João Vasconcelos Costa              24.03.2010    
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EDUCAÇÃO SUPERIOR
A educação superior em Portugal: artigos, opiniões e documentos - Higher education in Portugal: papers, opinions, documents
O meu outro sítio, pessoal:

A INQUIETUDE PERMANENTE

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Reitor da Universidade de Évora

BOLONHA: OPORTUNIDADE HISTÓRICA

Jorge Araújo

Já lá vão dois anos que os Ministros da Educação de 28 países europeus assinaram a Declaração de Bolonha. Desde então, muitos destes países deram passos significativos de convergência para um modelo de formação superior comparável: a Itália, a França, a Alemanha, a Holanda, juntaram-se à Inglaterra e adoptaram o modelo que compreende uma formação inicial de três anos. Portugal reflecte... ou melhor dizendo... não se precipita! No fundo, creio que alimentamos a esperança de que, pequeno país periférico, não sejamos obrigados a reformas tão avessas à nossa tradição, em troca dos subsídios para o betão, o alcatrão e o girassol, esses sim, imprescindíveis ao desenvolvimento do país!

Esta posição, expectante quando não indiferente, que corta transversalmente o sistema, desde o ministério às academias, espelhou-se de forma eloquente na diminuta assistência que procurou informar-se sobre o processo de Bolonha, no debate para o qual o Prof. Pedro Lourtie, relator da declaração da cimeira de Praga, foi convidado.

O que é mais curioso é que desde o Presidente da República aos governantes, e a muitos governados, todos lamentam a existência de elevadíssimas taxas de insucesso e de abandono escolares, sem que se estabeleça aparentemente uma relação de causa e efeito entre essa clamorosa situação, que nos remete para a cauda do ranking europeu, e os modelos de educação que temos. Estarão estes adequados ao mundo de hoje ou serão os nossos jovens menos dotados que os outros? Terão os nossos modelos a virtuosidade de despertar nos jovens o interesse pelas coisas do mundo e as suas potencialidades criativas, ou serão os portugueses de hoje maioritariamente abúlicos?

Estas questões colocam-se em relação a todos os graus de ensino e, como a esperança é sempre a última a morrer, quero crer que a revisão do ensino básico e a reforma do secundário que o Governo pretende implementar, encerrem aspectos positivos que contribuam para estancar o depauperamento cultural do potencial humano do país.

No que concerne ao ensino superior, o Processo de Bolonha, que foi curiosamente iniciado em Portugal, com a assinatura da Convenção de Lisboa, sobre reconhecimento de qualificações, em 1997, oferece-nos a oportunidade histórica de alterarmos "o estado das coisas". Com efeito, "à pala" da comparabilidade dos graus e das formações académicas, encarada como necessária ao incremento da mobilidade dos trabalhadores europeus, Bolonha generaliza duas novas concepções de extrema importância: a primeira refere-se à estrutura dos cursos, que deverá ser concebida doravante na perspectiva do aprendente e não do ensinante; a segunda, é de que a formação inicial deverá conferir ao aluno uma certa capacidade de penetração no mundo do trabalho.

O primeiro aspecto constitui o reflexo mais que eloquente da mudança de paradigma de ensino/aprendizagem a que se assiste na viragem de século: o enfoque desloca-se do ensino para a aprendizagem; a contabilização das horas necessárias à obtenção de um grau académico, não terá mais em conta a prestação da docência, mas, ao invés, o esforço de aprendizagem despendido pelo discente. E é sujeita a um limite/semestre igual para todos os estudantes, quer sejam de Direito, Medicina, Engenharia ou Tradução. Na prática, tal significa que caberá ao docente muito mais o papel de orientador de estudo do que o de repetidor da matéria; que o aluno passará muito mais tempo na biblioteca, a estudar, do que nas salas de aula, a ouvir.

O segundo incentiva a que, na maioria dos casos, o aluno construa o seu percurso de formação em "sanduíche", intercalando formação académica e formação em exercício. Preconiza-se que após o 1º ciclo (que deverá ser tão curto quanto possível e concebido por forma a que confira um certo grau de competência profissional), o jovem possa confrontar-se com as ofertas do mundo do trabalho e optar por uma via profissional. Neste contexto, mais tarde ou mais cedo se justificará o regresso à formação académica, e a opção por uma pós-graduação pertinente. A via em "sanduíche" não exclui que outros optem por uma formação continuada, objectivada no doutoramento e perspectivada para actuação nas esferas académica e científica.

Esta é seguramente a oportunidade histórica que nos é oferecida, na viragem de século (e de milénio). Importa todavia ter presente que o Processo de Bolonha é apenas uma componente do novo cenário em que gravitam as Universidades. Com ele articulam-se outros programas, como sejam os do incentivo à mobilidade, da aprendizagem ao longo da vida, do ensino à distância, da universidade de Verão, da aprendizagem de línguas, etc.. O sucesso da nossa Universidade na comparabilidade com as restantes universidades, dependerá em grande parte da destreza com que soubermos tirar proveito destas oportunidades e, consequentemente, da competitividade que viermos a adquirir.


In Jornal da Universidade de Évora

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