João Vasconcelos Costa              24.03.2010    
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EDUCAÇÃO SUPERIOR
A educação superior em Portugal: artigos, opiniões e documentos - Higher education in Portugal: papers, opinions, documents
O meu outro sítio, pessoal:

A INQUIETUDE PERMANENTE

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Administrador da Fundação Gulbenkian
Ex-Ministro da Educação

"REFORMAS ESTRUTURAIS" NO ENSINO SUPERIOR

E. Marçal Grilo

As "reformas estruturais" no debate político em Portugal são um dos temas mais citados e referidos nos últimos anos. Quando nos defrontamos com uma questão mais difícil ou quando somos surpreendidos por um indicador que mostra o nosso atraso a resposta é quase sempre a mesma : têm que se fazer "reformas estruturais" ou têm que se tomar "medidas de fundo".

Tenho que confessar que nunca fui grande adepto do termo "reformas estruturais", mas para simplificar vou adoptá-lo ao longo deste escrito.

É hoje evidente que há algumas áreas em que importa definir um novo conjunto de regras e procedimentos capazes de modificar o modo como funcionam certos sectores, que, por uma razão ou outra, deixaram de acompanhar as mudanças significativas que, obrigatoriamente, vão ocorrendo na organização dos Estados, sejam estas decorrentes da falência do "modelo social", da fragilidade da administração do Estado, da insuficiência dos meios financeiros, da crise económica, de uma excessiva vontade de satisfazer as expectativas dos cidadãos ou de um conjunto perverso de interesses.

Sem querer definir prioridades, gostaria de propor para debate três "reformas estruturais" na área do ensino superior, considerando que há hoje no país condições políticas que permitem a sua realização, nomeadamente a existência de uma maioria parlamentar, o que não ocorria desde 1995.

1. A primeira tem a ver com a estruturação e arrumação dos graus de ensino superior tendo em conta por um lado a necessidade de repensar os "nossos" graus à luz da declaração de Bolonha e por outro, a importância que deve ser atribuída à articulação entre esses mesmos graus e a sua atribuição por parte das instituições de ensino superior. Refira-se como nota lateral, que aquela ideia absurda de alguns quererem, pela Europa fora, impor o modelo inglês e configurar numa duração de três anos todos os cursos de primeiro ciclo de ensino superior, não encontra qualquer suporte nem na génese nem em nenhum dos documentos preparatórios da declaração de Bolonha, muito menos no texto da própria Declaração.

Neste sentido, e reconhecendo que estas "reformas estruturais" devem ser essencialmente simples e exequíveis, a proposta que formulamos visa a extinção dos graus de bacharelato e licenciatura e a criação, no ensino superior, de um único ciclo inicial de 3 a 5 anos, a que se deverá atribuir uma designação qualquer, não importa o nome, mas de preferência uma que faça com que termine, finalmente, a utilização dos títulos de "senhor doutor" e "senhor engenheiro" que caracteriza a nossa sociedade mas que constitui um sinal de atraso e subdesenvolvimento claros. (Por uma questão prática devia deixar-se o título de doutor para os médicos, porque em caso de emergência se torna mais fácil encontrar nas listas telefónicas alguém que nos possa socorrer).

Quanto às instituições que podem atribuir os três graus que deveríamos adoptar (1º ciclo, com designação a encontrar, mestrado e doutoramento), a proposta é simples: as universidades têm capacidade para atribuir os três graus e os institutos politécnicos apenas atribuem os dois primeiros. Significa isto que, ao contrário, por exemplo, do Reino Unido, onde hoje o ensino superior é praticamente todo constituído só por universidades, Portugal assume um sistema binário muito articulado internamente ( isto é com grandes ligações entre universidades e politécnicos), mas um sistema onde há instituições que não fazem investigação de base, nem investigação fundamental.

Esta investigação é a única que permite a concessão de doutoramentos, em particular nas áreas mais sensíveis que assentam na experimentação e que implicam um enquadramento científico e uma massa crítica muito avançadas. Sublinhe-se, que no Reino Unido, a existência apenas de universidades não impediu que mais de 70 a 80% das verbas de investigação sejam absorvidas por cerca de 15% destas instituições, o que mostra que a "binaridade" continua a existir camuflada por uma designação errónea e incorrecta.

Portugal não tem condições para ter mais de três dezenas de instituições com capacidade para conceder o grau de doutor, a não ser que se entenda que o doutoramento, como muitas outras coisas no País, não é bem para valer, mas antes passa a constituir apenas um grau correspondente a um curso em que se fazem umas cadeiras e se apresenta uma dissertação que não representa qualquer valor acrescentado para a ciência e para o conhecimento.
Importa, a este propósito e como nota final a esta "reforma estrutural", referir que esta proposta dificilmente virá a ser adoptada, uma vez que as pressões dos institutos politécnicos e do "pessoal político" regional e local se oporão ferozmente a uma medida que impede a "criação" de universidades em muitas localidades que a isso aspiram. Mas nesta matéria há que ser claro, ter no país mais de trinta universidades com centenas de institutos, faculdades e departamentos é algo de manifestamente aberrante que mostrará mais uma vez a nossa incapacidade para combater a demagogia e o populismo fácil!

A este propósito, gostava de recordar um texto elaborado no inicio dos anos 80 por mim e pelo Manuel Carmelo Rosa e apresentado a um congresso do ensino politécnico, onde fizemos a previsão de que esta pressão para transformar os institutos politécnicos em universidades ia ser um dos factores condicionantes do normal desenvolvimento dos institutos. Não nos enganámos, mas tal como há vinte anos continuo a pensar que vale a pena lutar contra esta tendência e este movimento por mais politicamente incorrectos que sejam hoje esta atitude e este procedimento. Tive algumas "dores de cabeça" com este tema no passado recente, mas entendo que a insistência e a repetição de uma aspiração - talvez legítima - de muitas cidades e regiões, não pode "obrigar" à adopção de políticas que contrariam a racionalidade, o bom senso e o enquadramento lógico no contexto europeu em que nos inserimos, que nos diz que o modelo é não haver modelo e que o que é diferente deve ser tratado de forma diferente. A uniformização de instituições de ensino superior, neste caso como aliás em muitos outros, é um sinal redutor e de pobreza cultural, ao passo que a diversificação institucional é um indicador seguro de maior capacidade, de maior riqueza e de maior dinamismo, no que respeita à oferta de cursos, de oportunidades e de projectos aos jovens deste país.

O ensino politécnico é uma realidade sólida, custou muito a desenvolver, teve grandes financiamentos, continua a absorver fundos muito consideráveis e tem um grande papel a desempenhar, mas só será verdadeiramente relevante para o país se conseguir manter a sua especificidade, sem procurar "copiar" ou "mimar" as funções que estão ou pelo menos devem estar cometidas ao ensino universitário.

2. A segunda "reforma estrutural", visa ordenar o ensino superior através do grande instrumento de regulação que é o financiamento das instituições, visando a nossa proposta um objectivo muito simples: o financiamento das instituições públicas deve deixar de ser uma obrigação do Estado e passar a constituir um dever dos estudantes, isto é, os estudantes passam a assumir as despesas dos seus estudos, pagando uma taxa cujo montante é definido por cada universidade ou por cada instituto politécnico, permanecendo no Estado a função de apoiar o estudante quando este não tem recursos financeiros suficientes para suportar os custos dos seus estudos. Envolvem-se nestes custos tanto os custos privados suportados pelas famílias, como os directamente inerentes ao curso frequentado, podendo este apoio ser traduzido por um sistema de bolsas de estudo ou por um esquema de empréstimos, consoante o estudante seja efectivamente cidadão com fracos rendimentos ou um cidadão que não o sendo, pretenda apenas realizar um investimento na sua formação e valorização.

Depois da introdução da "taxa única" na Lei do Financiamento de 1997, que garantiu politicamente a aplicação do conceito de participação do estudante nos custos do ensino superior e após um longo período de investimento maciço do Estado no funcionamento do ensino superior público, é agora tempo de, sem pressas, o País dar um novo passo e assumir um conceito de financiamento mais moderno. Neste sentido as instituições públicas devem ser compelidas a ter um papel mais dinâmico na procura dos seus financiamentos que, ao mesmo tempo, se deve traduzir por uma actuação privilegiada do Estado na área chave do investimento, nomeadamente através da realização com as instituições de contratos de desenvolvimento e de contratos-programa. O Estado terá ainda de promover incentivos de apoio à investigação e à pesquisa científicas. Trata-se de uma mudança que vai merecer, seguramente, muita contestação por parte de variados sectores, mas a situação a que chegou o ensino superior impõe que se adopte uma política que permita avançar no financiamento, reorientando o papel do Estado e aumentando a responsabilidade dos cidadãos e das instituições, e procure introduzir algum equilíbrio entre os diferentes sub-sistemas que integram o ensino superior em Portugal.

A concepção preconizada terá, à luz da Constituição da República, duas leituras contraditórias. Por um lado pode ser considerada inconstitucional, tendo em conta o princípio de que a "educação é tendencialmente gratuita", por outro, deve ser entendida como a única forma de satisfazer o preceito, igualmente constitucional, que estabelece o princípio "da liberdade de ensinar e aprender" que, como se sabe, não poderá ser satisfeito se o Estado não intervir como entidade reguladora através de um financiamento que vise o cidadão sem discriminar as instituições, sejam estas de raiz pública ou de iniciativa privada. O risco que corremos hoje no ensino superior privado é o de assistirmos ao desaparecimento das instituições que têm um projecto de qualidade ao mesmo tempo que se consolidam aquelas, que sem projecto e sem qualidade, se vão mantendo por força de uma actuação que não escolhe os meios para atingir os seus fins.

Em matéria de constitucionalidade das leis é bom, no entanto, não esquecer, que tem havido no passado recente sempre quem tome posição num sentido e quem o faça, rigorosamente, no sentido contrário!...

Neste contexto do apoio directo ao estudante, convém não confundir o conceito com os famosos vouchers de que tantos falam como solução para o financiamento das escolas portuguesas mas que, de acordo com o que tem acontecido, nomeadamente em alguns estados norte-americanos, está longe de ser uma solução adequada para os graves problemas com que se debatem as escolas públicas. Convém, igualmente, referir que este apoio ao estudante, traduzido, nomeadamente, pelo vulgar instrumento da bolsa de estudo, requer algum cuidado na sua aplicação, dado que, com o sistema fiscal em vigor, há ainda muita declaração falseada de rendimentos que permite tornar elegível para apoio do Estado, cidadãos que nunca deveriam ter acesso a tais apoios. Recordo-me o que se passou em 1993 e 1994 com a lei das propinas ao tempo em vigor, que previa isenções de pagamento em função das declarações de IRS e que se tornou para os "amantes" da fuga ao fisco um instrumento com que obtiveram benefícios a que não deviam ter tido acesso.

3. A terceira "reforma estrutural" tem o objectivo principal de combater evidentes dificuldades de gestão com que se debate a maioria das instituições de ensino superior portuguesas. Não restam dúvidas que a maior parte das universidades e dos institutos politécnicos dá hoje mostras de uma grande falta de sentido estratégico, ou seja, muitas instituições estão totalmente bloqueadas e algumas têm mesmo dificuldade em assumir, de forma consciente e determinada, um projecto com objectivos bem traçados, com recursos razoavelmente identificados e com instrumentos de execução estruturados adequadamente.

A este propósito, convém recordar que a existência de um excesso de cursos é sobretudo o resultado desta falta de sentido estratégico. Muitos cursos são criados para satisfazer interesses que se movem no interior dos próprios departamentos ou faculdades e não são criados com o objectivo de corresponder aos interesses e às expectativas da sociedade envolvente. Isto é, as instituições estão mais viradas para dentro do que para fora.

Neste sentido, há que enfrentar esta situação introduzindo alterações nos sistemas de decisão e de gestão que vão ao encontro das causas profundas que estão na origem destes bloqueios e desta ausência de projecto e de estratégia.

O enquadramento legislativo em que se movem as universidades e os institutos politécnicos tem imensas virtualidades; consagra a autonomia científica e académica das universidades, concede uma alargada autonomia nas áreas da gestão financeira e do património, facilita a gestão dos recursos humanos próprios e coloca as escolas de ensino superior, nomeadamente em relação ao estatuto do corpo docente, numa plataforma institucional a par dos mais prestigiados corpos especiais da administração pública.

Ocorreu, no entanto, nos últimos anos no ensino superior português (não quero referir o caso europeu onde no entanto se detectam sinais muito semelhantes), um fenómeno de corporativismo intenso que tem vindo a "fechar" as instituições tornando-as, com algumas boas mas raras excepções, pouco sensíveis à mudança a aos sinais vindos das outras componentes da sociedade envolvente.

Quebrar esta "clausura institucional" e este "sistema corporativo" é uma das prioridades a assumir por uma política pública que pretenda alterar o estado das coisas no ensino superior e na universidade em particular. Em nossa opinião, depois de alguns anos em que os resultados demostraram na prática a inadequação da estrutura de gestão e o ineficaz sistema de decisão interno das instituições, importa repensar os instrumentos que estão em vigor e sobretudo rever a legislação que regulamenta os órgãos de gestão e a forma como são encontrados os responsáveis por essa mesma gestão aos diferentes níveis.

Não se trata, seguramente, de uma alteração fácil (alguns outros países têm conseguido introduzi-la, embora encontrando algumas resistências), mas diria que é uma modificação indispensável aquela que se propõe e que visa dois objectivos. Por um lado, rever a distribuição de funções e poderes entre o órgão directivo e o órgão científico das faculdades; por outro, terminar com o actual sistema de designação dos reitores e dos directores de faculdade ou presidentes do conselho directivo; e ainda revogar a norma que estipula que estes cargos devem ser preenchidos obrigatoriamente por professores do quadro das instituições respectivas. Em relação à distribuição de funções e poderes, há que conceder maior responsabilidade ao presidente do conselho directivo, isto é, transferir para este órgão algumas das competências que hoje cabem ao conselho científico. Quanto ao modo como são escolhidos os reitores e os directores de faculdade (presidentes dos conselhos directivos), propomos que estes sejam designados por um conselho de curadores (board of trustees na designação anglo-saxónica) onde estejam representados os diferentes corpos que compõem a universidade ou o instituto politécnico e onde tenham igualmente assento representantes de outros corpos da sociedade, nomeadamente de organizações científicas, económicas, sociais e culturais, além de individualidades que sejam escolhidas pela própria universidade ou instituto politécnico.

Esta é, seguramente, uma das medidas que vai facilitar o aparecimento de lideranças fortes de que se necessita em tantas instituições de ensino superior. Sublinhe-se ainda, que aquela designação deverá ser precedida pela apreciação e aprovação de um plano de actividades e de um programa de acção que constituam os termos de referência da acção de cada um dos responsáveis a designar.

Nota Final - A qualidade indiscutível de muitos cursos de ensino superior em Portugal, a par de uma actividade de investigação científica que em certas áreas está ao nível do melhor que se produz na Europa e nos EUA, leva-nos a acreditar que muitos bloqueamentos de que sofrem as instituições não são de natureza financeira e que quando existem recursos humanos qualificados, lideranças fortes e projectos bem concebidos, estão criadas as condições para que as escolas, os cursos e os projectos de investigação tenham a qualidade de que o país necessita para poder ter voz e um papel no desenvolvimento do país e no diálogo com outras instituições ao nível internacional.

Diário de Notícias, 5 e 6 de Setembro de 2002

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