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João Vasconcelos Costa
Espaço de conversa de um epicurista ou, pretensiosamente, a sabedoria (?) de/dos 60s. Açoriano, muitos anos investigador científico, depois professor universitário, passando por diretor de uma instituição de investigação e ensino, tudo isto com algum trabalho feito de estudo da educação superior. Hoje, novamente com responsabilidades de direção universitária. Albergando aqui a perplexidade angustiada da falta de perspetivas de concretização de ideais nunca realizados. Também, mais prosaicamente, o gosto de bem comer. E peripatético, que isto de ficar sentado é coisa de velhos.
 

AS NOVAS FORMAÇÕES E A UNIVERSIDADE DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO

João Vasconcelos Costa

Todas as universidades, públicas ou privadas, devem estar obrigatoriamente, ou iniciá-lo com urgência, em processo de revisão porque o seu produto, a começar pelas formações que faculta, começa a estar significativamente desfasado das novas realidades sociais.

O mundo de hoje confronta-se com mutações sociais aceleradíssimas. É quase um novo paradigma civilizacional que se está a desenhar, e com grande rapidez, marcado por uma evolução científica e tecnológica acelerada, por um colapso de referências filosóficas, ideológicas e políticas tradicionais, pelo esbatimento de todas as fronteiras, pela instantaneidade da comunicação e da informação, com fácil acesso às realidades internacionais e a outros modos de vida, aspirações e valores, por uma maior intervenção do privado no espaço público, que deixou de estar reservado aos políticos. Mas, acima de tudo, são caracterizadas por um novo papel do conhecimento humano em todas as esferas da vida económica e social e pela emergência de um novo poder, o da informação.

A revolução industrial foi alimentada pelo capital físico: as fábricas, as máquinas, a força física dos operários, os meios de transporte. Era isto que determinava o poder e a hegemonia social. A partir de meados do século XX, a tendência virou-se para as coisas e serviços, os operários deixaram de ser peças animadas de uma linha de montagem e passaram a ter que dar resposta às mais variadas solicitações, tanto dos patrões como dos clientes. A produção passou a estar dependente da incorporação quase permanente de novos conhecimentos directamente geradores de novas tecnologias. Isto passa-se em coincidência com a elevação a grande ritmo do nível educacional das populações, acrescido do acesso muito mais largo à informação

O resultado desta evolução da idade industrial para a idade da informação é a presente situação, com uma mudança dramática da ênfase no capital físico para o capital humano e intelectual. A vantagem competitiva de uma empresa deixou de ser o capital físico e a força da produção, passou a ser o capital humano e a rapidez de adaptação. Numa época de preocupação com a preservação dos recursos e de grande volatilidade das tecnologias, rapidamente tornadas obsoletas, o único factor permanente de riqueza é o homem, a sua capacidade intelectual e o seu conhecimento.

Com isto, dizer-se que vivemos hoje na sociedade do conhecimento e da informação é fórmula que já não precisa de nenhuma discussão esclarecedora. Mas esta fórmula pode conduzir a outra: a missão de hoje da universidade é alimentar e sustentar a sociedade do conhecimento. Numa mudança determinada pela informação e pelo conhecimento, a universidade tem um lugar particular. O enorme aumento da frequência universitária, com a massificação das últimas décadas, é em parte consequência do enriquecimento das populações, da aquisição de meios económicos para maior satisfação da ambição de valorização pessoal e de melhores perspectivas de trabalho, mais qualificado e mais remunerador. Mas é também uma necessidade social objectiva, por exigência de qualificação superior generalizada da mão de obra da economia moderna.

Também em Portugal, abunda o capital financeiro, estão disponíveis equipamentos e tecnologias importadas e as infra-estruturas têm tido grande desenvolvimento, graças aos apoios comunitários. O que precisamos, num país com uma taxa de abandono de estudos antes de concluído o ensino obrigatório de 46%, com 20% de indivíduos entre os 25 e os 64 anos com ensino secundário completo e com uma taxa de 10% da população activa com ensino superior, é de pessoas com formação adequada à adaptação própria de tecnologia e ao domínio da teoria subjacente, com capacidade de iniciativa e de correr riscos e, fundamentalmente, com alto potencial de inovação.

A outra faceta da actual sociedade do conhecimento é a globalização, que ultrapassa o económico e tecnológico, abrange o desenvolvimento humano, o ambiente, as condições de vida, as expectativas sociais e os valores individuais e societais. Com os riscos de maior exclusão que traz, requer elites dispostas a criar condições de aprendizagem e domínio do conhecimento para toda a gente, mentes preparadas para este novo ordenamento das sociedades e do mundo.

A globalização é a mundialização dos mercados, com novas exigências e factores de competitividade. É a imensidão dos lugares acessíveis e a instantaneidade da presença dos acontecimentos, com a possibilidade de negócios e de gestão de empresas em qualquer parte do mundo em tempo real. Ela é inevitável, é tudo o que é certo, já que são fortemente opostas as visões sobre as suas eventuais vantagens e ameaças. O mesmo se passa com as possíveis consequências da globalização para as universidades. É possível que se universalize a qualidade, generalizando-se a adopção dos seus padrões mais exigentes.

Mas, por outro lado, uma das riquezas tradicionais dos sistemas de ensino superior é a sua diversidade, institucional, de missão e de perfil e programática. Esta diversidade está posta em risco pela tendência uniformizadora da globalização, nomeadamente pelos padrões americanos (mas não obrigatoriamente pelos das universidades de elite, antes por baixo). Este risco, por exemplo, é patente nas tentativas de desregulação nacional da educação no quadro do GATS, embora muitas vozes, incluindo americanas, se oponham a essa desregulação. Exemplo disto é a declaração da Associação das Universidades e Colégios do Canadá, da Associação Europeia das Universidades e do Conselho de Acreditação dos Estados Unidos pedindo aos seus países que defendam a não inclusão da educação no GATS.

O processo de Bolonha, se entendido como uniformização dos sistemas nacionais europeus, padeceria do mesmo mal. Felizmente, tudo indica que não se está a passar assim e que o objectivo da visibilidade e comparabilidade dos sistemas está a respeitar a diversidade. Um espaço europeu ordenado é positivo, como factor de desmarcação em relação à globalização, afinal à americanização, mas respeitando e protegendo a diversidade, donde nasce a criatividade. Nada mais perigoso para as universidades do que retirar-lhes a sua especificidade e as suas diferenças, a forma de afirmarem a sua personalidade, de se empenharem em experiências inovadoras e de promoverem áreas de especialização e excelência.

O novo paradigma da competitividade baseia-se na circulação e apropriação da informação e do conhecimento em tempo útil. Ficam progressivamente excluídos todos, a todos os níveis (empresas, regiões, países), que não forem capazes de mobilizar os seus recursos humanos, os seus conhecimentos e competências. O papel da universidade neste novo quadro é evidente.

O papel individual na competitividade a todos os níveis é fundamental, sem negar a importância dos factores colectivos e organizacionais. Mas este papel não se ensina, pratica-se com base nas competências, atitudes e comportamentos que dependem de um novo paradigma da educação, em particular da educação superior. Mas são valores individuais que têm também que estar em compromisso com os da solidariedade social, num quadro de globalização potencialmente favorecedor da exclusão, nomeadamente os valores do espírito cooperativo, da sensibilidade contra a exclusão e o sentido do interesse público.

O cidadão português, e em particular as elites sociais e económicas, principais responsáveis pelo desenvolvimento e pela competitividade, devem ser formados para serem capazes de se movimentarem bem no jogo internacional da globalização, dominando as relações com outras culturas e outras realidades, ao mesmo tempo que afirmam a nossa identidade própria. Este novo e indispensável modo de ser português no mundo tem que nascer nas nossas universidades.

Por outro lado, a mundialização dos mercados e a hegemonia de uma visão mercantilista neoliberal são uma ameaça para as universidades, que não podem estar sujeitas apenas aos interesses do mercado. Elas têm uma função social e cultural muito mais rica e complexa, têm responsabilidades de antecipação em relação ao mercado (hoje determinado pelo curto prazo) e envolvem valores e saberes afastados dos meros interesses económicos. A sobrevalorizarão do mercado conduz à mercantilização do saber, da ciência e da cultura, com tentação para as empresas de determinar a vida das universidades (o que não significa que elas não sejam chamadas, como parceiros ou "stakeholders" à governação das universidades) e de transpor para a universidade critérios de desenvolvimento baseados estritamente na rendibilidade económica. Mas também é verdade que isto pode ter alguma cumplicidade dos universitários, arrastados por toda uma retórica de ligação às empresas, bem como do Estado, que aproveita como alibi as modas liberais para se desresponsabilizar.

Todo este quadro novo de mudança social, com novos desafios, põe em questão as missões tradicionais da universidade, embora sem uma rotura radical. A maioria das universidades existentes foi criada num quadro de sociedade industrial, numa conjuntura de ciência entendida como fonte de aplicação tecnológica, de optimismo modernista, de desenvolvimento industrial tradicional e de estado-providência. Foi uma época de maior atenção e controlo da opinião pública sobre a acção do Estado, em que era crescente a preocupação com a relevância e a utilidade social. Daí uma tríade de missão que ainda caracteriza, no essencial, as universidades actuais: investigação, ensino profissional, serviços. Estes fins tradicionais precisam de ser vistos a outra luz na actual sociedade da informação e do conhecimento, em que a missão múltipla das universidades se pode caracterizar como ciência, formação de competências e aptidões, educação ao longo da vida e promoção da competitividade.

Esta nova formulação das missões das universidades não põe radicalmente em causa os seus actuais objectivos mas exige que eles sejam cumpridos com modernidade e grande qualidade. A procura tenderá a ser mais exigente e a universidade, atingida nos últimos tempos pela massificação, terá que estudar novas formas de ensino e organização para que se possa manter a qualidade e a formação de elites. Na perspectiva do ensino e da formação, requer-se que a universidade capacite as pessoas para o desenvolvimento máximo das suas capacidades e para adaptação permanente, ao longo da vida, às exigências do trabalho, porque o mercado de emprego solicita hoje perfis de formação flexíveis e adequados à acelerada mutação de qualificações e à necessidade de reconversões tecnológicas rápidas. Na ciência, requer-se cada vez maior progresso do conhecimento, mas também que este conhecimento beneficie a sociedade e a economia, como factor de competitividade na globalização. No apoio ao desenvolvimento, requer-se que a universidade sirva as necessidades de um desenvolvimento regional e nacional sustentado, adaptável e com sentido ecológico. Na formação geral das ideias, requer-se que a universidade contribua para o desenho de uma nova sociedade de democracia real e participada, civilizada e inclusiva. Pede-se-lhe por isto que aponte pistas para a solução do grande problema de hoje das sociedades desenvolvidas que é a exclusão social, começando logo por combatê-la no âmbito do alargamento social do acesso à universidade, nomeadamente pela utilização das novas tecnologias da informação e da comunicação.

Face a todas as mudanças sociais e económicas, as universidades devem dar um contributo para o desenvolvimento da sociedade do conhecimento e para a competitividade da economia e afirmação nacional no quadro da globalização mediante três acções fundamentais: uma formação inicial sólida e geral, mas com grande base científica teórica e aquisição de novas competências, completada com ensino de pós-graduação que especialize o conhecimento e alargue as competências; uma produção científica de alto nível quantitativo e qualitativo, com relevância; e uma interacção eficaz com o mundo social e económico, determinada em muito pela formação contínua, actualização e especialização recorrente, além do enraizamento regional.

As nossas universidades estão longe de cumprir estes requisitos e de corresponder adequadamente aos novos desafios da sociedade do conhecimento. Os jovens que elas formam ainda são, em grande parte, formados com base na simples aquisição de conhecimentos, muitas vezes supérfluos e perecíveis, são desprovidos de uma boa formação científica e cultural, têm criatividade reduzida e dificuldades de pensamento racional e de espírito crítico e têm reduzida capacidade de iniciativa, de inovação e de espírito de empreendedorismo. As universidades formam muito mais empregados do que empresários.

As formações facultadas pelas universidades, continuam a ser, em grande parte, como há dezenas de anos. Actualizam-se os conhecimentos, mas continuam a ser eles e a sua transmissão a marca do ensino. Os métodos pedagógicos evoluíram mas é reduzido o recurso às novas tecnologias e a pedagogia continua a ser vista muito mais do lado do ensino que do lado da aprendizagem. Não se percebeu ainda na universidade como mudou o tipo de trabalho e continua a ver-se a época industrial, com o desenvolvimento explosivo de métodos e tecnologias, a justificar uma grande especialização de formações. Com uma ou duas décadas de atraso (parece pouco, mas a evolução social corre vertiginosamente), a generalidade das nossas licenciaturas está organizada com o objectivo de formar profissionais especializados. Com isto, multiplicou-se enormemente o número de licenciaturas, com um perfil estreito de especialização. No último quarto de século, passou-se das tradicionais dezenas de cursos superiores para os actuais 659 (sem contar o politécnico).

Para além de outros factores menos aceitáveis, principalmente no sector público, que têm a ver com jogos internos e desejos de afirmação pessoal ou grupal, a multiplicação das nossas licenciaturas vive da ilusão da correspondência às exigências do mercado de trabalho. O que é curioso é que a universidade, ao mesmo tempo, parece ter uma grande arrogância. Preocupa-se com o mercado de trabalho mas é ela que decide o que esse mercado quer e raramente o consulta. Conhecem-se muitas licenciaturas que foram criadas sem nenhum estudo sério da sua viabilidade e interesse prático. Fica-se depois admirado de, por vezes, alguns cursos ficarem sem procura muito poucos anos depois da sua criação. Isto é particularmente marcante na universidade pública, porque é livre de criar cursos e tem financiamento praticamente garantido para todos os seus programas, por irrelevantes que sejam. Já as privadas têm mais cuidado, porque não se podem meter em aventuras que se traduzam em prejuízo financeiro.

As novas formações

A justificação da multiplicação de licenciaturas como se elas estivessem em correspondência com a especialização do mundo laboral já não faz sentido. A especialização do trabalho continua a ser um facto, mas mudando de conteúdo a tal velocidade que a oferta de cursos especializados nunca conseguirá acompanhar o ritmo dessa evolução. A especialização com o uso de instrumentos de que não se conhece profundamente os seus mecanismos teóricos condena ao uso frequente de novos instrumentos sem se entender as condições em que foram desenvolvidos e as regras e limitações da sua utilização.

Mas, principalmente, apareceram novas formas de trabalho. O quadro superior de hoje deixou de estar obrigatoriamente preso a uma linha de produção, dirigindo-a, tão preso afinal como os operários que a executam. A regra deixou de ser a da rigidez e especialização, passou a ser a da flexibilidade e polivalência. O trabalho a nível superior é muito mais diversificado, recorre a quadros com qualificação larga e com saberes sólidos e diversificados, que têm que se compreender para trabalhar em conjunto. E compreender-se é falar a mesma linguagem científica de base. A cada momento aparecem problemas novos, com a constituição de equipas para os resolver e o sucesso da resolução de um novo problema, condição da competitividade, exige a maior rapidez para aprender abordagens técnicas adequadas, aprendizagem permanente e diversificada essa que tem que ter por base uma formação científica sólida mas ampla; e, complementarmente, aptidões desenvolvidas de aprendizagem sozinho ou em grupo.

A licenciatura é cada vez mais vista como o grau que fornece uma preparação científica e técnica ampla, a chamada banda larga e, mais do que conhecimentos especializados, desenvolve aptidões adequadas à grande diversidade das condições reais do trabalho. É nestes termos que se fala das novas formações. Elas caracterizam-se, essencialmente, por "ensino de banda larga", privilégio às competências ("skills"), maior atenção à aprendizagem que ao ensino e grande recurso às modernas tecnologias aplicadas à aprendizagem. Nenhuma universidade se pode hoje intitular moderna e de qualidade se não se basear nas novas formações.

Os cursos ditos de banda larga abrangem os aspectos subdisciplinares de uma área consolidada do saber, de forma que, no fim do curso, o estudante tem uma formação ampla e sólida de uma área científica alargada. Vendo melhor com exemplos, biologia, informática, economia, gestão, história são cursos de banda larga enquanto que, para os mesmos exemplos, biotecnologia, informática de gestão, relações económicas internacionais, gestão hospitalar ou história da arte são cursos de banda estreita. Obviamente que são cursos com interesse, mas como especializações de pós-graduação, designadamente mestrados, depois de concluído o curso inicial de licenciatura de banda larga.

É claro que não se deve confundir ensino de banda larga com superficialidade ou falta de sentido prático. A formação científica, ainda que larga, deve ser sólida e com boa articulação com a prática. O que não pode é ser substituída pelo privilégio da informação sobre instrumentos sem compreensão das suas bases teóricas, o que leva, pela vida fora, a uma atitude de utilização acrítica e irracional de novos instrumentos. No ensino de banda larga cabem as aplicações, principalmente na perspectiva do ensino de projecto, mas elas são mais uma exemplificação da teoria do que o objectivo essencial do ensino.

Mas para além da preparação científica sólida e não supérflua, de banda larga, o que também se pede hoje às universidades é que treinem os licenciados para poderem fazer a aprendizagem de inserção no trabalho o mais rápida e mais eficientemente possível. E que lhes dê instrumentos para poderem fazer o mesmo sempre que se lhes colocarem problemas concretos, sempre que tiverem que adquirir novas informações e competências. O que se mede à entrada no mercado de trabalho são mais aptidões que informações. O que o mundo do trabalho pede à formação universitária é a mentalidade científica e de rigor, a capacidade de raciocínio e de análise, a imaginação criadora, a capacidade de continuar aprendendo, a adaptação crítica a novas situações, a liderança e a capacidade de condução de processos sociais, o domínio das novas tecnologias da informação e, cada vez mais na era da globalização, a capacidade de comunicação e o domínio de línguas.

Pode-se dizer como fórmula que se pede cada vez mais pessoas educadas que pessoas instruídas. Não se esqueça também que a filosofia e utilidade social da universidade implicam que o ensino não se pode basear só numa perspectiva exclusiva de objectivos profissionalizantes. As universidades também têm a obrigação de formar pessoas, prepará-las para a vida e para a cidadania, treiná-las como futuros agentes privilegiados do progresso social.

Este último aspecto, da socialização, é hoje uma das preocupações das universidades que estão a rever as suas formações. Curiosamente, é muito discutido nos Estados Unidos, um país que, preconceituosamente, se diria pouco interessado na formação para a cidadania. A par da formação para a profissão, é importante formar os estudantes para o empenhamento cívico e a participação democrática. Algumas universidades vão ao ponto de incluir nos seus currículos, obrigatoriamente, a participação em serviços comunitários. A socialização dos estudantes pode ter duas facetas: socializar para integração na sociedade tal como ela é ou socializar para questionar a sociedade. Obviamente, elas não são exclusivas. O que é necessário, numa nova perspectiva da missão da universidade, é incutir nos jovens valores que conjugam o mérito da iniciativa (espírito empreendedor, sentido das responsabilidades, gosto pela inovação) com a solidariedade (espírito colaborativo, sensibilidade contra a exclusão, sentido do estar em sociedade).

Relacionada com esta forma de socialização é a formação cultural, a socialização para a vida intelectual. Uma das melhores formas de a conseguir é expor todos os estudantes, seja de que área forem, a assuntos que, normalmente, não irão procurar facilmente nas suas vidas activas, como a filosofia, a história ou a literatura, como parte dos seus currículos ou em actividades extra-escolares. É também no campus universitário que se começa a familiarização com a vida cultural, mediante programas organizados pela universidade: concertos, teatro, exposições artísticas e outras manifestações culturais.

A nova pedagogia

Ressalta desta nova concepção de objectivos educacionais a ênfase na aprendizagem activa, reforçada pela ideia de que a formação completa e a mais necessária para se vencer na vida activa já não é a do simples conhecimento ou compilação de informação. É necessário desenvolver aptidões (“skills”) e comportamentos adequados. Não basta conhecer um texto, é preciso saber criticá-lo e extrair o seu significado, é preciso que a leitura dê indicações de como escrever. Isto é uma aptidão. E é preciso gostar de ler e de usufruir de uma sensação estética. Isto é um comportamento ou uma atitude. Esta nova visão da educação radica também na ideia de que, mais importante que saber, é necessário saber fazer. O ensino passa a dirigir-se a três esferas mentais do estudante. Não só à cognitiva, com o saber tradicional, mas também à esfera sensório-emotiva, isto é, à educação dos comportamentos e atitudes, do saber ser e do saber estar, e à esfera psicomotora, a das aptidões, do saber fazer. Mudou com isto o papel do professor. Mais do que transmissor de conhecimento, é um facilitador da aprendizagem.

Uma das novas atitudes fundamentais requeridas é a capacidade de lidar com a mudança. O ensino tradicional, repetitivo, tendente à rotina e à perpetuação do conhecimento, está em contradição também com a evolução rápida das teorias e dos conhecimentos que lhes estão associados. As certezas definitivas estão abolidas e a regra é a incerteza e a interrogação permanente. Isto compara-se também com a atitude perante a saída universitária. Tradicionalmente, a universidade preparava para uma situação estável e previsível, com bom estatuto social e nível remuneratório elevado, em termos relativos. Hoje, o diplomado da universidade confronta-se com a incerteza, dada a evolução do mundo do trabalho, que ultrapassa as capacidades prospectivas da universidade. Portanto, também neste aspecto, o estudante deve ser preparado para o imprevisível, para a capacidade de iniciativa e de adaptação a novas situações, para a aceitação do risco.

É verdade que toda esta nova visão é ainda muito tendencial e que as empresas têm apreciações divididas. Nas respostas ao inquérito Dearing sobre o ensino superior inglês (1997), as empresas tanto apontavam a necessidade de cientistas e engenheiros com formação especializada como a de diplomados com formação geral mas bem treinados em aptidões. Isto pode não ser contraditório, porque estas duas pretensões do mercado de trabalho correspondem a duas formações distintas. A de cientistas e especialistas a nível da pós-graduação, do doutoramento e do mestrado, a formação de banda larga a nível da licenciatura. Correspondem também, por outro lado, às diferentes vocações formativas dos dois subsistemas de ensino superior, o universitário e o politécnico.

Se na Inglaterra as opiniões empresariais estão divididas, duvido que o mesmo se passe em Portugal, mas no pior sentido, isto é, a generalidade pensa ainda exclusivamente nas formações universitárias de tipo clássico. A prova é que, entre nós, ao contrário de países mais desenvolvidos, essas formações tradicionais continuam a propiciar empregos. O nosso tecido social e empresarial tem as fragilidades que se conhecem. Contam-se por muito poucas as empresas adaptadas às novas condições de competitividade da globalização e da sociedade do conhecimento. Os nossos empresários não têm uma visão prospectiva, pensam a curto prazo e não têm uma ideia clara do que devem pedir como formação dos seus quadros. Se tantos professores também não têm essa ideia, devíamos pedi-la aos empresários? A resposta deve ser positiva, porque eles é que estão no mundo do trabalho e têm obrigação de estar conscientes da sua evolução. Nos últimos tempos, vem sendo moda os colóquios entre universidades e empresários. Tenho assistido a muitos. São uma conversa de surdos, numa língua antiga.

Mas, já que se falou na Inglaterra, não se esqueça que uma das qualidades do seu ensino de elite (Oxbridge) e que já vem muito de antes das actuais exigências sociais é exactamente o conceito de uma educação vasta e relativamente eclética, sem preocupações imediatas com a empregabilidade. Darwin estudou teologia. E há a velha anedota que diz que o lugar em que mais gente e melhor fala o grego clássico é a City de Londres! Ou, mudando de continente, a obrigação de os estudantes de ciências e engenharias das melhores universidades americanas terem em cada semestre uma disciplina de humanidades, e vice-versa.

Anote-se que as novas formações, com o seu ensino de banda larga, com ênfase nas competências, com as preocupações de socialização e com o recurso a novas tecnologias, são um desafio à qualificação dos docentes, nomeadamente no nosso caso, em que a pirâmide está invertida, com grande maioria de professores juniores. Ensinar em banda larga exige um grande "background" de saber-fazer, seja na investigação, seja na actividade profissional. Só assim se tem capacidade para se extrair da grande massa de informação o que é relevante e contribui para a formação de competências e, por outro lado, se transmite o testemunho do gosto pelo fazer e pela inovação. É uma pedagogia muito mais exigente. Pelo contrário, as características de tradicionalismo que ainda marcam muitas das nossas licenciaturas são agravadas por deficiências frequentes nos métodos pedagógicos. Os professores universitários não têm preparação pedagógica inicial e mesmo ao longo da sua vida profissional raramente têm a oportunidade de participar em cursos, seminários ou reuniões sobre pedagogia e métodos de ensino. A pedagogia fica ao sabor de cada um, do seu instinto e dotes naturais de comunicador.

E, no entanto, a pedagogia do ensino superior tem vindo a progredir imensamente, com novos conceitos e novos métodos. Lembrando que as características distintivas da aprendizagem superior são o desenvolvimento da compreensão e a capacidade de aplicação de conhecimentos a situações práticas variadas, pode-se resumir toda essa mudança numa fórmula simples e muito significativa: o estudante como sujeito passivo do ensino é hoje substituído pelo sujeito activo da aprendizagem. O ensino tradicional é muito unidireccional. É a transmissão de conhecimento e informação do professor para o estudante, que é simples receptor, muitas vezes mais memorizador que compreensor. Na perspectiva moderna das novas formações, exige-se uma grande participação do aluno. Ele é activo na sua própria aprendizagem, estruturando racionalmente os conhecimentos que vai adquirindo, entrelaçando o que lhe é transmitido com o que ele próprio procura. Com isto, o ensino passa obrigatoriamente a ser mais do que transmissão de conhecimento. É também o facultar de processos e ferramentas para esse papel activo do estudante. Em síntese, a atenção principal na acção educativa transfere-se, em grande parte, do ensino para a aprendizagem.

Um programa de melhoria dos processos de ensino-aprendizagem, que também é um programa de combate ao insucesso escolar (um dos nossos grandes problemas: mais de metade dos alunos não consegue completar os cursos no número de anos previsto) passa, na prática por metodologias de ensino-aprendizagem centradas no aluno; actividades formais de aprendizagem apelativas para a intervenção dos alunos, tais como seminários e trabalhos de grupo; projectos de estudo, de investigação e de campo; tempo adequado para o trabalho individual e de grupo; pesquisa e utilização crítica da informação, na perspectiva da resolução de problemas; sistema de tutores;  facilidades de crédito para compra de material informático; estrutura curricular flexível e diversificada, com opções; incentivos e recompensas para o melhor desempenho pedagógico (citado do programa de combate ao insucesso da Universidade do Minho).

As novas tecnologias, nomeadamente a computação multimédia e a Internet, têm um papel crucial na transformação pedagógica associada às novas formações e no sucesso escolar. O que as torna tão importantes, para além do seu uso no ensino à distância é que, mesmo na sala de aula tradicional ou na sala de estudo, elas são uma forma de desenvolver grandemente a capacidade de aprendizagem, de iniciativa e de resolução de problemas, além de serem um treino numa competência vital já hoje e cada vez mais no mundo do trabalho. O ensino electrónico ("e-learning") aumenta comprovadamente o interesse do estudante em aprender e dá-lhe liberdade. No ensino interactivo por computador, o estudante escolhe o tempo de estudo, o tempo dedicado a cada tema, pode voltar a temas já estudados e retomar o percurso e é defrontado com tutoriais, problemas e simulações que têm sentido real e são apelativos. A pesquisa na Internet é outro treino fundamental para a vida, o da procura e crítica da informação.

A tecnologia de aprendizagem electrónica também tem grandes vantagens para os professores. Eles podem aperceber-se mais facilmente das características e dificuldades de aprendizagem de cada aluno e ter uma acção pedagógica, de orientação e aconselhamento no estudo, muito mais eficaz. É mais um dos aspectos do que já dissémos. O professor é cada vez menos um fornecedor de informação e cada vez mais um tutor e facilitador da aprendizagem.

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O segundo grande problema das universidades face aos desafios da sociedade da informação tem a ver com a investigação que praticam, os seus objectivos e relevância e, de forma mais geral, com o papel das universidades na inovação e na promoção da competitividade, o que passa pela questão das suas relações com as empresas, numa perspectiva de empreendedorismo. É matéria vastíssima, que ultrapassa a dimensão aceitável deste texto. Fica para próximo artigo.

A terceira grande transformação das universidades que queiram ir a par com as mudanças da sociedade do conhecimento tem a ver com a educação recorrente e com a aprendizagem ao longo da vida ("life-long learning" ou LLL). É um domínio fundamental da actividade universitária de hoje, mas que ainda praticamente não existe entre nós. Tentaremos também abordar mais tarde este tema.

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Em conclusão,

A mudança está vertiginosa e inquietante. Estamos a viver uma revolução no ensino superior, que vai até ao mais fundo dos seus conceitos e filosofia, das suas tradições, da sua missão e dos seus objectivos educacionais, da organização dos seus currículos, da forma de ensinar e aprender. Dentro de alguns anos, as universidades que souberem adaptar-se a esta revolução serão irreconhecíveis. Entretanto, as nossas universidades públicas vão perdendo tempo, viradas para dentro da sua autonomia e numa situação aparentemente confortável de quem não corre riscos, sustentadas por um poder público que também não as questiona. As privadas, por seu lado, não têm muitas vezes os recursos humanos e materiais para tão grande transformação. Mas deve ser esta a sua meta, como condição de competitividade.

O desafio é enorme. Nos próximos anos, sob pena de serem relegadas para a categoria de instituições irrelevantes, as universidades vão ter que adoptar padrões de qualidade elevados, assumir a competitividade, pensar em novos conteúdos científicos do seu ensino, rever estratégias e métodos de formação, adaptarem-se à mudança estrutural dos seus públicos, propiciar meios de articulação da aprendizagem na escola e no trabalho, ir de par com a crescente interdisciplinaridade, que afecta também a sua organização, reconhecer e creditar para fins de ensino formal as competências adquiridas em exercício, encontrar formas empreendedoras de relacionamento com o meio social económico (universidades "entrepreneurial"), recorrer crescentemente às tecnologias da informação com treino adequado dos docentes. E muito mais.

A universidade não pode ser a do país que temos, mas sim a do país que queremos. A questão é de saber se ela tem forças, pensamento e vontade para se transformar a tempo e corresponder, nos seus múltiplos aspectos (aprendizagem, investigação e produção tecnológica, prospectiva, estudos sociais, intervenção cultural) às necessidades de mudança da sociedade, uma mudança em aceleração.

10.11.2002