João Vasconcelos Costa              28.05.2010    
eu A INQUIETUDE PERMANENTE
Autorretrato de um epicurista, na sabedoria dos 60 - Self-portrait of an epicurean and the wisdom of the sixties

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REFORMAR A EDUCAÇÃO SUPERIOR

19.1.2009

Gente socraticamente culta conhece as células umbilicais?

No debate parlamentar de 14 de Janeiro, houve por parte do primeiro ministro uma revelação espantosa, a da criação em Portugal de um banco de células do cordão umbilical. Fiquei boquiaberto. Também preocupado por recear que tão abstrusa matéria pudesse ficar à margem da crítica de muitos cidadãos. Sou assim levado a um esforço de explicação - em linguagem oxalá acessível - do que está em causa e de acusação pública do que entendo ser a desonestidade de tal medida.

Para quê colher e conservar células do cordão umbilical? Para obtenção de células estaminais, de que falarei adiante, ou, para no futuro desse bebé, poder fazer uma transplantação no caso de uma leucémia ou de outras doenças hematológicas? Não vou referir-me a este aspecto, que me parece lógico em termos científicos e de técnica médica mas irrazoável em termos políticos. É apenas uma alternativa, com ganhos de benefícios mínimos em relação ao custo, a outras técnicas correntes, como a transplantação de medula óssea (isto sim, reforce-se a capacidade portuguesa neste campo).

Vou mais discutir uma coisa muito lida nos jornais, as células estaminais, tradução incorrecta de “stem cells” (a). Nos organismos superiores, falemos do homem, todas as células têm a mesma informação genética, as mesmas cópias de DNA que se vão fazendo desde o ovo, por mistura de metade do DNA paterno e metade do DNA materno. É certo que não é bem assim, mas o erro aqui não é grave, é questão de pormenor. Já quanto às funções de cada célula, a chamada diferenciação tornou a expressão dos genes muito diferente. Quase que se poderia dizer que, por questão elementar de economia, uma célula nervosa não precisa de produzir uma transaminase hepática nem uma célula do fígado de produzir um neurorreceptor. No entanto, há uma reserva de células que, desde o desenvolvimento embrionário, não se diferenciaram e ficam com capacidade de, mesmo em tempos tardios da vida, fazerem o que fazem as células do embrião, passarem de células indiferenciadas a células especializadas, a constituirem cada um dos nossos órgãos e tecidos.

Estas células são essenciais, por exemplo, para a cicatrização ou para a regeneração de tecidos. Por isto, muito se fala, e com toda a probabilidade científica, de a implantação de células deste tipo vir a regenerar zonas de lesões ou traumatismos com consequências graves, como sejam enfartes do miocárdio, traumatismos da espinhal medula a causar tetra ou paraplegias, ou até doenças neurodegenerativas como a esclerose em placas ou a doença de Parkinson. Dito isto, onde obter essas células estaminais? E o que é um banco dessas células, agora anunciado?

Como se depreende do anúncio, uma das fontes possíveis é o sangue do cordão umbilical, na altura do parto. A outra, no futuro, será a cultura no laboratório, por tempos indefinidos e em grande quantidade, de células retiradas de embriões fertilizados “in vitro” (expressão tradicional dos biólogos para tudo o que se faz no laboratório, não na natureza ou nos organismos vivos). Voltarei às células embrionárias. Tratemos agora das umbilicais.

A primeira observação é de serem provavelmente muito menos úteis e mais difíceis de manipular do que as embrionárias. Mas o essencial é lembrar que são células que se destinam a enxertos, embora uma forma particular de enxerto, e toda a gente sabe que, no limite, a não ser tirando partido de certa compatibilidade e sempre com riscos e consequências negativas, os enxertos só são indiscutíveis na mesma pessoa (ou entre gémeos iguais), porque a natureza defende a nossa identidade individual com a rejeição de enxertos. Portanto, ao contrário de um banco de sangue, em que também há incompatibilidades (entre grupos sanguíneos, como toda a gente sabe) mas que permitem a sua utilização por muitos não dadores, do que se trata aqui é de uma colecção de amostras individuais que, no estado actual da técnica, será difícil partilhar com outras pessoas.

É por isto que este tipo de “bancos” é hoje ainda coisa de negócio de alto preço. Trata-se de conservar durante anos, em condições laboratoriais exigentes e até pouco seguras em termos de eficácia, células que podem servir para tratar situações felizmente com relativa probabilidade, e com a improbabilidade de sucesso que advém da ainda incipiente investigação sobre este tema. Embora seja muito arriscado palpitar sobre probabilidades, diria que só uma proporção muito reduzida (menos de 1%, aposto) dessas amostras de células umbilicais poderá vir a ser útil no futuro.

Para não me alongar muito, é a esse aspecto da incipiência da investigação que quero chegar. Esta é que é a prioridade, investigar ao máximo a utilização de células estaminais, desenvolver técnicas adequadas de sua expansão e preservação, estabelecer procedimentos terapêuticos eficazes. Ora isto choca-se com a proibição da investigação sobre os embriões, apesar de haver milhões de embriões congelados, sobras da fertilização “in vitro”, de que os defensores de uma crença religiosa de vida desde a fertilização não sabem o que hão-de fazer. Pior ainda se discutirmos, nestes termos, a clonagem, isto é a produção de embriões sem ser a partir de óvulo e espermatozoide (como a célebre ovelha Dolly). A proibição de utilização de embriões para investigação sobre células estaminais tem sido uma bandeira da administração Bush. Obama já anunciou que a vai autorizar. “Yes, we can change”. Fica a UE, Portugal incluído, que, com menos alarido, tem tido igual posição proibicionista.

Um décimo do custo deste projecto delirante - ano de eleições? - daria para muito bons esforços científicos sobre este problema. Digo isto para não poder ser acusado de demagogia, contrapondo a coisas muito mais comezinhas, do funcionamento do nosso SNS. Gostava de saber quem imaginou tal medida propangandística, sabendo certamente que ela só poderia funcionar no terreno da compreensível ignorância pública sobre tema tão complexo, bem como do fraco impacto das declarações honestas, que já se fizeram ouvir, dos especialistas portugueses.

Nunca ouviram falar da ideia estaparfúdia (mas eficaz como negócio) da congelação de cadáveres de milionários a aguardar que a tecnologia da vida permita a sua “ressurreição”' Julgam que, salvo a devida distância, esta de um banco de células umbilicais, pago pelo Estado, e de acesso universal e gratuito (deixem-me rir!) é muito menos delirante? E em plena crise económica mundial! Os deuses estão loucos!

Nota - Não vou referir-me à discussão em curso sobre bancos destes já potencialmente existentes em Portugal, se o Estado os devia apoiar ou não. Não me meto em histórias de negócios duvidosos. Da mesma forma, corro o risco de ter escrito aqui algumas coisas não inteiramente exactas. Não estive a redigir um texto científico, corro o risco de qualquer divulgador, que sabe que a pincelada impressionista nem sempre é avalizada pelo microscópico do perito miudinho, não pode é falsificar o quadro. Espero tê-lo conseguido.

(a) Não faço ideia de quem primeiro traduziu em Portugal ou no Brasil “stem cells” por “células estaminais”. “Stem cell” é uma imagem sugestiva e correcta, a do talo ou haste de uma planta de onde saem os ramos, folhas e flores, que parece conter a capacidade de diferenciação. Estaminais só pode ser o adjectivo (nem garanto que gramaticalmente correcto) derivado de coisa muito diferente, os estames, aquilo que os que ainda se lembram dos seus estudos penosos (?) de botânica são o órgão masculino de uma flor. Creio que já é tarde para impor a designação.

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