João Vasconcelos Costa              02.06.2010    
eu A INQUIETUDE PERMANENTE
Autorretrato de um epicurista, na sabedoria dos 60 - Self-portrait of an epicurean and the wisdom of the sixties

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9.11.2009

O muro, a mescla dos 27 e as culpas dos povos

Caiu o muro de Berlim há vinte anos, toda a gente sabe, nem que seja por ter sido hoje manancial rememorativo de televisões e blogues, embora com alguma injustiça. Toda a gente celebra este acontecimento alemão, claro que com dimensão mundial, mas visto como coisa estritamente germânica, principalmente a grande vitória (de que luta?) dos “bons alemães”, os westies. Quando muito, seria estúpido negá-lo, elogia-se o papel histórico de Gorbatchov, embora eu tenha dúvidas sobre outra história, se Gorbatchov alguma vez pensou que isso do muro cuja queda creio que ele sinceramente desejava iria resultar na destruição da União Soviética, que julgo que ele não desejava.

Mas o que se esquece é um pequeno país, que a vingar-se do olhar zangado moscovita contra algumas veleidades independentistas, a Hungria, foi quem de facto destruiu o muro, ao permitir a abertura de fronteiras Hungria-RDA e Hungria-Áustria, que fez passar, nos dias anteriores, milhares de RDAs para o ocidente.

Também Gorbatchov escreveu em El País um bom artigo, “20 años después del muro, la historia continua”. Pode parecer apologético, mas, para mim, é mais um exemplo da superioridade de análise política de Gorbatchov, um homem que não merecia ter nascido russo num país de gente, aliás de grande qualidade, que nunca o compreendeu. Tenho uma amiga russa que, quando conversava com ela sobre a perestroika, só me retorquia com frivolidades e fofoquices da imprensa russa que ela lia, já impregnada de Ieltsin.

Chega de muro, não tenho nada a acrescentar. Aproveito é para chamar à colação algum olhar atento para um artigo que me caiu sob olhos por alerta do J. M. Correia Pinto. Intitula-se “Memoria tapa memoria” e é escrito por Jorge Martínez Reverte (JMR), um reputado escritor e jornalista espanhol bem conhecido pelos seus desassombrados escritos sobre a Guerra Civil, contra as tentativas de silenciamento das culpas de tantos hoje instalados. E é sobre esta questão da culpa que ele escreve este excelente artigo.

O tema não é apenas metafísico ou ético. Para JMR, é um problema muito actual, de riscos de perturbação grave de uma certa união europeia inicial e muito ocidental, confrontada agora com o alargamento a leste. Creio, como ele, que o alargamento foi um salto em frente, irreflectido. Por um lado, a Europa ocidental (incluindo a Nato, mais perigosamente, mas isto fica para outra história) tinha de consagrar a vitória do ocidente, o derrube do muro, como aspecto folclórico, mas, a sério, as teses sobre o "fim da história", do justamente esquecido Fukuyama. Ouçam-se ainda hoje os alemães de leste, unificados desde há vinte anos, e veja-se como ainda pesa a dualidade ocidente-oriente (contra a tradição histórica, porque todos esses países eram de uma coisa hoje esquecida, a Europa central, Mitteleuropa). No entanto, as potências do verdadeiro ocidente europeu, França e Reino Unido, viram com grande desconfiança essa oportunidade de alargamento da influência alemã a esse leste agora ocidentalizado. Mitterand e Thatcher torceram-se ao ver na televisão a queda do muro.

Com isto, e por compensação, a loucura expansionista a países recém-nascidos para as estruturas, regras, cultura democrática do ocidente europeu, como os bálticos. Só falta mesmo a Ucrânia e, já agora, o Cazaquistão, que nunca percebi como é que figura em organizações definidas geograficamente como europeias. Também, por arrastamento, coisas aberrantes, Chipre (sul ou norte?) e Malta. E se a Madeira fosse independente?

Passo ao artigo de JMR. Não o podendo reproduzir, chamo a atenção para o essencial. Todo o leste europeu, mesmo em tempos recentes, é um labirinto de crimes étnicos, de massacres em que todos colaboraram com todos, de sujeira horrorosa em que ninguém tem as mãos limpas. Alemães nazis que em Munique conquistam os Sudetas, mas checos que, ganha a guerra, expulsam os alemães dos Sudetas. Húngaros que (ouvi-os ao vivo, e mesmo comunistas ou outros de esquerda) só pensam na grande Hungria, com o dobro de população e território, principalmente à custa da Roménia. Também esses romenos especialistas em massacrar ciganos (e os húngaros não ficam muito atrás). Polacos que se juntavam alegremente aos nazis alemães para enviar judeus para os crematórios. Bálticos que se juntaram aos invasores alemães para exterminar os russos que os tinham invadido dois anos antes. Bálticos que ainda hoje, membros da UE, recusam direitos de cidadania aos russos lá residentes, filhos de pais cidadãos de um mesmo estado, a URSS. Muito mais, leiam o artigo que me parece sério, a mim que conhecem como sempre suspeitoso sobre o que se escreve na net. Para nós, acantonados nestas fronteiras seculares, sem problemas de minorias étnicas, sem nacionalidades com língua e cultura próprias, tudo isto é muito estranho. O problema é que, muitas vezes, o que é estranho é remetido para o sótão da reflexão.

Que Europa vamos construir sobre esta confusão? Como vai funcionar o tratado de Lisboa, essa construção artificial para acomodar um albergue espanhol de 27 realidades não só diferentes (o que era bom) mas contraditórias?

Mas, se falamos de culpas, e em Portugal? Tenho hoje uma atitude muito diferente da juvenil, de um tempo em que à esquerda (e esquerda era o PCP, o resto era brincadeira) se mitificava o povo português, isento de pecado de uma infelicidade de que não era culpado, o salazarismo. Pior, depois, o colonialismo e a guerra colonial. A revolução sonhada, o levantamento popular armado, tinham de ser feitos por esse povo. Ele não podia ter pecado original, tinha de ser o herói angélico, o S. Miguel da minha ilha, com asas de arcanjo e espada de fogo vingadora. Eu, jovem comunista, mas com muitos outros mais, dava como sagrado que o Povo, entidade mítica, era detentor de um destino histórico auto-redentor que, obviamente, era incompatível com qualquer aceitação contaminante do fascismo, mesmo que inconsciente. Lembram-se de depois do 25 de Abril, "o povo tem sempre razão"? Como tudo teria sido diferente se alguém tivesse conseguido meter que isto é asneira crassa naquela cabecinha de ouro que se chama Otelo!

Da mesma forma, centenas de milhares de soldados que foram combater em África eram populatres íntegros sacrificados, anticolonialistas em potência, inconscientemente à espera da iluminação que nós associativos universitários, aceitando como missão política a mobilização, iríamos converter em refractários à guerra, em simpatizantes da causa independentista. Bem o tentei, creio que com riscos, mas com total desilusão, quando, depois de uma noite de “doutrinação” via os meus amigos fuzileiros partirem alegremente para uma missão (diga-se que em geral ridícula, com captura de algumas pirogas e redes de pesca ou queima de umas palhotas há muito abandonadas). Muito diferente, isto sim, mas não prevista, foi a influência nos jovens capitães do quadro. Continuo a pensar que foi um factor determinante do 25 de Abril. Mas não eram o povo que, supostamente, íamos trabalhar politicamente.

E não houve massacres, barbaridades, violação de leis elementares sobre os direitos humanos ou mesmo sobre crimes de guerra? Eu compreendo que, a seguir ao 25 de Abril, era impolítico, perigoso para o sucesso da revolução democrática, levantar estas questões. Era o prestígio a defender das forças armadas, eram as solidariedades de caserna a preservar, para impedir golpadas militares (que afinal aconteceram, 11 de Março e 25 de Novembro). Era o tratamento de "Jaiminho" do Otelo a Jaime Neves. Mas já se passaram dezenas de anos e, salvo um ou outro livro obscuro ou a excelente série televisiva de Joaquim Furtado, não temos um “Apocalipse now”, um “Platoon”, uns “Jardins de pedra”, um “Caçador”, um “Nascido para matar”, muito mais.

E não houve gente culpada com nome bem visível na ficha de informador, no cartão da Pide, no cartão da Legião? Nos perintreps? Muitos morreram, mas os seus filhos, que certamente não rejeitam os pais, não herdaram a sua culpa? E, dos milhares de professores primários, regedores, párocos, médicos de aldeia, os suportes rural-boçais da ideologia salazarista, não há hoje vestígios, novamente pensando nos filhos?

É uma diferença para a Alemanha, honra se lhe faça. Lidei muito com uma certa esquerda alemã, principalmente os Verdes. Eram jovens, só conheciam o nazismo de ouvir dizer, mas tinham um enorme sentimento de culpa pelos seus pais, até exagerado em alguns aspectos. Por exemplo, na rejeição total de tudo o que fosse engenharia genética, lembrando-se do monstro Mengele e das suas experiências de “eugenia”.

No fim, este texto vai dedicado à Diana Andringa, a quem devo uma hora de deleite com o seu documentário de catarse da angolana privilegiada do Dundo, a conviver com ela portuguesa minha jovem companheira de lutas estudantis. No seu filme, ressalta o problema da culpa, que ela até explica no filme à sua filha, em partilha de vida funda. Fiquei perturbado com isso, muito mais a minha mulher angolana. Também eu sinto essa culpa, embora um pouco menos por não ter beneficiado directamente do colonialismo.

Volto ao que disse atrás, coisa até um pouco de raiz messiânica, judaico-cristã. Tínhamos, jovens eu e outros, de preservar a inocência do povo português, mas alguém tinha de ser culpado pelo salazarismo, pelo colonialismo, pela guerra. O que é paradoxal é que só vejo este sentimento de culpa naqueles que menos o deviam sentir, porque foram lutadores antifascistas. Pela minha parte, talvez parvamente, faço-me de pequeno Cristo. Se a canalha política que por aí anda não consegue sentir a culpa portuguesa, sinto-a eu, assumo-a, faço dela a razão da minha luta política, pequena luta mas de quem sentiu que tinha de se redimir de um pecado. Porque se não for eu, que não consegui pessoalmente mais do que pequeníssimas coisas nessa luta que levou ao fim do fascismo, certamente que não serão os pais dos jotas chico-espertos que por aí andam e muito menos esses, que não sentem nada o herdar culpas paternas.

Todavia, faz sentido mortificarmo-nos? Não é questão de penitência irracional, é de compreensão lúcida, de crítica construtiva. A nossa história não pode ser, facilmente e definitivamente, a triste submissão ao mal, predestinada. Se for assim, não somos culpados mas somos piores, somos animais inconscientes e acéfalos, desprovidos de motivações éticas. De uma vez por todas, mesmo que cada um, individualmente, nada tenha feito de mal; mesmo, que, no caso dos portugueses em África, muitos tenham sido bons amigos dos nativos, muitos, que conheço e estimo, se horrorizem com a violência colonial; que até desejavam uma independência utópica que as realidades não permitiram; somos todos portugueses de um Portugal culpado. É difícil distinguir a culpa colectiva de uma coisa muito diferente, a soma das culpas individuais, mas só seremos finalmente portugueses de parte inteira se assumirmos a nossa culpa como país.

Claro que há a alternativa, a reconciliação, como na África de Sul de Mandela e de Tutu. Mas isto é coisa de pretos! (Espero que se perceba que é ironia...)

P. S. (10.11.09) - A minha leitora mais crítica, sempre muito interessada na África do Sul, chama-me a atenção para uma omissão minha importante. O processo de reconciliação não é uma alternativa, não foi o esquecer de culpas. Pelo contrário, foi perdão mas só para os que reconheceram expressamente a sua culpa e mostraram arrependimento. A comissão Tutu foi um verdadeiro tribunal, embora sem sentenças. O processo espanhol também parecia prometer, mas as suas fragilidades e constrangimentos revelam-se com as dificuldades que Garzón tem tido.

 

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