João Vasconcelos Costa              24.03.2010    
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EDUCAÇÃO SUPERIOR
A educação superior em Portugal: artigos, opiniões e documentos - Higher education in Portugal: papers, opinions, documents
O meu outro sítio, pessoal:

A INQUIETUDE PERMANENTE

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CONSENSO CRÍTICO SOBRE A POLÍTICA PARA O ENSINO SUPERIOR

Sandro Mendonça, Isabel Tiago e Paulo Raposo

O Ministério do Ciência e Ensino Superior (MCES) difundiu recentemente um documento com o título de "Nota". Neste documento refere-se que o procedimento do corte das vagas de acesso ao Ensino Superior (ES) público teve "um acolhimento muito favorável por parte das instituições de ensino superior."

Este artigo prova o contrário. O consenso entre os diversos comentadores da política de ES actualmente a ser imposta pelo ministro Pedro Lynce é que a sua direcção é errada, o processo é opaco, a sua verdadeira motivação duvidosa e os seus efeitos perversos. Quatro defeitos mortais.

Aos primeiros sinais de movimentação do MCES o Prof. Vital Moreira (Universidade de Coimbra) veio de imediato advertir para a consequência mais directa da redução de vagas no ES: "a diminuição do contingente de admissão implicará necessariamente mais estudantes a ficarem de fora e a serem empurrados para o sector privado (os que puderem pagar)." (Público, 8/4/2003)

Sobre as consequências da redução de vagas em universidades do litoral citadino, o Prof. Pedro Pita Barros (Nova de Lisboa) referiu-se com apreensão aos efeitos perversos de tal medida em termos de desincentivo à qualidade: "Esta ideia, embora tentadora do ponto de vista do MCES, é bastante perigosa ... pelos custos em termos de uma menor qualidade de formação e estagnação do ensino superior." (Semanário Económico, 24/4/2003)

André Freire (Instituto de Ciências Sociais) chama a atenção para o contexto de forte desinvestimento do Estado: "(A)presenta-se uma taxa de crescimento anual nominal das despesas do Estado com o ensino superior público de 0,0%. Ou seja, aponta-se para um forte decréscimo real, não apenas para este período para este período mais crítico que vivemos actualmente mas para todo o quadriénio." (Público, 4/5/2003)

Esta pressão exerce-se sobre um sector crucial para o desenvolvimento do país. Jan Fagerberg (Universidade de Oslo e, até há pouco, Professor visitante da Universidade Técnica de Lisboa) mostrou-se surpreendido com os padrões muito baixos de Portugal em matéria de educação: "(O) número potencial de estudantes tem vindo a diminuir devido às transformações demográficas. Mas, caso a minha percepção esteja correcta, reparo também que o Governo está a usar esse argumento para poupar algum dinheiro na área educativa. Considero que medidas desse género são verdadeiramente disparatadas. É preciso não esquecer que os padrões portugueses são ainda muito baixos em matéria de educação." (Diário Económico, 4/8/2003)

É raro o dia que não haja uma notícia ou artigo de opinião sobre o ES. Recentemente, o presidente do conselho directivo da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, Cândido Agra, "perplexo e indignado" com a redução do número de vagas imposta pelo MCES dizia que o ministro deveria "esclarecer o critério que usou e fundamentá-lo". (Público, 31/7/2003). Maria de Lurdes Rodrigues (ISCTE) afirmou que em matéria de vagas têm faltado indicadores quantificados, ponderação nos argumentos e "reconhecimento do contributo da universidade para a modernização do país" (Diário de Notícias, 8/8/2003). Santana Castilho (Politécnico de Santarém) alertou ainda para o perigo da concorrência desleal entre e o ES público e o privado se este último não for submetido aos mesmos padrões de qualidade que o primeiro (Público, 9/8/2003).

Esta é uma pequena amostra de um número crescente de comentadores preocupados com a política de ES. As críticas tecidas à (des)orientação do MCES são partilhadas pelo próprio Conselho de Reitores (CRUP) ao referir que não tem "havido a explicitação do modelo de desenvolvimento do ensino superior nem do seu papel no desenvolvimento da sociedade portuguesa". (Parecer de 12-13 de Maio, 2003).

Assim, são vários os problemas, a começar pela falta de transparência do processo de decisão. Até agora o que já se percebeu é que 1) há um desinvestimento orçamental no ES, 2) existe o perigo real de se estar a cortar nos estabelecimentos de excelência, 3) as privadas deverão ser as principais beneficiárias dos cortes e 4) que Portugal está a perder uma oportunidade histórica de convergir com os países mais desenvolvidos. Não houve, nem poderia ter havido, um "acolhimento favorável" destas más notícias.

A questão que deve ser agora colocada ao Governo e às oposições é o que deve ser feito no curto prazo para colocar o ES no rumo certo. Uma medida sensata e urgente por parte do Governo seria voltar atrás na sua decisão de cortar o "numerus clausus" e restabelecer as vagas tal como estavam em 2002. Às oposições exige-se que equacionem propostas concretas em alternativa às do executivo que sejam capazes de mobilizar o debate nos estabelecimentos de ensino e na sociedade civil.

NOTA: Os autores exprimem a sua opinião pessoal. A sua posição é independente face a quaisquer instituições universitárias ou organizações sindicais ligadas ao ES.

Diário Económico, 5.9.2003

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