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3.7.2009
Eu, democrata triste
Mandei este texto só a alguns amigos, por várias razões. Não quero que pequenos episódios, tristezas da minha memória de elefante, possam ser usadas para diminuir o que é essencial, neste caso a democracia, o parlamento. Sempre detestei dar tiros nos pés ou oferecer munições aos meus inimigos. Mas não são os parlamentares os primeiros a deverem garantir que são respeitados? E, insistindo um caro amigo em que esta nota merecia publicação, cá vai.
Estou a ver o debate do estado da Nação (1.7.09, o dia dos cornos). As sessões parlamentares, na casa de Garrett e de José Estêvão, são um espectáculo lamentável. Campeia a leviandade pomposa, a vaidade que derrama dos "back benches", a falta de rigor, a desonestidade intelectual, a demagogia, a esperteza videirinha e afrodisíaca - que esperto que eu sou, não é, querida? - com expoente caricatamente máximo no ministro Santos Silva. Tudo o que mais ofende a minha estrutura intelectual e ética. E também a memória dos valores pelos quais lutei em jovem, tanto quanto pude.
Mas o que me custa mais ver são os macacos de serviço, alguns até sentados junto aos seus líderes parlamentares. Gesticulam, riem, dizem piadas, fazem coro de "opera bufa". São os palhaços mais bem pagos do nosso mundo circense. Será que naqule histrionismo não resistem a aliviarem-se? Se sim, são os traques com maior valor na bolsa das ordinarices. Mais, eu até fico a pensar que eles não estão só a fazer um frete, que realmente acham que são muito espertos, muito engraçados, falados no café do bairro quando lá vão comprar o semanário, "que bela piada, sr. deputado, melhor só o Pacheco", que vão ficar na história do parlamentarismo. Coisa difícil, a ganhar a gente com muito bom e baixo handicap, Gouvarinho, Abranhos, Lello, Ângelo. Se eu fosse um dos seus filhos a ver o programa, ficava cheio de vergonha.
Afinal, razão tinha o tal Abranhos, quando ficou envergonhado por as suas grandes ambições, na sua estreia parlamentar, terem tropeçado numa pilhéria, a única coisa que a imprensa aproveitou. Passou-se o mesmo na estreia parlamentar de um amigo meu, com quem eu tinha a confiança suficiente para lhe chamar a atenção para am triste situação. Qual quê, estava deliciado porque toda va gente falava da sua promissora estreia.
"Panem et circenses". É verdade que a história se repete sempre como farsa, disse o meu mestre, hoje tão vituperado. Foi drama na decadência da república romana e no desprezo pelos valores republicanos. É hoje farsa para mim, esta mediocridade da nossa vida política. Para mim? Não, estou convencido que para muitos da minha geração dos sessentões que lutaram, hoje esquecidos, desprezados pelos videirinhos santossilvenses, pelo superchicoesperto da Cova da Beira, gente que prcisa da política ao seu nível mais rasteiro para se "realizarem" na vida. Reparem só: ao escrever isto, estou a passar em fita na memória os meus amigos dos 60s. Todos com a sua actividade profissional bem conseguida, experiência de vida, sabedoria, política sempre como uma paixão herdada da juventude contaminada letalmente por qualquer interesse medíocre de proventos e prebendas.
Julgam que estou a idealizar? Antes das europeias, disse a um grande amigo geracional que não me restava mais nada, a olhar para o pântano viscoso e nauseabundo, do que votar em branco, uma espécie de ablução. Foi o que fiz e provavelmente farei nas legislativas. Ele discordou, votou num partido de protesto, para mim afinal perfeitamente inserido no sistema. Hoje, é ele que escreve: "É que não me passa pela cabeça votar num fantasma, numa ausência, numa não-candidata. E como não me vejo a votar no dr. Rio, num dos seus cúmplices, Rui Sá, o cavalheiro do PC que andou com ele às costas um largo período ou no Bloco, resta-me a hipótese desagradável de votar em branco ou de ir para a praia, coisa pouco salutar em Outubro. E como eu, muito boa gente, fez, começa a fazer ou ainda fará o mesmo raciocínio." Mas porque não o partido do voto em branco? Mais que duplicou de votação, nas europeias.
P. S. (4.7.2009) - depois do escrito anterior, dá-me gosto reproduzir uma notícia de hoje, no Público:
"Foi um gesto inédito o que se viu anteontem na Assembleia da República - não estamos a falar do que o que Manuel Pinho fez com as mãos, mas do elogio personalizado que o líder da bancada do PSD, Paulo Rangel, de partida para o Parlamento Europeu, dirigiu a deputados de todos os grupos parlamentares. Rangel assinalou, entre outros, "a cultura lúcida do Fernando Rosas" (BE), "a inteligência ímpar do António Filipe" (CDU), "a dignidade - que faz dele o melhor de todos nós - do Marques Júnior" (PS), assim mesmo: tratando-os por tu e sem poupar nos adjectivos. Por sinal, até teve mais pudor em falar da sua própria bancada. "Fui mais comedido. Como sou líder parlamentar, ficaria mal fazer essas distinções", explicou ao PÚBLICO.
O gesto surpreendeu os seus colegas de bancada. "Não me lembro de alguma vez ter sido feito", diz Rosário Carneiro, do PS. "É bastante inédito", nota Teresa Caeiro, do CDS. "É pelo menos raro", admite Nuno Magalhães, também do CDS. Todos os deputados a quem pedimos ontem uma reacção foram referidos no discurso de Rangel. Fernando Rosas diz que foi um acto de "generosidade intelectual", que "implica alguma coragem política, na medida em que não é vulgar na nossa vida política". Para Maria de Belém, é uma "boa prática, que devia ser norma nas relações parlamentares". Mas não é - pelo menos, com uma visibilidade pública. A actividade parlamentar, explica Teresa Caeiro, está muito marcada por uma lógica territorial. "Um exemplo: quando o Presidente da República vem à Assembleia, muitas vezes os partidos que não o apoiaram não batem palmas. Nos EUA, o Presidente vai ao Congresso e é aplaudido de pé por todos. Criou-se a ideia de que as convicções parlamentares e partidárias ficam menorizadas quando se reconhece o mérito de outros que não têm as mesmas ideias que nós."
O comunista António Filipe refere que o gesto de Rangel reflecte o "relacionamento pessoal muito correcto e cordato entre os deputados, independentemente das divergências frontais que têm". Mas a imagem pública não é essa - no imaginário colectivo, o debate parlamentar assenta na tensão e no conflito. "É natural que a imagem pública não seja essa", diz António Filipe. "Porque o que é visível do debate político é a polémica. Quanto mais acalorado for, mais notícia é."
Mas as relações entre os deputados também passam por outros níveis, com menos visibilidade pública: o trabalho nas comissões, que tem uma lógica de maior colaboração, nota Paulo Rangel ("É um trabalho construtivo, colectivo"); e as relações pessoais, que "geralmente são muito cordiais" e em que "todos os cruzamentos são possíveis". António Filipe reitera: "Há pessoas de bancadas diferentes que são amigas".
Marques Júnior, do PS, detecta hoje nos debates da Assembleia "uma certa crispação, que tem uma dimensão muito maior do que tinha antigamente". Fernando Rosas atribui a responsabilidade disso ao primeiro-ministro José Sócrates e às suas intervenções no Parlamento. "Ele imprimiu um cunho de ataque pessoal, a roçar o insulto, que não me lembro de existir em anteriores debates com primeiros-ministros", defende. "Expressões como 'O senhor deputado é ignorante' ou 'O senhor deputado é desonesto' são frequentes nos debates com o primeiro-ministro."
Paulo Rangel diz que "quis manifestar uma coisa que, em termos mediáticos e de opinião pública, não está consciencializada: a qualidade de muitos deputados e a forma totalmente dedicada com que exercem o seu mandato". Segundo ele, "temos um Parlamento com mais qualidade do que se diz", mas "Portugal tem uma cultura de fascínio pelo executivo, o que significa que é antiparlamentar - os deputados são mal vistos". Nuno Magalhães, do CDS, vê no discurso de Rangel o indício de uma nova geração pós-25 de Abril cuja abordagem política "passa mais pelo consenso do que pelo antagonismo", porque as relações com os outros partidos já não estão contaminadas pela agitação política desse período. "Não tenho ódios com o Partido Comunista."
Pode-se, portanto, ver na intervenção de Rangel o começo de uma bela amizade? António Filipe põe as coisas em perspectiva: "É um acto de despedida. Noutro contexto, não faria tanto sentido".
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