João Vasconcelos Costa              28.05.2010    
eu A INQUIETUDE PERMANENTE
Autorretrato de um epicurista, na sabedoria dos 60 - Self-portrait of an epicurean and the wisdom of the sixties

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REFORMAR A EDUCAÇÃO SUPERIOR

12.7.2009

Vale a pena ir a Évora

Em tempos idos, valia a pena pelo Fialho. Talvez injustamente, há muito tempo que lá não vou, pelas críticas de má relação preço/qualidade (e eu não sou padrinho de nenhum dono de restaurante). Depois, o Luar de Janeiro, que depois me desiludiu. Sempre o Grémio, banal mas esmerado, a Cozinha de Santo Huberto na época de caça, não agora, algumas boas tascas. Mais recentemente para mim, embora só para uma vez a provar o excelente cachaço assado, o Quarta-feira, notável pela assimilação alentejana de um beirão do Sabugal.

Neste último fim de semana, um pequeno restaurante para turistas - Mr. Pickwick - num beco esconso, que isto de restaurante para turistas estrangeiros (e eram todas nanja eu) não quer dizer aldrabice gastronómica, onde comi um muito bom borrego assado bem temperado com alecrim e com batata assada, a desfazer-se de macieza, embora com o molho a precisar de maior apuro.

Mas isto é entrada, porque nota a valer a pena é o Lis, do meu caro amigo (acho que já lhe posso chamar assim) António Bravo (AB). Jovem - em comparação comigo -, é uma promessa já consolidada nas duas fileiras, cozinha e vinhos. Sobre vinhos, ainda recentemente falei dele. Neste meu jantar de sexta também há uma nota extraordinária sobre aconselhamento de vinhos a uns clientes na mesa ao lado, mas fica como “private joke” com o AB.

Para mim, o Lis é hoje visita obrigatória, pena que fora das muralhas e do ambiente do centro histórico. É o menos. É um restaurante um pouco ecléctico. A lista, extensa, cobre uma boa colecção de pratos tradicionais alentejanos, (migas diversas, carne com amêijoas, entrecosto assado, pezinhos de coentrada, perdiz estufada), um conjunto de pratos variados incaracterísticos para quem quer caril de gambas, polvo à lagareiro ou bacalhau, dizem-me que um excelente risoto de vieiras, e em terceiro mas não menor lugar uma pequena escolha diária de coisas de cozinha de fusão, concepções criativas de clara inspiração alentejana (por exemplo, no dia, uma costeleta semi-grelhada e acabada como “assada” em calor forte, em papelote, simplesmente com azeite, vinagre, alho e coentro). Receei por esta talvez excessiva oferta, mas depois vi que AB sabe da poda e encaminha os clientes para as quatro ou seis coisas em que a cozinha se esmerou no dia. Há quem nem chegue a pedir a ementa.

Para entrada, tive um muito bom tártaro de atum fresco sobre guacamole. Não vou desvendar os segredos que o AB me revelou, mas um é obrigatório. É o primeiro restaurante em que vejo um bom uso de coisa ainda pouco conhecida, o sal do Himalaia, aromático, pouco salgado, de cor rosada. Não só nesta entrada, é também um moinho de sal que vem para a mesa, juntamente com um moinho de pimenta preta e um de pimenta verde.

A seguir, ainda como entrada, um queijo de ovelha amolecido quente no forno (prefiro esta expressão a gratinado) com uma boa compota de frutos silvestres. Faço muito gratinados de queijo, até do banal Président. Com queijos tradicionais ou industriais, tenho tido dissabores, gratinados em papa ou gratinados emborrachados. AB sabe isto e foi encontrar em Sousel um fornecedor que lhe dá o queijo exactamente adequado.

Passando à substância, tive em conta que jantar para mim, hoje, é coisa ligeira. Fui à sua sopa de peixe, com posta inteira de um peixe de pele vermelha que não identifiquei, sopa rica em legumes meridionais, com pão torrado e batatas cozidas, tempero forte (ligeira crítica minha, talvez um pouco forte demais) a coisa de que muito gosto, hortelã da ribeira.

Claro que, no Lis, a proposta de vinhos é sempre uma surpresa. Valle Padrinhos é vinho tinto que conheço desde há muito tempo. Lembro-me de que por via do excelente escanção do Isaura, pensão de férias graciosas lá para os lados da Praça de Londres, há bem trinta anos. Branco é que não conhecia. Fui pelo conselho do AB, colheita jovem, de 2008, muito bom.

Sobremesas sem mácula, o domínio da mulher. A terminar, coisa que só conseguem se lhe jurarem que são meus amigos ou do nosso comum amigo Manuel, incubador de amizades, coisa muito reservada, a extraordinária aguardente caseira do António Bravo.

P. S. - No sábado, de regresso a Lisboa, o desvio obrigatório a Santiago do Escoural, para almoço no Manuel Azinheirinha. Mas este não justifica nota descritiva, ou mal está quem não conhece este templo da cozinha alentejana. Ontem, uma inesquecível bochecha com migas de espargos verdes.

P. S. 2 - E porque para além de comer também há dormir, aqui fica a recomendação do sítio onde agora fico sempre, o Solar de Monfalim, no Largo da Misericórdia. Quartos demasiadamente pequenos, casa de banho acanhada, estacionamento difícil, mas isto é o menos comparado com o "charme" do velho solar, a localização, o preço, a simpatia do pessoal, o pequeno almoço, o conforto do ar condicionado e da internet, a excelente varanda e latada.

 

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