João Vasconcelos Costa              28.05.2010    
eu A INQUIETUDE PERMANENTE
Autorretrato de um epicurista, na sabedoria dos 60 - Self-portrait of an epicurean and the wisdom of the sixties

O meu outro sítio:

REFORMAR A EDUCAÇÃO SUPERIOR

 

A minha avó

adeliaA minha avó materna (1888-1965) que, tendo enviuvado cedo, sempre viveu connosco, chamava-se Adélia Guiomar Fagundes, depois Ávila de Vasconcelos por casamento. Adélia, nome pouco vulgar, talvez influência da filha Adèle de Vítor Hugo, que estava então na moda nas famílias cultas. Guiomar, que cheira logo a velha aristocracia, e nome que ela preferia ao primeiro - espero ainda vir a ter uma neta Guiomar. Fagundes, nome de anedotas brasileiras, mas um nome muito respeitado da Praia da Vitória, a que se juntariam, se assim tivesse sido registada, outros nomes ilustres lá da terra, Menezes, Aguiar, Gato.

Inteligente, muito bonita e elegante, com um humor refinado, afectuosa, obcessivamente doida pelos netos, tudo isto devia bastar pra me ter ficado para sempre no coração. Mas estes escritos dirigem-se às influências e por isto vou falar dela como exemplo de uma Senhora, mas muito especial.

Ela não gostaria que eu escrevesse este texto, com o seu pudor e o seu grande sentido de posse das memórias de família, que tanto contribuíam para a sua identidade de senhora terceirense, produto de uma pequena aristocracia rural que cá só adivinho um pouco na leitura da “Morgadinha dos Canaviais”. Também, como é óbvio, o "Mau tempo no canal", em que ela bem podia ser a Margarida Dulmo (que, de facto, era MP, grande amiga da minha avó e secreta paixão de Nemésio).

Da minha avó, pai Fagundes e mãe Aguiar, família altiva, mas isto de pergaminhos de nascimento passou à história, o que conta é a nobreza de carácter e a educação que se auto-constrói. A avó Adélia era orgulhosa e senhora dos seus arquivos familiares como só as pessoas notáveis da Praia da Vitória sabem ser, mesmo que exemplos de decadência adivinhada de uma pequena fidalguia rural. O que eu podia contar do seu avô João Aguiar, morgado e patriarca que se podia dar ao luxo de manter em casa gerações sucessivas de descendentes e que, senil dos seus vários acidentes cerebrais – infeliz herança de família que me atemoriza – já não reconhecia ninguém da família mas protestava sempre que não lhe serviam a sopa por colher de prata? Ou que fugia de casa, já velho trôpego mas com genica, a fazer a pé os quilómetros até ao Porto Martins, para se sentar absorto a ver o mar, em pedregulhos onde a família já sabia que o ia buscar e de onde, muitos anos antes, lhe acenavam familiares e caseiros quando o vapor o trazia de Lisboa, de regresso da obrigatória viagem anual à "civilização"?

Daí o seu principal – único? – defeito, um grande orgulho. Ficou célebre na nossa família um episódio em que ela até nem teve razão, numa procissão do Senhor Santo Cristo. Logo após a mesa da confraria, desfilava uma enorme massa compacta de mulheres, todas de negro e com véu, irreconhecíveis. Na barafunda da organização do cortejo, AP, mesário, disse à minha avó, afinal apenas uma figura velada, "afaste-se um pouco, mulherzinha". A religiosidade da minha avó não foi bastante para controlar o seu impulso de voltar logo para casa, indignada. E nunca lhe perdoou, por mais que lhe disséssemos que o homem não podia reconhecer com quem estava a falar. Quando morreu AP, a minha avó disse que não desejava a morte de ninguém, mas que não se tinha perdido grande peça.

No entanto, a avó Adélia sabia libertar-se da sua educação rígida quando ia para as quintas do seu avô João Aguiar. Era então mais uma miúda camponesa, brincava com as bonecas de folha de milho das outras crianças, dominava os trabalhos agrícolas, acompanhava a vindima e deliciava-se perfidamente com a matança do porco. Por isto, não desdenhava trocar a mais elegante conversa de salão, para que tinha sido educada, por cavaqueiras com os quinteiros. Só fazia questão era que fossem educados – ou, nos seus termos, bem ensinados –, ao contrário de alguns senhores do seu meio, a que chamava apenas delicados. Por educados, ela entendia uma mistura de inteligência, valores e maneira de ver a vida e de se comportar coerentemente com isto.

Uma noção de cultura integral em que, sem saber, foi pioneira. As suas conversas mostravam isso: conversas elegantes mas recheadas de ditos populares a que o seu finíssimo humor ainda dava mais graça. Sempre tive um encanto especial por uma máxima da minha avó, já desactualizada, mas que ainda diz muito: “A educação de um cavalheiro vê-se nas mesas: na mesa de jantar, na mesa de jogo e na mesa da comunhão”. Eu hoje diria a mesa de reunião, em vez da de comunhão. Confesso que, sendo um homem de hoje, não deixo de ter algum fascínio por essa antiquada maneira de ser da minha avó. Talvez eu seja o mais elitista dos democratas que conheço.

Mas este texto devia ser, afinal, sobre o humor. E, no entanto, é-me difícil dizer alguma coisa. Não consigo transmitir o que era o seu papel central de animadora de uma coisa que marcou a minha infância, hoje desaparecida, os magníficos serões diários de família, sala cheia de primos e amigos, razão das nossas zangas quando a minha mãe despachava os filhos para a cama. Ainda hoje uso expressões humorísticas que ouvi da minha avó.

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