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João Vasconcelos Costa
Espaço de conversa de um epicurista ou, pretensiosamente, a sabedoria (?) de/dos 60s. Açoriano, muitos anos investigador científico, depois professor universitário, passando por diretor de uma instituição de investigação e ensino, tudo isto com algum trabalho feito de estudo da educação superior. Hoje, novamente com responsabilidades de direção universitária. Albergando aqui a perplexidade angustiada da falta de perspetivas de concretização de ideais nunca realizados. Também, mais prosaicamente, o gosto de bem comer. E peripatético, que isto de ficar sentado é coisa de velhos.
 

A UNIVERSIDADE NO QUADRO DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO E DA GLOBALIZAÇÃO

João Vasconcelos Costa

O mundo de hoje confronta-se com mutações sociais aceleradíssimas que quase configuram novos paradigmas civilizacionais. A revolução industrial foi alimentada pelo capital físico: as fábricas, as máquinas, a força física dos operários, os meios de transporte. A partir de meados do século XX, a tendência virou-se para as coisas e serviços, os operários deixaram de ser peças animadas de uma linha de montagem e passaram a ter que dar resposta às mais variadas solicitações, tanto dos patrões como dos clientes. Neste quadro, pelo menos quatro factores determinam no essencial a mudança social a que assistimos: a automação e a informatização dos processos produtivos, o aumento explosivo da oferta (e, com ela, da procura) de serviços, a tecnicização da administração das pessoas, das coisas e dos processos, e a elevação do nível educacional das populações, acrescido do acesso muito mais largo à informação. O resultado por ora final desta evolução da idade industrial para a idade da informação é a presente situação, com uma mudança dramática da ênfase no capital físico para o capital humano e intelectual. A vantagem competitiva de uma empresa deixou de ser o capital físico e a força da produção, passou a ser o capital humano e a rapidez de adaptação. Numa época de preocupação com a preservação dos recursos e de grande volatilidade das tecnologias, rapidamente tornadas obsoletas, o único factor permanente de riqueza é o homem, a sua capacidade intelectual e o seu conhecimento.

Com isto, dizer-se que vivemos hoje na sociedade do conhecimento e da informação é fórmula que já não precisa de nenhuma discussão esclarecedora. Mas esta fórmula pode conduzir a outra: a missão de hoje da universidade é alimentar e sustentar a sociedade do conhecimento. Numa mudança determinada pela informação e pelo conhecimento, a universidade tem um lugar particular. O enorme aumento da frequência universitária é em parte consequência do enriquecimento das populações, da aquisição de meios económicos para maior satisfação da ambição de valorização pessoal e de melhores perspectivas de trabalho, mais qualificado e mais remunerador. Mas é também uma necessidade social objectiva, por exigência de qualificação superior generalizada da mão de obra da economia moderna.

Também em Portugal, abunda o capital financeiro, estão disponíveis equipamentos e tecnologias importadas e as infra-estruturas têm tido grande desenvolvimento, graças aos apoios comunitários. O que precisamos, num país com com uma taxa de abandono de estudos antes de concluído o ensino obrigatório de 46% e com uma taxa de 10% da população activa com ensino superior, é de pessoas com formação adequada à adaptação própria de tecnologia e ao domínio da teoria subjacente, com capacidade de iniciativa e de correr riscos e, fundamentalmente, com alto potencial de inovação.

A outra faceta da actual sociedade do conhecimento é a globalização, que ultrapassa o económico e tecnológico, abrange o desenvolvimento humano, o ambiente, as condições de vida, as expectativas sociais e os valores individuais e societais. Com os riscos de maior exclusão que traz, requer elites dispostas a criar condições de aprendizagem e domínio do conhecimento para toda a gente, mentes preparadas para este novo ordenamento das sociedades e do mundo.

A globalização é a mundialização dos mercados, com novas exigências e factores de competitividade. É a imensidão dos lugares acessíveis e a instantaneidade da presença dos acontecimentos, com a possibilidade de negócios e de gestão de empresas em qualquer parte do mundo em tempo real. O novo paradigma da competitividade baseia-se na circulação e apropriação da informação e do conhecimento em tempo útil. Ficam progressivamente excluídos todos, a todos os níveis (empresas, regiões, países), que não forem capazes de mobilizar os seus recursos humanos, os seus conhecimentos e competências.

O papel individual na competitividade a todos os níveis é fundamental, sem negar a importância dos factores colectivos e organizacionais. Mas este papel não se ensina, pratica-se com base nas competências, atitudes e comportamentos que dependem de um novo paradigma da educação, em particular da educação superior. Mas são valores individuais que têm também que estar em compromisso com os da solidariedade social, num quadro de globalização potencialmente favorecedor da exclusão, nomeadamente os valores do espírito cooperativo, da sensibilidade contra a exclusão e o sentido do interesse público.

O cidadão português, e em particular as elites sociais e económicas, principais responsáveis pelo desenvolvimento e pela competitividade, devem ser formados para serem capazes de se movimentarem bem no jogo internacional da globalização, dominando as relações com outras culturas e outras realidades, ao mesmo tempo que afirmam a nossa identidade própria. Este novo e indispensável modo de ser português no mundo tem que nascer nas nossas universidades.

A mundialização dos mercados e a hegemonia de uma visão mercantilista neoliberal são uma ameaça para as universidades, que não podem estar sujeitas apenas aos interesses do mercado. Elas têm uma função social e cultural muito mais rica e complexa, têm responsabilidades de antecipação em relação ao mercado (hoje determinado pelo curto prazo) e envolvem valores e saberes afastados dos meros interesses económicos. A sobrevalorização do mercado conduz à mercantilização do saber, da ciência e da cultura, com tentação para as empresas de determinar a vida das universidades (o que não significa que elas não sejam chamadas, como parceiros ou "stakeholders" à governação das universidades) e de transpor para a universidade critérios de desenvolvimento baseados estritamente na rendibilidade económica. Mas também é verdade que isto pode ter alguma cumplicidade dos universitários, arrastados por toda uma retórica de ligação às empresas, bem como do Estado, que aproveita como alibi as modas liberais para se desresponsabilizar.

Uma das riquezas tradicionais dos sistemas de ensino superior é a sua diversidade, institucional, de missão e de perfil e programática. Esta diversidade está posta em risco pela tendência uniformizadora da globalização, nomeadamente pelos padrões americanos. Este risco, por exemplo, é patente nas tentativas de desregulação nacional da educação no quadro do GATS, embora muitas vozes, incluindo americanas, se oponham a essa desregulação.

O processo de Bolonha, se entendido como uniformização dos sistemas nacionais europeus, padeceria do mesmo mal. Felizmente, tudo indica que não se está a passar assim e que o objectivo da visibilidade e comparabilidade dos sistemas está a respeitar a diversidade. Um espaço europeu ordenado é positivo, como factor de desmarcação em relação à globalização, afinal à americanização, mas respeitando e protegendo a diversidade, donde nasce a criatividade. Nada mais perigoso para as universidades do que retirar-lhes a sua especificidade e as suas diferenças, a forma de afirmarem a sua personalidade, empenharem-se em experiências inovadoras e promoverem áreas de especialização e excelência.

Todo este quadro novo de mudança social, com novos desafios, põe em questão as missões tradicionais da universidade, embora sem uma rotura radical. A maioria das universidades existentes foi criada num quadro de sociedade industrial, numa conjuntura de ciência entendida como fonte de aplicação tecnológica, de optimismo modernista, de desenvolvimento industrial tradicional e de estado-providência. Foi uma época de maior atenção e controlo da opinião pública sobre a acção do Estado, em que era crescente a preocupação com a relevância e a utilidade social. Daí uma tríade de missão que ainda caracteriza, no essencial, as universidades actuais: investigação, ensino profissional, serviços. Estes fins tradicionais precisam de ser vistos a outra luz na actual sociedade da informação e do conhecimento, em que a missão múltipla das universidades se pode caracterizar como ciência, formação de competências e aptidões, educação ao longo da vida e promoção da competitividade.

Esta nova formulação das missões das universidades não põe radicalmente em causa os seus actuais objectivos mas exige que eles sejam cumpridos com modernidade e grande qualidade. A procura tenderá a ser mais exigente e a universidade, atingida nos últimos tempos pela massificação, terá que estudar novas formas de ensino e organização para que se possa manter a qualidade e a formação de elites. Na perspectiva do ensino e da formação, requer-se que a universidade capacite as pessoas para o desenvolvimento máximo das suas capacidades e para adaptação permanente, ao longo da vida, às exigências do trabalho, porque o mercado de emprego solicita hoje perfis de formação flexíveis e adequados à acelerada mutação de qualificações e à necessidade de reconversões tecnológicas rápidas. Na ciência, requer-se cada vez maior progresso do conhecimento, mas também que este conhecimento beneficie a sociedade e a economia, como factor de competitividade na globalização. No apoio ao desenvolvimento, requer-se que a universidade sirva as necessidades de um desenvolvimento regional e nacional sustentado, adaptável e com sentido ecológico. Na formação geral das ideias, requer-se que a universidade contribua para o desenho de uma nova sociedade de democracia real e participada, civilizada e inclusiva. Pede-se-lhe por isto que aponte pistas para a solução do grande problema de hoje das sociedades desenvolvidas que é a exclusão social, começando logo por combatê-la no âmbito do alargamento social do acesso à universidade, nomeadamente pela utilização das novas tecnologias da informação e da comunicação.

Face a todas as mudanças sociais e económicas, as universidades devem dar um contributo para o desenvolvimento da sociedade do conhecimento e para a competitividade da economia e afirmação nacional no quadro da globalização mediante três acções fundamentais: uma formação inicial sólida e geral, mas com grande base científica teórica e aquisição de novas competências; uma produção científica de alto nível quantitativo e qualitativo, com relevância; e uma interacção eficaz com o mundo social e económico, determinada em muito pela formação contínua, actualização e especializaçao recorrente, além do enraizamento regional.

As nossas universidades estão longe de cumprir estes requisitos e de corresponder adequadamente aos novos desafios da sociedade do conhecimento. Os jovens que elas formam ainda são, em grande parte, desprovidos de uma boa formação cultural, no domínio científico, artístico e cultural e tecnológico, com dificuldades de elaboração mental e de espírito crítico, com reduzida capacidade de iniciativa e inovação, sem valorização ética do esforço e do estudo e carecidos de espírito de empreendedorismo.

Assim, avulta a importância do que se pode chamar as novas formações. A generalidade das nossas licenciaturas está organizada com o objectivo de formar profissionais especializados. Com isto, multiplicou-se enormemente o número de licenciaturas, com um perfil estreito de especialização. No último quarto de século, passou-se das tradicionais dezenas de cursos superiores para os actuais 490 (sem contar o politécnico). A justificação da multiplicação de licenciaturas como se elas estivessem em correspondência com a especialização do mundo laboral já não faz sentido. A especialização do trabalho é um facto indiscutível, mas a tal velocidade que a oferta de cursos especializados nunca conseguirá acompanhar o ritmo dessa evolução. E acaba por ser uma especialização sem efeitos práticos. Os jovens licenciados sabem bem pelo que passam quando entram no seu primeiro emprego. Têm a sensação de que pouco do que aprenderam lhes vai ser útil, de que têm que rapidamente fazer toda uma aprendizagem prática e específica para desempenharem o seu ofício. Esta concepção ainda dominante entre nós está em dissonância com as realidades actuais. A licenciatura é cada vez mais vista como o grau que fornece uma preparação científica e técnica ampla, a chamada banda larga e, mais do que conhecimentos especializados, desenvolve aptidões adequadas à grande diversidade das condições reais do trabalho.

Para além de outros factores menos aceitáveis, que têm a ver com jogos internos e desejos de afirmação pessoal ou grupal, a multiplicação das nossas licenciaturas vive da ilusão da correspondência às exigências do mercado de trabalho. O que é curioso é que a universidade, ao mesmo tempo, parece ter uma grande arrogância. Preocupa-se com o mercado de trabalho mas é ela que decide o que esse mercado quer e raramente o consulta. Conhecem-se muitas licenciaturas que foram criadas sem nenhum estudo sério da sua viabilidade e interesse prático. Fica-se depois admirado de, por vezes, alguns cursos ficarem sem procura muito poucos anos depois da sua criação.

O que se pede às universidades é que treinem os licenciados para poderem fazer a aprendizagem de inserção no trabalho o mais rápida e mais eficientemente possível. E que lhes dê instrumentos para poderem fazer o mesmo sempre que se lhes colocarem problemas concretos, sempre que tiverem que adquirir novas informações e competências. O que se mede à entrada no mercado de trabalho são mais aptidões que informações. O que o mundo do trabalho pede à formação universitária é a mentalidade científica e de rigor, a capacidade de raciocínio e de análise, a imaginação criadora, a capacidade de continuar aprendendo, a adaptação crítica a novas situações, a liderança e a capacidade de condução de processos sociais, o domínio das novas tecnologias da informação e, cada vez mais na era da globalização, a capacidade de comunicação e o domínio de línguas. Pode-se dizer como fórmula que se pede cada vez mais pessoas educadas que pessoas instruídas. Não se esqueça também que a filosofia e utilidade social da universidade implicam que o ensino não se pode só basear numa perspectiva exclusiva de objectivos profissionalizantes. As universidades também têm a obrigação de formar pessoas, prepará-las para a vida e para a cidadania, treiná-las como futuros agentes privilegiados do progresso social.

As especializações devem ser caracteristicamente sucedâneas da formação de base de banda larga do primeiro grau universitário, o que, no sentido do processo de Bolonha, treina e forma para a primeira inserção no mundo do trabalho. Mestrados de orientação vocacional, além da científica, variados tipos de cursos de actualização e reciclagem e a aprendizagem ao longo da vida, de que falaremos, são formas diversas de propiciar a adaptação dos quadros a novas situações e, desejavelmente, devem articular-se com o exercício profissional, num modelo de saídas e reentradas no sistema de ensino (tradicional ou à distância), em especializações e actualizações sucessivas e ditadas pela prática.

É verdade que isto é ainda muito tendencial e que as empresas têm visões divididas. Nas respostas ao inquérito Dearing sobre o ensino superior inglês (1997), as empresas tanto apontavam a necessidade de cientistas e engenheiros com formação especializada como a de diplomados com formação geral mas bem treinados em aptidões. Isto pode não ser contraditório, porque estas duas pretensões do mercado de trabalho correspondem a duas formações distintas. A de cientistas e especialistas a nível da pós-graduação, do doutoramento e do mestrado, a formação de banda larga a nível da licenciatura. Correspondem também, por outro lado, às diferentes vocações formativas dos dois subsistemas de ensino superior, o universitário e o politécnico.

É claro que não se deve confundir ensino de banda larga com superficialidade ou falta de sentido prático. A formação científica, ainda que larga, deve ser sólida e com boa articulação com a prática. O que não pode é ser substituída pelo privilégio da informação sobre instrumentos sem compreensão das suas bases teóricas, o que leva, pela vida fora, a uma atitude de utilização acrítica e irracional de novos instrumentos. No ensino de banda larga cabem as aplicações, principalmente na perspectiva do ensino de projecto, mas elas são mais uma exemplificação da teoria do que o objectivo essencial do ensino.

Anote-se que o ensino de banda larga, com ênfase nas competências, é um desafio à qualificação dos docentes, nomeadamente no nosso caso, em que a pirâmide está invertida, com grande maioria de professores juniores. Ensinar em banda larga exige um grande "background" de saber-fazer, seja na investigação, seja na actividade profissional. Só assim se tem capacidade para se extrair da grande massa de informação o que é relevante e contribui para a formação de competências e, por outro lado, se transmite o testemunho do gosto pelo fazer e pela inovação. É uma pedagogia muito mais exigente.

Pelo contrário, as características de tradicionalismo que ainda marcam muitas das nossas licenciaturas são agravadas por deficiências frequentes nos métodos pedagógicos. Os antigos ofícios aprendiam-se fazendo-se. O mesmo se passa ainda hoje com o ofício de ensinar na universidade. Os professores universitários não têm preparação pedagógica inicial e mesmo ao longo da sua vida profissional raramente têm a oportunidade de participar em cursos, seminários ou reuniões sobre pedagogia e métodos de ensino. A pedagogia fica ao sabor de cada um, do seu instinto e dotes naturais de comunicador.

E, no entanto, a pedagogia do ensino superior tem vindo a progredir imensamente, com novos conceitos e novos métodos. Lembrando que as características distintivas da aprendizagem superior são o desenvolvimento da compreensão e a capacidade de aplicação de conhecimentos a situações práticas variadas, pode-se resumir toda essa mudança numa fórmula simples e muito significativa: o estudante como sujeito passivo do ensino é hoje substituído pelo sujeito activo da aprendizagem. O ensino tradicional é muito unidireccional. É a transmissão de conhecimento e informação do professor para o estudante, que é simples receptor, muitas vezes mais memorizador que compreensor. Na perspectiva moderna, exige-se uma grande participação do aluno. Ele é activo na sua própria aprendizagem, estruturando racionalmente os conhecimentos que vai adquirindo, entrelaçando o que lhe é transmitido com o que ele próprio procura. Com isto, o ensino passa obrigatoriamente a ser mais do que transmissão de conhecimento. É também o facultar de processos e ferramentas para esse papel activo do estudante. Em síntese, a atenção principal na acção educativa transfere-se, em grande parte, do ensino para a aprendizagem. Mudou com isto o papel do professor. Mais do que transmissor de conhecimento, é um facilitador da aprendizagem.

Esta tendência começa, já há muitos anos, pela simples verificação de que o ensino é muito mais eficaz quando participado. É então que começam a ver-se novos processos. As aulas passam a ser mais vivas e mais apelativas, são entrecortadas com perguntas aos alunos, seguem rumos diferentes conforme as respostas e a atitude dos alunos. Uma resposta suscita uma informação adicional que suscita outra pergunta e esta outra resposta. Terminam normalmente por uma breve revisão de síntese, coloquial, com participação dos alunos. O professor passa a ter um papel mais difícil. É como um actor quer tem que improvisar. Já não pode limitar-se a debitar a matéria, tem que estar preparado para a todo o momento ter que reorientar a aula, dar-lhe uma nova perspectiva. Uma pergunta chave é: entre nós, em grande parte dos casos, o que é que uma aula teórica adianta sobre a simples leitura de um livro? Até porque hoje, ainda em muitos casos, são verdadeira sessões de leitura, já não do livro que era lido pelo lente medieval, mas agora a leitura textual das transparências que são projectadas.

Depois, a ênfase na aprendizagem activa é reforçada pela ideia de que a formação completa e a mais necessária para se vencer na vida activa já não é a do simples conhecimento ou compilação de informação. É necessário desenvolver aptidões ("skills") e comportamentos adequados. Não basta conhecer um texto, é preciso saber criticá-lo e extrair o seu significado, é preciso que a leitura dê indicações de como escrever. Isto é uma aptidão. E é preciso gostar de ler e de usufruir de uma sensação estética. Isto é um comportamento ou uma atitude. Esta nova visão da educação radica também na ideia de que, mais importante que saber, é necessário saber fazer. O ensino passa a dirigir-se a três esferas mentais do estudante. Não só à cognitiva, com o saber tradicional, mas também à esfera sensório-emotiva, isto é, à educação dos comportamentos e atitudes, do saber ser e do saber estar, e à esfera psicomotora, a das aptidões, do saber fazer. Nesta perspectiva, é cada vez mais utilizada uma nova metodologia de ensino, em que o estudante aprende em módulos delimitados, com um objectivo bem definido e em que a aprendizagem, em grupos interactivos, tem por rumo a resolução de um problema. É o método de aprendizagem por resolução de problemas, de que também há uma variante menos avançada e mais adequada a certas matérias menos práticas, o método da aprendizagem baseada em problemas. Mudou com isto o papel do professor. Mais do que transmissor de conhecimento, é um facilitador da aprendizagem.

Uma das novas atituides fundamentais requeridas é a capacidade de lidar com a mudança. O ensino tradicional, repetitivo, tendente à rotina e à perpetuação do conhecimento, está em contradição também com a evolução rápida das teorias e dos conhecimentos que lhes estão associados. As certezas definitivas estão abolidas e a regra é a incerteza e a interrogação permanente. Isto compara-se também com a atitude perante a saída universitária. Tradicionalmente, a universidade preparava para uma situação estável e previsível, com bom estatuto social e nível remuneratório elevado, em termos relativos. Hoje, o diplomado da universidade confronta-se com a incerteza, dada a evolução do mundo do trabalho, que ultrapassa as capacidades prospectivas da universidade. Portanto, também neste aspecto, o estudante deve ser preparado para o imprevisível, para a capacidade de iniciativa e de adaptação a novas situações, para a aceitação do risco.

O segundo grande problema das universidades face aos desafios da sociedade da informação tem a ver com a investigaçao que praticam, os seus objectivos e relevância e, de forma mais geral, com o papel das universidades na inovação e na promoção da competitividade, o que passa pela questão das suas relações com o tecido sócio-económico, em particular com as empresas. É matéria vastíssima, que ultrapassa a dimensão aceitável deste texto. Fica para próximo artigo.

A terceira grande transformação das universidades que queiram ir a par com as mudanças da sociedade do conhecimento tem a ver com a educação recorrente e com a aprendizagem ao longo da vida ("life-long learning" ou LLL). É um domínio fundamental da actividade universitária de hoje, mas que ainda praticamente não existe entre nós.

Tradicionalmente, e ainda até há bem pouco, a universidade preparava para toda a vida. A evolução dos conhecimentos era relativamente lenta e as empresas eram estabelecidas sobre processos de produção ou funcionamento e tecnologias de longa duração. O estudo universitário era limitado no tempo, era uma fase bem definida da vida de cada um e era considerado praticamente como definitivo. Esta situação mudou radicalmente. Não só já é praticamente impossível, como discutimos, facultar preparações específicas para toda a variedade de práticas profissionais como, principalmente, estas formações ficam rapidamente ultrapassadas e necessitam de actualização e mesmo de reconversão. A entrada no trabalho mostra logo aos jovens que ainda têm que aprender verdadeiramente a sua profissão e que a base de conhecimentos dessa profissão está a mudar tão rapidamente que eles terão que estudar toda a vida.

Os jovens actuais vão competir a todo o tempo com novas gerações cada vez melhor educadas e com maior actualização de conhecimentos e vão ter que compensar continuamente, pela formação permanente, este défice competitivo. Estima-se hoje que 15 a 20% do tempo profissional terá que ser dedicado à formação permanente. Mas até há bem pouco, a única possibilidade para o trabalhador se actualizar era frequentar cursos nocturnos convencionais, em geral com grande sacrifício e desconforto e exigindo uma grande motivação pessoal. Hoje é a universidade que vai ao encontro do trabalhador, com ensino à distância geralmente baseado nas tecnologias da informação ("e-learning"), porque o estudante trabalhador não pode frequentar presencialmente as aulas durante anos e anos, sujeito ao horário escolar normal que para ele é também o horário de trabalho.

Por outro lado, a elevação do nível cultural geral, a maior apetência pela cultura e pelo conhecimento, a pressão social da sociedade da informação e a dinâmica da rede de informação em que nos movemos, conjugadas com maior disponibilidade pessoal (encurtamento dos tempos de trabalho, reformas antecipadas, etc.) fazem aparecer cada vez mais um outro género de procura tardia da universidade, mais difuso e de tipo mais genérico, com motivações desinteressadas de natureza estritamente cultural.

A universidade homogénea dos jovens na continuidade da fileira de estudos pré-profissionais está a transformar-se cada vez mais numa universidade heteróclita quanto ao seu público, com motivações diferentes e com necessidades de resposta diferentes. Para jovens em formação inicial, para adultos trabalhadores à procura de formações particulares e especializadas, para outros com desejo de informação mais ecléctica e diversificada mas sempre muito pessoalizada, as ofertas educativas, os conteúdos e métodos de ensino e os seus veículos técnicos terão de ser forçosamente muito diferentes.

O que se pretende hoje, na sociedade da informação e do conhecimento, é levar a informação certa à pessoa certa no momento certo. A universidade tem que mudar muito radicalmente para preencher este novo papel. No entanto, isto não é imediato, porque a maioria dos professores ainda não sente esta necessidade, mesmo no seu desempenho pedagógico tradicional. No quadro das mudanças introduzidas pela revolução da informação, o ensino formal é talvez um dos menos afectados pelas modernas tecnologias. Os avanços da tecnologia revolucionaram as comunicações, os transportes, a banca, a assistência médica, até toda a nossa vida quotidiana, mas em muitos aspectos, os processos e métodos de ensino continuam os mesmos. Os professores continuam a ser os mesmos debitadores de factos e informações em frente dos alunos, numa tradição histórica que vem dos lentes medievais, apesar de todas as vozes clarividentes que sempre defenderam que o cultivar da capacidade de pensar é que é a verdadeira educação, mais do que a simples transmissão temporal da informação.

Em conclusão,

A mudança está vertiginosa e inquietante. Entretanto, as universidades vão perdendo tempo, viradas para dentro da sua autonomia e numa situação aparentemente confortável de quem não corre riscos, sustentadas por um poder público que também não as questiona. Mas correm riscos e inevitáveis: a crescente ingovernabilidade estratégica e consequente perda de competitividade, a diminuição do número de alunos e as suas consequências no financiamento, a desadequação das formações e consequente perda de relevância social e de prestígio, os desafios do processo de Bolonha, a competição da educação transnacional.

O desafio é enorme. Nos próximos anos, sob pena de serem relegadas para a categoria de instituições irrelevantes, as universidades vão ter que adoptar padrões de qualidade elevados, assumir a competitividade, pensar em novos conteúdos científicos do seu ensino, rever estratégias e métodos de formação, adaptarem-se à mudança estrutural dos seus públicos, propiciar meios de articulação da aprendizagem na escola e no trabalho, ir de par com a crescente interdisciplinaridade, que afecta também a sua organização, reconhecer e creditar para fins de ensino formal as competências adquiridas em exercício, encontrar formas empreendedoras de relacionamento com o meio social económico (universidades "entrepreneurial"), recorrer crescentemente às tecnologias da informação com treino adequado dos docentes. E muito mais.

A universidade não pode ser a do país que temos, mas sim a do país que queremos. A questão é de saber se ela pode corresponder, nos seus múltiplos aspectos (aprendizagem, investigação e produção tecnológica, prospectiva, estudos sociais, intervenção cultural) às necessidades de mudança da sociedade. E saber se o vai conseguir fazer com antecipação, pelos seus meios e no quadro da sua autonomia ou se vai ter que mudar por pressão exterior.

19.1.2002