João Vasconcelos Costa              28.05.2010    
eu A INQUIETUDE PERMANENTE
Autorretrato de um epicurista, na sabedoria dos 60 - Self-portrait of an epicurean and the wisdom of the sixties

O meu outro sítio:

REFORMAR A EDUCAÇÃO SUPERIOR

9.6.2009

Os malefícios da Net

Todos os dias somos bombardeados com terrorismo intelectual veiculado pela net. É eficaz e bem feito, pelo menos ao que se vê por uma consequência: gente inteligente, educada, faz difusão em cadeia a dezenas de correspondentes. Dezenas a multiplicar depois por dezenas e dezenas, é uma enorme reacção em cadeia de estupidez, de desinformação, infelizmente também de crueldade.

A internet tem duas faces, primeiro a de fonte de informação que não dispenso. Há anos, precisava de folhear livros e livros para resolver uma dúvida, ter uma enciclopédia à mão, telefonar a amigos especialistas. Mas também a de veículo de irracionalidade, de “filosofia clínica”, de evangelismo brasileiro, de burlas primárias (ainda há quem caia no golpe da Nigéria, como se viu há dias). Uma coisa é o reverso da outra, é o preço que se paga, da mesma forma como antes pagava bem pela minha biblioteca científica, hoje quase gratuita. E, afinal, vendo bem, ainda me lembro dos santinhos de S. Judas Tadeu que os meus pais recebiam pelo correio, com terríveis ameaças se quebrassem a cadeia.

Mas há limites, que me parecem fazer fronteira com muitos casos internéticos de psicopatia, de sadismo, de perversidade malévola. Um caso típico, para mim, é o da exploração de situações humanamente intocáveis, doentes de cancro, mães de filhos deficientes. Nunca expando este tipo de mensagens, mas vou abrir excepção para que se veja, garantindo desde logo, como especialista, que esta apresentação é total aldrabice. E foi com dor que tive que a desmistificar com destruição de alguma esperança de uma amiga com cancro grave que ma mandou a pedir-me opinião.

Nos últimos tempos, também muita coisa sobre a gripe. Um amigo escreveu-me impressionado com o que lhe parecia um grande suporte científico, com citações segundo as normas científicas, das declarações do tristemente célebre (muito antes da gripe) "Dr." Horowitz. Respondi-lhe: “Enganas-te, meu caro. Se fores procurar bem, todos esses nomes são inventados. Simplesmente, ninguém se dá a esse trabalho de verificação. Eu tenho-o feito porque este assunto me tem preocupado. E é fácil, porque o lado negro da net é a outra face do lado bom, a possibilidade de hoje irmos verificar e confirmar todas as informações.”

Também outro exemplo, o do efeito cancerígeno de um banal detergente muito usado nos laboratórios e até em sabonetes e pastas de dentes, para fazer espuma. Claro que era pura aldrabice e coisa já antiga, com referência a um "cientista" americano. Nesta nova versão, a "brincadeira" era obviamente de refabricação portuguesa, porque vinha avalizada por uma professora da U. Nova de Lisboa, com nome, especialidade e tudo, inventada. A coisa correu tanto que mereceu um desmentido na net da universidade.

Outras vezes são coisas tão evidentes de aldrabice que me fazem pensar em pura brincadeira, embora perigosa. A última que vi até se baseava num imaginado osso humano minúsculo atrás da orelha, coisa que uma procura na própria net, por exemplo pela wikipedia, desmentiria imediatamente. O problema é que o pessoal é muito amador no uso da net.

Recordo características comuns deste terrorismo contra-informativo na net.
1. quando há um autor identificado (Horowitz e outros), são doutorados por universidades inexistentes ou especialistas só por terem sites fantasistas na net.
2. há uma mistura equilibrada com informações correctas mas banais, no início do texto, que dão credibilidade se o leitor for verificar. A partir desse ponto, confia-se em que o leitor já acreditou e começa a fantasia.
3. há grande tendência para abordar temas de grande impacto médico-psicológico: cuidados com os filhos, cancro, ameaças ambientais, etc.
4. as abundantes referências científicas dão erro 404 no browser ou remetem para sites pessoais.
5. quase sempre, teoria da conspiração, interesses ocultos de grandes empresas, até capazes de produzir um novo vírus da gripe.
6. frequentemente há um exagero de cores, bolds, pontos de exclamação, etc., pouco compatível com a austeridade típica da escrita científica (reparem que eu escrevo sempre as minhas mensagens de correio electrónico em "plain text", a não ser em respostas a mails com formatação).
7. invariavelmente, apelo a amplificação da mensagem, só faltando ameaças de penas infernais a quem quebrar a cadeia de S. Judas Tadeu.
8. ciclos de envio, por vezes com intervalo de anos. Quando receberem uma coisa destas, copiem a primeira frase e metam-na como chave de pesquisa no Google. Aparecem coisas iguais com anos e anos de idade, com pequenas alterações, principalmente dos "cientistas" que credibilizam a fraude.

Agora entro eu, para variar, na teoria da conspiração, porque tudo isto já tem uma dimensão preocupante de intoxicação colectiva e porque "no creo en las brujas, pero que las hay hay".

1. A minha primeira tendência é para considerar que a origem destas coisas é simplesmente psicopática. Mas quem as cria sabe com certeza como se fazem as coisas (mostrei acima) e sabe bem explorar a crendice e as condições de difusão da "pandemia". É feito com muita técnica. Não haverá mesmo nada de organizado em tudo isto, de movimento secreto de manipulação das mentalidades?

2. A acusação constante a empresas criminosas não terá alguma coisa a ver com guerra empresarial?

Desculpem-me se acham que também já estou a entrar em delírio.

P. S. - A propósito: tenho o cuidado de fazer de tempos a tempos uma pesquisa no Google com o meu nome, para ver se não há referências fraudulentas.

No Moleskine >>>
Página principal >>>

Design © - João Vasconcelos Costa, 2009

Valid XHTML 1.0 Transitional