João Vasconcelos Costa              24.03.2010    
cambridge REFORMAR A
EDUCAÇÃO SUPERIOR
A educação superior em Portugal: artigos, opiniões e documentos - Higher education in Portugal: papers, opinions, documents
O meu outro sítio, pessoal:

A INQUIETUDE PERMANENTE

foto

DISTORÇÃO DE PRIORIDADES NO ENSINO SUPERIOR PÚBLICO

Isabel Tiago, Paulo Raposo e Sandro Mendonça

O Ministério da Ciência e Ensino Superior (MCES) decidiu decretar a redução do "numerus clausus" para o ano lectivo de 2003/04. Esta medida é provavelmente o sinal mais claro da actual política do MCES. É por isso urgente avaliar esta redução e prever as suas consequências. Este artigo procede uma análise e chega a conclusões preocupantes. A boa notícia é que ainda estamos a tempo de fazer uma inversão de marcha.

O móbil para o corte de vagas apresentado pelo ministro Pedro Lynce é a queda demográfica das classes etárias que se poderiam inscrever no ensino superior. Recordemos ainda que, neste contexto, o ministro considerou como prioridades a aposta nas áreas científicas e tecnológicas e o reforço das instituições de Ensino Superior (ES) do interior. Contudo, os factos apurados traduzem-se num desafio à política do ministro uma vez que são várias as dezenas de cursos cuja procura é muitíssimo forte e cuja oferta é agora administrativamente amputada.

A análise aos dados das vagas para as universidades revela três factos fundamentais para compreender os resultados práticos desta política de redução global do "numerus clausus":

1) verificam-se cortes efectivos em 86 licenciaturas, ou seja, cursos cujas vagas em 2003 são inferiores às colocações em 2002, 79 dos quais preencheram 100% das suas vagas na primeira fase;

2) eleva-se a quase duas dezenas de licenciaturas científico-tecnológicas que registam um corte efectivo de vagas, uma área de formação classificada como de “relevância social” pelo próprio MCES;

3) o corte efectivo de vagas estende-se a universidades situadas em regiões interiores e periféricas do país, sendo que uma parte significativa destes cortes é em cursos científicos e tecnológicos.

Como resultado desta análise verificamos que 39.3% dos cursos que sofrem um corte efectivo de vagas situam-se em universidades do interior ou de regiões periféricas do país. Ao nível das áreas de formação apuramos também que, do total das licenciaturas que levam cortes efectivos, 21.4% são em áreas científicas e tecnológicas sendo que mais de metade desses cortes dessas áreas do saber ligados à informática e ciências da vida. O perfil dos cortes reais operados no ensino superior universitário causa ainda mais inquietação quando cruzamos estas duas variáveis: metade dos cortes do "numerus clausus" em cursos científicos e tecnológicos verificam-se em universidades do interior.

A situação é paradoxal. Tinha sido o próprio ministro a estabelecer o duplo objectivo de reforçar a aposta em cursos de "relevância social" e os estabelecimentos de ES no interior do país. Face à realidade dos números como pode esse discurso fazer sentido?

A evidência empírica que encontramos é, em grande parte, contrária aos objectivos orientadores declarados pelo MCES. Por um lado, a formação superior em áreas de ciência e tecnologia não é poupada pelos cortes, sendo especialmente penalizadas as áreas do saber ligadas às tecnologias de futuro – informática e as ciências da vida. Por outro lado, o interior é duplamente penalizado, não só o corte atinge cursos cuja alta qualidade permitiu preencher a totalidade de vagas no passado, como uma parte significativa desses cortes se registam em ciências e tecnologias. É caso para perguntar: afinal quais são as prioridades políticas para esta área?

A redução das admissões das várias universidades foi decidida centralmente pelo MCES. Através dos números apurados não é, porém, evidente a existência de um critério uniforme e objectivo. O facto do ministro ter delegado às universidades a gestão interna dos cortes aos vários cursos não o iliba da responsabilidade política por toda esta confusão.

Pensamos que o governo gerou por via do corte no "numerus clausus" uma situação grave. No curto prazo, está em causa a realização das vocações dos alunos mas também o esforço financeiro das famílias que correm o risco de verem os seus filhos empurrados para o ES privado. No longo prazo, está em jogo o próprio contributo que o ES pode dar para o desenvolvimento social e para a competitividade económica do país.

Nota: Os dados são retirados do site do MCES. Partilharemos a base de dados que construímos e esclareceremos quaisquer dúvidas dos leitores interessados bastando para isso um e-mail para vagas_2003@hotmail.com. Este texto aborda a situação das Universidades, realidade que conhecemos melhor do que a dos Politécnicos e cuja análise é já sobejamente complexa para um artigo desta natureza.

Público, 16/8/2003

Design © - João Vasconcelos Costa, 2009

Valid XHTML 1.0 Transitional