João Vasconcelos Costa              28.05.2010    
eu A INQUIETUDE PERMANENTE
Autorretrato de um epicurista, na sabedoria dos 60 - Self-portrait of an epicurean and the wisdom of the sixties

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REFORMAR A EDUCAÇÃO SUPERIOR

8.6.2009

E agora, José?

Os resultados de ontem foram tão claros em significado que qualquer comentário se arrisca a ecoar as banalidades que toda a comunicação social e bloguística escreveu hoje. Vou tentar resistir e só adiantar algumas provocações à reflexão, avulsas, não elaboradas, por isto até numeradas mas a eito.

1. Os eleitores castigaram Sócrates (JS). É óbvio. Mas castigaram o quê? O que tenho lido é que castigaram as políticas, o que poderia permitir, embora com muitas dificuldades temporais, uma correcção por golpe de rins das políticas. Creio que não. As políticas, faça-se justiça, até nem foram muito negativas. Reduziu-se o défice, resistiu-se minimamente à crise sem que o bolso do cidadão se ressinta muito. O que aconteceu foi as políticas terem sido sempre aplicadas com a mais insensata inabilidade política, com uma arrogância desmedida que ofendeu tudo e todos e que fez esquecer muito que de positivo, objectivamente, tinham as medidas adoptadas. O Zé Povinho até é submisso, atento, venerador e obediente. Gosta de governantes com a imagem do pai que lhe dava sovas de cinto mas para bem dele, para o fazer homem, pais como Pombal, João Franco, Salazar, Cavaco. Mas detesta, porque inveja, o chico-esperto que consegue entre dois ressonos a dormir o que o Zé não consegue a trabalhar na leira de sol a sol.

Contra isto, coisa de fundo, JS, em três meses, não vai poder fazer nada. Obviamente que não pode remodelar o governo, pior a emenda do que o soneto. Mudar políticas, se ainda fosse possível - e vêm aí as férias - já disse que, a meu ver, é secundário. Mudar de estilo é muito mais difícil, está no corpo, dele e dos seus ministros escolhidos à imagem e semelhança, embora, como Jeová e Adão, em níveis diferentes.

O Zé também tem uma forma peculiar de arrogância primária, de capacidade de juízo sem margem para dúvidas. Assim, as subtilezas do benefício ao presumido inocente não valem nada. JS está condenado com sentença transitada em julgado popular por ter tido uma qualificação académica charunfosa, por viver não se sabe bem como num edifício de luxo, por ter assinado para amigos projectos de casas com fachada de azulejos de casa de banho, por ter o azar de ter tios e primos que não se livram da acusação de mafiosos freeports. Por tudo isto, ler ontem e hoje que, afinal, descalabrado que foi Vital, só JS valeu ainda à limitação de avarias, parece-me sem sentido. JS deixou de ser parte da solução, é claramente parte do problema.

E quem semeia ventos colhe tempestades. A insensatez vitaliana do levantar como fez o caso BPN vai permitir ao PSD, ou por vias marginais, de imprensa e outras, fazer o mesmo grelhando lentamente JS nas brasas do Freeport.

2. Até que ponto podemos discutir as legislativas com base nestes resultados? Tenho muitas dúvidas. As europeias permitem facilmente votos de aviso, emotivos, que podem mudar muito quando a racionalidade do voto útil pesar, nas legislativas. Também a abstenção provavelmente altera significativamente o significado do voto expresso.

Mais, parece-me que nestas eleições não pesou obesamente o papel dos dirigentes partidários, por elas terem sido muito centradas na figura do cabeça de lista. Acho que Rangel teve um papel muito importante, que até seria de considerar como indigitado candidato a primeiro ministro nas legislativas, e que Manuela Ferreira Leite não vai ser tão bom argumento eleitoral nas legislativas.

A própria vitória expressiva do PSD pode ter efeitos paradoxais. Em vez de animar as hostes - e é bom que acabem com o espectáculo ridículo de ontem de uns JSD com ar de imbecis a obrigarem os líderes a slogans patetas, com o próprio Rangel a gritar “ninguém para o Rangel”! - é possível que muita gente que mostrou o tal cartão amarelo ao PS fique agora com medo de lhe mostrar o cartão vermelho em Setembro, não venha outra vez o governo de direita. Admito que a subida substancial da esquerda tenha vindo principalmente de eleitorado do PS que, nas legislativas, pensará duas vezes.

3. Parece-me inegável um paradoxo: sociologicamente e eleitoralmente, o bloco central encolhe, mas politicamente ganha peso. PS e PSD somaram 58,3% dos votos. Tinham tido 73,8% nas legislativas de 2005. À direita, o CDS não muda muito, 8,4% agora, 7,3% em 2005. Marcante é a diferença do conjunto PCP e BE, 14% em 2005, 21,4% agora. O que resulta é que a fronteira esquerda-direita não fica posicionada da mesma forma. O PSD ganhou ontem mas não o suficiente para garantir em Setembro a vitória de um bloco de direita PSD-CDS, que só teve ontem 40,1%, insuficiente para uma maioria parlamentar, muito menos se em coligação pós-eleitoral.

No entanto, a maioria de esquerda de ontem é fictícia. Ninguém acredita numa coligação PS-PCP. Quanto a uma coligação PS-BE, a meu ver não tão espúria como alguns possam pensar, não sei como será possível depois das incursões corsárias do BE às aldeias costeiras alegristas e, mais importante, aos inesquecíveis ataques de António Costa no congresso do PS. Louçã nunca me conseguirá surpreender, conheço-o de ginjeira, mas engolir isso até me pareceria demais.

Vamos admitir que os dois amigos do centrão vão disputar o primeiro lugar taco a taco, em Setembro. Ganha o PSD? Não consegue provavelmente ter maioria de governo com o CDS. Ganha o PS? Não tem hipóteses à sua esquerda. Receio muito que venha aí o execrável bloco central. O que não deixa de levantar uma questão marginal: se for o PS a ganhar, como é que JS, habituado a governar em absoluto neste mandato, vai saber negociar com o seu parceiro encabeçado pela inimiga de estimação? Isto faz-me voltar a uma questão que pus atrás, a necessidade imperiosa mas absolutamente impossível de o PS arranjar dentro de dois meses um substituto para o engenheiro.

4. Vital Moreira (VM) foi a desgraça anunciada que aqui referi oportunamente. Politicamente, VM sempre foi um equívoco. Nos seus tempos do PC, não teve qualquer traquejo político, nunca dirigiu alguma organização política, nunca foi desafiado a lidar com a psicologia colectiva política. Sempre foi um homem de gabinete. Está-lhe no feitio algum elitismo que lhe arrepia a pele no contacto com a gente da rua. Querendo agora fazer comício, foi patético. Nem da sua imagem física cuidou e ficou ridicularizado por alusões jocosas a figuras do cinema infantil. Mas nada disto teria importância comparado com o seu degradante desvio da campanha para a chicana e, no fim, ainda ontem, coisas inadmissíveis: a ausência de um cumprimento pessoal e privado ao seu adversário vencedor, a reclamação contra a “ameaça” política da subida eleitoral do sector político à esquerda do PS e, principalmente, o alarme em relação à ingovernabilidade, pela tal diminuição do peso eleitoral do bloco central. Com isto, VM legitima a suspeita de que já não é um possível factor de influência no PS, pela sua esquerda, mas sim um elemento claramente posicionado na zona do PS que intersecta o PSD, de braço amigavelmente dado.

5. Há um partido de que ninguém tem falado, aquele em que votei, pela positiva: o do voto em branco. Não é abstencionista, é de gente que tirou tempo ao seu domingo para ir votar. Foram 4.6% de votos, tantos quanto a soma dos pequenos partidos, eventualmente (hei-de fazer as contas pelo Hondt) o suficiente para eleição de um deputado fantasma. Duplicou a votação, em relação às europeias anteriores e destacou-se dos 1,8% das legislativas de 2005. Como sou parte interessada - muito provavelmente será novamente o meu voto nas legislativas - fico por aqui.

6. O PCP aguenta-se. Quase vinte anos depois da implosão do mundo soviético, e para quem tem um sentido não imediatista da história, como é o caso dos dirigentes comunistas, nada mau. São é ingratos, tão bons favores lhes têm feito os “verdes” e não lhes asseguraram um deputado.

7. Outro derrotado foi Carlos César. Longe da minha terra, não sou capaz de comentar o que foi o descalabro do PS nos Açores. Provavelmente, também ele não, porque veio argumentar com toda a saga do estatuto dos Açores, quando se sabe que o ressentimento autonómico poderia ser contra Cavaco e, indirectamente, contra o PSD, mas não vejo como contra o PS.

8. Derrotado piedosamente esquecido foi também Alegre. A meu ver, estas eleições foram o seu fim. Poder-se-ia dizer que não, que a derrota de Sócrates o beneficia. Se sim, seria vitória de Pirro. Alegre tem uma total incapacidade de gestão dos “timings” e apareceu antes destas eleições como não tendo querer afrontar o aparelho oficial do PS, ser acusado de prejudicar eleitoralmente o partido. Afinal o partido perdeu, o seu adversário de estimação perdeu e Alegre não vai conseguir tirar disso o menor proveito. E, entretanto, a sua muleta BE ganha e cada vez menos precisa de Alegre. Depois da possível derrota do PS em Setembro, ou de uma provável crise algum tempo depois de um desconchavado concerto de bloco central, para que JS não está fadado, o PS vai procurar alguém (António Costa? Pedroso? Vitorino?), mas não o poeta já setentão. O tempo de Alegre acabou definitivamente. Espero que ainda não para umas boas caçadas de perdiz. E que me mande algumas.

P. S. - Enganei-me. Afinal, Carlos César responsabiliza é Vital Moreira. Já não digo nada.

P. S. 2 - Se fosse partido, o voto branco teria eleito o 18º deputado (em 22).

 

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