Comentários a "Bolonha - Agenda para a excelência"
João Vasconcelos Costa
Comentários gerais
1. O relatório, para usar a designação dos vários
documentos deste tipo publicados em diversos países europeus, é
um contributo inestimável, que mais não seja pela larga
difusão do relatório, para uma discussão que só
relativamente poucos têm protagonizado em Portugal.
2. Mas, com a preocupação de fundamentação,
os A. parecem-me cair no erro de falta de operacionalidade. Se é
um documento para discussão pública, a sua estrutura e formato
parecem-me inadequados. Largas dezenas de páginas são ocupadas
com considerações gerais, relativamente irrelevantes num
documento propositivo para discussão e que, no essencial, se limitam
a repetir muito do já escrito no recente livro dos mesmos A., "Ensino
superior: uma visão para a próxima década",
quando não de autores precedentes, não mencionados.
3. Em contraste, há algumas propostas que só se compreendem
bem com recurso a fundamentação constante do livro. Não
são por acaso as inúmeras autocitações que
o relatório faz a este livro. No entanto, um livro tem certamente
difusão muito mais limitada do que um estudo divulgado gratuitamente
na Internet. A meu ver, beneficiar-se-ia se o estudo ou relatório
fosse autocontido; afinal, é ele que está em discussão
pública, não o livro.
4. São 224 páginas para discussão durante um mês!
É obviamente impossível. Veremos, no fim, quantos contributos
haverá para o debate e com que profundidade de análise.
Como seria de esperar e é dito no texto, os A. conhecem o Relatório
Dearing. Teria sido um bom exemplo de estilo anglo-saxónico de
"white papers": introduções sucintas, recomendações
numeradas e bem destacadas, com a sua discussão própria,
e compendiadas no fim, para facilitação da discussão.
Mesmo assim, o relatório Dearing foi discutido publicamente durante
vários meses, mas com destaque para a discussão institucional,
tendo muitas universidades organizado debates internos para emissão
de parecer sobre o relatório.
5. O meu distanciamento principal em relação ao relatório
vem da minha filosofia de uma reforma e tem a ver com o peso determinante
dos factores culturais. Estranho que pessoas tão experientes
como os A. nem abordem esta questão. Para mim, que muitas propostas
práticas faço nos meus já numerosos - e, se calhar,
cansativos - escritos, é questão sempre presente, porque
não gosto de fazer propostas para o bolor das estantes: como fazer
passar estas propostas inovadoras pelo muro do conservadorismo da cultura
universitária? Neste caso, pior ainda: não é um artigo
de opinião, é um projecto de uma verdadeira reforma legislativa.
Esse vício metodológico de base pode condená-la ao
fracasso.
6. Esta questão da cultura é paradoxal, como já
tenho escrito. Se fosse possível mudá-la por decreto, óptimo,
mas infelizmente não é. Por um lado, a cultura corporativa
universitária é tão forte que, como eu, muitos dizem
que as universidades não se auto-reformam e que a mudança
tem que vir do exterior. Mas, por outro lado, ela é igualmente
forte para que uma reforma totalmente ao invés dessa cultura não
medre. Pode fazê-lo formalmente e nas aparências, mas não
faz o principal, a assimilação dos novos valores culturais
para correcção daquilo que nenhuma lei pode corrigir directamente:
aquilo a que costumo chamar as "disfuncionalidades". A nossa
secular tradição reformista é autoritária
ou, quando muito, baseia-se na opinião de uns poucos peritos ou
que o poder considera como tal. Por isto, nenhuma reforma da universidade
teve verdadeiros resultados, porque foram, administrativamente, contra
a mentalidade daqueles que verdadeiramente tinham que lhes dar corpo.
A politica é o bom-senso e a arte do possível. A meu ver,
o relatório falha muitas vezes numa coisa e noutra.
7. Ligada a esta questão da cultura, vem o que é, julgo
ser, a omissão mais surpreendente deste relatório: o problema
das carreiras, do rigor do recrutamento e da progressão, do aproveitamento
de uma nova geração de qualidade formada à margem
da universidade, do estímulo ao mérito, etc.. Não
há estratégia de qualidade que não passe, muito fundamentalmente,
pelo componente humano. Isto parece-me tão óbvio que me
dispenso de dizer mais. Podem-me objectar que a legislação
das carreiras é especial por, sendo matéria laboral, exigir
negociação. Mas isso é numa segunda fase. O que os
A. estão a fazer, na prática, é propor à Ministra
anteprojectos legislativos. Então porque não um de carreiras,
a apresentar posteriormente à discussão com os sindicatos?
8. Da mesma forma, parecendo-me que o relatório visa suscitar
a discussão de uma reforma global da educação superior,
não compreendo duas omissões flagrantes: o sistema de acesso
e a organização da investigação universitária,
imbricada com a do ensino (embora este último aspecto seja abordado
colateralmente, nomeadamente a propósito do financiamento e da
avaliação).
9. O relatório abunda em propostas, quase que com formato de lei.
Penso que ainda não era altura para este nível de concretização,
antes de um debate institucional e público sobre orientações
fundamentais e modelos gerais.
10. Isto tem a ver com as minhas dúvidas sobre o calendário
deste relatório e do possível processo legislativo que se
lhe siga. Estamos em pleno estudo da aplicação a Portugal
do processo de Bolonha. Tenho a impressão de que este estudo vai
trazer à superfície muitos problemas sobre questões
relacionadas com o conteúdo deste relatório: o financiamento,
não em abstracto, mas tendo em conta a variedade de tipos de formação;
o novo paradigma educacional, as "novas formações",
a dificuldade das universidades em assimilarem estes novos conceitos e,
daí, as formas de estudo, discussão e tomada de decisão
mais adequadas, o que remete para a governação; as formas
práticas, neste novo quadro de Bolonha (e da transnacionalidade),
de garantir a qualidade, o que também remete para a avaliação,
tratada neste relatório. Às vezes, a pressa é contraproducente.
Julgo que se devia terminar o actual processo de aplicação
de Bolonha a Portugal e fazer um bom estudo de síntese. Sobre ele,
e bem consideradas as especificidades portuguesas levantadas por este
estudo, é que me parece que seria oportuno este relatório
e uma discussão pública e institucional muito mais sólida.
11. Disse que considerava as propostas do relatório, em geral,
demasiadamente precisas. Mas o que me parece pior é que são
uniformizantes, numa construção mental rígida. Desde
o meu livro, "A universidade noseu labirinto", já de
2001, sempre considerei as nossas leis universitárias, mormente
a da autonomia, como espartilhos burocráticos talhados por feitio
único para os diversos corpos, gordos ou magros, e lesivos de uma
verdadeira autonomia. Em muitos escritos, e mais desenvolvidamente num
ensaio recente sobre a autonomia, defendo que a autonomia é instrumental,
para permitir às universidades encontrarem as melhores formas de
corresponderem aos requisitos de inovação, adaptação
aos desafios e correspondência às solicitações
da sociedade. Isto faz-se num quadro de emulação (para já
não dizer competição), de estímulo prático
(financeiro, recrutamento, grau de autonomia, etc.) e de penalização
à má qualidade institucional, medida também pela
modernidade estatutária e do sistema de governação,
dentro de limites largos fixados pela lei. Estabelecer um quadro orgânico
rígido é a melhor forma de convidar as universidades a fazerem
o que elas sabem fazer muito bem: adaptarem o seu auto-governo a um novo
quadro legal, para que tudo fique na mesma.
Este é para mim um aspecto crucial. Na Introdução,
os A. dizem que "o universo do ensino superior tem vivido, mormente
após o sucesso da sua expansão, numa fuga permanente à
mensurabilidade e à temporalidade e, por isso mesmo, permite a
criação, sobrevivência e proliferação
de unidades de ensino e investigação de inferior qualidade,
prejudicando gravemente as de elevada qualidade e até de excelência",
mas, adiante, não tiram as devidas conclusões e pouco apontam
de concreto como solução para esse abafamento pela mediocridade,
com que concordo inteiramente. Para mim, como repetidamente tenho escrito,
o progresso das nossas instituições de ensino superior
passa obrigatoriamente pela competição, por estímulos
palpáveis às melhores e penalizações às
medíocres. A lei não deve ser um esquema jurídico
uniforme pensado em gabinete, mas principalmente um instrumento politico
de promoção desse mecanismo competitivo de inovação
e qualidade.
Cap. I –- Introdução
Cap. II -O futuro do ensino superior e os desafios da sociedade do conhecimento
Cap. III - A estratégia de Lisboa e o processo de Bolonha
Não vou fazer comentários a estes capítulos, por
economia da extensão deste texto. Como disse nos comentários
gerais, trata-se de matéria já muito discutida, por numerosos
autores No essencial, estou de acordo, até porque são questões
inseridas numa boa cultura moderna de muitas pessoas. Abro uma excepção,
embora não caiba aqui discuti-lo, ao conceito de "economia
cultural", aliás muito insuficientemente definido, em contraponto
com a já banal discussão da "economia do conhecimento".
Não me parece que sejam sinónimos "economia do conhecimento/informação"
e "economia da cultura", um conceito que adivinho muito mais
abrangente, que me é simpático à primeira vista,
mas que precisa de grande teorização. O grande risco é
o de uma "economia cultural" se confundir com uma "cultura
económica". Mas isto é matéria para muito maior
discussão, noutro local.
Cap. IV –- Regiões do conhecimento, rede de ensino superior
e sua racionalidade
1. Vou distinguir entre a introdução e a discussão
posterior sobre o nosso sistema binário. Diferentemente do que
disse em relação à redundância dos capítulos
precedentes, a introdução deste capítulo é
muito pertinente, apesar de baseada essencialmente em discussões
clássicas, dado que a ideia das regiões do conhecimento
praticamente não tem sido discutida entre nós excepto por
economistas e gestores
2. Mas parece-me haver alguma confusão no conceito de regiões.
Nós usamo-lo habitualmente para referir entidades sociais e geográficas
sub-nacionais e é assim que os A. colocam a questão. Na
concepção de Huggins, também partilhada pela União
Europeia, a noção de região é muito diferente.
Tanto pode ser uma entidade subnacional, como a Catalunha, como entidades
trans-nacionais, como o Benelux, o vale do Reno, a região alpina,
os países escandinavos ou os países bálticos.
3. Uma das falhas da exposição dos A. parece-me ser a do
tratamento do Alentejo, em que a Universidade de Évora e os politécnicos
alentejanos ficam fora das suas delimitações regionais.
Se há hoje uma região verdadeiramente problemática,
é a alentejana - depressão económica e demográfica,
inadequação da tradicional estrutura económica aos
tempos de hoje, problemas sociais graves. Da mesma forma, as regiões
autónomas colocam problemas específicos da ultraperifericidade,
que não são sequer referidos.
4. O sistema binário e Bolonha
"Quer isto dizer que o sistema binário dispõe, à
partida, de melhor condições para a construção
do quadro diversificado de qualificações que o Processo
de Bolonha se propõe desenvolver, diversificação
essa assumida nos objectivos de formação e também,
dados os elementos distintivos das duas modalidades de ensino, em diferentes
concepções curriculares. É, aliás, de notar
que os relatórios de acompanhamento das tendências de organização
do ensino superior nos países subscritores da Declaração
de Bolonha mostraram que o processo de convergência em curso para
os sistemas de ensino superior não só não pôs
em causa os sistemas binários existentes em alguns países,
como pelo contrário os reforçou".
Não concordo. Pelo contrário, penso que Bolonha vai reforçar
a nossa tendência errada mas dificilmente corrigível para
um movimento em dois sentidos: "academic drift" por parte do
politécnico, "vocacional drift" por parte da universidade.
É por isto, até clarificação das coisas, e
sendo defensor do nosso sistema binário, que estou a preferir não
contribuir para a enorme confusão que vai entre nós entre
universidade e politécnico e prefiro falar de diferentes tipologias
de ensino, sem as adjectivar institucionalmente. Como escrevi recentemente,
("Bolonha: uma reforma do esquema de graus ou um novo
paradigma?", http://pwp.netcabo.pt/jvcosta/artigos/bolonha_paradigma.html),
"Tenho sido defensor do nosso sistema binário, mas começo
a ficar um pouco confuso com a sua situação real.
É por isto que, no meu último escrito, sobre a autonomia
universitária, comecei a esquecer a dicotomia universitário-politécnico
para falar em diferença tipológica de ensino superior
de tipo 1, de índole científica e com uma marca filosófica
importante de "liberal education", de ensino superior de tipo
2, com um 1º grau claramente profissionalizante e muito técnico,
e ainda um ensino de tipo 3, de vocação profissionalizante
mas a exigir grande formação científica,
como medicina ou engenharia de concepção, a que correspondem
os mestrados contínuos.
Com isto, parece-me apagar-se em grande parte a rigidez do sistema
binário. Julgo que a tendência será para que todas
as actuais instituições possam facultar todos os
tipos de ensino, desde que para tal credenciadas em função
do tipo e qualificações do seu pessoal docente e
da qualidade da investigação que praticam. Isto de forma
alguma significa, muito pelo contrário, que advogue a tese
da transformação dos politécnicos em universidades,
mesmo na versão suave que alguns advogam de inclusão dos
politécnicos nas universidades mais próximas. Fez-se em
Inglaterra, com resultados nefastos para a qualidade média
das universidades, embora se saiba que alguns antigos politécnicos
tinham melhor qualidade do que algumas universidades."
Os A. parecem-me partilhar desta tese, ao escreverem (3.2)
"Uma das ideias chave da reorganização do ensino,
à luz das reformas derivadas do Processo de Bolonha, é
a da flexibilidade dos percursos de formação, no sentido
de que objectivos de formação similares podem ser obtidos
através de vias e percursos de formação diferentes,
i.e., verifica-se uma rotura com a lógica tradicional de percursos
curriculares rígidos, construídos na base de uma univocidade
na sua organização científica e pedagógica."
mas as conclusões práticas, que comentarei a seguir, parece-me
incongruentes com este princípio.
Dito isto, concordo inteiramente com a tipologia que os A. apresentam
no ponto 3 deste capítulo, que, aliás, traduzem um largo
consenso entre todos os escritos, nacionais ou estrangeiros, sobre este
tema.
5.
"3.2.3. b) O ensino universitário adequa-se melhor à
organização de cursos de duração mais longa,
o que conduz à tendência natural de iniciar a sua oferta
formativa com cursos de graduação."
Julgo que não concordo e digo apenas julgo porque não consigo
perceber bem, em particular a relação entre as duas frases.
Esta tese parece-me apontar tendencialmente para uma estratificação:
primeiro grau no politécnico, segundo grau na universidade. É
contraditório com aquilo que os A. anteriormente discutiram como
tipologia do ensino, que favorece o paralelismo e não a estratificação.
A diversidade subjacente à aparente rigidez inicial de Bolonha
é a do cruzamento entre sistemas e tipos de ensino. Há ensino
de 1º grau universitário e vocacional e o mesmo no 2º
grau. Há formações científicas de 1º
grau muito importantes que devem ser fornecidas pelas universidades. Leia-se
a importante discussão que está a haver no Harvard College
(1º grau, BSc e BA) sobre a importância do 1º grau, numa
universidade que estava com tendência para se caracterizar como
uma universidade de pós-graduação, como todas as
"research universities" americanas.
6. Até agora, estivemos de acordo, com uma ou outra pequena discordância.
Quando se entra no ponto 4, "Matriz Institucional do Ensino Superior",
é que vêm os grandes problemas. O nosso simples sistema binário
já põe os problemas de confusão de tipologias de
ensino que se conhecem. A proposta dos A. ainda vem complicar muito mais.
"O quadro que antevemos para o futuro é o de uma matriz
institucional binária para o ensino superior, que se desenvolve
de forma simétrica para as duas modalidades de ensino, constituída
por:
a) No ensino universitário
- universidades;
- institutos universitários;
- escolas universitárias não integradas.
b) No ensino politécnico
- universidades politécnicas;
- institutos superiores politécnicos;
- escolas superiores politécnicas não integradas."
Deixemos as escolas não integradas, que fazem sentido em fases
experimentais e transitórias e que podem ser uma boa figura para
facilitar o desenvolvimento. Mas o que são institutos universitários?
Nós já temos uma rede universitária que ultrapassa
o consenso internacional de uma universidade por milhão de habitantes,
fora as privadas. Os institutos universitários, como os das ilhas,
foram uma boa transição para o estabelecimento de universidades.
Para que é que é que se propõe novos institutos
universitários? Como embriões de ainda mais novas universidades?
Como pequenas instituições sem massa crítica em zonas
sem universidades? A confusão parece-me tanto maior quanto os A.
propõem (4.2.2.b) idêntica caracterização e
requisitos para os institutos universitários e para os institutos
politécnicos. Quererá isto significar uma cedência
aos lobbies regionais para "dignificação universitária"
de alguns politécnicos? Seria uma contradição com
a defesa que os A. fazem, a meu ver muito bem, do sistema binário.
7. Mais polémica e, a meu ver, desacertada, é a criação
da figura de Universidade Politécnica. É curioso que seja
uma inovação de última hora, que não consta
do livro dos A. (pág. 268). Novamente, (4.2.2.a), os requisitos
propostos para universidades e universidades politécnicas são
os mesmos - anote-se, como já referido, que requisitos demasiadamente
pormenorizados e "dogmáticos" -, diferindo ambas na tipologias
das formações e da investigação. Como disse,
prevejo que esta medida vá agravar a confusão que reina
no nosso sistema binário. E, para se ser rigoroso neste modelo
e levá-lo às últimas consequências, a Universidade
Técnica de Lisboa devia ser uma universidade politécnica
ou algumas das universidades da última geração, como
Minho, Aveiro e Beira Interior, deviam ser desdobradas numa universidade
e numa universidade politécnica.
Afinal, parece-me que a diferença essencial entre institutos politécnicos
e universidades politécnicas seria, na prática, a possibilidade
de conferir doutoramentos. Pouca coisa para tão grande diferença
institucional e, ainda por mais, levantando muitas dúvidas. Que
doutoramentos? Eu até, provocatoriamente, tenho levantado a questão
dos "doutoramentos técnicos e profissionais", estendendo
portanto a tipologia de formações de tipo 1 e de tipo 2
até ao grau de doutor. Mas já vi que é ideia sem
aceitação, nem a vejo perfilhada pelos A. Assim, o que consigo
ler, é a criação de universidades politécnicas
que conferem doutoramentos científicos. Ou estou a ler mal ou é
uma grande confusão. Faço minhas as palavras de Eduardo
Marçal Grilo, num recente artigo no Público (http://jornal.publico.pt/2004/10/14/EspacoPublico/O04.html).
8. Estamos em pleno processo de aplicação a Portugal do
processo de Bolonha. Ele vai levantar grandes questões, para que
temo que as nossas instituições não estejam preparadas.
Não é uma simples questão de duração
dos graus. Muito mais do que isso, é a assimilação
de um novo paradigma, do conceito de novas formações e da
sua tipologia, da capacidade de reconversão cultural dos professores.
Deixemos sedimentar esta discussão, que vai ser tensíssima,
antes de tirar conclusões sobre os modelos institucionais que favorecerão
a reforma de facto. Universidades e politécnicos farão
as suas propostas e, com isto, facultarão um quadro de estudo.
Como tenho defendido como positivo, até é possível
que universidades também proponham cursos vocacionais de tipo 2
e que politécnicos proponham cursos científicos de tipo
1. Não quero dizer com isto que, como agora, sejam livres de os
criar, desordenadamente. Como também dito pelos A., é essencial
que isto passe pela acreditação institucional e programática.
9. Nada a dizer quanto à coexistência de escolas politécnicas
em universidades. Sempre a defendi. Anoto apenas a omissão dos
casos especiais das universidades dos Açores e Madeira, regiões
onde não há institutos politécnicos, onde o atraso
económico exige este tipo de formação e onde não
me parece fazer sentido económico e demográfico que se criem
institutos politécnicos à margem dos recursos universitários.
Cap. V –- Implementação de um sistema de créditos
ECTS
Se há tema de Bolonha hoje largamente conhecido no meio académico,
é o do sistema de créditos ECTS. No entanto, apesar de muita
informação supérflua bem conhecida, julgo útil
este capítulo principalmente pela ênfase que os A. dão
aos créditos ECTS como elementos organizativos curriculares ("building
blocks") e, paralelamente, à utilidade dos descritores. Julgo
é que há outras experiências igualmente interessantes
de elaboração de descritores e merecedoras de descrição
sucinta, nomeadamente a da QAA do Reino Unido ou a Joint Quality Initiative,
com os descritores de Dublin.
Cap. VI –- Consequências do processo de Bolonha no financiamento
de funcionamento do ensino superior
1. Os comentários também devem servir para realçar
os aspectos positivos. De entre muitos, neste capítulo claro e
objectivo, realço: a importância da elegibilidade, a importância
igual dada aos três ciclos, os parâmetros de qualidade, embora,
compreensivelmente, ainda mal definidos, porque dependentes do sistema
e normas da avaliação.
2. O princípio, que pode parecer menor, à primeira vista,
da dotação do Estado por diferença para o orçamento
padrão em vez de aplicação de uma proporção,
parece-me da maior importância mas suscita-me algumas observações:
a) preferia que a diferença fosse para custos reais contratados,
como se faz em França, em vez de para um orçamento padrão
calculado por fórmula. Mas reconheço que a tendência
para a fórmula é imperante e é mais equitativa. O
meu receio é que ela seja demasiadamente equitativa, apesar
dos parâmetros de qualidade. Sabemos como as universidades, no CRUP,
têm uma grande experiência em se nivelarem, neutralizando
a competição pela qualidade.
b) o princípio pressupõe, para controlo financeiro do Estado,
que seja este a fixar as propinas, como, aliás, é proposto
pelos A. Quer isto dizer que o Estado também vai fixar as propinas
dos cursos de 2º e 3º grau que não financie? Ficam então
as universidades totalmente dependentes das propinas e falha o que os
A. bem discutem sobre as assimetrias de custos. Pode ser um retrocesso
financeiro em relação à actual capacidade das instituições
de fixarem propinas para cada mestrado ou doutoramento. A tese dos autores
parece-me ser a do financiamento de todos os ciclos, desde que acreditados.
Concordo, embora não o veja praticável. Só neste
caso é que me parece adequada a fixação das propinas
pelo governo para os cursos financiados. Se não, devem ser as universidades
a fixar as propinas dos cursos não financiados.
3. A distinção (1.3) entre a natureza das propinas mínima
e máxima (a primeira para o funcionamento normal, a segunda para
melhoria da qualidade) é recorrente e compreendo-a em termos políticos,
de diálogo com os estudantes. Mas parece-me artificiosa e pouco
prática, quando julgo saber que a maioria das universidades não
tem um bom sistema de alocação orçamental, de gestão
por objectivos e de contabilidade analítica. Na prática,
vai tudo para o mesmo bolo.
4. Os A. não referem um dado que me parece fundamental, a propósito
das propinas. A nossa propina mínima representa cerca de 11% do
orçamento total das universidades e a máxima 19%. Com excepção
do Reino Unido, nenhum pais europeu ousou ainda ir para propinas que representem
mais do que, sensivelmente, 25% do orçamento. Quando pensamos no
nosso nível económico e na alta taxa de exclusão,
julgo que chegámos ao patamar máximo do valor das propinas.
Isto reforça a importância do rigor do cálculo da
fórmula e de outros financiamentos, porque julgo que não
há mais elasticidade a lidar com as propinas.
5. Passando à proposta de nova fórmula, devo salientar
o seu realismo, introduzindo alterações essenciais mas,
segundo leio, com a preocupação saudável e de bom
senso político de gradualidade, para aferição na
prática. Suscita-me, todavia, alguns comentários.
a) o cálculo com base no valor médio dos vencimentos de
pessoal docente em cada instituição premeia a qualificação
do seu pessoal, é facto, mas cria um ciclo vicioso. São
premiadas as instituições com boa qualificação
dos docentes e penalizadas as outras, quando, para melhoria geral do sistema,
estas últimas deviam ter mais meios para uma acção
intensiva de qualificação do pessoal. Julgo que o cálculo
das despesas de pessoal não se devia basear na despesa média
real mas sim, como escrevi no meu livro, numa proporção
óptima: "A despesa média por docente devia ser determinada
não como média real, como até agora, mas como o encargo
médio, com base no total de docentes, para uma estrutura desejável
de pessoal, digamos que uma relação 4-2-1 entre professores
auxiliares, associados e catedráticos, no caso das licenciaturas
e uma relação inversa no caso dos mestrados e doutoramentos".
Esta ideia está retomada no livro dos autores, mas não tem
tradução neste relatório.
b) o esquema de financiamento não comporta (a não ser em
contratos-programa) uma politica indispensável de estímulo
ao mérito. O factor de promoções, se baseado nos
actuais 2%, é claramente insuficiente. A melhor prova é
a quantidade de agregados que já temos mantendo a categoria de
professor auxiliar. Novamente, duvido de que deva ser uniforme, o que
não contempla situações muito diferentes de estagnação
na carreira, que até pode não ter nada a ver com falta de
mérito. Parece-me também que este adicional, com valor reajustado,
devia cobrir outros componentes da qualificação, nomeadamente
estágios de pós-doutoramento e licenças sabáticas
no estrangeiro, embora haja alguma disponibilidade para isso no orçamento
da Ciência.
c) em relação a parâmetros qualitativos, e enquanto
o sistema de avaliação não permitir ir mais longe,
concordo com o relatório (principalmente com a sua lógica
multiplicativa do financiamento), mas sugeria mais alguns parâmetros,
embora reconheça, em relação a uns, as dificuldades
práticas: número de créditos concedidos; classificações
médias em cada curso (sem que isto seja um convite ao facilitismo);
resultados ("outcomes") em termos de taxa de empregabilidade
(temos bons instrumentos para a medir?).
d) o relatório, embora com abertura, mantém a referência
à nossa proporção mítica de 80:20 para despesas
de pessoal e de financiamento. É difícil fazer comparações
internacionais, porque todos os dados que conheço incluem no orçamento
total as receitas de projectos de investigação. Em todo
o caso, a norma habitual de distribuição orçamental
aponta para cerca de 40% das despesas de funcionamento e de capital. A
indicação que tenho de algumas informações
pessoais é que, incluídas as receitas de projectos, muito
poucas universidades portuguesas, só as mais competitivas em investigação,
é que se aproximam desta distribuição. Acresce que,
ao determinar a percentagem das despesas de pessoal, há que considerar
o nível muito mais alto de salários em outros países.
Daí que a referência do relatório à estrutura
80:20, embora com realismo politico, me pareça pouco ambiciosa.
e) quanto a financiamentos complementares à fórmula e que
não me parecem caber nos contratos-programa, ressalto a importância
de um grande problema actual: o do aproveitamento pelas universidades
dos novos doutorados que não pertencem à universidade e
que se vão eternizando em variadas situações precários.
6. Um aspecto que me parece limitante do relatório é dirigir-se
essencialmente a uma situação de "steady state",
estabilizada. Ora o título deste capítulo relaciona o financiamento
com Bolonha, o que tem grandes consequências. É que Bolonha,
se for a sério, custa dinheiro! Pedagogia da aprendizagem, tutoria,
ligação à investigação, etc., tudo
isto é caro. Para não me alongar, extraio do bem conhecido
Trends III (com itálico meu):
"Implementing the Bologna objectives has far-reaching implications
for the whole institution, not just in terms of reforming the teaching
provision but also regarding counselling and other support services,
infrastructure and, last but not least, "university expenditure".
Bologna reforms are not "cost-neutral"; they imply initial
investments as well as increased recurrent costs of provision which
affect other core functions of the institutions if overall budgets do
not increase in real terms."
7. Da mesma forma, não é possível discutir Bolonha
sem pensar na "agenda escondida", em que sobressai a diminuição
do financiamento. No reino da fórmula per capita estudantil, cursos
mais curtos são menos alunos, são menor financiamento. Em
"capitalismo selvagem", a manterem-se os rácios, nada
mais simples, despedem-se os professores excedentes. Claro que isto é
impossível entre nós, não só porque muitos
têm nomeação definitiva mas também porque a
brandura dos costumes não permite despedir os precários.
Portanto, qualquer fórmula baseada na capitação de
estudantes, no contexto de Bolonha, precisa urgentemente da revisão
dos rácios. E que não deve ser administrativa, mas baseada
no novo paradigma de ensino e nas necessidades da investigação.
8. O relatório aponta, e muito bem, para a indissociabilidade
do financiamento de funcionamento e do financiamento da investigação.
Gostava que tivesse ido um pouco mais longe. Creio que há um vício
grave do nosso sistema de financiamento que é de o financiamento
de base da investigação (com excepção dos
ridículos 6,12%) estar desligado do financiamento institucional.
O vício básico, que muito tenho criticado, é o financiamento
base atribuído aos centros, em vez de às instituições.
Ele é diminuto, não representando mais do que cerca de 2%
do orçamento institucional. Se fosse gerido institucionalmente,
tudo bem; mas ele é poder do feudo do centro. Pior ainda se o discriminarmos
entre dois componentes distintos: por um lado, as despesas gerais do centro,
não atribuíveis a projectos (contratação de
secretárias, bibliografia, viagens, ligação a net,
etc.); por outro, as despesas gerais institucionais (electricidade, água,
gás, correios e telefones, limpeza, segurança, etc.). Uma
boa contabilidade analítica provou-me que o financiamento base
(o chamado plurianual) mal chega para pagar estas despesas em relação
aos membros dos centros (bolseiros e outros) que não pertencem
à instituição.
9. Na generalidade dos países, este financiamento de base da investigação
faz parte do financiamento institucional e é muito relevante. Por
exemplo, no Reino Unido, ele é de 40% do orçamento total
das universidades. Na Alemanha, é cerca de 2,5 vezes superior ao
financiamento de projectos. Relacionado com a escassez do orçamento
de base, note-se também a insuficiência do limite máximo
de 20% para "overheads" de projecto, muito abaixo do que é
prática em outros países.
10. Finalmente, um pequeno pormenor, mas bem significativo para os que
têm experiência de gestão: os orçamentos das
instituições de ensino superior devem estar isentos de cativações.
Gerir um orçamento com a incerteza das cativações
não é para gestores profissionais, é para equilibristas
na corda-bamba.
Cap. VII - O papel do ensino superior na educação e formação
ao longo da vida
1. Um tema sempre em relativa falta na nossa discussão da educação
superior. Felicito os A. pela sua inclusão e, como é hoje
consensual, estou de acordo com a exposição geral. Realço
a discussão da acreditação de aprendizagem prévia
(APL) e da acreditação de aprendizagem em exercício
(APEL), que me parece que tem estado bastante arredada do debate universitário.
2. Julgo que falta uma discussão necessária sobre a avaliação
de qualidade, quando a aprendizagem ao longo da vida é hoje facultada
transnacionalmente por todo o tipo de instituições, desde
universidades consagradas até empresas fraudulentas. Reconheço
que essa discussão pode ultrapassar o âmbito deste relatório,
dedicado ao sistema português, mas é pena, tanto mais que
um dos A. redigiu há anos um artigo sobre educação
transnacional que ainda é referência.
3. O que, em geral, menos me satisfaz neste capítulo é
uma tónica um pouco tradicional, para uma actuação
demasiadamente centrada no "intra-muros", com subalternização
- a não ser algumas referências genéricas - da aprendizagem
à distância e do "e-learning", que hoje constituem
a base das experiências mais modernas de aprendizagem ao longo da
vida.
4. Também me parece que este texto tem uma ênfase demasiada
na perspectiva tradicional da formação, esquecendo um aspecto
essencial que condiciona a concepção e organização
de todas as acções de aprendizagem não tradicional:
o problema da diversidade dos novos públicos. Isto tem
grande significado prático, porque a discussão é
completamente diferente em relação a profissionais que pretendem
elevar o seu nível formal de qualificação, a profissionais
que desejam actualizações específicas, a encomendas
de empresa para reconversão de grupos profissionais, a jovens que
querem seguir o ensino superior em tempo parcial e, finalmente, a todos
aqueles, cada vez mais numerosos, que querem aprender em adultos ou até
em idosos novas coisas, por puro prazer intelectual.
5. O texto passa por lado algumas questões técnicas importantes,
que têm que ser bem discutidas porque podem ser constrições
de actuações de aprendizagem ao longo da vida. Para não
alongar estes comentários, remeto para discussão no meu
livro "A universidade no seu labirinto", pág. 273 e seguintes.
6. Parece-me também que conviria dizer alguma coisa sobre os aspectos
organizativos universitários e de estratégia de mercado.
Podem ou devem ser as universidades a desenvolver toda a base informática
da aprendizagem ao longo da vida? É melhor estabelecer parcerias
com empresas? Ou recorrer, comercialmente, ao modelo de “application
service provider”? Ou até, como no conhecido caso da UNEXT
e da Cardean University, venderem apenas conteúdos?
7. Reconheço que, ao propor a inclusão destes temas de
discussão, pareço estar a contradizer-me com a critica geral
à extensão do relatório. Mas, porque pouco discutidos,
substituiriam com vantagem muitas páginas anteriores de informação
já bem conhecida.
Cap VIII –- Governo académico e modelos de articulação
institucional
1. Concordando com os princípios, discordo de muitas propostas.
E começo por acentuar que, a meu ver, o termo modelo usado pelos
A. me parece desajustado. Modelo é um quadro teórico e prático
onde se devem ajustar variadas situações concretas e em
função do concreto. É assim que, julgo, tenho discutido
largamente a autonomia e o modelo de governação (vide, p.
ex., http://pwp.netcabo.pt/jvcosta/artigos/autonomia.pdf). Pelo contrário,
para os autores, modelo é o conjunto preciso e rígido das
suas propostas, numa atitude de uniformização que combato
como oposta à verdadeira autonomia. Comecei logo por discutir isto,
neste texto, nos comentários gerais.
2. Os A. até parecem concordar com esta perspectiva: "i)
Modelos de governo universitário diferenciados, de acordo com a
natureza da missão e estratégia institucional e obedecendo
a critérios globais de racionalidade e de diversidade; abertura
dos órgãos decisórios a personalidades de elevado
mérito e/ou de representantes designados por organizações
da sociedade civil, atribuindo-lhes capacidade de decisão e funções
responsabilizantes, o que implica deverem ser correctamente remunerados;"
(VIII.1). A meu ver, esta boa intenção é contrariada
por todo o enumerado de propostas.
3. Não concordo inteiramente com a introdução sobre
a autonomia. Parecem-me pouco claros os seus fundamentos, as razões
estratégicas e práticas que a justificam, mas também
o que costumo chamar o seu carácter instrumental e, daí,
as sua limitações. Esta minha não total concordância
alarga-se também ao livro dos A., mas não vou comentar,
para não me afastar do objectivo operacional destes comentários.
4. O que me parece essencial é a extinção progressiva
do nosso sistema de auto-governo corporativo e a sua substituição
por sistemas (nunca um sistema uniforme)
baseados no modelo, cada vez mais corrente na Europa, de "gestão
partilhada":
- distinção entre governo estratégico, gestão
e participação académica, cada um correspondente
a um órgão próprio, conselho de governo, reitor
e senado, respectivamente (com estas ou outras designações);
- participação dos "stakeholders" no governo;
- cooperação entre o órgão de governo e
o órgão de representação académica;
- clareza da linha de decisão e responsabilidade individual;
- flexibilidade e capacidade de opção;
- lógica acentuadamente nominativa da selecção
de dirigentes, com base na competência;
- eficácia de gestão e cumprimento dos princípios
da "nova administração pública".
Definidas as suas características fundamentais (que, a meu ver,
são indissociáveis), ele comporta numerosas concretizações
práticas, no âmbito da diversidade e concorrencialidade de
que a autonomia é instrumento. A apresentação de
um esquema acabado e com reduzida margem de variabilidade viola o princípio
autonómico de as instituições definirem as formas
organizativas que melhor as coloquem na competição pela
qualidade e na resposta aos desafios. No meu recente ensaio sobre a autonomia,
dou muitos exemplos possíveis, e todos eles respeitáveis,
de concretização do modelo. Neste sentido, a lei da autonomia
e governação seria uma lei com muitos "pode" e
poucos "deve".
5. Os A., muito mais experientes do que eu, sabem que a melhor forma
de descredibilizar uma boa ideia é formulá-la apenas sob
a forma de propostas concretas erradas. Ora nada na discussão universitária
é aceite com mais reservas do que a mudança do nosso sistema
corporativo de governação. Importação americana,
managerialismo, perda de uma autonomia "secular" (!), subordinação
aos empresários, tudo vem, irracionalmente, à discussão.
Por isto, parece-me que o sistema agora proposto necessitava de uma boa
fundamentação, para que há enorme bibliografia, mesmo
portuguesa. Muitas páginas deste relatório podiam ser substituídas,
com vantagem, por uma ou duas sobre este assunto.
6. Estas dificuldades culturais, traduzidas depois em potenciais conflitos
graves ou boicotes ao sistema, levam-me a insistir numa estratégia
pragmática. Não quero alongar este texto, mas parece-me
importante uma citação do meu ensaio referido:
"Sem prejuízo de novas regras legais, muito gerais, as
universidades devem ser levadas à adopção de um
novo modelo essencialmente por um sistema de incentivos e de competição.
Passando a haver avaliação institucional, as inevitáveis
consequências do novo modelo (facilidade de definição
de planos estratégicos e de políticas, elaboração
de padrões de qualidade e de códigos de boas práticas,
inovação, relações eficazes com a sociedade,
etc.) devem ser premiadas É aqui que a contratualização
é fundamental, principalmente nos seus aspectos financeiros,
desde que a modernidade e eficácia da sua organização
estatutária, governação e gestão sejam factores
muito determinantes dos benefícios da contratualização.
E pode-se pensar em incentivos que se relacionam com o próprio
grau de autonomia: por exemplo, as universidades que adoptarem um modelo
moderno de governo veriam a sua autonomia administrativa e financeira
alargada, com gestão administrativa e financeira tendencialmente
segundo o direito privado e sem sujeição às regras
da contabilidade pública, ao regime de realização
de despesas públicas e ao regime oficial das empreitadas de obras
públicas (quase que empresas públicas). Quem tem experiência
de gestão sabe como isto é importante.
(…)
Assim, não há grande mal que primeiro sejam só
uma ou duas a adoptar o modelo na íntegra. Por competição,
as outras virão depois. A experiência mostrará,
ao fim de alguns anos, se então o novo modelo deverá ou
não ter maior consagração legal."
7. A autonomia administrativa e financeira é discutida numa perspectiva
jurídica e não funcional. Parece-me minimalista e, na prática,
mantendo a situação legal anterior à Lei nº
3/2004. Ora, as leis estão sempre a ser revistas e para isto é
que são úteis relatórios como este. Esta visão
conservadora é patente também no anexo a este capítulo.
Creio que a experiência de gestão obrigaria a propostas mais
avançadas, para além das já consagradas, nomeadamente:
- Fixação legal das competências administrativas
do reitor, com poder de delegação, sem ficar, como agora,
dependente de delegação de competências gerais dos
ministros e secretários de estado;
- No limite, em função da adopção de um
adequado modelo de governação, gestão administrativa
e financeira próxima do direito privado e sem sujeição
às regras da contabilidade pública, ao regime de realização
de despesas públicas (concursos) e ao regime oficial das empreitadas
de obras públicas; ou, como medida de alcance mais reduzido,
com aumento substancial dos valores de aquisição que determinam
os vários procedimentos de aquisição;
- Orçamento de Estado definitivo, com isenção de
cativações orçamentais;
- Requisições de fundos não limitadas pelo sistema
de duodécímos, embora com limites máximos razoáveis;
- Possibilidade de requisição de fundos integral, logo
no início do ano, para as rubricas de equipamento;
- Obrigatoriedade de compensação, até ao mês
de Junho, dos encargos decorrentes de aumentos salariais da função
pública;
- Em contrapartida de responsabilidade, obrigação de contabilidade
segundo o plano oficial de contas, incluindo a obrigação
de contabilidade analítica; prestação de contas
à tutela e ao Tribunal de Contas; apresentação
de um plano orçamental previsional; obrigação de
parecer de um conselho fiscal, incluindo um técnico revisor de
contas do sector privado e um quadro qualificado da contabilidade pública.
8. Ao começar a tratar-se da governação, no ponto
7, diz-se novamente que "entendemos traçar quadros flexíveis
de governação académica". Ao ler o que se segue,
surpreende-me esta noção de "flexibilidade". O
que percebo é, ainda por cima irrealista: novo esquema para novas
universidades (ainda vai haver mais?), ou então adopção
pelas actuais assembleias de universidade, por maioria de 2/3, assembleias
estas, em alguns casos, dominadas por estudantes ferrenhamente defensores
do sistema actual, que tomam por "gestão democrática".
Não estou a ver as universidades a adoptarem um novo modelo, a
não ser que haja os fortes incentivos que proponho.
9. Um pequeno pormenor, mas significativo: "não está
em causa a representatividade dos professores, dos estudantes e dos
funcionários". Qual a razão válida - que
não seja corporativa ou transigente com a herança de uma
fase passageira pós-revolucionária - para dar aos funcionários
universitários um estatuto diferente do de todos os demais funcionários
públicos?
10. O "esquema legal" (insisto que não é um modelo)
proposto para o governo universitário apela só para dois
princípios: representação externa e responsabilidade.
Como disse atrás, é curto em relação a todos
os princípios, indissociáveis, do novo modelo europeu, com
todas as suas variantes. Tenho dificuldade em comentar esse "esquema"
porque concordo com as intenções mas a sua concretização
parece-me conter demasiados erros, que quase me levam a pensar que, de
facto, estamos a falar de modelos diferentes.
a) Concordância sem reservas com a existência obrigatória
do CEDU (prefiro chamar-lhe conselho de governo, mas isto é o menos).
Mas:
i. O seu presidente deve ser externo, estamos de acordo, mas a proposta
de ser nomeado pelo governo não passa pela cabeça de ninguém
com sentido prático. Se o esquema geral já vai ser tão
difícil de adoptar, segundo a proposta, pelas actuais assembleias
de universidade, imagina-se o que será a reacção
- a meu ver muito justa - a um presidente que, na nossa cultura politica
real, será um comissário do governo! A meu ver, o presidente
deve ser eleito pelo conselho.
ii. Composição limitada a 8-10 membros: porquê? É
óbvio que um conselho de governo não pode ser muito grande,
mas há muitos "boards of trustees" de universidades americanas
com cerca de uma vintena de membros e o relatório Dearing propõe
o máximo de 25 membros. Este é claramente um aspecto a ajustar,
caso a caso, entre a representação e a eficácia de
decisão, mas não sei se os A. não terão tido
uma revelação indiscutível do número acertado.
iii. A proposta de paridade entre membros internos e externos parece-me
outro exemplo de falta de atenção aos factores culturais
e provável razão de recusa do esquema pelas universidades.
Até gostaria de ver um momento em que os universitários
aceitassem um conselho só de externos, mas isto é irrealista.
Por isto, tenho sido mais recuado, propondo, para uma fase inicial, "uma
proporção significativa" de membros externos, sem mais
especificações, embora entendendo pessoalmente que significativo
quer dizer, pelo menos, 25%.
iv. A proposta de nomeação dos membros externos não
me é aceitável, pelo risco de "cozinhados" políticos
e por falta de sentido da participação: nomeação
por cooptação do reitor e do presidente (lembre-se, nomeado
pelo ministro) quanto à escolha dos externos. Há muitas
alternativas possíveis. Por exemplo: no mandato inicial, escolha
pelos membros internos do conselho já constituídos (eleitos
pelo senado), e ouvido o senado; nos mandatos posteriores, cooptação
de novos membros pelo conselho em efectividade, eventualmente com consulta
não vinculativa ao senado.
v. Quanto às competências do CEDU, duas omissões
notáveis, que limitam o seu papel de órgão de decisão
estratégica. Em primeiro lugar, a aprovação do orçamento,
como me parece óbvio. Em segundo lugar, a aprovação
das ofertas educativas. É claro que, no plano técnico, de
concepção e organização pedagógica,
é tarefa do senado. Mas, politicamente, há matéria
estratégica mais importante do que a oferta de cursos, de todos
os níveis?
b) O relatório só prevê a eleição do
reitor. Já tenho criticado fortemente o mecanismo eleitoral que
pode conduzir à escolha de reitores medianos, sem visão
estratégica e com défice de capacidade de gestão.
Não vou citar-me outra vez, mas já propus diversas alternativas
possíveis, todas baseadas num processo geral de selecção
por cooperação entre o conselho e o senado.
c) Ao propor a dimensão de 15-30 membros para o senado, parece
óbvio que se está a vê-lo como um órgão
de poder (com risco de ser de contra-poder), não de participação
académica como o imagino. Os resultados podem ser nefastos, ao
contrário da filosofia de "cooperação"
que propus no referido ensaio. E não é muito difícil
imaginá-la na prática. Veja-se a experiência de "cooperação"
entre o Parlamento Europeu e a Comissão. E porquê, num órgão
que se define como de "supervisão na gestão académica,
científica e cultural", incluir membros externos, que têm
o seu lugar é no CEDU? Parece-me indicar alguma confusão
na concepção destes órgãos.
d) Um pormenor, mas significativo: a importância dada ao conselho
administrativo, um órgão que se sabe virtual, só
para assinar cheques (com atraso e desespero dos fornecedores). O momento
decisivo da administração é o da autorização
de despesa, da competência (formal ou delegada) dos executivos,
não o da autorização de pagamento - digo isto porque
é doutrina da Inspecção de Geral de Finanças
que a autorização de pagamento é que é da
competência do conselho administrativo. Nunca ouvi um dirigente
universitário que me conseguisse justificar, na prática,
a existência do conselho administrativo.
e) O administrador da universidade, "um perito na área económico-financeira,
equiparado a director-geral". As universidades, instituições
de muitos milhares de pessoas, com um "cash flow" de milhões
de euros, precisam de um administrador recrutado de entre os melhores
gestores no mercado. Equiparado a director-geral?!
f) Quanto às unidades orgânicas, uma afirmação
altamente discutível e que julgo não traduzir um bom conhecimento
da realidade: "Sendo nosso entendimento que as pessoas colectivas
de direito público gozam de personalidade jurídica, afigura-se
que a diluição das autonomias pelas unidades orgânicas,
cujos efeitos altamente negativos são conhecidos, deveria ser limitada
- de acordo com o princípio da integralidade da autonomia institucional
- ou seja, pela atribuição aos órgãos centrais
da universidade de jurisdição final em todas as decisões,
fundamentando as suas posições quando for necessário
intervir."
A meu ver, este é um trecho revelador de uma visão centralizadora
da administração pública, contra toda a teoria da
descentralização que é hoje banal. Não me
parece valer a pena comentar tal opinião. Que o façam, entre
outros, os meus colegas directores de faculdade da Universidade Nova de
Lisboa, que sabem tão bem como eu a importância, para a estratégia
das faculdades e para a sua política de inovação,
da sua autonomia administrativa e financeira.
g) A minha discordância com o ponto 8.3.7, sobre a orgãnica
das faculdades, decorre facilmente de tudo o que disse atrás. Para
não estender demasiadamente este texto, remeto para o ensaio que
referi, mas não deixo de referir o aspecto mais importante: a nomeação
e não eleição do director, sem prejuízo de
mecanismos adequados de consulta no processo de nomeação.
h) E porque é que não se propõe um conselho fiscal,
coisa elementar e obrigatória nas empresas? E a publicitação
obrigatória do relatório e contas?
11. Em conclusão, lamento muito que os opositores ao modelo que
eu e muitos outros têm defendido fiquem agora com pseudo-argumentos
para se lhe oporem, por falta de sentido politico deste relatório.
12. Que me desculpem os colegas do politécnico não comentar
as propostas que lhe dizem respeito. Primeiro, parece-me que os erros
são os mesmos. Segundo, acho que só devo falar sobre o que
conheço razoavelmente.
13. "Tarde virá quem de mim bem falará", lembro-me
disto por ter criticado a proposta de lei de autonomia do ministro Pedro
Lynce. Onde é que ficaram, neste relatório, propostas dele
como sejam a possibilidade de reitores externos à universidade,
a não obrigatoriedade de escolha do reitor por eleição,
a nomeação de directores de faculdade, incluindo eventualmente
a de externos, etc.?
Cap IX –- Sistema de avaliação e acreditação
1. Volto a um óptimo capítulo, estimulante para uma discussão.
Como o texto já vai longo, vou cingir-me ao essencial. Mas, como
em outros capítulos, suscita-me dúvidas quanto ao nível
de detalhe operacional, excessivo.
2. Não resisto, para amenizar este texto, a apontar uma gralha
deliciosa: países germanófilos em vez de países germanófonos!
Chirac e Blair devem ficar preocupados com esta ideia da germanofilia...
3. É de realçar, antes de tudo o mais, a articulação
da avaliação e da acreditação, tanto mais
que esta tem sido relativamente pouco discutida como mecanismo central
da regulação das ofertas educativas, embora já consagrada
na lei. Este é, a meu ver, o aspecto essencial deste capítulo
e sempre tenho defendido que a actual auto-regulação é
perversa e não é obrigatoriamente um elemento constitutivo
da autonomia. Da mesma forma, desejo manifestar pleno apoio a alguns princípios
essenciais deste capítulo, que seria injustiça não
realçar, embora omitindo forçosamente muitos outros, por
economia de espaço:
- A ênfase na avaliação institucional e no seguimento
("follow up");
- Neste quadro, a articulação entre a avaliação
pedagógica e a avaliação científica;
- A acreditação dos mestrados;
- A acreditação de programas de doutoramento;
- A obrigatoriedade de acreditação dos cursos já
existentes;
- A obrigatoriedade da auto-avaliação;
- A extinção, não declarada mas adivinhada, da
avaliação endógena e promíscua, a cargo
das próprias entidades avaliadas;
- A maior participação de estrangeiros na avaliação;
Os meus cumprimentos aos A. por tudo isto.
4. Ao contrário do que tenho criticado sobre a demasiada pormenorização,
os elementos processuais para a acreditação de instituições
ou cursos, embora pormenorizados, parecem-me instrutivos e creio que são
consensuais.
5. Pragmaticamente, sempre que tenho defendido a acreditação
de instituições/estabelecimentos ou de cursos, uma das coisas
que me tem preocupado é o custo e dimensão humana deste
processo, tanto mais que, como os A., o vejo como muito internacionalizado.
Mas concordo que os A., neste relatório, não têm que
se preocupar com isto: é um problema financeiro do ministério.
6. Apesar da discussão que os A. fazem da articulação
entre a acreditação académica e a acreditação
profissional, parece-me que a sua solução organizativa da
A4 separa demasiadamente ambas as acreditações. Como já
há muito tempo propus como composição da entidade
de avaliação e reguladora, há vantagens na presença
forte das entidades profissionais. Se assim for, prevejo que muitas acreditações
académicas se converterão quase automaticamente em acreditação
profissional, com economia do processo.
7. A meu ver, uma verdadeira avaliação integrada tem o
seu principal objecto no departamento, como se passa na generalidade dos
países europeus. Mas o que são os nossos departamentos mais
do que um cruzamento difícil entre áreas pedagógicas
e unidades de investigação, definidas à margem da
lógica institucional? Isto remete para a discussão dos centros,
para mim recorrente, mas com pouco eco.
8. O relatório aponta, e muito bem, para a certificação
dos três ciclos. A consequência lógica, de que duvido
que o ministério tirará, é a do financiamento dos
programas certificados, sejam de que ciclo forem.
9. Concordo, genericamente, com os elementos da avaliação
institucional, mas acrescentaria: os mecanismos de garantia da qualidade;
a modernidade da governação; a eficiência da gestão;
a capacidade de inovação.
10. Parece-me que o benchmarking que o relatório refere repetidamente,
e muito bem, está usado com o significado popularizado, por exemplo
pela QAA inglesa, de elaboração de descritores. Gostaria
de ver ir-se mais longe, introduzindo ou premiando a prática de
benchmarking no sentido empresarial, isto é, o exercício
de comparações entre as práticas próprias
e as instituições mundiais de referência, para incorporação
de concepções, organizações, métodos
e processos. Já há exemplos europeus interessantes deste
tipo de benchmarking, nomeadamente nos países escandinavos. Da
mesma forma, considero essencial que as instituições, a
diversos níveis, elaborem e publicitem - é também
um factor de competição - os seus códigos de
boas práticas.
11. Um pequeno pormenor de nomenclatura: já em relação
à bem estabelecida classificação das unidades de
investigação, impressiona-me o "excelente". Temos
mesmo excelência, ou o nosso excelente não é traduzível
para inglês? Preferia uma classificação mais simples
e menos pomposa, por números ou letras. Também é
assim que classificamos os nossos alunos.
12. Ainda outro pequeno pormenor: está hoje bem estabelecido que
o mandato dos membros de uma entidade reguladora independente, para além
da irrevogabilidade, deve ter uma duração mais longa do
que a do órgão que os nomeia. Assim, o mandato dos membros
da A4 devia ser de 5 anos e não de 4.
13. Chegado ao fim deste capítulo, com grande agrado, não
gosto das tabelas finais. Entendo que os A. podem propor ao governo as
linhas gerais das carteiras de indicadores, mas este nível de pormenorização
deve caber à futura agência.

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