| João Vasconcelos Costa 28.05.2010 | |||||
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Idalina de Viveiros, minha avó
O meu magnífico avô não teria sido nada se, com essas obrigações dos catorze filhos e os poucos proventos familiares, a minha avó não tivesse sido uma heroína do dia a dia. Mais tarde, descobri-a. Dificilmente posso escolher dois ou três adjectivos apenas que a retratem. Escolho: força de vontade, gentileza, coração desmedido, finura aristocrática das suas origens. Quando agora me recordo, com muita ternura, da minha avó, refiro-me normalmente a uma época muito posterior, aos anos de felicidade dela, já velhinha e viúva, apaparicada por todos os filhos. Era a doçura em pessoa, além de um aspecto impressionante. Quantas vezes olho para esta fotografia da minha avó, nessa idade, a preto e branco, mas acho que não lhe faz justiça, a não ser na ternura do sorriso. Faltam na fotografia a tez bem rosada e os olhos luminosos herdados da sua avó alemã, bem como o branco muito especial de um cabelo que foi genuinamente louro em jovem e que ela usava todo puxado para cima, encimado por uma espécie de coroa. Foi pessoa com uma vida extremamente contraditória. Nascida de família bem estabelecida e de origens Viveiros registadas, foi educada com todos os requintes da sua posição, mas sucumbiu, muito jovem, aos encantos de um namorado excepcional mas totalmente desprovido de meios, o já falado Prof. José da Costa, que, com uma prole de catorze filhos e com uma vida muito difícil, desfez todo o conforto passado da avó Idalina. A minha história é um exemplo de uma coisa muito típica da sociedade açoriana, estabelecida em esquemas económicos caducos, um exemplo da decadência, de que ficam, contraditoriamente, usos e mitos em total contradição com a situação social efectiva. A princípio, o bisavô Viveiros, herdeiro dos pergaminhos a que se juntam os de Homens e Camelos – que mistura! – de que muito se orgulhava, fidalguia dos primeiros povoadores, ainda ajudou, até que umas “pendências”, no dizer saboroso da minha tia Lurdes, decairam uma fortuna razoável, por teimosia orgulhosa nas querelas e por advogado aldrabão. O bisavô Viveiros manteve, apesar de tudo, uma bela quinta em S. Gonçalo, delícia de férias do meu pai menino, e, principalmente, a fama e atavios de um dos maiores "dandies" de S. Miguel. Depois, a vida difícil e sobreocupada da minha avó, com os cuidados com a família numerosa. A minha avó fazia heroicamente o que podia para sustentar e educar os filhos, já que o meu avô José da Costa, perdido nos seus devaneios intelectuais, não dava conta de que os seus magros proventos de professor primário e de explicador não eram compatíveis com aquela prole e não davam para o meu pai ir sempre de sapatos decentes para o liceu, muito menos para facultar o tão sonhado curso universitário a mente tão brilhante como a do meu pai. Só muito depois é que me apercebi da nobreza desta minha avó. Nem da sua esplêndida beleza cinquentona me dava conta, toldada que era pelo desgaste de uma vida difícil. Tive um tio escultor e magnífico retratista que tinha em casa um retrato a pastel da minha avó. Excelente retrato, mas que sempre me fez impressão, por esse ar de desgaste. Termino com uma anedota verídica, contada há tempos por uma minha tia, sobre outra faceta da minha avó, a sua criatividade e habilidade manual. Um dia, viu uma carteira linda e caríssima na montra da loja mais elegante de Ponta Delgada. Segundo a minha tia, que a acompanhava, a minha avó só olhou para a carteira durante menos de um minuto. Encomendou couro, tingiu-o, talhou-o. Com muito sentido de humor, fez um pequeno defeito, foi à loja e apontou-o, pedindo a troca. A loja nunca percebeu a brincadeira. E eu também nunca tinha dado, até conhecer esta anedota, pelo lado humorístico da minha avó. Conjugando isto com o que escrevi sobre as minhas heranças de humor dos outros avós, desconfio de que nunca mais ninguém me leva a sério! Mas não é verdade. No trabalho não brinco.
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