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Reitor da Universidade de Évora
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BOLONHA: OPORTUNIDADE HISTÓRICA
Jorge Araújo
Já lá vão dois anos que os Ministros da Educação
de 28 países
europeus assinaram a Declaração de Bolonha. Desde então, muitos
destes
países deram passos significativos de convergência para um modelo de
formação
superior comparável: a Itália, a França, a Alemanha, a Holanda,
juntaram-se
à Inglaterra e adoptaram o modelo que compreende uma formação
inicial
de três anos. Portugal reflecte... ou melhor dizendo... não se precipita!
No fundo, creio que alimentamos a esperança de que, pequeno país periférico,
não sejamos obrigados a reformas tão avessas à nossa tradição,
em troca dos subsídios para o betão, o alcatrão e o girassol,
esses
sim, imprescindíveis ao desenvolvimento do país!
Esta posição, expectante quando não indiferente, que corta transversalmente
o sistema, desde o ministério às academias, espelhou-se de forma eloquente
na diminuta assistência que procurou informar-se sobre o processo de Bolonha,
no debate para o qual o Prof. Pedro Lourtie, relator da declaração
da cimeira
de Praga, foi convidado.
O que é mais curioso é que desde o Presidente da República aos governantes,
e a muitos governados, todos lamentam a existência de elevadíssimas taxas
de insucesso e de abandono escolares, sem que se estabeleça aparentemente uma
relação de causa e efeito entre essa clamorosa situação,
que
nos remete para a cauda do ranking europeu, e os modelos de educação
que temos. Estarão estes adequados ao mundo de hoje ou serão os nossos
jovens menos dotados que os outros? Terão os nossos modelos a virtuosidade de
despertar nos jovens o interesse pelas coisas do mundo e as suas potencialidades
criativas, ou serão os portugueses de hoje maioritariamente abúlicos?
Estas questões colocam-se em relação a todos os graus de ensino e,
como a esperança é sempre a última a morrer, quero crer que a revisão
do ensino básico e a reforma do secundário que o Governo pretende implementar,
encerrem aspectos positivos que contribuam para estancar o depauperamento cultural
do potencial humano do país.
No que concerne ao ensino superior, o Processo de Bolonha, que foi curiosamente
iniciado
em Portugal, com a assinatura da Convenção de Lisboa, sobre reconhecimento
de qualificações, em 1997, oferece-nos a oportunidade histórica de
alterarmos "o estado das coisas". Com efeito, "à pala" da
comparabilidade dos graus e das formações académicas, encarada como
necessária ao incremento da mobilidade dos trabalhadores europeus, Bolonha generaliza
duas novas concepções de extrema importância: a primeira refere-se
à estrutura dos cursos, que deverá ser concebida doravante na perspectiva
do aprendente e não do ensinante; a segunda, é de que a formação
inicial deverá conferir ao aluno uma certa capacidade de penetração
no mundo do trabalho.
O primeiro aspecto constitui o reflexo mais que eloquente da mudança de paradigma
de ensino/aprendizagem a que se assiste na viragem de século: o enfoque desloca-se
do ensino para a aprendizagem; a contabilização das horas necessárias
à obtenção de um grau académico, não terá mais em conta
a prestação da docência, mas, ao invés, o esforço de aprendizagem
despendido pelo discente. E é sujeita a um limite/semestre igual para todos
os estudantes, quer sejam de Direito, Medicina, Engenharia ou Tradução.
Na prática, tal significa que caberá ao docente muito mais o papel de orientador
de estudo do que o de repetidor da matéria; que o aluno passará muito
mais
tempo na biblioteca, a estudar, do que nas salas de aula, a ouvir.
O segundo incentiva a que, na maioria dos casos, o aluno construa o seu percurso
de formação em "sanduíche", intercalando formação
académica e formação em exercício. Preconiza-se que após
o 1º ciclo (que deverá ser tão curto quanto possível e concebido
por forma a que confira um certo grau de competência profissional), o jovem
possa confrontar-se com as ofertas do mundo do trabalho e optar por uma via profissional.
Neste contexto, mais tarde ou mais cedo se justificará o regresso à formação
académica, e a opção por uma pós-graduação pertinente.
A via em "sanduíche" não exclui que outros optem por uma formação
continuada, objectivada no doutoramento e perspectivada para actuação nas
esferas académica e científica.
Esta é seguramente a oportunidade histórica que nos é oferecida, na
viragem de século (e de milénio). Importa todavia ter presente que o Processo
de Bolonha é apenas uma componente do novo cenário em que gravitam as Universidades.
Com ele articulam-se outros programas, como sejam os do incentivo à mobilidade,
da aprendizagem ao longo da vida, do ensino à distância, da universidade
de Verão, da aprendizagem de línguas, etc.. O sucesso da nossa Universidade
na comparabilidade com as restantes universidades, dependerá em grande parte
da destreza com que soubermos tirar proveito destas oportunidades e, consequentemente,
da competitividade que viermos a adquirir.
In Jornal da Universidade de Évora
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