eu
João Vasconcelos Costa
Espaço de conversa de um epicurista ou, pretensiosamente, a sabedoria (?) de/dos 60s. Açoriano, muitos anos investigador científico, depois professor universitário, passando por diretor de uma instituição de investigação e ensino, tudo isto com algum trabalho feito de estudo da educação superior. Hoje, novamente com responsabilidades de direção universitária. Albergando aqui a perplexidade angustiada da falta de perspetivas de concretização de ideais nunca realizados. Também, mais prosaicamente, o gosto de bem comer. E peripatético, que isto de ficar sentado é coisa de velhos.

 

A infância

eu_paisGosto de contar histórias, sou do tempo dos serões de família. Uma das coisas marginais que senti com a morte dos meus pais foi a perda da memória ancestral, de que me sinto no dever agora de perpetuar, mas com sentido da limitação da perda da informação, cada vez mais esfumada. Vale-me a memória elefantina do meu irmão mais novo. Quando recordo essas histórias, fica-me o gosto de que os meus ouvintes se perguntem: "Mas que pessoa estranha era aquela? Ainda existe disso? Que meio e modo de vida era o desse tempo, que permitia personagens reais que já não encontramos?" Ou sou eu, produto desse tempo, que também já invento muitas delas, trocando as voltas às recordações infantis?

Quem pode confiar na memória de infância? Está lá muito escondida num pequeno armário do cérebro, é traiçoeira, mente-nos, como descobrimos, por outros testemunhos, que fazemos muitos palimpsestos ao longo da vida. Histórias de menino são inevitavelmente difusas. Fica-nos um fundo de muito riso que elas despertavam nos serões de família, mas que se vai misturando, ao longo do tempo, com alguma efabulação a compensar a degenerescência da memória. A meu ver, o que interessa é a graça da história e o espírito da época que ela pode simbolizar. Uma ou outra inexactidão factual pouco conta. Se um pintor me retratar com uma gravata azul em vez daquela vermelha que eu tinha posto, que mal faz isso? Desde, claro, que não me ponha uma gravata com o rato Mickey!

Ai, a infância! Não há nada mais belo no mundo, a não ser, no extremo oposto, a sabedoria dos velhos, trocada por vezes nos silêncios eloquentes, sentados no banco à porta da taberna, bebendo o sol alimentar do seu sangue tristemente arrefecido, de répteis humanos.

Esta história é simultaneamente da infância e dos sessenta. São indissociáveis. É um ajuste de contas com a vida e a minha visão da imortalidade, eu que não creio noutra mais espiritual – apenas a de uma memória deixada, com a ambição que a descendência me mantenha vivo da mesma forma como mantenho vivos os meus avós e todos os que me foram queridos.

Quando é que acaba a infância? Podemos desenvolvermo-nos em homens-meninos, coisa muito diferente de continuarmos meninos-homens? Assunto complicado, que tem a ver com o perecimento do adquirido. Diz-se que ninguém se esquece de nadar, patinar ou andar de bicicleta, depois de aprendido em miúdo. Isto é prosaico. Há outras coisas muito mais importantes que a vida oblitera, como saber voar para a Terra do Nunca, namorar aos cinco anos de forma tão diferente, sempre com a pergunta inquieta de como é o pipi das meninas, saber apreciar como néctar o dedo final da cerveja do pai nas festas do Senhor Santo Cristo.

Acima de tudo, a roturante morte da infância que é dizerem-nos que o Pai Natal não existe. Na minha terra, era o Velho do Natal. Não existe? Essa agora, quantas vezes eu o vi, escapando-se rapidamente da despensa onde tinha deixado as prendas, depois de tocada a campainha a chamar a miudagem? Confesso, no entanto, que sempre me ficou a atormentar que o meu Velho do Natal não fosse a rotunda personagem a quem eu escrevia as cartas dos desejos. Coitado, o meu tio António não podia fazer melhor, era jovem bem elegante.

Há quem me diga que não teve uma infância marcante. Não há infância imarcante, pode haver é infância esquecida. Ela está lá sempre, para quem sabe ser sempre um pouco menino no fundo dos modos de adulto. Conversando no libertar pós-prandial das inibições, tenho muito prazer em observar, frequentemente, que as minhas histórias vão evocando outras parecidas nos meus amigos mais preocupados com a vida do dia-a-dia. Todas as nossas infâncias são marcantes, todos nos podemos lembrar delas; o problema é que, em geral, as arrumamos no lugar demasiadamente organizado de todas as memórias. São diferentes conforme a vida, mas são todas marcantes, sejam as de “gente feliz com lágrimas”, sejam as que depois acordam como “raiz comovida”.

Se alguém me disser que a sua infância foi vulgaríssima, não acredito. Esqueceu foi a escola, as reguadas de uma qualquer D. Salete, o ranho sempre a correr de um Francisco, os traques constantes de um Zé Gordo e a cabeça sobre a carteira de um António, atascado com o seu pequeno almoço de mata-bicho, uma sopa de pão e vinho. Esqueceu os terríveis berlindes de aço, pedidos ao mecânico da esquina dos restos das caixas de rolamentos. Esqueceu as reuniões clandestinas de braguilha aberta para comparação de pilas ainda não amadurecidas. Esqueceu o bafo de sotaina encardida do confessor. Esqueceu a catequista, velha decrépita entre freira frustrada e beata com sonhos fantasiados. Esqueceu o chapéu posto a meio da rua, tapando uma pedra, para grito dos amantes do pontapé seja lá em que for. E tanto mais!