João Vasconcelos Costa              28.05.2010    
eu A INQUIETUDE PERMANENTE
Autorretrato de um epicurista, na sabedoria dos 60 - Self-portrait of an epicurean and the wisdom of the sixties

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REFORMAR A EDUCAÇÃO SUPERIOR

 

O meu avô José da Costa

avoQuando as minhas alminhas vêm poisar no meu mastro de fantasia, há sempre honras especiais para o primeiro dueto do cortejo, alminhas que não me atrevo a descrever com qualquer pitada de sal e pimenta, tão ricas são. O meu querido avô professor José da Costa vem de asa dada com o seu maior amigo, o Dr. Armando Côrtes Rodrigues, poeta dos maiores injustamente esquecido. Riem-se às gargalhadas entre quadras repentistas em latim macarrónico, desde pensamentos sérios até convites para patuscadas e noites de S. Martinho.

O meu avô (1881-1963), que entre cerca de cinquenta netos se permitia dar-se ao luxo de me escolher como um dos preferidos, vem como mocho da ciência, em homenagem a mim, posterior investigador científico de mediania que não a merece. Inconfundivelmente, o peito do mocho mostra bem as manchas de rapé. Mocho e ciência, mas para ele, homem cristalizado na cultura clássica, primeiro as humanidades. Lá me pergunta se continuo a pensar em cada palavra escrita ou dita, como me ensinou, porque primeiro está o verbo. “In principio erat verbum”. Lá diz João, lapidar, não significante para mim como evangelista, mas sim como grande escritor. Fácil foi ao meu avô fazer lá no céu grande amizade com o Padre Vieira, para além dumas visitas frequentes a Cícero, Virgílio, Horácio e muitos outros, sobrando-lhe ainda tempo para umas discussões teológicas com Agostinho e Tomás de Aquino.

Passo a falar com respeito e emoção, porque o meu avô é para mim uma mistura indefinível de relação “tu cá tu lá” e da maior admiração, mesmo veneração. É um dever de gratidão. Homens como já não há hoje merecem memória.

Com os meus pais, foi o maior formador da minha mente. Homem genial, extremo nas suas qualidades e nos seus defeitos. Destes direi depois alguma coisa, com comedimento. Mas começo por um, o seu incompreensível desprendimento por deixar obra feita para além da sua vida terrena. Três livros de poesia, foi tudo o que os seus amigos e admiradores lhe arrancaram. Fora isto, um livro de teologia nunca publicado, muitas poesias em jornais hoje a embolorecerem na biblioteca pública e textos de magníficas e variadas conferências publicadas na Insulana. O resto, e o principal, apenas na memória dos que o conheceram e de que já restam muito poucos, fora alguns manuscritos que guardo religiosamente mas que já não estão em tempo de serem publicados.

Até a maioria dos netos não consegue ter dele a memória vivíssima e veneradora que eu tenho. Sinto o maior orgulho em intuir-me, de alguma forma, como um seu continuador, não no génio, mas no que penso ter de curiosidade pela vida, de espírito de missão e de exigência comigo, coisas que me ensinou, embora eu confesse que não tenho o desprendimento dele, indiferente aos que os outros achavam do seu labor e prestando contas só a si. Esta postura, que ele reflectia em mim, manifestava-se num exemplo típico, o episódio ritual de cada trimestre, ao longo de todo o meu liceu. Era obrigação religiosa ir-lhe dizer a minhas notas, mas eu também já conhecia a rotina. Sempre, em primeiro lugar, “Português?”, “18”. “Faltam dois!” E por aí fora. Eu ficava furioso, mas hoje compreendo-o bem, porque tenho como regra de vida, aprendida com ele e com o meu pai, o máximo de exigência comigo próprio.

José da Costa era de origens modestas, filho de um humilde funcionário municipal, aferidor de pesos e balanças, por sua vez oriundo de camponeses da Ponta Garça. O seu destino estava traçado, o seminário. Mas a natureza impôs-se, que ele não estava vocacionado para o celibato, como o demonstra a sua prole de catorze filhos. Para homem profundamente religioso, “crescei e multiplicai-vos”. Tenho a impressão de que o seu impulso nocturno obrigatório raras vezes deve ter encontrado a minha lindíssima avó de ventre liso, entre tanta maternidade. Como ela um dia disse à minha mãe, “bendito mioma uterino, senão teria ido aos vinte”. Todo o labor de José da Costa, poético e filosófico, lido hoje, parece ascético, mas nada disso. Só construção mental a que auto-obedecia, mas lá no fundo, uma irresistível perdição pelos prazeres da vida. A alguém a fui buscar.

Fracassada a orientação eclesiástica, encaminhou-se para o ensino primário – diz-se que com muito pouca paciência para crianças – mas principalmente para professor de latim e português de sucessivas gerações micaelenses. Não se pense que só de estudantes de liceu; muito boa gente culta e bem instalada, já doutores, com ele teve lições para aperfeiçoar o domínio da língua pátria.

Era um portento. Sobre o seu domínio de latim, fala uma história que entrou no anedotário micaelense. Um dia, passou por Ponta Delgada, a caminho de Roma, o cardeal de Boston, de que não sei o nome. Foi ao conhecido santuário do Senhor Santo Cristo, mas a missa já tinha terminado e só conseguiu falar com o sacristão, que não se entendia em inglês. Passaram para o latim e falaram fluentemente de tudo, desde a história da Igreja nos Açores até teologia, com o sacristão, delicadamente, a emendar frequentes erros de latim do cardeal. Uns tempos depois, o capelão do santuário recebeu uma carta do cardeal lamentando muito não o ter conhecido, porque se tal era o sacristão, como seria o capelão! O sacristão era José da Costa, muito devoto, que todos os dias ajudava à missa a Monsenhor José Gomes, o capelão e seu grande amigo, outra boa memória da minha meninice, o das recomendações contra os desmanchos de ventre e bexiga das beatas na vigília do Senhor Santo Cristo, em plena igreja.

Com os anos, veio a crescer ao meu avô uma cegueira, quase total no fim da vida. Isto em nada perturbou a sua vida de professor. Com uma memória prodigiosa, sabia de cor todos os clássicos latinos, também os Lusíadas e os sermões do Pe. António Vieira, e fazia sintaxe de Virgílio, Horácio e Cícero, a divisão de orações, de memória. Pois se até, para divertir os amigos, era capaz de recitar, do fim para o princípio, verso a verso, toda a Eneida...

Tinha uma cultura espantosa e bizarra, deslocada no tempo. O tempo, aliás, nada o interessava, porque construiu o seu e ficou feliz com isso. Era um homem da Arcádia, aí ficou. Dominava como poucos toda a cultura clássica, línguas, história, filosofia, literatura. Latim e grego, eram como se fossem português. Lia, mas não falava (coisa indesculpável!), hebraico e aramaico. Aramaico, quem é que havia de se lembrar de tal coisa! Ele sim, porque era a língua que Jesus falava. Era profundo conhecedor da literatura portuguesa, mas só até Camilo. Quando eu lhe falava no meu querido Eça, quase espumava. Em ciências, tinha de cor as chaves taxonómicas de Lineu, sabia muita anatomia e gostava muito de astronomia. Tudo da herança aristotélica. Era também exímio cruzador de plantas, criador de muitas variantes pessoais de amor-perfeitos. Com tudo isto, mal arranhava o francês, de inglês não sabia uma palavra, era incapaz de extrair uma raiz quadrada e não tinha qualquer ideia do valor da obra de Galileu ou de Newton, obviamente que muito menos de Einstein.

Além disto, era um grande desenhador, mas com um gosto especial pela iluminura, também marca do tempo que para si tinha construído. É o autor do ainda actual brasão de Ponta Delgada. Tenho bem à vista no meu quarto, com a maior estima, um quadro dele com um seu soneto, magnificamente iluminado, trabalho de monge beneditino. Era um poço genial de contradições. Para mim, que hoje o vejo à luz de um filtro de outra racionalidade, limo as arestas, dou desconto às falhas e fica-me um magnífico e inesquecível construtor da minha personalidade. Considero-me homem de cultura moderna, mas sinto orgulho, perdoem a imodéstia, em adivinhar que essa modernidade tem um elegante perfume da cultura à antiga do meu avô.

Já tudo isto estava escrito e enviado para comentários à minha mãe, nora dilecta de José da Costa, sugere-me ela algum acrescento. É que ela tem do sogro uma ideia de modéstia que precisa de ser bem lida e que não corresponde bem ao que eu digo. Diz a minha mãe que o meu avô era muito modesto no trato com os outros, no desprendimento das honrarias, mas que era também muito orgulhoso, para dentro de si próprio. O ego inchava-se quando ele próprio se via ao espelho na obra, quando tinha feito uma coisa que o satisfazia por inteiro, mas independentemente do juízo dos outros. Ele é que era o seu melhor crítico. E era muito afirmativo, quando, depois de grandes reflexões, chegava a uma opinião que ele considerava acertada. Então, exaltava-se se o contradiziam. Com a sua grande capacidade argumentativa, não lhe era difícil fazer prevalecer, entre o seu grupo de amigos, muito seleccionados intelectualmente, aquilo de que estava certo.

A minha mãe acha que ele, às vezes, até manifestava nisso uma certa arrogância, mas que era desculpada pelo grande respeito dos amigos. Tinha também uma grande dificuldade em lidar com pessoas menores, incluindo, seu grande desgosto, um filho muito pouco dotado mentalmente, entre catorze filhos e filhas marcantes pela sua alta qualidade intelectual, com especial destaque para o meu pai. A propósito, desculpem a minha frequente arrogância, devo tê-la herdado do meu avô José da Costa.

Afinal, o que tem isto a ver com "earnestness", lema destes escritos? Não digo, porque era coisa desconhecida para o meu avô, que não sabia uma palavra de inglês. Explicarei ao falar do meu pai.

Finalmente, o que aprendi dele como gosto da vida e sentido do humor. Este retrato intelectual ficaria incompleto sem isso, a vida bem vivida tem muitas dimensões de riqueza e qualidade. Do seu gosto pelos prazeres da vida falam os catorze filhos que gerou, coitada da minha avó, as grandes patuscadas com a sua tertúlia. Também o meu conhecimento do seu humor finíssimo, muitas vezes expresso em epigramas nem sempre condizentes com o seu misticismo ou então quadras sarcásticas que lhe saíam repentinamente. E as gargalhadas telúricas com a sua "mana", a minha tia-avó Encarnação, que não pode ficar esquecida nesta história, a mulher mais inteligente que conheci.

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