| João Vasconcelos Costa 25.08.2010 | |||||
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O meu outro sítio: |
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Do "gourmet" |
A investigação científica, minha actividade de muitos anos, pode parecer estritamente racional, fria, disciplinada. É tudo isto, mas com 80% de imaginação. Com alguma frequência, essa imaginação tem como extensão colateral uma queda para as artes. No meu caso, deu-me para uma arte menor, todavia respeitável, que é a cozinha. Na cozinha, obrigatoriamente se exige gastronomia. |
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Os azeites |
Crónica de férias açorianas (VIII) - os restaurantes Nota prévia - Vou tentar dar referência dos pratos que vou recomendar ou criticar. Nuns casos, por "link" a escritos meus neste sítio. Noutros, quando indicado como "GBC, p. …", como indicação da página em que vem a receita no meu livro "O Gosto de Bem Comer". Vamos então aos finalmente, os restaurantes. Começo por coisa óbvia: esta crítica diz respeito ao turista, que quer comer o que cá não encontra; não vai perder tempo nem dinheiro a mais (justificado) com restaurantes de muito bom nível mas a igualar muitos de Lisboa e outros sítios, de cozinha de qualidade. Mas é muito bom que os haja, para os locais. Como se costuma dizer, "quem quer comer comida caseira, não vai ao restaurante, come em casa". Também isto vale para quem vai muito frequentemente aos Açores, conhece bem a cozinha tradicional e quer comer bem. É caso diferente do turista de primeira vez e é bom que haja oferta de vários tipos. Em S. Miguel, neste tipo de restraurantes de nível erudito, têm o pioneiro, o London, ainda respeitável, o Colmeia do hotel, o mais recente 27 na R. do Colégio, dizem-me que também o Boca de Cena, frente ao Teatro, todos em Ponta Delgada, mais a Lota, na Lagoa. A nível mais tradicional, a meio caminho entre a cozinha caseira e uma cozinha mais elaborada, o Gato Mia, na Ribeirinha, um pouco adelá da Ribeira Grande. Na Terceira, reparei na ementa, muito sugestiva, também de qualidade sobre raízes regionais, do restaurante do meu hotel, o do Caracol, mas não tive tempo para o experimentar. Fica-me em lista de espera prioritária. Vamos por temas. Primeiro, os "charrinhos". Comi-os desde uma tasca antigamente infecta, hoje recuperada em restaurante de sólida e honesta cozinha tradicional, o Avião, em Ponta Delgada, até ao bar de praia, muito simpático, em Água de Alto - não o do hotel! Insuperáveis, foram os do Garajau, na Ribeira Quente. Acabados de vir do mar, fritos embrulhados em farinha de milho, acompanhados com inhames e com as tradicionais batatas cozidas com pele e recheadas com uma tira de malagueta. À parte, a gosto do cliente, os dois molhos tradicionais: o molho de salsa verde (GBC, 307) e o molho de vilão (GBC, 308). Compreendo a ideia, podendo-se assim saborear um e outro molho, mas impede o supra-sumo, fritá-los muito frescos (ou "assar" na sertã de barro, ao lume), regá-los com um dos molhos e deixar arrefecer até ao dia seguinte. Indispensável em S. Miguel, também o "bife regional" (GBC, 315) de lombo alto, lá dito lagarto, frito no ponto desejado, barrado com alho e malagueta (ou, como se faz mais frequentemente, mas para meu menor gosto, com essas duas coisas fritas ao lado do bife). Molho desglaciado com um pouco de vinho branco, uma delícia, mais ovo estrelado e batata frita que é mesmo batata, faz-se lá por toda a parte mas, para mim, e lá fui, especialmente no Bar Aliança, perto da Câmara de Ponta Delgada. O "jantar da matança" é coisa que mistura os diversos torresmos de porco e enchidos com feijão assado (GBC, 317) e que começou a ser vulgarizada por um restaurante hoje esquecido, o Cavalo Branco de S. Bárbara dos Mosteiros. É uma refeição pesada mas muito boa que agora está a entrar, muito bem, na oferta de restaurante. Torresmos de porco em vinha de alhos e fritos ou assados, linguiça e morcela, acompanhados por feijão assado, aboborado de véspera no forno apagado mas ainda quente. Eram coisas separadas, hoje o feijão é acompanhamento. Tudo junto é uma agressão à capacidade estomacal. Tive duas experiências. Primeiro, em versão rústica mas muito boa, no Jaime, em Vila Franca. Em quantidade de uma dose para quatro pessoas, mas, como diz o proprietário, "aqui só servimos almoços e jantares, não servimos pequenos-almoços". Depois, supimba, em jantar familiar. Mariscos, coisa obrigatória. Fechadas algumas marisqueiras que conhecia ou entradas em decadência, principalmente na zona da Lagoa, acabei por cair nas Portas do Mar, as "docas" locais, no Mariñeiro. O nome, galego, devia ter-me feito desconfiar. É certo que galegos são grandes restauradores e os de A Tocha são peritos em mariscos. Estes não. Encomendei de véspera lapas cruas, que me garantiram, até diziam que tinham viveiros (cheirou-me a esturro, como é que pode haver viveiros de lapas, sem rochas?). No dia, tinham esquecido, serviram grelhadas. Protestei e a senhora foi saber à cozinha e disse que se tinham enganado, as tinham grelhado mas que não havia mais. Depois, vi sair mais lapas grelhadas para outras mesas. Tinha juntado à encomenda, de véspera, cracas e cavaco. Lapas e cracas vieram ao mesmo tempo, claro que uma das coisa, a esperar, ia esfriar. Começámos pelas cracas, de bom tamanho, frescas, mas cozidas em água com sal, coisa perigosa que qualquer açoriano conhece, porque sal já elas têm na água do mar das suas cavidades. Resultado, muito salgadas. As lapas, entretanto, tinham arrefecido. Não era este o problema, é que pareciam estarem também grelhadas por cima, secas, enegrecidas, duras que nem sola. O cavaco, o rei dos primos lagósticos, foi grelhado depois de cozido, vinha seco e de sabores esfumados. Nem me passou pela cabeça que, ao encomendar de véspera um cavaco, ele não viesse simples e magnificamente cozido. O tradicional molho de salsa verde (GBC, 307) era uma coisa aguada, avinagrada, com uns fiapos de salsa a nadar, nada de tempero tradicional com malagueta e açaflor. Evitem o Mariñeiro, onde deixei os 150 euros mais mal empregados da minha vida! Como ia mostrar a minha terra a quem bem merece, coisas de boca incluídas, tive de alterar o programa de jantares e, no dia seguinte, repetir a ementa numa marisqueira recomendada, mas que não conhecia, a Casa Marisca. Fica fora das ruas mais frequentadas, na antiga Calheta, o que não impede que, fora do circuito turístico, esteja sempre cheia e a exigir marcação. Que diferença! E a metade do preço. Só um senão: mandado retirar o couvert (incluindo uma continentalíssima salada de polvo, em vez do polvo guisado à açoriana), faturaram-no e mantiveram-no na fatura mesmo depois de eu ter protestado. E assim se dá cabo da qualidade do turismo em S. Miguel. Peixes, com destaque para os excelentes filetes de abrótea que a minha mulher come cá com abrótea desgraçada que por cá se vende, comi repetidamente, mas destaco o 100 Espinhas, também nas Portas do Mar. Os seus filetes, de abrótea bem fresca, a lascar, com um bom polme, vêm "à moderna", muito bem, com legumes estufados a ficar crocantes e com um puré "dauphinois" com um pouco de alho francês incorporado - da zona verde. Melhor seria acrescentar à batata do puré também alguma batata doce. O resto da ementa estimulou-me. Fica para a próxima. Nas Portas do Mar, é boa aposta. Mas melhor, ainda lá, é a Colmeia. Tive há anos um "quid pro quo" com este restaiurante (o irmão mais velho, no hotel), em dia particularmente infeliz do restaurante (aqueles dias em que talvez, honestamente, deviam fechar, dizendo claramente que tinham um problema de pessoal ou de funcionamento). Depois, reconciliei-me. A chefe Guiomar, que aprendeu com Miguel Castro Silva, trabalha na estação baixa no restaurante do hotel mas dizem-me que, no verão, se transfere para o das Portas do Mar. Se é verdade, muito bem. Lamento não ter a ementa para reproduzir. Começámos por uns croquetes da carne agora certificada como IGP. Croquete é croquete? Na evocação de infância em que tantas vezes nos encontramos, lembrámo-nos de que croquetes, em ambas as famílias, destrezas de avós, eram restos de carne assada (de fato, estufada na panela, nos Açores e em Angola), moída e embrulhada no molho do assado, com um mínimo de farinha, quase nada. Croquetes da Colmeia, como estes, de carne e confeção que não se conhecem cá, "valem o desvio". A seguir, de entre uma boa lista, dois petiscos. Excelente e original mistura de polvo, favinhas e linguiça. Iscas muito bem feitas, à micaelense, muito finas, marinadas e fritas a baixa temperatura, como cá, mas com a diferença da vinha d'alhos à micaelense (GBC, 169). A terminar, uma posta de atum grelhado, no ponto certo, com legumes estufados só até "al dente". Boa oferta de vinho a copo, até um que pedi e que não fazia parte da lista. Disse a terminar, mas afinal não, porque ainda veio um pudim de feijão que só fica atrás do que ainda ontem comemos em família, receita esmerada da minha avó. Colmeia, sem dúvida uma primeira escolha a quem for às Portas do Mar.
Há duas coisas essenciais para a diferença de aroma e sabor, mas nada a ver com enxofre. Em primeiro lugar, os ingredientes. Há um aroma dominante dos enchidos, a linguiça e a morcela, sem comparação no continente, veja-se o seu tempero com especiarias. Também os legumes, com destaque para a couve e o repolho locais, diferentes, de sabor mais vincado [ver nota final]. Depois, a cozedura muito lenta, no vapor das caldeiras. Tão crítica que me disseram que estão numa fase difícil, de acerto do tempo a uma aparente baixa de temperatura das caldeiras. Até varia de metro a metro, caldeiras em que se coze durante 4 horas, outras a exigir 6 horas. No fim, tudo cozido sem água, com aspeto firme e seco, como se vê na figura. Mas, volto a dizer, como o faço em casa. Passo à Terceira. Antes do mais, dois restaurantes de hotel, o género de restaurante que em geral não me diz muito. Não fui ao do Hotel do Caracol, em que pernoitei, mas fiquei interessado na sua ementa, muito interessante. Como disse antes, o hotel é muito bom, deita para a excelente zona de banhos da Silveira, fica a 10 minutos a pé de Angra. Tudo para férias de descanso. Fica em agenda.
Contraditória foi a nossa visita à cozinha das raizes, a que me habituei em casa de mãe e avó terceirenses. Em Angra, está sempre cheia a Adega Lusitânia, em que praticamente não se lê a ementa. Toda a gente sabe que o emblema é sopa de funcho e alcatra. A sopa de funcho, boa ou má, vale sempre pelo funcho selvagem, de sabor e aroma vincados, que cá não conhecem. Mas soube-me curto. Não é a minha sopa de menino. Não porque a da minha casa (GBC, 303) fosse mais rica, mas porque a dessa adega nem obedece às boas recolhas de receitas terceirenses (Augusto Gomes) em que a minha memória mais se revê. Não tem carnes, não é apurada, é feita com feijão vermelho, quando a tradição é de feijão branco, a deixar realçar o gosto do funcho. Pior, para restaurante que se quer emblemático, a alcatra (GBC, 312). Muito tendo escrito sobre a alcatra, relembro o essencial. É um assado em alguidar de barro não vidrado, em camadas de carne de primeira (alcatra, lá rabadilha), manteiga, cebola, toucinho fumado, tudo sobre um osso com tutano, especiarias, vinho branco (no melhor caso, verdelho dos Biscoitos; popularmente, vinho de cheiro), assada lentamente com grande apuramento do molho (que no fim deve ligar bem gordura e molho aquoso da carne), virando com frequência as carnes para ficarem assadas por igual. A alcatra da Adega é a pior que já comi. A carne é de qualidade mínima, provavelmente chambão. Em vez de manteiga, banha em abundância, enjoativa. Até diria que talvez também azeite, porque o molho tinha um toque esverdeado de cor, suspeito. Apuro zero, gordura imensa totalmente separada de um pé de assado, espesso, que não consegui misturar minimamente com a gordura, porque a alcatra nunca deve ter sido virada e nunca se foi misturando a gordura e o molho de vinho e água. Não recomendo a Adega Lusitânia, vão antes ao restaurante simpático e bom de que falo a seguir.
Finalmente, o que julgo ser o melhor restaurante de peixe dos Açores, o Beira Mar de S. Mateus, na Terceira. Mais uma vez, sempre a abarrotar, não se atrevam a lá ir sem reserva. Tudo o que há de melhor e mais frescos de peixes açorianos, inclusivamente o que comemos, coisa cá desconhecida, umas deliciosas postas de moreia frita. À saída, vi chegar um tabuleiro de lapas cruas. Claro que voltei para a mesa. E há melhor maneira, mas de mais tristemente comovida maneira, de acabar estas crónicas do que com esta evocação da minha meninice, sabendo ao mesmo tempo que provavelmente foi a minha despedida na vida das lapas cruas que vendiam as mulheres das lapas, à porta da taberna na Matriz, numa tasca que hoje é loja de recordações do Senhor Santo Cristo? Entremeando-se elas as longas horas de venda com algumas horas de dormir antes de abalar para a cidade, recebendo as lapas do marido que as tinha apanhado durante toda a noite, com uma "rapidinha", "coitadinhos, eles vêm tão friinhos!"? E ao mesmo tempo embalando com as lindas canções açorianas o "pitcheno", adormecido com o pão moilhado em vinho oferecido pelo dono da tasca? "Raiz comovida", "Gente feliz com lágrimas". Assim me lembro, assim me comovo, assim choro, quando vou à minha terra. Ilhéu tosco... E assim termino esta crónica de férias, porque o muito mais que teria a dizer sobre estas férias e porque as fiz é coisa minha.
Mas isto vem a propósito de coisa que me aconteceu sem eu dar por ela e a recordar-me meninices. A minha mulher comeu uma excelente salada, de uma hortaliça muito carnuda, com um picante invulgar. Gostou muito, mas não sabia o que era. Nem eu me lembrava, até me dizerem: agrião! Como o nome engana. Reconhecem na foto o agrião? Falta a escala, são cerca dde 7 cm. Até parece espinafre. Crónica de férias açorianas (VII) - os banhos E faltam os banhos, porque também são coisa de gourmet. Banho, almoço, sesta, na ordem que quiserem, depois um passeio a encher o olho e o ponto E (E de estética, não é o G...). E não há problemas de digestão, com água entre 23 e 25º, quase o mesmo à meia noite, a possibilitar belos banhos noturnos. Lembro-me do da noite de S. João, depois da ceia em casa do George Hayes, no Pópulo. Ou o banho das oito da manhã, todo o ano, antes de ir para o liceu.
Como falta muitas vezes o sol forte, o açoriano não preza muito o estirar-se, a queimar-se, embora as nuvens sejam traiçoeiras, quantos escaldões apanhei em jovem porque não havia sol. Nas zonas balneares, cultiva-se mais a conversa de grupo, sentados, a apetecer um ou outro mergulho na água do mar que é mesmo mar. Azul do mar e azul do céu, cores carregadas, melancólicas e nubladas, nenhum açoriano as revê na luminosidade exagerada do continente. É que "a saudade é (...) um cortinado roxo que nos tapa o coração".
Crónica de férias açorianas (VI) - as Portas do Mar Desde o meu tempo de menino, a baía de Ponta Delgada mudou muito. Já não falo dos tempos antigos, em que se chegava de barco e se via uma paisagem pobre, de traseiras de casas, porque a cidade cresceu de costas viradas ao mar, aberta apenas por uma varanda, não sei porquê dita de Pilatos, e pelo cais, com entrada pelas portas da cidade, hoje emblema da praça Gonçalo Velho. Desde oitocentos que a vista do mar foi cortada pela doca, expandida várias vezes. Nos meus anos dos 50s, começou a construção da marginal, que voltou a cidade para o mar. Com estas duas tendências, mais a expansão da marginal nos anos 80s e a construção da marina e de novos hotéis, manteve-se o ângulo de visão para a serra de Água de Pau e para o mar. Tudo mudou com a construção das Portas do Mar, um grande aterro com cais de atracagem de navios de cruzeiro e uma grande zona de lazer e restauração. Vi há anos uma apresentação do projeto pela sua responsável, entusiasta, e fiquei com "mixed feelings". Só agora o vi na realidade. Amputa a amplidão do porto da minha infância, corta a vista para a serra de Água de Pau. Mas o que conta é o efeito prático na vida da cidade. É hoje o centro do turismo, dos restaurantes mais acessíveis a quem não pode procurar os espalhados pela cidade, da boa Loja Açores, a mais completa e diversificada para lembranças e produtos gastronómicos. Mas, principalmente, é o ponto de encontro, de passear à toa dos locais, como era no meu tempo a Avenida Marginal e depois se perdeu. As pessoas votam assim, pelos seus atos do dia a dia. As Portas do Mar deram grande discussão, mas o tal voto, basta lá ir e ver, acabou por referendar indiscutivelmente o projeto tão discutido. Crónica de férias açorianas (V) - outra vez as lapas Ainda antes de passar aos restaurantes, que será o andamento final desta minha composição sobre férias açorianas, volto às lapas. Qualquer visitante as come, grelhadas, única forma de cozinhar as lapas congeladas que vêm da Madeira. Nos Açores, ameaçado o bicho (melhor do que o madeirense, ou há alguma coisa sem'ei'lha melhor do que nos Açores, Alberto João incluído?), há regras estritas de defeso. Embora com alguma margem, a que me permitiu, no Beira Mar de S. Mateus, na Terceira, voltar à mesa já quando teclava o aparelho do Multibanco, por estarem a entrar lapas vivas. Não é coisa para almas sensíveis, como a da minha mulher, mastigar uma coisa que ainda palpita viva. Curiosamente, delicia-se com ostras vivas. Contradições! Tradicionalmente, a lapa grande era para comer crua. A lapa pequena dava um excelente arroz ou um pão recheado com lapinhas. O máximo era quando tinham concha com muito musgo, a justificar o Afonso de lapas ou lapas com molho Afonso. Estava com esperanças de o comer em S. Mateus, reservado muitos dias antes, desde Alfragide. Afinal, no dia, falharam as lapas de qualidade indispensável, com musgo. Como se diz, quem não tem cão caça com gato. Assim, adapto o tradicional Afonso de lapas a uma receita que ofereço, mexilhões em molho Afonso. Crónica de férias açorianas (IV) - mariscos, peixes, carne e enchidos Passemos então à substância, mariscos, peixe, carne, enchidos. Marisco. Camarão e gambas não se dão por lá, são importados. Amêijoa quase sempre também alhurentas, exceto se arranjarem a excelente amêijoa de S. Jorge, gorda, carnuda, a saber bem a mar. Bem conhecidos pelos continentais mas de muito melhor qualidade, e mais baratos, os caranguejos pretos pequenos e a lagosta.
As lapas, moluscos univalves, agarrados à pedra, têm mais que se lhe diga. No meu tempo de menino, havia as mulheres das lapas, que vinham vender à cidade as lapas que o marido apanhava esforçadamente durante a noite. As grandes, comiam-se cruas, vivas, a palpitar. As mais pequenas eram para arroz de lapas ou pão de lapas. As lapas com muito musgo e algas iam para o excelente Afonso de lapas ou lapas de molho Afonso. Hoje, estão em defeso e só se comem congeladas, grelhadas. Mesmo assim, vale a pena. O cavaco é a lagosta da pedra, caracteristicamente reconhecível pelas sua placas em vez das antenas. Talvez por vício das minhas origens, prefiro-o à lagosta. Cozido simplesmente, de preferência em água do mar e com molho de salsa verde, à açoriana: uma vinagreta com cebola e alho picados finos, bastante salsa picada, sal, pimenta, malagueta, açaflor e pimenta da Jamaica. Peixe. Primeira nota é que peixe dos Açores não é só para grelhar, coisa que lá se diz que é para gosto de turista. Bom peixe é para cozer em água ou ao vapor com legumes, para fritar, curtir em salmoura, assar ou rechear, processos que até fazem excelente a cá desprezada cavala. E que peixe? Não vale a pena estar a discorrer sobre peixes difíceis de encontrar no continente, a bicuda, a anchova, o mero (o melhor peixe para lombos ou medalhões), a moreia (frita, uma delícia, peixe com gordura vincada mas sem enjoar), o lírio, a serra, o encharéu, o bonito, o boca negra, o bodião, o rocaz (outra excelente alternativa ao cherne, para pratos com lombos de peixe), muitos outros, nem todos fáceis de encontrar nos restaurantes açorianos. Ou peixes conhecidos cá mas muito melhores lá (temperatura da água e composição do plâncton?), o salmonete, a garoupa, o cherne, o pargo, a gata, a cavala. Vale a pena é referir os três casos emblemáticos. Come-se por cá bife, carpaccio ou tártaro de atum. Também de conserva, habitualmente o mais vulgar atum do Atlântico, o Thunnus thynnus, rabilo. Nos Açores, é outro atum, outro sabor, a albacora, nome atribuído a duas outras espécies, o T. albacares e o T. obesus, também chamado patudo. Há tempos, um meu amigo acanhou-se e perguntou-me se tinha comprado bem o atum Sta. Catarina, de S. Jorge. Ó Vítor, compraste uma preciosidade! Também o trouxe agora, mas tens de me dizer onde o compras cá, para quando se me acabar. Segundo caso, a abrótea. Começou a vender-se cá há poucos anos, de muito má qualidade, normalmente congelada depois de pescada no norte do Atlântico. É o peixe por excelência para cozer, nos Açores. Também dá ótimos filetes, hoje mais vulgares nos restaurantes do que a abrótea cozida em água ou, como eu faço, cozida ao vapor. A abrótea cá tem tendência para fazer pasta. Lá, que diferença, solta-se em lascas firmes, de sabor muito suave. Por isto, nada de lhe juntar acompanhamentos ou molhos fortes. Muito menos grelhá-la. Finalmente, os carapaus, lá chicharros ou, popularmente, "charrinhos". Comem-se como cá, fritos, com a diferença de envolvidos em farinha de milho, não de trigo, e com molhos característicos, de vilão ou de salsa verde (fáceis de fazer: "O gosto de bem comer", págs. 307 e 308). Mas a principal diferença é que cá e lá são espécies diferentes de carapau. Nos Açores é o carapau negrão ou do alto (Trachurus picturatus), com o seu característico tom azulado, enquanto que o continental é o carapau branco (Trachurus trachurus). Vão lá experimentar e ver como são diferentes. Também ninguém confunde cavalo (Equus caballus) e burro (Equus asinus), pois não?
O corte da carne é igual ao do continente, mas a nomenclatura era muito diferente, o que sempre me causou problemas ao querer comprar cá carne para as minhas receitas tradicionais ou de família. Verifiquei agora que se começa a reconhecer lá os nomes continentais. por exemplo, todos os talhantes percebem lá, hoje, o que é vazia, quando no meu tempo era rosbife. A boa carne de "assar na panela" (estufar) era chã de fora, cá pojadouro. Mais importante, não peçam nos Açores um bife de lombo. É de lagarto, embora a que para cá vem para venda na Loja Açores tenha etiqueta de lombo, "ad usum continentali". Também é curioso o caso da alcatra, o prato icónico da Terceira. Como o nome diz, em tempos antigos devia fazer-se com carne de alcatra, mas este nome esqueceu-se nos Açores, passando a rabadilha. No entanto, se a quiserem fazer no continente, façam-na com alcatra, não com rabadilha. O mal, como direi um dia destes, é que na Terceira hoje até se faz com chambão, de má qualidade. Talvez por isto é que Augusto Gomes, sabiamente, nos seus livros de exaustiva recolha de receitas açorianas, refere nas lista de várias alcatras apenas "carne para alcatra", coisa bem ambígua. Finalmente, os enchidos. Deixo de lado as alheiras de S. Maria e os chouriços mouros de todas as ilhas, muito bons mas não significativamente diferentes dos continentais. Diferentes, excelentemente diferentes, são a linguiça e a morcela, que descreverei de forma genérica, porque há diferenças de ilha para ilha e, em cada ilha, de freguesia para freguesia e, "zoom in", em cada freguesia de cada ilha de produtor para produtor, em rivalidade como só a dos queijeiros de S. Jorge. Até parecem discussões clubísticas, quais as melhores morcelas, do Costa, do Borges, do Viveiros, do Cavalo Branco. Discussões tão vivas como as dos terceirenses sobre os melhores touros para as touradas à corda, muito mais importante do que Benfica, Sporting ou Porto. A linguiça assemelha-se ao chouriço continental, na grossura. Se de qualidade, é exclusivamente de carne, sem toucinho. A diferença está na vinha de alhos e seus temperos e na malagueta, por vezes tornando-a muito picante. No continente, não considerando agora a grande variedade de chouriços, os seus ingredientes essenciais são a carne, "de segunda", a que resta dos paios e similares, deixada a temperar com sal, alho e pimentão, juntando-se no fim um pouco de vinho. Nos Açores, a base da linguiça é toda uma sinfonia. Como regra comum, carne da melhor qualidade deixada em vinha de alhos, com vinho, vinagre ou sumo de limão galego, "todos os temperos" ou, discriminando, pimenta preta, canela, erva-doce, cominhos e cravinho, mais a indispensável malagueta. Também a morcela, sangue e vinagre, mais cebola e alho, como no continente, mas também, novamente, as especiarias, as da linguiça mas em maior dose e sabor mais acentuado. Esperando não ser lido por dietistas, vão a uma das lojas dos Açores em Lisboa e preparem-se para um grande almoço, linguiça e morcela em rodelas grossas, com ovo estrelado e batata frita (há açorianos que preferrem com arroz branco). Melhor ainda, com inhames cozidos, também à venda na Loja Açores. À açoriana tosca, bruta mas deliciosa, os enchidos fritos em banha e os ovos estrelados na gordura de fritar os enchidos. mais dieteticamente correcto, os enchidos assados no forno. Em qualquer dos casos, o segredo está no ponto certo: firmes e secos, bem tostados mas não queimados. Crónica de férias açorianas (III) - os queijos Calma, leitores, lá chegarei ao que importa, "que restaurantes recomendas?" Antes, ainda há muito que dizer. Açoriano do meu lado micaelense é sisudo e parco de conversa, do meu lado terceirense é tagarela que nem cagarro estridente, crácrácá, crácrácá, misturado com estorninho mais educado, piupiu poético. Tercveirence tem alma de capinha, alegre e festivo com tourada à corda que no meu tempo era só à segunda-feira, hoje é diária - em que dia é que se trabalha, c'um raio? E, c'um raio, o que é este escriba híbrido de coisas tão diferentes, corisco e rabo-torto? Com isto "se bem me lembro", diria Nemésio, já não sei onde ia. Enchidos? Carne? Peixe e mariscos? Doçaria maluca de excesso de açúcar e ovos, mas que boa? Vou hoje pelo queijo, o resto fica prometido, que palavra de ilhéu é sagrada, cruzes, p'las alminhas, indês, q'o Divino me proteja. Coisas de ilhéu tosco, como diz quem ternurentamente me está a ler. Dizem as crónicas, Gaspar Frutuoso à cabeça, esquecido, quase tão importante como Fernão Lopes, que Gonçalo Velho foi o descobridor. Versão consagrada pela historiografia oficial do salazarismo, hoje merecedora de grandes dúvidas. Diferente é ser o descobridor, quase certamente um obscuro Diogo de Silves, em 1427, segundo a célebre história da George Sand a derramar tinta sobre o mapa da Valseca, outro o povoador, Gonçalo Velho. Mas reparem, povoador, não colonizador, a meu ver muito mais importante, em terras desertas e em que o aventureiro português desbravou a poder de enxada a sua terra da fortuna. A vegetação endógena, hoje muito perdida, a laurissilva, era densa, impenetrável, hostil. O reinol aventureiro começou por fazer queimadas e lançar gado. Foi o que fez Gonçalo Velho, em 1431. Era a técnica dos povoadores. Só no ano seguinte voltavam à ilha, a ver o resultado. Desembarcavam e criavam um primeiro sítio de alojamento. Como chamá-lo? Muito simplesmente, como na minha ilha, Povoação! Há coisa mais simplesmente eloquente? Lançaram ovelhas, cabras e coelhos. Vacas só depois, lá irei, deram o que hoje se conhece, a riqueza das ilhas, talvez mais vacas do que açoriana gente de dois pés. Cabras deram leite e queijo excelentes, coisa de mim menino, fresquinho ao pequeno almoço, embrulhado em folha de conteira, depois perdido com a brucelose. Hoje recuperado, em poucas produções. Penso que pasteurizado, mas muito bom. No meu tempo de menino, comia-se com bolo lêvedo, um bolo-pão excelente, especialidade das Furnas, que consta do meu livro "O gosto de bem comer" (pág. 302). Ovelhas não medraram. Um pouco em S. Maria, para lã que nunca deu para as encomendas da população crescente das ilhas, nunca para carne e muito menos para queijo. Coelhos sim, viraram praga, mas que bons, os coelhos bravos. Vamos então ao queijo, de vaca, curado, o único de boa qualidade em Portugal, a comparar-se com os grandes queijos franceses e suíços, também espanhóis e ingleses, todos de vaca, claramente superiores aos nossos rústicos queijos de ovelha. Queijo da ilha, como muita gente conhece e desconhece a sua grande variedade. Há muito bom queijo do Pico, da Graciosa, até da minúscula ilha do Corvo (se tiverem curiosidade, encontram-no de vez em quando no Espaço Açores Gourmet). A Terceira também produz bons queijos, mas menos característicos. Em S. Miguel, há uma tradição semi-perdida. O Água Retorta fazia a minha perdição. Que crime ter-se deixado extinguir a sua produção! Em contrapartida, voltou a fazer-se Queijo Velho, que encontro em todos os bons supermercados do continente. É duro, muito curado, de sabor forte, mas suave e de grande delicadeza. Também em todos os supermercados continentais os excelentes flamengos Terra Nostra, com destaque para a recente versão "gourmet". Pena é já não encontrar a antiga e muito boa versão de Cheddar do Loreto. Vamos então ao q'é de obrigação, como canta a folia do Esp'rito Santo, o S. Jorge. É a ilha pastoril por excelência, nem lagoas, nem crateras de vulcão, nem hortências, só pasto e vacas. Falarei do pasto a propósito da carne, mas agora uma nota para distinguir o pasto de vaca, cultivado, do pasto de mato rasteiro, selvagem, o mato, do pastorício das cabras das Furnas, de que falei atrás.
Tem três cores. O verde é de três meses de cura, uma porcaria para açoriano que se preze, mas que se vende para quem gosta de queijo de "qualidade" Castelões. Vermelho, o de quatro meses, já é aceitável, até o recomendo a quem não gostar muito de queijo forte. Genuíno, sabor marcante, é o de rótulo preto, este da foto, o da minha casa, de sete meses de cura. "A princípio estranha-se, depois entranha-se", diria Fernando Pessoa. Mais difícil é encontrar cá, hoje, os supra, de produtor. Há alguns anos, ainda os via, hoje não: Topo, Rosais, Lourais (deste, trouxe agora para especialíssimos um especialíssimo). Só lá, mesmo em Ponta Delgada. Vão ao mercado, fiquem frente ao dito e entrem numa loja de queijos no extremo direito. Faz-se fila para provar uma lasquinha de cada queijo. Eu fiquei na dúvida sobre dois excelentes Lourais, com pequena diferença de picante, mas não tive grande margem de manobra, "é senhor, já provou muito!". Já não há consideração pelos apreciadores. Nota - Os bolos lêvedos vendem-se cá com alguma regularidade, às quintas feiras, no Espaço Açores Gourmet, mas também no dia seguinte no meu vulgar Jumbo do Alegro de Alfragide, bem como massa sovada e doçaria açoriana - queijadas de Vila Franca, queijadas de feijão, queijadas da avó, queijadas da Graciosa, bolos D. Amélia, tudo muito aceitável. Claro que ficam de fora as invenções da minha avó para a pastelaria famosa do seu cunhado Athanásio. Crónica de férias açorianas (II) - os líquidos, as águas vulcânicas e os vinhos exóticos O prato nobre fica para depois, hoje vou antes discorrer sobre líquidos. Começo pelas águas, excelentes em S. Miguel, ignoradas na Terceira, onde chega Luso e Caramulo, Pedras e Carvalhelhos, mas não as águas de S. Miguel, ali tão perto. Por bairrismo parvo, por mau marketing? Desapareceu mesmo de S. Miguel a minha velha Lombadas, inquinada, assim como as pequenas produções da Helena e da Ladeira Velha. Acreditem que eram águas bem distintas, nem tudo é Pedras. A gasificação, natural, é ligeira e, fora isto, o sabor da própria água é magnífico. Ficam bem substituídas pela Magnificat, uma fonte termal do vale das Furnas, na mesma zona de onde brotava a antiga água da Serra do Trigo. Também da mesma zona a água natural sem gás, muito boa, a Gloria Patri, O que já não há, para ir com a água, é o concentrado de maracujá do Ezequiel. No meu tempo de menino e jovem, era o mais excelente dos sumos de maracujá que já provei, polpa natural espremida e diluída em água das Lombadas. Outras águas que sempre me deliciaram mas mais para beber por brincadeira, são as que jorram de dezenas de fontes no vale das Furnas, nas caldeiras ou nos banhos, com destaque para a "água azeda", férrea e um pouco sulfurosa. Não a aconselho para ir à mesa, mas para lá beber, da bica, tem piada. Voltando ao sumo de maracujá, não se deve perder, como curiosidade e para se conhecer coisa de imenso consumo local, um refrigerante da Fábrica de Cervejas Melo Abreu, a Kima de maracujá. Também lá fazem ainda a laranjada do meu tempo, mas não tive coragem de a provar. Parecia-me mesmo a laranjada que eu era autorizado a beber na cervejaria da fábrica, enquanto o meu pai bebia cerveja. Era uma coisa horrorosa, pirolito com essência de laranja, corante e muito gás, a deixar-me enfartado e a arrotar (mais outras porcarias pelo outro lado) durante horas. Também era má a cerveja da mesma fábrica. Mais tarde apuraram-na e a "especial" é francamente boa, uma pilsener típica, com muito aroma e amargura quanto baste. E passemos aos vinhos, que têm muito que se lhe diga, para bem mas também, infelizmente, para mal. Os vinhos açorianos foram uma raridade até aos anos 80. As castas tradicionais - todas brancas, que não há memória de tintos aceitáveis nos Açores - eram, em primeiríssimo lugar a verdelho, também arinto e terrantez. Na segunda metade de oitocentos, a filoxera destruiu a maioria das vinhas, que foram substituídas pela execrável Isabel, que dá o vinho de cheiro (no continente, americano ou morangueiro). Felizmente, houve três aldeias de irredutíveis gauleses, com Panoramixes a saber fazer boa poção. A Graciosa com o Terras do Conde (que já não vi à venda), vinho agradável pela sua diferença, mas principalmente a dar saída a uma ótima aguardente. A adega cooperativa do Pico manteve o verdelho generoso, de aperitivo, hoje comercializado como Lagido. É áspero, falta-lhe a elegância dos Chico Maria dos Biscoitos, na Terceira. Estes têm a designação engraçada, açorianamente respeitosa, apesar do tom familiar, de apenas os nomes próprios do patriarca da casa Brum, tal como também era só João Diniz o meu trisavô, com apelidos por que ninguém o tratava. São muito bons vinhos de aperitivo - o seco talvez não muito adequado ao paladar vulgar do continental, mais habituado ao moscatel como aperitivo; o meio-seco muito bom - ou de sobremesa, doce, que hoje já se conseguem em Lisboa numa das novas lojas açorianas. Faltou-me, em descontrolo de horário, ir ao Museu do Vinho dar um abraço amigo ao Luís Brum, abraço que já vem de grande amizade de quatro geraçõesmas praienses. Maias dele, Menezes e Fagundes meus, tudo se endogamiza naquele nico de terra, da Vitória! (fez anos há dias, 11 de Agosto). Falhado o abraço, ao menos não fiquei sem o fornecimento de Chico Maria, que agora arranjo cá.
Escolhi sempre um dos meus preferidos, ou o Frei Gigante do Pico ou o Donatário dos Biscoitos (Casa Brum). Julgo que são vinhos que têm personalidade distintiva, a merecerem serem conhecidos no continente (tenho de verificar se o vendem em Lisboa nas duas lojas açorianas). Na falta desses, um pouco abaixo na minha escala de preferência, o Da Resistência (também Brum) e o Vinho da Pedra (Adega Cooperativa dos Biscoitos), ou, ainda um degrau abaixo, mas um degrau alto, o Terras de Lava, do Pico. De todo não recomendável, para meu gosto, é o Curral Atlantis, do Pico, de produtor que não identifiquei, vinho que não me parece ser verdelho mas que não especifica no rótulo ou contra-rótulo as castas. Nota não determinante, mas a ter em conta em terra de muitos restaurantes turísticos: a falta de meias garrafas, a não ser no caso do Frei Gigante. Os vinhos dos Biscoitos vendiam-se também numa capacidade estranha, 5 dl, boa para quem não tem de conduzir, mas parece que deixou de se engarrafar nesta capacidade. Nota - Tenho referido as duas lojas açorianas de Lisboa. Não me pagam nada pela publicidade, mas é justo e devido que os meus leitores saibam como lá ir. Uma, a da baixa, é comercial privada. A outra, no Campo Pequeno, é do Governo Regional. Bastante nelas é repetido (artesanato, bolos lêvedos e de massa sovada, enchidos, carne) mas com algumas diferenças. Por exemplo, Chico Maria só na do Governo Regional. 1) Espaço Açores Gourmet, R. S. Julião, 58, Lisboa. 2) Loja Açores Lisboa, Av. Elias Garcia, 57, Lisboa. Errata - na versão inicial, referi incorretamente como Pedras Negras o vinho que, de fato, se chama Vinho da Pedra. Nota 2 - Vejo no site do Espaço Açores Gourmet que têm à venda os vinhos de mesa que referi. Creio que não os Chico Maria, que parece que só na Loja Açores Lisboa. Ainda esta semana vou visitar ambas, a dar fé, como dizia a minha avó. Adenda, 17.8.2010 - Fui hoje à Loja Açores Lisboa. Lá estão todos os vinhos de que falei e até, pasme-se, a água Magnificat. Boa oferta de queijos e de conservas. Fica atrás da rival da baixa só na carne, que lá é congelada, enquanto que o Espaço Açores Gourmet a recebe fresca todas as semanas. Nota 3 (16.8.2010) - Escreve-me isto o meu amigo Pedro Aniceto, para meu grande gosto: "A captação das Lombadas não está inquinada (nunca esteve), mas a intempérie de 1998 fez ruir o edificio da bomba (uma semana depois da desgraça que atingiu a minha querida Ribeira Quente e Povoação) tendo a Melo Abreu feito uso (?) de um contrato de exploração que apenas terminou em 2007 e que não foi renovado. Foi aberto recentemente um novo concurso e as minhas informações dizem-me que é a UNICER que o vai ganhar, pelo que teremos de novo Água das Lombadas." Nota 4 (16.8.2010) - Desculpem-me uma picuinha erudita. De onde vem este nome de biscoitos? Vê-se logo bis + coito, cozido duas vezes. Fazia-se ao pão, depois de já um pouco seco. E era a maneira de se comer na ida à Índia, com a volta de largo pela Terceira. Ficava escuro, presumo, e daí a atribuição do nome aos pedregulhos de basalto negro, qua hoje fazem as curraletas e delimitam as excelentes piscinas naturais dos Biscoitos, água do mar a renovar, entrar e sair, a água das piscinas. Crónica de férias açorianas (I) - os hotéis Nos últimos anos, tenho ido com frequência às minhas ilhas, por razões profissionais, quer dizer, em geral, coisa apressada, nem dá para meditar na visita, no turismo, no que eu sugeriria como a resposta ao desafio de maravilha que o visitante ilustrado, o que vale a pena, espera das ilhas encantadas (leia-se obrigatoriamente Raul Brandão, antes de cruzar meio Atlântico para uns dias de paraiso). Visitante ilustrado, como era hám trinta anos, hoje é minoria, mas ao menos acabou a vaga do turista sueco de baixo nível, enfarta brutos ao pequeno almoço, depois todo o dia com o saco de vitualhas do Manteiga. Agora, vi o turista típico de classe média ou média-alta (vê-se pelas maneiras e pelo vestuário, por exemplo), pelo menos com meios de alugar um carro para ver bem a ilha. E com meios para pagar os preços escandalosos de viagem impostos pelo duopólio SATA/TAP. Pareceu-me haver um peso grande de holandeses. Mas isto de turismo alheio fica para demais conversa, que muito tenho a contar do meu próprio turismo. Desta vez, a viagem era de grande exigência, a desafiar-me ao maior esmero de hospedeiro, dar a conhecer as minhas ilhas à minha mulher, mulher que não se fica por roteiros turísticos banais. Disse as minhas ilhas, porque fomos a S. Miguel, a minha ilha de criação e formação de carácter ilhéu, de filosofia tosca, talvez, de insularidade; e também à Terceira, onde penetram no chão de biscoito da Praia as raizes da minha família materna. Sou híbrido açoriano, coisa estranha, porque as ilhas sempre estiveram de costas voltadas umas às outras. Híbrido de micaelense e terceirense tem muito que se lhe diga. Creio que a minha morena o percebeu, quando tanto falou comigo a comparar as gentes das duas ilhas em que estivemos e a usar-me sempre como exemplo de síntese. A seriedade, a reserva, a melancolia e a profundidade de estados de alma do micaelense; a alegria de viver, o humor e a extroversão do terceirense. Mas vamos ao assunto principal, a gastronomia, embora esta primeira crónica seja sobre hotelaria. Não são coisas muito separáveis, quando andamos em viagem de lazer e prazer - e comer, para continuar a rima (paro aqui!...). Começo por S. Miguel. A oferta está a aumentar e conheço vários hotéis muito razoáveis em Ponta Delgada. Não ficámos na cidade, fomos para o Bahia Palace, na praia de Água d'Alto, perto de Vila Franca do Campo. É um hotel com história atribulada, num projeto hoteleiro que incluía um magnífico mas desajustado hotel na Vista do Rei, nas Sete Cidades, hoje uma ruína triste. Na Vista do Rei, só uma pequena pousada de grande qualidade, para velhotes cultos e meditativos, a ler poesia entre duas miradas ao mais magnífico panorama que conheço. Nunca o enorme hotel para turismo geral que obviamente estava condenado à falência.
Sinais visíveis de degradação, por exemplo alcatifas manchadas. Em dez dias, nunca conseguimos que pusessem a funcionar o ar condicionado e só ao terceiro dia é que repararam o reposteiro, que estava encravado e deixava entrar luz logo ao amanhecer. Logo à chegada, uma coisa estranha. Deram-nos um quarto que não correspondia ao que eu conhecia do hotel, os belos quartos que descrevi e que tinha reservado. Protestei e vi que havia uma nota na receção: "se o … protestar, façam upgrade gratuito para quarto superior". Pelos vistos, vale a pena protestar. No entanto, não serviu para o que eu pedi desde três meses antes, de Lisboa, um quarto com vista para a baía. Na Madeira, até faz parte da tarifa. Aqui, é indiferente mas não podemos reservar, depende da disponibilidade à chegada. O pequeno almoço era mínimo. Quentes, só ovos mexidos (aquela coisa seca de todos os hotéis) e bacon, nem mais por encomenda. A acompanhar os ovos, num hotel dos Açores, obrigatoriamente as morcelas e linguiças miniatura que lá se vendem em todos os supermercados. Sumo de maracujá, emblemático de S. Miguel, nunca. Frios, só fiambre banal e um execrável flamengo, nem sequer o excelente Terra Nostra que no continente se vende em todos os supermercados. Outros queijos, viste-os. Massa sovada, outro ícone gastronómico açoriano, nunca. Ao almoço, depois da praia, um bar agradável junto à piscina, mas com serviço muito mau. Comi uma vez um "cheese burger" de má carne - senhores, má carne nos Açores?! - e noutro dia uma salada de atum (continental, de segunda) com uma macedónia daquelas congeladas que se vendem em qualquer supermercado, com uma maionese industrial. Finalmente, repare-se na esplanada dos pequenos almoços e do snack de almoço: mesas e cadeiras de plástico e guarda-sois com exuberantes reclames à cerveja Carlsberg. Num hotel de quatro estrelas?
Pequeno almoço convencional mas com pormenores cuja falta critiquei antes: queijos variados (embora só da Terceira, menores, com falta do S. Jorge, do Pico e do queijo velho de S. Miguel), escolha de várias carnes frias, quentes de bacon, salsichas, cogumelos, com ovos e com panquecas. Ovos quentes (ovos escaldados, como se dizia no meu tempo de menino), a pedido. Num dia disse que o queria 3,5 minutos a partir do começo do aquecimento da água fria, noutro dia, como teste, disse que o queria 1,5 minutos a partir do momento de fervura da água (esquisitices minhas). Vieram impecáveis. Ao lado, um casal holandês ficou de olhos postos na minha mesa e lá foram encomendar o que parece que não conheciam. Como direi depois evocando um bom almoço, a minha mãe, na sua derradeira visita de despedida à sua Angra natal, esteve num hotel mais antigo, em plena cidade, junto ao Pátio da Alfândega, com uma bela vista para a baía, o "Beira Mar". É mais barato mas disseram-me que confortável e a valer a pena pela localização, a começar a Rocha ali ao lado, com a grande casa dos meus bisavós Ávila de Vasconcelos a dominar toda a vista para o mar. Aqui fica o pedido de crítica a quem lá ficar, nesse "Beira Mar".
Mais uma salada Apetece, neste tempo de ananazes. Raio de expressão, que nem se usa na minha terra de ananazes super e que ainda não percebi se o Eça escreveu a sério ou a brincar. Salada imperiosamente amanhã, só com meia hora disponível para fazer o almoço, todo o tempo ocupado com o fazer de malas. Nanja a minha, que se faz num minuto, mas mistére que é eu ter de ajudar com poderis de trabalho ao fazer de mala de vaidosa, é obra. Como se vê, ou talvez só poucos vejam, isto está com grande toque de falar de ilhéu. Ou, insulto maior que me dirigem, quem me diria que eu viria a aceitar com sorriso terno, de ilhéu tosco. É já desvario tonto do cheiro da maresia que me vai entrar pela baía de Água d'Alto. A dois dias de distância, o calor que me abrasa o meu ninho da águia não é o calor suave e morno, uterino, que vou ter. A luz crua que me faz brilhar o ecrã do computador em que escrevo vai ser a luz coada pela humidade atlântica, a luz da pintura flamenga. O verde de monsanto que esguelho pela janela não é nem um dos milhares de verdes que vou distinguir tonalmente nos próximos dias, contra negro bruto do basalto, contra azul doce das hortências. Contra cheiro de bosta de vaca, minha irmã ilhoa, minha irmã no olhar meigamente melancólico, minha irmã no franciscanismo do meu saudoso Dr. Armando. E ainda não ouço, hoje, pio de canarinho ou de estorninho que vou ouvir enquanto não me consigo despedir da vista do rei. Como já escrevi, o verdadeiro, o genuíno, o único açoriano, é o que lá não vive. É a criança açoriana, embora isto possa ser muita coisa, a criança descalça da gente feliz com lárimas, ou o menino de sua mãe. Mas sempre o açoriano da ilha de sonho, sonho perigoso porque Antero, ao lá voltar, no fim da açorianidade idealizada, estourou os miolos. Pior, infeliz, falhou e sofreu durante horas uma morte horrorosa de quem não tinha jeito para lidar com armas de fogo. Desvariei e volto a quem me vai dar trabalho de fazer mala. Em contrapartida, facilitou-me a vida, "olha, amanhã, aquela salada fácil de que gosto muito". É uma salada de alho francês crocante, queijo de cabra curado, miolo de noz, tempero cuidado. Simples? Sim, na composição. Não, no cuidado de confeção. Porque há uma regra que considero essencial em cozinha: quanto mais simples, mais banal, mais tradicional é o prato, maior é a exigência de grande técnica. Porque não há lugar para a aldrabice, para o "épater le bourgeois". Vejam a receita. P. S. - Esta nota tem muito de conversa com o meu alter ego gastronómico, o meu irmão D. Nunca sei se o devo reconhecer; umas vezes quer ficar incógnito e diz que a net é coisa exibicionista, outras vezes acha, e muito bem, que o devo citar no que lhe devo, até com as minhas regras de escrita profissional científica, em que a citação é coisa religiosa. Neste caso, devo-lhe a técnica do alho francês crocante. Novamente, os críticos Temos quase que por princípio constitutivo uma atitude veneradora, atenta e obrigada para com as eminências, entre as quais se contam os críticos consagrados. Acho que a crítica ao crítico é essencial, para que ele afira e corrija a sua função, pedagógica e socialmente tão importante. É claro que isto só funciona, nos dias de hoje, se o crítico ler e refletir no que sobre ele se escreve, que vá à net e aos blogues que o referem, que tenha um endereço de mail para discussão mais privada. Nos últimos tempos, tenho manifestado desagrado com a atuação crítica de José Quitério, sem prejuízo de ter sempre o cuidado de realçar o muito que a nossa educação gastronómica lhe deve. Essencialmente, aponto-lhe a pouca consistência da sua atitude de não opinar sobre restaurantes para ricos. Muito bem, concordo com o princípio, mas, de fato, tem-no feito de vez em quando, com baixo nível da crítica, até com injustiças flagrantes (e injustiça, neste caso, pode ser o fim de um projeto empresarial honesto e bem-intencionado), provavelmente por ser o género de cozinha que não domina bem. Ainda teria mais a dizer sobre essa de "para ricos". Como já exemplifiquei, boa cozinha moderna (ou talvez melhor, neo-clássica), que visivelmente Quitério não aprecia, não é obrigatoriamente para ricos. Ficam então os restaurantes de nível médio, desejavelmente de boa qualidade, como vamos tendo tantos e tantos por este país fora, despretensiosos, a preços acessíveis, com a cozinha superentendida por uma nossa "avó" ou por um jovem cozinheiro bem educado mas que não teve a chance do estrelato. como hoje viajo pouco, não faço grandes descobertas, mas, se as faço, tenho a preocupação de aqui dixar menção honrosa. Por isto, o que tenho repetido é que fazer crítica só é coisa merecida em casos destes, ou então a desmontar aldrabices na moda. José Quitério escreve ultimamente críticas que não são uma coisa nem outra, que não se percebe para que servem, não aquentam nem arrefentam. O que é que me interessam a maioria das críticas de José Quitério? Umas considerações eruditas já cansativas, a descrição pouco crítica de ementas em geral pobres, a nota de provas de pratos banais e medianamente confecionados, indicação diluída de preços por vezes escandalosos, a merecer referência destacada. É para eu lá ir ou para eu evitar? É coisa que nunca fica claro, principalmente para quem não tem os "filtros" que vou podendo usar na "metaleitura" da crítica. É por isto que me agrada muito penitenciar-me por uma vez, em relação à sua última crítica no Expresso, sobre o Dóri, na Costa Nova (pena que não seja aqui à minha ilharga). A crítica, criteriosa e correta (fora uma infantilidade escusada sobre arroz agulha e carolino), chama-me a atenção para um restaurante que me parece a não perder, que mais não seja porque - coisa rara - é um restaurante de peixe e bacalhau que se centra na tradição dos estufados, guisados, assados, caldeiradas, ensopados; e que lembra, como na minha casa, que bacalhau também são caras e línguas. só gostaria que Quitério me tivesse esclarecido sobre coisa essencial: esse restaurante serve é bacalhau de cura amarela? Há mais peixe do que peixe grelhado, principalmente pensando em peixes que não estão nada talhados para serem grelhados. É este critério, de alerta para pontos de paragem por este país fora à hora da refeição, que espero de um crítico com os pergaminhos de José Quitério. Salada César, a sério, e de dieta Outra vez o fim de semana, sempre a desafiar-me em namoro de boca e em consequente perdição dietética. Mas nem sempre, porque desta vez fiz repetido, versão super e versão triste de gente de dieta. Uma salada César, coisa banal mas de minha estimação, feita muitas vezes e que só me merece hoje registo porque lá vem a dietética e a diabetes. Afinal, tendo dito "coisa banal", vem-me à ideia que raramente a vejo nas nossas ementas, esta magnífica, apaladada, simples, imaginativa, salada. A morena desta vez sabia que nem podia perguntar se fui ao Escoffier, sabia que tinha ela comido isso nos states como coisa lá do sítio, mas sabia que nos tempos de foxtrot em que Paris já tinha rezado todas as missas culinárias, à espera da Catalunha (passando, que esquecimento injusto, pelo país basco). Não se pode dizer que seja coisa a pedir em qualquer restaurante de estrada no midwest, mas é mesmo americana típica, quando Hollywood a adotou entre idas e vindas entre México e Califórnia, entre os restaurante de Caesar Cardini, em San Diego e em Tijuana. Como salada, é muito simples, só alface e "croutons", secos ou idos ao forno depois de molhados em azeite com alho. As grandes variações estão no molho, no "Caesar's dressing". Não sabendo como escolher entre tanta coisa variada, vou pela versão bem conhecida da sua viuva, Rosa. Lá devia saber. Vão lá à minha página de receitas, mas não liguem à minha mania do purismo, do respeito pela criação e pelo criador. Eu junto anchovas, como toda a gente, mas parece que Cardini achava que o toque de sabor a anchova do molho inglês era suficiente. E há quem mude muito mais, juntando bacon, galinha, salmão ou camarões. Essencialmente, o molho é uma emulsão de tipo maionese, mas com uma coisa única, o uso da gema de um ovo "coddled", não sei como traduzir. Não é cru, não é "escaldado" (como se dizia na minha casa para os ovos "escaldados", 3 minutos para mim, 3,5 minutos para o meu irmão D, grande diferença a justificar furiosas discussões fraternais de quem se habituou a comer muito bem em pequenino mas que não consegue fazer um pacto de registo dessa herança !…). "Coddled": água a ferver alto, mergulhar o ovo (à temperatura ambiente, não tirado do frigorífico; ou tirado do frigorífico e deixado meia hora em água morna), deixar exatamente! 45 segundos e passar logo por muita água fria. Mudo logo na salada, porque a minha dietista me deixou comer com alguma liberalidade queijos até 30% de gordura, e logo o Camembert e o Brie, mas não os da minha terra! Assim, para além da alface e dos cubos de pão tostado (uma dúzia de "croutons" por pessoa), também 100 g de queijo aos cubos, a dar sustança. A salada genuína leva muito parmesão ralado. Muito gordo, não posso! Também, como hoje, sirvo à parte coisas que ligam bem mas que não fazem parte da receita original: tomates miniatura, cubos de pepino, azeitonas, nozes. E lá fiz também a versão dietética, que não ficou mal. Hoje tenho sempre no frigorífico maionese magra. Não gosto de maionese industrial, nem mesmo da que mais suporto, a Calvé. Mas, com um pouco de mostarda e de pimenta preta, lá vai. Lá foi num "Caesar's dressing" aldrabado. Enfim, quem não tem cão caça com gato. Eu, diabético, me confesso Violo a minha privacidade muito estimada para confessar coisa que talvez venha a ser importante, como exemplo, em crónicas futuras. Sou diabético tipo II, isto é, a diabetes hoje infelizmente tão vulgar do adulto, não dependente de insulina, mas doença potencialmente perigosa e muito vulnerável aos abusos de boca. Doença a por-nos à prova, porque a sua evolução maleituosa não é uma inevitabilidade, depende muito da nossa disciplina de costumes. Se me custou tanto mas consegui deixar de fumar, será difícil controlar os meus pecados de boca? Tive ontem uma consulta com uma nutricionista que me criou grande empatia. Sensata, não fundamentalista, a atender a que o autor de "O gosto de bem comer" não vai facilmente em regimes prisionais de boca, que sou de gente de não ir por aí. Até começámos a imaginar a hipótese de uma segunda versão do livro, para dietas de obesos, de diabéticos ou de hipercolesterolémicos (o que complica tudo, porque, com base comum, são dietas com diferenças significativas), eu a receitar, ela a calcular doses e calorias. Não estou a brincar, acho que é projeto que valerá a pena. Até gastámos boa parte do tempo de consulta a divagar sobre coisas destas. Para já, como sinal de boas intenções, e contra a "regra" horrorosa do cozido e grelhado, aqui vai o que, obedecendo-lhe, imaginei como jantar, uns lombos de peixe assados baixo com tomate e funcho. Neste caso, para quatro diabéticos, o que não será provável. Mas nada obsta a que os três convivas não diabéticos comam uma coisa saudável. Perguntei atrás se seria difícil controlar a tendência para o pecado de boca. Começo a pensar que, para quem sabe um pouco de cozinha, até será um desafio interessante. Nota - lendo a receita, repare-se no pormenor do pão torrado. Essencial, contra a ideia prevalecente de que diabéticos não devem comer farináceos. Devem, obrigatoriamente, com medida, e principalmente sempre que ao mesmo tempo comerem açúcares de absorção rápida (sumos, frutas, lacticínios). A restrição principal é de gorduras, não de hidratos de carbono. Voltarei a isto, com mais receitas. Difícil vai ser ajudar quem, como eu, se defronta com o problema de ter de fazer pelo menos uma refeição numa cantina. Se gostar de cozinhar a outra, muito bem. Vou dar dicas. Dia simples, de salada Já se sabe, fim de semana puxa nota do "gourmet", a ter de cumprir com a sua fama de cozinha, que mulheres são exigentes. Hoje muito banal. Sábado foi dia maluco. Este ano, ainda não tinha havido sardinhada. Boa, feia farta e forte, aqui em simples churrasqueira ao lado de casa, sardinhas bem gordas, assadas no ponto certo, apenas o senão de o pimentão na salada vir cru, não assado. Também a bebida recomendada, que ainda o bom gosto não me tinha permitido provar, um vinho verde à pressão. Não levei a mal, fez-me lembrar o Magos do meu tempo coimbrão da ida à Mealhada. Ao jantar, festa de aniversário de amigo, um rodízio brasileiro muito agradável. Já se sabe o que se espera e não se exige mais. Neste caso, cumpriu bem, com boa qualidade das carnes, é o que interessa. Deu motivo a conversa longa sobre os cortes de carne, coisa de que falarei um dia destes. Hoje, claro que imposição de quem manda em mim, vergonha minha: "nem penses, só uma saladinha, tens de durar até aos 90" (para quê?!). Saia uma niçoise, "mas mesmo para isto tens de ir a essa tua bíblia do Escoffier?" Claro que sei a niçoise de cor e salteado, mas é bom fazer-se figura de erudito. O mestre não inclui atum, como eu faço sempre, com Tuna albacora açoriano, mas manda, como eu também faço, obrigatoriamente anchovas, azeitonas e alcaparras. Também a mistura que faço sempre na vinagreta, 3:1 de azeite:vinagre, contra o habitual 2:1. Também não indica a minha habitual ponta de mostarda e os dentes de alho picados/pisados muito finos, bem como a ponta de ervas da Provença. Mas também se tivéssemos de obedecer sempre aos avós era cá uma seca! E nem falando dos gomos de ovo cozido, a aproteinar a salada. Pormenores técnicos! O preparo não é de salada mista à portuguesa. Tomate sem pevides e pepino com uns fios de casca, em cubos grandes. Alface ripada à mão, aos troços grados. Com isto, fiquei a pensar na versão açoriana. Os mesmos componentes, com cebola picada, e molho diferente. Misturar com 1,5 c. sopa de vinagre 1 c. sobremesa de mostarda com 1 c. sobremesa de massa de malagueta e 1 c. chá de massa de pimentão ou colorau em pó, mais uma ponta de açaflor, sal, pimenta preta e da Jamaica, moídas. Bater bem com 4,5 c. sopa de azeite virgem extra. Juntar uma boa colher de salsa picada. Mas, já que a morena também tem boas raízes, porque não um molho tropical? Em vez do azeite, óleo de amendoim, bem batido com um pouco de óleode palma, a consistência semi-líquida. Em vez do vinagre, sumo de limão e de lima, meio por meio. Em vez da malagueta, piri-piri, sem exagero. Um pouco de leite de coco. Coentros em vez da salsa. P. S. - Isto vai dedicado ao meu amigo Vítor, que, em mudanças de casa, anda a comer atum em conserva, perdido entre os meus conselhos e os da sua vendedeira. Acabo sempre à francesa Já vai sendo costume o fim de semana suscitar nota gastronómica. Que mais não seja, porque a minha especialíssima se vê confrontada entre a imposição de disciplina ao meu comer que me impõe dia a dia, quero-te por muitos anos, e a tentação findesemanal de lucrar alguma coisa com alguns talentos meus, bem como a minha habilidade de ajustar por baixo a balança que é a sua grande preocupação. Este fim de semana foi curioso, a fazer-me pensar no que é a minha identidade gastronómica. E nada de muito elaboradamente desafiante nesse pensar. Coisas banais. Num dia, restos de couve chinesa, cogumelos e rebentos de soja, gengibre no frigorífico, molho de soja e óleo de sésamo no armário. Inevitavelmente, saltinho ao supermercado para comprar uns tristes peitos de frango para uma chinesice à la minuta. Depois, um salto para cozinha tradicional portuguesa, uma sopa de substância a ir para a cama em enfarta-brutos, carnes, abóbora, repolho, batata doce, feijão e, toque imprescindível, canela final fora do lume, à terceirense. Para o domingo ao almoço, já mandam os costumes. Ver bem de véspera o que há no congelador, imaginar alguma coisa, ir comprar o que falta com bom olho para apreciação da qualidade. Hoje eram vieiras congeladas, tendo também visto que tinha frízedes uns bons pleurotos e que tinha guardado no frigorifico, há dias, um copo bem cheio de "fumet" de peixe, de espinhas que a vendedeira me embrulhou a olhar-me de soslaio, ganda pelintra! Também umas caiotas (chuchus) em risco de perecimento, que as doses de supermercado não pensam em homens solitários. Resultado, um gratinado de vieiras sobre cama de lâminas de caiotas e molho "à francesa". Era aqui que queria chegar. Falei de cozinha exótica, chinesice aldrabada a irritar o chefe do Mandarim, de cozinha tradicional de sopa de cavador desconhecida no restaurante conhecido das ilhas-do-meio conhecido que desconhece que mais de metade das ilhas cabe em S. Miguel e que nem quer saber, com arrogância, quando um pateta ilhéu tosco - grande ofensa, mas esta é coisa privada - simplório e idealista lhe oferece grátis a cozinha micaelense (mas grátis acabou-se, não sou parvo de todo, há-de haver quem queira). Acabo por cair na minha grande matriz, a cozinha francesa. Eu conheço as modas, sou capaz de algum brilharete a discorrer sobre molecularices e adriasices, mas o gozo que me dá fazer um molho "comme il faut"! Importante, não pensem apressado: despesa banal de supermercado, meia hora de trabalho. E também não vou assustar ninguém com nomes rebuscados, espanhola, mirepoix, duxelles, demi-glace, roux, aveludado. Sigam a receita que estes nomes saltarão, se forem ler velhos livros de cozinha. Vai noutro lado a receita básica dessas vieiras. Repare-se que eram um subproduto, congelado, de supermercado, que o puré até foi indescritível (mas o melhor dentro do mau), mas há mais coisas boas num fim de semana tropical do que a cozinha. Vou dar a receita da "cama" e do molho de gratinar. Fiz a cama com caiotas, mas também deve ficar boa com curgetes às rodelas finas ou com alho francês. O prato foi um gratinado tradicional, no forno, com uma coroa de puré de batata e polvilhado de tosta ralada e lascas de manteiga. Mas também pode ser uma caixa de massa brick, uma tarte, um "timbal" de arroz à crioula, um pão de leite recheado. Outra vez a carne às Mercês
Fi-la hoje, com alguns problemas domésticos. É que a coisa, para se seguir bem a adaptação em forno baixo, exige acordar quatro horas antes do almoço. Em domingo de sorna e boa soneca? 0 que me valeu foi a generosidade da morena, "deixa lá que eu faço, fica a dormir" (diga-se que não inteiramente desinteressada, já de anteontem estimulada pela feitura da vinha d'alhos). Usei 400 g de carne de porco, da perna. Só hoje é que LP me disse o que entende pior "rabadilha" de porco, termo não canónico. Afinal, foi o que usei, como uso sempre para carne de porco em cubos e mesmo para assados, a parte de cima e traseira da perna, muito redonda e maciça. Porque lombo, só para assar, exige a perfeição da receita tradicional da família (lembrem-me eu escrevê-la aqui, porque tem muito de original e de técnica esquisita), a carne a sair sem sinal de secura. Os temperos foram calculados com exactidão, por regra de três. A única diferença foi a temperatura, de 100º em vez dos 120º indicados por LP. Não é por erro seu, é porque sei que o meu forno é um pouco forte e o meu termómetro se avariou, só tenho agora o de agulha, que não dá para isto. O importante é o resultado. Com esta diferença, tal como ele diz, a minha carne fervilhou baixinho, umas bolhas de dez em dez segundos. Também não o segui por inteiro no fim. Passei para frigideira e acabei tudo ao lume. Oito minutos a mexer muito bem, a lume máximo, retirar a carne, desglaciar com um golo de água. A principal diferença foi eu ter feito duas carnes em paralelo, a das Mercês e outra só diferindo na vinha d'alhos, feita à micaelense, como vem no meu livro e, neste caso, para a tal quantidade de carne: 2,5 dl de vinho branco, 4 dentes de alho pisado levando a pele rosada, só 1 folha de louro, 1 raminho pequeno de salsa, 1 c. sobremesa de massa de malagueta, 1 c. sopa de colorau, o equivalente a 2 limões galegos (2 c. sopa de sumos de limão, laranja e lima, em partes iguais), sal, 8 grãos de pimenta preta e 4 cravinhos, uma ponta de "todoslos tâmparos", água só para molhar bem a carne. A técnica, o tempo e a temperatura dos procedimentos foram exactamente os mesmos. Sem desprimor para os sintrenses, acho que a minha versão ganhou. Os petiscos em frigideira de barro, paralelas, cada um dos comensais com seu pequeno pratinho, um garfo de picar aperitivos, uma cerveja, ao lado umas batatas comerciais, em lâminas, comerciais mas muito boas, assadas no forno, não fritas. No fim, a minha mulher não resistiu a limpar completamente o molho dos pratos, com um pouco de pão, "que bom!". Eu não, pobre escravo da dietética... 30.6.2010 Morra o pica-pau, morra, pim, viva a carne às Mercês Pegando no que escrevi sobre pica-pau e a carne às Mercês, e em modos de cantiga ao desafio, o meu prezado companheiro destas andanças de escrita de gosto de comer Luís Pontes (“Outras Comidas”) mandou-me saborida informação sobre esse petisco, alertando-me para um seu “post” para o qual passo aos meus leitores o merecido alerta. Alertando-me, intima-me na prática a preencher urgentemente uma lacuna minha: ir à próxima feira, onde nunca fui e lá provar a carne às Mercês. Entretanto, já tinha procurado alguma informação sobre a feira que dá nome ao petisco. Informação turístico-municipal repetida em vários sítios, como hoje se usa e eu aqui faço graças ao “copy-paste”: “Realizada no sítio das Mercês, um baldio entre Algueirão e Rinchoa, no concelho de Sintra. Segundo rezam alguns documentos bastante antigos, a feira das Mercês existe desde os tempos da ocupação árabe, sendo então uma feira de escravas, onde existia uma espécie de gruta com uma ermida que recebia diversas romarias em devoção à Senhora das Mercês. Marquês de Pombal, que tinha grande devoção pela Senhora das Mercês, em 1765 mandou edificar um solar naquele local, a Casa Pombal, junto ao qual foi eregida [sic] uma capela em honra da Senhora das Mercês. A feira das Mercês tornou-se famosa e, para além da venda de cereais, hortaliças, frutas da época, carnes fumadas e em salmoura, leitão assado de Negrais, assim como utensílios agrícolas e trajes, confeccionava-se a famosa carne às Mercês que ficou até aos nossos dias como prato típico desta zona.” Vejo que, afinal, quem sabe de experiência de menino e tradição de família é Luís Pontes, que até desvia o culto da Senhora para o Divino Senhor Espírito Santo, como se chama reverencialmente na minha terra. Também vou pelo que me parece ser uma reconstituição/adaptação doméstica rigorosa da receita, como sabe fazer quem tem bom gosto, boa técnica e principalmente boa memória dos sabores de infância. Sei o que isto tem de difícil, tendo eu também reconstituído receitas que já não se encontram escritas, mas também com grande gozo quando chegamos ao fim e nos dizem “ah, é mesmo como a minha avó fazia!”. Também recolhi na “net” uma boa dúzia de receitas de carne às Mercês, todas diferentes, quase sem qualquer coisa identificadora porque bastante ao estilo desapurado e deslavado dos tais pica-paus especialidade. Marinada em geral curta de duração com vinho, sumo de limão, sal, pimenta, louro e colorau. Sumo de limão é coisa que não entra na velha e tradicional vinha d’alhos portuguesa. Um pouco de vinagre sim, ou, como em S. Miguel, limão galego, insubstituível por limão (a não ser, como já tenho escrito, uma mistura em proporções difíceis de definir de sumos de limão, lima e laranja). Fora isto, nas tais muitas receitas, salsa, cravinho, piri-piri (já faltava), mistura de colorau e de massa de pimentão, coisa bizarra. Constante, azeite para fritar - sobre isto, escrevi quanto baste na tal minha nota anterior. Diferença também no que vai com a carne, que Luís Pontes manda fazer solitária mas que várias receitas mandam fazer com batatas fritas ou, estranhamente, para petisco, com companhia diversificada de batatas cozidas e grelos passados por azeite e alho. No entanto, a maior diferença para a descrição de Luís Pontes está na técnica, para mim muito invulgar (embora conheça um ou outro caso) na cozinha tradicional portuguesa. Não é um frito a que se junta depois a marinada, a apurar. Pelo contrário, começa por ser quase um confitado, a fervilhar muito ligeiramente na marinada coberta com banha, evoluindo para o evaporar do líquido e a correspondente concentração da gordura para a fritura final, a temperatura alta. Claro que é uma adaptação sua, com uma fase de forno, do cozinhado tradicional da sua feira, suave, sobre brasas pouco vivas. Adaptações deste tipo são um desafio estimulante. Também eu não inventei fazer em casa o cozido das Furnas, como agora também se vê cá em restaurantes? Mas não digo mais, que quem merece leitura é Luís Pontes. Fica aqui só a minha promessa de um dia destes seguir essa receita e depois aqui dizer qualquer coisa, palpita-me que muito elogiosa. Notas soltas Depois de dias úteis cada vez mais ocupados, por patetice minha de ter aceitado nova vida de ocupação profissional exigente depois de anos de reforma dourada, o fim de semana, como já devem ter visto, reconcilia-me com os prazeres da vida. Não se estranhe, daí, que me suscite notas de gosto de bem comer. Hoje, vão notas soltas, a lembrar coisas escritas recentemente. Talvez notas a que gastrónomos respeitados franzam o nariz, atentos os temas de escrita, perguntando-se se "vale a pena gastar cera com tão ruins defuntos". Acho que sim, é porventura a minha vocação de professor. 1. Coisa muito difícil de discutir é essa máxima de orgulho tuga, de que “se come muito bem em Portugal”. O que quer isto dizer? Temos restaurantes de alta cozinha? Sim, mas poucos, com uma taxa média de estrelas por milhão de habitantes da mais baixa da Europa. Temos boa cozinha tradicional? Sem dúvida, mas em algumas centenas de casas matriarcais onde ainda perdura a técnica, o gosto, a valorização da qualidade dos produtos da praça e da lota, coisa prolongada por muitos restaurantes de grande qualidade espalhados por essa província fora. No que muito monta, porque é o almoço dia-a-dia de milhões de portugueses das grandes metrópoles, come-se bem na generalidade dos restaurantes das cidades? Sim, para quem tiver vagar de usar a hora de almoço para uma ida a Carnide, a Entrecampos, à Avenida de Paris, à Sacadura Cabral, para já não falar de coisa supimba, ir comer a 12 euros à excelente “cantina de almoço” de Cascais, o Vin Rouge (claro que isso de cantina é brincadeira). Mais importante é outra realidade, a do Zé que alimenta, sem culpas, uma cozinha de baixo nível, do típico restaurante de cozinheiro jeitoso que nunca leu uma página de gastronomia ou de boa cozinha portuguesa, que montou negócio com o que aprendeu, com quem o ensinou mal, como criado de mesa que nunca conversou com a sua velha colega Maria cozinheira que ele deixou de empregar, porque ele é que sabe de cozinha. E é o que o turista come em Lisboa, na sua maioria sem indicações de bons restaurantes nem proventos para lá ir, aqueles que vê nas ruas de turismo já cheios de outros pobres companheiros de má sina. Em Madrid sempre houve as horrorosas cafeterias da Gran Via, de “calamares à la romana” e “filete de ternera en su suco”, mas entre-se por “calle de San Jeronimo” ou pelo bairro dos toureiros, até San Isidro, e é porta sim porta sim de esmerada cozinha castelhana de "las abuelas", fora as tapas. Em Paris, “chich-kebabs” e tudo o mais da cultura hamburguesa ou pizeira, mas passeie-se um pouco pelas traseiras de Notre Dame ou pela “rive gauche” mais recatada, esmiuce-se ementas e preços e faça-se sem dificuldade uma refeição de “foie gras” frito na sua gordura ou de “canard confit”, a 12 euros, “demi” incluído. Idem em Roma, em Berlim, nos pubs do Soho. Em Lisboa, a este nível do turista, do empregado que tem uma hora de almoço para comer barato, do tipo que quer variar da cantina da empresa, come-se muito mal. Mais valia que toda a gente levasse para o trabalho um tupperware com qualquer coisinha boa feita à moda da família, desertando de dar lucro a muitos restaurantes da hora de almoço sem merecimento. Disse que esta nota era de apontamentos soltos, mas a convergirem neste sentido. Por razões de sanidade de bom gosto, de defesa do bom nome do património culinário português, de promoção do turismo, metade dos restaurantes devia ser encerrado. 2. A salada Ao escrever há dias sobre o pica-pau, lá tinham de vir as batatas fritas e a salada. Sobre as primeiras, só lembrar que não deve haver outra parte no mundo em que se rivalize em fazê-las piores, mais moles, mais embebidas em óleo requentado, mais mal cortadas na sua importante espessura, do que nos restaurantes de terceira de Lisboa em que “se come muito bem”. E em restaurantes em que já comi batatas fritas detestáveis sobre os quais críticos respeitáveis aos costumes dizem nada, porque hoje é moda - já lá vou - ser-se condescendente com restaurantes rascas que nem crítica deviam merecer, ao mesmo tempo que se exige mundos e fundos a restaurantes muito estimáveis, simpaticamente inovadores e criativos, que os críticos não sabem valorizar. Senhores restauradores de terceira, peçam um subsídio à CE para irem a Bruxelas, a qualquer quiosque de rua, verem o que são batatas fritas (dispensando a maionese)! Salvo casos muito excecionais, como a minha galinha de molho de perdiz familiar, acompanhada por mim com uma simples alface ripada e um champanhe bruto, nunca como salada com um prato. Ou então, no outro extremo de "sofisticação", também a mesma simples alface ripada com uma coisa de que gosto imenso, empadão de carne. Isso da salada começa por uma coisa elementar: um bom prato vai obrigatoriamente com vinho, uma boa salada vai obrigatoriamente com boa água. Salada, ou antes ou depois do prato - ambas as opções são muito respeitáveis. Escrevi há dias sobre a “carne de porco à alentejana”. Vem muitas vezes com salada, na mesma travessa, e para comer no mesmo prato. Como fazer? Não temperar a salada, embrulhá-la no molho da fritura? O que adianta ao prato? Pior, temperá-la com azeite e vinagre, tudo misturado com o molho do prato? Que também pode ser um molho de bife à café, lisboeta (que não leva pitada de café, coisa que o chefe Silva inventou!). Ou então, nos grelhados PVP a peso de ouro, em que vai mal-logicamente a salada porque a acompanhar a travessa de tudo com tudo, peixe, batata e salada, hoje vem é azeite e vinagre, esquecida a manteiga com limão e salsa, a nossa versão tradicional de peixe de um “beurre meuniére”? E que dizer do excesso a que a misturanga pode ir, que quase me faz enjoar, o enfarta-brutos de bufês? Tem de se tirar de tudo, “you pay, you eat”. Não vou muito a bufês ricos, porque restaurante, para mim, é coisa em que pago para ser bem servido, à mesa. Mas a cantina do meu almoço tem um bufê aceitável, em que consigo compor refeições agradáveis, uma salada bem imaginada porque a oferta é variada, um prato com um ou dois acompanhamentos escolhidos. Desde que não olhe para os muitos que se servem do primeiro ao último recipiente, pratos a abarrotar de crus, peixe cozido, carnes grelhadas, croquetes e rissóis, queijo fresco, milho, frango de caril, filetes, batata, arroz, e invariavelmente tudo coberto com um monte de cenoura ripada. Chamo a isto comer da gamela. 3. Há tempos, escrevi sobre caril à goesa, gosto que partilhamos, com receitas invulgares muito semelhantes, eu e o meu amigo VN, criado em menino nas terras de Goa. Goa tão marcante ainda na diferença cultural da imensidade diversa da Índia, incluindo a diversidade culinária. O VN teve uma trabalheira, andou pelos mercados indianos de Lisboa a comprar as suas/minhas especiarias, porque pó de caril não é para cozinheiro que se preze. Fica aqui uma informação, sem que me paguem a publicidade. Encontro tudo, e muito mais de temperos e ervas exóticas, na minha vizinhança: na loja de dietética do Celeiro, no Alegro de Alfragide. 4. Também na escrita anterior, falei de temperaturas. É hoje tema obrigatório em cozinha, fácil de estudar e dominar. E não há boa loja ou supermercado em que não haja, e baratos, termómetros de cozinha, essenciais para controlar pontos de açúcar ou o lume certo para pratos suaves, como confitados, estufados e alguns guisados. Mais importante, a temperatura do forno. Também há, para maior requinte de controlo de assados, os termómetros de agulha, para espetar em peças de carne ou aves. 5. Finalmente, uma nota não sobre cozinha mas sobre crítica, claro que sobre José Quitério, de quem tenho falado ultimamente. Não é meu "ódio de estimação". Pelo contrário, por lhe reconhecer o seu grande prestígio é que me sinto motivado para alertar para o que creio serem os seus erros. Disse que não compreendia o seu critério recente, de criticar principalmente restaurantes banais, que não merecem crítica. O que é isto de não merecer crítica? Não consegui explicar-me. Alguns amigos me retorquiram que eu estava a ser elitista, a esquecer que “criticar” só restaurantes estrelados era escrever para uma minoria que se pode dar ao luxo de os frequentar. Quem disse que se devia fazer incidir as críticas para largo número de leitores em restaurantes só acessíveis a uma pequena minoria? Não eu. Começo por esta coisa elementar, sobre os restaurantes de luxo, de serem frequentados em parte, talvez minoritária, por gente que se esmifra, como eu para, lá de vez em quando, poderem ter esse grande prazer. Claro que não precisamos da crítica de Quitério, que até nem os sabe criticar bem (veja-se). Depois, são frequentados maioritariamente pelos arrivistas, novos-ricos, boys, que nenhuma crítica os fará aprender o que é alta cozinha. Portanto, entendamo-nos, não pretendo que JQ critique o Valle Flor, o Guincho, o Eleven. Não adianta. Mas o que deve ser a sua crítica a restaurantes que são o padrão dos muitos mais milhares de leitores que vão a tudo o que de mais indefinível há por aí? A meu ver, duas coisas essenciais, ambas dirigidas a restaurantes vulgares, à refeição de 20-25 euros. Primeiro, malhar e bem em restaurantes na moda, feitos por marketing de tias e de revistas “sociais”, com baixa relação qualidade-preço e deseducadores de uma cultura gastronómica básica. Conheço muitos, mas não me lembro de alguma vez JQ lá ter ido e os desancar como merecem, como eu aqui já fiz em relação à nova "indústria" de Luís Suspiro. Segundo, o oposto, procurar surpresas, restaurantes simples mas honestos, em que se come muito bem, por bom preço, como uma tasca de petiscos aqui à minha ilharga em Alfragide, de que falarei um dia destes. A meu ver, também isto JQ não consegue fazer. Creio que, nestas notas, tenho dado a conhecer coisas muito interessantes que JQ nunca referiu (por exemplo, já falou do Kottada do Carregado, do Vallecula de Valhelhas, do Lis de Évora, dos bem conhecidos Galito e Pereira da zona de Lisboa?). Veja-se a sua última crítica, sobre um restaurante obscuro, em Lisboa. Descontado o primeiro terço da crónica, que já cansa, de evocações histórico-geográficas e “cultas”, para quem não sabe quem foi Paiva Couceiro e o que significam os “defensores de Chaves”, temos a referência a umas saladas que de notável só têm o ser abundantes, a uns filetes de garoupa que JQ, pelo preço (preferia que fosse pelo sabor) acha que eram de peixe congelado, umas pataniscas a que faltava bacalhau, um coelho entre o seco e o sápido (?), um “rumpsteak” de composição fantasista que não critica, uma coisa "atraente" de uma dezena de doces que andam pelas mesas, mas afinal todos em tigelinhas e todos com consistência de mousse, uma carta de vinhos de seis dezenas de espécies. Isto justifica crítica? Das duas uma. Ou é coisa na moda, a ser desmascarada, este “À parte” e então a culpa é minha, ignorante, que desconhecia esse restaurante e não estava precavido contra ele até JQ me alertar. Ou é coisa desconhecida a merecer visita, também para minha ignorãncia, o que não se vuslumbra na crítica de JQ. Ficou finalmente claro, para os leitores a quem não me tenho sabido explicar, porque é que acho que JQ, como crítico, está acabado? É que eu não o acuso de agora só incidir as suas críticas sobre restaurantes “banais”, pelo contrário, é por ele não conseguir fazer-nos saber que, na “banalidade”, há aldrabices a evitar e maravilhas a descobrir. Nota - referi o chefe Silva (por quem até tenho muita estima, como "professor primário" de tantos ignorantes em cozinha dos velhos tempos) a propósito da sua tão difundida invenção do bife à café com café no molho. Então não é à café? Lembrei-me de outra, por tudo o que são os tais restaurantes chapa zero, a costeleta à salsicheiro: se é à salsicheiro, não quer dizer costeleta banalmente frita e coberta com rodelas de salsicha de lata - e picles, claro?! Ou há outra coisa chamada molho salsicheiro? Ou ainda vamos ver amêijoas à Bulhão Pato com fiapos de carne do marreco? Pica-pau Desde há algum tempo que sou desafiado por amigos para provar, no seu restaurante ou cervejaria de estimação, o melhor “pica-pau” de Portugal e redondezas. Em geral, acho-os pouco recomendáveis, principalmente por falta de técnica, coisa absolutamente necessária em prato tão simples. Na maioria dos casos, como uns pedaços de porco semi-cozidos, quando deviam ser fritos. Cubos de carne marinada e depois frita é coisa que se faz tradicionalmente por todo o país: rojões no Norte, carne de porco frita no Alentejo (que não é a que se serve na maioria dos restaurantes de Lisboa), carne de vinha d’alhos na Madeira, torresmos de porco nos Açores, etc. Em todos estes casos, com alguma flexibilidade taberneira nos Açores, são pratos de garfo e faca, com molho feito na base da marinada, apurada na gordura de fritar. Como petisco, parece que o pica-pau deve o nome - julgo que não mais antigo do que duas ou três décadas - a se comerem os pedaços de carne picados com um palito. Isto não condiz com muitas das versões que tenho visto, com molho abundante e com batatas fritas, até com picles e azeitonas. A menos que se use outra técnica, a de comer à mão envolvendo no molho, o que justifica a designação terceirense de “favas de molho de unha” para um seu óptimo guisado de favas. A primeira vez que vi cozinhar e comi deliciado tal petisco de porco frito bem temperado foi no Zaire, no posto de fuzileiros da Pedra do Feitiço, feito com o excelente javali africano por um cozinheiro de Vinhais. O tempero, entre a caça e a manduca, era seco e frequentemente remexido, de alho, louro, colorau, pimenta, jindungo, o que, como se verá adiante, tem que se lhe diga. A carne era mesmo bem frita, o que também faz a diferença. Quarenta anos depois, ainda me lembro. Claro que a moda actual do pica-pau não vem desse cozinheiro de Marinha, o que é pena. Mais provavelmente, parece-me ser recuperação mal feita de um petisco tradicional das tabernas de Lisboa, a carne à Mercês, embora não consiga fundamentar-me nos clássicos, Olleboma, M. L. Modesto, Quitério. Não o encontro nas poucas tascas lisboetas que vão restando. Era um prato de cubos de carne de porco, marinados durante algumas horas em vinha de alhos com colorau, fritos em banha e com molho da gordura de fritar “desglaciada” com um pouco da marinada. Esta carne tradicional, se bem feita, vale a pena, como petisco. Mas petisco tem as suas regras, tem de ser coisa a comer lentamente, a pretextar vinho ou cerveja, coisa que não obriga a pôr a mesa. Hoje vendem-se por aí muitos petiscos que são apenas entradas de refeição de restaurante, coisa muito diferente, coisa de prato posto à mesa com talher a propósito. O pica-pau é um exemplo, muitas vezes de má qualidade. As tascas de Lisboa são hoje uma janela de oportunidade, como se vê pelas iniciativas de Vítor Sobral, Miguel Castro Silva ou Ljubomir Stanisic. Prestem homenagem os gurmês do meu tempo, poupadinhos de dinheiros nos anos 70s, a coisa pioneira, a Carsédia, filial taberneira do Tavares, uns passos acima na Rua da Misericórdia. O pica-pau que por aí vejo sofre da competição entre restaurantes, cada um a dar um toque pessoal: picles, azeitonas, refogado de cebola, marinada com cerveja, mostarda mais ou menos abundante, outras fantasias. Sempre o conselho de se comer picando os cubos de carne, mesmo quando a coisa vem toda mergulhada em molho aguado, acompanhada de batatas fritas em palitos (para comer à mão?) e até com salada, coisa que não sei como comer com um palito. Comparando dezenas de receitas, vejo que a norma comum é quase inexistente. Corte em tiras de febras ou em cubos de peça de porco. Tempero prévio da carne ou fritura imediata. Óleo, azeite ou margarina para fritar, não tendo encontrado banha. Marinada com vinho ou com cerveja. Molho inglês, mostarda, até ketchup. Vinho acrescentado à carne ao princípio da fritura. Molho servido sobre fatias de pão. Quase invariavelmente, no fim, picles e azeitonas. Sendo esta a “norma”, certamente que nunca encomendarei pica-pau em nenhum restaurante. Gabo-me de fazer bem este tipo de pratos, de cubos de carne de porco frita (veja-se a receita de carne de porco frito à maneira rústica, no meu livro “O gosto de bem comer”, pág. 145), o que me leva ao atrevimento de deixar aqui algumas dicas, seja sobre que prato for deste tipo, incluindo esse pica-pau. Não vou dar muita importância ao tempero, porque não é canónico e cada um tem liberdade de improvisar (a minha vinha d'alhos, ligeira variante pessoal da clássica marinada micaelense, também vem bem explicada no meu livro), mas vou insistir em alguns pormenores técnicos, essenciais. Estou convencido de que a cozinha tradicional, simples, exige muito maior técnica do que a “alta” cozinha. Isto é, um amador pode apresentar bons pratos de imitação dessa alta cozinha, com deleite dos amigos, mesmo que Adriá achasse que a técnica era inqualificável. Mas a cozinha tradicional é que não permite disfarces, tem de se basear obrigatoriamente na qualidade dos produtos e na boa técnica das avós. 1. A marinada deve ser com o mínimo de líquido, durante pelo menos 4-6 horas no frigorífico e mexendo de hora a hora (ou, muito melhor, quietinha 24-48 horas). Obrigatoriamente, alho bem esmagado, sem remover a pele rosada, louro, massa de pimentão ou colorau, sal grosso, pimenta preta, um pouco de vinho branco e um golo de vinagre, água quanto baste. Para um tom açoriano, malagueta e pimenta da Jamaica ou cravinho, uma pitada subtil de açaflor. Se se atrever e souber dosear, um ligeiro toque de erva doce e de canela. 2. Fritura obrigatoriamente em banha, admitindo-se, como “culinariamente correcto”, mistura em partes iguais com margarina dietética de cozinha. O azeite está na moda mas, para meu gosto, é totalmente inadequado a frituras “fortes”, só para tempero a cru, maionese, mirepoix, ligeiro untado da chapa de grelhar, estufados. Pessoalmente, fico enjoado com um bife, batatas fritas, ovo estrelado ou croquetes fritos em azeite. Quando falo em inadequação, não é uma questão técnica e de saúde, porque o azeite vai bem aos 180º sem alteração e até sem atingir o ponto de fumegar. É mais uma questão de gosto, enjoa-me a fritura em azeite. E, usando o mínimo de acidez, para não enjoar, então perde-se a estabilidade e resistência ao aquecimento do azeite. 3. Essencial, cada pedaço de carne deve ser muito bem seco com um pano ou com papel absorvente de cozinha antes de fritar e não se deve juntar de uma vez só toda a carne, para não arrefecer a gordura, que deve estar bem quente, a lume muito forte, a baixar pouco a pouco até médio-alto à medida que a carne vai fritando. 4. Durante a fritura, até a carne estar bem tostada, mexer sempre. 5. Retirar a carne e mantê-la quente, antes de preparar o molho. Isto é essencial, para a carne manter a natureza e a consistência de fritura. Se não, fica semi-cozida, como todos os pica-paus “especiais” que vou comendo a contra-gosto para corresponder amigavelmente à boa intenção de quem me convida. 6. Para petisco em que só se come a carne, digamos que picada com um palito, o molho deve ser muito apurado, só para “embrulhar” a carne. Depois de removida a carne, junta-se em lume alto, aos poucos, a marinada à gordura de fritar, mexendo sempre até apurar muito bem. No fim, volta a juntar-se a carne. É também altura, se se quiser, para acrescentar ervas frescas picadas - salsa, coentros, tomilho, manjericão ou segurelha (esta para estilo madeirense). 7. Como petisco, não há lugar para batatas fritas, quando muito, à alentejana, para batatas alouradas no molho e servidas com o petisco. Acompanhamento de taberna é só pão e vinho. Nota 1 - falei acima da carne de porco frita à alentejana (que não é a carne com amêijoas, de origem duvidosa, partilhada com o Algarve). Anda por toda a parte, desvirtuada, mas já não há nada a fazer. Muito simplesmente, deve ser carne de porco temperada com sal, alho pisado, pimenta e bastante massa de pimentão; frita em “pingo” de toucinho ou, mais prático, em banha; misturada com batatas aos cubos semi-fritas e acabadas de fazer, embrulhadas, no final da confecção, no molho da carne; a acabar, a gordura diluída num pouco de água. Coentros não têm cabimento, contra a sabença de cozinheiro de baixo nível para quem tudo o que é à alentejana tem de levar coentros. Nota 2 - a maioria das receitas de pica-pau que recolhi leva picles. Há modas que vão e vêm. Há trinta anos, não havia bife ou bitoque, costeleta ou entrecosto grelhado, até bacalhau frito ou assado que não levasse picles. Começo a vê-los novamente, sem falta, na “carne de porco à alentejana”, a coisa mais aldrabada que por aí se come (cubinhos minúsculos não temperados previamente, coentros que não entram nesta história, batata frita em palitos, à parte e, como é inevitável, a salada mista com a horrorosa cenoura ripada, na mesma travessa). Até gosto de picles, mas com justa medida e bem tratados a retirar a acidez. Nabos e nabos Navegando também por outros mares de cozinha, nunca deixei de prestar a maior veneração navegante de gastronomia e cozinha à tradição regional, património histórico. Isto acresce quando, agora, me palpita que toda uma vaga de modernismo erudito e elitista, fora os casos à Santamaria de compromisso com a tradição, parece estar em relativo impasse e vejo gastrónomos que estimo a dedicarem-se muito mais a descobrir bons restaurantes de cozinha tradicional, mesmo - ou por isso - nos confins da província. Todavia, é preciso algum saber e experiência para nos apercebermos de como se deve considerar e valorizar, na unidade e na diferença!, a cozinha tradicional. Começa logo por uma identidade/diferença importante. Tradicional ou regional? Nem toda a cozinha que é património português é forçosamente a simples soma das cozinhas regionais. Há numerosos pratos de uma cozinha pequeno/grande burguesa que, pela mobilidade que não é só de hoje, se nacionalizaram. O bacalhau e o peixe cozidos, as sardinhas assadas, os pastéis de bacalhau e outros salgados, as iscas de fígado, a dobrada, as jardineiras, as ervilhas com ovos escalfados ou as favas, a salada russa com atum, os fricassés, tanto mais, praticamente não têm variantes regionais. Já não sou tão afirmativo em relação aos bifes, característicos de uma cozinha que não é regional no sentido popular, mas que dominou, porque Portugal sempre foi o Chiado: a cozinha dos cafés e tascas de Lisboa. Dito isto, vou discorrer, despretensiosamente, é mais sobre a cozinha regional e, obviamente, muito mais sobre a que melhor conheço, a das “ilhas desconhecidas” (Raul Brandão “dixit”) ou das “ilhas maravilhosas” (JVC “dixit”). Vamos a uma questão básica: pode um não açoriano, com cozinha de apartamento lisboeta, fazer um bom prato de cozinha regional açoriana? A resposta não é simples. A nível mais geral, pode atrever-se a fazê-lo se perceber o que é a essência da regionalidade culinária. Isto vale para qualquer cozinha regional, obrigando a que não se cozinhe bacalhau à Margarida da praça numa cataplana, que não se faça um folar ou uma bola com morcela da Beira ou cacholeira de Mourão, ou um ensopado de borrego com vinho verde tinto e cominhos. Assim, no caso da cozinha das minhas ilhas, há que atender a coisas essenciais: uma cozinha muito variada de peixe e carne, com características ingredientais muito diferentes de técnica e condimentos num caso e noutro; sopas muito ricas a constituírem, popularmente, toda a refeição; uso abundante do pão e de ervas (salsa, hortelã, poejo, coentros, embora estes menos), a evocar o Alentejo; inclusão de enchidos em muitos pratos; quase esquecimento dos grelhados, nomeadamente de peixe; uso frequente de pratos sem acompanhamento; azeite só para tempero, com muito menor uso de cozinha do que as gorduras tradicionais, manteiga e banha, também o óleo de mendobi (amendoim) para fritos; doçaria exagerada em açúcar e ovos; coexistência de pratos com a mesma matriz mas com versões populares e ricas; e muito mais. O segundo nível de discussão é o do subregional. Voltemos ao lisboeta que quer fazer um prato açoriano, por exemplo o polvo guisado com vinho de cheiro. Qual polvo? O meu, de S. Miguel, o máximo? Ou o da Terceira, que fazia a minha avó até, trespassada para a ilha corisca, se ter rendido ao polvo da minha outra avó? Ou o do Faial, com tomate, um pouco adocicado, quase sem malagueta, que se come num bom restaurante açoriano de Lisboa? Muito mais exemplos daria de variedades consideráveis de receitas generalizadas em todas as ilhas, com uma forte matriz comum, mas com aspectos distintivos notórios. Não é só nos Açores, embora, noutros casos, só possa falar como amador. Por exemplo, tenho duas receitas familiares, com algumas diferenças, de bola transmontana (até com a diferença de num caso se chamar bola e noutro, da família da minha mulher, se chamar folar, em ambos os casos ao “pão” com carnes). Também tenho receitas diferentes, todas de amigos que as garantem como genuínas da sua tradição familiar, de ensopado de borrego, até com a diferença tecnicamente muito relevante de nuns casos ser um cozido e noutros um guisado, com um passo de refogado. Mais direi um dia sobre a cozinha angolana, que ando a estudar e experimentar. Finalmente, terceiro escolho, o que, ultrapassadas as dificuldades anteriores com algum estudo, bom gosto e respeito pela tradição, é mais difícil de resolver, embora hoje facilitado pela maior variedade do mercado como seja, no caso dos Açores, a abertura de duas lojas de produtos açorianos em Lisboa. Refiro-me à especificidade de ingredientes e produtos. Não aludo tanto aos manufacturados, nomeadamente os enchidos, muito diferentes dos continentais e que marcam inconfundivelmente o sabor da(s) culinária(s) das ilhas. Linguiça, morcela, debulho, também outras confecções como massa de malagueta e açaflor, ou compram lá ou agora nestas novas lojas. Se não, só pálidas imitações, como já tenho sugerido. Pior é o caso dos produtos naturais mais difíceis de encontrar cá. Não vou discorrer muito, mas ficam alguns exemplos. Acima de tudo, o peixe. Em alguns casos, como o da abrótea ou o da garoupa, é diferença de temperatura, velocidade e nutrição da água. Noutros, como o atum e o carapau (o “charrinho” açoriano) é mesmo diferença de espécie. Depois, os exotismos, velhíssimos na cozinha açoriana, como a batata doce e o inhame. Hoje vendem-se cá por toda a parte, vindos da América latina, mas são completamente diferentes dos tradicionais açorianos (comam lá batata doce, que é amarelo forte, farinhenta, perfumada). E mesmo coisas mais vulgares, muito diferentes, como o repolho e o nabo. Era ao nabo que eu queria chegar, agora que me aprochego dos finalmentes. Nabo de S. Maria é coisa única, um tubérculo pequeno, em forma de pêra, com um sabor único. Evoca-me um legume quase desconhecido entre nós, mas que comia em França e na Suíça, o rábano. É em S. Maria que se faz um famoso caldo desses nabos. Voltando a lembrar a grande diversidade das cozinhas açorianas - mas diversidade na unidade - devo admitir, em consequência, que, julgando dominar a cozinha de S. Miguel e da Terceira, as ilhas dos meus pais, já devo ter executado, com sucesso, as muitas dezenas das suas receitas mais representativas. Em contrapartida, sou muito inexperiente nas cozinhas das outras ilhas. Encurtando uma conversa que já vai longa, resolvi fazer ontem, pela primeira vez, o tal caldo de nabos. É uma sopa deliciosamente simples. Não foi difícil, porque eram muito semelhantes as três receitas que tinha, de Augusto Gomes (o grande recolector de receitas açorianas), de Zita Lima e de uma velha cozinheira mariense que deu a receita a uma prima minha. Resumidamente (com pequenos toques técnicos meus), coze-se toucinho com carne e carne de porco, durante cerca de 20-30 minutos, só com sal (desviando-me da receita, temperei também com um pouco de pimenta preta e com uma folha de louro, mas não é das regras). Entretanto, cortei nabo (de cá, porque quem não tem cão caça com gato) em palitos muito grossos e escaldei durante um minuto em água já a ferver. Escorri, lavei com água fria e voltei a meter em água a ferver, sem sal, deixando cozer durante 10 minutos. Escorri novamente, rejeitando a água de cozer, que fica amarga. Cortei as carnes aos cubos pequenos e juntei, às rodelas grossas, linguiça açoriana (cá, chouriço picante) e morcela, mais batata doce aos cubos e os gomos de nabo. Fervi durante mais 13 minutos, até a batata doce estar cozida. No fundo de pratos de sopa grandes, uma fatia de pão rústico, duro e bastante caldo. À parte, as carnes e os legumes. Fácil. Bom proveito. Nota - Já aqui comentei, muito favoravelmente, o restaurante Espaço Açores, na Ajuda, em Lisboa. No entanto, escrita esta nota, e sem desprimor para o restaurante, é bom deixar claro que não é um restaurante de cozinha dos Açores, apenas de parte dos Açores. Tem muito boa cozinha das ilhas centrais, principalmente Pico e Faial, mas não chega. A cozinha micaelense e terceirense (neste caso com excepção da alcatra que se generalizou como prato turístico, em variadas versões) estão esquecidas no restaurante, apesar de as duas ilhas alojarem dois terços dos açorianos. Um para dois Quantas vezes nos acontece comprar comida a mais, porque temos jantar de amigos e não gostamos de lidar com aquela pergunta horrorosa, “vai dar para todos?”? Era coisa típica da minha casa de menino, hoje reproduzida obsessivamente pela minha mulher. Há dias, resolvemos uma discussão gastronómica, como sempre resolvemos as discussões, “fifty-fifty”. Para mim, jantar de amigos, como ia ser sábado, é de carne. Ela acha que hoje deve ser mais ligeiro, de peixe, coisa que para mim é almoço. Encontrámo-nos a meio caminho, o bacalhau, mas neste caso, para um toque de diferença, as línguas. O português é grande apreciador de bacalhau, há as 1001 maneiras, mas não encontro nas minhas recolhas receitas variadas para os dois magníficos derivados, as caras (ásperas) e as línguas (suaves). Estas, as línguas, apareceram nos Açores era eu menino, secas e salgadas. Hoje vendem-se cá mais suaves, em salmoura. Uma vez, o meu pai comprou-as e a minha avó, grande cozinheira criativa, não sabia como cozinhar aquilo, mas lembrou-se logo da receita familiar, excelente, da língua de vaca de fricassé ("O gosto de bem comer", p. 282). Língua é língua, vaca ou bacalhau, mas foram precisas muitas tentativas para se chegar à receita de família. Não é esta que vou publicar porque, sendo relativamente recente na família, cada VC a faz à sua maneira. Vejam a minha. Vai com risoto, mas pode ser acompanhada, mais simplesmente, com um arroz branco ou um puré de batata com azeitonas, para mim o melhor acompanhamento de fricassés ou poulettes. Mas lá volto aos exageros de quantidade da minha morena. No dia seguinte, comer o mesmo? Foi outra receita completamente diferente, uma caldeirada de línguas de bacalhau. Crítica gastronómica Não temos muitos críticos gastronómicos sérios, porque não conto com os que vendem "críticas" que misturam cozinha e modas de tias socialites. Simplesmente, mesmo em relação a esses poucos que são excepções notáveis, não basta ser sério e dedicado. Tenho apreço pelo seu esforço mas confranjo-me, frequentemente, com algum desconhecimento técnico. Não exijo que um crítico literário consiga escrever um romance, mas o que não pode é desconhecer a técnica da boa escrita, mesmo que não a pratique. Um crítico culinário não tem de ser um bom cozinheiro, mas não pode escrever dislates técnicos, como tantas vezes vejo. Um bom crítico, tal como os bons chefes fazem, por este mundo fora, deve "degustar" muito, do melhor e repetidamente, como um bom crítico de música vai anualmente a Bayreuth, a Salzburg ou à Met. Tem de cultivar essa memória gustativa e assim adquirir bons instrumentos de medida numa viagem de vez em quando pelos melhores restaurantes. Basta ir a Madrid, à Catalunha ou (não esquecer os pioneiros) ao País Basco. Entre os críticos portugueses, José Quitério ocupa lugar de destaque merecido. Não o conheço, mas temos amigos comuns que abonam a sua honestidade. É um homem de bom gosto e culto, tendo-nos habituado às suas típicas considerações culturais de entrada das críticas que, todavia, já estão a necessitar de refrescamento de estilo, sob pena de cansaço do leitor assíduo. Os seus livros são muito recomendáveis. É um gastrónomo com pergaminhos de visível desejo de bem cultivar a arte de bem comer. No entanto, já muitas vezes lhe detectei erros técnicos que podem fazer duvidar da sua capacidade de bem apreender as grandes exigências de análise da complexidade de relações da cozinha de hoje, desde a mais apurada e genuína cozinha tradicional à cozinha simples de qualidade, à cozinha internacional, à cozinha de autor ou à polémica cozinha "laboratorial". Também me tem deixado perplexo o seu percurso crítico nos últimos dois ou três anos. Não consigo perceber a lógica das suas escolhas de restaurantes. Em muitos casos, são restaurantes desconhecidos que eventualmente justificariam crítica para chamar a atenção para boas cozinhas que merecem público. Não é o caso, porque muitas vezes a crítica acaba por ser banal, a não merecer uma página da revista. Em contrapartida, deixa por criticar, não exercendo acção pedagógica, aldrabices na moda. Tudo isto vem a propósito da sua última crítica, ao Vin Rouge. É um restaurante que estava há bastante tempo na minha lista de ir experimentar. Tive agora pretexto, curioso e desafiado a resolver a contradição entre esta crítica e a opinião de gastrónomos em quem confio. Esta experiência, sendo primeira, única e não garantindo uma opinião definitiva, foi todavia de molde a considerar inaceitável a crítica de José Quitério. É uma cozinha de autor honesta e simples, no sentido de que não vive de rodriguinhos e que mostra muita técnica, de um cozinheiro jovem que promete vir a aproveitar bem os muitos anos que tem pela frente. É verdade que é restaurante de oferta limitada, mas prefiro três pratos de peixe e três de carne que me obriguem a largo tempo de "mon coeur balance" do que listas longas em que elimino logo à primeira vista a maior parte dos pratos, quando não são escandalosas repetições com enganosas roupagens de diferença. Muito importante, a relação qualidade-preço, com pratos que não ultrapassam os 17-18 euros. E onde é que se come ao almoço um menu completo, imaginativo, de muito boa qualidade, da sopa ao café, copo de vinho incluído, por 12 euros? Quitério omitiu opinião sobre sobre essa relação qualidade-preço da refeição que comeu. Qual será o preço justo do elevado "referencial gastronómico" em que baseou a sua crítica, e em que medida esse preço é sustentável nos tempos que correm? Veja-se o percurso de alguns dos bons chefes nacionais que, pressionados por um mercado em baixa, se vêm compelidos a fechar as suas casas de referência e a abrirem unidades mais modestas. Estou a ser severo demais com o crítico? Deixo duas notas em minha defesa. José Quitério torceu o nariz a uma "sopa de cebola com queijo da Serra gratinado" (que não comi e sobre a qual, por isto, não me pronuncio). Porquê o seu desagrado? Porque lhe "custou ver tal queijo submetido a tratos suplementares". Quitério só come lagosta ao natural e desdenha uma lagosta à Thermidor ou à americana, com tal sublime bicho "submetido a tratos suplementares"? Pior, nódoa indelével em crítica já de si um pouco suja, um erro crasso, ao criticar a "presa da paleta salteada", escrevendo que "muito bem o naco de cordeiro", quando porco era! Quero pensar que foi gralha. Espero que, na próxima Única, Quitério confirme que foi "lapsus calami". Se não, confundir gosto a porco com gosto a cordeiro dá cabo da reputação de qualquer crítico. Declaração de interesses - não conheço de parte alguma o chefe João Antunes e a sua mulher Ana Rita Caldas, que manda na sala, cujos nomes sá agora me ficaram na memória por causa deste episódio de má crítica. Espero vir a conhecê-los melhor, porque certamente voltarei ao Vin Rouge, "malgré" Quitério. Nota - Não gosto de criticar ninguém sem lhe dar conhecimento. José Quitério não divulga no Expresso o seu endereço de correio electrónico, o que é seu direito. A crítica remete para a página do Escape mas não consegui encontrar lá forma de dar a conhecer esta nota a José Quitério. Agradeço a algum leitor que o possa fazer que o alerte. Popular e popular Ao discutir a alcatra terceirence, aludi a variantes de significado sócio-económico. Creio que se passa isto com toda a cozinha tradicional. As raízes vêm de uma matriz antiga, profunda, histórica, de usos, recursos e sabores. Alcatra de carne de cozer ou de carne de primeira? Alcatra de vinho branco caro do continente ou alcatra de vinho de cheiro barato, local, popular? A minha mulher pratica principalmente a sua boa cozinha de infância, angolana, mas hoje estou a desafiá-la a recuperar a sua excelente tradição gastronómica familiar pré-angolana, de boa cozinha transmontana, antes que se perca. Defrontamo-nos com o que eu bem conheço da minha tradição açoriana, mas que ela não conhecia bem: a grande variedade entre a cozinha tradicional pobre e a da casa rica, mesmo que esta derivação para "casa rica" possa ser, muito diferentemente, a da cozinha citadina de hotel, natas e francesices, a minha, ou, à Vale Fre(t)choso, a cozinha rica da casa rural em compromisso com a cozinha para o rancho ganhão, à maneira do "1900". No passado fim de semana estive para escrever, faltou-me o tempo, coisa simples sobre as "couves aferventadas" da minha ilha. É um exemplo das duas formas de derivação da cozinha tradicional. A uma chamaria de horizontal. É derivação igualmente rica, com ingredientes semelhantes. Por exemplo, eu costumo fazer um ensopado de borrego de uma receita de Reguengos, mais a puxar a guisado do que ao ensopado-sopa tradicional. Também faço uns rojões à minhota receita de um amigo, mas apenas, a meu gosto, mais apaladada mas não essencialmente diferente da norma. Esta variação horizontal, desde que não desvirtue o essencial da receita, até é enriquecedora. Outra variação é a vertical, resultado da disponibilidade económica quanto a ingredientes. Muitas couves aferventadas comi com os meus irmãos, atitude contra-menino, de gosto de pé descalço, de caça amora e groselha e de trepar às acácias, comi em casa do Sr. Manuel, quinteiro da minha casa de férias em Santa Rita, Fajã de Baixo, em miúdo (o que isto daria de conversa, José Nunes e banho tardio tudo ao molho, favas da Montanha, sopa de beldroegas!). Simplesmente couves, repolho, cebola, alho, batata, batata doce, umas colheres de banha. Às vezes, a doce e encantadora Sra. Maria juntava "netos", umas almôndegas de farinha grossa de milho, embebidas no caldo e acabadas de cozer na sopa. Em dia de maluqueira, dizia a Sra. Maria que nos ia fazer sopa boa. Era juntar toucinho e uma rodela de linguiça. A sopa de couves aferventadas que fiz há dias faria inveja a muita "Gente feliz com lágrimas", que tão bem retratou o meu patrício João de Melo. Conversava hoje com a minha mais-que-tudo sobre o que é coisa que agora já não se diz muito, um "homem bom". Não sei o que é isto. Caridoso? Misericordioso? Desculpador? Ou apenas aquele que nunca consegue esquecer a sua "gente feliz com lágrimas"? Outra vez o Azinheirinha Já é ritual quase religioso. Ida a Évora, frequente, obriga sempre a desvio, à ida ou à volta, por Santiago do Escoural, para consolo prandial na "Parreira", do mestre Manuel Isidoro. Sabem quem é? Talvez não, porque, para quem sabe, é o Manuel Azinheirinha, catedral - minúscula em espaço - da cozinha alentejana e, por via disto, da cozinha tradicional portuguesa. Pouco mais posso dizer do que já tanto aqui tenho dito, mas cá vão algumas notas deste fim de semana (infelizmente de pouca clientela, em dia chuvoso de turismo fraco, porque cada vez mais a clientela é de turistas que sabem). Dos petiscos variados, nunca impostos, apresentados humildemente, o meu grande gosto, fígado de coentrada, cubinhos à medida, ligeiro rosado interior no ponto certo, suave mas a exaltar o sabor. Indescritíveis, as empadinhas, pequeninas, de massa excelente e recheio de galinha toda temperos e sem vestígios de qualquer massa afarinhada. Comparáveis, só as da minha avó - hoje feitas pelos netos, eu incluído!. Se o cliente não exagerar no pedido, pode levar consigo umas tantas empadas. Passando à ementa, provoquei o Azinheirinha, a propósito do seu único prato de porco preto. "Então não tem secretos e plumas grelhados?" Ele teve de pensar um minuto, com o seu imponente bigode eriçado, a ver se eu estava a brincar. O tal prato era bochecha temperada de véspera (essencialmente, pimentão e alho, louro, um gole de vinho branco, sal e pimenta, tanto quanto adivinhei) e assada no forno. Carne a desfazer-se na boca, acompanhada por excelentes migas de espargos verdes. O outro prato que comemos, de lebre, não o conhecia na sua ementa, eu que sou fã da sua lebre com feijão, a que faço sicut para amigos. Lebre com cebolinhas, coisa que não esclarece muito. Azinheirinha estranhou: "Não pergunta como é?". É que aquele é um dos restaurantes fora-Lisboa (como o Valécula ou o Kottada) em que mais vale deixarmo-nos surpreender, porque tudo é muito bom. Lebre de vinha de alhos (de vinho tinto) estufada com a marinada e sangue, tostas e, importante a técnica a garantir a qualidade do restaurante, dois montinhos de arroz branco como não se vê tão simplesmente bem feito, cozido no ponto e solto, em restaurantes de puxa-nota. Para mim, afinal, o que não adiantou muito foi o acrescento das cebolinhas (claro que não eram de curtume). Vinho da casa, de Pegões. Na minha primeira paragem em Santiago, franzi o nariz. Pegões, em tão bom restaurante alentejano? Hoje já sai automaticamente na encomenda. Sobremesas, lista grande, mas não vão por ela. Peçam ao Manuel Azinheirinha um sortido de pequenas doses das sobremesas. Toma-se a A6, depois a A2 e, obrigatoriamente, numa qualquer área de serviço, uma água das Pedras, receita imperiosa da minha mulher em resposta à minha queixa habitual, "comi demais". Mesmo assim, irresistivelmente, hora de lanche, invasão à tal caixinha das empadas. Nota - como não tenho hoje vagar para grandes expedições de restauração, disciplino-me, imponho-me regras. Em tempo de festa, alcatra É o prato emblemático da Terceira, hoje bem conhecido por visitantes que depois o procuram no continente. Em sua honra, e não aconselhando especialmente o que por cá se serve, vou discorrer um pouco sobre a alcatra e lembrar a receita de família, reputada como especialidade, que publiquei no meu livro “O Gosto de Bem Comer”. Dizem-me que há por cá especialistas em alcatra. Melhores do que eu, não duvido. A questão é que eu não sou só cozinheiro jeitoso, muito menos restaurador hábil, também sou gastrónomo. Daí que, ao contrário de cozinheiro tout court, me sinta obrigado a estudar e a discorrer com rigor. Não é bem por ser Páscoa que escrevo esta nota. A alcatra é característica é das festas do Espírito Santo e também das festas de verão de cada freguesia, as tais das touradas à corda. No entanto, come-se todo o ano, em dias de festa como este domingo. Ser Páscoa serve-me só de pretexto para reflectir um pouco sobre a dificuldade de conhecer bem as "cozinhas de festa". Em tão pequeno país, a diversidade culinária é espantosa. Ao nível mais elementar do conhecimenrto da cozinha tradicional portuguesa, Páscoa é cabrito. Não é verdade, cabrito é do interior-centro. Ao sul do Tejo, é borrego, assim como é o seu outro nome, "anho", na tradição galaico-portuguesa do Alto Minho. Afinal, é o cordeiro pascal, de que fala a Bíblia. E na Terceira, por estar a escrever sobre a alcatra? Coisa única de prato português de Páscoa, as empadas de peixe - também vem a receita no meu livro. Em S. Miguel, em que ovino é só para lã e caprino só para leite, Páscoa é festa de vaca, porco ou bicho de pena. Carne assada, molho de fígado, galinha recheada. No meio do parágrafo anterior, as empadas de peixe, tradição da Terceira. Porquê? Abstinência da carne? Não faz sentido, porque no domingo já toda a gente estava forra. Talvez coisa de comodismo, porque, salvo casos raros como a da minha família, ninguém as fazia, eram negócio das pastelarias. Cheira-me a que, em tempos mais recuados, se faziam em mais dias da semana santa e que tenham ficado como mais simbólicas do domingo de Páscoa. Vamos à alcatra. Já tem honras de confraria, de que não falo mais por esperar por uma próxima ida à Terceira e conversas com esses patrícios. A alcatra é um assado simples, até rústico, mas com um resultado final contraditório, de grande subtileza e elegância de sabores. A carne é assada muito lentamente, aos pedaços, com vinho, cebola, manteiga, toucinho fumado e especiarias, num recipiente característico, o alguidar, de barro não vidrado. Muito simples, mas tudo isto tem que se lhe diga. Começo por coisa a atender obrigatoriamente: não há UMA alcatra que faça norma absoluta. Como em toda a cozinha tradicional, foram-se diferenciando versões ricas e populares, coisa a que já iremos. Foram-se personalizando as receitas, naquela tradicional competição entre famílias que faz a riqueza da gastronomia tradicional, mas com grande dificuldade para quem recolhe receitas. Desde logo, a carne. Parece-me evidente que o nome secular do prato indica essa peça de carne, a alcatra, aliás com zonas diferentes, cheio, folha e ponta. Não é verdade, a carne de alcatra não é a escolha única (de entre as melhores) para este prato. Por evolução da nomenclatura do corte de carnes, provavelmente no que se refere ao que hoje se usa como melhor carne para alcatra, a rabadilha terceirence, é difícil dizer o que seria a alcatra inicial. Hoje, na Terceira, cada um usa carne à medida das suas posses e dos seus gostos. Por isto, um bom conhecedor da cozinha terceirense, Augusto Gomes, ao transcrever para o seu livro “Cozinha Tradicional da Ilha Terceira” diversas variantes de alcatra, refere sempre apenas “carne para alcatra”. Conheço muitas receitas com carnes de menor qualidade, como chambão e cachaço; outras, mais ricas, só com carnes de primeira, como se fazia e se faz na minha família. Mesmo neste caso se divergiu, legitimamente, por gosto pessoal. Sendo carnes de categoria equivalente, um dos meus irmãos usa rabadilha, os outros cozinheiros da mesma ninhada preferem folha de alcatra, em ambos os casos com parte minoritária de aba grossa. Não estou familiarizado com a nomenclatura de talho terceirense. Vou falar de S. Miguel, para onde a minha avó transferiu as suas excelentes tradições culinárias familiares. Aí, a alcatra era feita com uma mistura de cerca de 2/3 de rabadilha (que não a rabadilha do continente e que hoje até já dá mais pelo nome de chã rolada) e 1/3 de aba grossa, nomenclatura neste caso igual à do continente. Na Terceira, dizem-me que se chama lagarto à aba, como no Brasil, mas que é uma carne do ventre, ao contrário do lagarto de S. Miguel, que é o lombo (filé). Essencial é que, no fim do assado, a carne esteja em pedaços formados mas tenros e a desfiarem-se sem esforço, o que se consegue tanto com alcatra como com rabadilha, com pequena diferença do tempo de assar. A usar alcatra, recomendo só a folha, não o cheio ou a ponta. A aba grossa, que deixa na alcatra as típicas peles, dá untuosidade ao molho. Outra variante é o vinho. Até à praga da filoxera no século XIX, o vinho açoriano típico era o verdelho, branco. Foi substituído pelo horroroso vinho de cheiro, tinto (que no continente se chama morangueiro), feito de uma uva americana da Califórnia, a Isabel, uma vinha muito robusta e resistente mas de muito má qualidade. O vinho branco passou a ser produto rico, importado do continente. Fazer alcatra com vinho branco era coisa para gente de posses. Ainda hoje, não é a alcatra das festas populares do Espírito Santo, mesmo que o vinho branco do continente lá se venda a preço da chuva, bem como os novos brancos açorianos, do Pico e da Terceira. A minha próxima alcatra será feita com Donatário (já sei, D., vais dizer que vai saber amariscada! Porque não?). O verdelho, esse então não só rico como raro, produzido na Terceira apenas pelos “irredutíveis gauleses” da Casa Brum, nos Biscoitos, fundada por Chico Maria - na Terceira, os homens de "distinção", como os "sirs" ingleses, eram tratados só pelo nome próprio, como o meu mais próximo João Diniz. Hoje, a casa Brum já vai nas mãos e cuidados dos filhos do meu caro amigo Luís Brum, produtos que somos da velha amizade de Fagundes e Maias, solidariedade reflexa tardia da rivalidade entre as capitanias de Angra e da Praia. Avó, Angra é bonita, gostaste, fizeste amigas, mas amigas amigas, como as Maias, eram da capitania da Praia da "Vitóira". Lembram-se de que era assim que sempre pronunciava Nemésio o nome da sua terra? Desvariando, os orgulhos bairristas podem ser ridículos mas são coisa enternecedora. Até a Terceira liberal ser só o que era Portugal, pela segunda vez, depois do Prior, havia simplesmente Angra e Praia. Depois, D. Pedro IV a precisar dos dinheiros açorianos e a passar-lhes a mão pelo pelo, Angra do Heroísmo e Praia da Vitória (depois da batalha naval de 11 de Agosto de 1829), ambas com colar da Torre e Espada. Mas atrevam-se a tirar a essas duas lindas mas singelas cidades esses galardões! Açoriano é ilhéu pequeno, tosco como alguém me costuma "insultar" com ternura, mas com um enorme umbigo! Assim, passou a haver duas alcatras. A popular, mais rústic, e que mais se come por lá e cá nos restaurantes, é feita com vinho de cheiro (só há tinto). A aristocrática/burguesa é com vinho branco. Sempre se fez assim na minha família e a diferença de sabor é notória, muito mais elegante. Acima de tudo, a que se fazia mais raramente na minha casa, quando se recebia da Terceira umas garrafas de vinho dos Biscoitos. Vende-se hoje em Lisboa nas novas lojas de gastronomia açoriana. Se não conseguirem, vão pela sugestão que faço na receita. Duas alcatras: qual delas a "verdadeira"? É pergunta sem sentido. A culinária tradicional é dinâmica, evolui com a economia, a estrutura social e seus costumes, a disponibilidade dos produtos. Entre variantes, o critério julgo ser apenas o do gosto. Gastronomicamente, considero que a "minha alcatra de família" é mais elegante, mais subtil de sabores do que a actual alcatra "popular". Mas aceito que esta é a que está a fazer a norma.
Variante última, a terminar (não, haveria muito mais). O essencial do que escrevi, e a respectiva receita, refere-se à situação típica familiar, do alguidar de alcatra posto no forno da cozinha, antes no lindo fogão de lenha, ferro e latão, da minha cozinha de menino, hoje no forno eléctrico com regulação de temperatura e tempo. Mas há também a alcatra comunitária, das festas de Espírito Santo, para centenas de pessoas, feita em dezenas de alguidares que se metem no forno de páo ainda quente, a seguir desligado e com a alcatra a assar lentamente durante toda a noite. Daí uma diferença significativa: não se pode mexer a carne, não se pode controlar à vista, de meia em meia hora, o apuro do molho. Em contrapartida, a carne fica de uma macieza deliciosa. Mais uma vez, qual é a alcatra genuína? Notas finais. 1. A alcatra exige assado longo, como qualquer prato de vinho. Ainda hoje li uma receita com alcatra de duas horas, metade do tempo da minha. Claro que era de chambão e cachaço, mas isto faz pagar o preço da falta de apuro do excelente molho. 2. Falando em molho, é o que permite o único acompanhamento da alcatra, o pão que se vai embebendo no molho. daí que o grau de apuro do molho seja um dos grandes segredos da alcatra. É vulgar na cozinha açoriana não haver acompanhamento (polvo guisado, torresmos de molho de fígado, galinha recheada, galinha de molho de perdiz - esta mais "aristocrática" - etc.), mas fica fora dos gostos continentais. Assim, servem-na aqui com arroz, com batatas, já vi uma receita com inhames; sei de um açoriano, desnaturado apesar bde fanático pela tradição, que a comia com ervilhas; só me falta ver com o nosso requinte culinário de batata frita, arroz e salada, a misturar azeite e vinagre com o excelente molho do assado. Um restaurante conhecido serve a alcatra só com molho mas sobre uma fatia de massa sovada. Não gosto, não liga bem o molho com o doce da massa. Até aceitaria provar e criticar se fosse massa sovada torrada. Sugiro uma simples fatia de pão rústico, ligeiramente torrado. Nos Açores podia ser também o pão de leite tradicional, mas não cá, onde o pão de leite é mais doce. Numa variante um pouco fantasista, acompanhei uma vez com canapés de pão torrado cobertos com um estufado muito simples e elegante de mão de vaca, também receita de família, mas esta deixo como desafio aos leitores. 3. O toucinho de fumo é um ingrediente essencial, que dificilmente encontro. Vejo muitas alcatras feitas com bacon, que dá um sabor um pouco agreste. O truque é separar no bacon a parte de carne e a de toucinho e só usar esta última. O resto vai bem com ovos mexidos ou moído com manteiga como pasta para sandes. 4. Poderão ver receitas de alcatra com canela. Muita gente a usa e não critico, até porque me consta que a minha receita de família é derivada da receita do convento da Madre de Deus, que incluia canela. Também tenho mais razões para não criticar, porque uso muito canela na minha cozinha de carnes e, indispensavelmente, em qualquer sopa simples de abóbora ou feijão. Todavia, na alcatra, não gosto. Diferente é incluir, como vi em algumas receitas "online", coisas tão mirabolantes como linguiça, colorau ou hortelã. A imaginação tem limites quando se trata do respeito pela cozinha tradicional (lembro a alheira de bacalhau). 5. Finalmente, “last but not the least”, a técnica. Não vou discorrer, recomendo só que sigam escrupulosamente a receita que aí vai noutra página. P. S. - Por falar na enorme diversidade, enriquecedora, da nossa cozinha tradicional, lembro-me da sopa de cebola e bacalhau desfiado, com ovo talhado (francesice!), da família da minha mulher, tradição obrigatória da consoada. Não a encontro em recolha nenhuma, mas é confirmada por mais gente de Vila Flor. Terá sido invenção de qualquer avó da cadeia caciquista, à liberal, que chegou até ao meu avô afim de Vale Fre(t)choso, o bom homem "manda-chuva"? Casa rural influente, não terá passado ao redor coisa deles como "tradição decretada"? A cozinha tradicional fascina-me. Como a música, os romanceiros, os costumes, a arquitectura, fazem este nosso povo tão complicadamente misturado nesta terra pequena, nem falando das ilhas. E, agora, ainda vivo coisas mais complicadas, cozinha angolana por quem ma ensina com memórias do Golungo Alto. Este domingo, cabrito assado? Claro que não, será caldeirada de cabrito à angolana. Comi-a excelente, no mato, no Zaire. Uma ou outra vez, desgostante, em restaurantes "angolanos" em Lisboa. Espero que as cozinheiras mãe e filha se esmerem no próximo domingo! Eu limitar-me-ei a comer e apreciar, sem mandar bocas de gastrónomo. Agradecimentos - à minha grande amiga Margarida Collares Pereira, hoje gestora do McDonald's de Ponta Delgada, que se deu ao trabalho de interrogar talhantes sobre a nomenclatura das carnes. Coisas que vêm e vão Creio que o pernil de porco, embora não distante dos hábitos de algumas matanças portuguesas, não tem muita expressão na nossa cozinha tradicional. É ponto alto é da cozinha alemã (nela incluindo a alsaciana). Quem andou por esses lados e não comeu “eisbein” com chucrute e batata cozida, bem regada com um Riesling ou, para quem prefere, com uma “weissbier”, aquela cerveja que eu e os meus amigos não conseguimos há dias numa cervejaria muito propagandeada? "Eisbein", mesmo cá, no Bier Garten. Menos conhecerão a versão berlinense que prefiro, assada, o “axe”, cuja receita reproduzo no meu livro “O gosto de bem comer”. Há vinte anos, não havia grande superfície que não vendesse “eisbein” e chucrute, crua ou semicozida. Hoje, não consigo encontrar (falo dos estabelecimentos mais conhecidos, não das lojas de gurmê ou das boas charcutarias). Não é caso único de coisas que aparecem e desaparecem da nossa oferta alimentar, não percebo porquê. Agora, aparece pernil fumado, coisa que vale bem a pena explorar. Com isto, lembrando fumados, volto ao aparece e desaparece. Há trinta anos, os meus filhos crianças deliravam com quaisquer carnes frias ou fritos frios com salada russa com a boa maionese caseira, embora achassem que a do Noite e Dia era melhor. Não mereciam a arte culinária dos pais. Coisa dessa classe de frios de que eles, e eu, gostávamos muito eram as costeletas fumadas. Há quantos anos não as vejo. Que se passa? O pernil fumado tem excelente sabor mas perigoso, pela sua intensidade. Deu-me trabalho afinar uma confecção que julgo equilibrar a robustez do sabor com a suavidade um pouco fora da norma do molho. Por isto, não aconselho como acompanhamento a chucrute tradicional, antes qualquer coisa simples (hoje, foram modestas batatas assadas a seco, aos gomos grandes). Aqui fica a receita. P. S. - À margem, desvariando. Coisa perdida que fazia as delícias da minha meninice, gosto herdado do meu pai e da sua cultura “bife” (também o meu "porridge" diário ao pequeno almoço), era o arenque fumado, não esta coisa que por aí se vende mas sim uma coisa horrorosa, com ar de podre, amarelada, com cheiro a tresandar mas que, lá em casa, ligeiramente “assada” em álcool e com ovo estrelado, era uma delícia. A CEE achou que era veneno, proibiu-a. No entanto, já depois, numa viagem a Glasgow, perdi-me com esse arenque fumado no pequeno almoço do hotel. “CEE rules the burocracy, Britannia rules the waves!” Ao fim de semana esmero-me Não é por mim, mas porque tenho de satisfazer companhia exigente. Neste fim de semana foi um "paprikás" sem história, a não ser três notas. Nunca lhe chamo gulache, que é uma sopa; acompanho com uma coisa excelente, muito fácil de fazer e genuinamente húngaro - lá estive uns tempos - que é a "galuschka"; e faço segundo uma receita que vem num livro especialmente recomendado por amigos húngaros, de cozinha húngara, de Mariska Vizvári. Também lá vem o "pörkölt", que difere, para mim para pior, por não levar nata azeda. Depois, também uma versão mais simples e dieteticamente mais leve, mas nem por isso menos saborosa, da sopa à cavador da ilha Terceira: sopa de abóbora e repolho a pensar na Terceira. Finalmente, aonde queria chegar, coisa relacionada com a apreciação que fiz das melhores iscas da zona de Lisboa, dos Nobre e do Pereira. Claro que estava a falar de iscas à portuguesa, mas iscas há muitas. Por exemplo, estas que fiz, de minha criação, a evocar sabores açorianos: iscas com molho de limão galego. A tal minha "amiga" que ficou em agenda de as ir comer feitas pela Justa - e muito bem - vai ter de esquecer as minhas, no exercício de prova das suas muito edtimadas iscas à portuguesa. Adaptar, muito bem, mas com estilo Com evocação brasileira, li uma receita de arroz com feijão preto, derivada de uma receita de “Saberes & Sabores”, da Vaqueiro. A net anda cheia de receitas razoáveis para pessoas com domínio mediano da culinária mas que gostam, e muito bem, de dar um toque de novidade à sua cozinha. É o que faz o sucesso de Jamie Oliver, que agora muitos portugueses conhecem por ter uma página na revista do Expresso, banal, com conselhos culinários que são o bê-à-bá de qualquer cozinheiro amador esmerado. Muito mais honestos e modestos foram os nossos divulgadores de há vinte anos, como Maria de Lourdes Modesto ou o chefe Silva (este, a meu ver, abaixo do nível da primeira, mas mesmo assim com um papel importantíssimo na divulgação do gosto de bem cozinhar). Na balbúrdia gastronómica da net, compreendo e louvo o exemplo de esforço de divulgação do bom gosto de quem publicou a tal receita. Neste caso, a receita pareceu-me merecer reinvenção. Não é que seja má em si, se lhe chamarem de inspiração do Burkina Fasso, mas a cozinha brasileira merece respeito. Vejam então o meu simples arroz de feijão com estilo brasileiro. Afinal, não é mais do que uma versão minimalista, mesmo menos do que minimalista, de feijoada brasileira (nada que se compare com a que o Chico encomenda à mulher para os amigos) mas com predomínio do arroz sobre o feijão. Mulher Mulher Mulher Mulher P. S., de uma amiga brasileira - Isto era mesmo o "mexidinho" das sobras de véspera, na minha casa! Têm a certeza de que sabem o que é caril? Para garantia da minha credibilidade como cozinheiro e criador, tenho por regra nunca inovar em coisas de que não percebo, seguindo humildemente as lições de quem sabe. Isto vale para as cozinhas exóticas. No entanto, isto não significa, antes pelo contrário, que eu não procure receitas genuínas ou que eu não as afira bem com os sabores que me ficam de refeições em restaurantes estranhos aconselhados como genuínos por amigos locais conhecedores. Assim, quando faço uma “paella”, o Paco diz-me que é mesmo a da casa dele. Assim como estou a ficar perito em cozinha angolana, ensinado por quem sabe, lá dos confins do Golungo Alto. Isto aprende-se em cozinha a quatro mãos, parando para discutir cada pormenor, cada dose de tempero, mas tendo bem presente na memória o sol, o calor, os cheiros, a paisagem, o dengo, porque tudo isto faz sabor. Claro que exagero. Se transpuser isto para as cozinhas das minhas ilhas, até pode parecer que quero dizer que ninguém a consegue fazer sem saber bem o que é o mau tempo no canal, ou o que é o mar galgar a terra. O que quero dizer é que, ao nos lançarmos numa experiência de cozinha estranha, há que tentar ir fundo às raízes, tanto quanto possível. Como cito na minha assinatura electrónica, lá diz Santamaria: "Para dorar una cebolla o servir y degustar unos macarrones hace falta filosofia". Vem isto a propósito de um cozinhado deste fim de semana, um caril de galinha à goesa. Isto daria para muita conversa. O caril espalhou-se por todo o mundo e toda a gente, cá no jardim plantado, o “sabe” fazer. Começa logo por não haver UM caril. Em variadas regiões da enorme Índia, há também variados caris. Até o nome é enganador, porque “curry” é o nome de uma árvore cujas folhas podem temperar ligeiramente o caril, no fim da confecção, mas que nada têm a ver com o sabor que conhecemos. A mistura de temperos que usamos como pó de caril chama-se “garam masala” e é quase coisa patrimonial de família, pelo que o que compramos no supermercado é uma espécie de média banal de variadas misturas de temperos. Ao fim de anos, eu apurei o meu "garam masala". Só não o descrevo aqui porque dá muito trabalho e exige ingredientes de difícil obtenção. Se calhar, é esquisitice minha e não compensa a coisa simples de comprar pó de caril no supermercado. Um dia destes, tenho de comparar o meu "garam masala", todo medido, moído, e tostado, feito pó, com o que aí se vende. Já agora, melhor as variadas pastas que agora se vendem. Vale a pena ir experimentando e comparando. Repare-se no que escrevi, “à goesa”. O meu livro de cozinha indiana, de Lalita Ahmed, da velha e excelente colecção “St. Michael’s Cookery Library” acentua a particularidade da cozinha goesa, realçando o uso de ingredientes tipicamente portugueses, como o alho e o tomate, até o louro em vez das folhas de "curry". Façam ou comam um “Madras curry” - o que mais servem em Londres, "mild, medium or hot?" - e verão a diferença. Cá, faz-se um caril, especialidade pessoal, sempre elogiado por amigos, parentes e vizinhos, que é uma derivação estranha, de origem principalmente moçambicana. É coisa que as senhoras colonas, juntamente com receitas de um livro do Movimento Nacional Feminino, aprendiam vagamente com as criadas indianas/monhés. Eram indianas de origens, culturas e cozinhas variadas, goesas, paquistanesas, mestiças, que acabou em grande mistura, com certa originalidade. Por isto, eu próprio, no meu livro “O Gosto de Bem Comer”, no capítulo de cozinha internacional, ao dar um exemplo de cozinha moçambicana, escolhi o caril, mas porque o acho uma confecção que já escapou à origem indiana/goesa e que já é identificada com Moçambique. Até, para marcar a diferença, escolhi o caril de gambas, que não tem nada de indiano tradicional, porque "caris" são de galinha, carneiro, porco. Até mesmo, segundo a velha tradição hindu, vegetarianos, como a minha mulher aprendeu a comer com a comunidade indiana da África do Sul, colegas que lhe permitiam entrar calmamente no Soweto. caril com legumes e batatas, imaginam? Este fim de semana, resolvi relembrar a minha receita, do tal livro, de caril goês. Reparem, na receita, que ele não leva nem pitada de pó de caril! Aliás, mesmo para outros fins, é coisa que não tenho em casa, repito que faço em cada ocasião o meu próprio “garam masala”. Uma única coisa nessa receita do livro foi inovação minha, e lá voltaremos: junto cominhos (semente), a saber bem e segundo a receita de L. Ahmed. A minha mulher comeu-o pela primeira vez este fim de semana, com o comentário do seu sentido prático de que “é excelente, mas não convences ninguém cá de que isto é o verdadeiro caril”. Tem toda a razão, o caril goês é coisa diferente do caril à moçambicana, exportado para Angola e para Portugal. Por coincidência, estivemos à tarde com um amigo, português, vivido alguns, há muitos, anos de miúdo em Goa e hoje possuidor da receita da sua cozinheira, que lhe vale sempre gabar-se - e justamente - de ser especialista em caril. Comparámos as nossas receitas e, mais grama menos grama, eram iguaisinhas, até no tal pormenor de a dele levar boa dose de cominhos, que não entram na do meu livro. Pequena diferença, a minha leva um toque de canela, que ele ficou de experimentar. Engraçado e compreensivelmente, velhos tempos de cozinheiras, a dele era mais complicada em confecção, com a minha primeira pasta de temperos feita por ele com o “leite de coco grosso” e só depois se juntando o “leite de coco fino”. Em contrapartida, ensinei-lhe a maneira muito simples de extrair a polpa do tamarindo, coisa que ele faz com grande trabalheira. P. S. (14.3.1010) - Afinal, não quero ser mauzinho, menino birrento a esconder segredos. Primeiro, o tamarindo, nada mais fácil. Aquecer água até à fervura e, entretanto, partir as cascas duras das vagens de tamarindo, extraindo o interior. Deixar na água quente, fora do lume, durante 10-15 minutos e, entre os dedos, separar a polpa das sementes. O "meu" garam masala: 1 c. sopa de cardamões, 1 c. sopa de cominhos, 1 c. sobremesa de sementes de coentro, 12 grãos de pimenta preta, 8 cravinhos, 1 c. chá de canela em pó, 1 c. café de noz moscada ralada. Não junto malagueta, que acrescento a gosto, conforme o prato. Tudo bem esmagado no almofariz, ou em moinho, e moderadamente torrado a seco em frigideira siliconada, mexendo sempre, até ficar com a cor amarelo esverdeada bem conhecida. O meu restaurante Um gastrónomo que se preze gosta de experimentar, de variar, de comparar restaurantes, até vai no gozo um pouco vaidoso de poder anunciar aos amigos uma pérola que ele descobriu. Vai-me faltando tempo e vontade para isto, até porque está a sair cada vez mais caro. Conheço um bom grupo de gastrónomos de alta qualidade que agora tendem a esquecer os restaurantes pseudo-adriáticos para voltarem aos clássicos da cozinha “simples” - espero que compreendam as aspas - de alta qualidade. Quando vou de viagem e quero saber onde merece ir comer, recorro a estes novos andarilhos da descoberta restaurantina. Por exemplo, como já aqui contei, assim descobri o Vallecula em Valhelhas, o Kottada no Carregado, o velho/novo Tia Alice de Fátima e outros. Em troca, tenho recomendado outros, como o Lis de Évora, agora em mudança para dentro de muralhas. Também ajuda que, nesse círculo, ande sempre frango da minha criação. Mas há o restaurante de uma vez por semana, para mim, hoje munícipe porcalhoto (sabem o que é? A Porcalhota do coelho), obrigatoriamente na grande Lisboa. A minha regra é a de dar a volta à ementa, como se fosse a da bicicleta. Se, ao fim, me cansei, vou a outro; senão repito a volta. A este tipo de restaurante "o meu restaurante", sou fiel, levo os amigos, gosto que me conheçam, têm paciência para eu pedir uma pequena extravagância, o chefe amavelmente ouve uma sugestão minha - mas claro que não regista… Esta fidelidade faz-me lembrar coisa antiga, a dos solteirões que comiam em restaurantes (se é que se pode chamar assim, quase falta de respeito) de pensões, com a sua garrafa de vinho guardada de uma refeição para a outra. Ainda era eu jovem estudante universitário e um amigo de família me convidava para almoçar na Pensão Esplêndida, na Braamcamp, hoje muito falada por via de empreendimento imobiliário, com implicações socráticas. Sopa de hortaliças, peixe cozido ou filetes, carne assada, iscas ou rojões, bifes de cebolada, arroz doce ou leite creme, Macieira no fim, o requinte da época. Um grande abraço, Engº Carvalho, onde quer que estejas hoje. Com este regresso ao classicismo, maravilho amigos, como há dias, a festejar num círculo íntimo uma ocasião de vida profissional memorável da minha mulher. Éramos cinco, fomos provando amostras mútuas e tudo excelente. Com gestos simpáticos. Gabei aos meus amigos as iscas, para mim as melhores de Lisboa (e só não digo também de arredores por pensar nas do Pereira de Cascais); o chefe de mesa, muito conhecido como verão a seguir a este “suspense”, lamentou não haver mas perguntou se não nos importávamos de comer de oferta um pouco de fígado de cebolada da véspera. Uma das convivas, que diz não gostar de fígado (hei-de-lhe fazer as da minha casa de menino, com raspa de baço, se é que já se pode arranjar novamente baço, eu que devia saber, como "perito" em BSE), combinou comigo voltarmos lá só para, provada a amostra, desfazer essa sua ideia de não gostar de fígado. Até é coisa desrazoável, porque delirou com uns torresmos de molho de fígado micaelenses, "excelsio dei" da minha avó Idalina Amélia/Emília (esta é piada para quem conhece o falar de S. Miguel), que lhe fiz um dia. E como conversa puxa conversa, à ilhéu tosco, o maior insulto que me fazem hoje, acho que a minha construção gastronómica pessoal, e julgo que a dos meus irmãos, resulta da mistura de duas excelentes tradições complementares. A cozinha tradicional micaelense de grande esmero da minha avó paterna, embora com o senão de a ter hoje de corrigir pelo factor de ser uma cozinha de casa rica e, mais difícil, por falta de receitas escritas pelo seu punho. Mais a excelente cozinha de alto nível cosmopolita da minha família materna terceirense. Eu já ofereci gratuitamente todo este património a quem tem meios práticos de o valorizar, mas não percebo como é que coisinhas pequenas, ciumeiras de falsa autoria de um cozido das Furnas feito cá, podem complicar coisas grandes. Onde é que eu ia, nesta conversa fiada? Também o chefe me ouviu dizer que um dos meus amigos ali amesendados era doido por pataniscas, comentando eu que, para mim, eram as predilectas dos sítios por onde ando. Coisa obrigatória de escolha do meu filho, que nem se fica por uma dose, rapaz de sustento. Helas, não havia no dia. Dali a 10 minutos, surpresa, serviram-nos, também de “mimo” de profissionalismo, umas pataniscas para prova. "Assim se fazem as cousas"! Dois de nós experimentámos, em partilha, robalo em duas versões. A tradicional - e já estão a ver de que restaurante estou a falar - continua muito boa, na sua singeleza de cozimento a vapor com tempero subtil, servida com legumes simples e um fio de azeite que, embora virgem extra de 0,5º, sabe mesmo a azeite. Havia uma outra versão, extra-lista, com algumas amêijoas e um molho de marisco, aparentemente uma banalidade mas muito bem feito. Enquanto eu não esgotar toda a lista, e talvez dê a volta, é o meu restaurante. Para além de tudo o mais, tem uma boa localização, na esquina do Campo Pequeno com a Sacadura Cabral, com o parque de estacionamento do Campo Pequeno. Chama-se incrivelmente, por razões comerciais, “Spazio Buondi”, mas para mim é sempre o Nobre. Restaurante de cozinha "nobre" e "justa"... Mais uma crónica de fim de semana O fim de semana é habitualmente pretexto para estas notas. O dia de semana é chato, de lobo solitário que come o que vem ao olho ao abrir o frigorifico. Depois vem a sexta à noite, esmera-se, também pela boca tem de merecer a companhia. No entanto, de vez em quando, por razões que se calhar virão adiante ao caso, aligeira, mas não é o que aqui merece notícia. Ou melhor, talvez, a mostrar que mesmo coisas muito banais, com um pequeno toque de requinte que não custa dinheiro nem tempo nem trabalho, podem ser outra coisa. Foi o caso de triviais beringelas recheadas, que toda a gente faz, como toda a gente faz arroz de pato e bacalhau espiritual, com resultados em antípodas. Estas têm talvez pequena diferença, resultado de conversa e troca de experência entre irmãos que cultivam - e nela se rivalizam - a arte de bem comer, pecado de família, o que quer dizer a arte de bem cozinhar (pode-se comer bem sem se saber minimamente o que é bem cozinhar? É conversa longa, para outra altura, mas que me ocorre com frequência ao ler críticas de restaurantes ou sugestões de receitas à ilharga de críticos, mas tecnicamente inacreditáveis). Importante hoje é aquilo para que já tenho chamado a atenção, a arte de tudo aproveitar, principalmente gente solitária. Acabei por ficar com uma boa dose a mais do recheio, do picado de carne. Uma camada de puré de batata, o resto do recheio, outra camada de puré, uma ligeira barradela com mostarda de Dijon, tudo bem pincelado com gema de ovo batida com noz moscada e um pouco de sumo de limão, forno bem quente a gratinar, aí está um grande empadão de carne. Creio que nunca comi melhor. E que puré? Em dia nobre, claro que cozeria batatas adequadas, não muito farinhentas (as indicadas para assar, não para cozer), ralaria no “passe-vite”, embeberia em manteiga da minha terra, temperava bem. Mas à segunda feira, a sair para o trabalho? Claro que nunca o execrável puré em flocos mas, muito aceitavelmente, o puré congelado, em pequenos cilindros, que se vende em qualquer supermercado. Há que não ter vergonha de dar conselhos execráveis para os chefes mas adequados a uma cozinha razoavelmente boa do dia-a-dia. E porque é que, gastronomicamente, outro valor mais alto se alevantava, neste fim de semana? Fui pela primeira vez ao Mandarim, o restaurante cantonês do Casino do Estoril, aquele que fechava quando o Stanley Ho o reservava para jantar de amigos, ele lá sabia o que aquilo valia. Se nunca lá foram, pensam que alguma vez comeram comida chinesa? Por razões que não vêm ao caso, tive a sorte de um aconselhamento super do excelente chefe de mesa, Carlos Botica, mas estou certo de que qualquer cliente interessado o terá. O que ele não consegue é satisfazer tudo o que sabe numa só refeição, mas deixa o apetite aberto para ir lá novamente, para outras experiências, de preferência, como agora, com um grupo grande que permita a partilha de muitas experiências. A minha próxima talvez seja só de “dim sam”, a fartar de variedade, uma refeição inteira, uma dúzia de diferentes cestos de cozer ao vapor. Desta vez, soube-me a pouco. Falei de cozinha cantonesa. No entanto, o rei da festa foi pequinense, o pato. Come-se em tudo o que por aí há de "cozinha chinesa" 28, 33 e 42. No Mandarim, é todo um cerimonial. O bicho, de aspecto estaladiço, constipado como leitão da Bairrada, é descascado à nossa frente por criado de luva branca e trabalho de faca a fazer inveja a cozinheiras de faca-canivete, servindo-se a pele como entrada, fina e crocante, gorda quanto baste, com juliana muito fina de alho francês e um molho tipo compota amarga, não percebi de quê. Depois, como prato, em cubos muito pequenos, sem qualquer acompanhamento que não uma folha de alface (imperdoavelmente, não percebi porquê, alface portuguesa em vez da ótima alface chinesa que tenho no supermercado aqui ao lado), uma delícia, a carne do marreco. Quando muito, para quem quiser, a tijelinha individual de molho de soja, que dispensei por que achei que o pato também o dispensava. Dúvidas quanrto às bebidas. As senhoras foram pelo chá, mas acabaram por entrar também no vinho. Coube-me a escolha e arrisquei: para comida chinesa, Alvarinho, Muralhas. Creio que não me enganei. Falta-nos seriedade e rigor Está a crítica de restaurantes reservada a gastrónomos que, por vezes, mostram desconhecer a boa técnica culinária? Ou não é mais importante, para o próprio restaurante, a crítica do cliente exigente? Coloco-me nesta categoria, mas não é vulgar eu criticar negativamente restaurantes na moda. Prefiro elogiar os que merecem. No caso deste escrito, da mesma cadeia, deixei passar um, há tempos, sofri ontem noutro, não quero que sejam três em capelo. Os nossos chefes estão a sofrer a crise e a baixar o nível dos seus restaurantes, até a passar para o nível tasca. Conheço a cozinha da maioria, mas de um não, Luís Suspiro (LS). Só indirectamente por idas únicas aos seus dois restaurantes do Campo Pequeno, o Portucalidade e o Torriscado. Da marca Suspiro, só em grande evidência um livro para compra. De resto, entrega a seus discípulos e parece-me que com muito reduzida supervisão por LS. Usa a fama do seu nome mas não está todos os dias a garantir a qualidade que se espera desse nome. Facilitismo tuga! Começa pelo baixo nível de profissionalismo do serviço de sala, em ambos (aliás, o pessoal tanto serve num como noutro). Parecem jovens estudantes em trabalho extra-escolar. Ontem, no Torricado, chegámos quatro pessoas a quem disseram que, com a pouca afluência, nos sentavam no rés-de-chão. À medida que se foi enchendo, também se foi enchendo de fumo. Informaram-nos de que a sala para não fumadores era só no primeiro andar, para onde só encaminharam clientes aos poucos e nunca perguntando se eram ou não fumadores. No Portucalidade, há tempos atrás, comi uma sopa, creme de boletos com fatias de lombo de porco preto e ovo escalfado sobre tosta. Lembro-me de, por brincadeira que até ofendeu a empregada, ter dito que esperava que o ovo viesse com clara sólida e gema líquida, pimenta na clara e sal na gema. “Claro que sim”. Afinal, veio tudo a 200% de espessura e de cozedura. Se o creme era de boletos, não sei, porque o excesso de tempero não me permitiu avaliar se era de boletos se de champinhões. O que se podia ver era uma papa grossa, que nem caia da colher. Lâminas de porco eram sola. O ovo vinha com gema seca e dura. Nunca mais lá vou. Apesar de tudo, dei o benefício da dúvida e fui experimentar o Torricado. Primeiro a sopa do dia. Varia nos legumes, mas é sempre coberta com alguns cubos de pão, queijo ralado e uma coisa estranha, um polvilhado que perguntei o que era: presunto frito e moído. Intragável, superfrito, áspero, a dominar o sabor da sopa, fosse ela o que fosse. A seguir, uma empada de porco ibérico (tinha de ser!…) e um pastel de massa tenra, com um estufado de legumes tipo ratatouille mas em pedaços grandes (bem feita, mas banal). A empada estava recheada com fiapos de porco secos e duros, sem qualquer creme e a massa quebrada era insípida. O pastel era banal em recheio dessaborido (ai, os pastéis da minha avó!) e embebido em óleo. Ao menos não era recheado com carne moída no 1-2-3. Provei um torricado de lombo de porco. De torricado tinha nada, porque a fatia de pão, antes de gratinada com o lombo e o resto (de fraca confecção), não tinha sido temperada com azeite e alho, na tradição ribatejana prima de também muitas tibornas, pelo menos que se desse por isto em oposição ao excesso de temperos do coberto. Um torricado vai bem com sabores simples, sardinhas, lascas de bacalhau, enchidos, uma carne simples, não as fantasias do que aqui nos é oferecido, que tanto vai com um torricado como com uma cama de batatas fritas de pacote. Irritante e pernóstica, a ementa, com “os nossos deliciosos pastéis” ou “os nossos deslumbrantes ovos mexidos” (a propósito, a preencherem um terço da ementa, em versões banalíssimas e, provado um exemplo, em confecção de cantina, de quem desconhece essa coisa difícil que é o ponto certo dos ovos mexidos). E até a descrição da equipa da cozinha, com “o grande e enorme chefe Ricardo Fonseca, o melhor operário das artes culinárias de Portugal” (sabiam?). Também a “inigualável e desconcertante Denise Brito”, subchefe, o ”cândido e doce” chefe de pastelaria, ou o “supremo” chefe de mesa que “declama e recita os pratos ao nível de João Villaret e de Ary dos Santos” - o tal que não avisou que o espaço era de fumadores. Isto é brincar com o pagode. E creio que LS não se pode isentar de culpas. Mas o pagode também tem culpa porque tem pouca cultura gastronómica e pouco instinto de defesa de consumidor. Temos grandes chefes, mas cuidado, andam a descarregar a responsabilidade (e a credibilidade!) para “grandes e enormes chefes” desconhecidos. E ainda mais um fim de semana Já vem sendo hábito eu discorrer sobre a minha cozinha de fim de semana. É quando me esmero, quando a dou a provar. Este fim de semana sugere-me uma conversa sobre a diversidade de atitudes de um cozinheiro amador, como eu, mas esmerado. Tem a ver com uma questão posta por um prezado gastrónomo e cozinheiro, Luís Pontes, citando-me, no seu blogue “Outras Comidas”: “Raramente discordo das opiniões de João Vasconcelos Costa. Há, no entanto, um aspecto em que temos visões diferentes do fenómeno gastronómico e culinário: o modo como se vê a qualidade do cozinheiro. Enquanto ele classifica os executantes de cozinha pelo mérito demonstrado em pratos de grande gabarito e dificuldade (por exemplo, a confecção do dificílimo Molho Holandês), eu tenho para mim que a qualidade da execução culinária se vê especialmente bem nos pratos simples e corriqueiros, aqueles que toda a gente diz que sabe fazer e faz mas, na verdade, atamanca em arremedos que acabam por ganhar alforria e que destroem a grandeza que reveste pratos tão simples e difíceis como um Bacalhau com Batatas, um Bife, um Fricassé, um Bacalhau à Brás ou à Gomes de Sá, um Ovo Estrelado…” Deve haver um equívoco, como expliquei privadamente ao Luís. Longe de mim desvalorizar a boa confecção da cozinha tradicional, tanto mais quanto ela é tão maltratada por “profissionais” de restauração. Até vou ao ponto de, querendo fazê-la e lendo uma receita de Olleboma, Maria de Lourdes Modesto, irmãos Fialho, etc., nunca me apetecer mudar seja o que for, assim como não mudo as excelentes receitas das minhas avós. O mesmo para as receitas de cozinhas exóticas, sigo ignorante o conselho de mestres. Para dar largas à imaginação, há a invenção de novas receitas, porque as tradicionais ficam como tal, apenas me esmerando na sua confecção, aferido esse esmero por muita prova desses cozinhados à antiga. Há é vários níveis a ter em conta e vou ilustrá-los com três refeições do meu fim de semana. Ao almoço, fiz um bacalhau à Conde da Guarda, receita de mestre João Ribeiro que já publiquei. Esta receita, recolhida por José Labaredas e José Quitério, parece-me um pouco incerta, o que tipifica o primeiro caso que discuto de boa técnica culinária. Como definir exactamente as doses? Por exemplo, quanto alho, coisa omissa na receita e com resultados catastróficos se em excesso? Como usar nata leve em vez da tradicional? Cozer ou escaldar o bacalhau? Usar bacalhau de cura ligeira ou, como faço, de cura amarela, o bacalhau do tempo de mestre João Ribeiro? Dar-me à liberdade de juntar uma gema de ovo misturada com sumo de limão e temperada com noz moscada (Luís, já lá vamos ao fricassé!)? É o género de exercício culinário que também faço com as receitas de minha invenção, fazer uma, duas, três vezes, muitas vezes a quatro mãos, corrigindo até à versão final. Não é coisa que se exija a um cozinheiro amador que queira apenas executar bem e com esmero. Ainda sobre o mestre, lembre-se que ele, num banquete oficial, serviu galinha à moda de Alcântara. O que é isto? Conhecendo-se a forretice do encomendante Salazar, imagino que não leva trufas nem “foie gras”, apenas bons sucedâneos. Afinal, é o que eu faço, com perdizes de aviário, que não merecem um prato em que elas entram só com um quarto do valor. Mas ler a receita genuína das perdizes que alguém da tropa de Junot levou para França com as pratas da patriarcal e passá-la a receita simples exige alguma criatividade. Considero que este é o tal nível que não exijo a um amigo que diz, honestamente, que cozinha bem. Já lá iremos. Mais complicado é o exemplo do jantar de sábado, uma simples sopa de caiota, mas criação de novo, não digo que com alta qualidade, mas tanto quanto se pode. É receita que não fui ver em parte alguma, saiu do meu gosto. Não é coisa de chefe, não tem rodriguinhos nem fantasias irritantes, até tem inspiração fácil de detectar, mas obviamente que a invenção não é hábito corrente do bom cozinheiro amador, nem se lhe pode exigir como critério para exibição de pergaminhos de bom cozinheiro. No almoço seguinte, o exemplo típico do que fala Luís Pontes. Tinha descongelado uns choquinhos, lembrei-me da receita típica de choquinhos fritos à algarvia, dei-lhe só um toque pessoal, de choquinhos fritos à minha moda. Só isto? Não, quer-se o tal saber cozinhar bem as coisas banais. Há toda uma sabedoria no aquecer do azeite à temperatura certa, a tirar todo o sabor do alho sem o deixar queimar, no aumentar o lume para o primeiro estalanço dos choquinhos a reter o seu suco suave, depois o suficiente para, bem tapados, fritarem bem, ficarem com a cor bonita de alourado e ligeiramente avermelhado. Creio que é disto que fala o Luís Pontes. Diria que é técnica não codificada, é sabedoria dos meus amigos cozinheiros que se lembram de como as suas avós cozinhavam. Tudo isto é boa cozinha, a níveis diferentes. Já agora, porque ele contrapõe com a sua galinha de fricassé, aqui vai uma receita da minha família, pouco vulgar, língua de fricassé. P. S. - Falei acima do ponto certo de aquecimento do óleo ou azeite. Com muita experiência, não preciso de truques, sei cheirar, ver o vapor, olhar para a agitação do óleo na fritadeira ou na frigideira. Mas há um truque clássico. Saque um pequeno pedaço de miolo de pão e junte ao óleo. A temperatura está certa quando o pão estiver com a cor típica de pão bem torrado. Mesmo assim, isto depende de alguma subjectividade de apreciação. Inteiramente objectivo é outro truque: meta no óleo um fósforo; quando ele acender, retire-o e considere que a temperatura do óleo está no ponto. Jantar de Natal A idade fecha-nos a vida em círculo, a vivência sabedora e tranquila dos sessentas vai buscar para a dança D. Constança da memória alegre da infança (D. Gramática vai-me desculpar a brincadeira da rima). Em ocasiões especiais, como o Natal, ninguém foge a isto. Se foge, se se deprime, se esquece a Terra do Nunca, tenho pena, deve-se sentir muito infeliz. Falando agora só das minhas memórias de boca gulosa, parece-me que a consoada nunca foi muito marcante, era só mais um embrulho do essencial, os presentes. Lembro-me de anos passados só em família, com regresso já muito ensonado da missa do galo, mas força de homem prometido a aguentar olhos largamente abertos para as prendas e uns doces, mais umas guloseimas de ceia ligeira. Noutros anos, casa cheia com muitas peripécias, Joãozinho (outro) a deixar lembrança alambazada, antes de todos chegarem, dos canapés de anchovas e alcaparras ou de queijo de S. Jorge e mostarda, invenção na altura, coisas simples da época, ou de um Velho do Natal (assim se dizia na minha terra) que tinha de se almofadar muito porque o meu tio Carlos, alegria esfuziante sempre a vibrar em sol maior e fadada para tal figura, era magro que nem espeto. Mas tudo isto sem que eu me lembre de uma marca obrigatória de costumes gastronómicos de consoada. Talvez os meus irmãos se recordem, mas não temos conversado sobre isto. Diferente era o jantar de Natal, esse sim, a grande ocasião natalícia, tão importante que se tornou ícone familiar, transmitido de pai a filho como símbolo do dever de preservação do clã. Se não me engano, o meu pai, com alguma solenidade, transmitiu-me este dever no ano em que fiz 50 anos. (...) Com o vai e volta da família, filhos a casarem e a terem de partilhar tempo de Natal por duas famílias, a festa foi subindo e descendo em panturrância. Tipicamente, um prato de bacalhau e uma ave recheada, com todos os preceitos da minha família praiense com mania de pergaminhos, comida fria com um champanhe bruto. O bacalhau era mais variável, porque foi adição tardia, continental. Começou por ser invenção anual obrigatória, datada, série de receitas minhas não publicadas que começam com o Bacalhau 88. Mais tarde, passou a família a exigir sempre o “must” de bacalhau, à Conde da Guarda. Mesmo hoje, este lobo alegremente solitário que agora escreve reúne quem está disponível no seu pequeno covil - mais ninho de águia nas alturas - para manter o dever patriarcal. Já não há é bacalhau, não há gente para o comer. Em sua vez, uma entrada inventada com esmero, embora sem nenhuma tradição natalícia. Então, aqui vai o meu jantar do dia de Natal de 2009. (...) (...) E com isto vão ver que açoriano é hedonista de um raio, pelo menos em relação ao comer e beber. Também mais, se me lembrar de que os meus avós paternos puseram no mundo 14 filhos. E parece que sempre depois de rezarem um inevitável terço nocturno. Afrodisíacos há para todos os gostos! Mais um fim de semana Gastronomicamente, foi diferente, com o chefe de rastos com gripe, que afinal também ataca forte um virologista de 65 anos. Foi a subchefe que tratou de tudo, compras e confecção de receitas combinadas a meias e saiu-se de forma a que talvez os fins de semana não voltem ao anterior. Até agora é que faz história, amanhã é dia de coisas simples. O jantar de ontem foi de olhar para a despensa e soltar a ideia de que há afinidades culinárias macaronésias. Já aqui escrevi sobre isto, sobre o triângulo ilhéu de Açores, Madeira e Cabo Verde, deixando Canárias de fora só porque não conheço bem a sua cozinha tradicional. Ontem, escolhi para uma sopa um simples trio identificador: milho, couves, toucinho. Vai a receita na sua página. Para hoje ao almoço, novamente uma evocação açoriana, uma garoupinha açoriana, à justa para duas pessoas. Fresquíssima, mas isto tem que se lhe diga. Estava de olho brilhante e guelra vermelha quando a comprei, mas depois congelei-a. Ao prepará-la hoje, estava igualmente fresca, mas com alguma técnica. A congelação é o mais rápido possível, com “ultra-potência” do congelador. Ao contrário, a congelação deve ser lenta e suave, de véspera, na prateleira baixa do frigorífico. Sabem onde é que aprendi isto? É asdaptação da técnica de melhor preservar no laboratório as células em cultura. Novamente, uma receita de autor mas com evocação açoriana, do molho de limão ou do molho de laranja da minha terra (esquecidos) a embeber a garoupa frita. Ao contrário dos costumes, não a fritei em postas, dieta “oblige”. Foi a assar, com o molho trabalhado no fim. Aqui vai também a receita. O melhor restaurante açoriano Há muito tempo que estava para experimentar o Espaço Açores. Eram os meus amigos continentais que me falavam muito bem e que me pediam opinião, vergonha minha de não a poder dar. Claro que adivinhava que a opinião seria boa, pela minha experiência do restaurante anterior do meu patrício picaroto Alfredo Alves e da sua mulher (que me desculpe não me lembrar do seu nome) no Bambino d’Oro, restaurante de cozinha dos Açores, mau grado o nome. Esse era numa cave, não muito agradável. Agora, no antigo mercado da Ajuda, um espaço arejado, decoração simples mas elegante, boa amesendação, como deve ser de panos, vidros e louças. Escolhi o almoço de hoje porque à quinta feira há bufete de amostra das cozinhas das ilhas. Nota - Entenda-se que, quando escrevo "o melhor restaurante açoriano" estou a falar só de cozinha tradicional. Falhei muitos anos a um hábito sagrado de família, ao aproximar-se o Natal: fazer o licor de leite. Este ano, mais solto na vida e desafiado pela oferta de uma garrafinha de licor do meu irmão, decidi-me. Os Açores têm grande tradição de licores, a compensar a mediocridade das aguardentes (excepto a da Graciosa, mas mesmo assim longe de coisa super). O licor de leite não é o único licor tradicional açoriano - há muitos e muito bons, com destaque para o bem conhecido, vendido comercialmente, licor de maracujá, o do Ezequiel - e o licor de leite até nem é exclusivamente açoriano, tendo-se todavia perdido a tradição no continente. Nos Açores, ao que me consta, continua a ser coisa ritual das famílias de hoje, rivalizando nas suas receitas secretas. O meu pai era um homem de cozinha esquisito. Já velhote, velhote sábio como vinho de boa colheita que os anos amadureceram magnificamente, nas longas tardes de conversa-silêncio de domingo, comigo, dei por ele como bom gastrónomo, principalmente evocador, com grande memória gustativa, da excelente cozinha da minha avó paterna. Isto permitiu-me, com a sua prova exigente, ir reconstituindo aos poucos receitas perdidas, como o icónico "molho de fígado" da minha avó. No entanto, na prática, o meu pai pouco fazia na cozinha, a não ser o bife à micaelense em que se esmerava e os licores. O gosto pelos licores não era tanto da sua casa paterna, mais do seu sogro, que ele mal tinha conhecido. É do meu avô incrivelmente chamado de Pretextato que vem o hábito da minha casa do extraordinário licor de Kruger, um exemplo sublime da técnica conventual, laboriosa, do trabalho das essências. Podem ver a receita no meu livro mas duvido que consigam os ingredientes. Alguém catalão o faz e o comercializa no e_Bay! Voltemos ao licor de leite. Tem a originalidade de ser um licor feito em cru, não segundo a técnica habitual de mistura de álcool aromatizado com um xarope. A receita é muito simples e vai agora para a minha página de receitas. Mas o licor não fica por aqui. Filtrado, deixa um resíduo que não pode ir para o lixo. Dá um excelente pudim, que muita gente faz na minha terra, sem grandes variantes. A minha receita é da minha avó paterna. Diferente e original foi uma descoberta recente de um dos meus irmãos meus rivais gastrónomos, uma receita da minha avó paterna de um bolo desses resíduos. É um bolo húmido, tipo bolo inglês de Natal, que não me lembro de ter comido em nenhuma outra casa. É coisa de segredo de família Viveiros, mas acho que a minha melhor homenagem aos talentos culinários dos meus passados é divulgar a receita. Bom proveito. Ao fim de semana, em que readquiri o gosto e desafio de cozinhar bem, costumo dar-vos notícias de coisas boas mas que considero acessíveis a um cozinheiro com gosto mas sem se lhe exigir técnica supimba. Este fim de semana foi excepcional, de aniversário em que tinha de demonstrar que oferecer um jantar na minha casa era melhor do que ir a um restaurante. Por isto, o prato principal foi esmerado, mas é um exemplo, como vão ver, de simplicidade de técnica, de baixo custo e de pouco trabalho, coisa que vos aconselho a fazerem pelo menos uma vez por mês ;-) . É a célebre lagosta (ou lavagante) à americana, emblema da alta cozinha parisiense. Paris vale bem uma missa, disse Henrique IV ao justificar a sua conversão ao catolicismo. Também diria que Paris vale bem que, no primeiro dia de estadia, se reservem intocáveis umas boas notas de euros para uma experiência de jantar final num grande restaurante. Foi um conselho, que nunca esqueci, que me deu em jovem um veterano do meu instituto, homem de bem apreciar a vida. Se só tiver guardado o suficiente para um único prato, a minha escolha é esta, que só agora fiz eu próprio e que, comparando com uma única experiência de degustação, há muitos anos, me parece que não saiu nada mal, principalmente se se atender a que não há uma receita indiscutivelmente genuína. Para ir desvariando, a abrir o apetite, aqui vai a história. A lagosta à americana parece que foi preparada da primeira vez, em 1858, com lavagante. Diz-se que um grupo de clientes chegou muito tarde ao restaurante Peter’s, quando a cozinha já estava muito desguarnecida. Para não defraudar as expectativas dos clientes, certamente importantes, o proprietário Pierre Fraisse e o seu chefe Recoulet improvisaram esta receita com o que lhes restava no restaurante. Como Fraisse tinha vivido alguns anos na América, ao ser confrontado com a inevitável pergunta “como se chama esta receita?” ficou engasgado e homenageou esse pais com a designação que deu à sua nova receita. Desde logo houve quem contestasse esta história, dizendo ser uma cópia de uma preparação tradicional de lagosta à armoricana, uma zona da Bretanha e daí a semelhança dos nomes. Duvido, porque a receita não me parece ter nada a ver com a cozinha bretã, sendo claramente de inspiração mediterrânea. De qualquer forma, nada melhor para a descrever do que os versos de Monselet: “Et que si bonne et si tantante / Elle fasse damner un saint / Car plus d’une beauté rigide / Au tête à tête familier / Succombe après ce plat perfide / En cabinet particulier!”. Ou então: “Roué comme Cartouche, écartelé comme Ravaillac, brûlé vif comme Jeanne d'Arc, quelle fin pour un cardinal des mers!” Recolhi muitas receitas e, como é costume no caso de receitas não registadas em que os restaurantes querem rivalizar e mostrarem-se originais, há diferenças marcantes. Fiquei bem impressionado com a do Restaurante La Marée, de Paris, especializado em peixes e mariscos, tal como publicada, já não me lembro quando, na crónica gastronómica de Le Nouvel Observateur. Mas claro que tinha que me basear no venerável Escoffier. A receita que adoptei é essencialmente a de Escoffier, um pouco simplificada. No fim, sugerirei outras simplificações modernas, como a de La Marée. Não usei uma lagosta viva, não havia, contentei-me com uma congelada, do Atlântico norte, que se revelou muito boa. Mas cuidado, era crua, tem de ser, e estava misturada com lagostas já cozidas, imprestáveis para este prato. A questão do viva parece mítica, todos os cronistas dizem que é essencial começar a preparar a lagosta com os pedaços cortados com o bicho vivo. Para evitar esta barbaridade, sugiro ferver bem água e mergulhar nela, durante um minuto ou dois, apenas a cabeça da lagosta, mas não o tórax. Eu, como disse, usei uma congelada. Fez diferença? Não sei. Ao contrário do que é costume nas minhas receitas para 4 pessoas, esta vai só para duas. É coisa para comer em ceia de luz de vela, fato e gravata mesmo em casa. Ou, como disse acima, “en cabinet particulier”. Obviamente, não me vá esquecer depois, com champanhe bruto. Ontem foi um Murganheira Velha Reserva Bruto 1999. Não foi forretice, para não comprar um francês, é que acho que este é mesmo muito bom e com boa relação preço-qualidade (13,65 €). Beldroegas, espinafres, canónigos, tudo bom para sopas Há quanto tempo não passava uns dias em Porto Corvo, surpresa de terra mantida com alta qualidade, nem uma mancha de modernice naquele encantador exemplo "naif" de urbanismo pombalino à escala de aldeia, com o branco iluminado a azul que domina toda a aldeia, sem choque com os apartamentos modernos que pululam, mas sem dominarem o centro. Mas vamos à gastronomia, que é o tema desta página. Se há coisa alentejana que adoro e que não encontro em Lisboa são as beldroegas, para sopa. Muito simples, cebola às rodelas e uma cabeça de alho inteira alourada em azeite, mais as folhas de beldroega. No fim, ovos escalfados e a sopa servida sobre uma boa fatia de pão e com um ovo. Nada mais simples, nada mais excelente, numa frente de casa de um monte alentejano, ao pôr do sol sobre o horizonte distante do mar, em conversa de homenagem à luta dos ganhões e a bebericar um branco roupeiro (vá lá, pode bem ser enriquecido com arinto e Antão Vaz, agora até verdelho). Hélas, que tristeza. No mercado, ainda consegui encontrar um velho que me prometeu, dia após dia, arranjar-me beldroegas, mas creio que a carga etílica ao fim do dia lhe escurecia a memória e o compromisso. Em contrapartida, propôs-me uma coisa excelente que não conhecia, espinafres selvagens. Nem sequer posso descrevê-los sem margem para erro, que os procurem por semelhança aos espinafres do supermercado, porque são completamente diferentes à vista, menos folhas, recortadas e muito carnudas. Fiz com eles a sopa de beldroegas e ficou excelente. Há é um truque essencial. provei-os em cru, como faço sempre com as hortaliças, e suspeitei, bem, de que estes espinafres são amargos e têm de ser escaldados primeiro, durante um minuto, em água a ferver, escorridos e muito lavados em água fria, antes de se juntarem à sopa. Voltando a Lisboa, defrontei-me outra vez com o “quem não tem cão caça com gato”. Sempre com as beldroegas na cabeça, comprei um molho de canónigos. São pálida imitação, menos carnudos e com sabor menos acentuado, mas sempre são imitação. Mas, tão pouco tempo depois, a sopa teria de ser outra, inspirada na sopa de beldroegas da minha infância. A minha avó que connosco vivia, portento de inventividade culinária, autora de muitas receitas originais principalmente de doçaria, viveu o verão de muitos anos numa quinta em S. Rita, na Fajã de Baixo, minha grande memória de férias rurais com o dia de esterco na quinta a acabar em quase piaçaba do banho vespertino. Muita coisa tinha essa quinta, a começar, "chapeau", pelo homem magnífico, de pé descalço, que era o quinteiro, o Sr. Manuel. Tinha também a quinta fartura de amoras e de groselhas, e também de uma coisa esquisita, que ninguém conhecia na minha terra, beldroegas. O Sr. Manuel garantia que davam uma bela sopa, que a sua Sra. Conceição fazia como se fossem couves aferventadas, um simples caldo de couves dos camponeses da minha terra (mas com alguma originalidade, um dia escrevo sobre isto, em prol da cozinha açoriana). A minha avó era mais exigente e, inventiva, resolveu usá-las como se fossem o funcho da nossa célebre sopa açoriana, que vem no meu livro “O Gosto de Bem Comer”. Como também invento, usei ontem os canónigos com esta sopa, que deixo na minha página de receitas. Carnes em salitre Uma época extraordinariamente absorvente tem-me afastado da visita aos poucos blogues que cada vez mais vou seleccionando. Uma secção imprescindível é a dos blogues de gastronomia, em que tem bom lugar o Elvira’s Bistrot da minha patrícia terceirense Elvira André (e, lá no fundo da lista de razões, o seu trabalho incrível de publicar em português e em francês). Assim, só hoje dei por uma sua receita de lombo de porco em salmoura. Aos anos que estou para fazer coisa relacionada, língua de vaca, adiada pela preguiça ou falta de tempo para ir a uma drogaria, coisa que cada vez menos há. Só por isto é que escrevo esta nota, correndo o risco, que rejeito vigorosamente, de parecer estar a criticar a Elvira. Eu tenho alguns truques, ela tem outras, empatamos. A salmoura também é velha coisa da nossa cozinha açoriana. Como sou híbrido e lembro-me é da minha casa de menino e jovem, não sei bem se era tradição paterna micaelense se materna terceirense, ou até dos meus velhos sogros. Até vou por esta última hipótese. Comia muito e bem gostava era a tal língua, mas na variante, para mim muito melhor, de salmoura com salitre, que avermelha a carne. Comia-se a língua em salitre, fria, cortada fina como se fosse presunto, normalmente com salada russa com boa maionese caseira. Em rigor, claro que não é nada especialidade açoriana. É uma técnica velha de conserva da cozinha francesa, bem discutida e descrita por Escoffier no seu “Le Guide Culinaire”, edição Flammarion de 1921, p. 61). Também vem no Larousse Gastronomique. A salmoura simples, como na receita de Elvira, é só sal (cloreto de sódio) dissolvido em água até à saturação. Na cura da língua e por aí adiante neste texto o que vou chamar de sal é salitre: 1 parte de nitrato de potássio (da drogaria) e 10-15 partes de cloreto de sódio (isto é, sal marinho, com não mais do que 1% de impurezas). Atendendo a suspeitas sobre a nocividade dos nitratos, sugiro a dose mais baixa, 1 para 15. A água também deve ser pura, pelo que aconselho fortemente o uso de água de nascente (como, aliás, sempre na minha cozinha que não seja a do dia-a-dia). A solução saturada de sal ou salitre é temperada tradicionalmente com açúcar mascavado e com pimenta, zimbro, tomilho, louro, eventualmente outros temperos a gosto. Vi algures uma receita com malagueta, o que agrada logo a um açoriano. Também vou pela pimenta da Jamaica, como a Elvira. Açorianices! Quantos dos meus leitores alguma vez exploraram as potencialidades de condimento da pimenta da Jamaica? Já há cá por toda a parte, não é preciso ir aos Açores. A receita de Elvira não permite o cálculo das concentrações, porque não indica exactamente o volume de água, mas vou-me basear na sua referência, uma receita de Alice Waters. Usa uma chávena (230 g) de sal (só sal, não salitre) para 2,5 galões (9 l) de água. Isto significa uma concentração muito baixa, de 2,5%. É capaz de resultar, mas está muito longe do padrão, a saturação, que idealmente é de 35%, mas com cloreto de sódio puro. Na prática, é inferior, até porque também se tem de contar com o açúcar) e a indicação tradicional é de 20-30%. A mais não faz mal porque, ao arrefecer, deixa de ficar dissolvido e podemos rejeitar o excesso de sal depositado. A concentração de açúcar na receita de Alice/Elvira é de 2%, o que cai na tradição (2-3%, embora Escoffier exagere, 6%). Em favor da Elvira, palpita-me que as suas concentrações finais são maiores, próximas dos padrões, porque ela usa água a cobrir bem 1,3 kg de lombo de porco, volume de água certamente muito menor do que os 9 l usados por Alice Waters. Em resumo, e para simplificar, aqui vai para um litro de água. 320 g de salitre (300 g de sal, 20 g de nitrato de potássio), 30 g (2 c. sopa) de açúcar mascavado. Ferver, a dissolver, deixar arrefecer e rejeitar o depósito de salitre não dissolvido. Limpar bem a peça de carne, bater ligeiramente com o rolo de massa e picar com uma agulha. No caso de peças grandes e rijas, usar uma seringa para injectar a carne no interior com a solução de salitre. Temperar com arte. Guardar uma semana. Lavar bem e cozer ou assar levemente, ou comer mesmo fria, sem mais cozinhado. Nota - só como salmoura, mas com outros temperos, este tipo de conserva é usado também para peixes, como os bem conhecidos rollmops. P. S. (29.8.2009) - Fui alertado para a dificuldade - em breve impossibilidade - do uso alimentar do salitre, em consequência do regulamento comunitário nº 123/2008 de 12 de Fevereiro de 2008. Por outro lado, também desconhecia que a venda de nitrato de potássio está controlada pelo Ministério da Defesa, por ser um dos componentes da pólvora. No entanto, por memória do passado, mantenho aqui esta nota, embora, na prática, se deva ser entender a salmoura como só de sal, açúcar e condimentos. Notas soltas 1. Uma pescaria de bacalhau que devia fazer vergonha A restauração da moda cara está nas últimas, não aguentou a crise. Fausto Aroldi deixou o casino, Vítor Sobral, Miguel Castro e Silva e Ljubomir Stanisic trespassaram-se para coisas mais baratas, tascas atraentes, mas em que a diferença entre lagosta fresca e sapateira congelada se reflecte no preço. Curiosamente, aguentam-se os estrangeiros, Aimé Barroyer no Vale Flor, Joachim Koerper no Eleven, Vincent Nas no Ermitage. Porque é que continuamos a ir a estes, pagando balúrdios, e não a outros em crise? Acho muito bem que os bons chefes se virem, para restaurantes de 1ª muito bons mas não de luxo, para catering, para escolas, para livros. Mas não para gozo com o pagode. De Vítor Sobral (VS), que estimo como cozinheiro de uma criatividade equilibrada com o clacissismo, embora nunca me tendo deslumbrado, já me custava a tragar o seu catering da TAP e da SATA (alguém do calibre de VS pode deixar de sentir vergonha por servir aquelas sandes nos voos para os Açores, no tempo do seu catering?). Neste fim de semana, chegou-me a mostarda ao nariz com uma inconcebível reportagem no Expresso, hoje repetida na SIC. VS foi à Noruega pescar bacalhau fresco. Gosta de pescar, muito bem, mas bacalhau fresco é coisa que abunda por todas as boas peixarias e não acredito que ganhe seja o que for por a linha e o anzol estarem nas mãos de VS. Levou consigo alguns produtos portugueses (como se portugueses, exclusivos, fossem azeite, pimentão, cenoura, alho, azeitonas, sal e pimenta, coisas que certamente não encontraria à venda na Noruega). Com isto, inventou 4-receitas-4, espanto da jornalista da SIC, tudo coisas de nos deixar extasiados perante tal imaginação: sopa de bacalhau, com a cabeça e os tais ingredientes exclusivamente portugueses; salada de bacalhau fresco com pimentos vermelhos assados e azeitonas; bacalhau deixado duas horas em sal e gratinado; um bacalhau que não percebi bem mas que não quero perceber, com tomate assado, Porto (?!), muito alho, pão triturado com coentros. No fim da reportagem do Expresso, aquela coisa em letras bem miudinhas, como nos nossos contratos de seguro. “A SIC e o Expresso viajaram a convite da Norge”. A Norge não é o maior distribuidor mundial de bacalhau, ou estou enganado? E pagou só à SIC e ao Expresso? VS foi por sua conta? 2. Porque se fazem críticas (publicidade) a restaurantes manhosos? Ainda sobre o Expresso. Há muitos anos que leio com gosto e proveito as críticas de José Quitério (JQ). Tenho-o por um bom gastrónomo, com aquela sua qualidade especial, que também tento exercitar, de inserir o discurso gastronómico numa teia até divertida de referências culturais muito mais amplas. E que mais não fosse, devemos-lhe a ele e a Labaredas a valiosa recolha das receitas do mestre João Ribeiro. Considero-o um crítico sério. Obviamente que não posso verificar a justeza de todas as suas opiniões mas, em geral, no caso de restaurantes que também conheço, coincidimos muito em apreciação. O único reparo que lhe faço vem de eu presumir, pelo que leio, que não é tão bom cozinheiro como gastrónomo, notando-lhe eu por vezes erros inaceitáveis. A meu ver, importa. Gosto de ler uma crítica literária escrita com qualidade e maestria de escrita, gosto de perceber que um crítico de teatro andou em jovem pelo TEUC ou pelo CITAC (e isto porque estou a falar de alguém que um amigo comum me diz ser um coimbrão do meu tempo). Desde há tempos que as crónicas de JQ me deixam perplexo. Boa parte incide sobre restaurantes banais, sem nada que os recomende, e a sua crítica, honesta, acaba por ser desfavorável, embora com alguma brandura de costumes. Porque se gasta espaço precioso de uma revista queimando cera para tão ruins defuntos? Encomendas do patrão, a pedido da empregada doméstica da Quinta da Marinha que é comadre do dono do restaurante de Barraqueiro de Cima, que ninguém conheceria se JQ não se dignasse fazer dele página da sua crítica? Pode-me explicar? Simplificar a cozinha Há dias, fiz uns bons bifes da vazia, “à inglesa”. Entre muitas hipóteses de molho (só no meu livro e para bifes sugiro muitas dezenas) hesitei entre um bordalês e um de pimenta (poivrade), mas decidi-me por este. O tempo era curto, o fim de semana prometia bom preenchimento, resolvi simplificar e fiquei tranquilo ao ler o mestre Escoffier. Não haja medo de simplificar, de adaptar as receitas à oferta de produtos que não havia em épocas clássicas, desde que se mantenha a qualidade. Como é o molho de pimenta clássico? Começa-se por uma mirepoix gorda, um estufado lento de legumes em azeite em que se fritou bacon, temperada com louro e tomilho. Meia hora. Molha-se com um copo de vinho branco e umas colheres de vinagre e deixa-se reduzir. Mais um quarto de hora. Entretanto, cozem-se cogumelos em vinho branco, a concentrar bem o suco. Faz-se um roux escuro com manteiga e farinha e com esta base prepara-se um aveludado com caldo de carne, preparado antes, mais uma hora, com carnes, cenoura, cebola picada com cravinhos, alho, aipo, pimenta preta, louro, outras ervas. Deixa-se o aveludado apurar durante meia hora e junta-se a mirepoix premida no chinês, mais a redução de cebola e o suco dos cogumelos. Pimenta preta a gosto, com fartura. Para almoço, ou de véspera ou acordar de matinas. O mestre Escoffier escreve uma receita a que chama “molho de pimenta ordinário”. Preparar uma mirepoix, juntar molho espanhol e fervilhar baixo durante meia hora. Juntar um estufado simples de cogumelos. Temperar bem com pimenta preta e passar por peneiro. A complicação está no molho espanhol. Tem de se preparar um fundo escuro, isto é um caldo de carne feito com ossos previamente tostados no forno, depois um aveludado feito com roux escuro e este caldo, mais tomate concentrado. Para molho “ordinário”, ainda é muito tempo e trabalho. O meu foi de caldos em cubo, que crime! Dois caldos feitos à parte, no micro-ondas, cada um numa caneca grande de água, cerca de 3 dl, um de carne, outro de legumes. O de legumes ferveu ao lume com louro e tomilho, até concentrar a metade. Entretanto, reduzi também a metade, em lume forte, 1 dl de vinho branco e 1 c. sopa de vinagre, com uma cebola picada. Noutra boca do fogão, um estufado num fundo de manteiga de bacon picado e de cogumelos, aproveitando o suco do estufado. A terminar, um roux escuro, molhado com o caldo de carne, fervilhado durante um quarto de hora, acrescentado com o caldo de legumes, a redução de vinho branco, o suco dos cogumelos, a tal pimenta em fartura. No entanto, esta simplificação tem riscos. Os caldos industriais são salgados, é preciso saber lidar bem com isto ao preparar o molho final. Vale a pena ir a Évora Em tempos idos, valia a pena pelo Fialho. Talvez injustamente, há muito tempo que lá não vou, pelas críticas de má relação preço/qualidade (e eu não sou padrinho de nenhum dono de restaurante). Depois, o Luar de Janeiro, que depois me desiludiu. Sempre o Grémio, banal mas esmerado, a Cozinha de Santo Huberto na época de caça, não agora, algumas boas tascas. Mais recentemente para mim, embora só para uma vez a provar o excelente cachaço assado, o Quarta-feira, notável pela assimilação alentejana de um beirão do Sabugal. Neste último fim de semana, um pequeno restaurante para turistas - Mr. Pickwick - num beco esconso, que isto de restaurante para turistas estrangeiros (e eram todas nanja eu) não quer dizer aldrabice gastronómica, onde comi um muito bom borrego assado bem temperado com alecrim e com batata assada, a desfazer-se de macieza, embora com o molho a precisar de maior apuro. Mas isto é entrada, porque nota a valer a pena é o Lis, do meu caro amigo (acho que já lhe posso chamar assim) António Bravo (AB). Jovem - em comparação comigo -, é uma promessa já consolidada nas duas fileiras, cozinha e vinhos. Truques de cozinha (II) Concluo, com coisas que podem parecer elementares, mas que, ao lerem, verão que não é tanto assim: como cozer hortaliças; ovos bem escalfados; molhos de béchamel para cima; peixe cozido com boa técnica; idem o bacalhau. Truques de cozinha (I) Na última nota, falei de técnicas relativamente elaboradas mas, em boa parte, ao alcance do cozinheiro amador que se esmere. Não sei se um meu leitor habitual, e crítico habitual de algum nivelamento por baixo destas minhas escritas, não me irá criticar. É que hoje vou muito mais abaixo no nível técnico de algumas dicas, mas garanto que correspondem a muitas perguntas que me fazem. Há dias, vi um arroz branco a cozer com água só a cobrir, deixado esquecido ao lume vivo e claro que, no fim, uma papa de arroz. Não tenham medo Na cozinha moderna dos restaurante superestrelados há técnicas que não são acessíveis ao comum gastrónomo e cozinheiro que se preze. Podem exigir grande domínio da arte ou equipamento de cozinha profissional. Em muitos outros casos, não é assim. Vou referir algumas coisas na moda e perfeitamente ao alcance de quem se quiser esmerar um pouco na cozinha. De Évora a Montemor Na última nota, contei que o almoço em Évora se prolongou por uma visita a Jorge Bohm, na sua quinta Plansel, em Montemor. Bohm tem um trabalho notável de identificação e clonagem de castas portuguesas mas também, com a ajuda da filha, tem produção vinícola de muito boa qualidade, inclusivamente, coisa estranha no Alentejo, um muito bom “champanhe”, o Al-Xam. Embrulhando uma boa conversa, a meter Açores, Angola da sua mulher, a cultura luterana contra a tridentina, a nossa falta de empreendedorismo, fomos bebendo um branco Plantel Selecta com um petisco frio de frango, simples e muito saboroso. Salmão em Évora Aí há duas semanas, lá tive convite imperioso do Manuel. “Têm de vir almoçar a Évora, tenho aqui um magnífico salmão norueguês”. Coisa tão desafiante não me permitia confiar na cozinha destes meus queridos amigos, prontifiquei-me a fazer o molho, a carioca que fizesse uma salada e que cozesse umas batatas simples. Foi coisa complicada, porque acabei por não perceber bem se era salmão fresco ou fumado, lá fui com um saco de supermercado com tudo o que servisse para molho de court bouillon engrossado, para salmão fresco cozido, ou com um molho frio de funcho para salmão fumado, afinal o que fiz. E o salmão norueguês, excelente, bem o mereceu. O Manuel encarregou-se dos vinhos, numa experiência excelente, com a ajuda do António Bravo, gerente do Liz, creio que melhor escanção do que bom (que é) chefe de mesa do que julgo ser o melhor restaurante de Évora, nos dias que correm (com pena de não ser no centro histórico). Um Sauvignon Blanc Tariquet, 2007, de sabores estranhos, cada vez mais pêssego quanto o tempo passava, mais um pinot gris alsaciano muito bom, mas que me fez faltar os meus Dorin de sabor a pederneira da minha vida no Vaud suíço. Já bem aviados, ainda aparece o António Bravo com um champanhe rosé, Pelletier. Não faço disto regra, é questão de gosto pessoal, mas não vou muito nos champanhes rosés, leves e efeminados. No entanto, em tarde de calor, eborense, já bem comidos e bebidos, este soube muito bem. Depois, ainda a sua aguardente velha, pessoal e de família minhota ou alto-beirã, já estou a confundir, coisa não à venda no restaurante, mimo só para amigos. Só não sei como é que eu e a minha companheira de almoço, mais a Elisa, de quem se vai ouvir falar como cantora de MPB, mais o António Bravo, ainda conseguimos ir ouvir um bom “show” de viola e canto, do Manuel e da Elisa, a recordar tudo o que com Jobim nos encheu a memória musical. Ao fim da tarde, um passeio à herdade de Jorge Bohm, em Montemor. Mas isto dá toda outra conversa, que fica para a próxima. Porco preto Não há festa nem festança em que não venha D. Constança, o porco preto. Não há tasca nem restaurante atascado que não preencha toda a lista de carnes com o dito, desmanchado em todas as suas partes, vão, presa, secretos, plumas, paleta, bochecha. Invariavelmente, tudo em fatias abifanadas e grelhadas (e mal, que isto de grelhar bem é sabedoria que os nossos restaurantes desconhecem). Um dia destes, vamos ver com as carnes o que já se passa com o peixe, a cozinha reduzida aos grelhados. O porco preto, excelente (sem desprimor pelo bísaro, viva a diferença!), está muito mal aproveitado entre nós. Nem sequer, como em Espanha, e esquecendo Barrancos, fazemos um esforço sério para darmos aos turistas um bom presunto pata negra português. E já nem falo do “Museo del jámon” , na calle de S. Jeronimo, ali à ilharga da Puerta del Sol, um templo de devoção ao porquinho preto, com o seu sacristão manchego. Há dias, vi num supermercado cachaço de porco preto, congelado. Pareceu-me uma bela peça e comprei. O cachaço evoca-me duas coisas. Em primeiro lugar, o de vaca, peça que na minha casa se juntava sempre à alcatra terceirense. Dava untuosidade ao molho e bastante perfume. Depois, mais recentemente, o excelente ícone da Adega Quarta Feira, em Évora. Inventei uma receita para esse cachaço, posto de vinha de alhos, depois estufado como se fazia a carne “assada” à açoriana, na minha casa, mas juntando-lhe uns toques evocativos de cozinha alentejana. Surpresa triste foi ao descongelar. Não era uma peça, tinha de ser as tais “febras”, porque porco preto é para grelhar, julga-se. Valha-me que são bem grossas e que, com algum cuidado técnico, darão o tal estufado, embora não tão perfeitamente como se fosse uma única peça. Aqui vai a receita. Atendendo a ter de trabalhar com uma espécie de bifes grossos, a modificação foi retirá-los logo que estufados e continuar a apurar o estufado de legumes e o molho. Há Beira e Beira Prometi dar conta de um jantar memorável, agora pelas melhores razões. Sabem onde fica Valhelhas? Não há que enganar, é passagem obrigatória, mesmo pelo meio da aldeia, na estrada de Belmonte para Manteigas. No centro da aldeia, um largo com fontanário e pelourinho e ainda outro monumento, gastronómico, o Vallecula. Pequeno (marcação indispensável ao fim de semana), bem decorado como sala de casa beirã, com móveis de bom gosto. Mesas bem postas, pratos e copos de boa qualidade e de bom gosto. Couvert de uma pasta de grão muito bem condimentada com cominhos (às vezes fazem-na com feijoca) e de queijo de cabra pouco curado (disseram-me que por falta no dia de uma sua especialidade de requeijão de cabra), com cebolinho fresco picado. A seguir, como entrada, uma óptima alheira de caça. Lista a tornar difícil a escolha. Não fixei tudo, mas lembro-me de bochecha de porco local estufada, costeletas de cordeiro temperadas com alecrim e grelhadas, perna de cordeiro temperada com carqueja, filete de vitela grelhado, galo em vinho tinto. Provei os dois primeiros pratos citados. Confecção de primor, tempero muito simples mas a salientar adequadamente e não demasiadamente os sabores. Realço as costeletas, porque grelhar costeletas de cordeiro com meio centímetro de espessura não é para todos. Estavam no ponto certo. Todos os pratos vêm sem guarnições. É uma boa decisão, em termos práticos, para um restaurante com cozinha reduzida de pessoal e equipamento (um simples fogão doméstico e um grelhador; não consigo imaginar como se pode fazer assim tão boa cozinha para até cerca de vinte pessoas). As guarnições são sempre as mesmas e vêm à parte: esparregado, puré de maçã, arroz cozido em caldo de galinha, tudo cozinhado sem falhas. Para meu gosto, faltavam umas batatinhas assadas. Vieram ao fim do tempo minimamente necessário, acabadas de fazer. De sobremesa, só posso referir um leite creme bem tradicional, rico de ovos da quinta. Vinho da casa muito recomendável, um tinto de produtor individual de S. Paio, Gouveia. A terminar, uma excelente aguardente caseira de zimbro, destilada com mistura de um pouco de maçã fermentada, a arredondar a aguardente. Não se esqueçam de Valhelhas e do seu Vallecula. “Valle” o desvio. Haja vergonha Jantei numa cidade do interior, num restaurante dito especializado em cozinha tradicional portuguesa. Bem se justifica, porque estava cheio de turistas espanhóis. Ementa de cozinha portuguesa? Nos peixes, um bacalhau à casa, filetes de polvo, vários grelhados. Nada melhor nas carnes: carne de porco à alentejana, carne de porco à moda da Beira, bifes e os inevitáveis grelhados de várias partes do porco preto. Desconhecedor, perguntei o que era a carne de porco à moda da Beira e fiquei a saber que era a carne à alentejana da ementa mas também coberta com umas fatias de enchidos. Preferi então a genuína e pude gozar a experiência marcante de comer a mais horrorosa carne de porco à alentejana (não discutindo agora o que isto é) de toda a minha vida, incluindo a dita em cantinas e "take away". A carne estava cortada em pedaços minúsculos, não maiores do que um dado e, portanto, excessivamente frita e seca. De tempero prévio com pimentão e alho, nem vestígios. A fritura foi em abundante azeite de má qualidade, que vinha no prato e, pasme-se, com um imenso refogado de cebola, ainda por cima também quase queimada. Abundantes cascas de amêijoas vietnamitas, dezoito, das quais só três continham bicho. Por cima, um pouco de coentro picado e os picles agora imprescindíveis. A acompanhar, batatas aos palitos fritas à parte em óleo que já tinha passado a idade da reforma. Como já nada me admirava, não me surpreendi com um montinho de salada no próprio prato. Na parede, um diploma de um prémio num festival promovido pela Câmara Municipal. No dia seguinte, a compensar, um jantar excelente, numa aldeia serrana. Merece registo à parte, amanhã ou depois, não se pode misturar com a porcaria que aqui estou agora a comentar. Há Fátima e Fátima Fui hoje a Fátima, em peregrinação gastronómica com um irmão meu devoto dessa religião. Temos sempre muito que conversar, nada melhor do que uns bons quilómetros de auto-estrada e, muito melhor, uma excelente "capela", o Tia Alice. Passar pela rotunda sul, dita dos pastorinhos, tomar a estrada para Ourém, chegar a uma igreja e lá está o restaurante. Agradável sem nada de notável de decoração, mas muito boa amesendação, com pratos com um toque de gosto popular, na borda, mas de porcelana e com o essencial fundo branco, que a cor só pode ser dada pelo que lá se põe. Serviço amável e eficaz. Não vi a ementa nem a carta de vinhos. Ficou tudo a cargo do meu director "espiritual", conhecedor da casa. Comemos o que ele considera as coisas emblemáticas da casa, açorda de bacalhau e vitela assada. Em ambos os casos, não havia nada de surpreendente, nenhuma descoberta gastronómica à moda, nem sequer, num restaurante de cozinha tradicional, receitas de cozinha de fusão. Receitas óbvias, que se adivinham logo. A diferença, marcante, essa sim, foi o primor de execução. Tudo estava no ponto certo, certíssimo, de cozedura ou assadura, de tempero, de equilíbrio perfeito de sabores simples tradicionais, em toda a sua pureza e transparência. Será que nessa cozinha ainda impera uma tia Alice daquelas que não fazem ideia do que é caviar de qualquer coisa, ar de outra coisa, mas que, como a minha saudosa Ascensão, nos deliciam com imensa sabedoria e gosto pela cozinha tradicional? (Tia Alice. R. Adro, 152, 2495-557 Fátima, 249531737; encerra às segundas e ao jantar de domingo. Aconselha-se reserva, principalmente ao fim de semana) Cozinha de linha de montagem Dei por mim a começar a proceder ao estilo dos restaurantes. Nas nossas casas, decidimos fazer um prato, compramos os ingredientes, seguimos a receita de fio a pavio. Isto é impossível na lógica de “produção” culinária industrial. Como nas linhas de montagem, com chassis, motor, acessórios, tudo feito à parte e montado no fim, é assim na cozinha profissional. Não há prato que siga a fazer-se até ao molho. Este é feito à parte e por sua vez feito com espanholas, “demi-glace” e muito mais, estas por sua vez com base em aveludados feitos por outro aprendiz, depois de outro ter feitos os caldos (fundos). É pena não conseguir encontrar agora uma foto que tenho algures (até dependurada na minha cozinha) da máquina de "El Bulli". Parece mesmo uma fábrica. Coisa essencial para mim é a sopa, a refeição de jantar de um diabético colesterolémico, enfim, um vencido da vida do prazer da comida. Comecei a notar que perdia muito tempo e material a fazer a sopa de forma tradicional. Hoje, faço-a “industrialmente”. Vou exemplificar com as preparações que faço apenas uma vez por semana, guardo no frigorífico e misturo no dia, a gosto, acrescentando só os frescos que individualizam a sopa. Faço tudo muito concentrado, sem sal e pimenta, que só uso na sopa final. São três frascos que não ocupam muito espaço no frigorífico. Sábado culinário Apesar de reformado, às vezes parece-me que tenho hoje menos tempo livre do que antes. Por isto, o dia-a-dia culinário é muito simples e não merece registo. Tenho-me vingado ao fim de semana, mas dou por mim a passar de oito para oitenta, no que se refere à cozinha. Há mais coisas para fazer ao sábado e este foi de simplicidade mas creio que a merecer algum registo. Ou coisas simples não podem ser de qualidade e diferentes do vulgar? O almoço foi de hambúrgueres, mas dos meus. (...) O jantar, que normalmente é para mim uma sopa rica ou completada com uma sandes, foi de uma açorda de cebola tradicional de S. Miguel, hoje esquecida. "Paella" Gabo-me de ter uma cozinha bem equipada. (...) Uma coisa não tinha, estranho, uma “paellera”. A “paellera” é uma espécie de frigideira, bastante larga em diâmetro, baixa e com duas pegas em vez de um cabo. Comprei há dias e logo tive de fazer uma “paella”. Fiz a minha; gabo-me de ser muito boa, que mais não seja porque tenho sempre em casa o ingrediente essencial, a açaflor (açoriana, mas praticamente - admito que não exactamente - idêntica à valenciana). No entanto, como “chapéus há muitos, seu parvalhão”, “paellas” há muitas. Isto parece-me muito bem discutido num livro precioso que tenho, recomendado por um amigo espanhol grande gastrónomo, “Cocina típica española”, de Carmen Sans. A “paella” ocupa-lhe várias páginas. Nata azeda Não há festa nem festança que não venha D. Constança Straganoff. (...) Passando ao popular da cozinha russa, gosto muito da sopa rica “borchtch”. Publiquei a receita no meu livro “O gosto de bem comer” dada com pergaminhos de genuinidade por uma amiga russa. Resumidamente, é uma sopa de legumes, com destaque para a beterraba, enriquecida com carnes e obrigatoriamente acrescentada com nata azeda. (...) Também para os lados culinários de leste, gosto muito da cozinha húngara, e entre muitas coisas do “paprikás”, que por cá se chama gulache (coisa muito diferente; gulache é uma sopa). A sua especificidade vem da paprica, dos cominhos e da nata azeda. Repararam no que disse sempre de comum? Nata azeda! Não faz parte dos nossos usos culinários, mas lembro-me de a comer em criança, ainda não se vendiam iogurtes, quando o meu pai a preparava com alguma mistura bacteriana que desconheço, como também não faço ideia onde ele a arranjava, embora suspeite de que nos lacticínios Loreto, onde tinha amizades. Era deliciosa para embrulhar “corn flakes”, ao pequeno almoço. Era coisa obrigatória em S. Miguel, o aproveitamento da nata, quando apareceu o leite pasteurizado e as garrafas apareciam, ao fim do dia, com quase cinco centímetros de nata. Muitos bolos se inventaram nessa altura, também na minha casa, esta da nata azeda creio que não era habitual. Cozinha de festas Não há terra que não tenha tradições culinárias associadas a festas. Podem é variar muito, até neste nosso pequeno país, e também variar na importância relativa de cada festa. Com excepção dos pães da irregular festa dos tabuleiros em Tomar, não há no continente nenhuma cozinha de Espírito Santo, a mais rica, “regulamentada” pela tradição, das cozinhas festivas açorianas. (...) Amanhã é Páscoa e não me lembro de haver alguma tradição forte de cozinha de Páscoa nos Açores, com a excepção, não vivida por mim, que conto adiante. Não me lembro bem do que se fazia em casa dos meus pais. Talvez alcatra, galinha recheada, carne “assada” (escrevo entre aspas porque, em geral, a carne assada açoriana não é assada no forno, é estufada num tacho, com muito apuro da vinha de alhos em que ficou um dia ou dois). (...) Nos Açores, apenas um hábito muito localizado na ilha Terceira, creio que já perdido, as empadas de peixe, deliciosas. Queijos portugueses Não sei como é que este grande apreciador de queijos deixou passar sem nota e principalmente sem compra de livro o lançamento deste livro: "Queijos Portugueses e um olhar gastronómico sobre famosos queijos europeus", de Manuela Barbosa e Maria de Lourdes Modesto (Verbo, 2007).
Cozinha das ilhas, molho de vilão Sempre achei muito interessante que os ilhéus, madeirenses e açorianos, partidos do continente para o povoamento das ilhas em tempos tão próximos e provavelmente sem grandes diferenças de origens regionais, tivessem separado tão nitidamente as culturas dos dois arquipélagos, na literatura popular, na religião, na música, também na cozinha tradicional. Hoje, no Público, David Lopes Ramos publica uma versão madeirense de molho de vilão, para peixe. Não conhecia, assim como muita gente nem saberá o que é o molho de vilão, desaparecido no continente. O molho madeirense é feito com base numa marinada do peixe (no caso, cavala). (...) Tecnicamente, é uma variante de escabeche. Nos Açores, faz-se semelhantemente o molho de escabeche, para peixes (para quem ainda sabe, também uma variante para caça, designadamente o coelho bravo) mas que não é o de vilão. O molho de vilão açoriano, usado principalmente com os “charrinhos” fritos (a variante açoriana, Trachurus picturatus - muito diferente! - do carapau do continente, Trachurus trachurus), tem outra base técnica, é um molho a quente e depois da fritura. Especiarias Açoriano que sou, não podia de ser gastronomicamente muito sensível às especiarias e outros condimentos. Vou deixar agora de lado a minha metade micaelense, da malagueta e da açaflor/açafroa, para me passar para a Terceira materna. Pimenta preta, cravinho, Jamaica, erva-doce, noz moscada, canela (não só em doces, também em sopas e carnes) entram na culinária terceirense como em nenhuma outra parte deste país. Tenho ideia, possivelmente fantasista, de que isto tem razões históricas. As armadas da Índia, pela volta do largo, abordavam a Terceira a tomar a latitude de Lisboa. Precisavam de frescos e de aguada. Com que pagar? Não era então grande moeda a carga de especiarias que traziam? Acerca disto, duas notas. A primeira tem a ver com o cravinho, pouco usado na nossa culinária (excepção, por exemplo, para alguns ensopados de borrego alentejanos). É condimento essencial da grande cozinha clássica francesa, com um pormenor técnico que aqui rica recordado. Em caldos ou estufados, o sabor forte do cravinho é suavizado de uma forma clássica: usar uma cebola inteira e espetá-la, junto ao talo, com quatro cravinhos. Depois a pimenta da Jamaica, muito pouco usada no continente. Os ingleses chamam-lhe “all spices”, porque sabe a uma mistura de pimenta preta, cravinho e noz moscada. Usem e abusem! O truque é o que aqui vai. A Jamaica vende-se em grão ou é assim que deve ser adquirida, o que é importante. É que, esmagados os grãos, com o lado de uma faca, separam-se pedacinhos da casca e um grão escuro e duro, do interior. Este só arde e não sabe a nada. A casca sim, é toda sabor. A porcaria do bacalhau com natas Há anos que, em variados “eventos”, sou massacrado com bacalhau com natas e arroz de pato. A desculpa esfarrapada é inaceitável: é o melhor para se comer em pé, sem ter de usar a faca. No domínio popular (e que bom para estrangeiros!), um arroz de polvo, um sarrabulho com as carnes em pedaços pequenos, uma caldeirada com o peixe arranjado sem espinhas, uma carne de porco à alentejana em pedaços pequenos e com as amêijoas descascadas, uma feijoada, dobrada, os ovos mexidos com linguiça do jantar de Ramires, migas de espargos verdes com enchidos cortados pequenos para se comer só com o garfo, etc. Mais cosmopolitamente, filetes miniatura curtidos em limão com guarnição tipo “seviche”, uma salada rica de ovas e marisco, um gratinado de peixe com puré de legumes variados e molhos também mais do que variados, um “émincé” com cogumelos, ervas e natas, risotos, hoje tão na moda, cuscus com legumes e pedaços pequenos de carnes, enfim, qualquer guisado, até o banal stroganoff, desde que genuinamente bem feito, não são opções, e só me fico por aqui porque me falta o tempo? Hoje vou só falar no bacalhau com natas, (...) Os azeites Há coisas essenciais na minha cozinha que faço com antecedência e que me duram muito tempo, até fora do frigorífico. Neste caso, estão os azeites. A técnica básica é a mesma, apenas com a variante de em alguns casos tudo ser feito a cru, noutros casos depois de alourado o ingrediente no azeite. Em todos, os casos, virgem extra. Começo por esta do tipo de azeite, admitindo que não é questão em que se possa invocar autoridade, antes gosto pessoal. Hoje quase toda a gente é atraída pelo grau mínimo do que se entende ser o toque de má qualidade de um produto. Não é bem assim. Em fatia, presunto para mim é de Parma ou um pata negra suave, mas num folar transmontano fica insípido. Não guiso um polvo à moda da minha terra com um tinto moderno, procuro um verde bem carrascão. O mesmo com o azeite. Virgem extra (não é extra virgem, expressão que dá má nota de pouco conhecimento), acidez entre 0,5-0,7º, embora possa ir ao 1º, indiscutivelmente para cru, saladas, infusão de temperos, confitados, untar batatas ou tomatinhos a ir ao forno, realce de sabor de pratos de marca bem forte, como um bacalhau de cura amarela. Mas já muitos pratos de cozinha tradicional portuguesa, se os quisermos fazer sem condescendências com o gastronomicamente corrcto ("dia não são dias", dizia a minha avó - mas dizia todos os dias!) podem bem chamar o simples azeite virgem, à volta de 1,5º de acidez. Volto ao azeite temperado. A cru é simplesmente moer o azeite com o ingrediente, a gosto: ervas, as que quiserem e na mistura que quiserem; massa de pimentão; malagueta açoriana e açaflor. Deixar sedimentar bem, filtrar por papel de cozinha, voilà! Claro que há uma variante de melhor qualidade, incubar o ingrediente no azeite, vários dias, filtrar sem moer. Em outros casos, alouro primeiro o ingrediente no azeite, antes de arrefecer, moer, sedimentar e coar: bacon, enchidos, presunto, alho, cogumelos. E o que fazer com estes azeites? Temperar sopas, saladas, usar para saltear (não para fritar demoradamente e a lume alto!) carnes, peixes ou legumes, tudo aquilo em que se usa azeite simples. O problema, de bom gosto, é escolher o azeite devido para cada coisa. |
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