eu
João Vasconcelos Costa
Espaço de conversa de um epicurista ou, pretensiosamente, a sabedoria (?) de/dos 60s. Açoriano, muitos anos investigador científico, depois professor universitário, passando por diretor de uma instituição de investigação e ensino, tudo isto com algum trabalho feito de estudo da educação superior. Hoje, novamente com responsabilidades de direção universitária. Albergando aqui a perplexidade angustiada da falta de perspetivas de concretização de ideais nunca realizados. Também, mais prosaicamente, o gosto de bem comer. E peripatético, que isto de ficar sentado é coisa de velhos.
 

a educaÇÃo para as tecnologias da saÚde

João Vasconcelos Costa

Uma vez sem ser exemplo, sinto-me compelido a começar por apresentar as minhas credenciais para escrita de um artigo, atendendo a que, na minha página de apontamentos, uma certa acção concertada me tem apresentado como incompetente, parcial, faccioso e expoente de um lóbi, presumo que o médico. Sou professor na área da saúde tanto numa universidade como numa escola politécnica. Sei bem o que isto me custa, porque não posso limitar-me confortavelmente a transportar o programa de uma para outra. Isto é ser incompetente como professor do politécnico? Tenho valorizado a especificidade e a importância educação politécnica em muitos artigos, como poucos professores do politécnico têm feito. Sou médico, fui director de uma escola universitária da saúde, infelizmente até tenho experiência bem vivida do que é hoje a prática médica, mas até nem estou inscrito na Ordem, desde há muitos anos. Passemos adiante, que não vale a pena gastar mais cera. Vou ter mais guerra, mas paciência. C'est la vie!

Tudo isto não se passaria se as tecnologias da saúde (TS) não fossem, nos últimos anos, uma mina para o recrutamento de alunos, principalmente entre os inúmeros fracassados no acesso a medicina. Mas está a esgotar-se e os meus alunos já começam a estar preocupados com a falta de perspectivas de emprego.

É necessário esclarecer bem um ponto que, para leigos, pode causar confusão. Não vou falar na enfermagem, não incluída nas TS. Só por razões históricas e práticas (integração das antigas escolas de enfermagem) é que, em muitos casos, a enfermagem é ministrada juntamente com as TS. Teoricamente, desejaria que fosse ensinada em ambiente universitário, até para sinergias com o ensino médico. É o que se passa nos EUA e no Reino Unido, para alem de outros países. Mesmo em Portugal, testemunhei o esforço de uma universidade de Lisboa para integrar uma excelente escola de enfermagem.

Como bem sabem os meus leitores, o que me interessa principalmente no processo de Bolonha é o seu novo paradigma. Infelizmente, neste caso, desconhecendo as muitas propostas de adequação dos cursos de TS a Bolonha, não me posso pronunciar. Também não ajuda o facto de, certamente por minha culpa, nunca ter lido nada sobre o paradigma de Bolonha em relação aos nossos cursos de TS. E muito haveria a discutir. Estou convencido de que as experiências inovadoras do ensino médico (por exemplo, a adopção do método PBL) em muitas universidades canadianas (cito em primeiro lugar, pelo papel pioneiro de McMaster), americanas, europeias e até portuguesas (Minho e Beira Interior) são facilmente adaptáveis à educação em TS.

Portanto, lamentavelmente, vou limitar-me ao aspecto menor da duração dos cursos. O DL 74/2006 limita os cursos politécnicos ao máximo de três anos, excepto quando há directivas europeias em contrário ou uma prática internacional estabelecida. É sem dúvida o caso da enfermagem, mas não o das TS. No entanto, ao apresentarem as suas propostas de adequação a Bolonha as escolas de TS, públicas e privadas, após uma reunião de concertação, propuseram os quatro anos para as licenciaturas. Ninguém de bom senso deixará de considerar isto como uma provocação ao MCTES e não aceitará qualquer cedência do ministério.

Excepção única e honrosa de que me orgulho, por ser a minha escola, foi a ERISA, que não escapou a alguns mimos que não vale a pena reproduzir. Tudo isto é, a meu ver, um exemplo de novo-riquismo académico, fruto de exacerbados egos e auto-estimas, que são os piores inimigos de todos os muitos professores politécnicos que muito prezo e que antes preferem, e muito bem, valorizar-se na natureza específica e importância do seu sub-sector.

Um engenheiro "de estaleiro", um gestor de primeiro nível, um biólogo ou arqueólogo generalistas, um solicitador, um técnico superior de multimédia, etc., vão poder ser formados em três anos, mas um profissional de marketing farmacêutico (sem sentido pejorativo, para os que não compreendem a nossa tendência para novos jargões corporativos, são os antigos delegados de propaganda médica) tem de ser preparado em quatro anos!

Passemos ao sério. A área das tecnologias da saúde é vasta e diversificada. Mostro a lista dos actuais cursos:

  • Análises clínicas e saúde pública
  • Anatomia patológica citológica e tanatológica
  • Audiologia
  • Cardiopneumologia
  • Dietética
  • Ergonomia
  • Farmácia
  • Fisioterapia
  • Gerontologia
  • Higiene oral
  • Marketing farmacêutico (duvido de que deva ser incluído nas tecnologias da saúde)
  • Medicina nuclear
  • Neurofisiologia
  • Ortoprotesia
  • Podologia
  • Prótese dentária
  • Radiologia
  • Radioterapia
  • Reabilitação psicomotora
  • Saúde ambiental
  • Terapia da fala
  • Terapia ocupacional

Temos tendência para meter tudo no mesmo saco e tratar tudo uniformemente. Encaixa-se bem na nossa cultura da educação superior, "café para todos". Obviamente, neste espaço de escrita, não me posso referir a todos os cursos e vou exemplificar em relação a algumas diferenças essenciais. Alguns cursos são obviamente de alta tecnicidade e requerendo bases científicas sólidas: análises clínicas, anatomia patológica, dietética, fisioterapia, medicina nuclear, radiologia, farmácia (técnicos de) etc. Outros claramente que não.

Algumas actividades são relativamente independentes do domínio médico do quadro clínico e afirmam-se por si, embora seja o médico a ter a primeira e a última palavra. Por exemplo, novamente, as análises clínicas, a fisioterapia, a radiologia, a radioterapia. Estas e outras são actividades complexas e relativamente independentes que justificam uma preparação a nível de licenciatura. Tenho algumas dúvidas em relação à anatomia patológica, que não é, em muitos casos, uma análise independente do enquadramento clínico.

Muito importante é que algumas destas actividades têm interacção directa com a pessoa, que deve ser compreendida em todas as dimensões. Isto exige uma formação larga e um bom domínio cultural e das relações interpessoais e sociais. São exemplos, entre outros, a fisioterapia, a gerontologia, a reabilitação psicomotora, a terapia da fala, a terapia ocupacional.

Mas vejamos outros casos. Um higienista oral é hoje uma pessoa que me dá conselhos úteis e muito bem. No entanto, a enorme maioria das suas horas de trabalho vai ser a fazer a simples destartarização, coisa que sempre me fez muito eficientemente a ajudante do meu dentista. Claro que estou a exagerar caricaturalmente. Não nego a importância educativa e de saúde pública da actividade de higiene oral. Só pergunto é se a a sua actividade típica, na prática, exige o investimento público e privado de quatro anos de ensino superior politécnico.

Para isto, os actuais licenciados aprendem coisas como histologia e embriologia oral, microbiologia, cariologia (mas vão também tratar cáries?), nutrição e saúde oral, saúde oral escolar, outras mais, com alguma lógica. "Ma in Spagnia sono mille tre!" Só alguns exemplos anedóticos. Começo pelos que só são delirantes, mas que não têm consequências profissionais: antropologia social, biofísica, psicologia, ergonomia. Falta imagem, publicidade e marketing, pois toda a gente conhece a importância dos dentes brancos da Claudia Schiffer.

Outros casos são mais preocupantes porque apontam para um extravasar da actividade profissional do higienista oral (HO). Farmacologia: o HO vai receitar? Emergências médicas: o que são para um HO, a não ser que voltemos a falar de cáries ou até de abcessos? Oncologia oral: sem comentários! Admito que tudo isto seja só para rastreio, mas daí a que justifique essas disciplinas vai uma grande distância.

Consultei todos os currículos de HO e nenhum é apresentado aferido por ECTS. Por isto, é com alguma reserva que afirmo o seguinte. Para qualquer pessoa minimamente familiarizada com a saúde, o ensino de HO não ultrapassa os 120 créditos ECTS, isto é, dois anos. É um caso típico de um curso de especialização tecnológica (CET). Já escrevi que a verdadeira "janela de oportunidades" para o politécnico são os CET. As escolas de saúde acham que não, é o problema delas.

Brevemente, duas licenciaturas de quatro anos imprescindíveis. Cardiopneumologia, sabem o que é? Deixando de lado algumas provas espirométricas e de função respiratória, é essencialmente o electrocardiograma (ECG) - cateterismo, ecografia cardíaca, são outra coisa. Ainda há tempos, fiz um ECG num hospital e o maqueiro levou-me à Sra. Dra. Colocou-me os eléctrodos e carregou no botão para começar o ECG. Meteu-o no envelope e mandou para o médico. Será que ela sabia ler o ECG? Perguntei-lhe o que era o seu dia-a-dia, fora fazer os ECD e disse-me que era quase sempre isso, raramente solicitações de outros exames de pneumocardiologia. O mesmo com a pomposa neurofisiologia, fazem electroencefalogramas e electromiografias.

Devia ficar por aqui, que já basta, mas isto começa a ser divertido e a dar-me gozo. Vou passar para caso análogo, o da optometria (que até nem é ministrada no politécnico), deixando de fora coisas certamente muito interessantes, como licenciaturas em podologia. Já tive experiências de optometristas que me corrigiram erros de prescrição de lentes por oftalmologistas e fiquei com respeito por eles. Sou muito sensível a lentes e alguns optometristas práticos é que me puseram óculos confortáveis com a devida distância interpupilar e a diaforese. Confesso mesmo que, para a minha rotina de ajustamento das dioptrias confio normalmente é num espanhol da minha zona com um curso de um ano mas muito experiente. Outra coisa é ir regularmente ao meu colega oftalmologista, que não seja para me ver a retina e medir a tensão ocular. Novamente, quatro anos de estudos para o rastreio optométrico de rotina que precede a minha consulta ao oftalmologista?

Mais uma vez, disciplinas que considero essenciais: anatomia ocular, fisiologia da visão e da refracção, doenças da refracção, óptica e, até vou mais longe, materiais ópticos, estética facial. Mas outros mimos? Garanto, que não estou a brincar, precisam também de análise matemática, bioquímica e fisiologia da célula, microbiologia e infecção (são optometristas ou oftalmologistas?) e até, entre muita coisa mais, organização e gestão de empresas! Mais uma vez, optometria não é um CET?

Lamento ter de concluir com dureza. Não é só caso para dizer que o rei vai nu, é também, e principalmente, uma questão ética. Posso ser processado por difamação, mas nunca me tolho no que tenho a dizer. Tudo isto é altamente lesivo! No sector público, é lesivo para os contribuintes, com a conivência do ministério, que aprovou os cursos. No sector privado, é um abuso do consumidor desprevenido e mal informado, com grave lesão económica das famílias.

top