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João Vasconcelos Costa
Espaço de conversa de um epicurista ou, pretensiosamente, a sabedoria (?) de/dos 60s. Açoriano, muitos anos investigador científico, depois professor universitário, passando por diretor de uma instituição de investigação e ensino, tudo isto com algum trabalho feito de estudo da educação superior. Hoje, novamente com responsabilidades de direção universitária. Albergando aqui a perplexidade angustiada da falta de perspetivas de concretização de ideais nunca realizados. Também, mais prosaicamente, o gosto de bem comer. E peripatético, que isto de ficar sentado é coisa de velhos.
 

"O eduquÊs em discurso directo"

João Vasconcelos Costa

É com pena que manifesto a minha desilusão com o "Eduquês em discurso directo" (Gradiva ISBN 989-616-094-5), porque, normalmente, leio com agrado as crónicas de Nuno Crato (NC). É um livro "fácil" e na moda. No essencial, limita-se a uma exegese muito crítica de textos díspares, que NC rotula, sem mais argumentação, de partilharem uniformemente a visão construtivista, pós-moderna e romântica do "eduquês", sem que, dessa critica, transpareça claramente a visão própria do autor. Perde-se mesmo em coisas intelectualmente interessantes mas relativamente formais, como a análise de antinomias lógicas dos textos que cita. É certo que, pelas criticas que formula, o leitor pode-se aperceber da opinião geral de NC, mas nunca esta opinião é formulada em termos de propostas operacionais. Acaba por ficar tão retórica como a retórica dos outros que NC critica. É pena, porque eu creio saber interpretar muita coisa sensata e equilibrada que NC escreve, mas provavelmente, para o leitor comum, ele ficará como um exemplo de visão "de antigamente" da educação.

Isto merece-me logo uma nota introdutória. Todos os textos que critica são soltos, ficando o leitor sem saber em que contexto foram escritos. Inclui até entrevistas a jornais, coisa que toda a gente sabe que nunca pode traduzir totalmente a complexidade do pensamento de quem as dá.

Parece-me que NC está preso da sua formação matemática. É patente, por exemplo, que a sua crítica ao construtivismo assenta numa definição própria, "matemática" e abusiva do construtivismo, que não atenta às muitas nuances que o conceito tem. NC é homem das matemáticas e não compreende que, nas ciências humanas, os conceitos não são tão transparentemente inteligíveis como nas ciências exactas. Até nas ciências naturais não são inequívocos. Há termos que eu, professor de duas disciplinas biológicas, tenho de esclarecer bem os meus alunos de que têm significados diferentes numa e noutra.

Um bom exemplo é o da redução dos fundamentos ideológicos das novas pedagogias ao pensamento de Rousseau, com consequências, com que concordo, na exclusão social, na dificuldade de acesso a "cultura superior" (Gramsci, para mim, é mal citado, neste contexto). Mas isto é como criticar todo o socialismo – conceito hoje extremamente multifacetado – só com o referencial de Estaline e Mao, por exemplo. O construtivismo tem muito mais suporte, desde o behaviourismo até à moderna neurobiologia das redes neuronais. Era bom, para um matemático, fazer um esforço de separação, embora não divorciante, entre ciência e ideologia.

Ao passar para os capítulos temáticos, vem mais ao de cima uma posição equilibrada. Muito do que NC escreve sobre os exames, a necessidade de memorização – eu nunca deixei os meus filhos usarem calculadora no equivalente ao antigo ensino primário –, a necessidade de disciplina, são coisas que me parecem ser partilhadas por toda a gente de bom senso, adepta ou não da "nova pedagogia" – não quero usar o termo "eduquês", pelas confusões e generalizações abusivas que causa. Mesmo assim, NC não deixa de se levar para o tal exagero exegético. Por exemplo, critica uma frase de A. Nóvoa, "em educação, a autoridade não se impõe, conquista-se". Claro que isto não é uma equação, mas toda a gente percebe que os dois termos não são antagónicos, no discurso corrente. É apenas uma fórmula (não matemática!). Este capítulo é também um bom exemplo de critica fácil, perante uma situação grave, mas para a qual NC não apresenta qualquer proposta. A menina dos cinco olhos?

Há um capítulo com o qual estou de acordo, sobre os exames. Posso ser retrógrado para alguns eduqueses exacerbados, mas, como professor de 80 alunos, nas nossas condições impeditivas de uma verdadeira avaliação contínua (falo da universidade), não sei como dispensaria os exames. Já há muito tempo que não leio Piaget, mas não creio que alguma vez ele tivesse proposto a eliminação dos exames.

Passado este capítulo com agrado, defrontei-me novamente com as minhas discordâncias com um outro capítulo importante, sobre os currículos e programas. Pelo que julgo ser a idade de NC, deve ter filhos no ensino básico ou secundário. Eu, mais velho, também posso falar por ter um filho tardio que ainda há pouco entrou na universidade. Devo conhecer os programas tão bem como NC. Além disso, fui membro da associação de pais e sempre delegado dos pais ao conselho de turma. Socorrendo-se, como faz com frequência, da citação de uma frase pateta, mesmo que de uma pessoa com responsabilidades, NC escreve que "dar o programa parece ser algo condenável e ultrapassado". Não é verdade, para os professores que sofrem tormentos para dar o programa. O problema é que, ao contrário do que NC parece pensar, os programas são pesadíssimos em informação. Na matemática, não há tempo para o exercício essencial da resolução de problemas. Na biologia, que domino, o programa não pode deixar de ser um debitar acelerado de dados, sem "construção" possível pelos alunos.

Sobre as competências, NC escreve dois capítulos antagónicos. No primeiro, discorre ele próprio, e bem, de forma sensata e adequada a um largo consenso actual da educação a todos os níveis. Lembremo-nos de Bolonha. Já o capítulo seguinte me parece muito menos sólido, porque baseado em coisa muito vaga: "há a tentação". Não sei o que é que isto interessa em ciência e em política educativa, a não ser como risco a controlar. E o que é essa tentação? A de "procurar desenvolver os níveis superiores de uma competência prejudicando os níveis primários e intermédios". Cito isto só para chamar a atenção para o que creio ser um erro de NC e de muitos intervenientes na discussão da educação. Raramente vejo uma discussão referida etariamente. É obviamente um disparate, porque as capacidades de aprendizagem, auto-construção, iniciativa e motivação de uma criança de seis anos do primeiro ano do básico e de um jovem adulto universitário não são comparáveis. Há algum tempo, um professor universitário de ciências de educação polemizou comigo sobre Bolonha, sendo ele um critico do paradigma das competências. Eu falava de estudantes universitários, ele de crianças. Não é possível entendermo-nos assim.

No fim do livro, NC redime-se, revelando uma atitude equilibrada em relação ao construtivismo. Diga-se, de passagem, que há alguma confusão fomentada por NC em relação a termos. Parece considerar equivalentes o eduquês, a pedagogia romântica pós-moderna, o construtivismo e a velha "nova pedagogia" de Piaget. Já que cultiva tanto a exegese, devia começar por esclarecer esta questão. Meter no mesmo saco o uso e o abuso é levar o leitor a negar o uso por causa do abuso. E que há abusos, quase demenciais, claro que há. Leia-se só esta citação delirante respigada por NC, que parece jogo de palavras do Gato Fedorento: "a disciplina de matemática deve ser urgentemente eliminada dos currículos do ensino básico. Em vez da disciplina de matemática seria criada a disciplina ou área disciplinar de educação matemática [...] o essencial da disciplina não será a matemática mas o seu uso." (João Filipe de Matos)

Por razões de justiça para com NC, vou transcrevê-lo, no que julgo ser a tal posição equilibrada:

"O que está aqui em causa é uma versão vaga do construtivismo. Estas afirmações sobre «construção do conhecimento» oscilam entre banalidades - pois não há conhecimento que seja meramente passivo - e exageros que se transformam em erros graves - por exemplo, concluir que não há transmissão de conhecimento, mas apenas construção do aluno. O construtivismo moderado é mais raro nestes debates. E esse, como dizia Quintana referindo-se à teoria de Piaget, «ao fim e ao cabo é o que sempre se havia dito e pensado [...] o que ensinou a filosofia tradicional (e medieval), já desde Aristóteles (doutrina do intelecto activo»)Ou, como defendem alguns, críticos, «a afirmação construtivista de que o conhecimento é activo é menos radical do que parece, uma vez que todo o conhecimento (tanto fisicamente activo como passivo) é activo no sentido construtivista». " (...)
"Aqui surge uma ideia que parece consensual: é importante ir ao encontro dos interesses dos alunos. De uma forma moderada, tem alguma razão de ser: é de facto importante tentar chegar aos assuntos que interessam aos jovens. Mas uma coisa é tentar perceber os estudantes para conseguir levá-los às formulações matemáticas, ou seja, partir de coisas concretas para elevar o seu grau de abstracção - sendo assim, tratar-se-ia de uma actuação pedagógica frente a um objectivo fixado; outra coisa é exagerar a ideia (uma Matemática para cada aluno) e promover a fragmentação do conhecimento. Nesta versão radical, não há objectivos nem conteúdos curriculares fixados: cada aluno avança por si, pois naturalmente apenas se pretende o desenvolvimento dos seus interesses. É a redução ao concreto, numa atitude anti-intelectual tipicamente rousseauniana. Como resultado tolhe-se, naturalmente, a capacidade de abstracção dos estudantes."

Então, parece que para NC há um construtivismo "moderado". Assim, estamos de acordo, mas é pena que este equilíbrio não perpasse por todo o livro. Mas não sei o que é isso de moderado. Preferia chamar-lhe uma teoria científica que, como todas, é frequentemente abusada por quem não tem espírito científico. Piaget, tal como Marx, tem alguma culpa dos seus MRPPs? E, como NC é cientista e, pelos vistos, tem uma percepção "moderada" (que partilho) do construtivismo, melhor teria valido ter escrito um livro a expor com rigor essa visão pragmática. Não creio que tenha de ser um livro de especialista. Fico a aguardar, com muito interesse.

PS, 22.5.2006 - Chamaram-me a atenção para que NC, sendo matemático, tem como formação inicial a economia e que a sua actividade matemática está muito ligada à economia. Sendo assim, lamento a minha alusão à sua formação matemática, que pode ser erroneamente interpretado como desconhecimento das ciências sociais.