| João Vasconcelos Costa 28.05.2010 | |||||
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6.3.2009 Que viva Keynes! Esta súbita reconversão geral ao keynesianismo, como tentativa de combate à crise, é afinal, para mim, o mais evidente sinal de uma globalização que, até agora, era um pouco exercício de retórica e brilharete de analistas planantes na esfera dos favoritos dos deuses. Agora não, a globalização é palpável, é a noção que tem o homem da rua de que as “poupanças” malucas em francos suíços dos húngaros podem pôr em risco a capacidade de controlo a nível europeu, que pode abanar até o euro, e lá se vai à vida a pobre economia portuguesa, vestida com esse roupão de lantejoulas de puta cara mas que não tem o hábito de tratar minimamente da sua higiene diga-se, economia). Dizia que a receita neo-keynesiana anda a apertar na formatura tudo o que é decisor, parece globalização de ordem unida na parada. Infelizmente para nós, talvez não. Obama deu prioridade ao investimento na educação. Escrevi recentemente sobre isto. Sócrates diz idem, mas posso suspeitar de que isso é mais uma das suas proverbiais “faltas de rigor” (hoje deu-me para ser generoso) e que o homem está mesmo a sonhar é com coisas de betão, que até se vêem em inaugurações festivas e enfardanço de croquetes oleosos, eventualmente como entrada de almoço volante de bacalhau espiritual e de arroz de pato. Mas admitamos que o nosso primeiro está mesmo a pensar a sério numa prioridade da educação. O que é que isto significa? Construção de escolas? Mais e mais Magalhães? Contratos com a Microsoft, sem qualquer criação de riqueza e de conhecimento nacionais? Ou uma perspectiva à Obama, como escrevi, que pode ser trazer à escola tudo o que possa ser bom professor, baixando-lhes os impostos e pagando-lhes mais? Não sendo economista, creio, com senso comum, que o investimento público em época de crise financeira, tem três critérios essenciais: 1. abordar a crise financeira integradamente com a crise económica, porque é a produção que cria riqueza, não a “economia virtual” do mercado financeiro; 2. centrar os esforços mais na criação de procura do que na manutenção de uma oferta que pode não ter sustentação real do mercado; 3. minimizar as consequências do desemprego. Só vou reflectir um pouco, como leigo, sobre o desemprego, e em termos do que pretendo que seja uma visão de bom senso. Muito se tem falado sobre o efeito do investimento no betão sobre o emprego. Há um aspecto específico em que não me quero meter agora, embora me preocupe até em termos de riscos de emergência de reacções xenofóbicas e fascistas: o facto de o emprego na construção civil estar muito ligado a comunidades não originalmente portuguesas. Para além deste emprego directo nas obras, o que se ganha em emprego e actividade económica, fora os gigantes, cimento e ferro? Camionagem, extracção de areias, tintas e materiais de pouco valor acrescentado. Entretanto, quem é que vai ser empregado? Os que vão ser afectados primordialmente pelo desemprego? Estamos já a ver quem são. Primeiro, desqualificados, principalmente mulheres - operárias têxteis e das pequenas indústrias de montagem, empregadas domésticas, caixas de pequenos estabelecimentos comerciais a falirem. Vão ser empregadas nas novas obras de aparato? Também, noutro extremo, jovens qualificados, com formação superior, ou que ainda não conseguiram emprego e não o vão conseguir, ou que estão em situação precária. Vão para as obras? Neste caso, nem digo que não, mas será uma tragédia absurda em termos de rentabilização do nosso capital humano. Com tudo isto, volto ao investimento na educação. O quadro parece-me de uma clareza cristalina. Rejeite-se liminarmente a perspectiva do betão, que seria um absurdo se aplicada à educação. Construir escolas onde, onde a desertificação as está a fazer fechar? Nas zonas mais povoadas, qualquer pai que acompanhe os filhos sabe que, em geral, o nosso parque escolar é aceitável (por exemplo, mais do que o hospitalar). Também a perspectiva do equipamento, que receio poder ser uma tentação demagógica, tudo “engenheirices” saloias (os verdadeiros engenheiros sabem do que(m) estou a falar) que de tecnologias da informação têm uma visão Armani-"outlet" de novo-rico. Não vejo que haja capacidade sócio-cultural de absorção de mais coisas à Magalhães, que, ainda por cima, só criam riqueza em nichos muito circunscritos (e se calhar nem isto: qual é a facturação bruta ligada à exportação de Magalhães?). Também elementar: se o investimento na educação criar emprego e actividades económicas periféricas e, ao mesmo tempo, acrescer o capital humano para futuros saltos de desenvolvimento, passada a crise, não é ouro sobre azul? E esse investimento cria emprego? Claro que sim, se incidindo num aumento de actividades, numa perspectiva funcional e não infra-estrutural. Muito importante, pela complexidade do trabalho na educação, cria emprego diversificado, desde o professor, o formador, o planeador de novas formas de educação, também o psicólogo escolar e o assistente social, depois o técnico de multimédia ou o animador cultural, até à auxiliar, a tal desempregada da fábrica têxtil falida. E o que chamei as actividades económicas periféricas? Transportes escolares, cantinas, papelarias, editoras, produtores de multimédia, etc. Então, que fomentar? Tanta coisa, só posso dar exemplos. Desde logo, o contributo para a disponibilidade dos pais para um maior horário de trabalho e para a sua capacidade de procura de trabalho por conta própria, para além do emprego: creches e pré-infantil, aumento da permanência das crianças na escola, rede de transportes de e para casa (já pensaram no que foi a importância dos “school buses” para o desenvolvimentos dos EUA?). Depois - ou antes - obviamente que uma acção de reforço do contigente de educadores (não falo só de professores, também de uma gama vasta de tipos diversos de formadores), mesmo que contratados precariamente, numa perspectiva de resolução da crise. Paradoxalmente, coisas que poderão parecer luxo em tempo de crise: turmas mais pequenas, desenvolvimento de aptidões que eu vejo ausentes dos alunos que me chegam à universidade (espírito crítico, sentido de prazer do conhecimento, capacidade de iniciativa e desafio competitivo da inovação, ética do conhecimento, consciência social, etc.), treino em línguas, prática divertida de jogos de estímulo intelectual, com relevo para os jogos matemáticos, educação para a saúde, gregarização, desenvolvimento da convivência multiétnica, tanta coisa mais. Sendo mais directamente prático, urgentemente a criação acelerada de um programa de ensino tecnológico a nível de educação secundária terminal ou mesmo pós-secundária. Os CET já existem? Não se brinque com coisas sérias. Só a falta de espaço me impede de discutir adequadamente tema tão importante. Mas como fazer? É óbvio que não com um elefante branco chamado ME, ainda por cima afogado numa guerra inglória com os professores, mesmo que com razão em muitos casos. Mas também, pelas mesmas razões, não com os aparelhos institucionais dos professores (sindicatos, órgãos directivos escolares dominados pelo corporativismo). Não se pode exterminá-los, não temos tempo, sairia caríssimo em custo de guerra. Deixá-los ruminar os seus excessos prandiais e pague-se isto para não terem veleidades de "chatear". Forme-se, urgentemente, é uma estrutura muito dinâmica, um gabinete de crise, com gente - e há, a todos os níveis do sistema educativo - que já pensou muito e que é capaz de pôr em prática de um dia para o outro um programa de emergência. Entretanto, congelem-se coisas até importantes em tempos normais, mas não quando a guerra impede que se limpem as armas, coisas de carreiras, de avaliação, de formalidades de gestão. E, principalmente, que se vá para o terreno a pescar à linha e convencer, entusiasmar, premiar também, os muitos professores que estão fartos da situação que se tem vivido e que desejam um desafio àquilo que querem ser, bons professores. E, por isto, acima de tudo, mostrem, senhores políticos, que sabem o bê-à-bá da vossa actividade: a política é a arte da condução dos homens. Não é a realidade virtual da moda tecnológica, do discurso de papagaio, da pseudo-cultura. É o sentir a capacidade e a disponibilidade das pessoas, é o dizer-lhes olhos nos olhos que "o teu país está a precisar de ti", é o fazer-lhes sentir o orgulho de mostrar depois as cicatrizes do dia de S. Crispim. Também uma coisa muito elementar, mas que o nosso leviano espírito de avestruz nos pode fazer esquecer: a Irlanda do nosso encanto há uns anos está falida; a Islândia rica, culta, civilizada, sobranceiramente desnecessitada da UE, idem; a Hungria, à nossa frente em muitos parâmetros, idem. Vamos precisar do eventual descalabro do outro mito, a Finlândia, para nos convencermos de que o rabo já nos está a arder? E quem nos vale? O "engenheiro", Manuela, Paulinho, frei Louçã, Jerónimo (este ao menos, com este nome, sempre faz lembrar guerras de índios)? Ou Cavaco, salvo seja? À margem - Muito do que aqui fica dito se aplica, mutatis mutandi, a outro sector de investimento, a saúde. Creio poder dizer alguma coisa, mas não me sinto tão à vontade como em relação à educação. Alguém quer aproveitar a deixa?
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