| João Vasconcelos Costa 28.05.2010 | |||||
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Diamantina Ávila, a minha mãe
Foi também uma grande professora, e começo por este aspecto. Se ela me lesse, concordaria. Se tenho algum instinto pedagógico, certamente dela o herdei. Há dois anos, pedi-lhe um texto para o então Professorices. Aos 87, ela escreveu a sua "memória pedagógica", com grande lucidez e frescura, que agora volto a publicar. Neste momento em que tanto se põe em causa a "modernice" da educação lúdica, veja-se como a minha mãe a tinha adoptado, sem compêndios, só por intuição. Note-se bem: isto passou-se em 1940! Memórias de uma professora Em 1934, completei o 7º ano do liceu. Era meu grande desejo ir para a universidade, estudar clássicas, o curso que ainda hoje mais me fascina. Todavia, foram frustrados os meus sonhos. Nesse tempo longínquo, cheio de preconceitos, a menina bem, filha única, não ia sozinha para tão longe da protecção da casa paterna. Fui para uma ilha emprestada, para casa de quase familiares e em S. Miguel frequentei a Escola do Magistério. Mas sempre disse que nunca seria uma professora "de óculos na ponta do nariz e de ponteiro na mão". E não fui, acabando por amar, e muito, a minha vida profissional. Recordando o meu ensino de educação infantil e básica, vou procurar descrever como segui métodos e processos criados por mim própria. Não me agradavam aqueles que me foram ensinados. Muita memória à frente da inteligência, quando a primeira deve ser um auxiliar precioso da segunda. Começo pela disciplina, que mantive sempre, mas sem rigor. Os meus alunos não olhavam para a escola como para uma prisão, mas sim como um atraente ninho onde as minhas avezinhas - as classes tinham nomes de aves - sentissem o carinho da casa paterna. A criança tratava-me pelo nome próprio, mas com o "tu para cá, tu para lá", obedeciam-me respeitosamente e sentindo que havia um laço afectivo de união entre nós. Os meus métodos e processos tiveram como base, desde a infantil até ao exame de admissão ao liceu, o jogo, a brincadeira, que, parecendo talvez não darem ensinamento perfeito, têm resultados positivos, como me confirmou a minha experiência de longos anos. Os alunos não papagueavam lições, mas pelo contrário, obtinham uma boa cultura geral, própria das suas idades. A iniciação à leitura e ao cálculo era feita com histórias desenhadas no quadro com giz bem berrante, começando com um conto, novidade sempre em cada aula, e em que os alunos participavam. Às vezes, metiam conversa com as mães, desenhadas no seu jardim ou à janela de casa. Por exemplo, na leitura, o menino T, com o seu bibe com a letra, ia buscar o menino I e conversavam para saber qual o que iam buscar, de mão dada, para dizerem então TIA. Representar, para eles, era uma brincadeira e também uma forma de aprenderem com muita facilidade, quer as bem dotadas, quer as menos dotadas. A história, por exemplo, foi iniciada por mim como banda desenhada, no quadro, enquanto a contava de forma atraente e os alunos a reproduziam nos cadernos, melhor ou pior desenhada. Depois, havia animada conversa. Muitos anos depois é que vi um compêndio de história com banda desenhada. Chorei ao vê-lo, lembrando-me do que, por mim, introduzi no meu ensino diferente de tudo o que se fazia na época. Todo o ser humano recebe dons e o ensino foi um dos meus e, sem vaidade, acho que é um precioso carisma. Até o ditado era completamente fora das regras de então. Leitura do texto escolhido, bem pausada e - essencial! - garantindo a sua compreensão, porque escrever um ditado é escrever uma coisa com sentido, não simples palavras. Depois, cada aluno recebia o texto e era ele que, com atenção, o comparava com o seu ditado e assinalava num caderninho as palavras erradas. Com este esforço pessoal, era raro voltarem a repetir os erros. Achei estes processos bons, tanto assim que não só os criei como os adoptei como meu método pedagógico pessoal. Todavia, sempre fui critica e sempre julguei o meu trabalho com os seus prós e os seus contras, procurando corrigir estes. Por este processo, só se obtêm resultados positivos. Parecendo tudo leve, cria-se na aula verdadeiro civismo, um profundo sentimento de sinceridade aliada à verdade e à noção de que aprender é o cumprimento de um dever, com o princípio básico a estima que a criança, desde a infantil, deve ganhar por si própria e pelo seu aperfeiçoamento, como ser superior que foi criada para esse fim. Tive, também, como princípio a ideia de que não só trabalhava com a parte intelectual das crianças mas também com a sua parte moral e o embrião do seu carácter, que devem ser cuidadosamente modelados. Trabalhar deste modo é desgastante para quem ensina, mas senti-me realizada. Cansei cedo, porque tudo isto é bastante trabalhoso, mas dando todo o meu esforço, fui muito feliz na minha vida profissional. Poderia dar muitos mais testemunhos de bons resultados que obtive, mas como este texto já vai longo, pelo que peço desculpa, aqui termino. Porque intitulei este texto de descoberta tardia? A minha mãe, muito inteligente e perspicaz, intuiu que, tendo só filhos rapazes, devia deixar ao meu pai o lugar principal como formador do nosso carácter. Ela ficou com algumas tarefas ingratas, a disciplina, a exigência com os estudos, os hábitos de bem-se-portar. Esvanecida a presença do meu pai, desabrochou a minha mãe no meu grande afecto, numa enorme ternura e então percebi tudo o que lhe devo, até como herança temperamental. E é talvez mais à minha mãe do que ao meu pai que refiro a grande máxima da nossa família: "Não há heranças materiais, cada geração goza o que ganha. Os pais fazem tudo o que for exigido para abrir aos filhos o caminho da vida, mas cada filho fará esse caminho conforme as suas capacidades e a educação dada pelos pais. No fim, os pais sabem que os filhos lhes garantirão uma velhice feliz". É o que digo aos meus filhos e provavelmente o que eles dirão aos meus netos. |