| João Vasconcelos Costa 19.07.2010 | |||||
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O meu outro sítio: |
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No Moleskine |
Ao estilo dos blogues, sobre o que me for saindo. Só difere dos blogues por não ter pressão de escrita. Uma vez por semana permite-me notas mais ponderadas e seleccionadas. Só o que me parecer importante sobre a sociedade, a política, a cultura, as grandes questões do nosso viver de hoje. Filosofices? |
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Gente socraticamente culta conhece as células umbilicais? |
Calhordices! 1. Eu não disse isso! Cada vez mais acho que a única maneira segura de comunicarmos é por fórmulas matemáticas. Mesmo discurso medido, escorreito, de "impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas", como dizia Graciliano - viva o acordo, porque os brasileiros escritores é que merecem - arrisca traição de retórico desonesto, disfarçado, encapotado, espertalhaço, empoadinho, capachinhado, engomadinho, ufa, faltam-me adjetivos. Duas notas atrás, deixei aqui expressa opinião simples mas julgo que sensata: "Sócrates, demita-se, para nosso bem e até do seu partido, avance outro dirigente do PS com alguma (?) credibilidade". Essa exortação teve eco há dias, no debate parlamentar, mas na versão pórtica de uma saída para uma coligação PS-PSD-CDS sob direcção de outro primeiro ministro socialista. É óbvio que o meu escrito não apontava nada para isto, antes para uma abertura a entendimentos à esquerda ou, pelo menos, para a possibilidade de um governo minoritário com maior respeitabilidade para conversas (que bom, ao menos, poder-se conversar) à esquerda. O PSD reagiu fortemente, não se dança tango a três. Pois não. O jotalíder do PSD tem tido tanto trabalho a entender-se com o jotalíder do PS para agora o espertinho, que ao menos não foi jotalíder e é muito melhor inteletualmente e em bom gosto, se querer dependurar no arranjinho? É claro que quem viu o debate não acredita nesse arranjinho. Como eles se malharam! Os senhores são neoliberais! Os senhores querem é estado a mais! Mas tão amigos que nós somos… Há vinte anos, gente que eu detestava politicamente sempre era mais honesta. Em 83 chegou a hora de fazerem o bloco central, segundo entenderam, eu não, e fizeram, a mando do FMI. hoje, também estes estão a mando, pelo menos da sargenta prussiana. Estes hoje fazem o arranjinho à sucapa, se calhar em almoços de jaquinzinhos com natas, supimbas da sua cultura, pagos com cartão dourado por todos nós. Mas não confessam, fazem o triste espetáculo da oposição parlamentar, do solene e pimpão professor Assis (alguém se lembra do magnífico livro anedótico das histórias coimbrãs do Prof. Assis?), debitam ofensas ao cidadão que não é parvo, "só somos governo se o povo quiser". E se o povo um dia destes...? 2. Os palhaços do circo Houve pelo meio a jornadice parlamentar do PSD, também em S. Bento, que fica bem ser economizado (e as despesas de representação? As despesas de telemóvel? Os contratos de serviços de consultoria? Convidaram celebridades "independentes" (independente, hoje, felizmente que nem sempre, quer dizer intelectual que vai a todas, porque ninguém sabe quem é que dá o pão nosso de amanhã). São circo, com contrato de agência foleira com palhaços de lista de serviço. Independentes, bonito. Villaverde Cabral, homem tido como de esquerda, disse tais patetices que até nem consegui fixar, diluída a TSF no ruído do trânsito da segunda circular. Ernâni Lopes, agora economista de serviço, com a sua receita milagrosa, redução de 15-30% nos salários da função pública (sr. Professor, que tal dar o exemplo?). Faltou o velho guru Medina e o seu rapaz Crato, agora muito ocupado em aplicar a sua competência de matemático à presidência do TagusPark (de onde é que ele conhece o Isaltino?). Também Campos e Cunha. É isto hoje a SEDES? Proposta genial, de atribuição de número de mandatos com desconto dos que correspondem ao voto em branco. Lendo bem, apenas para redução do número de deputados. Eu até aceitaria se fosse para contabilizar "deputados brancos" a valer para quórum. Mesmo assim, seria simbólico, porque os 3% de brancos, em que até me tenho incluído em eleições recentes, nem dão para um deputado, a não ser se concentrados em Lisboa e Porto. Também a sua proposta mirabolante de que, como no caso de Passos Coelho, um partido pudesse meter o líder pela porta de cavalo parlamentar quando ele não fosse já deputado. E este senhor é professor universitário, ex-ministro, opinador de serviço no "jornal de referência"? Andam a misturar mescalina na água das nossas torneiras? 3. A geração rasca chegou ao poder O núcleo duro do socratismo é-me horroroso. Não bastava a carinha sorridentemente superior de Silva Pereira (sei que é muito inteligente, dizia-lhe o mestre-escola em menino), o ar de cultura de merceeeiro de Lacão, a pompa acaciana em versão nortenha de Augusto, o ar físico e mental de Droopy de Assis, a videirice do "mãozinha leve". No entanto, devo reconhecer que sabem alguma coisa da política, embora saber de segunda, de cábula. Pior (ou se calhar melhor, humanamente gente melhor) são aqueles que vão mesmo provocar remodelação, erros crassos de "casting" do primeiro. O ministro Serrano, de quem ainda não se viu nada na agricultura a não ser a baralhada da nomeação de Apolinário jota como diretor geral. A do ambiente, como é que se chama? (pergunta venenosa, em política!). O eterno MCTES, Mariano Gago, que ficará em lugar triste na história da educação superior em Portugal, sem que a maioria dos cidadãos o percebam. A senhora simpática dos livros infantis, que toda a gente já percebeu que está lá para fazer esquecer a antecessora, sem dó nem piedade nem solidariedade para com quem pateticamente tudo deu ao chefe ingrato. Pior os patetas, os que dão tiros nos pés, se desmentem, são trapalhões. António Mendonça tanto diz que se paga portagem em Trás-os-Montes como não se paga. Helena André que tanto assegura aumentos dos vencimentos da função pública como os desmente. Em ambos os casos, sempre por asneira de não terem sido bem ouvidos pelos jornalistas, como se desconhecessem que hoje um jornalista facilmente põe em antena as declarações gravadas, o "mãozinhas" que o diga. A minha patrícia Canavilhas (que azar, já me bastava o mãozinhas, como exemplo de ilhéus) merece nota destacada, a seguir. 4. A dama do baton rubro A senhora não é para levar a sério, embora eu admita que a minha reação institiva contra ela é irracional, do que julgo vir de protesto do meu sentido de bom gosto. Creio que foi no governo do Santana (o único governante saneado por um subordinado) que houve umas secretárias de estado que parecia que só tinham como mérito o ar de tias de Cascais, de companheiras de Caras do inefável Santana. Sócrates foi buscar a Canavilhas. Alguém acha que aquele visual, ainda por cima arrebicadamente de mau gosto, tem alguma coisa por detrás? A história da demissão do diretor geral das artes é surrealista. Ela queria demiti-lo e não o fez. Ele demitiu-se e ela veio dizer que estava muito feliz por ele se ter demitido, porque ele tinha feito um chorrilho de asneiras que ela desbobinou, como um comentador anónimo do Público faria no "site" do respeitável jornal. Afinal, demonstra-se que a principal asneira do diretor foi a abertura de um concurso que esgotou o orçamento do MC, por pressão da "linda Gabriela". E porque disse ela tais asneiras? Porque, como afirmado na comissão parlamentar, toda ela é transparente, sincera, coração na boca. E porque não o demitiu? Porque teria de pagar 44.000 euros de indemnização. Uma fortuna, comparada com os 5 milhões de euros que o seu ministério vai ter de cortar. Este país está louco? 5. Açorianos de antes e depois Ainda na Assembleia da República, a apresentação do relatório final da comissão sobre o negócio PT-TVI. Doeu-me, por razões pessoais. Conheço Mota Amaral, o João Bosco, desde criança. Passeávamos pela avenida marginal discutindo cinema e literatura. Éramos ambos alunos exemplares do liceu. Afastamo-nos, eu a guinar à esquerda, ele à direita e a posições religiosas extremas que respeito. Nunca concordei com a sua política como presidente do Governo regional. Acho que, bem à portuguesa-salazarista ele se sentiu confortado no ego por se rodear de gente medíocre. Mas nunca o tive por desonesto, homem sem carácter e mantenho essa certeza. Ouvir ele ser entusiasticamente elogiado pelo nosso conterrâneo abafador fez-me imaginar que ele não deve ter dormido bem essa noite. 6. Cheiro a petróleo Ia acabar, mas não resisto a nota final, embora apenas com "palavras para quê?". A Guiné Equatorial do supercorrupto Obiang quer entrar na CPLP, certamente graças ao enorme impacto da cultura lusófona nesse "país" e ao uso amplo da língua portuguesa. Dizem por aí que são sensibilidades especiais de Amado ao cheiro do petróleo, mas não acredito. Se não fosse coisa séria, não se teriam logo seguido as candidaturas da Ucrânia e da Suazilândia. E já me telefonou, interessado, um amigo meu do governo do Burkina-Fasso. Eu também sou brasileiro Recebi de uma vaga amiga, e fez-me pensar, este “poema”. Começo por contextualizar. Ela é licenciada em letras, professora veterana de uma escola secundária, bibliotecária. Presume-se que seja pessoa culta e de bom gosto literário. E nem se presume, tem-se a certeza, de que é responsável por aconselhar aos nossos filhos leituras e reflexões sobre leituras, por lhes criar o gosto pela poesia, por lhes dar ferramentas críticas para um bom juízo do valor literário. Será? Se eu pudesse deixar algum presente a você, (Nota - Não percebo por que raio é chamado o Mahatma; também estaria na moda Mandela, mas já vou por tudo em relação à capacidade de aldrabice. Pensando em brasileirices, já que o poema tresanda a “verde papagaio e amarelo caganeira”, quem já sabia disto de aldrabice, quem passeava baqueana pelo convés do Ita era o comandante Vasco Moscoso de Aragão, que eu não conheci mas gostava de ter conhecido, ilustre esplendor das marinhas lusófonas de cás e lás, de que fiz parte). O texto é indigente, de filosofia de alcova ou de revista Maria. Relembro que termina chamando Gandhi como podia ser Cristiano Ronaldo. É coisa que até tem piada para exercício que fiz, pôr o texto corrido e partir “versos” ao acaso, para ver como soa. Dá resultados de rir às gargalhadas. É uma brasileirice que nos deve fazer reflectir, porque condiz com o que hoje começam a ser para nós os brasileiros, reduzidos cá à imagem de exportadores de bispos e pastores de igrejas miraculosas, de jovens simpáticos/as sem habilitações para além de cabeleireiros/as e criados/as de restaurantes, esforçados, sem comparação com os que lá vão deixando, recordistas mundiais de malandrice, com tempo para não fazerem mais nada na vida do que difundir aldrabices na internet. Corremos o risco de esquecer outro Brasil. O Brasil que conhece Eça melhor do que nós, comparando-o ao genial Machado de Assis. O Brasil de Alencar, Rui Barbosa, Heitor Villas-Lobo, Graciliano, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Jorge Amado, João Cabral, Josué de Castro, Glauber Rocha, João Ubaldo, etc., etc. Caso especial, de Chico Buarque, jovenzito que o vi da minha idade, figura tímida e frágil, a tocar no violão, teatro do Bairro Alto, a sua música de morte e vida severina, a dizer-nos que esta é a parte que nos cabe neste latifúndio. Chico que destaco porque hoje é para mim mais do que o músico que sabe como eu o que é morena de Angola, é principalmente o romancista do Budapeste, do espantoso Leite Derramado, do Benjamim que ainda não li e agora vou ler. Um grande escritor, um mestre da nossa língua comum, comum com ou sem acordo ortográfico, coisa menor e mera convenção, que não tira pedaço à virtude da língua (seja lá o que for uma língua virtuosa…). Muito deste Brasil, na brasa da resistência ao salazarismo, era o único alimento de alma que tinha a minha geração, faltosa de arte pátria. Havia escritor luso que nos fizesse adormecer regalados com a leitura como Jorge Amado? Havia canções de protesto que nos animassem como as brasileiras? Por isto, e muito mais, sou brasileiro, "Senhora d'Aparecida". Mas os brasileiros conhecem esse seu Brasil? Pergunta tão legítima como: os portugueses conhecem este seu Portugal? Não será que nos conhecemos cruzadamente? Quantos portugueses conhecem Eça como conhecia Dário Castro Alves? E quantos brasileiros já leram o “Viva o povo brasileiro”? Para já não falar, lembrando João Ubaldo, do deleite deste eu confessado, velho, leitor lúbrico - ponham as vírgulas onde quiserem - dos budas ditosos e admirador da Norma Lúcia. Mais facilmente, quantos brasileiros conhecem mesmo os seus “tou aqui, meu”, Vinícius, Jobim, Gilberto, Chico Buarque, Ellis, para só falar nos imortais? Quantos, nas favelas, no sertão, na caatinga? Na terra em que esta cova “é de bom tamanho, / nem largo nem fundo, / é a parte que te cabe / deste latifúndio”? /// Já tinha dito isto, mas não há mal em repetir ///. Entre os milhares de “sem terra”? Mais ainda, quantos portugueses percebem hoje o que é o lugar histórico, na crise económica mundial, na sua saída rapidamente por cima a ganhar lugar de grande superavit, de um Brasil muito brevemente potência mundial de primeiro plano, conduzido por um “pobre e inculto” metalúrgico chamado Lula da Silva (e achincalhado por uma pseudo-elite intelectual e snob em que tenho pena de ver gente como Caetano Veloso)? Voltando ao início desta deambulação, o Brasil manda-nos o veneno diário da net, de aldrabice, mentira, desinformação, coisa que ainda não percebi por que vem tanto de lá. Manda-nos essas pirosadas inconcebíveis de filosofia rasca, de tudo gente boa, amor e paz, hippies com quarenta anos de atraso, “meu”, aqui vai poema bonito, tudo numa boa. Religiosidade postiça e filosofia pequeno-burguesa (melhor, pequenininho-burguesinha). Mesmo em termos de crendice, deslustra a genuinidade e a graça de coisa mesmo genuína, “meu padrinho Padre Cícero Romão Batista, mãozinha dada no céu com Nosso Senhor Jesus Cristo, ali logo sentadinho à sua direita”, como dizia o Zeca Diabo, vocação tardia de dentista gentil e sentimental depois de muita bala de morte matada. No meu laboratório, havia três frigoríficos com grande diferença de tamanho. Escrevi neles a sua identificação, Juju, Dodó e Didi. Lembram-se? O Brasil é um mundo maravilhoso de contrastes, alegrias tristes de gente dançando com choro de pingo de violão, pingo de vinho tinto de sangue, a lembrar-me a “gente feliz com lágrimas” da minha terra. Solo farto que as gentes têm preguiça para explorar. Até um germânico como Stephan Zweig viu o futuro do Brasil, leitura minha de menino que recordo bem, “Livros do Brasil” que o meu pai “assinava”. Lamento que algum Brasil, uma camada feita de tensões sociais estranhas entre a genuinidade popular e a gente de sucesso, um Brasil estranho e descaracterizado, o da “projecão social” telenovelística, em que vale mais o sonho da gata borralheira do que a inovação no trabalho, esteja a transmitir a um Portugal incapaz de crítica a imagem falsamente medíocre de um grande país que não a merece, a imagem de emigração pobre e pouco qualificada - mas tão simpática. Esquecendo um país em que devíamos ver um grande exemplo de alguma forma de grandeza portuguesa. P. S. - Escreveu anteontem J. M. Correia Pinto, no Politeia: “… na América – a única parte do mundo onde Portugal foi efectivamente grande”. Creio que esta simples frase dele sintetiza todo este meu “post”. A crise é amiga de Sócrates Esta comédia de enganos que foi a comissão parlamentar de inquérito ao caso TVI/PT foi mais uma machadada perigosa no prestígio residual do parlamento. Em época de crise, de desemprego crescente, de ameaças visíveis de tempos muito maus e prolongados de empobrecimento de fato das famílias, o descrédito das instituições, mais ainda, talvez, a tristeza com a democracia, abrem caminho a aventuras perigosas. A história mostra-o, embora ela não se repita e não seja razoável temer fascismos como os que se conheceu na primeira metade do século XX. Mas será assisado subestimar o que se está a fortalecer como nova (?) mentalidade de direita agressiva em concepções económicas e sociais? Não dar por uma casta de jovens turcos feitos por outros que tais nas nossas escolas de economia, “yuppies” fora de tempo, ambiciosos, egoístas, não solidários, que hoje povoam as empresas mais importantes, nossas e multinacionais? Voltando à comissão parlamentar, quem se deve estar a sentir completamente aldrabado é Pacheco Pereira. Também por sua culpa, porque se empenhou pessoalmente muito para além do que prudentemente lhe exigiria um mínimo de clarividência. De fato, desde logo se percebeu que o PCP e o BE não iam deixar de equilibrar vantagens propagandísticas com o cuidado de não perder o controlo da situação. Mais importante, quando Passos Coelho declarou que o PSD apresentaria uma moção de censura se a comissão concluísse que Sócrates tinha mentido, ao mesmo tempo que lhe dava o braço para aprovação do gravoso PEC-2, ficou óbvio - menos para Pacheco Pereira (ou terá sido jogo duplo combinado?) - que o relatório aos costumes diria nada. Pelo seguro, com uma ajuda extra do presidente da comissão, Mota Amaral, com o seu despacho sobre as escutas, mais papista do que o papa. Assim, como vai em título, a crise é amiga de Sócrates, porque ninguém tem interesse em o substituir agora. Primeiro, porque seria penalizado por fazer jogo político em tempos de valores mais altos alevantados, depois porque ninguém tem interesse em gerir a crise. Todavia, esta amizade da crise por Sócrates é pérfida, envenenada, traiçoeira. É um jogo de marionetes a manter aparentemente em movimento um cadáver adiado. Sócrates já não é primeiro ministro também na perceção popular. Num país como o nosso, com a sua tradição de atentos e veneradores, a queda na vulgaridade da imagem do poder é o alçapão de Abranhos que se abre. Afinal, talvez mais do que a ação restrita da Rotunda, a monarquia caiu porque deixou de haver monárquicos. Sócrates vai cair porque deixou de haver socratistas. Já ninguém dá um tostão por pessoa tão desacreditada e tão desnorteada. Por toda a parte onde ando, no trabalho, no café, nas filas do supermercado, pessoas desconhecidas metendo conversa, ou intervindo na comunicação social e na net, quase que inevitavelmente chamam Sócrates à piada. Não é a Sócrates primeiro ministro que criticam politicamente ou a que aludem pessoalmente, é a uma figura já caricata, que já não tem a auréola do poder, que já serve de chacota, que já é referência simbólica de aldrabice, mentira, ligeireza, falta de seriedade. O mais impressionante é que, nessa espécie de gozo popular, não aparece nunca quem também meta conversa para defender Sócrates. Será mesmo que toda a gente está de acordo em malhar ou ratar no homem? Deixou de haver socialistas, ou já têm vergonha de se mostrarem? Como acontece tão frequentemente a “chefes” de pequena estatura intelectual e de carácter, sem capacidade de verdadeira liderança, Sócrates tem um grande talento para criar, manter e premiar uma corte de indefectíveis. É uma corte unida em sua volta por um instinto que já é cada vez mais defensivo. É uma corte que, vista com algum distanciamento, é uma mancha parda, de gente certamente inteligente mas que parece apostada em ver quem mais banalidades debita (ou mesmo patetices), seja Assis ou Lino, Silva Pereira ou Santos Silva, fora a tropa especial de Varas e boys, não faltando também o truão, mãozinha ao bolso. É uma corte tóxica, que seca tudo, que abafa a verdadeira vida democrática e a reflexão política, que leva a uma atitude de servilismo cívico e político os quadros partidários que deviam animar o PS, por este país fora. Veja-se um exemplo notório, o do grupo parlamentar. Alguém se lembra num segundo de nomes de deputados socialistas para além de Assis, do inefável Ricardo e da nova vedeta (nova e já com tanto estilo partidário vicioso) Ana Catarina? Disse que vejo isto como a última hipótese do PS. Se não, chegará inevitavelmente a queda de podre de Sócrates e do governo, sem alternativa que não seja a de eleições antecipadas. Parece-me que ninguém duvida da vitória do PSD, agora dotado de um líder que personifica claramente as expectativas da tal casta de direita pura e dura - mesmo que com fachada modernaça - e que chamará, por fator de novidade e de benefício de dúvida o voto de todo o “centrão”. Passando à oposição, o PS que o socratismo esterilizou entrará em crise partidária profunda, porventura fatal. E com riscos para toda a esquerda. Estou a exagerar? Mas não se lembram do que aconteceu ao PS italiano? E a melhor prova deste estado quase agónico do PS é que, parecendo tão óbvio que a única salvação do PS é a de fazer Sócrates sair, não se vislumbra no PS qualquer movimentação ou qualquer pressão nesse sentido, nem sequer a sugestão pública de tal hipótese. Um crime ou um erro? Poucas coisas me causam tantos “mixed feelings” como os judeus, a sua identidade, o comportamento de um estado por que são responsáveis. Penso sempre em me ter sido contada de menino a história de eu ter um trisavô judeu, embora isto pareça coisa distante e até, porque ele nem viu nascer a filha, sem essa trisavosice ter tido consequências práticas, culturais ou religiosas, numa família onde nunca ninguém deixou de comer carne de porco. Penso nas muitas conversas em que o meu pai me educava no antinazismo muito com base no Holocausto. Penso, ainda lembrando o meu pai, na sua admiração pelo contributo do povo judeu para a cultura da Humanidade. Penso na conquista filosófica-religiosa do monoteismo, em contraste com a ganga infantil da mitologia grega e romana. No entanto, tudo isto tem muitos “emboras”. Holocausto, embora nunca tenha havido resistência judaica, com a notável exceção do gueto de Varsóvia. Embora seja cínico contabilizar o horror, foram seis milhões, quando se estima que mortos soviéticos, militares e civis, foram vinte milhões. Monoteismo, sim, baseado numa magnífica construção literária, embora muito distante das filosofias gregas que, implícita ou explicitamente (Epicuro ou Demócrito, por exemplo) foram muito mais além, no materialismo e na negação dos deuses. Israel é hoje a única democracia formal no Próximo Oriente, embora só formalmente, porque é um estado teocrático e objetivamente racista. Tudo isto tem justificado, por vitimização, a história recente do povo judeu, em particular a política do seu estado. Talvez não por muito mais tempo, porque a memória do mundo não aguenta a confrontação com o grande sofrimento e remete os crimes históricos para o esquecimento: massacres de hereges, inquisição, genocídio de índios norte e sul-americanos, escravatura, colonialismo, nazi-fascismo, goulag, etc. Quando Pombal, Napoleão, até Salazar, já foram branqueados, só falta mesmo Hitler. Por outro lado, a crispação de opinião em torno de Israel vítima caía que nem mosca na sopa na bipolaridade da guerra fria, mas perde eficácia no mundo atual. Hoje, a crítica a Israel deve ser outra. Deve-se reconhecer a Israel muita razão em muitas coisas, em muitos fatos da história, mas deve-se dizer claramente que nada disso justifica e muito menos desculpa a chantagem “afetiva” de Israel com base no Holocausto, nada disto justifica que Israel seja hoje o estado oficialmente terrorista que é. Pelo contrário, tudo o que os israelitas e os judeus têm como motivo de orgulho exigiria que, por esse orgulho e por questão de honra, a prática política de Israel fosse exemplar. (Abro parênteses para explicar porque, no parágrafo anterior, escrevi israelitas e judeus. Escrevendo judeus, referia-me aos milhões da ainda atual diáspora que, mesmo quando inseridos nos seus países oficiais, constituem grupos de pressão internacional muito fortes em apoio da política israelita. Alguma vez se viu, até em relação aos acontecimentos de agora, uma declaração da comunidade israelita portuguesa de crítica à política do estado de Israel?) Cumprindo a regra que enunciei, e antes de passar, nos finalmentes, ao caso atual, lembro coisas que abonam a favor de Israel, as tais que só se as reconhecermos é que impedimos que sejam usadas como álibis por Israel. Dito e aceite tudo isto, repito: nada do que fica listado justifica o que Israel tem feito, multiplicado por muitas vezes, ao povo palestiniano. A palavra chave parece-me ser DESPROPORÇÃO. Cada judeu morto justifica 1000 vítimas palestinianas ou até libanesas, que nem foram chamadas a esta história. Veja-se até uma coisa cinicamente exemplificativa do “racismo” israelita e do desprezo pelos não-judeus: quantas vezes trocaram muitas vidas humanas, de “inimigos”, por um mero e apodrecido cadáver de um soldado israelita? Vamos então ao acontecimento de anteontem. Deixo só algumas notas soltas. 1. Israel parece esquizofrenicamente alheio da opinião internacional. Há quanto tempo não se via uma condenação por unanimidade pelo Conselho de Segurança? Mesmo o governo de Obama, eleito com declarações de apoio a Israel, pede uma investigação rigorosa, fórmula que, longe de condenação, também está longe de um apoio. 2. O governo israelita é tonto? Neste caso, não lidou com o Hamas terrorista, atacou um navio turco, de um país que é, desde a fundação da NATO, um pilar essencial da política estrangeira dos EUA. Um país fundamental para se mostrar que o mundo islâmico pode ser formalmente democrático, laico e não fundamentalista. Um país com o qual a UE está a lidar com pinças e que certamente não perde para Israel na posição da UE. 3. Mas Portugal condenou? Posso estar enganado, mas ainda não li uma palavra lá do lado das Necessidades. 4. Lembram-se do Exodus? É triste quando vemos um filme a passar ao contrário. Também, a propósito, lembremo-nos do navio que foi simbolicamente “provocar” os indonésios no mar de Timor, com Eanes a bordo. 5. E Israel lança uma ação desproporcionada, em objetivos, com também desproporção de meios, uns poucos comandos. Cai no ridículo de os seus eficientes comandos apanharem uma coça de uns pobres diabos “armados” de paus, barras de ferro e garrafas partidas (isto segundo as próprias afirmações oficiais israelitas). 6. E foram provocados! Mas não é coisa elementar da política e da ação militar ou policial saber lidar com a provocação, sem reagir de forma a fazer com que a provocação tenha sucesso? 7. Atuaram em águas territoriais israelitas? Gaza e o seu mar são espaço israelita? 8. Foi tudo uma operação de luta política do Hamas? Talvez. Mas o resultado final é que, tendo o governo israelita (note-se, primeiro ministro de direita mas ministro da defesa trabalhista) procedido com tal infantilidade, o Hamas, com o qual até não simpatizo de todo, ganha em roda a linha. Esta história faz-me lembrar o dito célebre de Talleyrand: “Em política, pior do que um crime é um erro”. P. S. - Vejo agora que o meu amigo e patrício José Medeiros Ferreira também se lembrou de Talleyrand. O ridículo mata - também a democracia Todas as atividades, ou corporações, têm os seus tiques. Mais ou menos pomposos, mais ou menos ridículos. Servem muitas vezes como identificação para o vulgo, outras vezes como código, também como forma mais ou menos hábil de disfarçar a falta de uma resposta honesta. A prática parlamentar combina tudo o que de pior tudo isto tem, com a agravante do apelo bufão à habilidade para o aparte, o dichote, a exibição de uma cultura de teatro de revista, quando não de tasca. Vem isto a propósito de um triste espetáculo que vi hoje, neste interessantíssimo e instrutivo palco que está a ser a comissão parlamentar de inquérito ao negócio TVI-PT, por onde têm passado exemplos dos restos caducos de gente paterno-amaralmente bem, outra gente de bem que são totós tontos de pera manca, boys como se sabe, novos dominadores que me assustam porque sobressaem muito bavamente como eficazes e inteligentes mas a quem eu não quero entregar o futuro dos meus netos. João Semedo, do BE, fez uma justa e demolidora crítica ao comportamento da delegação do PS na comissão, como brigada bigodaço-farfalhuda de guardas de chanfalho em defesa trauliteira do chefe. Estou convencido de que, se a sessão não fosse aberta, os deputados do PS, pessoas que presumo minimamente honestas intelectualmente, ficariam calados e com atitude de modéstia. Exceto, claro, o meu patrício com estilo de Rabo de Peixe (onde há pescadores miseráveis mais dignos do que ele). Todavia, manda hoje o código mediático. A sessão era pública e os deputados ficam como marionetas dependuradas das câmaras. Já toda a gente sabe que nos plenários dão caneladas videirinhas uns aos outros, interrompem os raciocínios com apartes patetas, dizem gracinhas estúpidas, só não fazem corninhos porque há ministros que se encarregam disso. A seguir vão para o bar e são muito amigos. De “panem et circenses”, temos hoje circo com fartura. É pena que falte o pão. Dizia-se sempre que tudo isto era o mal do mediatismo, mas que, ao menos, se trabalhava bem nas comissões, fora das vistas. Voltando à cena de hoje, o que vi foi toda uma bancada, encabeçada pelo execrável “Ricardinho mãozinha leve”, a responder a Semedo como palhaços, melhor, como macacos de circo. Abanando o corpinho, galhofando, piscando o olhinho malandreco ao colega vizinho, tudo a dizer ao Zé televisivo, "que parvalhão é esse gajo". Mas o Zé já não vai nisso e aqueles senhores ainda não perceberam. Alto! Parei uns segundos, para reflectir. Talvez não tenha razão, talvez eu esteja a confiar demais no Zé, talvez eu tenha vício mental de "wishful thinking". Afinal, é seguro que o Zé não dê terceiro mandato ao Sócrates? Olhando outra vez para aquele banco de meninos de velha escola primária, tudo cresceu de tontinhos de bibe até gente notável de hoje, uma Ana Catarina, um Vitalino Canas de quem não digo nada porque nada mais me parece ser do que um manga de alpaca partidário, um Osvaldo de Castro que renegou o que há muito tempo lhe deu algum mérito na vida. Quando quero ir ao circo, pago bilhete. O pior é que, para este, estou a pagar bilhete sem me apetecer nada assistir ao espetáculo. Este escrito é contraditório com o cuidado que habitualmente tenho de não diminuir o que devia ser o coração da nossa democracia, a sua ética republicana (que não se diminui pela crítica aos gouvarinhos, antes pelo contrário) e, neste caso, as suas instituições. Se escrevo isto, é como prefácio a futuro escrito - não sei quando, não é coisa de duas horas - de comentário a coisa que está a deixar muito perplexos os meus amigos. É que um deles, o Correia Pinto do Politeia, terminou com provocação sibilina alguns dos seus “posts” recentes, com coisas tais como “… então este problema não pode ser resolvido através do voto. Tem que ser resolvido por outra via!” ou “… esgotou as possibilidades da sua defesa no quadro dos procedimentos tradicionais de legitimação. Doravante terá de ser por outra via…” ou ainda “Pois, mas vai ser preciso passar aos factos, melhor dizendo, aos actos…”. Claro que isto suscita grande discussão, porque Correia Pinto não merece que se pense que ele sonha com gente nas ruas aos tiros revolucionários ao som da Internacional. Mas há rua e rua, há tiros e tiros e há toda uma teoria complexa - e uma variada prática - do que é uma revolução, da dialéctica do (não)querer e do (não)poder. Coisas da Igreja vistas por um ateu José Manuel Correia Pinto, no seu imperdível blogue “Politeia”, alertou para um artigo do teólogo suíço proscrito Hans Küng, no El País, “Carta abierta a los obispos católicos de todo el mundo”. Também atribuo grande importância ao artigo de Hans Küng e, como Correia Pinto, estou a chamar a atenção para ele neste meu “site”. No entanto, isto não vai sem algumas notas. Primeiro a relação entre a pedofilia padresca e o celibato. Não me convence inteiramente, embora ache justificável que Küng e outros agarrem esta oportunidade para chamar a atenção para a questão do celibato. A coisa é tão incómoda que, pelo lado oposto, o secretário de estado do Vaticano, cardeal Bertone, faz aquela declaração incrível relacionando pedofilia e homossexualidade, coisa sem fundamento científico. Mas compreende-se, é melhor para a Igreja admitir que tem padres "gays" do que pedófilos. Sem qualquer base científica, só palpite de leigo, atrevo-me a pensar que a pedofilia tem muito a ver com uma patologia do sentimento de poder. Por isto é que, com o incesto com ela relacionado, é um sinal perverso da simbologia de poder familiar, tão vulgar nos estratos mais primitivos das nossas sociedades. E porque é que, mesmo em relação entre adultos, há alguns médicos que conseguem facilmente abusar das suas doentes? Ou executivos das secretárias? Por isto, só indiretamente é que relaciono o domínio pedófilo com o celibato eclesiástico, coisa amputadora da normalidade afetiva e do bem-estar da personalidade, propiciadora de compensações de agrado ao ego, como o poder. Durante séculos, o poder eclesiástico estava socialmente e institucionalmente consagrado. Além disto, o celibato resolvia-se com “os filhos de padre que chamam ao pai padrinho”. Nos tempos modernos secularizados, o padre à antiga - que hoje os há muitos à moderna - tem de exercer o seu poder, medíocre e mesquinho, patológico, sobre os que lhe devem obediência no seu mundo fechado, a começar pelos indefesos. Não penso que seja uma coisa prioritariamente sexual, a não ser recuando na biologia até ao estádio animal em que o sexo é uma forma de poder e um instrumento da hierarquia “social”. É certo que há uma margem de ambiguidade, aquela que Bertone tentou usar. Afinal, é tudo uma questão de homossexualidade? Certamente que a há entre padres, mas a aceitação atual da homossexualidade não faz disto, quanto aos padres, “cacha” jornalística. E se for tudo coisa entre adultos, para mim tudo bem. No entanto, repare-se que Bertone associa pedofilia e homossexualidade afirmando que muitos casos da pedofilia eclesiástica se situam na zona crepuscular dos adolescentes ainda legalmente protegidos mas já, de fato, conscientes. Mas como se define a idade da consciência responsável, nesta nossa sociedade culturalmente tão complexa? Conheço jovens de 14 anos muito maduros e responsáveis, outros de 18 totalmente acriançados. Embora leigo, admito que haja uma inclinação especial para jovens, já não crianças, uma “efebofilia”, afinal a dos velhos gregos, que coloca problemas legais especiais. Por alguma razão uma pessoa bem conhecida não está no banco dos réus do processo Casa Pia e a “Catherine Deneuve” nunca foi acusada de crime. Mas também não haverá nesta relação erótica de velho e jovem uma relação de poder? Outra nota, questão muito diferente, sobre os dois últimos papas, escrita por um ateu de fato (porque, em termos teóricos, há muito a discutir sobre o que é ser-se ateu). Com tudo o que me desgosta em Bento XVI, prefiro-o largamente a João Paulo II. Gosto mais de um cão de fila honesto na sua ferocidade do que de uma raposa matreira, de santidade de pau carunchoso. Bento é obviamente muito mais elaborado intelectualmente do que João Paulo, coisa que me impressiona sempre. Bento é germanicamente transparente, brutal na sua determinação e no seu sentido de dever, um Torquemada moderno. Mas não esconde. João Paulo era provavelmente o mesmo mas com menor racionalidade e usando Ratzinger. Bento fala de Deus e de Cristo, como os velhos cristãos, não parece ter os problemas psicanalíticos da relação de João Paulo com a Virgem ("Totus tuum", não é saudável!), essa devoção mariana que primitiviza a religião a nível uterino. Bento é tocantemente tímido, não está à vontade no mundo mediático. João Paulo era um ator, com aquela margem de dúvida que nos fica sempre ao nos lembramos de que “o poeta [mais o ator] é um fingidor”. Enfim, para bem ou para mal, provavelmente para mal, Bento é pateticamente genuíno, João Paulo era uma personagem patética de outra forma, uma personagem em busca de autor para uma peça que cada vez está mais fora do nosso tempo. Nota 1 - Gostaria de ver os meus amigos católicos discutirem uma coisa que se tem escamoteado, a meu ver. Quem acabou por condenar ao fracasso, na prática, o espírito de renovação do concílio Vaticano II, que só acompanhei indiretamente, por conversas com os meus pais, exemplo de “católicos progressistas”? Há muita gente que vejo pensar que foi João Paulo II. Mas não terá antes sido Paulo VI, o da “Humanae vitae” e da recusa de qualquer abertura da Igreja a uma reflexão sobre a sexualidade e, por extensão, à questão doméstica do celibato eclesiástico? Nota 2 - Diz-se que há muitos padres que consideram o seu celibato como uma forma de entrega a Deus e à sua missão sacerdotal. Devo respeitá-los e em nada os atinjo com o que escrevi. É como o aborto. Legalizá-lo não é torná-lo obrigatório. A eliminação da obrigação do celibato obviamente que em nada prejudicaria a opção pessoal daqueles padres, opção que eu não adotaria mas com a mesma liberdade individual que se alimenta e só se justifica com a liberdade dos outros. Vergonha de ser açoriano A mediocridade política e a miséria intelectual de muitos agentes partidários destacados atingiu hoje ponto de me indignar, coisa de que a idade me tem defendido, ou pelo menos moderado. Pior, foi por voz horrorosa de alguém que me envergonha quando me confesso ilhéu e micaelense, uma inefável figura pontapeada para cima, para o parlamento, depois de queimado no governo regional dos Açores que nem filamento fundido (melhor era que fosse como dizia o meu filho H em criança, que uma lâmpada estava f...). Chama-se Ricardo Rodrigues (RR), ofende a graça do nosso sotaque, se pudesse saneava-o de meu patrício. Ofende a grandeza de alma do homem açoriano, a sua honestidade matricial, a seriedade do ilhéu que não precisa de cartório porque basta a palavra e um aperto de mão. Este homem tem uma enorme crónica de histórias estranhas, misturando alegadas videirices misturadas com também alegadas demonstrações de incompetência profissional. Não garanto, são coisas que se dizem, mas que neste caso, lá pela ilha, se dizem em alta voz. Foram postas no papel por um jornalista, a quem o homem processou mas que um juiz absolveu, numa sentença histórica, por entender que porcessos ilibatórios por razões meramente formais não fazem prova contra coisas que andam pelo domínio público. Todavias, legalmente o homem é um anjo imaculado, como o seu chefe, que não comete crimes mas faz aldrabices que lembram Talleyrand, “em política, pior do que um crime é um erro”. O que isto me lembra é uma velha história académica, sobre uma tese, dizendo o arguente que “o que é bom já é velho, o que é novo não presta”. RR diz coisas espertalhaças, no parlamento. O que é razoável, é velho. O que ele debita dia-a-dia é confrangedor. Pior, estas coisas misturam inteligência e honestidade. Se RR percebe bem o que diz e o faz conscientemente, é desonesto. Se não, coitado, não é inteligente. Mas a nossa constituição requer que um deputado seja inteligente? Além do mais, pensando em termos de lógica formal, esse “ou” pode não ser um “ou” exclusivo. Quase que aposto que não é. As coisas não são tão lineares, há inteligência e espertice. E por aí íamos longe, chegando ao engenheiro espertalhaço, com discussão longa sobre o que isto tem a ver com seriedade, mas vamos ao caso de agora. Como toda a gente sabe, há uma comissão de inquérito sobre o caso TVI/PT/governo. Como toda a gente sabe, coisas cruciais são saber se José Sócrates "encomendou" o trabalho aos seus boys na PT, se JS sabia e quando soube, se, por isto, mentiu ao parlamento quando disse que não sabia. Obviamente, nenhum inquérito dispensa, até para defesa do próprio, que JS seja ouvido . No entanto, o inefável RR acha que é um escândalo que um "alto magistrado da nação" (raio de linguagem, não tresanda a salazarantigamente?!) seja interrogado por deputados. Daqui a pouco, está a defender que o poder executivo controla e fiscaliza o poder legislativo, com Montesquieu às voltas no túmulo. Vai daí, justificando-se por a oposição querer fazer deste inquérito um processo de tribunal, ameaça claramente que o PS vai usar todos os meios dilatórios que se usam nos tribunais (processo Casa Pia?). Pior, como se o cu tivesse a ver alguma coisa com as calças, requer que Manuela Ferreira Leite também preste declarações. Espantoso: MFL tem alguma coisa a ver com o caso TVI/PT/governo? É administradora da TVI ou da PT, é boy de JS, é membro do governo, é suspeita de ter mentido ao parlamento? Com gente desta, o PS e a corte de JS, chefe e cortesãos que secaram o PS (se é que ainda havia algum sumo para secar), estão a dar tiros nos pés. Peguem nesse tipo e devolvam-no às minhas ilhas. Todavia, tenho sentimentos mistos, como açoriano. Que culpa têm os meus patrícios, para terem de se cruzar na rua com o homem? Mandem-no é para o ilhéu de Vila Franca, com uma tenda de campismo e umas rações de combate. Pensando bem, acho que não, porque o Ilhéu de Vila Franca é uma maravilha para visitantes de S. Miguel. Para a Terceira, para os Ilhéus das Cabras! Alta Comissária O Ministério da Saúde parece ter muito que se lhe diga. Não vou por más línguas, mas todas me dizem que é um saco de gatos, em que todos só têm relações institucionais, correctas para quem vê de fora, mas de cortar à faca lá visto de dentro. Escrevo isto porque hoje tem aparecido em grande evidência na televisão a Alta Comissária para a Saúde. Talvez me julguem adepto da teorias da conspiração se lembrar a coincidência disto com uma reunião importante sobre a Sida nos PALOP, da responsabilidade da Comissão Nacional da SIDA. Mas, se pensarmos no que são as relações entre a comissão e a alta comissária, já não digo nada. Esta coisa da alta comissária é herança de Correia de Campos, homem e amigo que estimo mas a quem não deixo de imputar graves responsabilidades de acção ministerial, essencialmente bem intencionada mas muitas vezes insensata. A hierarquia do aparelho político, em qualquer ministério, é simples: ministro, secretários de estado, directores-gerais ou equiparados (por exemplo, presidentes de institutos públicos). Na saúde, há ministra e secretários de estado. Há directores gerais e de institutos. Mas, no meio, aparece esta alta comissária, que não é governante mas que também é mais do que dirigente, o que só complica as relações funcionais. Eu sei porquê, porque, no tal saco de gatos em que ninguém era amigo de ninguém, se inventou esta solução. Custa uma remuneração choruda, custa opacidade funcional. E quais as qualificações da alta comissária? Mais do que a mais notória, o “backup” de quem tem por maior génio ir a todas, prémios, prebendas, pompa e circunstância, bem com todos, mandatário de um e depois do seu oposto? Não sei dizer porque, sabendo googlar, não consegui encontrar o CV da alta comissária, a não ser um pseudo-CV, uma coisa insípida no sítio do comissariado. Parece ser uma pediatra competente, mas isto basta para o poder que tem?. Aqui fica uma recomendação: todos os directores gerais e equiparados, mormente os ainda mais altamente colocados, mais os administradores de empresa nomeados pelo governo, devem ter o seu CV acessível na net. P. S. - A confusão institucional prolonga-se para baixo. No Instituto Nacional de Saúde há um presidente e há laboratórios bem identificados. Mas, pelo meio, aparecem uns cargos não sei bem com que justificação (até porque nem sequer são para "boys") de uns coordenadores intermédios. Se lerem as minhas notas sobre a gripe, verão que podem ser prebendas para incompetentes. Há pouco tempo, ouvi uma pessoa excelente e muito educada, mas na tensão de uma ocasião solene, dizer "mas por que raio" e "se não nos pomos a pau", o que lhe ia valendo - está escrito em acta - um voto contra de uma sumidade científica de antigamente (não tão antigamente quanto se possa pensar). Hoje sou eu que escrevo coisas destas. Por que raio acontecem coisas destas? E o que virá mais, se não nos pomos a pau? Bom gosto Tenho recebido de várias fontes esta pérola de qualidade intelectual. O brilhante e genial administrador da PT por via jotesca, Rui Pedro Soares, gasta aos deputados - e a todos os contribuintes - largos minutos de conversa sobre as suas e familiares filiações portistas, de Bimbo da Costa. Tão ridículo, provinciano, pimba, que, ao princípio, duvidei, até porque tinha visto a audição e não me recordava desta passagem. Depois lembrei-me de que tinha visto na diagonal, muito ocupado com trabalho e que podia ter falhado esta cena. Não sou técnico de imagem, mas, dando o benefício da dúvida, tenho-a passado repetidamente, a analisar pormenores. Estou convencido de que não é trucagem. As vozes, dele e de Marques Guedes, parecem-me inconfundíveis. O texto é perfeitamente compatível com o movimento dos lábios. Portanto, o jovem "boy" jota deve mesmo ter dito isso. Se o disse, e tendo revelado ao longo da audição uma grande esperteza associada a igual malandrice, ambição, vaidade e amoralidade (mistura explosiva que está a corroer a ética republicana), foi lapso só compreensível por estar "à rasca". E porque é que nenhum deputado o interrompeu para perguntar uma coisa óbvia, "está a gozar connosco?" O que me leva a outra coisa. A seguir, ouvimos homens respeitáveis, Granadeiro e Bava. Ambos aos costumes disseram nada sobre uma coisa essencial: como é possível que a maior empresa portuguesa, a única cotada em Wall Street, tenha como administrador, executivo!, tal garoto? E foi Granadeiro que, oficialmente, o propôs. Depois, vem falar no perigo dos fretes ao governo? Não foi frete propor tal administrador? E os accionistas de referência aceitaram sem discutir? As relações entre governo e empresários já são relações de chulo e prostituta (sem que eu saiba quem é um e outra)? Achei curioso serem homens tão diferentes os dois presidentes da PT. Granadeiro conheço há muitos anos, português senhor e inteligente, típico, de bom gosto, comparável ao que tinha sido na véspera a exibição de "gentleman" de Balsemão, mas Granadeiro em posição mais desconfortável, a não conseguir desfazer inteiramente a ideia de que estava "a fazer o frete", ao contrário. É que a Impresa não tem "golden shares" do Estado. A meu ver, Granadeiro estava a fazer o frete. Certamente com desgosto, via-se na cara, mas cada um engole os sapos que quer. Bava é o espertíssimo empresário, sem preocupação de boas maneiras (ou não usaria aquele visual...). Como é que ele conseguiu fazer da audição, com vénias vergonhosas dos deputados, uma excelente sessão de propaganda gratuita da PT, até com o estafado pormenor publicitário de que a PT não trabalha com "raspas de fibra"? Já não bastava a propaganda ao Magalhães feita pelo Sócrates na cimeira ibero-americana? Tuga, nascido ou até importado, tem mesmo de ser Oliveira de Figueira? Sempre achei que, se houve fúria liberal nas privatizações, que ao menos, em empresas de interesse público, houvesse uma "golden share". Hoje tenho dúvidas. A "golden share" serve para mais alguma coisa de interesse público do que alimentar a máfia dos "boys" e, a nível superior, dos negócios de ex-ministros? A propósito, propunha uma regra: ao fim de seis meses de saírem do governo, todos os ministros deviam tornar público qual é a sua situação actual, profissional, para-profissional ou de posição accionista. O que é que fazem hoje Manuel Pinho ou Mário Lino? Alguém sabe? De Vitorino e Pina Moura soubemos. PS 1 - Como se vê, esta triste figura dá comprida corda para se enforcar. E como "assim se fazem as cousas", deixemo-lo enforcar-se com grande gozo nosso, sem coisas da geral misturadas com a peça. Não vale a pena inventar que a criatura é sobrinha de Mário Soares. Quem conhece a família Soares/Barroso sabe bem que isto é invenção que só serve para baralhar a história. Malefícios da net, contra tantos benefícios. A quem serve isso? Quando se mistura uma mentira óbvia a uma história verdadeira, a reacção pode ser "se há esta mentira descarada, o resto da história não será também mentira?" PS 2 - "Boys" foi termo hoje usado pelo Ministro das Finanças para qualificar os presidentes de juntas de freguesia. O governo está todo louco, até um homem aparentemente maduro e sensato como Teixeira dos Santos? Já escrevi que acho que, neste tempo de crise em que a governação está paralisada (digam-me um decreto ou medida importante nestas últimas semanas), seria muito mau um tempo eleitoral. Diferente é o PS decidir urgentemente substituir um governo esgotado e paralisado, com um dirigente máximo que vai levar o partido ao suicídio. Mais, a maior distância, vai levar também à derrota a candidatura presidencial de Alegre, agora prasticamente a oficial do PS. PS 3 (13.3.2010) - À enésima recepção do tal vídeo, cada vez mais duvido da sua veracidade. Todavia, não retiro esta nota porque há nela muita coisa que se mantém, mesmo em relação a RPS. Dê-se só o desconto do episódio pimba, possivelmente falsificado. Boa gestão Começo por declaração de interesses: açoriano desterrado mas interessado na vida das minhas ilhas, tenho dado sempre o meu nome como sinal de apoio às candidatiras de Carlos César. Claro que não fico hipotecado, como se verá a seguir. Passei recentemente por um problema oftálmico que me obrigou a fazer na excelente clínica do meu colega e amigo Pedro Abrantes, na CUF Descobertas, um exame à retina, OCT (tomografia de coerência óptica), hoje uma banalidade, cerca de 500 exames por ano só nessa clínica. A marcação que me tinham feito ficou perturbada por causa de quatro clientes prioritários. Enquanto esperávamos, alertou-me o ouvido para coisas familiares, um sotaque cantado, conversas sobre as Quatro Ribeiras e os Biscoitos. Claro, eram terceirences. Tinham vindo a Lisboa porque nos Açores não há nenhum aparelho de OCT. A cada um, o governo regional pagou a passagem (cerca de 300 euros) e mais uma ninharia de alojamento, mas todas, senhoras, tiveram de pagar do seu bolso a viagem do marido, a fazer-lhes compreensível companhia. Disseram-me que isto se repete todas as semanas. Quando fui atendido, conversei sobre isto com a minha colega especialista neste exame e perguntei-lhe qual era o preço do equipamento. Não pude acreditar, mas, chegado a casa, confirmei na página da Zeiss: cerca de 75000 euros! Façam as contas àquela despesa semanal dos quatro doentes, despesa para o governo regional e também para os próprios. Em poucos meses, estava amortizado o equipamento. Pode-se pôr também a questão da contratação de pessoal especializado, mas, segundo a minha colega, ela própria especializada, qualquer oftalmologista adquire em pouco tempo treino nesta tecnologia. Ninguém é responsabilizado por tão inconcebível incompetência de gestão? Bom senso O português comum tem dificuldade em usar com bom senso a justa medida. Se está zangado, não se limita a manifestá-lo, não controla a situação, recorre a outros, tem de pedir “agarrem-me, se não eu mato-o”. Não sabe nunca que o ótimo é o inimigo do bom. Que o exagero retórico é inimigo da compreensão simples e fácil do argumento. Que o excesso de acusações dilui a acusação essencial e confunde o problema. Tudo isto me parece óbvio no actual caso de Sócrates, que já nem sei bem como designar (vêem, é sinal da tal confusão). Com o suceder de porcarias que se pegam magneticamente aos fatinhos Armani do homem antes das sapatilhas, jornalistas, bloguistas, conversadores de café, toda a gente quer apanhar o homem em ilegalidades. Claro que não o conseguem, mas será que isto é essencial? Não é uma forma de cobardia cívica, alijar para a justiça a responsabilidade de correr com o homem de triste figura? Não basta, para a ética republicana, que ele minta, que faça raciocínios sofismáticos, que não tenha rigor no seu percurso de vida, enfim, que não seja sério? Parece que não basta. Perdeu a maioria absoluta mas ganhou as eleições. Fez uma corte de validos no partido, secando todo o terreno da crítica e da reflexão. Está a dar uma imagem do país que terá consequências perigosas na actual situação económica internacional e não aceita que lhe digam “não seja tão casmurramente autocêntrico, pense no país, veja que o seu tempo acabou”. Mas também quem lhe diz isto? Voltemos aos exageros. Indícios de atentado ao estado de direito; liberdade de expressão em risco. Tolice. Porque é que só pensamos em termos pomposamente jurídicos? O que está aqui em causa é uma manobra política desavergonhada para resolver alguns pequenos casos de jornalismo ("problemas") que fazem comichões ao enorme, caricato, mas perigoso, ego do Senhor Sócrates (nunca ninguém foi tão mal batizado). Política, insisto, não jurídica. Ainda por cima, usando armas desmesuradas, a fragilizá-lo em consequências, para “resolver” coisas tão banais como um telejornal de óbvia mediocridade ou a posição do marido da dita cuja ou a má qualidade de um director de jornal que era motivo de chacota pela sua incapacidade de disfarçar a pequenez mental. Tanto trabalho, tanto esforço de "boys", de Zagalos (que até nem consta que ganhassem como administradores de grandes companhias), para tão pequenas coisas? Triste país, em que “assim se fazem as cousas”. Disse o mestre de malandrice Talleyrand que, em política, pior do que um crime é um erro. Parece que isto não vale em Portugal. O que mais me confrange em tudo isto é tratar-se de ópera bufa, com música desafinada e péssimo libreto. As personagens, José Sócrates (JS), Armando Vara (AV), Rui Pedro Soares (RPS), Paulo Penedos (PP), treinaram-se numa escola de teatro de aldeia que dá por nome de JotaS. A meio da peça, passa um compère ridículo, um certo Mário Crespo (MC). Só ainda não consegui perceber porque não entra o velho Medina Carreira, ajoujado a Nuno Crato. Por onde começar a lista das asneiras? Talvez por coisa muito simples, exemplarmente estúpida. Toda a gente fala de escutas, mas não se interroga porque são elas tão importantes. Tenho o palpite de que, se eu quisesse fazer aldrabices, ninguém me apanhava em escutas, pelo simples facto de que, nos anos 60s, na minha vida de regras conspirativas políticas, nunca eu diria ao telefone as coisas que esses jotas, arrogantes, sobranceiros, senhores do mundo, se permitem dizer. E há alguma dúvida sobre o que esses meninos conspiraram? Correr com o director de uma estação televisiva, extinguir um noticiário, usar uma empresa semi-pública para controlar a tal empresa televisiva. Crime? Claro que não, "só negócios", mas coisa execrável em termos de ética democrática. Lembro outra vez Talleyrand, que até nem era nada um modelo de virtudes e de integridade de carácter. Eu não tenho razão para pensar que JS vista um dia destes um uniforme de presidiário. Mas tenho razão para ainda esperar que os meus compatriotas, num daqueles levantamentos que de vez em quando dão na veneta ao Zé, mande o videirinho governar-se em negociatas aldrabonas para que está vocacionado. Há dias, André Freire - que não é certamente um dos académicos bufões da corte socrática - socorreu-o com uma dúvida teoricamente aceitável. JS conhecia a tramóia ou foi tudo coisa de discípulos zelosos, mais papistas do que o papa? Afinal, quem é o chefe tão referido nas escutas, não será Zeinal Bava? Não brinquemos. Gente como PP ou RPS querem apresentar serviço, borram a pintura, tomam iniciativas mas que não vão para além do aluguer do jato de executivo e de pagar uma viagem à secretária para lhe ir levar a Madrid o computador esquecido. Ao mesmo tempo, defendem-se, são cobardes, não arriscam a vidinha. Não fazem nada sem cobertura do chefe. Mas, se molharam a pata, o chefe só tem a fazer é desautorizá-los, o que JS ainda não fez. Menos ainda aconselhou, publicamente, a sua demissão de lugares que ocupam imerecidamente, por razões jóticas. Voltando aos exageros, o caso mais ridículo foi o do inefável Mário Crespo, feito herói por toda a blogosfera e pelas cadeias de "mails" (que, no meu tempo, eram de postais e "santinhos" de S. Judas Tadeu). É como disse, que MC seja também espertalhaço pouco sério, que venda logo um livro de sucesso, mas que não ofenda a nossa inteligência. No meio desta incrível porcaria de manobra reles partidário-socrática, JS teve a habilidade de dar um grande presente a MC. Falar dele naqueles termos, em público, em voz alta, numa mesa em que estava a mulher de um político que "adora" JS, reforça o que eu disse. Isto está tudo louco. Ou melhor, está de tal forma irresponsável que já nem é preciso ter-se cuidados inteligentemente mínimos. Não devia falar de aspectos pessoais de MC, talvez irrelevantes para o caso actual, mas não resisto. Fazer de MC um exemplo de jornalista exemplar vítima da repressão da liberdade de expressão é de fazer rir. As suas entrevistas com seja quem for poderoso sempre foram exemplo de atitude veneradora. A mim, entrevistou-me uma vez com grande dificuldade minha porque nunca tinha “dialogado” com jornalista tão mal preparado sobre o tema da entrevista. Há semanas, deu uma longa entrevista em que confessa a sua oposição, à época, ao 25 de Abril e em que mostra grande admiração por Kaulza, de quem foi assessor de imprensa durante a guerra colonial. Isto são credenciais para se arvorar em herói da liberdade de imprensa? A sua célebre crónica “censurada” parece-me a negação da boa prática jornalística. Um jornalista é isento, objectivo, imparcial, procura sempre a outra versão dos factos. Como classificar uma crónica em que o jornalista só fala de si próprio? Apesar de fora do meio, creio que teria feito como o director do Jornal de Notícias. Ainda por cima, não era um artigo de jornalista, era uma coluna de opinador. Quantas vezes já me aconteceu artigos meus serem recusados, porque fora do espírito editorial do jornal, sem que alguma vez me tenha passado pela cabeça que era censura? Será que MC, nos seus tempos kaulzianos, nunca aprendeu o que era verdadeiramente a censura? E, se admitirmos que foi alvo de censura, em que é que JS está metido nessa censura? E ficou, como diz, sem um jornal para escrever? Já procurou outro ou mais vale passar por vítima e vender livros? Não dispõe de pelo menos três programas na SIC-N? Objectivamente, pessoas destas, pelo seu papel de oportunista malandreco, acabam por ajudar JS, oferecendo-lhe um bom fato de camuflado. Volto aos exageros. A comissão parlamentar faz muito bem em ouvir testemunhos. Mas vá ao miolo, esmiuce muito bem o caso JS/boys-PT-TVI, não se perca com podres diabos como MC, que só confundem o essencial da questão. Mais, e principalmente, não se refira a um problema de liberdade de expressão em risco, coisa obviamente delirante. O que está em causa, centrado nas videirices dos amigos jotas, com provável conivência de JS e AV, já é suficientemente grave, politicamente, para dispensar invocações constitucionais que podem diminuir por ridículo a vilania do caso. Em todo este caso, também não se sai nada bem a PT. Granadeiro mete as mãos pelos pés, confunde datas, não se livra da imagem de defensor de JS, até se diz corneado, plebeísmo pouco de esperar da sua elegância. Zeinal Bava aos costumes diz nada. Mas, essencialmente, como é que a maior empresa portuguesa aceita como administradores os boys que JS lhes impingiu? Será muito instrutivo ver as relações de dependência em relação ao governo dos grandes accionistas da PT, os que, em assembleia geral, elegeram homem de currículo tão notável como RPS. A promiscuidade da política e das empresas está a ser escandalosa. Pina Moura era o melhor gestor que a Iberdrola podia escolher? Jorge Coelho idem, em relação à Mota Engil? E, desvariando, como é que Joe Berardo tanto malha em Jardim Gonçalves (será coisa de complexos de classe, entre madeirenses?) mas ao mesmo tempo assegura o ordenado chorudo de Vara? Coisa de quem depende da Caixa que aceitou como penhor de um empréstimo as mesmíssimas acções, ainda virtuais, que iriam ser compradas com o tal empréstimo? A lista de quem não se sai nada bem com esta história é longa, mas não se pode esquecer Pinto Monteiro. O seu caso é grave porque, segundo toda a evidência, é um magistrado que mentiu. O que sempre disse foi que as escutas que os magistrados de Aveiro julgaram incriminatórias eram as que envolviam, mesmo que fortuitamente, o primeiro ministro e que, por isto, submeteu ao juízo do presidente do STJ. Afinal, são escutas entre AV, RPS e PP. Pinto Monteiro mentiu ou não? Cada vez que fala, mais confunde. Eu só quero ouvi-lo dizer se mentiu ou não, em relação àquela coisa muito simples. Com tudo isto, alguém - principalmente no PS - desliga a ventoinha JS, para que o esterco não se espalhe mais? P. S. - Um abraço a Ana Benavente, uma voz única no PS. Pobre PS, que parece a imagem célebre dos três macacos, não vejo, não ouço, não falo. Um PS que vai naufragar com JS, num impulso suicida inconsciente. Será que Unamuno tinha razão? P. S. 2 (19:20) - Estou a ouvir a audição de RPS. Ouvi ontem PP que, por comparação, é menino de coro. RPS é visivelmente muito inteligente. Quando esta qualidade se mistura com a arrogância, com o desprezo pela inteligência dos outros, com uma vaidade evidente, até com má educação, essa mistura é explosiva de porcaria, de mau cheiro, de canalhice. "E o peixe podre gera os focos de infecção!" Coisas simples Enviei hoje esta mensagem aos amigos do meu "inner circle": Uma esquadra da PSP, no programa Idosos, acompanha e garante a segurança dos velhos sozinhos. Provavelmente se passa o mesmo por todo o país, mas refiro-me a este caso por ver uma reportagem de uma meia dúzia de polícias se ter cotizado para comprar um bolo e ir cantar os parabéns a uma das suas velhinhas, que chorava convulsivamente de comoção, entre muitos beijos aos fardados. Não é preciso muito para transformar este país num país decente. Bastam muitas coisas pequenas destas. Mas também que as elites, a começar pelo governo e dirigentes, tenham a sensibilidade humana desses polícias. Admito que isto possa parecer demagogia, mas o nosso povo não merece as elites que sustenta e para cuja formação pagou bem. Respondeu-me o meu amigo José António: Meu caro, grande verdade que acabas de dizer. Respondi, e por aqui me fico: A primeira resposta à minha última mensagem. Subscrevo. A minha primeira reacção foi a de pensar "é a idade, estamos mais sábios". Felizmente, não é verdade, não é nenhum exclusivo de idade. Este meu amigo é uns anos mais novo do que eu e a sua Teresa, a que se refere, é bastante jovem, comparada comigo. Há, em todas as idades, é quem perceba a mudança e se adapte ou até a faça ainda mais avançar e os conservadores de todas as idades. Hélas, eu professor universitário conheço-os ainda tão novinhos e já tão engravatados! E o que é a mudança hoje? Pese-me ou não na memória e na vaidade das lutas antigas, já não é nada o código rígido das ideologias. É coisa muito mais flexível, neste tempo que creio ser de adivinhar uma mudança de civilização. Mas se calhar ainda valem os clássicos: "liberté, égalité, fraternité", relido hoje como "liberdade só limitada pela liberdade do outro, principalmente do outro diferente; igualdade de oportunidades e estímulo do mérito; solidariedade social". E também, se o conseguirmos ler num metadiscurso que esbata o objectivo panfletário honesto e historicamente muito importante mas agora datado, o Manifesto Comunista. Mas talvez, acima de tudo, e foi o que me impressionou na história que motivou a minha mensagem, sermos bons, a um nível muito básico. A nível superior, lermos e aprendermos alguma coisa com os mestres epicuristas e, desde logo, importante neste país, começarmos por lutar contra essa coisa horrorosa instalada que é a aceitação passiva de "não se ser sério". E a afectividade, senhores, o desejo de dizer uma graça à velhinha, de fazer uma festa à criança, de ficar a ver o amor de um casal de namorados, de deixar pingar uma lágrima perante uma cena comovente, de apetecer pagar a posta de bacalhau do velho que a vai devolver no supermercado, em dia de consoada sem dinheiro para a pagar, que bonito! No meu tempo de criança, diziam-me que é caridade cristã. Que seja, desde que os cristãos que a sentem partilhem comigo a solidariedade social não alienante porque doutrinada por muita hipocrisia da sua máquina religiosa. O acordo ortográfico Assunto que não me apetece muito discutir é o acordo ortográfico, por o debate me parecer essencialmente emotivo. Cultivando o respeito pela língua, coisa viva que me estrutura a mente, porque fiz o meu cérebro fazendo-o funcionar a pensar em português, considero a ortografia uma simples convenção. Isto vale para todas as linguagens e a mais bela construção da mente humana, E=mc2, ficaria intocável se agora decidíssemos que “igual” passa a simbolizar-se como \ e Einstein tivesse de escrever E\mc2. Porquê, então, gastar tempo meu e dos leitores com coisa para mim pouco relevante? Porque não gosto de desonestidades intelectuais e, há dias, li o último argumento usado pelos fanáticos opositores do acordo: no caso de algumas palavras exdrúxulas (aprendi este nome e não sei de modernices gramaticais), como António, vai ser facultativo os portugueses escreverem como escrevi e os brasileiros, que fecham a vogal, escreverem Antônio. Acho bizantino, preferia que ambos escrevessem Antonio, mas não posso aceitar é que um linguista português, António Emiliano, venha dizer que "posso passar a escrever o meu nome como António ou Antônio, as duas formas passam a ser oficiais. Posso até escrever António numa linha e Antônio na seguinte e ninguém pode dizer que está errado." Como este linguista não deve ser ignorante, só pode ser a tentar levar à certa. É evidente que a facultatividade não é no interior do mesmo país, muito menos no interior do mesmo texto. O critério ortográfico da etimologia, tão defendido pelos opositores do acordo, é respeitável, mas julgo que deve ser limitado pelo requisitos instrumentais da convenção ortográfica. Tenho pena de não conhecer as discussões de 1911, mas imagino como os defensores da legitimidade etimológica da ortografia devem ter barafustado contra a extinção do y, ph, das consoantes dobradas. Lembro-me de uma velha piada: "Achilles Machado é Aquiles Macado ou Achiles Machado?". Não sou especialista, mas creio que, na fixação antiga da ortografia, valeu muito mais a fonética. Provavelmente muita gente ignora hoje porque é que os “mesmos” sons se podem grafar como x ou ch, como ç ou ss, como s ou z. É que não eram os mesmos sons, como ainda hoje não são na aldeia transmontana de um amigo meu, Vale Fre”tch”oso, onde se cose a roupa mas se codze a sopa. Mas sendo isto hoje apenas um regionalismo, justifica-se martirizarmos crianças de escola e estrangeiros com estas variantes ortográficas já sem sentido? Ou então, porque é que os meus patrícios açorianos não têm direito à grafia específica dos seus fonemas típicos, o “ou” monotongal, o som intermédio entre “o” e “a” do queijo de ca/obra (também em La/ogos) e os bem diferentes “e” apical inferior ou com a língua toda recuada? E quando os italianos, uniformizando relativamente mais tarde a sua ortografia, passaram a cometer o crime de tirarem o h ao homo latino despromovendo-o a uomo, foi como se tirassem a folha de parra a Adão? Ou umilta é para disfarçar o orgulho italiano? Pior ainda é que muitos se batem por ambos os princípios, o etimológico e o fonético, numa mistura que pode ir ao limite do conservadorismo, com aspectos que até podem ir ao insulto à inteligência dos aprendizes da língua. Dizer-se, como fez um notável poeta mas mentalmente muitas vezes a léguas dessa sua notabilidade, que era essencial acentuar cágado para as crianças da escola não se confundirem, é indigência mental. Começa-se logo pelos homónimos. Alguém tem dificuldade em perceber, em qualquer texto, quando é que banco é coisa para nos sentarmos, que é coisa que nos guarda o dinheiro, mal ou bem, que é coisa que nos trata das urgências médicas ou ainda aquilo que, num computador, guarda dados? Numa coisa têm razão. Percebo agora porque é que “Britania ruled the waves”, porque é que os EUA lideram o mundo. Notem que são os mais inteligentes do mundo, revelam-se logo em crianças, capazes de aprender uma língua sem acentos e outros sinais diacríticos. Vendo bem, esta dos acentos é interessante. Fiz um teste e verifiquei que, nas línguas latinas mais conhecidas, essa frequência, crescente, corresponde à ordenação italiano, francês, castelhano, português. Em vez de os nossos filósofos da angústia ou tragédia ou destino de se ser português se esmifrarem em elucubrações, limitem-se a proporem o fim dos acentos. E julgam que é coisa menor, em tempos de tecnologia em que “time is money”? Teclei este texto, “Não é João nem Joaquim quem quer que assim se chame de facto ou assim foi baptizado mas efectivamente quem se dá à atenção de chamada por esse nome. Óptimo é escolher-se designação baptismal como facto para a vida mas se tal acto não é possível, não virá daí grande prejuízo.” Demorou 100 segundos. Teclei depois esta versão “Nao e Joao nem Joacim cem cer ce asim se xame de fato ou asim foi batizado mas efetivamente cem se da a atensao de xamada por esse nome. Otimo e escolherse designasao batismal como fato para a vida mas se tal ato nao e possível, nao vira dai grande prejuizo.” Demorou 85 segundos. Ganho modesto, é facto, só 15%. Mas já pensaram o que é um ganho de 15% da nossa produtividade? É coisa muito estranha, esta grafia biunívoca? Não será tanto como “escola politécnica de física e de química” para quem escrevia “escola polytechnica de physica e de chimica”? “I rest my case”. P. S. (7.1.2010) - Alguns leitores manifestaram-me estranheza por alguma ligeireza ou coisas equivalentes deste texto. Admito que fiz uma coisa perigosa, misturar no mesmo discurso raciocínios sérios e algumas "boutades" provocadoras, para contrapor ao iracionalismo de muitas discussões. Fica tudo um pouco desconexo e ambíguo. Para dar um exemplo, óbvio, é claro que não advogo uma ortografia do tipo daquela, brincalhona, que me poupava 15% de teclagem. Mas já a minha opinião de que temos excesso de acentos, a meu ver supérfluos, mantenho-a. Por exemplo, este "por": alguém precisa do acento circunflexo para perceber, no contexto da frase, que o verbo "pôr" não é essa preposição? A paixão pelo cinema Há quem me critique, admito que com razão, por muitas vezes eu escrever “ad hominem”. Não creio que seja grande culpa, quando o destacarmos o homem, como exemplo, simplifica e exprime com ênfase o discurso crítico ou valorativo abstracto. Hoje, vem à baila coisa menor, o que eu estava a ver na SIC-N. O canal tem dois programas de cinema. Um é de João Lopes, crítico sério de quem discordo por vezes, mas a quem atribuo todos os requisitos para se intitular um homem do cinema. Depois, há o palhaço. Chama-se Mário Augusto, diz já ter entrevistado milhares de estrelas, tem um ar de sabujice veneradora nessas tais entrevistas, misturado com a patetice de um óbvio contentamento pelo contacto entrevisteiro-cachet com as estrelas. Diz “eu adoro cinema e gosto de partilhar esta paixão”. É tudo, não há a recomendação de um filme, a notícia das tendências do cinema, a chamada de atenção para o que por aí ainda vai lutando contra a Lusomundo/Warner. Nada para além das fofoquices. E não será que ele vê cinema a comer pipocas? Já que é tudo o grupo Impresa (lembrando o cinema, o "charme discreto da burguesia" balsemânica dá para tudo), e recordando que lá escrevia em velhos tempos Jorge Leitão Ramos, João Lopes fala na SIC-N a nível do Expresso e Mário Augusto ao nível da Caras. O problema é a SIC-N ser a mistura de ambos, mais a exibição tristemente circense de personagens que os amigos deviam impedir de aparecer em público, como o guru Medina Carreira. Será que já é de bom gosto assistir à exibição da senilidade? O tempora, o mores! Porque não sou político? Hoje vou falar um pouco de amigos próximos, “amigos do peito”, desculpem a deselegância da personalização mesmo que sem identificações. Pior seria se falasse de mim. É que, com o correr dos anos, vou tendo a ilusão de que alguma coisa na vida quase anónima de homens de qualidade que todos temos como amigos pode ser instrutiva. Por exemplo, a pergunta em epígrafe: porque não sou político? Isto é, porque não desempenho ou desempenhei cargos políticos? É pergunta alguns amigos meus se podem pôr a si próprios, com razão. A resposta mais honesta de qualquer desses meus amigos é que, provavelmente, nunca mereceram que os convidassem para os exercer. No entanto, talvez não seja a mais exacta, porque a questão tem duas abordagens. A tal resposta correcta, em relação a um independente, pode bem ser essa, mas também outra, ainda na mesma abordagem, se ele tiver a imodéstia de pensar que teve qualificações para alguns cargos mesmo que modestinhos. É que ele e muitos outros nunca foram independentes com a necessária dose “quantum satis” de dependência (pronto, não quero ser mau, chamo antes proximidade ou simpatia) que faz o independente de serviço. A outra abordagem, muito mais realista e sem deixar lugar a juízos de valor, é que nunca exerceram cargos políticos porque nunca fizeram carreira política. Aqui sim, também eu posso falar à vontade, não tem nada de mérito, é só uma opção pessoal. É pensar que quatro anos de afastamento da actividade profissional, com actualização obrigatória de leituras diárias e de contactos internacionais, destruiriam essa carreira e aprisionariam a uma carreira política. Política para o meu “pessoal do peito”, vício dos anos 60, era paixão, desinteresse, nunca uma profissão. Além do mais, há quem se tenha apercebido que estar num parlamento seria um sofrimento. Confrange principalmente o estilo, o espectáculo circense, o gosto pela rasteira e pela canelada. Como melhor exemplo, o aparte. Já percebem agora a que propósito vem esta nota, depois do lamentável episódio, para ambas as partes e para o nosso sistema parlamentar, da peixeirada na comissão da saúde. Se fosse convidado para deputado, era coisa em que pensaria. Eu serei capaz de manter compostura se, ao expor uma ideia, argumentar a seu favor ou criticar qualquer coisa com que não concordo, for sujeito a dichotes imbecis, a perturbações espertinhas da minha atenção ao raciocínio? Lembrar-me-ia da fama fácil conquistada pelo conde de Abranhos por uma sua primeira intervenção na câmara, uma pilhéria com muita graça. E quantos deputados desta nossa república ganharam fama de deputados muito inteligentes pelo humor (?) e acutilância dos seus apartes, sem que haja memória de propostas suas ou intervenções de fundo? E quantas vezes ouço argumentações que ofendem grosseiramente a lógica elementar até dos silogismos que aprendi no liceu - para já não falar na lógica dialéctica? Neste recente episódio triste, assinalei que o deputado do PS se defendeu principalmente com o argumento de que o aparte está na natureza do trabalho parlamentar. Deve-se distinguir trabalho em plenário e em comissão. Já fui a reuniões de comissões e nunca ouvi um aparte. E, no plenário, será costume parlamentar geral ou coisa “tuga”? Não tenho muita experiência de acompanhamento de sessões parlamentares no estrangeiro, mas nas que vi, principalmente na televisão, não me lembro de grande frequência de apartes. Mais, e é diferença essencial, quando os ouço, são provocações sérias à discussão, chamadas de atenção em relação à falta de rigor de um facto ou argumento. Não são a tristeza sem graça e sem inteligência do que ouvimos como ruído de fundo, pimbismo de feira de província, do nosso parlamento. Nota adicional - Num registo um pouco diferente, não “humorístico” mas igualmente lamentável, começa a dar nas vistas o discurso oco, pomposo e pretensamente articulado do vice-líder da bancada do PS. Como sou muito bairrista, custa-me ver esse estilo destacado também por associação com o meu querido sotaque micaelense. Mediacracia Mais valia eu ter sempre a televisão desligada, ouvir os meus CD de estimação. Estou a ver uma pessoa por quem tenho apreço, apesar de estarmos em antípodas. Dou por ele agora como comentador residente da SIC Notícias, num programa de debate. Este tipo de programas opina sobre tudo, sobre política, economia, questões sociais. Qual é a autoridade dos membros desses painéis? Sabem mais de política do que eu, melhor, de ciência política, porque opinião política pessoal não é matéria de comunicação social? Sabem de economia, quando não são sequer licenciados em economia? Sobre questões sociais, a mundivisão, a perspectiva do mundo? Precisam de mais protagonismo do que aquele que merecidamente têm, no seu trabalho e intervenção especializada? Há-de chegar a uma idade, como a minha, em que é preciso exercitar alguma gentileza na recusa de convites para intervenção mediática, muito mais quando são para intervenção no segundo balcão. Ainda há dias me aconteceu isto, recusar e depois ver o programa, com tanta gente empertigada no segundo balcão. Respondi o suficiente para crer que a apresentadora nunca mais me convidará. E eu ralado, só com pena do bom cachet que ela paga, como em qualquer programa internacional do género... Mas é o panorama da nossa “cultura mediática”. O que interessa, primeiríssimamente, é que a personagem seja mediática. Porque é famoso, porque aparece na TV, porque está na mailing list dos notáveis, porque tem um contrato esquisito de comentador num jornal de impacto, sabe-se lá porquê, porque anda no circuito das citações em ciclo vicioso de tudo o que é célebre, "io te do un capello a te, tu me das un capello a me", ou "I scratch your back while you scratch my back", porque sei lá que mais, porque tudo isto é podre e medíocre. Sei lá que mais, sim, sei que é porque um barbeiro de aldeia ouviu dizer que lá em Lisboa há um rapaz muito brilhante, o Pacheco (não é piada…). Ah, meu velho patrício açoriano, de teu nome Fradique! (Reeditado) Porcariofilia
"O Primeiro-Ministro foi escutado sem respeito pelas leis vigentes." Não me parece que seja verdade. Pelo menos se exercer algum bom senso em relaçãàs opiniões jurídicas que vou lendo, eu que não sou jurista. Se eu for escutado com todos os fundamentos legais, é indiferente quem é o meu interlocutor, porque obviamente que o juiz que validou a escuta a mim não pode adivinhar com quem eu vou falar e está interessado é no que eu digo. Outra coisa é aquilo que o meu interlocutor me disse e, se for PM, poder ou não ser usado contra ele. É a tal questão das certidões, que têm de ser validadas de novo, agora por envolverem o PM e portanto passando para a alçada do presidente do STJ. Mas é evidente que o PM foi apanhado imprevisivelmente em escutas perfeitamente legais, decididas em relação a Vara. Chegaríamos ao absurdo de um suspeito, sob escuta, conseguir falar com o PM para que toda a escuta fosse nula. E também o que aconteceria se, por absurdo, nessa escuta a Vara, Sócrates confessasse explicitamente um crime, crime mesmo do tipo roubo ou suborno? Nada aconteceria? Estou a escrever isto com o que me parece ser sólido bom senso, com total ignorância do Direito. O formalismo legal não pode ser imperativo absoluto e definitivo. Um caso aberrante de cumprimento da lei com prejuízo da justiça, da moral consensual, da valorização da ética democrática, deve é obrigar à revisão urgente da lei. Eu não tenho nada de saber o que os amigos Sócrates e Vara conversam sobre coisas íntimas e pessoais. Mas eu, cidadão contribuinte, tenho todo o direito de saber o que eles conversam sobre coisas da governação, da política e dos negócios, TVI ou seja o que for de negociatas entre essa cambada de potenciais vírus da nossa democracia. Talvez eu esteja a exagerar, mas confesso que estou com medo pelo futuro da nossa democracia. Ainda só não consigo adivinhar quem será o nosso Berlusconi, mas candidatos não faltam. E com o silêncio provavelmente bem intencionado, mas lá por isto não menos prejudicial, do "supremo magistrado". De qualquer forma, tudo isto me parece um formalismo. Estou certo de que, mais dia menos dia, talvez já nos semanários daqui a dois dias, toda a conversa entre Vara e Sócrates vai aparecer nos jornais. Nessa altura, o problema passa a ser político. E, novamente, como nos seus muitos casos, Cova da Beira, engenharia Independente, projectos foleiros assinados por conta de outros, Freeport, apartamentos de família, coisas em que provavelmente não tem culpas de ilegalidade, Sócrates não perceberá que à mulher de César não basta ser honesta. Não perceberá que, no meio de tanta porcaria que tem deixado crescer à sua volta, só lhe resta limpar-se publicamente, com coragem e frontalidade, ou demitir-se, porque Portugal não pode ficar refém de tão duvidosa personagem. Já começa a ser demais. Ninguém pode acusar Sócrates de qualquer ilegalidade. Mas começa a ser demais a quantidade de casos pelo menos pouco limpos e pouco sérios em que tem estado metido, directamente ou por intermédio de amigos, familiares e colaboradores. Só para dar o exemplo mais flagrante, a sua licenciatura é perfeitamente legal, mas também é exemplo de um carácter pouco exigente em rigor intelectual e ética de trabalho. Não me basta um PM que nunca ofenda a lei. Quero um PM que seja exemplo indiscutível de pessoa séria e de elevação de carácter. Quero uma pessoa até normal, como qualquer dos meus amigos que não tem uma coisa a dizer-se-lhe nas fofocas do café da esquina. Talvez Sócrates seja um azarado, mas não há dúvida de que já há muita coisa de suspeita de porcaria para uma só pessoa. Eu não o incluiria no meu “inner circle”, de gente muito diversa mas “band of brothers” na verticalidade. Eu não queria ser PS com dever "aparatchik" de o defender “à outrance”, com o rigor intelectual de um académico tão ilustre como Santos Silva, o homem que falava sempre nos distantes Estados Gerais com aquela subtileza portuense de quem está mesmo a dizer “olhem que eu quero ser ministro, o governo não pode ser só desses tipos de Lisboa”. Bem me lembro, nunca mais consegui suportar a criatura, com quem até nunca falei. Não conheço ninguém que se compare ao porcaria-atraente Sócrates, a não ser o Pig Pen dos inesquecíveis Peanuts. O muro, a mescla dos 27 e as culpas dos povos Caiu o muro de Berlim há vinte anos, toda a gente sabe, nem que seja por ter sido hoje manancial rememorativo de televisões e blogues (...). Chega de muro, não tenho nada a acrescentar. Aproveito é para chamar à colação algum olhar atento para um artigo que me caiu sob olhos por alerta do J. M. Correia Pinto. Intitula-se “Memoria tapa memoria” e é escrito por Jorge Martínez Reverte (JMR), um reputado escritor e jornalista espanhol bem conhecido pelos seus desassombrados escritos sobre a Guerra Civil, contra as tentativas de silenciamento das culpas de tantos hoje instalados. E é sobre esta questão da culpa que ele escreve este excelente artigo. Isto não é gente de bem Podem não ser criminosos, Varas, Penedos e outros que tais, políticos que ameaçam a nossa democracia. Mas certamente, se pensarmos que imoral não é igual a ilegal, não são gente de bem. Como os que se lhes parecem como pães da mesma fornada, Sócrates incluído. "Face oculta". Que se pode dizer mais? Talvez duas notas, relacionadas na pequenez das personagens e comportamentos. Primeiro, como se fazem carreiras políticas? No meu tempo de jovem, “contra-faziam-se”, porque tudo o que de política fosse e que não fosse na órbita do regime era desafiar qualquer perspectiva de carreira. Depois, a seguir à Revolução, uma grande ambiguidade e diferença de gerações: os “puros” que vinham de antes e que, patetamente, julgaram que ainda por muitos anos transportariam a lanterna da pureza democrática e progressista; e logo os oportunistas mais velhos, da mesma geração - nem vou falar deles, já não contam, na sua actual terceira idade - e, principalmente os super-oportunistas jovens, os jotas. Os jotas fizeram grandes estudos políticos. Colaram cartazes, animaram cervejadamente as sedes, berraram slogans nos comícios, agitaram bandeiras e organizaram arruadas. Veio-me agora à cabeça, entre parênteses, a indignação de um jovem deputado que conheci há mais de dez anos quando lhe perguntei se era deputado indigitado pela sua jota. Fui injusto. Hoje, é um deputado brilhante, agora a nível europeu, embora nos antípodas da minha posição. Ainda não percebi se os jotas são inteligentemente pacientes ou se apenas surfam. Quero dizer que os mais sucedidos são os que têm paciência para gerir bem o seu tempo, adaptarem-se a cada momento ao seu terreno de apoio, ganhar tempo, com paciência. Primeiro, ganhar na jota, tanto melhor se também, ao mesmo tempo, com uma perninha de assessor, aprendiz ou simples campanha-man em autarquia, seja em Trás-os-Montes varense seja na Cova da Beira socrática. Tanto melhor se com ajuda carinhosa de mais velho. Estou a lembrar-me da história do António Garotinho, governador carioca, com este encosto ao velho Brizola. Fica para contar de outra vez. Com muito trabalho jotinha, mas grande investimento, descuraram os estudos, a formação cultural. Ou nem concluiram a licenciatura e hoje sofrem por serem o senhor presidente fulano, sem doutor - e há um - ou levaram a bom fim a sua chico-esperteza, singraram por universidades michuruncas com professores e examinadores deles dependentes politicamente. Comum a todos os jotas, tudo isto num galope de actividade política frenética, sem uma única actividade de vida realmente vivida, profissional, cívica, essas banalidades desprezíveis para quem anda entre o Rato e S. Bento ou entre a Lapa e o dito santo, essas banalidades que qualquer pessoa de bem sabe que são o suporte da experiência, da sabedoria, do conhecimento da vida, da confrontação dos valores com a prática. Estes carreiristas medíocres da política são hoje as luzes da nossa democracia, tenham ido para administradores de bancos ou para primeiro ministro. Estes carreiristas medíocres da política vão dar cabo dos sonhos da nossa democracia, dos quase esquecidos suspiros de Abril. O Zé não os tolera. Claro que o Zé não conta, só rosna, mas lavra o terreno para coisas perigosas, o Zé que permitiu o filho Miguel de Carlota Joaquina (talvez também de D. João VI), João Franco, Sidónio, que se reviu no bom pai Salazar, que até lhe dava sovas de cinto, como o bom pai do interior ainda hoje acha que só faz bem aos filhos. Depois, mais à moderna e multinacional, os mais jovens, mais articulados e melhor educados, com o seu estilo de executivos potenciais, não aceitam ser ultrapassados por essa canalha toscamente tuga, que só fala portunhol ou inglês técnico e que nunca leu o NYT. Também as corporações virtuosas (juizes, militares) estão à espreita de uma oportunidade de afirmação das “mãos limpas”. Pensando nesta dos juízes de mãos limpas, lembro-me de Itália. Aguentou dezenas de anos de “compromisso”, afinal, como cá, um pântano podre, centrão, de corrupção política, carreirismo, mediocridade do sistema político. Rebentou, explodiram os suportes do regime, DC, PS (Craxi!), PCI. Mas o que resultou? Berlusconi! Entretanto, palavra puxa palavra, afastei-me daquilo que pode justificar alguma originalidade desta nota, uma mexer na bosta que ainda não vi. É que esta gente é mesquinha, medíocre, faz-me pensar, de forma execravelmente elitista, que quem nasce ao estilo das berças dificilmente se faz ao estilo de Londres. A crer nas notícias, o Sr. Vara, ao suspender-se, perde cerca de 30000 euros por mês. É obra, como fim de vida de um obscuro funcionário bancário transmontano. Fim de vida? Qual quê, acho que ele está nos princípios dos seus 50s, que futuro radioso tem pela frente! Mas vamos aos 30000. Se é verdade, não posso acreditar no que se diz, que ele se deixou corromper por 10000, quando todos os parceiros da história não se ficaram por menos de Mercedes topo de gama. Não pode ser verdade que um ex-ministro, um administrador bancário nomeado pelo seu amigo Sócrates, se corrompa por uma imperial e um prato de amendoins. Mas também não é verdade que Melancia ofendeu gravemente os chineses ao corromper-se por 50000 contos quando estava em causa um aeroporto de muitos milhões? Em conclusão: roubem, façam pela vida, ganhem dinheiro para comprarem beluga que não distinguem de ovas dinamarquesas, corrompam-se, mas ao menos, por favor, façam isso com classe. Cavaco está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? “O PR não é responsável pelos actos dos membros da presidência, só se reflecte nas declarações dos chefes das casas civil e militar”. Quem é que sabe isto, que CS só diz hoje, sem nunca ter esclarecido que não são fidedignas as chamadas “fontes de Belém”? CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? “A leitura que CS faz das declarações dos deputados do PS, no verão de 2009, é de que era uma tentativa de o envolver na campanha e de o encostar ao PSD. Mas pergunta-se como é que esses deputados sabiam do que se passava em Belém”. Outra vez a insinuação das escutas, mas que afinal já data de há ano e meio, muito antes dessa coisa dos assessores de Belém estarem a colaborar com o PSD. CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? “O PR nunca teve conhecimento da actuação de Fernando Lima, nunca ninguém lhe falou disto. E alguém (quem?) lhe garantiu que Fernando Lima nunca piou”. CS não sabe o que faz o seu principal homem de confiança? E são outros que têm que lhe garantir que ele não fez nada, não o próprio, que nunca abriu a boca nestes tempos de brasa? CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? “E qual é o crime de Fernando Lima, ao alertar para um problema importante de segurança?”. Mas quem fala em crime? Já Talleyrand dizia que, em política, um erro é pior do que um crime. E se Fernando Lima é um anjinho, porque foi removido da assessoria da comunicação social? Mas também porque ficou na casa civil, não se sabe em que funções? CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? “O PR tem dúvidas sobre a questão do mail publicado pelo DN”. Tem dúvidas sobre a veracidade do mail? Ou tem dúvidas sobre a fonte da passagem para o DN? Se é isto, também eu, bem queria ele saber quem foi o jornalista do Público que fez de garganta funda e o lixou. E também ao chefe manobrador, José Manuel Fernandes. CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? Depois a coisa de ópera bufa da viagem à Madeira, de quem se senta à mesa ou não, coisa importantíssima para entrar numa declaração presidencial solene ao país. CS está a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? Eu não gosto que me tomem por estúpido, chateia-me, pá, lá dizia o almirante. Mas também não foi só CS. Logo a seguir, na SIC, veio o cada vez mais inefável Ricardo Costa manipular escandalosamente a declaração presidencial, branqueando o homem. E digo o homem porque devemos respeito ao PR, mas CS, como pessoa, hoje manchou hoje a imagem que construiu laboriosamente ao longo dos anos. E voltei a ver agora uma jornalista a observar há dias a CS que “a história partiu de Belém” e ele a retorquir “a senhora não é ingénua e eu também não”. O que é que hoje, na declaração presidencial, ilumina minimamente esta alusão sibilina do PR? Depois, também gozaram comigo todos os partidos, excepto o PS, que se agarraram a uma pequena passagem da declaração, sobre alegadas vulnerabilidades do sistema informático da PR. “Será possível alguém entrar no meu mail?”, CS dixit. Espantoso! Alguém imagina o que isto significa, como coisa elementar da tecnologia informática de um órgão de soberania. Que vergonha, e no entanto toda a gente está a falar disto com a maior das naturalidades. E no meio de tanta confusão, vou ter de acreditar nesta novidade? Se for verdade, emigro já, com vergonha de alguém saber que sou português. Claro que os partidos sabem isto, ao fazerem estas declarações piedosamente preocupadas. Pelos vistos, nesta fase crítica de negociações para a formação do governo, ninguém quer afrontar CS. Os partidos estão a gozar comigo, a tomar-me por estúpido? Chateia-me, pá. Honra ao PS, o último a falar, há pouco, pela voz de Pedro Silva Pereira: “O PR não substanciou nenhuma suspeita, a suspeita nunca passou de uma invenção e foi uma manipulação lamentável para o prestígio das instituições”. As coisas estão cada vez mais difíceis entre S. Bento e Belém. Se o povo português não fosse curto de memória, CS nem se candidataria a um novo mandato. Mas não digo nada, porque toda a gente está a gozar comigo. Custa muito o arrependimento? Saíu com grande publicidade mais um semi-histórico do PCP (semi-histórico quer dizer quadro destacado mas, ao que sei, principalmente no pós-25 de Abril, não os históricos da geração do CC da clandestinidade). Foi Domingos Lopes, homem estimável, inteligente e culto, sempre prazenteiro, hoje advogado, curso que concluiu muitos anos depois de o ter abandonado em favor da actividade política profissional e que lhe permite, meritória e felizmente para ele, a independência económica que não tinha antes em relação ao PCP. Ouvi as suas razões. Requentadamente, a ideia de que o PCP já não corresponde às possíveis (?) perspectivas revolucionárias no mundo de hoje. Mas, principalmente, as razões partidário-familiares, as que tendem a determinar estas decisões, as que dizem respeito às normas internas do PCP, à sua não democraticidade, como se isto fosse coisa que interesse ao não-militante (a não ser por darem uma ideia do que seria o comportamento do PCP no poder). Com excepção de alguma teorização menos caseira na cisão do grupo dos 9, o resto tem sido muito centrado nesta discussão familiar, até com muito de psicanalítico, pensando em Cunhal-pai. Foi assim com Zita Seabra (o caso mais primário mas talvez o mais sincero e menos hipócrita, PCPmente hipócrita, com salto brusco para o PSD), com os dissidentes a seguir ao golpe de Moscovo de 1991, com Carlos Brito e os seus companheiros, será ainda com alguns que não percebo bem onde estão, se dentro se fora. A diferença em relação a Domingos Lopes é que, ao que me lembro, é o primeiro a pôr o dedo na ferida do pior mal da concepção leninista do partido revolucionário: o funcionário político profissional, tipicamente um burocrata cinzento, sabujamente obediente em relação aos chefes, arrogantemente controleiro (é o termo consagrado) em relação aos militantes de base. Por isto, Domingos Lopes tem razão ao afirmar que os militantes eram muito mais livres e dotados de iniciativa na clandestinidade, antes de se ter construído, depois do 25 de Abril, todo um imenso aparelho de funcionalismo no PCP. O que Domingos Lopes não diz é que ele próprio foi funcionário durante largos anos. O que ele não diz é se teve ou não consciência desse vício leninista na sua prática de funcionário e se tomou alguma atitude. O que ele não diz agora é esta coisa muito simples: “cometi os mesmos erros, depois reflecti sobre eles, hoje estou arrependido”. Não é só ele. Não me lembro de algum dissidente do PCP, a partir dos anos 80, que tivesse tido essa atitude. No PCP, nunca viram, nunca ouviram, claro que nunca falaram, mas nunca por sua responsabilidade, sempre por culpa do PCP, mormente de Cunhal - e não estou a desculpar uma figura por quem tenho o máximo grau de “mixed feelings”. Miraculosamente, por razões as mais variadas, até de ordem profissional e de posição na vida social, acordam para o momento decisivo mas não conseguem assumir, talvez por não haver nada a assumir, uma rotura ideológica e filosófica, nem sequer os erros próprios e a co-responsabilidade pelos vícios domésticos que eram muito da direcção mas impossíveis sem a submissão cúmplice dos funcionários. Admitam essa cumplicidade e valerão como homens íntegros e de carácter, afinal como verdadeiros revolucionários. P. S. - É óbvio que estou a ser reducionista. Há dissidentes de muitos tipos. Há os que nada beneficiaram com isso, tantos que hoje são dignos profissionais respeitados mas relativamente anónimos; há quadros do PCP importantes que estão na penumbra (Carlos Brito, Raimundo Narciso e outros); há o académico de serviço de Sócrates; há os que tiveram imediatamente lugares de administração e acabando um no actual governo; há o cardeal iberdrólico, etc. P. S. (17.9.2009) - Ver sobre este assunto um comentário bem esclarecedor no Incursões. Foi difícil ser-se de esquerda
Mas a Checoslováquia vinha-nos pela sua própria televisão, pelos seus jornais, pelos documentos oficiais do seu partido governante. Nenhuma razão para dúvidas. Com tudo isto, Dubcek foi meu herói durante meses, simbolizou a minha esperança no socialismo de rosto humano que eu e muitos amigos já discutíamos com base nas leituras de Gramsci e de Lucacks, também do romantismo bonito (depois relativamente defraudado) da revolução cubana. 21 de Agosto de 1968, o dia da invasão pelos tanques soviéticos e dos acólitos do pacto de Varsóvia, foi um dia de pesadelo para muitos de nós. Como foi possível? Depois, como foi possível o PCP mudar a sua atitude anterior de alguma expectativa para a aprovação incondicional da invasão? Ou como foi possível Fidel fazer o mesmo? Seis anos depois, ao retomar a actividade partidária (actividade política mantive sempre) foi com o compromisso a alto nível de que a missão revolucionária depois do 25 de Abril exigia a participação de todos, mas que ficava prometida a discussão aberta e internamente democrática da primavera de Praga. Viu-se, como se viu a promessa que também me fizeram de autocrítica do verão de 75. Por isto, não precisei de perestroikas e golpes de Moscovo para dizer adeus, definitivo. Vem a propósito uma observação tocante que ouvi há dias a uma pessoa que até não anda pelos meus quadrantes ideológicos. Falando-se de alguém à esquerda, essa pessoa, conservadora, observou que esse alguém não lhe causava simpatia política mas que ela achava que era um homem bom e que isto era muito mais importante. Estou convencido de que Dubcek também era um homem bom. Nota - De facto, a invasão foi ao fim da noite de 20 de Agosto, mas o que ficou na memória foi a entrada dos tanques em Praga, no dia 21. É difícil ser-se de esquerda Há muitas razões para ser difícil ser-se hoje genuinamente de esquerda. Não rende. Já dá uns bons lugares políticos, mas comezinhos, sem perspectivas de passagem para administração de empresas (até se ver). Dá muito trabalho, para não se ser confundido (como dizia um meu filho, há 20 anos, “em tempo de perestroika, o que mais há por cá são pré-históricos”). Depois, “last but not the least”, machuca qualquer susceptibilidade porventura exagerada de racionalidade, objectividade, saudade dos velhos gregos (e até, quem diria, de Tomás de Aquino). Propositadamente, não vou usar um discurso oficial como objecto de crítica. Vou aproveitar um de muitos comentários nos jornais online, porque é coisa ignara e que me permite responder com conhecimento de causa. Além do mais, é coisa bem elaborada, aparentemente fundamentada, nada de delírios que qualquer zé detecta. Parece-me ter óbvia origem na esquerda pura e dura. Ninguém imagina que seja um neo-socrático ou um bloquista central a escrever isto. Vou responder como advogado do diabo, partido entre a minha solidariedade de esquerda, em termos gerais, e o meu rigor intelectual e a minha mentalidade científica. Afinal, o que me atraiu em jovem no marxismo, em boa parte, não foi o “socialismo científico”? Vamos a dissecar o tal escrito, coisa a coisa. E nem sequer me vou irritar com coisa para mim insuportável, a arrogância de pessoas “que sabem coisas”. Lembram-se, genial Solnado, “pois!, dizia a minha irmã, que sabe coisas”. “A cada ano morrem milhões de pessoas vitimas da Malária que se podia prevenir com um simples mosquiteiro.” Meia verdade, embora não negue o que tem de dramático. O plural é traiçoeiro. Milhões, neste caso, são dois milhões, o que é impressionante, mas que é desonestidade intelectual quando, numa discussão, se refere a ordem e não as unidades. Depois, claro que não basta nada um simples mosquiteiro, é preciso muito mais, saneamento, erradicação dos mosquitos, novos medicamentos a compensar as resistências frequentes, preparação de uma vacina. E já que este escriba gosta de conspirações, chamo a atenção para que o combate à malária é do interesse das multinacionais. É condição para a enorme possibilidade de turismo, para defesa dos técnicos e trabalhadores da extracção de petróleo, para militares em bases nos trópicos. E quem é que mais está a financiar o combate à malária? A Fundação Bill Gates! Como é que esse comentador não aproveitou este tema? “No mundo, por ano morrem 2 milhões de crianças com diarreia que se poderia evitar com um simples soro que custa 25 cêntimos.” Não é verdade. Morrem cerca de 800.000, admito que um número à mesma muito impressionante. Mas nada se resolveria com um frasco de soro. Em África, onde há maior incidência de diarreias a rotavírus, são precisos muitos frascos de soro por doente, transportá-los, armazená-los em boas condições, ter enfermeiros para saberem administrá-los por canulação intravenosa. “Sarampo, pneumonia e enfermidades curáveis com vacinas baratas, provocam a morte de 10 milhões de pessoas a cada ano. Os noticiários disto nada falam!” Claro que não, e bem, porque isto é uma total inverdade. O total de casos mortais de sarampo em todo o mundo, desde a vacinação, anda por menos de 200.000 e para a pneumonia as vacinas contra os pneumococos e o Hemophilus reduziram o número de casos a dezenas de milhar. “Então, porque se armou tanto escândalo com a gripe das aves? Porque atrás desses frangos havia um "galo", um galo de crista grande. A farmacêutica transnacional Roche com o seu Tamiflu.” Já cá faltava! O oseltamivir (Tamiflu©) nunca foi indicado como medicamento para a gripe aviária H5N1, por inconclusividade dos ensaios terapêuticos. Foi usado em casos humanos, mas “just in case”. Acho que chega, senão os meus amigos começam a desconfiar da minha sanidade mental, ao gastar cera com tão ruins defuntos. Com isto, apetecia-me discorrer sobre o acrescento de qualidade e racionalidade à democracia que é a “política deliberativa”. Não tenho tempo nem capacidade, recomendo a leitura de Habermas. E sem cedência à acusação de elitismo. Igualdade é um valor estrutural da minha construção ideológica, mas não a inexistente igualdade real, antes a igualdade de oportunidades. P. S. - Espero que não se suspeite de que estou a olhar com mais simpatia para outra esquerda. É que já tanto escrevi sobre Sócrates que já me enjoa. Parto do princípio de que é um homem honesto. Mas será um homem sério? Sobre a sua habilidadezinha parlamentar gouvarinhenta, a sua ligeireza de estudante universitário, a sua flexibilidade deontológica e bom gosto nas suas casas da Guarda, o Magalhães, o relatório da OCDE sobre a educação, vou ali e já volto. Vou gritar ao vento que “à mulher de César…” P. S. (2.8.09) - Verifiquei hoje que esse tal comentário anónimo na página online do Público é uma transcrição de um mail que circula por toda a net, muito mais extenso e principalmente sobre a conspiração da pandemia da gripe. É apresentado, com endereço de e-mail e tudo, como sendo da autoria de uma investigadora portuguesa que muito considero, a Prof. Isabel Portugal, da Faculdade de Farmácia da U. Lisboa. Já lhe dei notícia deste abuso. A net é um pau de dois bicos, dá-nos acesso a fontes de informação que não imaginávamos há uma dúzia de anos mas também é veículo das mais abomináveis desinformações e manipulações da opinião. Eu defendo-me como posso: regularmente, entro o meu nome numa pesquisa do Google, para ver se há alguém a abusar da minha credibilidade. Os manifestos Estão na moda os manifestos. Primeiro o dos economistas da direita fina, com alguns PS a disfarçar. Em resposta, os economistas de uma esquerda que ainda vai merecendo o nome, entre outros os economistas que escrevem o "Ladrões de bicicletas". Depois, o manifesto mais estranho, de gente ligada a lugares de gestão de empresas dependentes do governo. Lançado ontem, outro manifesto, o da Renovação Comunista, que ainda não consegui encontrar “online”. Não tenho nada contra estas iniciativas, muito pelo contrário, como expressão da sociedade civil, em tempos em que a partidocracia medíocre (isto é, a aparelhocracia) cada vez mais talha e azeda a nata da democracia. Quando muito, posso lamentar que todos esses manifestos sejam claramente identificáveis com pessoas, correntes de opinião ou movimentos que, no essencial, jogam de uma forma mais ou menos evidente no quadro partidário. Entretanto, surgiu-me um outro manifesto, “O Nosso Presente e o Nosso Futuro - Contributo para um Debate Político”. Da lista dos seus autores e dos seus subscritores, não consigo adivinhar nenhuma ligação partidária instrumentalizadora. Li o documento com cuidado. Pareceu-me muito bem intencionado, com um posicionamento progressista, de ideais que até posso qualificar de esquerda, tal como a entendo, com abrangência. Mas também me pareceu um pouco tosco, redigido sem cuidado, com omissões importantes, com pouca profundidade. Os comentários no "sítio" mostram que há mais pessoas como eu, que acham que o essencial é muito bom e merecia maior cuidado. Mas talvez isto seja eu, sempre perfeccionista. Por isto, não me sinto impedido de chamar a atenção para esta iniciativa, que apoio, mesmo com as reservas que referi. Eu, democrata triste Mandei este texto só a alguns amigos, por várias razões. Não quero que pequenos episódios, tristezas da minha memória de elefante, possam ser usadas para diminuir o que é essencial, neste caso a democracia, o parlamento. Sempre detestei dar tiros nos pés ou oferecer munições aos meus inimigos. Mas não são os parlamentares os primeiros a deverem garantir que são respeitados? E, insistindo um caro amigo em que esta nota merecia publicação, cá vai. Estive a ver a tia Manuela Ferreira Leite e não sei bem o que dizer. Começo logo por essa da tia. Não é pejorativo. Pelo contrário, Sócrates que se cuide. As minhas tias também falam assim, nas reuniões de família, na província ou nas ilhas. Dizem coisas simples e dão ideia de que podem governar bem o país porque sabem governar bem as suas casas. Velha sabedoria de S. Comba Dão, embora, longe de mim a ideia, não creia que ela foi buscar aí a inspiração. Acho que não é nada de genial eu ter achado, como disse, que o cidadão comum, nas europeias, penalizou muito mais o estilo socrático (desculpa lá, ó velho ateniense que não tens culpa da homonomia!) do que as suas políticas. Assim, creio que o estilo, até Setembro, vai sobrepor-se ao conteúdo. É assim que esta tia pode ser perigosa. O tuga gosta de beijocar as tias, mas não gosta dos primos videirinhos que os defrontam com o seu sucesso arrogante. É claro que pode jogar com a incapacidade para lhe criticarem fraquezas embrulhadas em conversa de tia. Por exemplo, o principal problema português e da política deste governo é o endividamento. Mas MFL não quer aumento de impostos nem diminuição das prestações sociais. Como é? E a senhora, dolicodoce, também é capaz de farpas envenenadas e certeiras. A questão do negócio PT/Media-Capital ainda vai dar que falar. Alguém mente? Ou MFL faz afirmações sem provas? Claro que não sei, vou aguardar para ver. P. S. - MFL tem-se apresentado com maior cuidado de imagem. É importante, nos tempos que correm. Rangel, que me dizem não ser nada disso, é feito parecer o pachola que toma uma imperial connosco, dizendo umas coisas simpáticas e simples, não parece doutor. Vital apareceu como figura postiça e pomposa, logo identificada pelo homem da rua com coisas ridículas e antiquadas, como o Avô Cantigas. Quantos votos terão sido decididos nesta base? Alguém aposta? P. S. 2 - Enquanto escrevia isto, ouvi pela primeira vez o novo porta-voz do PS, José Silveira. O PS está louco! Vitalino Canas era mau, este é péssimo. Discurso banal e monótono, do qual não fica uma ideia. Cara inexpressiva, penteado à antiga, má voz, vestuário mal escolhido. Sócrates, só tens 3 meses, corre, corre! Fiz há dias a minha terceira viagem à Cova da Beira, em 20 anos. Sempre pelo mesmo trajecto, embora por estradas diferentes: Lisboa, Santarém, Torres Novas, Abrantes, Castelo Branco, Covilhã. Lembro-me bem da primeira, calma, por uma boa estrada convencional mas confortável para o condutor, boas vistas para o Tejo, oportunidade fácil e rápida para ver a fachada da matriz de Constância e dar uma olhada ao castelo de Almourol. Uns anos depois, era estrada já modernaça, creio que o IP6. Boa estrada, com pouco trânsito, a provocar a pisadela excessiva no acelerador. Agora, auto-estrada, A23. Deserta, um carro de minutos a minutos. Sem portagem, SCUT. Mas feita sobre as estradas anteriores e, assim, sem alternativa razoável. Estamos todos a pagar o luxo de auto-estrada de alguns, mas que não têm culpa de terem de a usar porque lhes tiraram as antigas. Têm andado a brincar com os contribuintes. Todos os dias somos bombardeados com terrorismo intelectual veiculado pela net. É eficaz e bem feito, pelo menos ao que se vê por uma consequência: gente inteligente, educada, faz difusão em cadeia a dezenas de correspondentes. Dezenas a multiplicar depois por dezenas e dezenas, é uma enorme reacção em cadeia de estupidez, de desinformação, infelizmente também de crueldade. Os resultados de ontem foram tão claros em significado que qualquer comentário se arrisca a ecoar as banalidades que toda a comunicação social e bloguística escreveu hoje. Vou tentar resistir e só adiantar algumas provocações à reflexão, avulsas, não elaboradas, por isto até numeradas mas a eito. Há muito tempo que me questiono sobre a vantagem de os “sites” de jornais respeitáveis darem acesso a comentários anónimos, em geral inaceitáveis. Eu sei que é negócio, a publicidade vende-se a preços dependentes das visitas ao”site”, nem que seja para escrever coisas incivilizadas. Ou então, transparentemente, coisas organizadas de intervenção partidária, de todos os lados do espectro político. Mas isto não envergonha a gente que respeito na comunicação social, muitos meus bons amigos? Habitualmente, nem leio tais porcarias, mas hoje, sentindo-me com responsabilidades cívicas de informação sobre um assunto da minha área profissional, a gripe mexicana ou nova gripe, dei-me ao trabalho de compilar algumas pérolas do que é esta magnífica “democracia” directa da net. São comentários no "site" do Público.
Nefelibatas e diletantes Há duas palavras que me sugerem coisas que detesto: nefelibata e diletante. Ambas me evocam superficialidade, desonestidade intelectual, narcisismo. Deve vir da infância, de me lembrar do seu uso pejorativo pelo meu pai. Afinal, indo ao dicionário, verifico que não é bem assim. Nefelibata: pessoa que anda nas nuvens, escritor excêntrico. Diletante: amador das artes; o que brinca com teorias, conceitos, sem levar a sério nada disso. Ora o que os diletantes de que vou falar fazem é levar muito a sério o que dizem. Então, o que lhes chamar? Vou por coisa bem popular: parvalhões! Ainda há outra esquerda Foi dado destaque mediático a um apelo para a apresentação de uma candidatura única de esquerda às eleições autárquicas de Lisboa, numa situação perigosa em que a lista comum PSD-CDS pode bem ganhar. (...). Infelizmente, tudo indica que esta iniciativa não terá sucesso prático. Todos os partidos e movimentos de esquerda já anunciaram que vão concorrer isoladamente. Realisticamente, não era de esperar outra coisa. Como é que o PCP, pertinaz opositor do PS e do seu governo, podia apresentar-se coligado com o PS? E, por parte deste, o que esperaria dos viperinos ataques ao BE, no congresso do PS, e logo disparados pelo presidente da CML, António Costa? Ideias brilhantes Hoje quase não vou escrever nada nesta nota, basta a citação. Vem a propósito de António Barreto (AB). De AB há muito que não conheço uma ideia nova, original, estimulante. Agora tem responsabilidades, preside a uma fundação (F. Francisco Manuel dos Santos) que se pretende incubadora de ideias, com orçamento anual de 5 milhões de euros. Começou mal, ontem, no Público, a apoiar a proposta de F. Ulrich de uma solução miraculosa para a crise: a total liberalização dos despedimentos e o emprego sem contrato, temporariamente. E promete vir a ter mais novas ideias: “Ao lado desta, muitas outras medidas de excepção deveriam ser estudadas e postas em prática. Dada a doutrina geral do Estado de protecção social e do "modelo europeu", feitos, note-se, para tempos de fartura, é pouco provável que haja em Portugal coragem e liberdade suficientes para pensar em soluções que, aparentemente, prejudicam os trabalhadores e são de cariz liberal. Mas é verdade que precisamos de imaginação e desprendimento ideológico, sem os quais será muito difícil sair da crise.” Disse que me ia ficar por uma citação. É que concordo inteiramente com a crítica a AB feita hoje por João Rodrigues, no blogue “Ladrões de bicicletas”, cuja leitura recomendo vivamente. Ausência Timothy Garton Ash, no Guardian, "The G20 summit in London will be missing one great power. Guess who?": When President Barack Obama comes to London next week, he will find one great power missing at the world's summit table: Europe. Five of the 20 leaders at the G20 meeting will be Europeans, representing France, Germany, Britain, Italy and the EU, but the whole will be less than the sum of its parts. There will be plenty of Europeans but no Europe. (...) Ler mais. Big brother? Parafraseando às avessas uma frase célebre, exemplo da arrogância inculta e boçal que está sempre por detrás da humildade hipócrita do Zé Povinho, eu engano-me frequentemente e muitas vezes tenho dúvidas. Vou hoje desvariar sobre isto, a propósito do que se pode considerar um “fait divers”: o parlamento vai legislar hoje sobre o teor de sal no pão. Hoje de manhã, ouvi um daqueles programas típicos em que toda a gente opina, em geral com certezas absolutas. E eu cada vez com mais dúvidas. (...) Que viva Keynes! Esta súbita reconversão geral ao keynesianismo, como tentativa de combate à crise, é afinal, para mim, o mais evidente sinal de uma globalização que, até agora, era um pouco exercício de retórica e brilharete de analistas planantes na esfera dos favoritos dos deuses. Agora não, a globalização é palpável, é a noção que tem o homem da rua de que as “poupanças” malucas em francos suíços dos húngaros podem pôr em risco a capacidade de controlo a nível europeu, que pode abanar até o euro, e lá se vai à vida a pobre economia portuguesa, vestida com esse roupão de lantejoulas de puta cara mas que não tem o hábito de tratar minimamente da sua higiene diga-se, economia). (...) O poder da palavra Hoje, 12 de Fevereiro de 2009, o mundo celebra o 2º centenário do nascimento de Darwin. Emendo: quase todo o mundo, porque ainda há muitos irredutíveis rupestres que consideram Darwin como o grande satã contra a fé criacionista. Comemoração merecida, mas a fazer esquecer, relativamente, a coincidência de, exactamente no mesmo dia, ter nascido numa aldeia esquecida do Illinois outra figura marcante da história da Humanidade, Abraham Lincoln. Foi ele que, como direi adiante, me suscitou o título desta nota. A literatura portuguesa é pobre nesse género “pobre” que é o da oratória. (...) Ressalto logo isto quando comparo com a oratória de língua inglesa. Discursos de frase curta e precisa, incisiva, mas sem prejuízo - ou até por isso mesmo - de uma grande elegância literária, depurada. Neste estilo geral, sobressai a invenção de frases que fazem história. Lembram-se de Churchil? “Never in the field of human conflict was so much owed by so many to so few”. Ou “I have nothing to offer but blood, toil, tears, and sweat”. Não basta não ser desonesto Indo escrever sobre Sócrates, provavelmente os leitores esperarão coisas sobre o caso Freeport. Não, ainda é nebuloso, parece-me inquinado por incompetência jornalística, sei lá se por interesses de magnatas da comunicação social com necessidade de exercer pressão sobre o governo para ainda maiores benesses a respeito de bancos privados (mantendo públicas virtudes). Escrever sobre outras coisas, como vou fazer, tem a ver com que a credibilidade do primeiro ministro, aliás do cidadão José Sócrates - que é quem me interessa - se mede também por muitos outros casos talvez menores. Entendamo-nos sobre o conceito de honestidade. Não o considero nunca por antinomia, como significando apenas “não desonestidade”. Não é o mesmo que legal, que claramente se distingue do ilegal, a meu ver sem margem de ambiguidade se a lei for bem feita. Mesmo assim, sabemos todos como no legal cabe boa parte do não ético, coisa que já não é tão claramente distinguível do ético. Da mesma forma, para mim, não ser desonesto não é obrigatoriamente atributivo da qualificação de honesto, se por honesto entendermos uma forma superior de atitude, comportamento, auto-imposição. No entanto, para não ser mal acusado de difamação, vou usar outro termo para esta minha concepção de honestidade a um nível superior de carácter: “seriedade”. Isto quer dizer que eu posso emprestar dinheiro a qualquer pessoa honesta, mas só a uma pessoa séria é que o faço sem papéis, com um simples aperto de mão. Gente socraticamente culta conhece as células umbilicais? No debate parlamentar de 14 de Janeiro, houve por parte do primeiro ministro uma revelação espantosa, a da criação em Portugal de um banco de células do cordão umbilical. Fiquei boquiaberto. Também preocupado por recear que tão abstrusa matéria pudesse ficar à margem da crítica de muitos cidadãos. Sou assim levado a um esforço de explicação - em linguagem oxalá acessível - do que está em causa e de acusação pública do que entendo ser a desonestidade de tal medida. (...)
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