisa ignara e que me permite responder com conhecimento de causa. Além do mais, é coisa bem elaborada, aparentemente fundamentada, nada de delírios que qualquer zé detecta. Parece-me ter óbvia origem na esquerda pura e dura. Ninguém imagina que seja um neo-socrático ou um bloquista central a escrever isto. Vou responder como advogado do diabo, partido entre a minha solidariedade de esquerda, em termos gerais, e o meu rigor intelectual e a minha mentalidade científica. Afinal, o que me atraiu em jovem no marxismo, em boa parte, não foi o “socialismo científico”?

Vamos a dissecar o tal escrito, coisa a coisa. E nem sequer me vou irritar com coisa para mim insuportável, a arrogância de pessoas “que sabem coisas”. Lembram-se, genial Solnado, “pois!, dizia a minha irmã, que sabe coisas”.

A cada ano morrem milhões de pessoas vitimas da Malária que se podia prevenir com um simples mosquiteiro.” Meia verdade, embora não negue o que tem de dramático. O plural é traiçoeiro. Milhões, neste caso, são dois milhões, o que é impressionante, mas que é desonestidade intelectual quando, numa discussão, se refere a ordem e não as unidades. Depois, claro que não basta nada um simples mosquiteiro, é preciso muito mais, saneamento, erradicação dos mosquitos, novos medicamentos a compensar as resistências frequentes, preparação de uma vacina. E já que este escriba gosta de conspirações, chamo a atenção para que o combate à malária é do interesse das multinacionais. É condição para a enorme possibilidade de turismo, para defesa dos técnicos e trabalhadores da extracção de petróleo, para militares em bases nos trópicos. E quem é que mais está a financiar o combate à malária? A Fundação Bill Gates! Como é que esse comentador não aproveitou este tema?

“No mundo, por ano morrem 2 milhões de crianças com diarreia que se poderia evitar com um simples soro que custa 25 cêntimos.” Não é verdade. Morrem cerca de 800.000, admito que um número à mesma muito impressionante. Mas nada se resolveria com um frasco de soro. Em África, onde há maior incidência de diarreias a rotavírus, são precisos muitos frascos de soro por doente, transportá-los, armazená-los em boas condições, ter enfermeiros para saberem administrá-los por canulação intravenosa.

“Sarampo, pneumonia e enfermidades curáveis com vacinas baratas, provocam a morte de 10 milhões de pessoas a cada ano. Os noticiários disto nada falam!” Claro que não, e bem, porque isto é uma total inverdade. O total de casos mortais de sarampo em todo o mundo, desde a vacinação, anda por menos de 200.000 e para a pneumonia as vacinas contra os pneumococos e o Hemophilus reduziram o número de casos a dezenas de milhar.

“Então, porque se armou tanto escândalo com a gripe das aves? Porque atrás desses frangos havia um "galo", um galo de crista grande. A farmacêutica transnacional Roche com o seu Tamiflu.” Já cá faltava! O oseltamivir (Tamiflu©) nunca foi indicado como medicamento para a gripe aviária H5N1, por inconclusividade dos ensaios terapêuticos. Foi usado em casos humanos, mas “just in case”.

Acho que chega, senão os meus amigos começam a desconfiar da minha sanidade mental, ao gastar cera com tão ruins defuntos.

Será? Quando ouço alguns savonarolas de olhos exorbitados de certezas certas em teorias de conspiração, quando ouço outros jovens políticos treinados desde as jotas neste tipo de desonestidade intelectual, pergunto-me se a minha luta política de juventude não tem de ser muito, hoje, na minha idade, um combate intelectual à desonestidade, à desinformação, à manipulação.

Com isto, apetecia-me discorrer sobre o acrescento de qualidade e racionalidade à democracia que é a “política deliberativa”. Não tenho tempo nem capacidade, recomendo a leitura de Habermas. E sem cedência à acusação de elitismo. Igualdade é um valor estrutural da minha construção ideológica, mas não a inexistente igualdade real, antes a igualdade de oportunidades.

P. S. - Espero que não se suspeite de que estou a olhar com mais simpatia para outra esquerda. É que já tanto escrevi sobre Sócrates que já me enjoa. Parto do princípio de que é um homem honesto. Mas será um homem sério? Sobre a sua habilidadezinha parlamentar gouvarinhenta, a sua ligeireza de estudante universitário, a sua flexibilidade deontológica e bom gosto nas suas casas da Guarda, o Magalhães, o relatório da OCDE sobre a educação, vou ali e já volto. Vou gritar ao vento que “à mulher de César…”

P. S. (2.8.09) - Verifiquei hoje que esse tal comentário anónimo na página online do Público é uma transcrição de um mail que circula por toda a net, muito mais extenso e principalmente sobre a conspiração da pandemia da gripe. É apresentado, com endereço de e-mail e tudo, como sendo da autoria de uma investigadora portuguesa que muito considero, a Prof. Isabel Portugal, da Faculdade de Farmácia da U. Lisboa. Já lhe dei notícia deste abuso. A net é um pau de dois bicos, dá-nos acesso a fontes de informação que não imaginávamos há uma dúzia de anos mas também é veículo das mais abomináveis desinformações e manipulações da opinião. Eu defendo-me como posso: regularmente, entro o meu nome numa pesquisa do Google, para ver se há alguém a abusar da minha credibilidade.

28.7.2009

Os manifestos

Estão na moda os manifestos. Primeiro o dos economistas da direita fina, com alguns PS a disfarçar. Em resposta, os economistas de uma esquerda que ainda vai merecendo o nome, entre outros os economistas que escrevem o "Ladrões de bicicletas". Depois, o manifesto mais estranho, de gente ligada a lugares de gestão de empresas dependentes do governo. Lançado ontem, outro manifesto, o da Renovação Comunista, que ainda não consegui encontrar “online”.

Não tenho nada contra estas iniciativas, muito pelo contrário, como expressão da sociedade civil, em tempos em que a partidocracia medíocre (isto é, a aparelhocracia) cada vez mais talha e azeda a nata da democracia. Quando muito, posso lamentar que todos esses manifestos sejam claramente identificáveis com pessoas, correntes de opinião ou movimentos que, no essencial, jogam de uma forma mais ou menos evidente no quadro partidário.

Entretanto, surgiu-me um outro manifesto, “O Nosso Presente e o Nosso Futuro - Contributo para um Debate Político”. Da lista dos seus autores e dos seus subscritores, não consigo adivinhar nenhuma ligação partidária instrumentalizadora.

Li o documento com cuidado. Pareceu-me muito bem intencionado, com um posicionamento progressista, de ideais que até posso qualificar de esquerda, tal como a entendo, com abrangência. Mas também me pareceu um pouco tosco, redigido sem cuidado, com omissões importantes, com pouca profundidade. Os comentários no "sítio" mostram que há mais pessoas como eu, que acham que o essencial é muito bom e merecia maior cuidado. Mas talvez isto seja eu, sempre perfeccionista. Por isto, não me sinto impedido de chamar a atenção para esta iniciativa, que apoio, mesmo com as reservas que referi.

3.7.2009

Eu, democrata triste

Mandei este texto só a alguns amigos, por várias razões. Não quero que pequenos episódios, tristezas da minha memória de elefante, possam ser usadas para diminuir o que é essencial, neste caso a democracia, o parlamento. Sempre detestei dar tiros nos pés ou oferecer munições aos meus inimigos. Mas não são os parlamentares os primeiros a deverem garantir que são respeitados? E, insistindo um caro amigo em que esta nota merecia publicação, cá vai.

Estou a ver o debate do estado da Nação (1.7.09, o dia dos cornos). As sessões parlamentares, na casa de Garrett e de José Estêvão, são um espectáculo lamentável. Campeia a leviandade pomposa, a vaidade que derrama dos "back benches", a falta de rigor, a desonestidade intelectual, a demagogia, a esperteza videirinha e afrodisíaca - que esperto que eu sou, não é, querida? - com expoente caricatamente máximo no ministro Santos Silva. Tudo o que mais ofende a minha estrutura intelectual e ética. E também a memória dos valores pelos quais lutei em jovem, tanto quanto pude.

Mas o que me custa mais ver são os macacos de serviço, alguns até sentados junto aos seus líderes parlamentares. Gesticulam, riem, dizem piadas, fazem coro de "opera bufa". São os palhaços mais bem pagos do nosso mundo circense. Será que naqule histrionismo não resistem a aliviarem-se? Se sim, são os traques com maior valor na bolsa das ordinarices. Mais, eu até fico a pensar que eles não estão só a fazer um frete, que realmente acham que são muito espertos, muito engraçados, falados no café do bairro quando lá vão comprar o semanário, "que bela piada, sr. deputado, melhor só o Pacheco", que vão ficar na história do parlamentarismo. Coisa difícil, a ganhar a gente com muito bom e baixo handicap, Gouvarinho, Abranhos, Lello, Ângelo. Se eu fosse um dos seus filhos a ver o programa, ficava cheio de vergonha.

Afinal, razão tinha o tal Abranhos, quando ficou envergonhado por as suas grandes ambições, na sua estreia parlamentar, terem tropeçado numa pilhéria, a única coisa que a imprensa aproveitou. Passou-se o mesmo na estreia parlamentar de um amigo meu, com quem eu tinha a confiança suficiente para lhe chamar a atenção para am triste situação. Qual quê, estava deliciado porque toda va gente falava da sua promissora estreia.

"Panem et circenses". É verdade que a história se repete sempre como farsa, disse o meu mestre, hoje tão vituperado. Foi drama na decadência da república romana e no desprezo pelos valores republicanos. É hoje farsa para mim, esta mediocridade da nossa vida política. Para mim? Não, estou convencido que para muitos da minha geração dos sessentões que lutaram, hoje esquecidos, desprezados pelos videirinhos santossilvenses, pelo superchicoesperto da Cova da Beira, gente que prcisa da política ao seu nível mais rasteiro para se "realizarem" na vida. Reparem só: ao escrever isto, estou a passar em fita na memória os meus amigos dos 60s. Todos com a sua actividade profissional bem conseguida, experiência de vida, sabedoria, política sempre como uma paixão herdada da juventude contaminada letalmente por qualquer interesse medíocre de proventos e prebendas.

Julgam que estou a idealizar? Antes das europeias, disse a um grande amigo geracional que não me restava mais nada, a olhar para o pântano viscoso e nauseabundo, do que votar em branco, uma espécie de ablução. Foi o que fiz e provavelmente farei nas legislativas. Ele discordou, votou num partido de protesto, para mim afinal perfeitamente inserido no sistema. Hoje, é ele que escreve: "É que não me passa pela cabeça votar num fantasma, numa ausência, numa não-candidata. E como não me vejo a votar no dr. Rio, num dos seus cúmplices, Rui Sá, o cavalheiro do PC que andou com ele às costas um largo período ou no Bloco, resta-me a hipótese desagradável de votar em branco ou de ir para a praia, coisa pouco salutar em Outubro. E como eu, muito boa gente, fez, começa a fazer ou ainda fará o mesmo raciocínio." Mas porque não o partido do voto em branco? Mais que duplicou de votação, nas europeias.

P. S. (4.7.2009) - depois do escrito anterior, dá-me gosto reproduzir uma notícia de hoje, no Público:

"Foi um gesto inédito o que se viu anteontem na Assembleia da República - não estamos a falar do que o que Manuel Pinho fez com as mãos, mas do elogio personalizado que o líder da bancada do PSD, Paulo Rangel, de partida para o Parlamento Europeu, dirigiu a deputados de todos os grupos parlamentares. Rangel assinalou, entre outros, "a cultura lúcida do Fernando Rosas" (BE), "a inteligência ímpar do António Filipe" (CDU), "a dignidade - que faz dele o melhor de todos nós - do Marques Júnior" (PS), assim mesmo: tratando-os por tu e sem poupar nos adjectivos. Por sinal, até teve mais pudor em falar da sua própria bancada. "Fui mais comedido. Como sou líder parlamentar, ficaria mal fazer essas distinções", explicou ao PÚBLICO.

O gesto surpreendeu os seus colegas de bancada. "Não me lembro de alguma vez ter sido feito", diz Rosário Carneiro, do PS. "É bastante inédito", nota Teresa Caeiro, do CDS. "É pelo menos raro", admite Nuno Magalhães, também do CDS. Todos os deputados a quem pedimos ontem uma reacção foram referidos no discurso de Rangel. Fernando Rosas diz que foi um acto de "generosidade intelectual", que "implica alguma coragem política, na medida em que não é vulgar na nossa vida política". Para Maria de Belém, é uma "boa prática, que devia ser norma nas relações parlamentares". Mas não é - pelo menos, com uma visibilidade pública. A actividade parlamentar, explica Teresa Caeiro, está muito marcada por uma lógica territorial. "Um exemplo: quando o Presidente da República vem à Assembleia, muitas vezes os partidos que não o apoiaram não batem palmas. Nos EUA, o Presidente vai ao Congresso e é aplaudido de pé por todos. Criou-se a ideia de que as convicções parlamentares e partidárias ficam menorizadas quando se reconhece o mérito de outros que não têm as mesmas ideias que nós."

O comunista António Filipe refere que o gesto de Rangel reflecte o "relacionamento pessoal muito correcto e cordato entre os deputados, independentemente das divergências frontais que têm". Mas a imagem pública não é essa - no imaginário colectivo, o debate parlamentar assenta na tensão e no conflito. "É natural que a imagem pública não seja essa", diz António Filipe. "Porque o que é visível do debate político é a polémica. Quanto mais acalorado for, mais notícia é."

Mas as relações entre os deputados também passam por outros níveis, com menos visibilidade pública: o trabalho nas comissões, que tem uma lógica de maior colaboração, nota Paulo Rangel ("É um trabalho construtivo, colectivo"); e as relações pessoais, que "geralmente são muito cordiais" e em que "todos os cruzamentos são possíveis". António Filipe reitera: "Há pessoas de bancadas diferentes que são amigas".

Marques Júnior, do PS, detecta hoje nos debates da Assembleia "uma certa crispação, que tem uma dimensão muito maior do que tinha antigamente". Fernando Rosas atribui a responsabilidade disso ao primeiro-ministro José Sócrates e às suas intervenções no Parlamento. "Ele imprimiu um cunho de ataque pessoal, a roçar o insulto, que não me lembro de existir em anteriores debates com primeiros-ministros", defende. "Expressões como 'O senhor deputado é ignorante' ou 'O senhor deputado é desonesto' são frequentes nos debates com o primeiro-ministro."

Paulo Rangel diz que "quis manifestar uma coisa que, em termos mediáticos e de opinião pública, não está consciencializada: a qualidade de muitos deputados e a forma totalmente dedicada com que exercem o seu mandato". Segundo ele, "temos um Parlamento com mais qualidade do que se diz", mas "Portugal tem uma cultura de fascínio pelo executivo, o que significa que é antiparlamentar - os deputados são mal vistos". Nuno Magalhães, do CDS, vê no discurso de Rangel o indício de uma nova geração pós-25 de Abril cuja abordagem política "passa mais pelo consenso do que pelo antagonismo", porque as relações com os outros partidos já não estão contaminadas pela agitação política desse período. "Não tenho ódios com o Partido Comunista."

Pode-se, portanto, ver na intervenção de Rangel o começo de uma bela amizade? António Filipe põe as coisas em perspectiva: "É um acto de despedida. Noutro contexto, não faria tanto sentido".

25.6.2009

Sócrates, cuidado com a tia!

Estive a ver a tia Manuela Ferreira Leite e não sei bem o que dizer. Começo logo por essa da tia. Não é pejorativo. Pelo contrário, Sócrates que se cuide. As minhas tias também falam assim, nas reuniões de família, na província ou nas ilhas. Dizem coisas simples e dão ideia de que podem governar bem o país porque sabem governar bem as suas casas. Velha sabedoria de S. Comba Dão, embora, longe de mim a ideia, não creia que ela foi buscar aí a inspiração.

Acho que não é nada de genial eu ter achado, como disse, que o cidadão comum, nas europeias, penalizou muito mais o estilo socrático (desculpa lá, ó velho ateniense que não tens culpa da homonomia!) do que as suas políticas. Assim, creio que o estilo, até Setembro, vai sobrepor-se ao conteúdo. É assim que esta tia pode ser perigosa. O tuga gosta de beijocar as tias, mas não gosta dos primos videirinhos que os defrontam com o seu sucesso arrogante.

É claro que pode jogar com a incapacidade para lhe criticarem fraquezas embrulhadas em conversa de tia. Por exemplo, o principal problema português e da política deste governo é o endividamento. Mas MFL não quer aumento de impostos nem diminuição das prestações sociais. Como é?

E a senhora, dolicodoce, também é capaz de farpas envenenadas e certeiras. A questão do negócio PT/Media-Capital ainda vai dar que falar. Alguém mente? Ou MFL faz afirmações sem provas? Claro que não sei, vou aguardar para ver.

P. S. - MFL tem-se apresentado com maior cuidado de imagem. É importante, nos tempos que correm. Rangel, que me dizem não ser nada disso, é feito parecer o pachola que toma uma imperial connosco, dizendo umas coisas simpáticas e simples, não parece doutor. Vital apareceu como figura postiça e pomposa, logo identificada pelo homem da rua com coisas ridículas e antiquadas, como o Avô Cantigas. Quantos votos terão sido decididos nesta base? Alguém aposta?

P. S. 2 - Enquanto escrevia isto, ouvi pela primeira vez o novo porta-voz do PS, José Silveira. O PS está louco! Vitalino Canas era mau, este é péssimo. Discurso banal e monótono, do qual não fica uma ideia. Cara inexpressiva, penteado à antiga, má voz, vestuário mal escolhido. Sócrates, só tens 3 meses, corre, corre!

9.6.2009

Auto-estradas de novos-ricos

Fiz há dias a minha terceira viagem à Cova da Beira, em 20 anos. Sempre pelo mesmo trajecto, embora por estradas diferentes: Lisboa, Santarém, Torres Novas, Abrantes, Castelo Branco, Covilhã. Lembro-me bem da primeira, calma, por uma boa estrada convencional mas confortável para o condutor, boas vistas para o Tejo, oportunidade fácil e rápida para ver a fachada da matriz de Constância e dar uma olhada ao castelo de Almourol.

Uns anos depois, era estrada já modernaça, creio que o IP6. Boa estrada, com pouco trânsito, a provocar a pisadela excessiva no acelerador.

Agora, auto-estrada, A23. Deserta, um carro de minutos a minutos. Sem portagem, SCUT. Mas feita sobre as estradas anteriores e, assim, sem alternativa razoável. Estamos todos a pagar o luxo de auto-estrada de alguns, mas que não têm culpa de terem de a usar porque lhes tiraram as antigas. Têm andado a brincar com os contribuintes.

9.6.2009

Os malefícios da Net

Todos os dias somos bombardeados com terrorismo intelectual veiculado pela net. É eficaz e bem feito, pelo menos ao que se vê por uma consequência: gente inteligente, educada, faz difusão em cadeia a dezenas de correspondentes. Dezenas a multiplicar depois por dezenas e dezenas, é uma enorme reacção em cadeia de estupidez, de desinformação, infelizmente também de crueldade.

A internet tem duas faces, primeiro a de fonte de informação que não dispenso. Há anos, precisava de folhear livros e livros para resolver uma dúvida, ter uma enciclopédia à mão, telefonar a amigos especialistas. Mas também a de veículo de irracionalidade, de “filosofia clínica”, de evangelismo brasileiro, de burlas primárias (ainda há quem caia no golpe da Nigéria, como se viu há dias). Uma coisa é o reverso da outra, é o preço que se paga, da mesma forma como antes pagava bem pela minha biblioteca científica, hoje quase gratuita. E, afinal, vendo bem, ainda me lembro dos santinhos de S. Judas Tadeu que os meus pais recebiam pelo correio, com terríveis ameaças se quebrassem a cadeia.

Mas há limites, que me parecem fazer fronteira com muitos casos internéticos de psicopatia, de sadismo, de perversidade malévola. Um caso típico, para mim, é o da exploração de situações humanamente intocáveis, doentes de cancro, mães de filhos deficientes. Nunca expando este tipo de mensagens, mas vou abrir excepção para que se veja, garantindo desde logo, como especialista, que esta apresentação é total aldrabice. E foi com dor que tive que a desmistificar com destruição de alguma esperança de uma amiga com cancro grave que ma mandou a pedir-me opinião.

Nos últimos tempos, também muita coisa sobre a gripe. Um amigo escreveu-me impressionado com o que lhe parecia um grande suporte científico, com citações segundo as normas científicas, das declarações do tristemente célebre (muito antes da gripe) "Dr." Horowitz. Respondi-lhe: “Enganas-te, meu caro. Se fores procurar bem, todos esses nomes são inventados. Simplesmente, ninguém se dá a esse trabalho de verificação. Eu tenho-o feito porque este assunto me tem preocupado. E é fácil, porque o lado negro da net é a outra face do lado bom, a possibilidade de hoje irmos verificar e confirmar todas as informações.”

Também outro exemplo, o do efeito cancerígeno de um banal detergente muito usado nos laboratórios e até em sabonetes e pastas de dentes, para fazer espuma. Claro que era pura aldrabice e coisa já antiga, com referência a um "cientista" americano. Nesta nova versão, a "brincadeira" era obviamente de refabricação portuguesa, porque vinha avalizada por uma professora da U. Nova de Lisboa, com nome, especialidade e tudo, inventada. A coisa correu tanto que mereceu um desmentido na net da universidade.

Outras vezes são coisas tão evidentes de aldrabice que me fazem pensar em pura brincadeira, embora perigosa. A última que vi até se baseava num imaginado osso humano minúsculo atrás da orelha, coisa que uma procura na própria net, por exemplo pela wikipedia, desmentiria imediatamente. O problema é que o pessoal é muito amador no uso da net.

Recordo características comuns deste terrorismo contra-informativo na net.
1. quando há um autor identificado (Horowitz e outros), são doutorados por universidades inexistentes ou especialistas só por terem sites fantasistas na net.
2. há uma mistura equilibrada com informações correctas mas banais, no início do texto, que dão credibilidade se o leitor for verificar. A partir desse ponto, confia-se em que o leitor já acreditou e começa a fantasia.
3. há grande tendência para abordar temas de grande impacto médico-psicológico: cuidados com os filhos, cancro, ameaças ambientais, etc.
4. as abundantes referências científicas dão erro 404 no browser ou remetem para sites pessoais.
5. quase sempre, teoria da conspiração, interesses ocultos de grandes empresas, até capazes de produzir um novo vírus da gripe.
6. frequentemente há um exagero de cores, bolds, pontos de exclamação, etc., pouco compatível com a austeridade típica da escrita científica (reparem que eu escrevo sempre as minhas mensagens de correio electrónico em "plain text", a não ser em respostas a mails com formatação).
7. invariavelmente, apelo a amplificação da mensagem, só faltando ameaças de penas infernais a quem quebrar a cadeia de S. Judas Tadeu.
8. ciclos de envio, por vezes com intervalo de anos. Quando receberem uma coisa destas, copiem a primeira frase e metam-na como chave de pesquisa no Google. Aparecem coisas iguais com anos e anos de idade, com pequenas alterações, principalmente dos "cientistas" que credibilizam a fraude.

Agora entro eu, para variar, na teoria da conspiração, porque tudo isto já tem uma dimensão preocupante de intoxicação colectiva e porque "no creo en las brujas, pero que las hay hay".

1. A minha primeira tendência é para considerar que a origem destas coisas é simplesmente psicopática. Mas quem as cria sabe com certeza como se fazem as coisas (mostrei acima) e sabe bem explorar a crendice e as condições de difusão da "pandemia". É feito com muita técnica. Não haverá mesmo nada de organizado em tudo isto, de movimento secreto de manipulação das mentalidades?

2. A acusação constante a empresas criminosas não terá alguma coisa a ver com guerra empresarial?

Desculpem-me se acham que também já estou a entrar em delírio.

P. S. - A propósito: tenho o cuidado de fazer de tempos a tempos uma pesquisa no Google com o meu nome, para ver se não há referências fraudulentas.

8.6.2009

E agora, José?

Os resultados de ontem foram tão claros em significado que qualquer comentário se arrisca a ecoar as banalidades que toda a comunicação social e bloguística escreveu hoje. Vou tentar resistir e só adiantar algumas provocações à reflexão, avulsas, não elaboradas, por isto até numeradas mas a eito.

1. Os eleitores castigaram Sócrates (JS). É óbvio. Mas castigaram o quê? O que tenho lido é que castigaram as políticas, o que poderia permitir, embora com muitas dificuldades temporais, uma correcção por golpe de rins das políticas. Creio que não. As políticas, faça-se justiça, até nem foram muito negativas. Reduziu-se o défice, resistiu-se minimamente à crise sem que o bolso do cidadão se ressinta muito. O que aconteceu foi as políticas terem sido sempre aplicadas com a mais insensata inabilidade política, com uma arrogância desmedida que ofendeu tudo e todos e que fez esquecer muito que de positivo, objectivamente, tinham as medidas adoptadas. O Zé Povinho até é submisso, atento, venerador e obediente. Gosta de governantes com a imagem do pai que lhe dava sovas de cinto mas para bem dele, para o fazer homem, pais como Pombal, João Franco, Salazar, Cavaco. Mas detesta, porque inveja, o chico-esperto que consegue entre dois ressonos a dormir o que o Zé não consegue a trabalhar na leira de sol a sol.

Contra isto, coisa de fundo, JS, em três meses, não vai poder fazer nada. Obviamente que não pode remodelar o governo, pior a emenda do que o soneto. Mudar políticas, se ainda fosse possível - e vêm aí as férias - já disse que, a meu ver, é secundário. Mudar de estilo é muito mais difícil, está no corpo, dele e dos seus ministros escolhidos à imagem e semelhança, embora, como Jeová e Adão, em níveis diferentes.

O Zé também tem uma forma peculiar de arrogância primária, de capacidade de juízo sem margem para dúvidas. Assim, as subtilezas do benefício ao presumido inocente não valem nada. JS está condenado com sentença transitada em julgado popular por ter tido uma qualificação académica charunfosa, por viver não se sabe bem como num edifício de luxo, por ter assinado para amigos projectos de casas com fachada de azulejos de casa de banho, por ter o azar de ter tios e primos que não se livram da acusação de mafiosos freeports. Por tudo isto, ler ontem e hoje que, afinal, descalabrado que foi Vital, só JS valeu ainda à limitação de avarias, parece-me sem sentido. JS deixou de ser parte da solução, é claramente parte do problema.

E quem semeia ventos colhe tempestades. A insensatez vitaliana do levantar como fez o caso BPN vai permitir ao PSD, ou por vias marginais, de imprensa e outras, fazer o mesmo grelhando lentamente JS nas brasas do Freeport.

2. Até que ponto podemos discutir as legislativas com base nestes resultados? Tenho muitas dúvidas. As europeias permitem facilmente votos de aviso, emotivos, que podem mudar muito quando a racionalidade do voto útil pesar, nas legislativas. Também a abstenção provavelmente altera significativamente o significado do voto expresso.

Mais, parece-me que nestas eleições não pesou obesamente o papel dos dirigentes partidários, por elas terem sido muito centradas na figura do cabeça de lista. Acho que Rangel teve um papel muito importante, que até seria de considerar como indigitado candidato a primeiro ministro nas legislativas, e que Manuela Ferreira Leite não vai ser tão bom argumento eleitoral nas legislativas.

A própria vitória expressiva do PSD pode ter efeitos paradoxais. Em vez de animar as hostes - e é bom que acabem com o espectáculo ridículo de ontem de uns JSD com ar de imbecis a obrigarem os líderes a slogans patetas, com o próprio Rangel a gritar “ninguém para o Rangel”! - é possível que muita gente que mostrou o tal cartão amarelo ao PS fique agora com medo de lhe mostrar o cartão vermelho em Setembro, não venha outra vez o governo de direita. Admito que a subida substancial da esquerda tenha vindo principalmente de eleitorado do PS que, nas legislativas, pensará duas vezes.

3. Parece-me inegável um paradoxo: sociologicamente e eleitoralmente, o bloco central encolhe, mas politicamente ganha peso. PS e PSD somaram 58,3% dos votos. Tinham tido 73,8% nas legislativas de 2005. À direita, o CDS não muda muito, 8,4% agora, 7,3% em 2005. Marcante é a diferença do conjunto PCP e BE, 14% em 2005, 21,4% agora. O que resulta é que a fronteira esquerda-direita não fica posicionada da mesma forma. O PSD ganhou ontem mas não o suficiente para garantir em Setembro a vitória de um bloco de direita PSD-CDS, que só teve ontem 40,1%, insuficiente para uma maioria parlamentar, muito menos se em coligação pós-eleitoral.

No entanto, a maioria de esquerda de ontem é fictícia. Ninguém acredita numa coligação PS-PCP. Quanto a uma coligação PS-BE, a meu ver não tão espúria como alguns possam pensar, não sei como será possível depois das incursões corsárias do BE às aldeias costeiras alegristas e, mais importante, aos inesquecíveis ataques de António Costa no congresso do PS. Louçã nunca me conseguirá surpreender, conheço-o de ginjeira, mas engolir isso até me pareceria demais.

Vamos admitir que os dois amigos do centrão vão disputar o primeiro lugar taco a taco, em Setembro. Ganha o PSD? Não consegue provavelmente ter maioria de governo com o CDS. Ganha o PS? Não tem hipóteses à sua esquerda. Receio muito que venha aí o execrável bloco central. O que não deixa de levantar uma questão marginal: se for o PS a ganhar, como é que JS, habituado a governar em absoluto neste mandato, vai saber negociar com o seu parceiro encabeçado pela inimiga de estimação? Isto faz-me voltar a uma questão que pus atrás, a necessidade imperiosa mas absolutamente impossível de o PS arranjar dentro de dois meses um substituto para o engenheiro.

4. Vital Moreira (VM) foi a desgraça anunciada que aqui referi oportunamente. Politicamente, VM sempre foi um equívoco. Nos seus tempos do PC, não teve qualquer traquejo político, nunca dirigiu alguma organização política, nunca foi desafiado a lidar com a psicologia colectiva política. Sempre foi um homem de gabinete. Está-lhe no feitio algum elitismo que lhe arrepia a pele no contacto com a gente da rua. Querendo agora fazer comício, foi patético. Nem da sua imagem física cuidou e ficou ridicularizado por alusões jocosas a figuras do cinema infantil. Mas nada disto teria importância comparado com o seu degradante desvio da campanha para a chicana e, no fim, ainda ontem, coisas inadmissíveis: a ausência de um cumprimento pessoal e privado ao seu adversário vencedor, a reclamação contra a “ameaça” política da subida eleitoral do sector político à esquerda do PS e, principalmente, o alarme em relação à ingovernabilidade, pela tal diminuição do peso eleitoral do bloco central. Com isto, VM legitima a suspeita de que já não é um possível factor de influência no PS, pela sua esquerda, mas sim um elemento claramente posicionado na zona do PS que intersecta o PSD, de braço amigavelmente dado.

5. Há um partido de que ninguém tem falado, aquele em que votei, pela positiva: o do voto em branco. Não é abstencionista, é de gente que tirou tempo ao seu domingo para ir votar. Foram 4.6% de votos, tantos quanto a soma dos pequenos partidos, eventualmente (hei-de fazer as contas pelo Hondt) o suficiente para eleição de um deputado fantasma. Duplicou a votação, em relação às europeias anteriores e destacou-se dos 1,8% das legislativas de 2005. Como sou parte interessada - muito provavelmente será novamente o meu voto nas legislativas - fico por aqui.

6. O PCP aguenta-se. Quase vinte anos depois da implosão do mundo soviético, e para quem tem um sentido não imediatista da história, como é o caso dos dirigentes comunistas, nada mau. São é ingratos, tão bons favores lhes têm feito os “verdes” e não lhes asseguraram um deputado.

7. Outro derrotado foi Carlos César. Longe da minha terra, não sou capaz de comentar o que foi o descalabro do PS nos Açores. Provavelmente, também ele não, porque veio argumentar com toda a saga do estatuto dos Açores, quando se sabe que o ressentimento autonómico poderia ser contra Cavaco e, indirectamente, contra o PSD, mas não vejo como contra o PS.

8. Derrotado piedosamente esquecido foi também Alegre. A meu ver, estas eleições foram o seu fim. Poder-se-ia dizer que não, que a derrota de Sócrates o beneficia. Se sim, seria vitória de Pirro. Alegre tem uma total incapacidade de gestão dos “timings” e apareceu antes destas eleições como não tendo querer afrontar o aparelho oficial do PS, ser acusado de prejudicar eleitoralmente o partido. Afinal o partido perdeu, o seu adversário de estimação perdeu e Alegre não vai conseguir tirar disso o menor proveito. E, entretanto, a sua muleta BE ganha e cada vez menos precisa de Alegre. Depois da possível derrota do PS em Setembro, ou de uma provável crise algum tempo depois de um desconchavado concerto de bloco central, para que JS não está fadado, o PS vai procurar alguém (António Costa? Pedroso? Vitorino?), mas não o poeta já setentão. O tempo de Alegre acabou definitivamente. Espero que ainda não para umas boas caçadas de perdiz. E que me mande algumas.

P. S. - Enganei-me. Afinal, Carlos César responsabiliza é Vital Moreira. Já não digo nada.

P. S. 2 - Se fosse partido, o voto branco teria eleito o 18º deputado (em 22).

29.4.2009

Para onde vai a imprensa?

Há muito tempo que me questiono sobre a vantagem de os “sites” de jornais respeitáveis darem acesso a comentários anónimos, em geral inaceitáveis. Eu sei que é negócio, a publicidade vende-se a preços dependentes das visitas ao ”site”, nem que seja para escrever coisas incivilizadas. Ou então, transparentemente, coisas organizadas de intervenção partidária, de todos os lados do espectro político. Mas isto não envergonha a gente que respeito na comunicação social, muitos meus bons amigos?

Habitualmente, nem leio tais porcarias, mas hoje, sentindo-me com responsabilidades cívicas de informação sobre um assunto da minha área profissional, a gripe mexicana ou nova gripe, dei-me ao trabalho de compilar algumas pérolas do que é esta magnífica “democracia” directa da net. São comentários no "site" do Público.

28.04.2009 - 23h59 - Anónimo, 4700 braga
Será que este virus não se escapou de um laboratòrio por descuido de alguem? para tirarem as vacinas que estao armazenadas que era para vender para a gripe das galinhas e como ela não chegou e as vacinas a validade deve estar a acabar e tem que ser vendidas

Cá vem a teoria da conspiração. Não só, há gente tipicamente portuga que nem se interroga sobre o seu grau de conhecimento. Um vírus pode-se escapar de um laboratório… pelas escadas ou pelo elevador? E temos vacinas armazenadas! Ou temos medicamentos, Tamiflu? É tudo a mesma coisa? Já agora, qual é o prazo de validade?

28.04.2009 - 22h03 - Gualter, Lisboa
Vejam bem a postura do sr. helio verissimo usa como dos governantes a palavra chamando de estupidos aos portugueses, é pena os conhecedores da verdade como ele não terem falado quando quase toda a europa bateu o pé contra o sangue contaminado vindo do mexico á uns anos, e que em portugal foi aceite como rosas e que contaminou centenas de portugueses com SIDA, depois ninguem foi culpado! o estado escapou, e os queixosos morreram. E num pais onde nem são capazes de controlar as entradas de criminosos cadastrados. Sr. helio Preocupe-se com os seus, e respeite os filhos dos outros.

Delírio ou desonestidade pura e simples? Sangue do México contaminado com o vírus HIV? Numa mala de Leonor Beleza, de Sócrates ou de Manuela Ferreira Leite? Ou no toilette do Falcon de Cavaco? E, como não devia faltar nestas pérolas de cultura, o típico “á uns anos”.

28.04.2009 - 21h08 - Luis, Almada
Diz a notícia: "A gripe suína foi detectada inicialmente no México, onde terá provocado mais de 150 mortos, segundo as autoridades locais." Mas isto é falso, (…) sólo hay 79 casos de infección en el mundo confirmados por los laboratorios.

Exactamente, mas mal interpretado. Uma coisa é a confirmação laboratorial, outra o diagnóstico clínico. É óbvio que, numa situação como a da cidade de México, não se está a cuidar de fazer o diagnóstico laboratorial caro, de todos os mais de 1600 casos de gripe. Presume-se, com uma margem de erro desprezível, que, nesta altura, todos os casos de gripe são causados por este novo vírus, apesar de só um pequeno número, 79 casos, incluindo ou até maioritariamente os norte-americanos, terem sido confirmados laboratorialmente.

28.04.2009 - 20h46 - Amadis , HPS vírus socialista
era bom, era, o vírus só exterminar a cambada socialista do Rato ! Portugal poderia sonhar de novo com melhores dias.

Sem comentários. É o que disse, a abertura de um espaço público de intervenção aos mais incivilizados. Mas dêem-se ao trabalho de ver ao acaso estes comentários numa notícia ou noutra. Aparecem sempre. E eu que sempre tive como lema que “nada do que é humano me é estranho”! Provavelmente, vou ter de redefinir o que é para mim ser humano.

28.04.2009 - 20h39 - Ricardo Freitas, Mexico DF
Isto ja esta muito mau por aqui (ha 2 horas atras, o governo mexicano mandou encerrar os mais de 35.000 restaurantes existentes na cidade). No sabado ja tinham fechado as discotecas, bares, museus, teatros, cinemas, pavilhoes desportivos, estadios, etc). Aqui na cidade do Mexico, neste momento ja se fala na eventualidade de subir o alerta para nivel 5 caso se confirme os casos locais nos USA. se isso acontecer, estarei a caminho de Portugal.

Inclui este comentário para amenizar esta amargura. Ainda há quem se saiba limitar a escrever o que viu e conheceu, sem mais bocas.

28.04.2009 - 20h30 - Jamé, Lisboa
Mais uma catastrofe natural na forja para distrair a carneirada do que realmente interessa. Agora a gripe mexicana a seguir uma guerra, depois outra vez a crise. adivinhem quem está a ganhar dinheiro com as gripes?

Fico em pulgas. Não gosto nada de ficar sem saber qualquer coisa que devia estar ao alcance da minha inteligência. E sou muito vaidoso, não me agrada que haja gente mais perspicaz do que eu, mais apta a penetrar nos segredos dos deuses. Quem é que está a ganhar dinheiro com a gripe? Santo condestável, último santo portuga, ajuda-me, ilumina-me!

28.04.2009 - 19h15 - Anónimo, via lactea
ESTE FRANCISCO GEORGE TAMBÉM TEM IMENSA GRAÇA E IGNORÂNCIA. FAZEM ASNEIRAS MAS ESTÃO LEGITIMADAS PELO VOTO POPULAR. BIBA O VOTO POPULAR. Ó POVO, VOTAI. VIVAM OS NOSSOS RESPONSÁVEIS PELA SAÚDE PUBLICA E OUTROS DESTE GOVERNO PELA BAGUNÇA EM QUE TORNARAM ESTE PAÍS. VIVA A CHOLDRA.

Esta não é para ter resposta, não me rebaixo. É o exemplo do insulto puro e duro, anónimo, cobarde, boçal. O “site” de um jornal responsável deu-lhe abrigo. E nem é um arroto anti-PS, é uma alarvidade antidemocrática que bem poderia aparecer também contra um governo PSD ou outro.

No fim de tudo isto, fica-me a pergunta angustiada: este país é um manicómio, uma choldra ou um bazar oriental em que uma comunicação social sem escrúpulos mercandeia a miséria da ignorância e da estupidez natural de muito Zé Povinho?

23.4.2009

Nefelibatas e diletantes

Há duas palavras que me sugerem coisas que detesto: nefelibata e diletante. Ambas me evocam superficialidade, desonestidade intelectual, narcisismo. Deve vir da infância, de me lembrar do seu uso pejorativo pelo meu pai. Afinal, indo ao dicionário, verifico que não é bem assim. Nefelibata: pessoa que anda nas nuvens, escritor excêntrico. Diletante: amador das artes; o que brinca com teorias, conceitos, sem levar a sério nada disso. Ora o que os diletantes de que vou falar fazem é levar muito a sério o que dizem. Então, o que lhes chamar? Vou por coisa bem popular: parvalhões!

Isto vem a propósito de uma curta declaração de Miguel Esteves Cardoso à Visão de 23.4.2009, sobre os seus tempos de director do Independente: “Éramos, acima de tudo, anti-Cavaco. Publicámos algumas mentiras, coisas horrorosas”.

Porque é que eram anti-Cavaco? Por divergências políticas? Nada disto, penso, antes porque eram “gente bem” que até então, depois do 25 de Abril, tinham convivido com gente, mesmo que de “esquerda”, que eram dos deles, dos que afectavam o “charme discreto da burguesia”. Freitas, Sá Carneiro, Mário Soares, até, de certa forma, Cunhal. Cavaco era o filho do gasolineiro, comia de boca aberta, só recentemente tinha ouvido, no carro, um concerto de piano de Mozart.

Miguel Esteves Cardoso publicou mentiras. É uma confissão respeitável, mea culpa sincera? É a manifestação clara de um remorso? Mais uma vez suspeito de que não, de que é mais uma brincadeira a gozar com aquela desprezível massa de leitores que justificam o seu - e dos seus amigos - destino indiscutível de escribas, mesmo que apenas escribas bobos da corte da verdadeira escrita, cómicos que debitam coisas engraçadas, quando calha, mas que não adiantam nem um milímetro à sabedoria dos tais leitores desprezíveis. Sempre lhes devem ter dito que eram muito engraçados, não tiveram a minha sorte de ter tido uma avó que me adorava mas que tinha a sabedoria de me dizer "João Manuel, és esperto, faz por converares bem, mas não queiras ter graça, porque não tens jeito".

O clube tem muitos sócios, falo agora só na sua “direcção” simbólica. Esteves Cardoso, António Barreto, Vasco Pulido Valente, Filomena Mónica. Até são pessoas respeitáveis, profissionalmente, embora sem muitas afinidades. Também não têm afinidades em alguns posicionamentos quando querem falar a sério, coisa que lhes é cada vez mais difícil. No entanto, fazem lista conjunta para a direcção do clube porque partilham características essenciais.

São gente muito inteligente, não porque alguma coisa fundamentada o tenha provado, mas apenas porque se juntaram para o provar duas coisas indiscutíveis, o seu olhar para o próprio umbigo e a opinião do barbeiro de Unhais, coisa que já vem de trás, “aquele rapaz muito inteligente de Lisboa, o Pacheco”.

Vivem num mundo próprio de saudosismo por um pequeno Chiado em que só contavam Abranhos e Gouvarinhos, sentindo-se eles as excepções olimpicamente queirozianas, como se o mundo de hoje ainda tivesse lugar para tertúlias de “iluminados”. Nasceram bem, crêem que foram educados com requinte, julgam saber discutir o último “millésime”, quando afinal são burgueses desprezados pelos que se consideram verdadeiros aristocratas.

Têm um desprezo enorme por seja quem for que se tenha feito na vida, com esforço, com méritos intelectuais, morais e de carácter que não compreendem. São os guardiões auto-proclamados do mundo das ideias, embora, como Fradique, as considerem tão preciosas que as têm bem aferrolhadas no sótão, ao abrigo da curiosidade conspurcante da vilanagem. E como têm tantas ideias armazenadas, não precisam de produzir novas.

Escrevem por tudo o que lhes é oferecido, tirando partido da saloice de uma imprensa medíocre que se julga enriquecer com tais contributos. E estão tão acima da mediocridade da vida real que, escrevendo sobre coisas afinal bem importantes (importantes as coisas, não o que escrevem), distanciam-se da “porcaria” da intervenção política. Neste sentido, apesar de muita coisa em comum, considero mais honestos os que não disfarçam a natureza comprometida e instrumental do seu discurso, como é o caso de Marcelo Rebelo de Sousa ou de Pacheco Pereira.

Mas, afinal, não estou eu também a ser diletante, a escrever coisas insignificantes que fazem perder tempo aos meus leitores? Vale a pena perder tempo com tal gente? Vale. Eles são lidos, influenciam, envenenam com o seu cinismo a opinião pública, já de si, portuguesamente, tão susceptível à aceitação da crítica corrosiva, da má-língua. Enquanto houver um único leitor que não esteja alerta para a gravidade do que foi a frase de Miguel Esteves Cardoso com que comecei esta nota, vale a pena denunciar este clube de “intelectuais” doentes.

21.4.2009

Ainda há outra esquerda

1. Foi dado destaque mediático a um apelo para a apresentação de uma candidatura única de esquerda às eleições autárquicas de Lisboa, numa situação perigosa em que a lista comum PSD-CDS pode bem ganhar. Creio que a iniciativa vem dos lados dos renovadores comunistas, mas isto não me interessa, até é bom, assim não vejo nisso nenhuma instrumentação partidária. Simbolicamente, teve o apoio dos dois cabeças de lista da primeira candidatura unitária, Jorge Sampaio e José Saramago.

Infelizmente, tudo indica que esta iniciativa não terá sucesso prático. Todos os partidos e movimentos de esquerda já anunciaram que vão concorrer isoladamente. Realisticamente, não era de esperar outra coisa. Como é que o PCP, pertinaz opositor do PS e do seu governo, podia apresentar-se coligado com o PS? E, por parte deste, o que esperaria dos viperinos ataques ao BE, no congresso do PS, e logo disparados pelo presidente da CML, António Costa?

Talvez isto explique que, contra o que imaginei, a petição não tenha tido ainda grande subscrição. Entretanto, o grupo de subscritores iniciais, em que me integrei com todo o gosto, começou a publicar um blogue, “Esquerda para Lisboa - Apelo à convergência”, que começa por ter respostas dos promotores à simples pergunta “porque subscrevi o Apelo à Convergência de Esquerda para Lisboa?”. Aqui vai a resposta que enviei, propositadamente curta e singela:

“Em primeiro lugar, porque concordo com o apelo e reconheço a sua importância política, para já a nível municipal, mesmo que tudo indique que não vá ter consequências práticas imediatas e que, tanto quanto se noticia, a esquerda vai apresentar-se fraccionada. No entanto, "água mole em pedra dura...".

Para além desta resposta, há outra talvez menos óbvia. Eu próprio me interroguei, simplesmente por não ser eleitor por Lisboa. Tenho o direito de interferir numa eleição que não me diz respeito? Neste caso, claro que sim, porque ela me diz respeito, diz respeito a todos os portugueses.

Com todo o respeito por qualquer pequeno município do interior, Lisboa (e mesmo o Porto) é diferente, tem grande impacto em toda a vida política nacional.  Basta lembrar que dois presidentes da CML beneficiaram grandemente dessa imagem para cargos de nível nacional, Sampaio e Santana Lopes. É certo que as autárquicas vêm depois das legislativas, mas não é só cada momento eleitoral que conta. Desculpem o trocadilho, mas este ano vai ser todo um "momentum" (e "movimentum") indissociável.”

2. A mesma amiga que me convidou a integrar o grupo promotor dessa iniciativa enviou-me hoje um alerta sobre o jantar do 25 de Abril da Associação 25 de Abril (A25A):

“A ASSOCIAÇÃO 25 DE ABRIL vai organizar este ano o jantar convívio do
35.º aniversário do 25 de Abril, nas instalações da antiga Escola
Prática de Cavalaria, em Santarém, local de onde sairam as tropas de
Salgueiro Maia. Seremos convidados da CM Santarém.
Dia: 24 de Abril de 2009
Hora: 19h30 (convém chegar um pouco antes…)
Preço: € 5,00
Para quem necessite de transporte, existem autocarros  a partir de Lisboa, ao preço de € 10,00, viagem de ida e volta, com partida da porta principal do Jardim Zoológico (1º autocarro às 17h, último às 18 h)
A partir das 23h00, haverá um espectáculo evocativo do 25 de Abril,
que se espera seja grandioso, realizado pelos mesmos responsáveis dos
espectáculos feitos na Expo98, em Lisboa.
INSCRIÇÕES: a25a.sec@25abril.org ou telf. 21 324 14 20, referindo se precisam de transporte  -  TÊEM QUE SER RÁPIDOS!
Vai ser um jantar memorável, num local histórico!”

Estranhei e, por ignorãncia minha do que é hoje a A25A, perguntei à minha amiga se esse jantar não era aquele normalmente organizado por e para militares do MFA, em cujo número não entro (não se pode ter tudo na vida!). Respondeu-me.

“De forma nenhuma! AA25A é uma associação aberta aos civis, todos podemos tornar-nos sócios, com iguais direitos e regalias dos militares. Inicialmente foi fundada por militares, mas cada vez se abre mais à sociedade civil. Aliás, se forem ao site, verão como está organizada. Todos deviamos participar, têm um restaurante aberto a todos, e na sua sede organizam-se actividades culturais e civicas diversas. Eu própria sou uma sócia activa.”

Claro que fui logo ver o “site”. Confesso que não conhecia. Ainda só o vi na diagonal, mas pareceu-me que o acervo de informação é impressionante e que a A25A está muito activa (sem desprimor para todos os outros, Vasco Lourenço não é homem para ficar refastelado em cadeira de baloiço, a assobiar para a lua). Espero é que consiga atrair muitos sócios jovens, para que não se perca a memória. Se há coisa que me entristece é ver a idade típica dos manifestantes avenida abaixo, no 25 de Abril.

Declaração de interesses - Não pertenço ao grupo dos renovadores comunistas. Tenho apreço pela sua actividade, mas a minha saída do PCP foi já há muito tempo e em condições muito diferentes. Há tanto tempo que o mesmo vale para outros grupos de amigos (grupo dos seis, dissidentes de 1991) cuja saída segui com interesse mas já com algum distanciamento pessoal. É tudo uma questão de calendário, mas que, obviamente, não me inibe de colaborar com os renovadores sempre que o desejarem.

13.4.2009

Ideias brilhantes

Hoje quase não vou escrever nada nesta nota, basta a citação. Vem a propósito de António Barreto (AB). De AB há muito que não conheço uma ideia nova, original, estimulante. Agora tem responsabilidades, preside a uma fundação (F. Francisco Manuel dos Santos) que se pretende incubadora de ideias, com orçamento anual de 5 milhões de euros. Começou mal, ontem, no Público, a apoiar a proposta de F. Ulrich de uma solução miraculosa para a crise: a total liberalização dos despedimentos e o emprego sem contrato, temporariamente.

E promete vir a ter mais novas ideias: “Ao lado desta, muitas outras medidas de excepção deveriam ser estudadas e postas em prática. Dada a doutrina geral do Estado de protecção social e do "modelo europeu", feitos, note-se, para tempos de fartura, é pouco provável que haja em Portugal coragem e liberdade suficientes para pensar em soluções que, aparentemente, prejudicam os trabalhadores e são de cariz liberal. Mas é verdade que precisamos de imaginação e desprendimento ideológico, sem os quais será muito difícil sair da crise.”

Disse que me ia ficar por uma citação. É que concordo inteiramente com a crítica a AB feita hoje por João Rodrigues, no blogue “Ladrões de bicicletas”, cuja leitura recomendo vivamente.

1.4.2009

Ausência

Timothy Garton Ash, no Guardian, "The G20 summit in London will be missing one great power. Guess who?":

When President Barack Obama comes to London next week, he will find one great power missing at the world's summit table: Europe. Five of the 20 leaders at the G20 meeting will be Europeans, representing France, Germany, Britain, Italy and the EU, but the whole will be less than the sum of its parts. There will be plenty of Europeans but no Europe. (...) Ler mais.

13.3.2009

Big brother?

Parafraseando às avessas uma frase célebre, exemplo da arrogância inculta e boçal que está sempre por detrás da humildade hipócrita do Zé Povinho, eu engano-me frequentemente e muitas vezes tenho dúvidas. Vou hoje desvariar sobre isto, a propósito do que se pode considerar um “fait divers”: o parlamento vai legislar hoje sobre o teor de sal no pão. Hoje de manhã, ouvi um daqueles programas típicos em que toda a gente opina, em geral com certezas absolutas. E eu cada vez com mais dúvidas.

Antes do pão, uma outra coisa em debate, a proibição, por lei votada pelos nossos deputados, para isto lhes pagamos, de fornecimento de alimentos hipercalóricos nas cantinas das escolas. Eu a pensar que era coisa que já há muito tempo devia ter sido decidida pelas direcções das escolas. Vá lá, talvez necessitando de directivas das DRE. Ou até um despachozinho da ministra. Mas lei da Assembleia da República? Se eu fosse deputado, a ter de demonstrar o meu empenho e a indiscutibilidade de inclusão nas próximas listas, já teria uma lista de leis proibitivas, contra cuspir no chão, urinar nas piscinas, gritar palavrões em público (lei especial para estudantes universitários nos seus bares e cantinas) e muito mais.

Mas vamos ao sal no pão. Indiscutivelmente que é questão de saúde pública, mas não há hoje coisa mais ameaçadora (a não ser a segurança contra o terrorismo) do que a protecção da saúde pública. Até é paradoxal, porque hoje o bom senso e a defesa das liberdades limitam coisas que se passaram noutros tempos. Nenhuma prostituta é hoje submetida aos exames sanitário-policiais de doenças venéreas. É muito difícil internar compulsivamente um doente mental. É praticamente impossível (só em Cuba) isolar um portador do vírus da Sida, mesmo que se suspeite que ele passa a vida a infectar outros ou outras.

É indiscutível o dever de proteger a saúde dos que passivamente estão a ser lesados por outros, na sua saúde. A lei antitabágica é um bom exemplo, indiscutível, só posta em dúvida por abencerragens tão tão cultas mas tão incivilizadas como fumadores fanáticos tipo Miguel Sousa Tavares (eu falei atrás de arrogância ou já estou perdido na escrita?…).

Lamentável é a necessidade de tal lei, porque não pode haver uma lei com um artigo único: “Todos os portugueses estão obrigados a proceder com o mais elevado grau de espírito cívico”. Com esta lei eu lidava bem, como fumador que fui mas que nunca acendeu uma cigarrilha sem ter a certeza de que os seus convivas não objectavam. Sorte que eu tive de ter sido educado por um pai com muitas influências inglesas. Quanta gente portuguesinha ouviu quase todos os dias em criança “a tua liberdade, tens de a defender ao máximo, mas acaba quando ofende a liberdade de outro”.

Também é indiscutível, julgo, que o Estado tem o dever de proteger os cidadãos contra riscos de que eles não se apercebem: dioxinas e outros tóxicos nos alimentos, toxinas bacterianas, mariscos contaminados com algas tóxicas. Mas onde se traça a fronteira da razoabilidade? Como a luta política é o exemplo do que gente decente e possivelmente inteligente, possivelmente educada, possivelmente racional, devia ter vergonha, ouvi hoje esse exemplo de maleabilidade mental chamado Bernardino Soares criticar o PS por estar a legislar só sobre estas coisas, sem afectar as cadeias de “fast food”. Eu detesto o MacDonnalds porque sou um snob incorrigível, mas sei que o controlo de qualidade daquelas coisas gastronomicamente execráveis (mentira, até como se for preciso!) é superior ao de muitos dos nossos restaurantes estrelados. Pois é, mas é símbolo do imperialismo, tal como tivemos um general Coca-cola.

Outra coisa são os riscos que chamarei de fronteira, como o sal. É factor de risco para a hipertensão, doenças cardiovasculares e renais. Mas qual é o risco, em números? E se eu comer sal a mais, ao contrário de fumar em espaços fechados, estou a lesar alguém? Já sei o que vão dizer e não deixarei de lá ir.

Se eu gostar de pão salgado, é meu problema. Tão meu problema como gostar (suponhamos) de desportos radicais, de roleta russa, de séries de duas dezenas de shots duros no Bairro Alto. No entanto, obviamente, é essencial que o meu vizinho que quer pão insonso o consiga encontrar. Mas alto lá, não estou a entrar em conversa complicada de lógica de mercado, oferta e procura de pão salgado e pão insonso?

Mais importante é outra questão, em tempos de crise, de discussão da viabilidade do estado social. Que direito tenho eu de invocar o meu direito à asneira de costumes, no domínio da saúde, e querer ao mesmo tempo beneficiar de um sistema de saúde pago por todos, incluindo pelos que são conscientes e cuidadosos com os seus hábitos, no caso presente os alimentares?

Para dar ênfase aos factores de incerteza, adiante, vou dar agora de barato algumas coisas politicamente elementares: é justo que sejam penalizadas pessoas que não têm acesso a informação adequada? Pessoas que eventualmente possam estar a pesar no SNS por efeitos de erros seus, mas em épocas antigas em que ninguém sabia desses efeitos (há quanto tempo se sabe que o cancro do pâncreas está relacionado com o tabaco?)? Pessoas que, voltemos ao tabaco, foram bombardeadas com toda uma publicidade agressiva, até geradora de impostos, como ainda hoje? O meu pai, fumador extremo e morto com um cancro do pulmão, devia ter sido penalizado, quando teve ironicamente uma variante rara de cancro do pulmão que se sabe que nada tem a ver com o tabaco?

A Sida espalhou a noção de comportamentos de risco. Claro que não os discuto, mas mesmo assim não me arrogo o direito de condenações e muito menos de discriminações em relação ao direito à saúde. Eu, heterossexual, sou lá capaz de compreender as razões psicológicas que levam um homo marginalizado a comportamentos que não são os meus, à promiscuidade, ao gosto pelos quartos escuros? E que conhecimentos tenho eu para tentar discutir a situação dos viciados em drogas, outro grande grupo de risco?

Mas esta certeza sobre os comportamentos de risco teve um efeito nefasto, deu garantia fácil e irracional a afirmações ligeiras e pouco ponderadas. O sal causa hipertensão, a sociedade tem o direito de penalizar os abusadores de sal. Mas quantos casos de hipertensão não estão assim tão linearmente relacionados com o abuso de sal? O tabaco causa cancro do pulmão, é verdade, mas que estupidez é dizer coisa muito diferente, que todo o cancro do pulmão é devido ao tabaco e que, logo, quem fuma tem de assumir toda a culpa por um eventual cancro?

Tenho de ficar por aqui, creio que já ilustrei o que era o meu intuito. Hoje estamos a viver com verdades absolutas, fáceis, nesta micro-racionalidade (oligofrénica) do “sound bite”, da cultura alarve que se vive nas escolas superiores, entre praxes, cervejadas e piadas obscenas, das certezas absolutas, tão absolutas como o indiscutível penálti que se viu na TV, não tão absolutas como as notícias e artigos sobre o mundo do nosso dia-a-dia, desafiantes da reflexão, mas que não se lêem (e as editoras a irem à falência…).

Por tudo isto, chateia-me, dói-me, pesa-me, tenho vergonha de ter de dizer que eu me engano frequentemente e muitas vezes tenho dúvidas.

6.3.2009

Que viva Keynes!

Esta súbita reconversão geral ao keynesianismo, como tentativa de combate à crise, é afinal, para mim, o mais evidente sinal de uma globalização que, até agora, era um pouco exercício de retórica e brilharete de analistas planantes na esfera dos favoritos dos deuses. Agora não, a globalização é palpável, é a noção que tem o homem da rua de que as “poupanças” malucas em francos suíços dos húngaros podem pôr em risco a capacidade de controlo a nível europeu, que pode abanar até o euro, e lá se vai à vida a pobre economia portuguesa, vestida com esse roupão de lantejoulas de puta cara mas que não tem o hábito de tratar minimamente da sua higiene diga-se, economia).

Dizia que a receita neo-keynesiana anda a apertar na formatura tudo o que é decisor, parece globalização de ordem unida na parada. Infelizmente para nós, talvez não. Obama deu prioridade ao investimento na educação. Escrevi recentemente sobre isto. Sócrates diz idem, mas posso suspeitar de que isso é mais uma das suas proverbiais “faltas de rigor” (hoje deu-me para ser generoso) e que o homem está mesmo a sonhar é com coisas de betão, que até se vêem em inaugurações festivas e enfardanço de croquetes oleosos, eventualmente como entrada de almoço volante de bacalhau espiritual e de arroz de pato.

Mas admitamos que o nosso primeiro está mesmo a pensar a sério numa prioridade da educação. O que é que isto significa? Construção de escolas? Mais e mais Magalhães? Contratos com a Microsoft, sem qualquer criação de riqueza e de conhecimento nacionais? Ou uma perspectiva à Obama, como escrevi, que pode ser trazer à escola tudo o que possa ser bom professor, baixando-lhes os impostos e pagando-lhes mais?

Não sendo economista, creio, com senso comum, que o investimento público em época de crise financeira, tem três critérios essenciais: 1. abordar a crise financeira integradamente com a crise económica, porque é a produção que cria riqueza, não a “economia virtual” do mercado financeiro; 2. centrar os esforços mais na criação de procura do que na manutenção de uma oferta que pode não ter sustentação real do mercado; 3. minimizar as consequências do desemprego.

Só vou reflectir um pouco, como leigo, sobre o desemprego, e em termos do que pretendo que seja uma visão de bom senso. Muito se tem falado sobre o efeito do investimento no betão sobre o emprego. Há um aspecto específico em que não me quero meter agora, embora me preocupe até em termos de riscos de emergência de reacções xenofóbicas e fascistas: o facto de o emprego na construção civil estar muito ligado a comunidades não originalmente portuguesas. Para além deste emprego directo nas obras, o que se ganha em emprego e actividade económica, fora os gigantes, cimento e ferro? Camionagem, extracção de areias, tintas e materiais de pouco valor acrescentado.

Entretanto, quem é que vai ser empregado? Os que vão ser afectados primordialmente pelo desemprego? Estamos já a ver quem são. Primeiro, desqualificados, principalmente mulheres - operárias têxteis e das pequenas indústrias de montagem, empregadas domésticas, caixas de pequenos estabelecimentos comerciais a falirem. Vão ser empregadas nas novas obras de aparato?

Também, noutro extremo, jovens qualificados, com formação superior, ou que ainda não conseguiram emprego e não o vão conseguir, ou que estão em situação precária. Vão para as obras? Neste caso, nem digo que não, mas será uma tragédia absurda em termos de rentabilização do nosso capital humano.

Com tudo isto, volto ao investimento na educação. O quadro parece-me de uma clareza cristalina. Rejeite-se liminarmente a perspectiva do betão, que seria um absurdo se aplicada à educação. Construir escolas onde, onde a desertificação as está a fazer fechar? Nas zonas mais povoadas, qualquer pai que acompanhe os filhos sabe que, em geral, o nosso parque escolar é aceitável (por exemplo, mais do que o hospitalar). Também a perspectiva do equipamento, que receio poder ser uma tentação demagógica, tudo “engenheirices” saloias (os verdadeiros engenheiros sabem do que(m) estou a falar) que de tecnologias da informação têm uma visão Armani-"outlet" de novo-rico. Não vejo que haja capacidade sócio-cultural de absorção de mais coisas à Magalhães, que, ainda por cima, só criam riqueza em nichos muito circunscritos (e se calhar nem isto: qual é a facturação bruta ligada à exportação de Magalhães?).

Também elementar: se o investimento na educação criar emprego e actividades económicas periféricas e, ao mesmo tempo, acrescer o capital humano para futuros saltos de desenvolvimento, passada a crise, não é ouro sobre azul?

E esse investimento cria emprego? Claro que sim, se incidindo num aumento de actividades, numa perspectiva funcional e não infra-estrutural. Muito importante, pela complexidade do trabalho na educação, cria emprego diversificado, desde o professor, o formador, o planeador de novas formas de educação, também o psicólogo escolar e o assistente social, depois o técnico de multimédia ou o animador cultural, até à auxiliar, a tal desempregada da fábrica têxtil falida. E o que chamei as actividades económicas periféricas? Transportes escolares, cantinas, papelarias, editoras, produtores de multimédia, etc.

Então, que fomentar? Tanta coisa, só posso dar exemplos. Desde logo, o contributo para a disponibilidade dos pais para um maior horário de trabalho e para a sua capacidade de procura de trabalho por conta própria, para além do emprego: creches e pré-infantil, aumento da permanência das crianças na escola, rede de transportes de e para casa (já pensaram no que foi a importância dos “school buses” para o desenvolvimentos dos EUA?).

Depois - ou antes - obviamente que uma acção de reforço do contigente de educadores (não falo só de professores, também de uma gama vasta de tipos diversos de formadores), mesmo que contratados precariamente, numa perspectiva de resolução da crise. Paradoxalmente, coisas que poderão parecer luxo em tempo de crise: turmas mais pequenas, desenvolvimento de aptidões que eu vejo ausentes dos alunos que me chegam à universidade (espírito crítico, sentido de prazer do conhecimento, capacidade de iniciativa e desafio competitivo da inovação, ética do conhecimento, consciência social, etc.), treino em línguas, prática divertida de jogos de estímulo intelectual, com relevo para os jogos matemáticos, educação para a saúde, gregarização, desenvolvimento da convivência multiétnica, tanta coisa mais.

Sendo mais directamente prático, urgentemente a criação acelerada de um programa de ensino tecnológico a nível de educação secundária terminal ou mesmo pós-secundária. Os CET já existem? Não se brinque com coisas sérias. Só a falta de espaço me impede de discutir adequadamente tema tão importante.

Mas como fazer? É óbvio que não com um elefante branco chamado ME, ainda por cima afogado numa guerra inglória com os professores, mesmo que com razão em muitos casos. Mas também, pelas mesmas razões, não com os aparelhos institucionais dos professores (sindicatos, órgãos directivos escolares dominados pelo corporativismo). Não se pode exterminá-los, não temos tempo, sairia caríssimo em custo de guerra.

Deixá-los ruminar os seus excessos prandiais e pague-se isto para não terem veleidades de "chatear". Forme-se, urgentemente, é uma estrutura muito dinâmica, um gabinete de crise, com gente - e há, a todos os níveis do sistema educativo - que já pensou muito e que é capaz de pôr em prática de um dia para o outro um programa de emergência. Entretanto, congelem-se coisas até importantes em tempos normais, mas não quando a guerra impede que se limpem as armas, coisas de carreiras, de avaliação, de formalidades de gestão. E, principalmente, que se vá para o terreno a pescar à linha e convencer, entusiasmar, premiar também, os muitos professores que estão fartos da situação que se tem vivido e que desejam um desafio àquilo que querem ser, bons professores.

E, por isto, acima de tudo, mostrem, senhores políticos, que sabem o bê-à-bá da vossa actividade: a política é a arte da condução dos homens. Não é a realidade virtual da moda tecnológica, do discurso de papagaio, da pseudo-cultura. É o sentir a capacidade e a disponibilidade das pessoas, é o dizer-lhes olhos nos olhos que "o teu país está a precisar de ti", é o fazer-lhes sentir o orgulho de mostrar depois as cicatrizes do dia de S. Crispim.

Também uma coisa muito elementar, mas que o nosso leviano espírito de avestruz nos pode fazer esquecer: a Irlanda do nosso encanto há uns anos está falida; a Islândia rica, culta, civilizada, sobranceiramente desnecessitada da UE, idem; a Hungria, à nossa frente em muitos parâmetros, idem. Vamos precisar do eventual descalabro do outro mito, a Finlândia, para nos convencermos de que o rabo já nos está a arder? E quem nos vale? O "engenheiro", Manuela, Paulinho, frei Louçã, Jerónimo (este ao menos, com este nome, sempre faz lembrar guerras de índios)? Ou Cavaco, salvo seja?

À margem - Muito do que aqui fica dito se aplica, mutatis mutandi, a outro sector de investimento, a saúde. Creio poder dizer alguma coisa, mas não me sinto tão à vontade como em relação à educação. Alguém quer aproveitar a deixa?

12.2.2009

O poder da palavra

Hoje, 12 de Fevereiro de 2009, o mundo celebra o 2º centenário do nascimento de Darwin. Emendo: quase todo o mundo, porque ainda há muitos irredutíveis rupestres que consideram Darwin como o grande satã contra a fé criacionista. Comemoração merecida, mas a fazer esquecer, relativamente, a coincidência de, exactamente no mesmo dia, ter nascido numa aldeia esquecida do Illinois outra figura marcante da história da Humanidade, Abraham Lincoln. Foi ele que, como direi adiante, me suscitou o título desta nota.

A literatura portuguesa é pobre nesse género “pobre” que é o da oratória. Sacra, tivemos o Padre Vieira. Da oratória da barra do tribunal, sou ignorante. Da militar também, embora tenha em conta que, salvo César e poucos mais, os militares nunca foram muito dados à exortação às armas com algum nível literário. Vou tratar é da oratória política, a que mais me fascina, desde os antigos, Demóstenes que obviamente só li traduzido, e também Cícero, que um avô professor de latim me obrigou a estudar na língua patrícia (com a vantagem de ainda hoje poder dizer muitas vezes, a muitos senhores X, “quousque tandem abutere, X, patientia mea?”

Paradoxalmente, o nosso maior prosador político, segundo o meu juízo, não foi propriamente um orador. Refiro-me a Antero. Garrett parlamentar é palavroso e dilui boas e generosas ideias na decoração romântica do discurso (veja-se, por exemplo, o célebre discurso do Porto do Pireu). José Estêvão é muito melhor, mais eficaz, mais contundente, mas não nos deixou uma frase que nos venha logo à memória.

Ressalto logo isto quando comparo com a oratória de língua inglesa. Discursos de frase curta e precisa, incisiva, mas sem prejuízo - ou até por isso mesmo - de uma grande elegância literária, depurada. Neste estilo geral, sobressai a invenção de frases que fazem história. Lembram-se de Churchil? “Never in the field of human conflict was so much owed by so many to so few”. Ou “I have nothing to offer but blood, toil, tears, and sweat”.

Podem até ser coisas bem mais simples, repetitivas, a marcar o ritmo, a recordar o “and Brutus is an honorable man” (não deixem de recordar o elogio fúnebre de Marlon Brando). Foi o “I have a dream”, foi agora o “Yes, we can”. Curiosamente, coisas de negros; não será alguma nota de jazz na oratória?

Mas Obama não fica por aqui, é um orador completo. Como o fiz junto de alguns amigos, chamo aqui a atenção para um seu grande discurso recente, “We can't afford to wait”, sobre o desemprego e o seu plano para a crise económica. O seu discurso de tomada de posse é excelente, a meu ver, principalmente porque combina muito bem a exposição pedagógica de problemas reais com a tal “exortação às armas”, neste caso armas figuradas. Recordo aqui a conclusão do discurso, quase shakespeariana (volto a lembrar o que já escrevi, a exortação sobre o dia de St. Crispin, por Henrique V, na véspera de Agincourt):

“America, in the face of our common dangers, in this winter of our hardship, let us remember these timeless words; with hope and virtue, let us brave once more the icy currents, and endure what storms may come; let it be said by our children's children that when we were tested we refused to let this journey end, that we did not turn back nor did we falter; and with eyes fixed on the horizon and God's grace upon us, we carried forth that great gift of freedom and delivered it safely to future generations.”.

(Nota - e eu, bem atento, bem como outro amigo igualmente curioso, não consegui vislumbrar sombra de teleponto).

No entanto, para não ser acusado de a minha admiração pela oratória anglo-saxónica (e muita mais literatura) ser contagiada pela minha expectativa em Obama, vou extrair parte de um outro notável discurso político anglófono, num momento dramático na vida de um homem que sabia que o momento principalmente era histórico, para além da sua pessoa:

“Our deepest fear is not that we are inadequate. Our deepest fear is that we are powerful beyond measure. It is our light, not our darkness, that most frightens us. We ask ourselves, who am I to be brilliant, gorgeous, talented, and fabulous? Actually, who are you not to be? You are a child of God. Your playing small doesn't serve the world. There's nothing enlightened about shrinking so that other people won't feel insecure around you. We are all meant to shine, as children do. We are born to make manifest the glory of God that is within us. It's not just in some of us, it's in everyone. And as we let our own light shine, we unconsciously give other people permission to do the same. As we are liberated from our own fear, our presence automatically liberates others”.

Este discurso é de Nelson Mandela, outro grande senhor. E só para não prolongar demais este escrito é que não cito magníficos discursos de outro grande senhor, Kofi Annan. Lembrei-me agora de que isto vem muito a propósito, recordando Darwin, convicto anti-esclavagista e defensor de que a espécie humana era única e composta por indivíduos iguais na diversidade (não se pense que isto era ideia aceite, mesmo na comunidade científica). E também recordando Lincoln, um bem negro americano branco.

Com isto, volto a Lincoln e ao poder da palavra. Lincoln era filho de pais modestos, tinha trabalhado na quinta desde criança, nunca frequentou a universidade, não tinha apoios financeiros. Mas tinha um extraordinário poder da palavra. Em sua homenagem, neste dia, reproduzo dois discursos célebres. Até é difícil chamar-lhes discursos, tão curtos são. Curtos, mas cheios de ideias, de generosidade, de valores.

Alocução de Gettysburg

“Four score and seven years ago our fathers brought forth on this continent a new nation, conceived in Liberty, and dedicated to the proposition that all men are created equal.

Now we are engaged in a great civil war, testing whether that nation, or any nation, so conceived and so dedicated, can long endure. We are met on a great battle-field of that war. We have come to dedicate a portion of that field, as a final resting place for those who here gave their lives that that nation might live. It is altogether fitting and proper that we should do this.

But, in a larger sense, we can not dedicate — we can not consecrate — we can not hallow — this ground. The brave men, living and dead, who struggled here, have consecrated it, far above our poor power to add or detract. The world will little note, nor long remember what we say here, but it can never forget what they did here. It is for us the living, rather, to be dedicated here to the unfinished work which they who fought here have thus far so nobly advanced. It is rather for us to be here dedicated to the great task remaining before us — that from these honored dead we take increased devotion to that cause for which they gave the last full measure of devotion — that we here highly resolve that these dead shall not have died in vain — that this nation, under God, shall have a new birth of freedom — and that government of the people, by the people, for the people, shall not perish from the earth.”

Segundo discurso de tomada de posse

“At this second appearing to take the oath of the presidential office, there is less occasion for an extended address than there was at the first. Then a statement, somewhat in detail, of a course to be pursued, seemed fitting and proper. Now, at the expiration of four years, during which public declarations have been constantly called forth on every point and phase of the great contest which still absorbs the attention, and engrosses the energies of the nation, little that is new could be presented. The progress of our arms, upon which all else chiefly depends, is as well known to the public as to myself; and it is, I trust, reasonably satisfactory and encouraging to all. With high hope for the future, no prediction in regard to it is ventured.

On the occasion corresponding to this four years ago, all thoughts were anxiously directed to an impending civil war. All dreaded it — all sought to avert it. While the inaugural address was being delivered from this place, devoted altogether to saving the Union without war, insurgent agents were in the city seeking to destroy it without war — seeking to dissolve the Union, and divide effects, by negotiation. Both parties deprecated war; but one of them would make war rather than let the nation survive; and the other would accept war rather than let it perish. And the war came.

One eighth of the whole population were colored slaves, not distributed generally over the Union, but localized in the Southern part of it. These slaves constituted a peculiar and powerful interest. All knew that this interest was, somehow, the cause of the war. To strengthen, perpetuate, and extend this interest was the object for which the insurgents would rend the Union, even by war; while the government claimed no right to do more than to restrict the territorial enlargement of it. Neither party expected for the war, the magnitude, or the duration, which it has already attained. Neither anticipated that the cause of the conflict might cease with, or even before, the conflict itself should cease. Each looked for an easier triumph, and a result less fundamental and astounding. Both read the same Bible, and pray to the same God; and each invokes His aid against the other. It may seem strange that any men should dare to ask a just God's assistance in wringing their bread from the sweat of other men's faces; but let us judge not that we be not judged. The prayers of both could not be answered; that of neither has been answered fully. The Almighty has his own purposes. "Woe unto the world because of offences! for it must needs be that offences come; but woe to that man by whom the offence cometh!" If we shall suppose that American Slavery is one of those offences which, in the providence of God, must needs come, but which, having continued through His appointed time, He now wills to remove, and that He gives to both North and South, this terrible war, as the woe due to those by whom the offence came, shall we discern therein any departure from those divine attributes which the believers in a Living God always ascribe to Him? Fondly do we hope — fervently do we pray — that this mighty scourge of war may speedily pass away. Yet, if God wills that it continue, until all the wealth piled by the bond-man's two hundred and fifty years of unrequited toil shall be sunk, and until every drop of blood drawn with the lash, shall be paid by another drawn with the sword, as was said three thousand years ago, so still it must be said "the judgments of the Lord, are true and righteous altogether".

With malice toward none; with charity for all; with firmness in the right, as God gives us to see the right, let us strive on to finish the work we are in; to bind up the nation's wounds; to care for him who shall have borne the battle, and for his widow, and his orphan — to do all which may achieve and cherish a just and lasting peace, among ourselves, and with all nations.”

(Lamento publicar estes textos em inglês, sabendo que muita gente da minha geração foi educada muito mais francofonamente. O problema é que não tenho capacidade para traduzir tão excelentes textos).

29.1.2009

Não basta não ser desonesto

Indo escrever sobre Sócrates, provavelmente os leitores esperarão coisas sobre o caso Freeport. Não, ainda é nebuloso, parece-me inquinado por incompetência jornalística, sei lá se por interesses de magnatas da comunicação social com necessidade de exercer pressão sobre o governo para ainda maiores benesses a respeito de bancos privados (mantendo públicas virtudes). Escrever sobre outras coisas, como vou fazer, tem a ver com que a credibilidade do primeiro ministro, aliás do cidadão José Sócrates - que é quem me interessa - se mede também por muitos outros casos talvez menores.

Entendamo-nos sobre o conceito de honestidade. Não o considero nunca por antinomia, como significando apenas “não desonestidade”. Não é o mesmo que legal, que claramente se distingue do ilegal, a meu ver sem margem de ambiguidade se a lei for bem feita. Mesmo assim, sabemos todos como no legal cabe boa parte do não ético, coisa que já não é tão claramente distinguível do ético. Da mesma forma, para mim, não ser desonesto não é obrigatoriamente atributivo da qualificação de honesto, se por honesto entendermos uma forma superior de atitude, comportamento, auto-imposição. No entanto, para não ser mal acusado de difamação, vou usar outro termo para esta minha concepção de honestidade a um nível superior de carácter: “seriedade”. Isto quer dizer que eu posso emprestar dinheiro a qualquer pessoa honesta, mas só a uma pessoa séria é que o faço sem papéis, com um simples aperto de mão.

Serve isto para explicar que não considero injurioso não se ser "sério" no sentido em que uso o termo. Muita gente pode ser honesta, isto é, não enganar; pode ser verdadeira, isto é, não mentir descaradamente; pode ser cumpridor, isto é, não infringir a lei. No entanto, ser "sério" é um patamar superior de virtude. Estou a usar uma palavra entre aspas porque é ambígua e, por outro lado, não cobre tudo aquilo a que me quero referir. Os ingleses têm tal palavra: earnest. Entenda-se, ao ler-se este texto, que estou sempre a usar "sério" como tradução de earnest. Eu posso ser irrealista, mas bem gostava que o primeiro ministro do meu país, fosse qual fosse, fosse qual fosse o seu posicionamento político, fosse sempre earnest.

Não julgo que Sócrates se destaque pela "seriedade" (earnestness). É honesto, até prova em contrário, no sentido de não cometer actos moralmente reprováveis. Cumpre a lei, até prova em contrário. Não mente, embora jogue com meias verdades. Nesta perspectiva, é um homem tão respeitável como milhões dos seus concidadãos, mas não se destaca da cinzenteza no que se refere ao tal conceito de uma seriedade exemplar, de uma earnestness que não faz parte da nossa cultura, da nossa mentalidade, da nossa educação, dos nossos valores colectivos.

É claro que a apreciação dessa "seriedade", de uma coerência e integridade intelectual, ética e de carácter, envolvendo a responsabilidade pessoal e social, tem uma grande margem de subjectividade e reflecte em muito os valores, as projecções filosóficas, se calhar as frustrações de insucesso dos ideais e das ambições de exemplo de quem aprecia. Um exemplo fácil é uma coisa que me leva a dizer “isto não é muito sério”, o percurso político de JS. Reparem que - insisto - não tem nada de desonesto, de ilegal. Acho é que não é muito “sério” fazer-se uma carreira política a começar numa jota, saltar pouco depois para outra, singrar no aparelho partidário, mexer uma concelhia ou distrital, apoiar-se num dirigente importante com solidariedade de "filho da terra", ir a deputado, depois a ministro, sem a mínima demonstração de qualidades, de qualificações, sem experiência de vida extra-política. É passear sempre à chuva sem se molhar, mas com guarda-chuvas de outros.

Não é muito “sério” dar entrevista após entrevista com o ar de espontaneidade de quem está a falar de improviso, mas cheias de citações eruditas, de um ostensivo e caricato desejo de mostrar cultura. Não é muito “sério” o uso e abuso de narizes de cera oratórios que tresandam a truque politiqueiro. Não é muito “sério” fumar num avião, é certo que em circunstâncias ambíguas, pouco tempo depois de ter assinado a lei antitabaco. Não é muito “sério”, nessa altura, ter aproveitado para o bonitinho de anunciar ir deixar de fumar, coisa que se faz privadamente, sem instrumentalização para fins políticos ou outros. Mais uma vez, nada de ilegal, nada de desonesto, apenas, para meu nível de exigência, pouco “sério”.

Nada de ilegal ou de desonesto, à falta de provas em contrário, no seu percurso académico. Mas foi um exemplo de total falta de exigência, de falta de apreço pela qualidade, de falta de transparência, de falta de sentido de orgulho no valor próprio comprovado por um nível reputado de qualificação. Foi pouco “sério”. Nada de desonesto ou de ilegal nos projectos apresentados como engenheiro, mas falta de vergonha pelas indiscritíveis fotografias desses mamarrachos que todos vimos publicadas, ainda por cima projectos de outros a que deu a sua assinatura de favor. E não sabia que esses outros estavam a receber por projectos que não podiam assinar e que ele avalizou? Mais uma vez, é tudo pouco “sério”.

Vem agora o caso do relatório da “OCDE” sobre o primeiro ciclo do ensino básico. É indesmentível que não é nada um relatório da OCDE. O rosto do relatório diz claramente que é da autoria de um grupo internacional de peritos. É legal, mas não se encomenda estudos deste tipo a um grupo desconhecido, cuja seriedade os cidadãos não podem avaliar (mas podem ficar de sobreaviso ao lerem o nome bem português de um dos autores, Alexandre Ventura). A boa prática é encomendá-los a uma instituição prestigiada, que por sua vez escolhe e avaliza os relatores, como aconteceu com os relatórios encomendados pelo MCTES. Por isto se percebe bem como, para uso da propaganda, se destilou quanto baste a confusão acerca da OCDE. Assim, é pouco “sério”.

A única referência à OCDE vem no título da prefaciadora, a tal Deborah tratada familiar e efusivamente por JS num estilo pretensamente britânico que nem muitos anos de parvónia permitem adquirir, mesmo que, como outro, se usem fatos às riscas. Também não é nada “sério”, por parte dessa senhora. Se eu subscrever este meu presente texto como professor catedrático da Universidade Lusófona, não minto mas é pouco sério, porque estou a envolver de facto a instituição num acto de minha exclusiva responsabilidade pessoal.

JS não disse que o relatório era da responsabilidade da OCDE, admitamos, porque ele assim o afirmou e JS é um homem honesto. "Socrates/Brutus said so, and Socrates/Brutus is an honorable man". Mas ouvi-o sem dúvida começar por dizer que estava habituado a ler relatórios da OCDE, continuando depois a falar deste relatório, sugerindo de facto o contraste com outros relatórios internacionais “da OCDE”. "Eu estou muito habituado a ver Picassos. Este quadro que agora comprámos é de primeira qualidade". Alguém duvidaria de que o tal quadro era um Picasso? [A declaração de JS é perfeitamente equivalente: "Há muitas décadas que leio relatórios da OCDE sobre Educação. Eu nunca vi uma avaliação sobre um período da nossa democracia com tantos elogios." (Nota - esta citação foi adicionada posteriormente a este texto, extraída de o Público de hoje)]. Não é mentira, pode não ser desonesto, mas é truque ofensivo da inteligência dos cidadãos, não é “sério”.

A página oficial do PS anunciou o relatório como da OCDE. Parece que também a do Ministério da Educação, mas não posso garantir. Neste momento, já ambas as páginas, bem como o portal do Governo, corrigiram a informação mas, ao contrário do que muita gente faz, até nos blogues, não dizem aos leitores que corrigiram o texto original (mais outro problema da net, já que o que sai num jornal não tem emenda). Não estão a mentir mas estão a esconder, não é “sério”. A generalidade dos jornais e das televisões referiu-se extensiva e laudatoriamente ao relatório “da” OCDE. O Público não referia explicitamente a responsabilidade da OCDE mas fazia pior, avalizava o relatório com a referência a ele ter sido elaborado “seguindo a metodologia da OCDE” (e de quantas mais entidades que fazem, chapa única, relatórios destes?). O que é que isto faz crer ao cidadão comum? Depois de todas as notícias, não houve qualquer desmentido oficial. Não é ilegal que não tenha havido, mas não é “sério”.

Estarei a ser muito exigente? Talvez não, se me lembrar de que já os velhos romanos iam ainda mais longe, entendendo que à mulher de César não bastava ser séria, também era preciso parecê-lo. E recordando ainda os romanos, apetece-me ainda lembrar Cícero, embora injustamente porque o nome de Sócrates bem podia ser substituído por tantos outros das nossas "elites": Quo usque tandem abutere, Socrates, patientia nostra? (Até quando, ó Sócrates, abusarás da nossa paciência?)

P. S. - E deixei de lado outro aspecto para mim importante, talvez sinal do meu snobismo, o bom senso e o bom gosto, que impede um homem “sério” de fazer de vendedor de computadores numa reunião internacional de alto nível. E também consegui, ao que julgo, dizer algumas verdades sem ter de me arriscar a coisas menos sérias, como sejam opinar sobre as suspeitas que correm e cujo fundamento ninguém ainda pode comprovar.

P. S. 2 - Lembrei-me agora, a propósito de mentir, de uma história de um político, mais ou menos como se segue. Disseram que ele tinha cometido uma grande falcatrua numa determinada terça feira. Ele jurou e rejurou que era rotunda mentira. E até tinha razão, porque só depois o jornalista verificou o seu erro, a coisa tinha-se passado na segunda feira e não na terça. E o político deve ter gozado com a incompetência do jornalista.

P. P. S. (30.1.2009, 11:29) - Um caro amigo diz-me, elogiosamente, que "apanhar-te numa falha de estilo é difícil, num erro de português, quase impossível. Mas aqui fica a provocação: P.S.2 ou P.P.S.?". Tens toda a razão, Tó, mas o problema é que pode acabar por haver listas intermináveis de P.

P. P. P. S. (30.1.2009, 17:33) - Eu bem dizia, já vão três P, o que me lembra um velho dito de rivalidade açoriana em relação a Angra. Estou a ouvir um programa televisivo em que um advogado acabou de afirmar que o caso do diploma de engenheiro resultou em nada de censurável. Conceito perigoso, o de censurável: em termos legais, em termos de honestidade, em termos de civismo, em termos de articulação mental, em termos de bom gosto? Ou, integrativamente, como escrevi nesta nota, em termos de seriedade, de earnestness? Para mim, o caso resultou no desnudamento completo da falta de qualidade intelectual, de rigor, de valores de meritocracia, de capacidade de valorização das instituições. Nestas alturas, lembro-me muitas vezes de Talleyrand, "pior do que um crime, é um erro".

Para um advogado, resultou em nada. Não será que, em relação à tradição anglo-saxónica da common law, até da constituição não escrita, a nossa herança mais pesada é a dos códigos, até essencialmente vindos de fora, o romano, o visigótico, o canónico, o civil napoleónico? Os quadriliões de sinapses que fazem a minha rede de pensamento e a minha individualidade humana cabem nos artigos dos códigos? Ou esses artigos são apenas um simples instrumento de filtragem, em termos de conduta prática e de controlo das minhas relações sociais, desses tais quadriliões de pensamentos e decisões em cada momento concreto?

19.1.2009

Gente socraticamente culta conhece as células umbilicais?

No debate parlamentar de 14 de Janeiro, houve por parte do primeiro ministro uma revelação espantosa, a da criação em Portugal de um banco de células do cordão umbilical. Fiquei boquiaberto. Também preocupado por recear que tão abstrusa matéria pudesse ficar à margem da crítica de muitos cidadãos. Sou assim levado a um esforço de explicação - em linguagem oxalá acessível - do que está em causa e de acusação pública do que entendo ser a desonestidade de tal medida.

Para quê colher e conservar células do cordão umbilical? Para obtenção de células estaminais, de que falarei adiante, ou, para no futuro desse bebé, poder fazer uma transplantação no caso de uma leucémia ou de outras doenças hematológicas? Não vou referir-me a este aspecto, que me parece lógico em termos científicos e de técnica médica mas irrazoável em termos políticos. É apenas uma alternativa, com ganhos de benefícios mínimos em relação ao custo, a outras técnicas correntes, como a transplantação de medula óssea (isto sim, reforce-se a capacidade portuguesa neste campo).

Vou mais discutir uma coisa muito lida nos jornais, as células estaminais, tradução incorrecta de “stem cells” (a). Nos organismos superiores, falemos do homem, todas as células têm a mesma informação genética, as mesmas cópias de DNA que se vão fazendo desde o ovo, por mistura de metade do DNA paterno e metade do DNA materno. É certo que não é bem assim, mas o erro aqui não é grave, é questão de pormenor. Já quanto às funções de cada célula, a chamada diferenciação tornou a expressão dos genes muito diferente. Quase que se poderia dizer que, por questão elementar de economia, uma célula nervosa não precisa de produzir uma transaminase hepática nem uma célula do fígado de produzir um neurorreceptor. No entanto, há uma reserva de células que, desde o desenvolvimento embrionário, não se diferenciaram e ficam com capacidade de, mesmo em tempos tardios da vida, fazerem o que fazem as células do embrião, passarem de células indiferenciadas a células especializadas, a constituirem cada um dos nossos órgãos e tecidos.

Estas células são essenciais, por exemplo, para a cicatrização ou para a regeneração de tecidos. Por isto, muito se fala, e com toda a probabilidade científica, de a implantação de células deste tipo vir a regenerar zonas de lesões ou traumatismos com consequências graves, como sejam enfartes do miocárdio, traumatismos da espinhal medula a causar tetra ou paraplegias, ou até doenças neurodegenerativas como a esclerose em placas ou a doença de Parkinson. Dito isto, onde obter essas células estaminais? E o que é um banco dessas células, agora anunciado?

Como se depreende do anúncio, uma das fontes possíveis é o sangue do cordão umbilical, na altura do parto. A outra, no futuro, será a cultura no laboratório, por tempos indefinidos e em grande quantidade, de células retiradas de embriões fertilizados “in vitro” (expressão tradicional dos biólogos para tudo o que se faz no laboratório, não na natureza ou nos organismos vivos). Voltarei às células embrionárias. Tratemos agora das umbilicais.

A primeira observação é de serem provavelmente muito menos úteis e mais difíceis de manipular do que as embrionárias. Mas o essencial é lembrar que são células que se destinam a enxertos, embora uma forma particular de enxerto, e toda a gente sabe que, no limite, a não ser tirando partido de certa compatibilidade e sempre com riscos e consequências negativas, os enxertos só são indiscutíveis na mesma pessoa (ou entre gémeos iguais), porque a natureza defende a nossa identidade individual com a rejeição de enxertos. Portanto, ao contrário de um banco de sangue, em que também há incompatibilidades (entre grupos sanguíneos, como toda a gente sabe) mas que permitem a sua utilização por muitos não dadores, do que se trata aqui é de uma colecção de amostras individuais que, no estado actual da técnica, será difícil partilhar com outras pessoas.

É por isto que este tipo de “bancos” é hoje ainda coisa de negócio de alto preço. Trata-se de conservar durante anos, em condições laboratoriais exigentes e até pouco seguras em termos de eficácia, células que podem servir para tratar situações felizmente com relativa probabilidade, e com a improbabilidade de sucesso que advém da ainda incipiente investigação sobre este tema. Embora seja muito arriscado palpitar sobre probabilidades, diria que só uma proporção muito reduzida (menos de 1%, aposto) dessas amostras de células umbilicais poderá vir a ser útil no futuro.

Para não me alongar muito, é a esse aspecto da incipiência da investigação que quero chegar. Esta é que é a prioridade, investigar ao máximo a utilização de células estaminais, desenvolver técnicas adequadas de sua expansão e preservação, estabelecer procedimentos terapêuticos eficazes. Ora isto choca-se com a proibição da investigação sobre os embriões, apesar de haver milhões de embriões congelados, sobras da fertilização “in vitro”, de que os defensores de uma crença religiosa de vida desde a fertilização não sabem o que hão-de fazer. Pior ainda se discutirmos, nestes termos, a clonagem, isto é a produção de embriões sem ser a partir de óvulo e espermatozoide (como a célebre ovelha Dolly). A proibição de utilização de embriões para investigação sobre células estaminais tem sido uma bandeira da administração Bush. Obama já anunciou que a vai autorizar. “Yes, we can change”. Fica a UE, Portugal incluído, que, com menos alarido, tem tido igual posição proibicionista.

Um décimo do custo deste projecto delirante - ano de eleições? - daria para muito bons esforços científicos sobre este problema. Digo isto para não poder ser acusado de demagogia, contrapondo a coisas muito mais comezinhas, do funcionamento do nosso SNS. Gostava de saber quem imaginou tal medida propangandística, sabendo certamente que ela só poderia funcionar no terreno da compreensível ignorância pública sobre tema tão complexo, bem como do fraco impacto das declarações honestas, que já se fizeram ouvir, dos especialistas portugueses.

Nunca ouviram falar da ideia estaparfúdia (mas eficaz como negócio) da congelação de cadáveres de milionários a aguardar que a tecnologia da vida permita a sua “ressurreição”' Julgam que, salvo a devida distância, esta de um banco de células umbilicais, pago pelo Estado, e de acesso universal e gratuito (deixem-me rir!) é muito menos delirante? E em plena crise económica mundial! Os deuses estão loucos!

Nota - Não vou referir-me à discussão em curso sobre bancos destes já potencialmente existentes em Portugal, se o Estado os devia apoiar ou não. Não me meto em histórias de negócios duvidosos. Da mesma forma, corro o risco de ter escrito aqui algumas coisas não inteiramente exactas. Não estive a redigir um texto científico, corro o risco de qualquer divulgador, que sabe que a pincelada impressionista nem sempre é avalizada pelo microscópico do perito miudinho, não pode é falsificar o quadro. Espero tê-lo conseguido.

(a) Não faço ideia de quem primeiro traduziu em Portugal ou no Brasil “stem cells” por “células estaminais”. “Stem cell” é uma imagem sugestiva e correcta, a do talo ou haste de uma planta de onde saem os ramos, folhas e flores, que parece conter a capacidade de diferenciação. Estaminais só pode ser o adjectivo (nem garanto que gramaticalmente correcto) derivado de coisa muito diferente, os estames, aquilo que os que ainda se lembram dos seus estudos penosos (?) de botânica são o órgão masculino de uma flor. Creio que já é tarde para impor a designação.