eu
João Vasconcelos Costa
Espaço de conversa de um epicurista ou, pretensiosamente, a sabedoria (?) de/dos 60s. Açoriano, muitos anos investigador científico, depois professor universitário, passando por diretor de uma instituição de investigação e ensino, tudo isto com algum trabalho feito de estudo da educação superior. Hoje, novamente com responsabilidades de direção universitária. Albergando aqui a perplexidade angustiada da falta de perspetivas de concretização de ideais nunca realizados. Também, mais prosaicamente, o gosto de bem comer. E peripatético, que isto de ficar sentado é coisa de velhos.
 

doutoramento sacrificial

João Vasconcelos Costa

Há uns tempos, publiquei no Professorices um texto sobre as grandes discrepâncias que há entre nós em relação ao doutoramento. Impressiona-me muito quando vejo que o doutoramento foi o alívio de um fardo ou ouço que o doutoramento não dá saúde a ninguém. Isto é típico das pessoas das humanidades. Nas ciências e tecnologias, o doutoramento evoluiu imenso. Cito: A minha experiência pessoal, com mais de uma dezena de orientações de doutoramentos, é na minha área, lato sensu, as ciências e tecnologias. Começo por uma banalidade: há a fase de elaboração do trabalho e a fase de escrita. Se as distingo, é porque a noção de sacrifício pode ser diferente numa fase e noutra. Tive doutorandos entusiasmados e muito dedicados ao seu trabalho que, na redacção final, tiveram dificuldades por falta de gosto pela escrita. Mesmo assim, não me lembro de nenhum ter demorado mais de três meses a escrever a tese, com o meu estímulo e correcção atempada. O que eu nunca admitiria num meu doutorando é que sentisse como sacrifício a fase de elaboração do trabalho. Obviamente que não servia para a vida futura de investigador ou professor.

Ainda nas ciências, nota-se uma grande evolução. Ainda há poucos dias, assisti a um doutoramento com tese em inglês e excelente arguência, também em inglês, por um especialista estrangeiro. Obviamente, nem uma única crítica sobre picuinhas formais. Exemplo mais marcante, totalmente permitido por lei, foi a do último júri em que participei e fui arguente, porque o trabalho tinha sido feito em boa parte no meu laboratório. Os capítulos da tese foram: uma introdução geral e revisão da bibliografia, com meia centena de páginas; a reprodução em fotocópia de três artigos publicados em revistas internacionais; um outro capítulo com os resultados mais recentes, sob a forma de um manuscrito enviado para publicação; um capítulo final, de poucas dezenas de páginas, com uma discussão global. Isto também tem uma consequência importante na arguência. O jurado tem que assumir uma atitude modesta de auto-contenção, porque o trabalho já foi aprovado, pelos artigos publicados, por especialistas internacionais no assunto.

Sei que em outras áreas, mais tradicionalistas e com doutoramentos fora de moda, pode mesmo ser um fardo, frequentemente referido à escrita da tese. Nas humanidades, parece-me que a escrita faz parte da própria elaboração do trabalho. Nas ciências, as experiências consumam o trabalho; nas letras ou no direito, parece-me, o resultado do trabalho é escrito. Ou estou enganado nisto que me parece evidente? Assim, sendo, julgo que só um "abuso" dessa escrita é que pode ser um sacrifício, nunca a escrita do próprio trabalho de investigação, que sempre senti como um grande gosto. Por abuso, refiro-me, por exemplo, à exigência de longas introduções de revisão bibliográfica ou a discussões irrelevantes para a tese. Pelo que ouço, isto ainda acontece. A propósito deste tipo de "abuso", anoto que, às vezes, é ao contrário: muitas vezes fui eu, como orientador, a cortar páginas e páginas de palha escritas pelo meu estudante de doutoramento. A concisão da escrita faz parte da educação científica.

Em 2003, tivemos 836 doutoramentos em Portugal e mais 166 portugueses obtiveram o seu doutoramento no estrangeiro. Actualmente, temos mais de 6000 doutorandos matriculados em universidades portuguesas. Felizmente, o doutoramento está a transformar-se em coisa trivial, de que os próprios quase nem falam.

Apesar das idiossincrasias de algumas escolas tradicionalistas, temos que estabelecer um padrão, que não pode deixar de ser o da duração. Uma tese de doutoramento, seja em que área for, é o que corresponde a um esforço de investigação de três anos, a tempo inteiro. Não pode haver diferenças entre áreas, elas é que têm que ajustar os seus padrões a esta regra. Em relação aos doutoramentos em letras e direito, extraio alguns comentários a essa minha entrada no defunto blogue Professorices:

A sua apreciação sobre o doutoramento e o sacrifício que alguns se queixam só pode provir de alguém que fez a sua carreira na área da ciência e da tecnologia JVC. Se conhecesse melhor a área das humanidades e das ciências sociais iria concluir que em muitos casos o que se exige ao doutorando, de forma explícita pelo orientador e de forma tácita pela tradição, implica um custo elevado que chega ao ponto do sacrifício doloroso. As coisas estão a mudar, mas muito lentamente. Suspeito que nalguns casos estejam na mesma, como me parece acontecer no caso do Direito.

(...)

Nunca frequentei nenhum seminário como aqueles que semanalmente o Luís tem à sua disposição. Nunca apresentei o meu trabalho a outros alunos de doutoramento e a professores, esperando receber em retorno sugestões e críticas. Os congressos em que participei, nos quais fui apresentando algumas comunicações relacionadas com o meu trabalho, foram inteiramente da minha iniciativa. Ao longo da minha experiência no mestrado e no doutoramento as sugestões que recebi sobre o trabalho que ia apresentando foram mínimas e, na esmagadora maioria dos casos, meramente formais (ex. como traduzir determinado termo ou escrever certa palavra).

(...)

Todavia, há algo que o meu percurso no mestrado, primeiro, e no doutoramento depois, não conseguiu destruir: o meu gosto pela investigação. Julgo que não irei terminar como tantos que conheço que fizeram uma única investigação, a do seu doutoramento, e depois não fizeram mais nada em termos de pesquisa.

(...)

A atitude de grande parte dos orientadores mais não é do que um reflexo deste sistema. Aliás, eu diria mesmo que, na área das Humanidades, manter o entusiasmo e o gosto pela investigação no decurso de um doutoramento é uma tarefa hercúlea - uma autêntica prova heróica de resistência! Constato tristemente - e cada vez mais - que a tarefa de grande parte dos orientadores é extirpar pela raíz qualquer gosto, qualquer entusiasmo que os orientandos possam ter pela sua área de investigação...

Uma parte demasiado significativa dos orientadores portugueses (estou a referir-me esp. às Humanidades, repito) não fazem a mínima ideia do que é, de facto, o trabalho de orientação. Já tenho passado por - e já estou farta de - sessões de "atendimento" com orientadores-zombie que mais não fazem do que "discutir" com enfado questões formais irrelevantes e picuinhices do género: "Você devia citar aqui o autor 'x', em vez do autor 'y'" ou "V. não pode dizer isto sem citar 'a' e 'b'", etc., etc. As defesas de doutoramento não são, a maior parte das vezes, muito diferentes disto... É trágico! É tenebroso!

Mas mesmo quando os orientadores são, individualmente falando, muito bons e incutem entusiasmo, falta-nos todo um ambiente intelectualmente estimulante, faltam os seminários interessantes, as condições de diálogo e troca de ideias com outros investigadores, etc. Não me surpreende, por isso, que os académicos / investigadores em Portugal demorem geralmente tanto tempo a terminar as suas teses e encarem o final destas com um imenso alívio...

Pessoalmente (e infringindo a regra deste blogue segundo a qual "nobody gives a shit about what you had for breakfast"  ), só consigo manter o entusiasmo pelo que estou a fazer porque tomei há muito uma decisão: manter-me o mais possível afastada do ambiente medíocre e estéril da minha faculdade e não frequentar congressos / conferências nacionais, nem seminários / aulas de professores portugueses (salvo raríssimas excepções). Congressos, só mesmo os internacionais; contactos académicos, só mesmo com professores estrangeiros de qualidade. E não se trata apenas de manter o entusiasmo pela investigação: trata-se de uma estratégia de sobrevivência e de manutanção da sanidade mental. É por estas e por outras que dou graças aos céus por não ser professora e por não ser forçada a aturar e a conviver, por obrigação, com determinados académicos - felizmente, ainda posso escolher as minhas companhias!

(...)

"Falta-nos todo um ambiente intelectualmente estimulante, faltam os seminários interessantes, as condições de diálogo e troca de ideias com outros investigadores, etc." É exactamente isto que não existe, pelo menos tendo em conta os limites estreitos da minha experiência. Entendo perfeitamente o que a DK pretende dizer quando afirma que procura em contactos internacionais o que não consegue encontrar dentro das paredes da sua faculdade. Eventualmente para alguns doutorandos, habituados a outros ambientes mais interessantes, nomeadamente ao nível das ciências, esta posição poderá soar (e DK que me perdoe pela palavra que vou usar) algo snob. Não é de todo. Se o doutorando pretender realizar um trabalho mais interessante e rigoroso, então por vezes precisa-se mesmo de alguém de fora que certifique que não estamos a enlouquecer…

A outra questão importante que se levanta em relação ao doutoramento diz respeito aos seus públicos. Até há uma dúzia de anos, eram principalmente assistentes, com muito corpo dado ao manifesto. Conheci assistentes quarentões que me diziam que não estavam dispostos a aceitar o meu regulamento de doutoramentos porque já tinham dado muito à casa. Há pouco tempo, li uma mensagem de um assistente doutorando dizendo que o doutoramento nada acrescentava ao seu currículo. Fui vê-lo e era zero! Ai, a sobranceria dos senhores assistentes!

Em contrapartida, temos hoje centenas de bolseiros de doutoramento, não vinculados às universidades. Conheço muitos, a sua dedicação à investigação, a sua isenção em relação aos vícios institucionais dos assistentes universitários. Alguns preparam os seus doutoramentos em institutos universitários anexos que são verdadeiros institutos de investigação e, fora da vivência típica das faculdades, adquirem hábitos de verdadeira profissionalização científica. O mal é que, depois, as universidades não os recrutam, enquanto aguardam pelo doutoramento dos seus "meninos", os assistentes.

"Delenda, assistentes". Não digo que as universidades portuguesas possam viver só com docentes doutorados. Nem as melhores universidades americanas o fazem, mas apenas contratam como "teaching assistants", a tempo parcial, os melhores "graduate students".