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Alberto Amaral e J. Vasconcelos Costa
DEBATE SOBRE REGULAÇÃO, ESTADO E MERCADO (II)
Resposta de Alberto Amaral:
Caro João,
Este debate é um prazer embora não substitua uma boa discussão em
volta de uma mesa. Temos de pensar nisso. O que diz sobre a minha posição
de grande crítica em relação ao mercado é verdade. Trata-se de
uma moda perigosa e que já causou muitos problemas em outros países e que
eu vejo ser assumida por pessoa que deveriam ser mais cuidadosas e pela imprensa.
Por isso fiquei satisfeito pela sua posição uma vez que a leitura do seu
documento não lhe faz justiça.
O que eu chamo de regulação híbrida corresponde à situação
que se vive na generalidade dos países europeus (incluindo a Inglaterra de Margaret
Thatcher) onde apesar de um movimento no sentido da autonomia das instituições
nunca foi criado um verdadeiro mercado de educação e onde o estado continua
a regular, embora usando uma retórica de mercado e utilizando alguns dos mecanismos
de regulação tipo-mercado em vez dos mecanismos tradicionais de regulação
pública. Veja, por exemplo, Trow, M., (1996), "Trust, Markets and Accountability
in Higher Education: a Comparative Perspective", Higher Education Policy,
9, 4, 309-324.
Concordo que a situação actual é insustentável: as universidades
criam os cursos que lhes apetece e passam a conta ao governo. Embora a legislação
permita o controlo pelo Estado - a lei diz que o governo pode decidir pelo não
financiamento do curso; porém, nunca houve coragem para o fazer excepto num
caso: a criação do curso de Direito pela Universidade do Minho que não
foi financiado nos primeiros dois anos mas depois, à boa moda portuguesa...
(JVC - Esta é a questão essencial. Estamos de acordo em que a situação
actual é insustentável. Na mensagem anterior, julgo ter dado argumentos
indiscutíveis, principalmente de natureza financeira. Também estamos de
acordo em que o mercado típico não é solução. Então
qual é? Certa ou errada, eu tentei apresentar uma alternativa. "Passo-lhe
a bola". Qual é a sua? É a simples regulação governamental,
com os riscos que vimos no famigerado projecto de criação de cursos?)
Não acredito que o mercado possa ser um bom regulador, nunca o foi e nos sítios
onde foi utilizado os resultados têm sido negativos. Um bom exemplo são
os estudos que começam a ser publicados sobre o movimento do "School choice"
praticado em diversos países europeus, nomeadamente no UK e que demonstram bem
os efeitos negativos da utilização do mercado.
A utilização de organizações-tampão, independentes, entre
governantes e governados que foi muito popular, por exemplo no UK, tem vindo a perder
interesse face à ideologia de mercado e no próprio UK tornou-se uma caricatura
na medida em que passou a ser muito mais um instrumento do governo do que uma entidade
independente. Foi por essa razão que o CRUP teve uma posição negativa
a propósito da ideia de uma comissão intermédia para o financiamento;
este deve ser discutido entre as universidades e governo já que a comissão
intermédia iria servir apenas para desresponsabilizar o governo.
(JVC -Também não concordo com órgãos intermédios
de financiamento, do tipo inglês.)
Em particular a intervenção da classe política parece-me claramente
negativa; a minha experiência diz-me que a intervenção de deputados
resulta em decisões que são muitas vezes apenas a resolução de
questões particulares em que o deputado está interessado, por exemplo,
por dizerem respeito à localidade pela qual foi eleito ou à privada em
que tem interesse. Além disso a sua capacidade técnica deixa bastante a
desejar, como era óbvio sempre que o CRUP reunia com a Comissão de Educação
da AR.
(JVC - Há aqui um pequeno equívoco. Eu não falei da presença
de deputados no órgão de regulação (concordo com os riscos que
V. aponta) mas de personalidades nomeadas pela AR, por uma questão de legitimidade
democrática. Se o nosso sistema fosse presidencialista, propunha a sua nomeação
pelo PR, como acontece em França com o conselho de avaliação. Mas,
mesmo assim, talvez seja uma solução a considerar entre nós, dado
o prestígio e independência do PR.)
O meu medo de um órgão deste tipo é que se torne em algo de extremamente
pesado, burocrático, conservador, castrador da inovação.
(JVC - O que pensa da acção do CNAVES, que é um órgão
relativamente próximo do que proponho?)
A representação do sector empresarial também não apresenta grande
interesse. Com excepção de quadros superiores das multinacionais em regra
a sua participação é medíocre. Vem a propósito uma avaliação
que estou a fazer na África do Sul onde tive a oportunidade de entrevistar o
director da unidade de investigação de uma multinacional, a SASOL, o qual
tinha uma ideia muito mais correcta e universitária da investigação
que devia ser feita nas universidades de que esta, a qual tinha embarcado alegremente
no paleio do mercado e do modo2 de Gibbons!
(JVC - Estou muito de acordo com o que V. tem escrito sobre os "stakeholders".
Embora, teoricamente, defenda o papel das empresas como "stakeholders",
na prática, em Portugal (e, como V. diz e já escreveu, provavelmente também
em outros países) penso que as empresas não estão ainda preparadas
para este papel. Mas isto desviava-nos muito desta conversa.
Por um lado, sou forte defensor da presença da sociedade na regulação
do sistema e na governação das universidades, como escrevo no meu livro.
Penso que me acompanha. No meu livro até cito o seu exemplo - presumo que tenha
sido ainda no seu tempo de reitor - como promotor da experiência inovadora dos
novos estatutos da UP, com um pequeno órgão de governo, a secção
permanente do senado, com membros externos, uma aproximação aos "boards".
Mas que membros externos? Não temos regiões nem verdadeiros representantes
de interesses regionais. Não temos empresas verdadeiramente interessadas na
universidade a não ser como consumidoras de serviços (mas V. já escreveu
que, nos "case studies" de dois politécnicos, elas participavam quando
se tratava de assuntos estratégicos e não de simples gestão académica).
As associações profissionais ainda vão participando, mas com o risco
de traduzirem por vezes posições comuns internacionais potencialmente lesivas
da nossa especificidade e da diversidade.
Por mim, na lógica de muitos boards americanos e ingleses, prefiro pessoas indicadas
pelo seu mérito individual, interessadas na universidade, com sentido estratégico
e do interesse institucional, que sintam a sua participação como um dever
e uma honra. Será utópico? Poderemos encontrá-las? Penso que talvez
um bom argumento de recrutamento seja o da sua situação de antigos alunos,
como funciona em outros lados. O risco de não se encontrar bons "stakeholders"
na sociedade civil é o de virmos a ter uma situação como a da Suécia
ou da Holanda em que os externos são nomeados pelo governo.)
A contratualização pode também vir a ser um problema pois pode ser
u instrumento que vai reduzir a zero a autonomia como aconteceu, por exemplo, em
algumas universidades espanholas forçadas a fazer contratos com as entidades
regionais, bem piores e mesquinhas do que o governo central. Penso que achará
interesse numa intervenção do nosso colega francês Thierry Chevalier
sobre a França numa reunião que organizei em Outubro, nomeadamente ao sublinhado:
The phasing out of central control:
In the mid 1980's, when it became obvious that central control of the economy
was not operative any more, the political class was reluctant to drop altogether
a concept that had been so successful for 30 years and to privatise and transfer
control to the markets. The "market solution" was considered unfeasible
for most of the public sector. Central steering of the economy was made to evolve
towards a nexus of medium term contracts (named « planning contracts »,
contrats de Plan) between the central government and various public institutions
(Local authorities, public enterprises, autonomous public agencies).
Public contracts:
In the legal framework of the public sector (called the "public law"),
the state and all agencies created and controlled by the state, are able to unilaterally
force decisions on private actors, be they private persons or firms. In respect with
its relations with other public bodies, the state holds the ultimate authority and
whatever power local authorities and public agencies may have is in a way delegated
to them by the state.
In this context, the idea that contracts could be signed between the state and public
agencies or authorities is very odd and difficult to accept for a central administration
staffed with people trained in public law.
The blatant asymmetry of power in these agreements has lead some analysts to call
them "Negotiated public rules" rather than "contracts". Nevertheless,
the term contract had a lot of appeal and gained widespread use.
Resumindo e baralhando: tenho pouca confiança numa solução; venha
o diabo e escolha. Mas falando mais a sério julgo que falta um plano nacional
para o ensino superior, publicamente discutido e assumido nacionalmente como um projecto
para o pais, como um contrato público para o ensino, no qual seriam fixadas
as regras gerais para a evolução do sistema.
Depois os contratos poderiam ser celebrados entre o Ministério e as Universidades
com participação activa do CRUP o qual terá que assumir um papel relevante
na regulação do sistema.
(JVC - Agora é a minha vez de ter dúvidas sobre um órgão,
neste caso o CRUP. Pela forma de designação dos reitores, podem
ser, como é indiscutivelmente o seu caso, mas não são obrigatoriamente,
pessoas com visão sistemática e estratégica, capazes de olhar para
o sistema para fora dos interesses da sua própria universidade. Parece-me que
o CRUP não funciona como órgão motor de todo o sistema mas mais como
um neutralizador de conflitos (o que normalmente se faz por baixo). Os reitores não
dispõem, nas suas universidades, de órgãos de pensamento estratégico
ou "strategic management" (é óbvio que os senados não cumprem
este papel), estão sobrecarregados com rotina administrativa e, desprovidos
também de um aparelho de planeamento do próprio CRUP, cuja criação
tenho defendido, só reagem como verdadeiro órgão positivo em situação
de crise, como a actual crise financeira.
O problema que temos estado a discutir, da anarquia de ofertas educativas, geralmente
de banda estreita e desajustadas dos modernos objectivos educacionais, já mereceu
alguma posição do CRUP que tenha sido verdadeiramente operacional? e a
posição sobre Bolonha, ligeira, não fundamentada e não assente
num estudo alargado pelas universidades? e que posições já tomou o
CRUP, mesmo que só de lançamento de debate, sobre todas as questões
estratégicas que temos estado a discutir?)
Por outras palavras é preciso que deste debate Governo-CRUP resulte a definição
da rede de instituições e da malha de cursos para o sistema público
que, em termos de constituição:
Artigo 75º
Ensino público, particular e cooperativo
1. - O Estado criará uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que
cubra as necessidades de toda a população.
O Estado está obrigado a assegurar. Quanto ao privado pode tomar as iniciativas
que entender desde que tenham qualidade reconhecida. Ou seja, para o sector privado
do lado do Estado o critério de aprovação é o da qualidade, do
lado da relevância actuará o mercado.
(JVC - Aqui estou inteiramente de acordo consigo. O Estado tem obrigação
de assegurar as necessidades educativas, que, como já concordámos, vão
muito para além das necessidades imediatas do mercado e que, como eu defendo,
devem ser objecto de contratos de serviço público com as universidades.
Mas como garanti-lo? Desculpe-me a crítica amigável, mas não vejo
uma proposta sua que me pareça operacional. Eu fiz a de um órgão de
pressão social, mas também não estou certo de que seja uma panaceia.
Venham outras propostas. É urgente e imperioso que apareçam ideias sobre
este problema fulcral do nosso sistema.)
A possibilidade de as universidades conjugarem uma oferta pública financiada
pelo Estado com uma oferta privada financiada via mercado, atraente na aparência,
será impossível de manter excepto em casos excepcionais. Imagine que a
sua universidade decide iniciar um novo curso X que o governo não vai financiar
pelo que são cobradas propinas a custos reais. Quanto tempo levará a que
os alunos actuem acusando a universidade e o estado de discriminação por
os outros colegas em outros cursos da mesma universidade nada pagarem?
Por isso a minha posição não é muito positiva, tendo muito mais
dúvidas do que certezas.
(JVC - Quem tem certezas? Eu faço uma proposta mas não tenho a pretensão
de nunca me enganar e ter sempre razão! A única certeza que tenho, e penso
que V. partilha, é que a situação tem que ser corrigida, que vêm
aí cada vez mais desafios e tempos difíceis e que é preciso um debate
urgente, como estamos a tentar fazer. Venham mais para a discussão. Já
é tempo de os universitários se preocuparem menos com o ECDU e pensarem
nestas questões estratégicas que vão condicionar, e a breve trecho,
o futuro das suas universidades. As suas próprias carreiras e situações
profisssionais (até, comezinhamente, o dinheiro de que precisam para trabalharem
e evoluirem nessas carreiras) talvez dependam mais disto do que do ECDU que mobiliza
toda a gente.
Como sabe, fiz à Fundação das Universidades Portuguesas a proposta
de elaboração de um Livro Branco sobre o Ensino Superior. Receio que venham
aí mais medidas legislativas avulsas, incoerentes e pretendendo dar respostas
imediatas desenquadradas de uma discussão estratégica e teoricamente fundamentada,
de que acho que damos um exemplo nesta nossa polémica amigável. Ainda não
tive resposta sobre esta proposta, que corresponde à tendência dos governos
europeus para basearem as suas reformas pré ou pós-Bolonha em documentos
abrangentes e estratégicos, como foram os relatórios Dearing, Mjos, Martinotti,
Attali ou Bricall (e até possivelmente nos EUA com o Futures Project). Considero
que uma reforma coerente da universidade portuguesa tem que partir de um relatório
deste tipo, ou de um Livro Branco, feito numa perspectiva de conciliação
entre a teoria (hoje baseada em abundante literatura, que V. domina melhor que ninguém)
e a prática, resultando em recomendações operacionais tanto para o
governo como para as universidades, naquilo em que elas são autónomas,
e com dois princípios essenciais para o sucesso de uma reforma: o da consensualização
na comunidade académica e o da concertação com os parceiros sociais
da universidade.)
Quanto aos comentários em mais detalhe:
Quanto ao 1.º ponto chamo a atenção para o facto de as propinas em
Inglaterra serem um financiamento estatal. A propina mede o que o estado paga a universidade
para esta ensinar a um aluno o curso X; o aluno recebe o dinheiro de fundos públicos
para pagar à universidade, ou seja, o orçamento para ensino da universidade
é o produto do número de alunos em cada curso pelo custo por aluno determinado
pelo estado. Não há aqui nada de mercado. O pagamento pelos alunos refere-se
às "top up fees" que foram implementadas há cerce de dois anos
sob a forma de uma propina adicional paga do bolso do aluno mas que deverá ser
abandonada no próximo ano. Os rendimentos fundiários e mobiliários
pouco tem que ver com o mercado e não tem o mesmo carácter que o "endowment"
das universidades americanas. Muitas vezes até resultaram de doações
aos velhos colégios de Oxford e Cambridge e não à universidade. O
caso inglês é na verdade uma excepção no panorama europeu.
Eu não generalizei os board of trustees. O que eu pretendi dizer é que
a lógica de gestão das universidades americanas (o american college nunca
foi, desde a sua fundação, assumido como uma comunidade de mestres e alunos
como na Europa medieval) é completamente diferente da europeia por efeito da
existência de uma estrutura de Governo central forte e com grande representação
do exterior. Na UNiversidade da Columbia, NY, em cuja avaliação participei,
o Senado era claramente visto como uma perda de tempo, um mal necessário.
Não concordo que o Estado defenda uma política de banda estreita. Já
vários ministros se pronunciaram contra esta tendência das universidades,
por exemplo Marçal Grilo e Júlio Pedrosa. Porém uma coisa é dizer
e outra diferente actuar, nomeadamente quando a autonomia das universidades ter adquirido
um carácter tão saliente nos últimos anos, a ponto de a LAU ter sido
aprovada por unanimidade na AR.
O que eu pretendo salientar com o mercado não informado é que ele não
existe por definição de mercado. Se não há informação
o mercado não funciona, é uma caricatura e esse é um dos grandes problemas
na utilização dos conceitos de mercado no ensino.
Quanto à mobilidade é bom recordar que as universidades de investigação
são apenas 3% das instituições de ensino superior dos EUA. Logo é
evidente que a esmagadora maioria dos alunos não se desloca. São hoje muito
poucas as universidades a nível mundial que conseguem atrair clientelas de uma
grande área de dispersão geográfica. O que é curioso é que
nesta altura em que a nível nacional se observa uma cada vez menor mobilidade
dos alunos por causas económicas se continue a tecer loas bolonhesas à
mobilidade europeia - repare que a própria Comissão, esgotados os programas
de mobilidade estudantil sem nunca se ter aproximado nem de perto nem de longe da
meta dos 10% de alunos a estudar noutro país, já remeteu para os Estados
os custos de manter os projectos.
Gostei da ideia do pão de centeio e acrescentarei que o problema é que
havia uma época tal de fome que qualquer pessoa preferia comer pão de centeio
a não comer nada.
Quanto ao último ponto veremos. Não sei se sabe que está em preparação
legislação que visa impedir as ordens de interferir via acreditação
na validade dos cursos legalmente reconhecidos pelo Estado. O que eu defendo é
que será muito perigoso embarcar numa aventura de uma super burocracia europeia
tendo em vista uma acreditação e que esta tendência deve ser combatida.
Enfim, foi estimulante. Vou enviar-lhe alguns documentos adicionais que espero considere
úteis.
Os dois primeiros dizem respeito à acreditação, o primeiro escrito
por mim e o segundo pelo Peter Williams.
O terceiro é um draft pois ainda precisa da revisão do inglês; foi
apresentado na reunião deste ano do CHER e deverá ser publicado no Higher
Education Policy. Apresenta um pouco mais da nossa filosofia aqui no centro.
O quarto também tem a ver com a filosofia de governo das universidades. É
ainda um draft que será um dos capítulos de um livro que estou a editar
para uma série da editora holandesa, a Kluwer. O primeiro livro deverá
ser publicado em Maio/Junho de 2002 e trata de "Governance in Higher Education";
os dois volumes seguintes serão sobre "New Managerialism and Higher Education"
e sobre "Markets and Higher Education". É muito interessante pois
procuramos reunir os melhores investigadores mundiais da área com investigadores
da HEDDA, associação de institutos europeus de investigação de
políticas do ensino superior a que o Cipes pertence.
Por exemplo para o livro sobre mercados contamos com uma boa participação
americana: David Dill, Bill Massey e Philip Altbach.
(JVC - Poderei facultar estes textos, mediante autorização do Prof.
Alberto Amaral)
Um abraço e até breve
Alberto Amaral
11.11.2001
Comentário final - JVC
O Prof. Alberto Amaral é uma autoridade reconhecida em política universitária,
com um grande trabalho teórico (veja-se a página do CIPES), depois de ter
sido um reitor de alta qualidade. Honra-me por se ter dado ao trabalho de comentar
o meu modesto texto.
À primeira vista, para muitos leitores, esta polémica pode parecer teorizante
e abstrusa. Nada mais errado. A meu ver, o que estivémos a discutir são
parte das questões mais relevantes para a universidade e é necessário
que elas sejam debatidas rapidamente, em profundidade, e com boa fundamentação
teórica, conjugada com uma perspectiva operacional que leve a propostas concretas.
A universidade coloca hoje problemas políticos prementes (a regulação
e a autonomia, o financiamento e o processo de Bolonha, entre outros) que provavelmente
serão objecto de medidas legislativas tomadas á revelia da comunidade académica
ou discutidas no âmbito fechado do CRUP.
A universidade dos próximos dez ou vinte anos vai ser a que resultar dessas
medidas, que inexoravelmente vão ser tomadas a curto prazo. Não se basearão
na opinião da comunidade, que está abúlica ou desviada para outras
questões.
Realisticamente, não espero muitos contributos para o desenvolvimento do
debate que AA e eu desenvolvemos nestes dois textos e que exigem alguma reflexão
a que os universitários não têm sido desafiados. Mas gostaria ao menos
(e certamente também AA) que me fizessem chegar um simples "feedback"
sobre se consideram ou não que estes são dos problemas mais decisivos com
que a universidade se defronta.
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