Textos sobre os Açores
Açorianices
(Entradas sobre os Açores no extinto blogue
Professorices)
Janeiro 08, 2004
Mestre-escola
Há dias, recebi uma mensagem do Marítimo dirigida a "caro
mestre-escola". Fiquei ofendidíssimo!... Então isto
diz-se a um ilustre catedrático! Quantos colegas meus não
ficariam super-ofendidíssimos? Eu não, eu fiquei muito
honrado. Mestre-escola é, certamente, uma referência muito
elogiosa.
Julgo que quase todos temos um carinho especial pelo nosso professor
das primeiras letras, ou pela sua memória. É um segundo
pai ou uma segunda mãe, mesmo com as reguadas. Além disso,
foram durante décadas, à sua maneira, os únicos
animadores culturais de tantas terras perdidas. No meu caso, o Sr. Barbosa,
meu mestre da primária, foi um amigo que me ficou para toda a
sua vida. tenho uma curiosidade acerca dele que já nunca conseguirei
resolver. porque é que ele me tratava por "pelingrinhas"?
O que quereria isto dizer? Já universitário, quando ia
a férias, nunca deixava de o visitar e ele interessava-se imenso
pelo progresso dos meus estudos.
Tenho também razões familiares. O meu avô paterno,
uma das pessoas mais marcantes na formação do que sou hoje,
começou a sua vida como professor primário, embora, depois,
tenha sido principalmente um emérito professor de latim e cultura
clássica (devendo-lhe, por isto, e sem arrependimento, três
anos de estudo de latim, eu que ia para ciências). A minha mãe,
felizmente ainda com vivíssimos 87 anos, também era professora
e creio que ficou na memória de muitos alunos.
Ao mesmo nível, ficou-me a memória de extraordinários
professores de liceu que tive. Um pouco de tudo, mas, em geral, tive
professores notáveis, homens voltados à terra como profissionais
muitas vezes depois de alguns anos como assistentes universitários,
e cujos interesses intelectuais, que nos transmitiam, iam muito para
além do ensino obrigatório das matérias. Deles destaco
Armando Cortes Rodrigues, que tinha tanto de excêntrico (o que
nós, miúdos, adorávamos, com histórias que
me encheriam páginas e me recordam o tio tenente dos Sinais de
Fogo) como de excelente poeta (injustamente esquecido), amigo de Pessoa
e co-fundador do Orfeu, onde escrevia como Violante de Cisneiros. Ou
Eufrásio de Oliveira, que mais do que professor de inglês,
era um professor de cultura inglesa e nos ensinava o que era um "gentleman" ou
nos incutia o gosto pela beleza de Shakespeare, a nós, miúdos
de doze anos. Outros, como José de Almeida Pavão e Rui
Galvão de Carvalho, estudiosos da literatura açoriana e
anterianos eméritos, foram mais tarde professores convidados da
nova Universidade dos Açores e não pediam meças
a outros professores com credenciais académicas.
Mas destaco, com um lugar especialíssimo na minha memória
e gratidão, Ilídio Sardoeira, antigo assistente da Universidade
do Porto demitido pelo salazarismo, amarantino e grande amigo de Teixeira
de Pascoais e de Abel Salazar, colaborador da Biblioteca Cosmos. Foi
meu professor de ciências naturais no terceiro ciclo. Como professor,
dava muito mais importância à prática, incutindo-nos
o gosto pela observação e pela limitada experimentação
para que tinha magros recursos. Boa parte das nossas aulas era de campo,
muitas vezes ao fim de semana, calcorreando a ilha em cata de exemplares
da flora e da fauna típicas da Macaronésia. A matéria
do programa que a estudássemos no livro, que era para isso que
o tínhamos, compensando esse estudo pessoal com uma ou outra sessão
de "tirar dúvidas". Mas muito mais lhe devemos, eu e
os meus colegas, de que aqui ficam só alguns exemplos: as aulas
teóricas em que se tratavam de todos os assuntos menos ciências
naturais, fosse a poesia de Pascoais, a pintura de Amadeu, as ideias
essenciais da teoria da relatividade, os perigos da guerra nuclear, a
vida e obra de Ghandi, a filosofia literária de Tagore, eu sei
lá que mais. E para não esquecer a formação
de um grupo de jograis (uma coisa hoje esquecida) a que pertenci, que
se exibiu efemeramente dizendo principalmente poesia de Antero (por nosso
orgulho micaelense) e de Pascoais ou Torga (por gosto dele). E já que
falo de poesia, a ele devo esta coisa escandalosa de preferir Cesário
Verde a Pessoa!
Quando me doutorei, fiz questão de reservar os três primeiros
exemplares do pacote de teses: o primeiro para os meus pais, o segundo
para a minha mulher e o terceiro para ele. Respondeu-me com a carta mais
bonita que alguma vez recebi. Já reformado, revia-se no meu gesto
como um exemplo da gratificação de se ser mestre. Terei
que a publicar, mas só depois de uma radical rearrumação
do meu incrível escritório, para poder encontrá-la.
Em contrapartida, e porque tenho sempre que chegar à universidade,
da maioria das dezenas de professores que tive em medicina, em Coimbra
e Lisboa, não guardo qualquer recordação relevante,
a não ser, em muitos casos, tristemente anedótica. Mestres
verdadeiros, tive dois: Juvenal Esteves e Miller Guerra. E também,
embora só o tivesse apreciado mais tarde, porque se misturavam
discordâncias filosóficas com um professor heideggeriano,
outro grande homem: Barahona Fernandes.
PS - A Prof. Sara Marques Pereira, da Universidade de Évora,
pediu-me um testemunho sobre o meu liceu para o seu livro "Memórias
do Liceu Português", que julgo ainda não ter sido publicado.
Como transparece deste "post", considero que, no meu tempo,
o Liceu de Ponta Delgada era excepcional. Para os interessados, está acessível
na minha página pessoal a minha Memória do Liceu.
Janeiro 04, 2004
Protesto gastronómico
Uma faceta minha que só alguns amigos conhecem é a de cozinheiro
criativo. Ao longo dos anos, inventei centenas de receitas, que julgo
terem qualidade e imaginação equilibrada. Também
gosto muito da nossa cozinha tradicional e faço-a muito. Não
tenho um respeito exageradamente reverencial pelas receitas canónicas.
De vez em quando, dou-lhes um toque pessoal ou o que entendo ser um aperfeiçoamento
técnico, mas nunca por nunca desvirtuo o essencial da receita.
Aliás, é isto que se passa sempre. As receitas tradicionais,
mesmo nas boas recolhas, são um padrão. Ao longo dos tempos,
cada família as foi modificando num ou noutro pormenor.
Vem isto a propósito de um exemplo oposto, ainda por cima dado
por um profissional. Comprei o último livro de Michel, embora
não seja um grande apreciador da sua cozinha, principalmente porque
vi que trazia um capítulo de cozinha dos Açores (deixo
de lado agora a discussão sobre "a" cozinha dos Açores,
que de facto não existe; há, sim, "as" variadas
cozinhas das ilhas dos Açores). Vi depois que, em geral, são
receitas próprias inspiradas em ingredientes e usos açorianos. Óptimo, é o
que faz um bom cozinheiro, como alguns chefes estrangeiros estão
a fazer excelentemente em alguns dos nossos restaurantes de topo.
Mas Michel vai mais longe. Inclui no seu livro uma receita de um prato
tradicional, a "alcatra", um ícone do património
cultural da ilha Terceira, para mais intimamente ligado a todo o conjunto
de manifestações espirituais e profanas do culto ao Espírito
Santo. Como não refere ser uma criação pessoal inspirada
e usa a designação tradicional, presume-se que pretende
referir-se ao prato tradicional. Assim, devia ter respeito pela sua genuinidade.
Ora a receita que apresenta é uma completa aberração.
Ninguém de bom juízo lha terá dado (ou então
foi uma partida ilustrativa do bom humor açoriano, que muitos
não conhecem). Se calhar, comeu a alcatra e pôs-se a adivinhar
a receita. Seja como for, não é de profissional.
Fevereiro 09, 2004
Gente feliz com lágrimas (I)
Referi-me ontem, talvez um pouco cripticamente, ao "Gente feliz
com lágrimas". Penso que é bem conhecido, mas talvez
valha a pena dizer mais alguma coisa. Como devem saber, o seu autor é João
de Melo, um grande escritor meu patrício, cerca da minha idade,
mas com percursos de juventude diferentes que fizeram com que só há alguns
anos nos tenhamos conhecido (se não me engano, graças a
uma presidência aberta de Mário Soares nos Açores).
Tenho amigos açorianos escritores que, por amizade e respeito
pela liberdade de critica, certamente aceitarão que eu diga que
o "Gente feliz com lágrimas", que leio e releio (quando
deixo a meio os livros dos nossos Nobel e meio), é o segundo grande
romance açoriano do séc. XX, a seguir ao "Mau tempo
no canal". Aliás, o adjectivo não é correcto.
São grandes romances açorianos mas, como toda a cultura
e natureza do açoriano, só o são porque, ao mesmo
tempo, têm uma dimensão muito para além do horizonte
de tanto mar que, desde crianças, nos molda a alma em contraste
com a pequenez da terra. O verdadeiro humanismo, nos dias de hoje da
moderna cosmologia, não será a síntese dos contrários
entre a infinitésima pequenez cósmica do homem e a maravilha
da sua mente?
Ia escrever mais, mas um acesso agudo de preguicite obriga-me a aproveitar
este resto de fim de semana para compensar duas semanas de intenso trabalho
profissional - um dos meus problemas, entre os doces prazeres da reforma
e a pulsão pela actividade, "mon coeur balance".
Amanhã continuo.
Fevereiro 29, 2004
Um homem e as suas histórias
Vi ontem um filme excelente, "O grande peixe", de Tim Burton.
Não vou falar sobre ele, vão vê-lo. Esta nota é só para
chamar a atenção para o texto final, que me impressionou,
porque me diz muito:
"Um homem conta tanto as suas histórias que acaba por ser
ele as suas histórias. E, com isso, torna-se imortal."
Fevereiro 11, 2004
Gente feliz com lágrimas (II)
Retomando a "Gente feliz com lágrimas", nessa época
e praticamente até 25 de Abril, os Açores eram uma das
nossas sociedades mais assimétricas e estratificadas, com um povo
de grande nobreza e carácter, mas economicamente miserável.
Já eu era homenzinho e ainda via camponeses virem à cidade
de fato humilde mas digno, com gravata, mas de pé descalço.
Ainda me lembro, em criança, de os operários e camponeses
assalariados terem como almoço um pão recheado só com
malagueta, com o muito picante a puxar a boca para as calorias baratas
de uma garrafa de vinho de cheiro.
Os grandes senhores tinham uma vida de requinte, mas também com
isso delapidaram fortunas, sem sentido do investimento e da rentabilidade.
Por exemplo, homens como António Borges, José do Canto
ou o Conde da Praia gastaram rios de dinheiro percorrendo o mundo a colher árvores
exóticas para os magníficos parques de S. Miguel, que hoje
maravilham os visitantes.
Refira-se, porém, que a aristocracia açoriana era de fidalgos
menores, "muito" ricos, mas este "muito" à escala
das ilhas. Ainda hoje, em S. Miguel, ao ler os antigos contratos de foreiros,
se pode vislumbrar a divisão da terra em grandes fatias, de costa
a costa, distribuídas por meia dúzia de grandes proprietários.
Mas isto não correspondia a títulos de nobreza. Até ao
liberalismo, em que proliferaram as fornadas de títulos ("Foge,
cão, que te fazem barão / Para onde, se me fazem visconde?"),
o único titular açoriano, que eu saiba, era o conde de
Vila Franca, descendente do segundo capitão do donatário,
um Câmara da Madeira, de seu nome Rui, filho segundo de João
Gonçalves Zargo. Passaram a usar mais tarde o título de
condes e depois marqueses da Ribeira Grande - com o palácio em
Lisboa que é hoje a Escola Rainha D. Amélia, na Junqueira
- para esquecer a triste história de um conde da Vila Franca,
valido de D. João IV, condenado pela Inquisição
pelo "nefando crime" de sodomia.
Ver hoje os Açores é uma diferença abismal. Em
grande parte, justifica-se por uma palavra: autonomia. Foi, em geral,
bem usada (embora com grande clientelismo nos tempos do governo regional
anterior) e, principalmente, pôs a uso da região importantes
recursos comunitários específicos. Mas a autonomia tem
sido injustamente vilipendiada, em parte graças aos desbocamentos
que vêm regularmente do Funchal. Confundida com independentismo,
estou certo de que foi, de facto, instrumentalizada por este durante
1975. Mas o verdadeiro sentimento autonómico açoriano,
desde o do fim do século XIX até ao da minha geração
(que o digam os muitos açorianos bem conhecidos politica e mediaticamente),
foi sempre uma expressão particular, na diversidade de que se
enriquecem as nações, de se ser profundamente português.
Fevereiro 21, 2004
Mouzinho e os corvinos
Há dias, escrevi sobre a nobreza de carácter popular açoriano,
da "Gente feliz com lágrimas" e lembrei-me de uma história
que a ilustra e que envolve a legislação de Mouzinho da
Silveira.
Não se imagina o que ainda é hoje o isolamento dos corvinos,
os cerca de quatrocentos habitantes do Corvo, a ilha minúscula
que fica nos confins do arquipélago. Viviam oprimidos pelos altos
encargos do regime senhorial, que a revolução de 1820,
com os tempos conturbados de efervescências absolutistas que se
lhe seguiram, nunca chegou a abolir. Certo dia, depois da instalação
na Terceira do governo liberal de D. Pedro IV, um grupo de corvinos meteu-se
num pequeno barco e afrontou as muitas milhas do terrível mar
açoriano para chegarem à Terceira e irem à viva
voz com Mouzinho, a quem expuseram as suas queixas, mas com verticalidade
e sentido do direito à justiça. Mouzinho ficou de tal forma
impressionado com essa gente de enorme carácter e coragem que,
não só nessa noite de "directa", como hoje dizem
os jovens, redigiu todos os decretos de abolição dos morgadios
e dos direitos feudais senhoriais, como dispôs no seu testamento
que queria ser enterrado no Corvo, junto dos mais nobres portugueses
que tinha conhecido. Ainda espero que se venha a concretizar um dia essa
exemplar disposição testamentária do grande Mouzinho.
Março 06, 2004
Verdade ou mito?
Sou, como já viram, um açoriano desenraizado, desde há muitos
anos. Com a enorme mobilidade das últimas décadas, o desenraizamento é hoje
um fenómeno comum. Diz-se que há mais alentejanos na Amadora
do que em Beja. Ele mede-se por um produto, de tempo vezes distância.
Aqui é que difere de certa forma o desenraizamento açoriano,
porque a distância é muito maior. Não falo tanto
dos que cá vivem, como eu, até com alguma disponibilidade
económica para visitas frequentes à terra, mas sim das
centenas de milhar de açorianos (mais do que a população
das próprias ilhas) dispersos pela América e Canadá,
principalmente, mas também por recantos tão estranhos como
as Bermudas ou as Ilhas do Canal.
O açoriano mescla duas coisas contraditórias: um orgulho
ancestral de desbravador de terras, de vencedor de cataclismos naturais
recorrentes, de espectador privilegiado de um jardim do Éden ainda
em grande parte preservado, e com isto tudo, um carácter vincado;
e, ao mesmo tempo, um abafamento depressivo pela pequenez da terra, pelas
nuvens que cortam os pontos de vista mais altos, pelo cinzento do céu
que acentua a negrura do basalto, que escurece a magnífica paleta
de verdes e que nem sempre permite o brilho contrastante da cal alvadia
das fachadas. Tem havido muita teorização sobre isto, e
lá voltaremos. Falei sobre emigração. Quero salientar
que a emigração açoriana é muito diferente
da continental, motivada por factores económicos. É por
estas razões, obviamente, que boa parte dos açorianos emigram.
Mas quantos conheci eu, sem pressões económicas, que emigram
apenas porque a sua mente está conformada para o horizonte de
tanto mar, em conflito com o horizonte de tão pouca terra?
Assim se foi teorizando sobre a insularidade. Nemésio e Natália
Correia são os expoentes dessa elucubração um pouco
poética. Mas eles também eram desenraizados. Há a
outra versão, porventura mais realista, de Aristides Moreira da
Mota e dos seus companheiros autonomistas do século XIX. Mas é a "versão
poética" que tem tido mais impacto. Devo confessar que é,
irracionalmente, a que mais toca, excepto quando procuro cair em mim,
numa de lucidez e de objectividade. É como ver o "Big fish",
de Tim Burton, de que falei há dias. Sei qual é a verdade,
mas a mentira é muito mais bonita.
Nos últimos anos, tenho tido que ir frequentemente a S. Miguel.
As solicitações são múltiplas, de várias
entidades, e correspondo sempre que posso, com granxe gosto. O preço é que
se está a esbater um pouco o mito. Mantenho os rituais de evocação
da infância, da visita aos lugares simbólicos. E, no entanto,
bem no fundo, sinto que tudo isto é um pouco falso, que estou
a construir um mito para meu próprio gozo pessoal. Os mitos são,
fundamentalmente, construções colectivas e sociais, alastradas
pela transmissão geracional. Estes, como a mitologia grega, são
facilmente desmontáveis. Acho que muito mais perigosos são
os mitos individuais, porque não os desmontamos e porque cavam
a fronteira entre a verdade e a mentira numa vala difusa em que cabe
muita coisa (na minha idade, eu prefiro enchê-la muito mais com
a ilusão do que com a realidade).
Caindo finalmente no real, o meu amigo de infância Carlos Falcão
Afonso, parece-me que hoje leitor assíduo deste blogue, mandou-me
um comentário sobre o meu "post" sobre os corvinos e
Mouzinho e sobre o que é a vida de hoje no Corvo. Dói-me
nos meus mitos, mas, por honestidade intelectual, tenho que publicar
essa mensagem deste meu velho amigo. Fica para amanhã.
Março 07, 2004
Verdade ou mito? (II)
Em conclusão do "post" de ontem, cá vai a prometida
carta do meu amigo Carlos Afonso sobre a realidade da vida de hoje do
Corvo, a fazer-me cair - relativamente - do "manto diáfano
da fantasia" para "a nudez crua da verdade".
Ainda a propósito de "Mouzinho e os corvinos
Esse Corvo, de que te lembras, receio bem que já não exista.
Aquele Corvo da nossa juventude, onde uma pequena sociedade se governava
com verdadeiro espírito de entreajuda e em economia primitiva,
onde dinheiro quase não existia ou de pouco servia, acabou. A
cadeia, lembro-me, era uma pequena casa de porta e janela para a rua
abandonada pela sua inutilidadede, com um único quarto e de porta
aberta. A justiça era feita por um "conselho de anciãos" que
aplicava as penas. O castigo máximo era então a deportação
temporária, por tempo variável conforme o castigo, para
a vizinha ilha das Flores, onde o castigado era obrigado a trabalhar
por conta de outrém, o que não acontecia no Corvo onde
todos possuiam a sua parcela de terra que trabalhavam por sua conta com
a preciosa ajuda dos vizinhos.
Hoje o Corvo tem uma estrada de 7 Km que liga a vila a um pequeno aeroporto.
Nela circulam cerca de 40 carros (!) e os seus proprietários exibem
a sua "riqueza" num vai vem, estrada acima estrada abaixo,
sem destino. Como já se vulgarizou o uso de carro há quem,
para se distinguir, já tenha dois! Para apenas 7Km!
Não era seguramente este o Corvo onde o Mouzinho quereria ser
enterrado."
Ainda a ilha do Corvo
Dado o interesse que suscitou o meu "post" de colaboração
com o Carlos Afonso, vou registar duas historietas de que sempre ouvi
falar, relativas à visita feita aos Açores pelo então
Presidente Carmona.
Parece que ele ficou muito impressionado com a comunidade corvina, tal
como eu a relembro na minha mitologia. Prontificou-se a garantir a concessão
pelo governo salazarista de qualquer pedido que os corvinos quisessem
fazer. Parece que fizeram dois. Um aparelho de rádio para colocar
na praça da vila e uma bandeira portuguesa para a Câmara,
que a existente estava muito rota.
A segunda é ainda mais mirabolante, mas magnífica. Diz-se
que no seu discurso de boas vindas, o presidente da Câmara do Corvo,
certamente um popular, começou por se dirigir a Carmona como "Exmo
colega". Entre presidentes ...
PS - Não sei se os meus leitores continentais se conseguem aperceber
da dimensão um pouco surrealista desta discussão. Ilha
do Corvo: à vista das Flores, mas com mar tantas vezes tão
mau que impede qualquer comunicação (embora servida, desde
meados dos 80, por um pequeno aeroporto); 6,5 x 4 km; uma volta a pé à ilha
num só dia; 400 habitantes; o único município rural
com uma única povoação; um presidente de câmara, à medieval,
tão rural e pouco instruído (quando é carteiro,
ao menos sabe ler) como os seus munícipes; ausência quase
total da administração pública; centro de saúde
e médico só depois do 25 de Abril; lugar de pároco
ocupado por castigados pela diocese; etc, etc.
Os calafonas
Não há dúvidas, hoje estou numa de evocação
açoriana. Talvez porque tive comigo ao almoço toda a minha
descendência, o que, simetricamente, me evoca a ascendência
(que sorte que eu tive!) e, com isso, as raízes telúricas.
O Nuno Barata, açoriano provavelmente com idade de ser meu filho
mas de que - ainda - desconheço os pais, que são o que
me diz alguma coisa, e animador de um bom blogue açoriano, ***,
o Fogotabraze (conheciam esta deliciosa praga açoriana, talvez
vulcanológica?) faz um comentário no meu blogue com uma
deliciosa "estória" de emigrantes com um relógio
de cuco e a Ponte do Rio Kway! Isto suscita-me algumas notas, uma de
costumes, outra linguística.
Escrevi que a emigração açoriana não era
exclusivamente económica, que tinha também uma dimensão
de aventura e de evasão. Posso dar um exemplo meu, familiar, de
uma família digamos que mediana e remediada, com um primo meu
médico e outro engenheiro emigrados para os Estados Unidos. Estou
a lembrar-me também de um outro primo meu, de uma família
bem conceituada e ocupando um alto posto da administração
regional, que tem os seus únicos dois tios (do ramo que não é o
meu) emigrados no Canadá. Mas devo admitir que não a regra.
Esta é a da emigração por motivos económicos
ou em consequência dos cataclismos recorrentes. Há nestes
emigrantes um enorme orgulho e uma assimilação muito rápida
dos valores de sucesso da cultura americana.
A Ascensão, uma das figuras queridas da minha infância.
Nossa cozinheira, desde que me conheço, era como parte da família.
Ainda muito criança, fui padrinho de um dos seus filhos, infelizmente
hoje perdido para mim nas voltas que o mundo dá. O marido era
um excelente operário de construção civil, na firma
de que o meu pai era responsável técnico. Uma e outro eram
razoavelmente bem pagos, mas a miragem dos dólares era mais forte
e lá foram. Surpreendentemente, não deram notícias
durante um ano ou dois. Fizeram-no só depois, com uma carta que
tresandava a merecido orgulho, acompanhada de uma fotografia da sua sala
de estar, com uns bons sofás e um grande frigorífico. Mais
tarde, recebi uma fotografia do José, o meu afilhado, com a sua
beca de fim de liceu. Não soube mais dele, mas espero que tenha
prosseguido pelo menos até ao "college". Mas o que eu
ia dizer é que a Ascensão, a partir dessa altura, nunca
mais de deixou de escrever à minha mãe, pelo menos mensalmente.
O que é magnífico é que inclui sempre uma nota de
dólar! Sublime! É um símbolo do seu bem estar e
parece-me também ser uma contradição interessantíssima,
entre a dependência antiga, quase servil mesclada com um reconhecimento
que se vê pela amizade da escrita, e, por outro lado, a afirmação
de uma libertação económica dessa mesma dependência.
Será isto filosofice minha? Há quem diga que ando a tresler
com a idade!
A segunda nota era linguística, sobre a influência dos
emigrantes. Há uma excelente recolha da Dra. Nair Borges, que
não consigo encontrar na bagunça do meu escritório.
Uma das coisas interessantes, é que os americanismos entraram
não só na linguagem popular mas também na erudita,
talvez por corresponderem a ideias ou coisas totalmente desconhecidas
entre nós. Por exemplo, muito antes de cá haver "jeans" ou
calças de ganga, já na minha terra, mesmo os meninos bem,
diziam ter uns alvarozes ("overall" ou jardineiras). E mesmo
só os que tinham dinheiro é que compravam gamas ("gums" ou "chewing
gums").
Aqui vai um pequeno texto calafona.
O calafona ("californian"),
depois de trabalhar toda a semana na suamachina da fábrica ("sewing
machine"), vai no fim de semana às compras ao estoa ("store")
no seu sai-de-casa ("side car"). Compra várias coisas,
sem dispensar o açucrim ("ice cream"). Ao chegar a casa,
mete as compras na frisa ("freezer"), troca os sapatos pelas
sulipas ("sleepers"), veste uma suera ("sweater")
se está frio, senta-se no coche ("coach") a ver televisão
e a insultar os árbitros com um sonoro sanabagana ("sun of
a gun") ou um sanababicha ("sun of a bich").
E, já que vai deixar de se ouvir este grito, com a proibição
da pesca à baleia, o clássico aviso dos baleeeiros: "blós,
blós!", afinal "blows, it blows!".
Dar fé
Falei há pouco da minha querida Ascensão, cúmplice
com a minha avó materna da memória inapagável das
minhas papilas gustativas (pouco a pouco, vou anunciando o meu próximo
livro de cozinha!).
Uma história dela que não esqueço tem a ver com
o muito açoriano "dar fé". O "dar fé" é uma
faceta da grande curiosidade do açoriano popular, também
da má língua e coscuvilhice. Mas tem aspectos curiosos,
de mais alto nível. Já nos seus setentas e muito limitada
pela idade, a minha avó materna, uma personagem fascinante em
que revejo sempre a extraordinária Margarida Dulmo do Nemésio
(que afinal, era copiada da personagem real de uma das grandes amigas
e mais afins da minha avó, D. Maria Parreira, que ainda conheci,
e com que fascínio), dizia eu, que este período já vai
longo, a minha avó cuidava muito do "dar fé".
Por exemplo, queixava-se de que o meu pai não a tinha levado
nunca (aos setentas!) a ver um jogo de futebol, uma coisa que ela nunca
tinha visto, mas de que estava sempre a ouvir falar no seu indispensável
rádio ou na leitura do jornal e de que tinha que "dar fé".
Ela misturava de forma engraçadíssima um agudo sentido
de humor, uma imaginação muito fértil - juntos,
resultando numa inigualável arte da conversa - e uma curiosidade ávida
por tudo o que era novidade. É o tal "dar fé"!
Só ficava um pouco tolhida, aos setentas, em estrear-se numa viagem
de avião. Mas perguntava-me repetidamente como era ver isto de
lá de cima.
A Ascensão, que não vivia na nossa casa, passava sempre
pelo mercado de peixe antes de ir para o trabalho. O mercado de peixe
era na rua para onde dava a morgue do velho hospital, na R. da Vila Nova
de Baixo (esta do baixo e de cima também é muito típica).
Já sabíamos que todos os dias ela ia dar fé do que
se passava no reino dos mortos. Um dia, estava lá a urna do Dr.
Ançã, um médico que tinha morrido na América. À maneira
americana, que trata os cadáveres como estrelas de Hollywood,
o homem estava muito "brunido" (bonito; conhecem este termo
açoriano?). O mal foi que a Ascensão, involuntariamente,
carregou num botão que fez erguer-se a 90° o tronco do falecido.
De olhos bem abertos e maquilhados a olhar para ela, numa mensagem silenciosa
que para a minha comadre era puro pavor!
Ainda hoje me lembro: a Ascensão fez um quilómetro em
3 minutos; chegou à nossa casa ofegante, transida, exorbitante,
lívida e palpitante (querem mais adjectivos?); e só dizia
- "essas terras da América são terras do demónio!" Como
disse no texto anterior, acabou por não resistir ao apelo da terras
da América e espero que lá esteja muito feliz.
Março 13, 2004
Antero desesperado, sob a esperança
Como jovem micaelense, formei-me sob a sombra tutelar de Antero, entre
outros. Ainda hoje, por mais curtas que sejam as minha idas a Ponta Delgada,
não falho ao ritual de recordar alguns dos seus sonetos sentado
no banco em que ele se suicidou. Dizem todas as histórias locais
que ainda é o mesmo velho banco, no lado norte do Campo de S.
Francisco, no passeio que ladeia o convento da Esperança (onde
todo o turista vai ver a famosa e belíssima imagem italiana do
Senhor Santo Cristo dos Milagres, o Ecce Homo).
Só isto já seria irónico, o convento da Esperança.
Mas alerto os futuros visitantes da minha linda terra para que atentem
num pormenor ainda mais irónico. Por cima do banco, na parede
do convento, há uma velhíssima inscrição
em pedra, certamente já do tempo de Antero, que diz exacta e simplesmente:
ESPERANÇA.
Março 21, 2004
Memórias do meu liceu
Nota prévia. Aos domingos, o Professorices vira Açorianices.
Este é um texto que está na minha página pessoal.
Foi-me pedido para um livro a publicar por uma professora da Universidade
de Évora. É longo demais para um blogue, mas o meu amigo
Carlos Afonso acha que assim terá mais fácil acesso por
parte do que parece ser um número crescente de patrícios
que começou agora a ler-me. Aos meus leitores continentais, provavelmente
isto não diz muito. Mas dêem lá hoje um lugarzinho
aos meus amigos ilhéus. Vamos às memórias.
Cinquenta anos volvidos, o dia 3 de Outubro de 1953 continua inesquecível.
Era o meu primeiro dia de liceu. Como mais velho da família, até tive
escolta dos meus irmãos mais novos, no curto trajecto de casa
para o liceu, a quererem testemunhar acontecimento tão memorável.
Bata nova toda resplandecente de branco, pasta nova com os livros e os
cadernos cujas capas o meu pai se tinha esmerado a escrever com a sua
melhor letra de desenhador, e ainda alguns acessórios de que já me
tinham prevenido: um pião e alguns berlindes.
Naquele tempo, passar para o liceu era muito diferente da actual passagem
do 4° para o 5° ano do ensino básico. O liceu, numa pequena
capital de distrito, era uma instituição única e
central na vida da terra. Os seus professores gozavam de grande consideração
social e estava associada ao liceu uma certa imagem de elite porque os
estudantes de menos recursos optavam pela escola industrial e comercial.
Associava-se também à entrada no liceu um ritual de iniciação
menos agradável e com alguma ansiedade, o dos exames: para além
do exame da quarta classe, era necessário também fazer
um exame de admissão ao liceu, para que nos preparávamos
especialmente no fim da escola primária.
Instalado numa magnífica casa senhorial do princípio do
século XIX, dos barões de Fonte Bela, o liceu de Ponta
Delgada, que já tinha sido de Antero de Quental e que, muito depois,
assim voltou a ser chamado, parecia-me um palácio real. Ainda
hoje, descontada a imaginação infantil, sempre que visito
a minha terra, impressiona-me a grandeza e a qualidade arquitectónica
do meu velho liceu. Poucos alunos que éramos, vivíamos
nele à larga e tínhamos aulas nas salas nobres do antigo
solar, magnificamente pintadas a fresco e com estuques encomendados a
mestres italianos. Grandes recreios, um ginásio moderno e um bom
campo de jogos completavam as instalações, que certamente
não eram vulgares no resto do país.
Mas a minha memória mais grata é a dos professores que
me formaram. Tive um pouco de tudo, mas, em geral, tive professores notáveis,
homens voltados à terra como profissionais muitas vezes depois
de alguns anos como assistentes universitários, e cujos interesses
intelectuais, que nos transmitiam, iam muito para além do ensino
obrigatório das matérias. Deles destaco Armando Cortes
Rodrigues, que tinha tanto de excêntrico (o que nós, miúdos,
adorávamos, com histórias que me encheriam páginas
e me recordam o tio tenente dos Sinais de Fogo) como de excelente poeta
(injustamente esquecido), amigo de Pessoa e fundador do Orfeu, onde escrevia
como Violante de Cisneiros. Ou Eufrásio de Oliveira, que mais
do que professor de inglês, era um professor de cultura inglesa
e nos ensinava o que era um "gentleman" ou o "british
way of life". Outros, como José de Almeida Pavão e
Rui Galvão de Carvalho, estudiosos da literatura açoriana
e anterianos eméritos, foram mais tarde professores convidados
da nova Universidade dos Açores e não pediam meças
a outros professores com credenciais académicas.
A estes e outros se juntavam um grupo de professores em situação
particular: eram os professores com estágio e que iam para o meu
liceu aproveitar, para se efectivarem, um quadro generoso de vagas de
efectivos de que o liceu dispunha. Eram, em regra, excelentes professores.
Lembro-me, por exemplo, de Oliveira Guimarães, que nos ensinava
duas filosofias, a oficial e a paralela, transgressora. De outra, que
não foi minha professora, Alba Monteiro, sei que também
subvertia o seu ensino de filosofia. Não sei se a figura bonacheirona
e de excelente homem que era o reitor, João Anglin, fazia alguma
ideia do que isso significava ou se fechava os olhos, como fazia a tantas
coisas, dentro dos limites razoáveis da disciplina, para ele temperada
por uma sábia compreensão da psicologia juvenil.
Na evocação destes professores de arribação,
tenho um lugar muito especial para um homem que me marcou pela vida fora:
Ilídio Sardoeira, antigo assistente da Universidade do Porto demitido
pelo salazarismo, amarantino e grande amigo de Teixeira de Pascoais e
de Abel Salazar, colaborador da Biblioteca Cosmos. Foi meu professor
de ciências naturais no meu terceiro ciclo, chegado a Ponta Delgada
para se efectivar, quando já andaria pelos quarenta. Como professor
de ciências naturais, dava muito mais importância à prática,
incutindo-nos o gosto pela observação e pela limitada experimentação
para que tinha magros recursos. Boa parte das nossas aulas era de campo,
muitas vezes ao fim de semana, calcorreando a ilha em cata de exemplares
da flora e da fauna típicas da Macaronésia. A matéria
do programa que a estudássemos no livro, que era para isso que
o tínhamos, compensando esse estudo pessoal com uma ou outra sessão
de "tirar dúvidas". Mas muito mais lhe devemos, eu e
os meus colegas, de que aqui ficam só alguns exemplos: as aulas
teóricas em que se tratavam de todos os assuntos menos ciências
naturais, fosse a poesia de Pascoais, as ideias essenciais da teoria
da relatividade, os perigos da guerra nuclear, a vida e obra de Ghandi,
eu sei lá que mais. E para não esquecer a formação
de um grupo de jograis (uma coisa hoje esquecida) a que pertenci, que
se exibiu frequentemente dizendo principalmente poesia de Antero - por
nosso orgulho micaelense - e de Camões, Pascoais e Torga - por
seu gosto. E já que falo de poesia, a ele devo esta coisa escandalosa
de preferir Cesário Verde a Pessoa!
Não admira que, neste clima de muito boa qualidade intelectual,
também nós, alunos, principalmente os mais velhos, tivéssemos
um papel activo. Como jovens que éramos, fazíamos uma mistura
disparatada de coisas. Patuscávamos, víamos passar as meninas
no canto do Clube, mas ao mesmo tempo fundámos o Círculo
Cultural Antero de Quental, em instalações que o reitor
nos cedeu. A lista de iniciativas foi longa e nelas pusemos, mais de
duas dúzias de nós, o maior empenhamento, como só os
jovens sabem. Organizámos exposições de "pintura",
para que fornecíamos reproduções que tínhamos
em casa, e que eram acompanhadas de palestras sobre pintura moderna (um
moderno que, para a terra, começava no impressionismo). Formámos
um grupo de teatro (que faliu prematuramente, porque, no nosso entusiasmo,
esquecemo-nos de como custear adereços e cenários).
Escrevíamos para os jornais locais. Organizámos conferências
para toda a cidade convidando os profissionais mais distintos para falarem
de assuntos de momento (lembro-me de um cirurgião ter feito uma
conferência sobre o impacto das transplantações logo
a seguir à primeira operação de Barnard), etc. Mas
também dávamos a volta à ilha a pé, que ainda
são para cima de 160 Km.
Sem que ele estivesse relacionado directamente com o liceu, não
posso deixar de lembrar, com comovida amizade, um jovem militar colocado
em Ponta Delgada, com quem muitos de nós tínhamos relações,
espantados com a cultura e inteligência desse jovem que tanto nos
estimulava na nossa acção e que nos ensinava a ouvir Beethoven,
em longos serões de música gravada com explicações
e comentários entre andamentos. Entrou depois na nossa história.
Chamava-se Ernesto Melo Antunes.
Ao chegar aqui, o leitor certamente estranhará que eu não
tenha falado no obscurantismo desses tempos, do ensino ao serviço
do regime, da obrigação da Mocidade Portuguesa, da mentalidade
estreita de alguns professores, da disciplina obsoleta (separação
dos sexos - embora eu tenha estado, como menino bem comportado, sempre
em turmas mistas, que as havia no meu liceu, uso obrigatório da
gravata no 3° ciclo, etc.). Tudo isto é verdade. Mas, como
viram, tenho outras tão boas memórias que não me
apetece falar de tristezas.
Memórias do meu liceu (II)
Carlos F. Afonso
Meu caro João, li com apaixonado interesse e indisfarçável
saudade, o teu artigo “Memórias do meu liceu”, sobre
o liceu do nosso tempo em Ponta Delgada. Agora que tens muitos leitores
açorianos, sugiro-te que o publiques, em forma de post, para permitir
aos nossos jovens conterrâneos comentar, comparar e dar o seu contributo
a este tema, de forma a proporcionar um diálogo tão vivo,
inesperado e engraçado, como foi o do Corvo. Não sendo,
como é reconhecido, o teu blog um local para futilidades e brincadeiras,
o teu texto sobre o liceu seguramente interessa aos teus leitores açorianos.
Eu permitir-me-ia acrescentar também este texto.
Para além dos nomes que citaste recordo, com imensa saudade,
o brilhantismo, a simpatia e amizade do Dr. Mário Rego Costa,
exuberante e dedicado professor de matemática que a todos deixou
a mais grata recordação. E que dizer do invulgar professor
de História que foi o Dr. João Bernardo Oliveira Rodrigues,
cuja cultura, graça e erudição a todos encantou?
O extraordinário professor Dr. Ilídio Sardoeira foi meu
professor de Ciências Naturais aos 13 anos. Não desperto
ainda para qualquer forma de cultura política que aliás
continuo a não ter, cedo me apercebi da sua cultura e dos seus
invulgares dotes de pedagogo. Assisti nessa altura, numa das Semanas
de Estudo que então se realizavam aqui nos Açores, a um
debate sobre poesia entre intelectuais de gabarito, onde o Dr. Ilídio
Sardoeira a todos estarreceu pela profundidade dos seus conhecimentos.
Ele que era um "vulgar" professor de Ciências Naturais!
Como pedagogo conseguiu fazer-me aprender - e gostar! - de Botânica
e Mineralogia. Foi inútil o seu esforço e efémera
a minha sabedoria. Hoje não distingo uma couve de um repolho!
Por razões que desconheço, tratava-me carinhosamente,
com a sua pronúncia amarantina, por "prínxipe",
seguramente não por razões de sangue ou de postura. Um
dia numa das "chamadas" em que, frequentemente e sem maldade,
passava "rasteiras" aos alunos para se divertir, perguntou-me
como ficaria o seu lápis se o colocasse no copo de água
que tinha sobre a sua secretária. Receoso da "rasteira",
respondi-lhe com segurança: "Fica molhado". Com um sorriso
malicioso ele respondeu: "Oh prínxipe, voxê é um
génio! Não lhe ocorreu que o lápis ficaria com o
aspecto de estar partido?". Estou certo de que, se tivesse respondido
correctamente ele teria dito, com o mesmo sorriso malicioso, que ficava
molhado. O que de facto acontecia é que aprendíamos com
prazer, sem a severidade ou sequer a necessidade duma rigorosa disciplina.
Sendo miúdo de corpo foi grande no espírito. Era uma figura
brilhante. Pela tua própria descrição se vê a
diferença no tratamento que sabia estabelecer entre os mais velhos
e maduros como vocês e as simples crianças de 13 anos que éramos
nós. Recordo, com reconhecido carinho, as lições
que a tua Mãe, Sr. D. Diamantina Vasconcelos Costa, com autoridade
e saber, dava ao teu irmão Duarte e a alguns amigos, na tua casa
da Rua do Saco e depois na da Rua do Colégio (hoje já têm
outros nomes). Nas suas ocasionais ausências, tínhamos outro
professor, um menino como nós (apenas na idade!), de apenas 15
anos, (… Nota, JVC: o Carlos certamente concorda que eu exerça
algum poder de censura).
O Ernesto Melo Antunes, que todos conhecemos, era uma figura invulgar.
Não lidei de perto com ele, limitava-me a cumprimentá-lo
sem qualquer intimidade. Não só pela diferença de
idade como pelo enorme fosso que existia entre nós - esse sim
intransponível - a sua inteligência e invulgar cultura.
Falei com ele uma vez em Lisboa, quando duma recolha de assinaturas para
uma das pseudo-eleições do antigo regime (em 1969?) em
que ele era candidato pelo MDP-CDE. A ele devemos muito do que se passou
antes e depois do 25 de Abril.
Impediu o assalto, ilegítimo e antidemocrático, duma certa
esquerda ao poder com o famoso Documento dos 9, como também a
travagem do "revanchismo" da direita contra a mesma esquerda
no 25 de Novembro - tão mal compreendida na altura - mas sem a
qual a nossa democracia seria hoje um pastiche. Foi, sendo um simples
militar, o mais lúcido, tolerante e culto dos políticos
da nossa democracia. O que fez fê-lo pelo país, sem ambições
pessoais e sem o vedetismo que todos os políticos evidenciam.
Passou pela vida de forma tristemente rápida, mas viveu-a profundamente
e de forma linear, sem concessões de ordem intelectual, política
ou de carácter. Morreu de mãos limpas. Que a História
lhe faça a justiça que os seus contemporâneos, por
despeito ou por mero sectarismo, lhe têm negado.
O 6 de Junho e a autonomia açoriana
Estava a pensar ficar hoje por aqui, acerca de açorianices, mas
um "post" do (Indis)Pensáveis, sobre a manifestação
de 6 de Junho de 1975 e a autonomia dos Açores obriga-me a algumas
notas. O sentimento autonómico dos Açores e da Madeira
(mas agora só vou falar dos Açores) nunca foi cá bem
conhecido e, se calhar, para as gerações açorianas
mais jovens, que felizmente sempre viveram na democracia com autonomia,
também precisa de alguma informação. Infelizmente,
após o 25 de Abril, com a excepção de Melo Antunes
e poucos mais, também o MFA e o governo, preocupados com o papel
dos Açores na geopolítica e na luta surda travada entre
as superpotências acerca da revolução portuguesa,
não souberam compreender o desejo da autonomia e entregaram-no
a movimentos afinal hostis à revolução e à democracia.
A batalha pela autonomia nunca foi independentista! Os seus mentores
do fim do século XIX, de que se destaca Aristides Moreira da Mota,
eram fieis reflexos de uma postura histórica, de que já tenho
falado: somos açorianos porque somos portugueses, que para cá vieram
e nos fizeram, somos dos melhores portugueses porque somos açorianos
perdidos no mar mas mantendo sempre a chama, os últimos a renderem-se
aos Filipes, os primeiros a aclamar o liberalismo, e tanto mais. Por
decreto de 2 de Março de 1895, o governo concedeu autonomia administrativa
aos distritos açorianos. Como vêem, já vem da monarquia. É por
isto que a "bandeira da autonomia" do grupo de Moreira da Mota,
que eu em miúdo via religiosamente hasteada no dia 2 de Março
em casa do Pe. Ferreira, é azul e branca; e julgo que Hugo Moreira,
quando propôs a actual bandeira da região, inspirou-se nisso
e não num aproveitamento que, entretanto, tinha feito a FLA.
A autonomia era considerável, comparada com a dos distritos do
continente. As chamadas Juntas Gerais eram únicas nas ilhas e
tinham largas competências, muito longe, embora, das actuais competências
regionais. Salazar nunca se atreveu a tocar nessa autonomia, a não
ser num período transitório a seguir à revolta das
ilhas de 1931. A minha formação politica juvenil - e volto
a referir os ícones, Melo Antunes e Borges Coutinho - fez-se cruzando
a dimensão mundial, a nacional, mas também a regional.
Não quero ser injusto, porque a memória vai faltando, mas
lembro Medeiros Ferreira, Jaime Gama, Roberto Amaral, o grupo do Gil.
Mota Amaral é que não aparecia, que o seu percurso é mais
sinuoso. Lembro-me das célebres Jornadas de estudos açorianos,
no marcelismo, quando eu, já universitário ou até licenciado,
ia a férias. Um sector que julgo identificar em parte com o Opus
Dei (pelos convidados que lá levavam, ainda posso dizer quem)
e, em grande parte com os florescentes Cursos de cristandade, tentou
o aproveitamento do descontentamento regional (ilhas esquecidas, tributação
que esquecia os custos da insularidade, domínio dos altos quadros
continentais, etc.) para um movimento de direita que combatesse a eficaz
acção democrática (não esquecer o papel fundamental
de uma meia dúzia de padres progressistas) que se viu pelo facto,
que muitos desconhecem, de que o distrito de Ponta Delgada, em 1969,
teve o segundo maior resultado eleitoral (CDE), a seguir a Lisboa. O
Ernesto tinha mesmo que vir a ser o pai esquecido da nossa revolução
democrática!
Pelo papel especial dos Açores, uma das prioridades que devia
ter havido era a de mandar para lá os melhores quadros democráticos.
Melo Antunes era indispensável cá em Lisboa. A minha geração
estava estabelecida e os partidos ou movimentos em que militávamos
não entenderam essa prioridade. O meu caro amigo António
Borges Coutinho viu-se isolado, com alguns jovens companheiros politicamente
inexperientes. Os potentados locais, perante o impulso popular inicial,
souberam usar o independentismo, como, uns dois meses depois, no continente,
souberam chamar a si o conservadorismo católico. O independentismo,
que talvez tenha existido na cabeça estranha do dr. José de
Almeida, foi apenas uma bandeira que usou dois leit-motif, o do autonomismo,
louvável, e o do fascínio pela velha emigração
americana, numa mistura bizarra de autonomia e de dependência em
relação aos EUA. Só dois exemplos. G. P., meu antigo
colega de liceu, tido como agente da CIA e familiar colateral de uma
altíssima figura politica açoriana, contactou-me, em nome
de uma (obscura) instituição americana, para fundar com
todo os dólares uma universidade nos Açores que veiculasse
os valores americanos. E o actual líder do PSD/A não conhecerá histórias
do seu pai, desse tempo, sobre o envolvimento do consulado dos EUA, de
que ele era o principal funcionário? Mas já vinha de trás.
Há uma célebre série de artigos de Mota Amaral,
no Diário dos Açores, era ele deputado marcelista, advogando
a monocultura da vaca com exportação preferencial para
os EUA. Não se lembram?
Não tenho tempo agora para explicar o que era a crise da lavoura
açoriana no fim dos 60 (o valor das rendas parasitárias,
o preço dos adubos e das rações depois da crise
do petróleo, a concorrência das exportações
bovínicas da Argentina e outros países, e muito mais).
Perante a inoperância e alheamento do governo central em relação
aos Açores, pelo envio para lá dos oficiais spinolistas
e outros que não mereciam confiança, e principalmente pela
colocação como comandante militar do inefável Gen.
Altino de Magalhães, um produto tópico das contradições
do MFA, os caciques locais herdeiros do secular senhorialismo açoriano
(apesar dos corvinos e de Mouzinho, relembro), conseguiram arregimentar
algumas centenas de lavradores para a manifestação do 6
de Junho, que Altino aproveitou para demitir Borges Coutinho. Mas vejam
a lista dos presos dos dias seguintes, quando o governo reagiu (e que
Altino libertou): aí está o escol da reacção
e dos interesses açorianos feitos durante anos e anos à sombra
do protectorado salazarista.
Há uns três anos ou coisa que valha, o Presidente Jorge
Sampaio resolveu dar-me uma condecoração, não sei
porquê. Fiquei satisfeito em recebê-la. Mas muito maior foi
o gosto de ver sentado ao meu lado, tantos anos depois, o meu estimadíssimo
amigo António Borges Coutinho a receber a Ordem da Liberdade.
Em conclusão, meus jovens amigos patrícios: celebrem o
dia do Espírito Santo, que está nas nossas raízes
culturais mais profundas, celebrem o 2 de Março, mas pensem um
pouco sobre o 6 de Junho!
Março 28, 2004
O 6 de Junho nos Açores e o 25 de Novembro
Voltando ao hábito dominical de açorianices, lembro que,
há uma semana, fiquei de voltar ao 6 de Junho e, em geral, ao "verão
quente" nos Açores. Não é tarefa fácil
e quase tinha decidido faltar à minha promessa. É que envolve
reminiscências pessoais difíceis de explicar e também
porque me falta ainda distância, apesar dos trinta anos que esta
história já conta. E desculpem-me, que isto vai ter que
ser muito longo para um "post", mas não é assunto
para frases feitas ou simplificações. Quem não tiver
pachorra, imprima e leia com tempo.
Comecemos pela crítica feita ao meu texto anterior sobre o 6
de Junho, por Carlos Afonso, muito generalizada: "confesso-te que
nunca compreendi a invasão da Hungria, nunca aceitei a destruição
da Primavera de Praga, nunca percebi nem aceitei qualquer forma de totalitarismo
nem religioso nem político. (...) Já nessa altura todos
sabíamos o que era o estalinismo, já nessa altura sabíamos
dos gulag, já nessa altura se conheciam o que eram as "amplas
liberdades".
Vamos separar, porque clarifica, as questões gerais e mais antigas,
como a Hungria, a Checoslováquia, o estalinismo e os gulags, do
mais conjuntural, como o papel dos comunistas no chamado PREC (não
gosto do termo, mas lá vai). Um jovem comunista dos anos 60, por
exemplo, um universitário, obviamente que conhece o passado terrível
do estalinismo. Mas isto não significa que, até usando
o próprio marxismo-leninismo, não tenha a compreensão
dos factores de origem do que considera uma perversão transitória
do ideal comunista. Sabe que Khrustchev denunciou corajosamente todos
os abomináveis crimes de um Stalin provavelmente psicopata e tudo
lhe indica que a situação vai ser corrigida. A imprensa
ocidental diz que não, que continua tudo na mesma. Mas, nessa época
de guerra fria, todos faziam propaganda e contra-propaganda, não
se podia ter uma opinião objectiva que não fosse com os
próprios olhos (é curioso ler, por exemplo, o que uma mesma
revista americana, ou viceversa, escreve sobre o outro pais entre 19441
e 1945 e depois, nos anos 50 ou 60). Entretanto, esse jovem comunista
que, não esqueçamos, é-o por um grande ideal de
justiça social e, na prática, porque é a forma mais
consequente de combater o salazarismo e ganhar a liberdade, não
pode separar, em Portugal, comunismo e liberdade, mesmo que isso tenha
que ser uma originalidade da futura revolução portuguesa.
Ele até sabe que o PCP foi mal visto por Moscovo durante quase
toda a sua história e que, portanto, é provavelmente diferente.
Lê na imprensa do partido condenações vigorosas do
estalinismo e profissões de fé na liberdade e na democracia.
Sabe, das leituras dos clássicos, que isto está no centro
do pensamento de Marx. Pela compartimentação da clandestinidade,
só conhece 3 ou 4 camaradas, que pensam como ele, e que são
pessoas excelentes, lutadores de grande coragem (amizades para toda a
vida). Não conhece nada sobre os vícios inevitáveis
do "funcionalismo", dos quadros profissionais clandestinos.
Entretanto, há a Checoslováquia. Aí tudo se baralha.
Já não se está em estalinismo e a primavera de Praga
parece ser a concretização do reencontro com os ideais
do comunismo. Para grande crise pessoal de muitos, depois de oscilações
perturbadoras, a direcção do PCP alinha fielmente com a
condenação de Dubcek e com a invasão. Caminho único
para esse jovem e, como só pode vir a saber depois do fim da clandestinidade,
também de um bom número dos seus amigos: a rotura com o
PCP.
Vem o 25 de Abril. Ele e os tais seus amigos são convencidos,
por longas conversas com dirigentes partidários, de que a prioridade é a
revolução, de que a especificidade programática
do partido (respeito integral pela democracia e pelas liberdades, luta
social tenaz e consequente mas legal, tudo como bem claro no programa) é para
se respeitar e que agora, terminada a clandestinidade, há condições
para uma discussão interna aberta sobre problemas passados, como
o da Checoslováquia. O empenhamento politico subsequente nem lhe
dá tempo para grandes reflexões ideológicas, embora
haja e reconheça alguns sinais perigosos de alerta, como o cerco à Assembleia,
que o Carlos Afonso refere, acertadamente. No entanto, manda a honestidade
que se diga, no ardor revolucionário, esse jovem que estamos a
tomar como exemplo literário e muitos seus amigos de ideologia "pura",
de mentalidade aberta, impregnados do humanismo de Marx (não acreditam?
leiam-no!), erraram muito, foram sectários, puseram em risco velhas
amizades, esqueceram a velha e tão positiva unidade antifascista
(mas também os do outro lado a esqueceram, note-se bem).
Continua Carlos Afonso: "A vivência num meio pequeno do PREC,
embora na altura eu não vivesse cá, levaram à reacção,
a meu ver compreensível, dos que acreditando num processo democrático,
viram as suas aspirações frustradas pelo assalto ao poder,
sem qualquer legitimidade, de uma esquerda com reconhecidas ambições
totalitárias e de pessoas que, dizendo-se democratas, atropelavam
todos os processos democráticos, pelo único objectivo de
atingirem o poder, fosse como fosse. (...) Que uma direita totalitária
se tenha juntado aos verdadeiros democratas não tenho dúvida.
(...) As "tentações totalitárias" que
muitos notáveis homens de esquerda combateram em Novembro, foram
as mesmas que os Açores iniciaram em Junho."
Se, antes, a história do jovem comunista de que falo era fácil
de contar, agora começa a ser muito difícil, porque os
acontecimentos estão longe de serem lineares, como o meu caro
Carlos escreve. Vou passar então para os factos. Por razões
que não vêm ao caso, creio que os conheço bastante
bem.
Não vamos longe nesta discussão se não tivermos
presente que houve múltiplas linhas cruzadas no comportamento
da "esquerda" a partir do 11 de Março. Gonçalvistas
e Copcon, na área militar, PCP, MDP, MES, maoístas, na área
partidária, as iniciativas mais diversas de trabalhadores desenquadrados,
de moradores, estão muito longe de constituir uma movimentação
organizada, coerente e muito menos controlada. Não tendo nada
a ver hoje com o PCP, faço-lhe justiça de, muitas vezes,
ter sido completamente ultrapassado pelos acontecimentos e de que "assim
se vê a força do PC" foi um slogan que, entre muitas
outras coisas, contribuiu para uma ideia da sua grande capacidade de
direcção do movimento revolucionário, o que não é verdade.
Mas as mesmas linhas cruzadas também havia no lado que havia
de triunfar no 25 de Novembro, como o Carlos reconhece. O grupo dos 9
e o PS obviamente que não tinham qualquer identidade com o ELP,
com a direita militar, com os caceteiros dos assaltos às sedes
de esquerda, com os independentistas das ilhas ou até com um MRPP
que, objectivamente, sempre fez o jogo da direita (por isto, o percurso
de Durão Barroso não tem nada de surpreendente). Mas, se
se acusa o PCP, o MDP ou o MES de deixados levar pelos extremistas, porque
não lembrar que o PS tinha aceitado muito do que era de oportunistas
e de fiéis envergonhados do salazarismo e que o grupo dos 9 incluía
um ELPista como era o nosso semi-patrício Canto e Castro ou pessoas
tão democraticamente duvidosas como Jaime Neves ou os restos do
spinolismo (Azeredo e outros), a léguas da firmeza democrática
de Melo Antunes, Vasco Lourenço, Pezarat, Charais ou Vítor
Alves?
E o ELP, agora que tanto nos preocupamos com o terrorismo? Esteve no
centro de todas essas que chamo as linhas cruzadas de direita. As suas
vítimas mortais, até uma criança de meses, não
nos devem estar sempre tão presentes como os mortos de Atocha?
Depois, há a ideia feita de que as posições do
PCP e próximos, e do PS e grupo dos 9 eram as que estavam em confronto
mais forte. Nada mais falso. O PCP, mas principalmente o MDP/CDE (neste
caso, garanto a 100%) e uma ala mais serena do MES, com pessoas hoje
bem conhecidas do PS, estabeleceram contactos frequentes com o grupo
dos 9 e quase se chegou a um acordo, em termos que julgo conhecer. Mas
ambos os lados ficaram presos pelas alianças, reais ou fácticas
em que estavam enleados. Tristemente, o homem a quem devemos muito no
25 de Abril, Otelo, teve um papel desastroso nesta fase (lembram-se da
tentativa do governo Fabião, em que tantas esperanças tive
e que Otelo torpedeou?).
E quantos 25 de Novembro houve ou haveria? O que conhecemos acabou por,
felizmente, conduzir-nos à democracia estabilizada. Mas era esse
25 de Novembro que a direita pura e dura desejava? Era este o que desejavam
os próceres do 6 de Junho? Porque é que os oficiais para-quedistas
foram para a Cortegaça, ali bem perto do Porto? Qual era o 25
de Novembro de Pires Veloso, do cónego de Braga e dos seus amigos
elpistas? Era só um mesmo 25 de Novembro que tinha o apoio dos
serviços secretos dos EUA, da Alemanha e outros, ou eram vários
25 de Novembro? E, no outro lado, na acção dos para-quedistas
em Monsanto e nas outras bases, sempre ditas como dirigidas pelo PCP,
porque é que Costa Martins não consegue um entendimento,
enquanto o PCP mandava a máxima contenção às
suas forças operárias e - testemunho-o - os seus dirigentes
passaram o dia a explicar a grupos de militantes exaltados porque não
deviam comprometer suicidariamente o partido naquela aventura? E, se
a esquerda responsável, discordâncias politicas à parte,
não fosse afinal distinguível de todo o resto folclórico
(mas folclore perigoso), como compreender as conversas razoáveis
tidas durante todo o dia entre Costa Gomes, Vasco Gonçalves, Rosa
Coutinho (os fuzileiros não saíram!), Melo Antunes, Martins
Guerreiro e outros, que permitem, à noite, a célebre declaração
de Melo Antunes, talvez o acto mais corajoso da sua vida?
Mas não é linear, como diz o Carlos, que o 25 de Novembro
tenha sido a conquista da democracia pela esquerda genuína em
que me parece que ambos nos situamos. A esquerda que ele enaltece, pelo
menos em termos das suas figuras militares a quem tantos devemos, teve
uma vitória de Pirro. O que é hoje a nossa democracia não é o
que desejavam. Não vou citar nomes, mas, desde logo a seguir ao
25 de Novembro e ao longo destes anos, quantos azedumes políticos
tenho ouvido a proeminentes abrilistas do grupo dos 9, incluindo o seu
símbolo! Veja-se só o que aconteceu às suas carreiras
militares.
Isto já vai muito longo, é mais um artigo do que um "post" e
tenho que concluir, afinal, no que se refere ao 6 de Junho. Nesta rede
complexa de intriga politico-militar, parece-me injusto para aquilo que
era o fraco PS açoriano de então ligá-lo ao 6 de
Junho e ao verão quente. Tive um modesto papel na protecção
e saída de Ponta Delgada de Carlos Fraião e outros dirigentes
de esquerda. Digo, pela primeira vez, que tive ajuda de alguns elementos
do PS, contra toda a animosidade do gen. Altino de Magalhães e
dos seus oficiais próximos. Continuo convencido de que o 6 de
Junho foi uma instrumentalização da direita bruta, talvez
não organizada então em nenhum partido, mas representante
dos interesses retrógrados que, logo a seguir, se transfeririam
para outra forma de propaganda, a independentista, seguindo de perto,
ou até julgo que antecipando, as acções violentas
e terroristas contra os partidos de esquerda , que certamente o Carlos
não aprova. Não creio que os meus bons amigos açorianos
do PS façam bem em associar-se ao 6 de Junho. Como disse, há muitos
25 de Novembro. De que 25 de Novembro é que o 6 de Junho foi precursor?
E, já agora, que é feito do tal jovem comunista desde
1964? Progressivamente, fez a sua "limpeza" ideológica:
primeiro o "socialismo real", depois o leninismo, ficando-se
pelo que de mais essencial e humanista tem o marxismo "puro".
Por isto, saiu silenciosamente do PCP, pela segunda e definitiva vez.
Fez um esforço de coerência entre valores afectivos essenciais
e a compreensão do mundo de hoje e nem sequer se gabou de ter
antecipado em mais de dez ou vinte anos as mediáticas cisões
de perestroikos, de renovadores e do que ainda está para vir.
Conheço-o bem, é o meu melhor amigo, mas o melhor amigo é coisa
que fica sempre entre um.
A jangada de pedra de Mota Amaral
Até parece de propósito, em relação ao meu "post" de
hoje, a entrevista de Mota Amaral à Única do Expresso.
Pergunta: "Daí a sua participação no movimento
independentista açoriano?"
Resposta: "Nos Açores, a vitória do PPD nas eleições
de 75 confirmou a opção por uma linha reformista. Mas,
em Lisboa, o processo revolucionário acelerava, temendo-se uma
ditadura dominada pelo PC. Ora, os Açores tinham vivido séculos
virados para a América (nota JVC: muito duvidoso; as primeiras
relações comerciais, muito reduzidas, são do ciclo
da laranja, no séc. XIX e, antes, apenas as de portos de escala),
com laços reforçadíssimos pela emigração.
Se, porventura, em plena Guerra Fria, Portugal fosse parar ao outro lado
- o do José dos Bigodes, como se chamava ao Estaline (nota JVC:
linguagem estranha, para o estilo de Mota Amaral) - nós íamos
para o outro. Não era bem sermos o 52º estado dos EUA, mas
a ideia de que, se o continente estava perdido, nós salvávamos
na nossa jangada".
Não se pode ser mais claro. O independentismo era uma clara tontice
inviável para políticos experientes e inteligentes como
Mota Amaral ou mais um desbocamento do seu grande amigo Alberto João.
Por isto, é melhor falar de separatismo, mas para trocar a pátria
secular, a que os açorianos tanto deram ao longo da história,
por uma ligação aos EUA, fosse a que título fosse.
Uma questão de regime justifica obviamente a luta politica e os
açorianos deram disso exemplos históricos, mas, por mais
importante que seja, não se sobrepõe ao ser-se português
desde há cinco séculos e meio. Não se troca de pátria
como se troca de camisa.
E Mota Amaral tem um lapso freudiano ao falar de 52º estado. Qual é o
51º?! Ou estaria a pensar nos seus célebres artigos de cerca
de 1970, no Diário dos Açores, a propósito de Porto
Rico, em que já revela uma miragem americana. O que era senão
neocolonialismo encapotado a sua defesa vigorosa do projecto da ITT (sim,
a do Chile) de escandalosa "monocultura da vaca", em escala
incomparável com o que depois, infelizmente, se veio a verificar?
Abril 04, 2004
As festas do Espírito Santo nos Açores
Regresso hoje virtualmente aos Açores para uma evocação
que talvez até tenha mais interesse para muitos leitores continentais
que, sem as conhecerem, sabem ser as festas de Espírito Santo
um elemento emblemático da identidade cultural açoriana.
Daí o florescimento de festas do Espírito Santo, com algumas
adaptações pitorescas, nas numerosas comunidades açorianas
da Califórnia, da Nova Inglaterra e do Canadá. Como pormenor
simbólico, note-se que o hino oficial dos Açores é uma
versão de um tradicional hino do Espírito Santo e que o
feriado regional é a segunda feira de Pentecostes. No entanto,
sendo um importante traço identitário de todo o arquipélago,
há grandes variações nas festas, de ilha para ilha,
mas com uma matriz comum. É um bom exemplo de como a variedade
não prejudica, antes enriquece, um património cultural
comum.
O culto do Espírito Santo parece ter origens nas grandes conturbações
milenaristas, com a ideia da proximidade de uma idade do Espírito
Santo, mas veio a tomar forma mais aparente por acção dos
franciscanos espirituais, perseguidos na França e na Itália
(recorde-se "O nome da Rosa") mas bem acolhidos em Aragão.
Daí ser ideia bem implantada que o culto do Espírito Santo
teria vindo para Portugal com a Rainha S. Isabel. Ao fim de tantos séculos,
e em parte por oposição ou, pelo menos, reserva por parte
da Igreja, sobreviveu no continente e no Brasil (aqui, até mais
tarde e mesmo até hoje) apenas vestigialmente, em algumas manifestações
localizadas, como a festa dos tabuleiros em Tomar ou a festa do Espírito
Santo do Penedo, em Sintra. Mas há notícia de festas do
Espírito Santo em muitos outros lugares ainda nas duas primeiras
décadas do século passado, principalmente ao longo do vale
do Tejo, e mais em particular no Alto Tejo. É uma região
que alguns referem como possível origem importante do povoamento
açoriana, principalmente a de S. Miguel.
As festas de Espírito Santo têm um componente importante
de humildade e igualdade, próprias das ideologias milenaristas
e utopistas, de novo império, retomadas por uma espécie
de "filosofia nacional", de destino privilegiado, no discurso
sobre o quinto Império do Padre António Vieira e até,
tão recentemente, por saudosistas como Agostinho da Silva ou António
Quadros. Esse carácter de igualdade é simbolizado pelas
versões mais antigas das festas, hoje desaparecidas, como as dos
Impérios dos Nobres, em que estes coroavam simbolicamente um pobre
como detentor de um poder que, de facto, nada significava na realidade
social da época. A coroação, hoje de uma criança,
com o seu cortejo e a sua cerimónia religiosa, continua a ser
central em todo o rito e a coroa de prata do Espírito Santo, o
grande símbolo das festas - assim como a bandeira de adamascado
vermelho com a pomba em prata - está presente em todas as casas
açorianas (e é um bom negócio para as ourivesarias).
Disse cerimónia religiosa, que há pelo menos dezenas de
anos se passa na igreja e com a participação do clero,
mas nem sempre foi assim. Por razões que não conheço
a fundo, mas que julgo relacionarem-se com a reserva da Igreja pós-tridentina
em relação a tudo o que não fosse o ortodoxismo
religioso, as festas do Espírito Santo que chegaram até nós
são essencialmente populares e marginais à Igreja. Até nos
locais emblemáticos de culto, os impérios ou teatros, que
todo o visitante dos Açores conhece, principalmente, pela sua
profusão e riqueza de arquitectura popular, na ilha Terceira.
São pequenas capelas, normalmente de um estilo barroco em versão
popular, com uma grande paleta de cores, encimadas pela pomba do Espírito
Santo em vez da cruz. Na altura das festas, abrem-se de par a par as
suas portas, não para que entrem as pessoas, que lá não
cabem, mas para expor os símbolos, coroa e bandeira, num trono
de vários andares exuberantemente decorado com flores e castiçais
valiosos.
O outro elemento simbólico da fraternidade de Espírito
Santo é o da oferta a todos os pobres da refeição
das festas. O imperador, eleito anualmente - ou melhor, leiloado pela
melhor oferta de grande festa, muitas vezes para pagamento de uma promessa,
outras por ostentação de riqueza de emigrante regressado
- tem a obrigação de fornecer essa refeição
a todos os pobres do seu império, que tanto pode corresponder
a uma freguesia (nos Açores não se diz aldeia) como até a
uma rua da cidade, como era na minha meninice na rua do Saco em Ponta
Delgada, sendo eterno imperador, sem competidores, o mestre António
do Rego.
Essa distribuição de alimentos varia um pouco de ilha
para ilha. Em todas é constituída basicamente pela "pensão":
carne, pão, massa sovada e vinho. Mas em S. Maria há várias
refeições de Espírito Santo e na Terceira há também
o bodo de leite, em que se traz as vacas, engalanadas, para serem mungidas
na praça da freguesia. A distribuição de alimentos
não se limita aos pobres. Os membros de cada irmandade, como eram
os meus pais, pagam ao longo do ano uma quota (recolhida por um grupo
que percorre o império com a sua bandeira do Espírito Santo)
para também receberem a pensão na altura das festas. Ficavam
também com o direito de receberem em casa, durante uma semana,
os símbolos do Espírito Santo, em troca de um terço
diário.
A distribuição das pensões é pitoresca,
mas não sei se ainda se faz como era na minha meninice. As vitualhas
iam em carros de bois, daqueles bem velhos, com rodas maciças
de madeira, todos enfeitados com grinaldas e arcos de flores de papel,
com uma grande roda frontal de flores de papel brilhante de várias
cores. Os próprios bichos, com a sua pachorra, também iam
bem enfeitados. À frente, os foliões, um quarteto de tocadores
de rabeca, viola da terra, pandeireta e ferrinhos, vestidos com uma opa
vermelha toda às ramagens e com uma mitra à bispo, do mesmo
tecido. Atrás, na Terceira, ia outro carro de bois enfeitado com
ramos de faia, em que se acumulava a malta miúda a fazer macacadas.
Por isto me dizia a minha avó, quando eu julgava dizer alguma
coisa com graça, "ainda hás-de ir no carro das faias".
PS - Desculpem este texto tão longo para um blogue. Como dizia
o Pe. António Vieira numa carta, "não tive tempo para
a escrever mais curta".
Abril 16, 2004
Os meus professores de matemática
Temos falado sobre o ensino da matemática no secundário.
Também, assunto diferente, sobre a compatibilização
entre um ensino para todos os alunos e um ensino que estimule os melhores.
Juntando ambas as coisas, lembrei-me dos meus professores liceais de
matemática. Fora um ou outro de arribação, tive
dois, o mais diferentes que se pode imaginar.
A princípio, Lúcio Miranda, natural de Goa mas já há muito
fixado em Ponta Delgada, tendo mesmo sido professor muito estimado do
meu pai. Foi meu professor pouco tempo, porque as suas simpatias pela
integração de Goa na Índia valeram-lhe a demissão
e o embarque forçado num navio, escoltado pela PIDE. Era um homem
inteligentíssimo, segundo todos os que o conheceram, de uma placidez
oriental e de grande paciência. Por isto, para ensinar eficazmente
a todos, não podia transformar o ensino da matemática numa
grande aventura intelectual, quase lúdica, como eu sempre gostei
(até dos problemas dos tanques e das torneiras na instrução
primária - lembram-se?). Ensinando muito bem e para todos, dava-nos
as bases sólidas para aventuras pessoais posteriores e fazia aquilo
que parece hoje tão difícil: mostrar que a matemática é simples,
que está em toda a nossa vida e que até pode ser muito
divertida. No entanto, o progresso matemático individual, a tal
aventura, em crianças do então primeiro ciclo, não
era fácil sem um motor. Ele não podia, com a sua responsabilidade
de satisfazer todos. Felizmente, tive um pai louco por matemática
e que foi esse motor de que eu precisava.
Depois, tive como professor o oposto, Mário Rego Costa, uma "personagem".
Com as mesmas qualidades de inteligência e de paixão pela
matemática, mas totalmente desprovido da paciência de Lúcio
Miranda. Nas chamadas ao quadro dos alunos com mais dificuldades, era
um espectáculo vê-lo: gemia ou urrava, dava patadas no chão,
quando não descarregava o ponteiro nas costas do coitado. Já para
os bons alunos, era o maior estímulo. Como era muito expressivo,
parecia um treinador a ver correr o atleta: balançava-se para
a frente, sorria de orelha a orelha e só dizia "vai, vai!".
Lembro-me, por exemplo, de repetidamente se passar o mesmo comigo. Na
demonstração de um novo teorema que ele nos propunha ou
na resolução de um problema, vulgarmente eu saltava alguns
passos, porque óbvios. Ele ria-se perdidamente, dava-me palmadas
nas costas, mas no fim dizia: "mas não faças isto,
que eu depois vou ter que ensinar os outros". Acho piada, mas obviamente
que concordo que era um péssimo pedagogo, mesmo que, no que pessoalmente
me diz respeito, tenha ficado uma das mais gratas recordações
do liceu.
Abril 18, 2004
Três poemas de Armando Cortes-Rodrigues
Podia publicar alguns poemas de ACR/Violante de Cysneiros, no Orpheu.
Mas estes dizem-me mais e retratam-no melhor, do tempo em que em que,
eu muito menino, ele me contava histórias em casa do meu avô.
- I -
E deitei mão do arado. Fui-me à vida!
A terra, palmo a palmo, arroteei,
E a semente que, pródigo, espalhei,
Mais fresca despontou e mais garrida.
Pobres aves do céu, vinde e comei!
A mesa é posta, olhai que bem convida.
Tanta fartura seja repartida
Convosco, irmãs, segundo é justa lei.
(Antologia de Poemas, 1956)
- II -
Naquela paz da tarde adormecida,
Já quando o céu se funde com a serra
Logo ressurge incerto e cresce e erra
Todo o mistério intérmino da vida.
Que força de silêncio desmedida
Em seu pensar recôndito se encerra?!
Dos lábios toda a fala se desterra,
Cala-se a natureza recolhida.
Palavras não as há. Anda no ar
Esta prece que vai da serra ao mar
E vai dos altos ramos à raiz.
Que palavras dirão seu pensamento,
Se o nosso mais perfeito sentimento
É sempre o que se sente e não se diz?!
- III -
E quando as sombras surgem à tardinha
Pelos cantos do lar e a casa inteira
Tem um ar de mistério, na maneira
De alguma aparição que se avizinha;
Quando se fecha a porta hospitaleira
E se peneira a luz, como farinha,
Tão alva, tão diáfana e fraquinha
Que vagamente as coisas empoeira;
É quando, em lar de pobres, a candeia
- Mãos de luz a chamarem para a ceia -
Na modorra das brasas é acesa
E as sombras não se vão à revelia
Antes juntas em nossa companhia,
Ficam bailando em derredor da mesa.
(Cântico das Fontes, 1943)
Armando Cortes-Rodrigues
O meu leitor AVC, comentando a minha entrada sobre os nossos professores
de matemática, sugere-me que fale também do Dr. Armando
Cortes-Rodrigues (ACR), nosso professor de francês e espantosa
personagem. Como ele dizia, nasceu para ser poeta, em redondilha maior
bem medida: "Armando Cortes-Rodrigues / de Vila Franca do Campo".
E foi-o, toda a vida, embora só inicialmente com destaque nacional,
quando foi membro do Orpheu, publicando com o pseudónimo de Violante
de Cysneiros. É também muito conhecida a sua correspondência
com Fernando Pessoa. Alguns anos depois, estabelecido como professor
em Ponta Delgada, afastou-se do modernismo e cultivou ao longo da vida,
embora com fases distintas e características, uma poesia "simples" (que
me perdoem os especialistas; um dia, a propósito de Cesário,
tenho agendado falar de "arte simples"), ecologista avant la
lettre, um popularismo não populista, e um panteísmo poético
com um certo espírito franciscano, que ele aliás referia
com frequência. ACR dizia de si ter um temperamento religioso herdado
da sua ascendência irlandesa, mas também confessava a sua
grande sensualidade. Mas deixemos o ACR poeta. Talvez amanhã publique
um ou dois dos seus poemas.
Gerações e gerações passaram pelo ACR professor
e dele receberam um excelente ensino de francês mas, também,
a experiência de episódios inesquecíveis. Temperamental,
fantasioso, com um humor imenso mas também igualmente irascível,
gravou na minha memória recordações incríveis.
Tinha grandes flutuações de disposição, com
sinais paradoxais. Quando estava bem humorado, ia para as aulas batendo
bem com os pés no chão, gritando pelo contínuo e
dando um grande berro para nos sentarmos. Se mal o ouvíamos chegar
e entrava na aula com um sorriso de orelha a orelha, já se sabia
que o caldo estava entornado e podia chegar a tabefe geral. Nestes casos,
as aulas eram boas, porque ele não descurava o ensino, mas nada
chegava às aulas dos dias bons. Começava logo por gastar
boa parte do intervalo prévio a escrever no quadro a matéria.
Mas não só; como os meus antigos colegas se lembram bem,
era uma maluqueira, porque o quadro ficava também todo cheio de
flores, anjos, sei lá que mais e, obrigatoriamente, um grande
gato.
Um bom exemplo da sua imprevisibilidade, de que o PSL e todos os nossos
colegas de turma certamente se lembram, vem do facto de este meu amigo
usar habitualmente um fato de bombazina (a propósito, ACR mandava
sempre fazer para si fatos de estamenha rústica regional, que
hoje provavelmente já não se tece). Mas voltemos ao fato
de bombazina do PSL, que fazia sempre com que ACR dissesse: "o menino
da pele de diabo que venha ao quadro". Chegou o carnaval e o pobre
do PSL achou que o Dr. ACR devia apreciar muito, ao entrar na aula, vê-lo
com uma máscara de diabo. Acho que nunca mais vi uma tal bofetada!
São tantas dele, mas agora recordo uma habitual, quando estava
bem disposto. Sentava-se à secretária, silencioso, olhava
muito para nós e, depois dizia: "chefe de turma, vá chamar
o Sr. Manuel para trazer o livro de turma". Depois de mais um religioso
minuto de silêncio, "número 1, vá chamar o chefe
de turma que foi chamar o Sr. Manuel para trazer o livro de ponto".
Outro minuto e "número 2, vá chamar o número
1 que foi chamar o chefe de turma que foi chamar o Sr. Manuel para trazer
o livro de ponto", e por aí fora. Mas ai de quem se risse.
Torcíamo-nos como com cólicas, mas um risito que fosse
valia bofetão.
Mas não posso deixar de contar a minha história da primeira
aula de liceu com ele, tinha eu nove anos. É que a minha relação
com o Dr. ACR vinha muito de trás. O seu maior amigo, e vice-versa,
era o meu avô José da Costa. Partilhavam serem ambos poetas,
dominando a escrita sonetista, ambos latinistas, com grande cultura humanística.
ACR mandava-lhe sempre os poemas para critica, mas dizendo sempre: "mas
olha, José, que se me criticas por a tónica não
estar na sílaba certa ou por qualquer erro de gramática,
nunca mais te falo!". Tenho guardada religiosamente, para editar
um dia, a imensa correspondência entre os dois, quase toda escrita
num magnífico latim macarrónico (sabem o que é?
já leram o Palito Métrico?), desde coisas sérias
até simples combinações de grandes patuscadas, com
o seu comum amigo e grande cozinheiro, o Prof. Teotónio, de Vila
Franca. Eram homens abadianos, em que a cabeça, o coração
e o estômago estavam em feliz equilíbrio. Creio que herdei
isso do meu avô.
Mas isto vinha de eu ter falado da minha primeira aula. Habituadíssimo
a essa impagável figura, sempre muito carinhoso comigo desde que
me conheço, lá me sentei todo ufano na carteira. Começou
logo a aula por me chamar à secretária, ficou a olhar-me
interminavelmente, acabou por pôr um pé em cima da secretária
e disse-me, com voz cava e séria e com palavras que ainda hoje
juro que são textuais, tanto me marcaram: "Menino Costinha,
veja esta bota. Se o menino não se portar bem, esta bota dá-lhe
um tal pontapé no cu que o menino voa até casa do seu avô para
lhe ir fazer queixinha!".
Meu querido Dr. Armando, quase avô, deves estar hoje com o teu
amado S. Francisco, falando de ribeiros mansos, pássaros e flores,
bebendo uma gotinha à saúde do Padre Eterno. E provavelmente
junto daquele burrinho do postal que me ofereceste num dia de anos, em
que estás a conversar bem risonho com o burro do presépio.
Abril 26, 2004
Os azuis açorianos e "um pouco mais de azul"
Esta entrada é dedicada à minha amiga um-pouco-mais-de-azul,
com quem, entre outras coisas, partilho o gosto muito especial pela cor,
mesmo na coisas triviais, os casacos, as camisas, as camisolas, as gravatas
que raramente uso, e até, como se vê, o blogue e as minhas
páginas. Estava a trabalhar na preparação de uma
palestra que vou fazer em Ponta Delgada, sobre a articulação
entre a educação universitária e a formação
profissional (educação recorrente, aprendizagem ao longo
da vida, etc., um tema hoje interessantíssimo), quando me veio à ideia
o azul micaelense e que a "1poucomais" merecia um desvio para
este devaneio.
"1poucomais", combine com a sua belíssima filha (a
propósito, guardo no meu Mac o seu belo retrato mas não
sei como ela se chama) uma ida à minha terra para verem azuis
como nunca viram: o do mar e o do céu. Eles não esgotam
a belíssima paleta de cores açorianas, que vive principalmente
de todos os imagináveis verdes da paisagem, com os azuis e rosas
das hortênsias e os rosados-lilás ou mesmo púrpura
das azáleas, bem como do contraste do alvadio da cal e do cinzento
quase negro do basalto. Mas acho que uma pessoa de boa sensibilidade
cromática precisa de ver os meus azuis de infância, os que
provavelmente notou Gaspar Frutuoso, certamente Antero. Vou levar comigo
a minha câmara digital para fazer só esta experiência:
fotografar céu e mar, fotografá-los aqui na minha linha
do Estoril e publicar essa experiência. É uma entrada neste
blogue, na próxima semana.
E não falo só como amador diletante. Lembro-me muito bem
de, sendo eu miúdo, ouvir o meu conterrâneo e amigo, bastante
mais velho e já estudante de Belas Artes, José Nuno Câmara
Pereira, me chamar a atenção, em relação
a umas aguarelas suas de marinas, para essa evidente diferença
de azuis. Isto também é insularidade.
Ainda uma nota pessoal. Sou muito sensível às cores e à visão,
em geral. Na juventude, tive alguns devaneios de desenho e pintura. Além
disto, creio que esta minha sensibilidade á luminosidade e à cor
tem alguma coisa a ver com o facto de o meu avô, de quem já tenho
falado, "intelectual" de primeira gema, ter morrido quase cego
e eu ter vivido o seu sofrimento (valia-lhe uma memória espantosa,
porque, professor de latim, sabia de cor a Eneida, as odes de Virgílio,
as Catilinárias e todos os outros clássicos latinos). Vou
transmitir, acerca disto, uma experiência pessoal de cinéfilo,
desde os tempos de jovem cineclubista. Tenho a colecção
completa dos filmes de um dos meus expoentes, Visconti. Agora que já os
vi uma meia dúzia de vezes, ponho-os a passar sem som, só para
ver a construção dos planos, a encenação,
a luz e, principalmente, o genial tratamento da cor, dos pérolas
intimistas aos vermelhos dos salões. Mas também o mesmo
com Coppola e o seu genial tratamento dos ocres ou da paleta entre os
amarelos e os castanhos (Cotton Club e o Padrinho III).
Maio 02, 2004
Um grande hotel de charme em S. Miguel
Os Açores estão em fase de "boom" turístico,
a meu ver muito bem gerido no sentido do turismo de qualidade (sem prejuízo
de acções específicas para jovens atraídos
pela natureza, pela pesca submarina oi pela observação
das baleias). O turismo está a ser dominado por um turismo diversificado
de verão, mas principalmente por um turismo de todo o ano, de
qualidade, de três voos semanais, com escandinavos ricos e de meia
idade, com exigências culturais e de qualidade. A cada vez que
vou lá, de meses a meses, vejo em Ponta Delgada novos hotéis,
mas discretos e por vezes aproveitando as velhas casas aristocráticas.
Mas a tendência, inteiramente compreensível, é para
os hotéis convencionais de qualidade, tendo-se adoptado, em geral,
o padrão das quatro estrelas. É num desses hotéis,
de muito boa qualidade, que normalmente os meus hospedeiros me alojam.
Desta vez, resolvi outra coisa, para certo espanto do meu convidante.
Pedi-lhe para ficar no Hotel de S. Pedro, que não está na
moda. Os bons hotéis estavam cheios, principalmente com os escandinavos
ricos e de meia idade que hoje voam para S. Miguel, o de S. Pedro praticamente
vazio. É uma pena. Há de, facto, um desajuste. É que
foi entregue à gestão da escola de hotelaria, funcionando
com base nos seus alunos, muito esforçados mas, obviamente, ainda
inexperientes. É um problema que eu creio que tem que ser resolvido,
porque o Hotel de S. Pedro é um instrumento turístico demasiadamente
valioso, como magnífico "hotel de charme" que é.
Um hotel destes é uma mais-valia para o turismo da região
e não pode ser, ao mesmo tempo, um hotel escola. Precisa de uma
exploração de alta competência, especialmente na
cozinha. Julgo que era caso a pensar o Governo Regional adquiri-lo e
concessionar a sua exploração a uma empresa de alta qualidade
de hotelaria.
Para mim tem também um encanto muito especial porque acompanhei
quase diariamente a sua construção, acompanhando o meu
pai que dela estava encarregado, por "requisição" à empresa
feita por Vasco Bensaúde. Sendo ele e o meu pai dois perfeccionistas
de gosto esmerado, juntaram-se a fome e a vontade de comer, para se fazer
um hotel com pormenores de tal requinte que muitos turistas nem se aperceberão.
O Carlos Afonso é que, por via do seu avô, um dos administradores
do que era a maior fortuna portuguesa, provavelmente conhecerá histórias
engraçadas dessa personagem interessantíssima que foi Vasco
Bensaúde.
O hotel foi reconstruído e restaurado com grande fidelidade a
partir do que restava, ainda muito, da casa de 1812 do primeiro cônsul
americano nos Açores, Thomas Hickling, uma casa magnífica
que, como convinha a um cônsul interessado na navegação,
se debruça para o mar e o porto. O que torna única esta
reconstrução é o rigor e riqueza com que foi feita,
respeitando integralmente o estilo da época, o chamado georgiano
colonial (americano). Todo o mobiliário, até o dos quartos
mais simples, é em mogno americano e desenhado pelo meu pai por
cópia à vista de móveis de museu da Nova Inglaterra
ou de muitos livros sobre mansões coloniais adquiridos por Vasco
Bensaúde. Os puxadores das gavetas são em marfim e os ornatos
dos tampos das escrivaninhas são em legítima folha de ouro.
A chamada suite presidencial, onde fiquei, é uma maravilha de
mobiliário e de decoração, com os seus frisos pintados
a fresco e com o brasão dos Hickling pintado na parede atrás
da cama. A saleta anexa, dominada pela lareira e por um magnífico
sofá-cama de tom império, é uma joia da elegância
decorativa anglo-americana. A pequena biblioteca é toda de edições
genuínas de literatura americana da primeira metade do sec. XIX.
Mas destaco o bar, que sempre fez a maravilha da minha infância. É a
cópia fiel de uma taberna da Nova Inglaterra dos princípios
de 800, com a suas cadeiras típicas que vemos em alguns filmes
americanos, com o balcão e os tampos das mesas em cobre batido.
O requinte foi ao ponto de as portas, rústicas, em carvalho americano,
serem da época, bem como as tábuas do chão e as
traves do tecto, compradas de uma velha taberna americana na altura já em
ruínas. Quando entro nele, estou sempre à espera de me
encontrar com o capitão Ahab ou com o Ishmael.
Ainda um outro pormenor. A dúzia de arcos da entrada e do jardim
tinha originalmente pedras de fecho com as clássicas caraças.
Vasco Bensaúde não podia ficar por simplificações
e encomendou-as por bom preço a um escultor reputado. E, com todo
este requinte, que deliciava o técnico, meu pai, que tinha o mesmo
gosto de Vasco Bensaúde (mas não a fortuna!), há uma
história espantosa. É que o hotel esteve fechado muitos
anos após a sua construção, por ofensa de Vasco
Bensaúde depois de ele ter sido classificado como hotel de duas
estrelas! E lei era lei: nem todos os quartos tinham casa de banho. Lembro-me
de grandes discussões entre ele e o meu pai, mas ele insistia
que, em jovem, tinha ficado nos melhores hotéis londrinos ou parisienses
e vestia o roupão para ir tomar banho ao fundo do corredor!
E, no fim disto tudo, sabem quanto paga um casal para ficar na tal magnífica
suite "presidencial"? 160 euros. Mas já num quarto normal,
mas com todo esse mesmo ambiente, 107 euros!
Cozinha tradicional micaelense
Quando vou a S. Miguel, entre tantas coisas que me agradam ou que evocam
memórias felizes, não podia deixar de notar, realisticamente,
uma ou outra nota negativa. Uma das mais flagrantes, é a pobreza
da oferta de genuína comida regional pelos restaurantes de Ponta
Delgada. Ainda hoje voltarei a isto, mas agora, que já se faz
tarde para voltar a esta escrita, aproveito um texto já escrito,
sobre um exemplo de culinária praticamente perdida. Falo das favas
de taberna, um magnífico petisco que julgo que caiu em desuso,
com aconteceu há muitas décadas com a sua versão
continental. A causa é o desaparecimento das antigas tabernas
(aquelas onde eu tinha medo de passar à porta, em criança,
porque nunca se sabia que eflúvios indescritíveis nos podiam
ser lançados de lá de dentro). Era um prato típico
de taberna, a puxar pelo vinho. Normalmente, não se fazia em casa.
Toda a minha família era fâ destas favas e o meu pai comprava-as
frequentemente, quase às toneladas - que eu e os meus irmãos éramos
comilões de enfarta-brutos, com a companhia indispensável
do José Vasconcelos Nunes, quase um irmão, numa tasca já desaparecida,
a Montanha, que era famosa por estas favas. Faço-as hoje com sabor
que, se não me engano, é mesmo o da minha infância.
1/2 kg de favas secas, 4 cs de banha, 1 cabeça e 2 dentes de
alho, 2 cebolas, 1 folha de louro, 2 cs de massa de malagueta, sal, 1
c. chá de açaflor, 1-2 cs de "temperos".
Pôr as favas secas de molho, de um dia para o outro. Cortar a "unha" e
dar um talho em cada fava, junto ao topo. Cozer em água, o suficiente
para cobrir as favas, com a banha, a cabeça de alhos, o louro
e sal. Guardar a água da cozedura. Refogar no resto da banha as
cebolas picadas e os dentes de alho, também picados. Juntar as
favas, a massa de malagueta, a açaflor e os temperos e mexer bem.
Acrescentar só um pouco da água da cozedura das favas (pode-se
esmagar algumas favas, para engrossar), para molho consistente e pouco
abundante. Ferver durante um ou dois minutos. Come-se com bastante pão
a rapar o molho e, localmente, com vinho de cheiro, sugerindo, aqui no
continente, um verde tinto ou um vinho tinto encorpado e forte, como
um baga da Bairrada.
Os temperos, ou "todolos tamparos", vendiam-se já preparados
nos armazéns de víveres já desaparecidos (Pereira
e Pereira, Benjamim Leandro, Domingos Dias Machado, os que nos levavam
a casa, em carroça de mão, as compras do mês, lembram-se?).
Talvez já muitos micaelenses não os saibam fazer e não
os vejo à venda. Segundo informação quase secreta
de um antigo fabricante, são uma mistura moída de 100 g
de colorau, 100 g de erva doce, 20 g ou uma cs de canela, 5 g ou uns
20 grãos de pimenta preta, 5 g ou 15-20 cravinhos e 5 g ou uma
c. chá de cominhos. Ouço dizer que, na cozinha popular
açoriana, há muito quem os substitua só por açaflor,
também dita açafroa. É um erro. A cozinha micaelense
típica é feita com ambos, não com um a substituir
o outro! E até porque uma das especificidades da nossa cozinha,
para além da malagueta, é claro, é o uso rico mas
equilibrado das especiarias.
Para os que me estão a ler no continente, nada feito: têm
que pedir a um amigo turista que vos traga de lá estes dois condimentos
não encontráveis cá: a malagueta e a açaflor.
Esta receita é um exemplo do capítulo de cozinha das ilhas
do meu livro que, entre uma tarefa e outra, está quase acabado, "O
gosto de bem comer". É um capítulo quase simbólico,
a mostrar uma selecção de receitas de várias ilhas
com qualidade genuína, combinando a maneira familiar de as executar,
com muito boa qualidade e exigência, e alguma investigação
no local. Incluo também um outro capítulo com exemplos
da herança culinária muito rica da família da minha
avó materna, exemplo dos usos da pequena aristocracia rural praiense.
O essencial do livro, muitas dezenas de receitas, de sopas e entradas
a peixes e carnes, terminando nas sobremesas, são uma selecção
das centenas de receitas que criei ao longo destes anos, precursor (modéstia à parte)
do compromisso que hoje faz regra na nossa melhor restauração
entre a alta cozinha e os gostos tradicionais, designadamente os açorianos.
Há algum capitalista interessado em ser meu sócio para
um bom restaurante açoriano?...
Maio 07, 2004
As memórias e a ficção
Um açoriano meu amigo, que conhece algumas das minhas histórias
e que tem delas outras versões, criticou-me por achar nelas frequentes
inverdades. Podia discutir isto pessoalmente com ele, mas creio que o
tema pode ter interesse geral. A questão é a da absoluta
veracidade das histórias que contamos. Ora "quem conta um
conto acrescenta um ponto". Eu não estou a escrever memórias.
As memórias de pessoas com um papel na história são
feitas de recordações que têm que ser fidedignas
e documentadas, porque são instrumentos de análise histórica.
O que eu faço é dar testemunho de episódios e personagens
que me marcaram e às vezes, com isto, mostrar como mudaram, em
décadas, os hábitos de comunicabilidade. Mas, quanto mais
para trás, naturalmente mais esfumado é esse testemunho.
Histórias de menino são inevitavelmente difusas. Fica-nos
um fundo de muito riso que elas despertavam nos serões de família,
mas que se vai misturando, ao longo do tempo, com alguma efabulação
a compensar a degenerescência da memória. A meu ver, o que
interessa é a graça da "estória" e o espírito
da época que ela pode simbolizar. Mesmo quando refiro uma personagem
real, o que me interessa é dar dela um retrato psicológico
característico, para o que uma ou outra inexactidão factual
pouco conta. Se um pintor me retratar com uma gravata azul em vez daquela
que eu tinha posto, que mal faz isso? Desde, claro, que não me
ponha uma gravata com o rato Mickey!
Não acredito que a vasta colecção de tipos e histórias
na literatura regionalista sejam todas absolutamente verídicas.
Serão verdadeiras todas as histórias do tio Matesinho que
Nemésio conta? Ou as muitas recordações do Pico
da Pedra de Cristóvão de Aguiar? Tomaz Vieira, pintor açoriano
de aqui já falei, escreveu uma deliciosa novela, "Herdar
Estrelas", cheia de evocações da nossa Rua do Saco.
Algumas das "estórias" que conta não correspondem
exactamente às minhas recordações, mas o que interessa é que é mesmo
a minha Rua do Saco. Estou-me nas tintas para a exactidão, estou
a ler ficção, não história. O que tem que
ser genuína é a "paisagem" cultural, social e
etnológica.
Somos todos heteróclitos. Dá-me tanto prazer escrever
reflexões que julgo importantes sobre um assunto tão sério
como é a educação, como divagar por coisas menores,
como essas "estórias", normalmente nos dias mais relaxados
de fim de semana, nesses dias de açorianices. Eça também
não teve rebuços em escrever romances de cordel e foram
alguma da sua melhor literatura. Se me quisesse apresentar como pessoa
sisuda, bem instalada na idade e na obra feita, penso que também
tinha material biográfico para isso. Mas não sou assim
e provavelmente me sentiria limitado se o fosse.
Como já escrevi, referindo o Big Fish, as nossas histórias
acabam por ser nós próprios. Contá-las é uma
forma de auto-retrato, mais modesto e menos pretensioso do que falar
dos feitos e características pessoais, mas mesmo assim elucidativo
de parte das muitas coisas que foram fazendo a nossa personalidade. É também
uma homenagem, como quando falo do meu avô José da Costa,
com orgulho, confesso, mas não com vaidade pateta de pergaminhos
passados e ultrapassados, que não os tinha, ele que era de genuína
cepa popular. Falo dele, apenas, e é muito, com a gratidão
com que aqui tenho falado de outros escultores de mim próprio.
E ainda muito em especial, no caso do meu avô, a provável
herança de alguns genes...
Estive só a falar de mim, o que não é muito elegante.
Mas os auto-retratos são uma presença constante em muitos
séculos de pintura. E, com o sentido que temos de deixar viva
a nossa memória, os anos que passam vão-me fazendo compreender
melhor a compulsão de Rembrandt em se auto-retratar no envelhecimento.
Maio 09, 2004
As comédias micaelenses
Sempre me encantou o teatro popular, desde os autos da Paixão
de várias partes do interior de Portugal até ao delicioso
Tchiloli santomense, que os turistas que lá vão não
deveriam perder. Mas, pela sua relação especial com a minha
identidade de ilhéu, acima de tudo as comédias micaelenses
e as terceirenses. O nome é comum mas são muito diferentes.
As micaelenses são sérias e sobre temas históricos
(Inês de Castro, Carlos Magno, João de Calais, D. Dinis
e a Rainha Santa), enquanto que as terceirenses são de carnaval
e satíricas. Mas também as de S. Miguel incluíam, à parte,
esse componente satírico, Segundo conta Luís Bernardo Leite
Ataíde, um notável etnógrafo micaelense da primeira
metade do sec. XX, a comédia compunha-se de três partes:
primeiro, uma apresentação por um pajem, e, no fim, o auto
propriamente dito. Mas, entre ambos, um entremez de três narradores,
o guia e o reclamo, fidalgos vistosos e bem engalanados, com o velho
representando o povo, que narram os acontecimentos marcantes do ano,
de ponta a ponta da ilha, tudo com "aprouvelas" (piadas a pessoas)
pesadas de chumbo.
Armava-se na praça da freguesia um simples tabuado sobre barris
de vinho. Os actores eram exclusivamente homens. Que delicia ouvir um
camponês barbudo e façanhudo, de perna peluda, com uma cabeleira
de estopa, a descrever-se como "sã tã belas, tã fermosas
/ as flores que Dês criou, / mas fermosa com'ei sou / nim lo sã as
próprias rosas, / sã minhas feiçães mimosas
/ e mês lábios de carmim."
Ainda assisti a uma ou outra comédia, de grupos das freguesias "de
fora da cidade" (uma expressão tipicamente açoriana)
que se vinham exibir numa esplanada já desaparecida do parque
municipal, para mim sempre o Jardim António Borges. Não
sei nenhuma de cor, mas transcrevo algumas passagens soltas que ficaram
no meu anedotário (claro que vai tudo escrito de modo a sugerir
a pronúncia).
A princesa que se ia casar num pais distante (a infanta D. Leonor, casada
com Valdemar III da Dinamarca? Ou, posteriormente, D. Isabel, mulher
de Filipe o Bom da Borgonha?) tardava-se, chorosa, em despedidas às
açafatas, quando um aio a apressa: Prancesa, minha prancesa /
ide-vos já aprontar, / que vã aí o retratêro
/ que vos vai a retratar. Já em viagem, a "prancesa" vai
num pequeno barco em cima de uma carroça de mão, que um
figurante agita, dizendo aganta-te, prancesa / co mar tá rebolvo.
Célebre também é a de Inês de Castro. Vão
dar a notícia a D. Pedro: Sinhô, matarim dona Inaz! D. Pedro
faz um grande gesto dramático e pergunta In, Jasus, quim la matou?,
ao que o outro responde Mê sinhô, fou o Pachâço!
Outra, deliciosa, é a da princesa que queria acompanhar o rei à guerra,
do que o rei a tentava dissuadir. - Filha tendes uns pêtos muim
grandes / filha, conhecer-vos vã / - Vanham fitas e espartilhos
/ qu'eles apretá-se-ão / - Filha, tendes cabâlos
muim longos / filha, conhecer-vos vã / - Vanham pentes e tasouras,
/ cas guedelhas vã pró chão.
Ainda da Inês de Castro, um excerto da recolha feita por Luís
Bernardo Ataíde. Trata-se da coroação em morta de
D. Inês. Como vêem, trata-se de uma memória popular
de séculos de um episódio das crónicas históricas.
Não tenho agora à mão o meu querido Fernão
Lopes, mas estou quase certo de que o refere. Com esta crôa de
Fés / crôo tê corpo belíssime / porque merecedora és
/ croada estás nos Cés / à derêta do Altíssime.
/ Ai Inaz pomba gelóda, / sim rezã amortecida, / de rainha
estás croóda, / assim fostes respeithóda / más
na morte que na vida. / Mês vassalos de valia / que sempre Inaz
respeitharim, / por honra e ousadia, / beijim aquela mã fria,
/ já quim vida a nã beijarim. (Nota: o th representa aqui
um típico t molhado, como se fosse um t seguido de um quase inaudível
ch. Veja-se também a troca de á por ó, como se usa
no Algarve, em Lagos/Lógos).
E, também dessa recolha, uma outra de tom bem diferente de uma
donzela (de voz bem masculina!), que responde ao trovador apaixonado:
Mete medo esse falór, / istou toda num tremor, / assocegai trovador,
/ que ningãe vã pretrovór / este nosso bãe
amor, / por vós ando imbeiçóda, / bãe sabês
a crueldóde / qu'a mê pá tanho sofrido, / sempre
firme a ti, mê qu'rido, / nesta torre aferrolhóda.
Finalmente, uma a que nunca assisti, mas que o meu pai me contava e
que julgo ter entrado no anedotário regional. Um actor tinha que
destruir um documento régio, queimando-o para um balde. Mas os
fósforos estavam húmidos e ele teve que resolver o assunto
rasgando o papel e deitando-o para o balde. O que veio a seguir teve
que improvisar e recitar "Chêra-m'aqui a papel rasgódo!"
Enfim, como escreve com certo arrebato Luís Bernardo Ataíde, é "a
linguagem [do tempo] de Frei Gonçalo Velho, (…) a voz sagrada
do povo português". E, por isto, desculpem-me a petulância:
eu sinto-me genuinamente português porque, com a herança
de quinhentos, me sinto genuinamente açoriano.
PS - Para os que ainda se interessam por estas curiosidades que fazem
a nossa identidade de açorianos, deixo aqui a referência
bibliográfica. A última edição que conheço
e que consegui adquirir facilmente (mas já há uns vinte
anos) por encomenda à Universidade de Coimbra é: Ataíde,
L. B. L. "Etnografia, arte e vida antiga dos Açores".
Ed. Biblioteca Geral da U. Coimbra, 1974.
Maio 16, 2004
O meu primo Jacob e a família Pontiagudo
Desta vez, a açorianice ligeira de domingo leva-me para o meu
lado materno, terceirense. É uma longa crónica, porque
uma lembrança puxa outra, mas domingo é dia em que se pode
perder algum tempo com uma boa história. Também porque
me dá algum gozo, confesso, escrever liberto das normas da escrita
profissional ou dos assuntos ditos sérios. O mal é que
me solto sem fim à vista, mas faltando-me o engenho e a arte.
Mas, escrevendo num blogue, ninguém me toma por escritor; tenho
o gozo da escrita e da invenção, sem pagar o preço
da critica.
Vou contar "histórias" ou "estórias"?
Ficção ou realidade? Só no fim é que saberei,
ou talvez nunca saiba, porque vou escrever na zona de penumbra em que
a memória se mistura com a fantasia. Será que o meu primo
Jacob é uma invenção que criei ao longo dos anos,
juntando uma e outra história? Mas, se me disserem que o meu primo
Jacob, como o descrevo, nunca existiu, fico com muita pena. Também
não me venham dizer que, se calhar, o tio Matesinho de Nemésio
nunca existiu. Se não existiu, foi erro do Criador, não
de Nemésio. Não me peçam certidão de que
tudo o que vou contar é verdade. Eu tenho para mim que mais importante
do que "si no e vero" é que seja "e bene trovato".
O meu primo Jacob foi uma personagem espantosa da minha meninice, que
misturava uma grande seriedade no que era sério, ele que não
brincava nos negócios, com um sentido de humor levado aos limites.
Jacob era primo-irmão da minha mãe, mas como se fosse verdadeiro
irmão, criados em casas pegadas e não tendo irmãos
a minha mãe. O nome que lhe dou recorda a nossa costela judaica,
como explico a seguir. Foi uma das personagens mais engraçadas
que conheci e, ao mesmo tempo, das mais ricas em amizade e generosidade.
Era um homem de vida folgada, o que lhe permitia algum tempo de lazer
para visitar os muitos amigos, ele que tinha um sentido profundo da amizade
e que tudo fazia para ajudar um amigo, e tempo também para inventar
as brincadeiras mais imaginativas. Disse que ele era homem de vida folgada,
numa grande família de primos muito chegados que cultivou mais
a actividade intelectual e profissional do que os negócios. Mas
talvez que todos os genes Bensabat, de um trisavô meu judeu sefardita
e negociante internacional próspero, no ciclo açoriano
da laranja, se tenham concentrado no meu primo Jacob, não só no
grande jeito para os negócios mas também num fácies
tipicamente semítico. A mim, esses genes não chegaram,
que nem sei comprar uma acção na bolsa e irrito a minha "gestora
de conta" pelo meu grande desprendimento com os investimentos. Sempre
ouvi dizer à minha mãe que ele, miúdo de calção
e bastante cábula (os seus dois irmãos foram conhecidos
professores universitários, ele ficou pelo liceu) passava os intervalos
das aulas acompanhado de um criado que carregava uma grande mala com
cadernos, lápis e borrachas, com que ele fazia negócio
rendoso com os colegas.
As histórias que tenho dele dariam uma novela inteira. Depois
vou à que quero contar, mas agora lembrei-me de uma que define
bem a sua extravagância cheia de humor. Ele era provavelmente o
maior amigo do meu pai, seu primo afim, a quem ele tratava sempre, por
ser padrinho do meu irmão mais novo, como "compadre de um
anjo". O meu pai só ficava muito incomodado com os beijos
que o compadre lhe dava em público, claro que por provocação.
Jacob foi sempre um padrinho devotadíssimo do meu irmão
e dizia que uma das suas grandes festas tinha sido o "casamento" do
meu irmão, por volta dos dez anos. Ninguém o convencia
a dizer que tinha sido a festa da primeira comunhão. Uma vez,
foi durante alguns dias à Terceira, em viagem de liceu, o meu
primo Z, do meu lado paterno, que era louríssimo e de olhos azuis.
O meu primo Jacob, por amizade com o meu pai, tomou-o à sua conta,
mas para azar do meu primo. É que o primo Jacob inventou e espalhou
por Angra que aquele rapaz era o filho de um oficial alemão morto
na guerra, mas que, antes, ele tinha conhecido em Lisboa. O Z passou
a ser o Hitler Hans (raio de nome!). Foi convidado para as boas casas,
o primo Jacob relacionou-o com todas as meninas "bem" de Angra,
mas o pobre do meu primo Z passou esses dias de boca bem fechada, porque
não sabia uma palavra de alemão e não se podia trair
falando em português.
Por falar de férias em Angra, ainda vai outra recordação,
mas descansem que não me esqueço da história principal.
Ao concluir o meu primeiro ciclo de liceu com muita satisfação
dos meus pais (foi o primeiro ano em que houve dispensa de exame), eles
puseram-me à escolha um prémio: ou um relógio (o
que era um luxo na época, para um miúdo de 11 anos) ou
uma viagem à Terceira. Não hesitei um segundo em favor
da segunda, eu que era doido pelo primo Jacob. No dia da chegada a Angra,
estávamos juntos numa pastelaria e ele reparou que eu não
usava relógio. Ingenuamente, contei-lhe a história do prémio
paternal. Ele foi imediatamente a uma relojoaria ao lado e ofereceu-me
um belo relógio. A sua amizade para connosco era assim. Mas com
muita extravagância pelo meio. Com frequência, telefonava à minha
mãe de véspera a saber o que era o almoço em nossa
casa, em Ponta Delgada. Se lhe agradava, ia de propósito de Angra
a Ponta Delgada para almoçar connosco, passando a noite num dos "Carvalhinhos",
o Cedros ou o Arnel (não ia de avião porque tinha muito
medo!). Mas também era a maneira de se alimentar convenientemente,
porque em casa, em Angra, pouco mais comia do que chá e torradas.
Estas idas ao nosso almoço também tinham história.
Frequentemente, ele punha como condição à minha
mãe que fizesse calhaus, a coisa de que ele mais gostava na nossa
casa. Era simplesmente uma salada russa com atum e maionese, mas servida
em cascas de ostra. Para ele era uma delicia, mas para grande ofensa
da sua mulher, que sabia que, em casa, ele era incapaz de comer a "porcaria" da
maionese de atum servida no prato! A sopa, nestes almoços, era
também um momento especial sempre esperado por mim e pelos meus
irmãos. Fazia-lhe muito mal, já tinha estado à morte
por causa de uma sopa? Íamos para a mesa e, enquanto ele despachava
o prato de sopa no meio de uma tagarelice engraçadíssima,
nós os três miúdos, em silêncio, trocávamos
olhares cúmplices. No fim da sopa, um de nós fazia a pergunta
que ele já esperava: "Primo Jacob, reparou que comeu sopa?" Era
um espectáculo! Caía da cadeira, tinha convulsões,
dizia disparates, sei lá que mais. Era um enorme talento para
divertir crianças, ele que bem deve ter lamentado não ter
tido filhos.
Mas vamos lá à história que queria contar. Começo
por dizer que ela só faz sentido porque este meu primo tinha um
círculo de grandes amizades que incluía toda a melhor sociedade
de Angra, embora ele não fosse nada de farroncas familiares. Costumava
dizer que era sócio do clube aristocrático de Angra, o
Ténis Club, onde nunca punha os pés, só porque não
podia admitir que houvesse um lugar em que ele não pudesse entrar.
Ora, uma vez, ele regressou a Angra, depois de uma das suas habituais
viagens a Lisboa, fascinado com o conhecimento muito estreito que tinha
travado com uma família de Lisboa, que lhe tinha sido especialmente
recomendada porque iria brevemente para Angra. O marido era o coronel
Pontiagudo e a esposa, a Sra. D. Abenz Vitória (mas que nome!)
era uma senhora das melhores famílias já não sei
de que região do continente. Tinham dois filhos, em idade de liceu,
muito bem educados. Durante esta estadia do primo Jacob em Lisboa, longa
como costumavam ser, ele foi rodeado por essa família com as maiores
atenções e ficou a dever-lhes muitos favores. Coisa que
um açoriano que se preze nunca esquece e tem que retribuir principescamente.
E ele assim fez. Por tudo o que eram as suas muitas amizades, não
falava senão na família Pontiagudo, que começou
a ser o motivo de conversa das famílias da terra. Como sócio
do Ténis, propôs logo a admissão do coronel, votada
por unanimidade. Tratou da matrícula dos dois filhos no liceu
de Angra, o que, apesar de alguma falta de documentos, não foi
difícil, dada a sua influência social. E, principalmente,
organizou, para várias semanas após a chegada dos Pontiagudos,
um vasto programa social, para a sua integração na sociedade
angrense. Um programa da maior hospitalidade fidalga dos Açores!
Até ao dia da chegada do Carvalho Araújo que trazia o coronel
e a sua família. Muitos dos seus amigos estavam no cais, embora
estranhando a ausência do meu primo Jacob. Ele estava uns bons
metros acima, na esplanada do Pátio da Alfândega, gozando
que nem um perdido. É claro que nunca tinha havido qualquer família
Pontiagudo. Mas ele também tinha muito gozo em dar pistas, as
pessoas é que eram ingénuas: alguém acredita, logo á partida,
em pessoas chamadas de Pontiagudo ou de Abenz Vitória (esta então é uma
delicia!)?
Meu super-querido primo Jacob, grande figurão da minha meninice,
que já nos deixaste: vai fazendo estas partidas ao Padre Eterno,
que tem tendência para macambúzio, temperamental e colérico,
a ver se lhe amenizas o mau feitio e se não há mais terramotos
nas nossas ilhas.
PS - O meu agradecimento ao companheiro bloguista Nuno Guerreiro ("aka" Michael
Ben Yehoshua), do sempre interessante e instrutivo Rua da Judiaria, pelas
informações que me deu sobre os meus Bensabat sefarditas
de Marrocos. Fiquei a saber, por exemplo, que esse nome significa que
os meus antepassados eram exemplares respeitadores do Sábado judaico.
Eu é que, turista em Israel, não posso dizer que, embora
respeitando o preceito, não me tenha ressentido do rigor do Sábado,
desde logo por não poder usar o elevador do hotel.
Maio 23, 2004
Sebastião come tudo, come tudo sem colher
O Sebastião era o único preto de S. Miguel, na minha meninice.
Jovem não era, que preto que tinta, três vezes trinta. Pretos
lá tinha havido muitos, nos primeiros tempos do povoamento, mas
foram-se miscigenando, diluindo com o seu sangue o dos colonos com pergaminhos.
O mal é, ao fim de séculos e por capricho da genética,
aparecer um menino bem muito encarapinhado. O que os meus contemporâneos
não sabem é que as origens do Sebastião estão
bem documentadas pelo dr. Atanásio da Mota Frazão, num
número da Insulana que, por razões óbvias, nunca
foi publicado mas que eu possuo e de que agora me valho. Nasceu e criou-se
no Cazenga, um velho musseque de Luanda. A primeira nota que há sobre
ele foi o que lhe virou a vida. Brando mas orgulhoso, não tolerou
que um polícia lhe batesse e, com a força de que depois
falarei, ia-o matando. Escondeu-se e, noite funda, embarcou clandestino.
De navio em navio, fez vida de mar pelo norte da Europa, durante vários
anos, bebendo toda a variedade de cachaça que por esses mares
havia e ganhando uns dinheiros a contar umas versões, cada vez
mais estropiadas pela bebida e pela idade, de umas histórias da
rainha Ginga com que a avó Makeba lhe embalava o sono do musseque
abafado na escuridão. Um dia, creio que em Hamburgo, um marinheiro
dos Carregadores Açorianos falou-lhe de S. Miguel e ele cá veio
parar. Começou como treinador do Santa Clara, não era difícil,
qualquer miúdo da pelada luandense jogava melhor do que os futebolistas
micaelenses. Mas isto fica para outra história, a justificar a
carreira da filial local do Benfica. Sim, porque se o Sebastião
se tivesse esmerado, nenhum Ben David lhe tinha chegado aos calcanhares
- o Ben David foi do S. Clara ou já estou a trescrever? Mas tenho
que abrir parágrafo, senão os meus leitores ficam tontos.
Onde é que eu ia? Ah, falhada a sua carreira futebolística,
porque era difícil compatibilizar o domingo de jogo com o fim
de semana de bebedeira, Sebastião foi tropeçando na vida,
aqui numa pedra, ali num galho, uma ou outra vez nas grades da Calheta,
e já o conheci como engraxador. Mas, se mesmo um engraxador que
se preze tem brio profissional, Sebastião era a vergonha da classe.
Quando chegava a hora, fosse na relva de um jardim fosse mesmo na calçada
do Campo de S. Francisco, a sesta mandava. E, ou porque esquecia a caixa
de engraxador ou porque alguém por partida a escondia, lá ficava
desempregado o Sebastião, até que o Sr. Francisco da Zenite
o chamava, porque já era tradição entregarem-lhe
na loja a caixa de engraxador.
Em conversas que tive com ele, em roda de miúdos, ouvindo as
suas histórias de África, ficava por vezes transido. Não é que
ele tinha sido canibal, e bem exigente gastronomicamente? Carne de polícia
era detestável, sabia a podre. A de comerciante transmontano de
mato não era má, embora muito gorda. A melhor era a de
advogado, porque as falinhas mansas entranham-se na carne, sabem a ervas
perfumadas. Mas só hoje sei que isto eram histórias à Injun
Joe, para nos meter medo ou respeito, que isto de medo e respeito é uma
relação que tem muito que se lhe diga. Mas ele era uma
alma de criança, porque, entre essas histórias tenebrosas,
vinha sempre a dos bebés de Luanda, os mais lindos do mundo. E
tinha razão. Vinte anos depois, quando os vi e os tratei, apesar
das ramelas, do ranho e das barrigas de fome, vi que não há muita
coisa mais linda do que os grandes e doces olhos pretos de uma criança
africana.
Nós miúdos, troçávamos, andando atrás
dele a cantar "Sebastião come tudo, come tudo sem colher,
depois chega a casa, dá pancada na mulher". Ele sorria e, às
vezes, ainda puxava por nós. Lembro-me de um exemplo deste seu
carácter infantil. Ele era um nadador exímio e de grande
resistência, fazendo de uma penada os dez quilómetros de
Ponta Delgada à Lagoa e volta. Fazia uns dinheiros a exibir-se,
com os seus indizíveis anos, mergulhando do alto do velho farol
da doca, de uma altura de bem vinte metros. Ora, uma vez, com um mar
terrível, estava ele na doca e ouviu um grande choro de criança,
de uma miúda que tinha deixado cair à água a sua
boneca de estimação e que o mar muito agitado logo levou
para fora. Sebastião nem hesitou, atirou-se à água,
para espanto de todos nós, que ora o víamos á flor
de uma onda, logo o desvíamos na cava da vaga. Mas, chegado a
terra, teve o seu prémio dos deuses angolanos, juro, que bem me
lembro. A boneca estava linda, o vestido seco, o cabelo bem penteado
como se viesse da festa e olhava para ele com um grande sorriso, tão
grande e agradecido como o da menina sua mãe.
Mas, ó Sebastião, um homem não é de acúçar.
Daquela vez que o bruto carro alemão do pré-guerra, em
que iam as manas Rodrigues para o liceu, quase te atropelou? Na doçura
do feitio ou na dormência do álcool, faiscou-te um centro
nervoso, foi-se o impulso pela perna abaixo, armaram-se os músculos
de enorme força e "arreaste" (como se diz na minha terra)
um pontapé de pé descalço que espatifou a porta
do BMW. Ou os sinais de trânsito que tinhas a mania de dobrar quando
um polícia te aborrecia?
Mas não podia terminar sem o segredo especial que o Sebastião
me contou, o segredo da sua filha. Um pouco toldado, disse-me, lembro-me
como se fosse hoje: "Tu também vais ter uma palmeira de almas,
mas não vai ser bem palmeira, és mais moderno, vais ter
poste com fios, por isso tenho que te ensinar umas coisas". A sua
filhita Lianor tinha sido o seu grande tesouro, uma febre africana roubou-lha
em dois dias. Quando embarcou e até ter arribado a S. Miguel,
sempre a sorridente Lianor, numa nuvenzita invisível, o acarinhou,
lhe contou coisas infantis nas horas de tristeza, lhe recomendou cuidado
com a cachaça, que a avó Makeba não ia gostar. Em
S. Miguel, numa grande palmeira fronteira ao liceu, Lianor passou a pássaro.
Qual, o que havia de ser? Uma pomba branca. Eu nunca a vi, porque a minha
visão das almas só veio muito depois, mas julgo que às
vezes, enquanto o Sebastião ressonava de bêbedo deitado
no seu banco, me parecia ouvir um arrulho de repreensão vindo
lá do alto da palmeira. Ficam agora a saber porque ele passava
tanto tempo no jardim do liceu. Segredo que guardámos, mas que
ele hoje me mandou contar.
Pronto, Sebastião, já está. Desde ontem que me
aborreces, melro negro danado poisado no meu mastro das almas. Até um
preto engraxador, bêbedo e desgraçado, tem horas em que
não suporta o anonimato e quer que alguém conte a sua história.
Agora podes ir, com a tua melrinha branca debaixo da asa.
Maio 30, 2004
Domingo especial
Eu sou um açoriano mitificado por mim próprio. Açorianos
reais são os que lá vivem e que sofreram a passagem destes
quarenta anos da minha construção distante da insularidade.
Tenho que compreender isto, mas não é sem alguma mágua
que vejo que nenhum dos blogues açorianos que leio diariamente
e que estão listados ao lado assinala hoje o grande dia identificador
dos açorianos: o domingo do Divino Senhor Espírito Santo.
Eu cá, não por ser crente mas por ser açoriano,
vou comemorá-lo em grande festa de família (com umas tantas
cápsulas de Modulanzine para a digestão).
O meu mastro do Pamir
Na minha ilha, recordam-se as "alminhas" à entrada de
cada freguesia. São uns pequenos oratórios à beira
da estrada, um pilar de altura até ao peito encimado por um nicho
com uma imagem e um pedido de oração pelas almas da freguesia.
Ainda hoje, há sempre quem se dê ao cuidado de iluminar
e florir as "alminhas"; talvez algumas velhas ainda guardiãs
dos usos ancestrais e com cujo desaparecimento provavelmente também
os usos desaparecerão. Nos tempos de palmilhar estrada a pé descalço,
nenhum viandante deixava de se descobrir diante de uma "alminha" e
rezar uma oração. Hoje, a muitos à hora, quem é que
pensa nisso? Penso eu, saudosista inveterado, embora descrente de orações,
quando me passeio pelos caminhos da minha terra. Pensar nas almas, mesmo
anónimas, é evocar as nossas próprias, as memórias
de que somos feitos. E é por isto, que, em continuação
da profecia do preto Sebastião, vou falar hoje das minhas almas
privativas, uma riqueza que não se pode deixar em outro testamento
que não seja o das histórias que contamos.
Quando o preto Sebastião me fez uma festa no cabelo de miúdo,
escovinha de máquina um, e me disse que eu ia ter um poste das
almas, nem eu percebi, nem sequer ele, que, talvez nos vapores etílicos,
trocou banal poste de electricidade com mastro de navio. Nunca mais soube
dele até às suas recentes visitas, nunca mais me lembrei
desse vaticínio. E só muitos anos depois tive a visão
renovada de um sonho que anunciava um dote de que não me apercebi
durante muitos anos. É por isto que revejo sempre com olhos de
rever o "Hook", partilhando com o Peter amadurecido a tristeza
de ter passado tantos anos de obnubilação da vulgaríssima
capacidade de saber voar na Terra do Nunca. Males do emprego, da rotina
do dia-a-dia, da ansiedade pela promoção, da preocupação
com a tosse dos filhos. Mas os nomes, as palavras e as memórias
são a estrutura de nós próprios, mais do que o pensamento
elaborado. Imponho-me esta regra, como vêem, pelo menos ao fim
de semana, num trajecto curto em que a evocação quase devota
das açorianices me mereceram uns pozitos de ouro da Sininho, para
poder voar, se não de facto, pelo menos ao som de uma valsa de
fantasia.
Há uns anos, começando a minha reforma e libertando, embora
a contra-gosto, o meu espírito de criança, comprei uma
casa nova, de arquitectura comum mas um pouco invulgar, toda lançada
em curvas para diante, que me levaram logo a chamá-la de "o
navio". A sua proa, varanda do meu quarto, é perfeitamente
adequada a cenário da canção dos amantes do Titanic.
E foi esta ideia de casa-navio, tão cara a quem sempre se sentiu
marinheiro, que reevocou, tantos anos depois, o meu sonho das almas e
uma mudança radical na minha vida, de homem prosaico a homem que
quer viver apressadamente, com a angústia de um tempo veloz, tudo
o que a vida tem para dar.
Nasce-se fadado para as almas ou então quando se sabe chorar
por uma criança. Houve um dia, em criança, em que chorei
por muitas. Atracou à doca um lindo veleiro alemão, o Pamir,
levando a bordo uma centena ou mais de crianças-cadetes, como
eram os da nossa D. Fernando II e Glória, hoje só atracção
turística. Sem lhes poder falar, vi-os a passearem pela cidade,
num dia bem bonito, meninos garbosos no seu uniforme de jalequinha azul,
com um espadim dourado que me encantava, eu que só tinha espadas
de madeira feitas pelo paciente mestre Alfredo. O navio voltou ao mar,
mar traiçoeiro dos Açores que numa noite virou de mar ameno
da véspera a oceano negro de tempestade ciclónica. Uma
grande onda o naufragou, perderam-se os meninos cadetes. E eu, da mesma
idade, que não tinha falado com nenhum, chorei por eles, com lágrimas
que não vinham dos olhos mas do fundo do coração.
Diz-me a minha mãe, vivíssima e espero que ainda muito
longe de vir à minha procissão das almas, que desde miúdo
sempre me mostrei tão inteligente (desculpem lá!) como
sentimental. A primeira vez que, muito miúdo, me separei do meu
pai, que ia em trabalho a outra ilha por breves dias, parece que dei
na doca um espectáculo de choro desalmado. Racionalidade e sensibilidade
são coisas que se deve ter em igualdade, mas quando se puxa por
ambas ao extremo, sentimo-nos bicéfalos.
Mas, voltando aos meninos-cadetes alemães, vieram então
depois, com clarim e tambor, mostrar-me o que viria a ser o melhor presente,
só muito depois compreendido: um mastro do Pamir com as suas vergas,
ainda uns restos de pano e um grande cabo que não percebi para
que servia. Deram-me também um espadim dourado, que eu legarei
ao Museu da Marinha de Hamburgo, mas que, por enquanto, é muito
meu. Fizeram-me continência, deram meia volta e marcharam a toque
de clarim e tambor para uma grande onda que os engoliu, se dobrou, recuou
e acabou por desaparecer.
Agora, quando recebo amigos, ainda à porta da minha casa-navio,
divirto-me a perguntar-lhes o que é aquela coisa alta e esguia
mesmo em frente da casa. Eles olham-me duvidosos da minha sanidade e
respondem, como a um velho gagá, que é um poste de iluminação. É claro
que faço isto como teste, para ver se algum consegue ver o mastro
do Pamir, o meu mastro das alminhas. É preciso confessar que ainda
não tenho domínio completo sobre ele, que às vezes
me falta vê-lo. Mas é verdade e certo que ele nunca me falta
quando nasce uma criança futura vedora de almas - que pena que
não seja todos os dias - ou quando um dos meus netos, com um telefonema
qualquer de encantar contando-me a sua última história
de escola ou gaguejando de entusiasmo pela vitória do Benfica,
planta um arco-íris que sobe desde a base forte do meu mastro.
Já reparei também que é mais vulgar ele aparecer-me
quando o céu do crepúsculo tem uma faixa roxa muito viva,
quando o asfalto da minha rua cheira a canela ou quando, ao longe, vejo
o Bugio envolto numa neblina verde. Mas, tentando muito e não
sei por que experiência estranha, sei agora de uma forma segura
de ver o mastro e chamar uma ou outra alma: escondo entre as ervas em
seu redor a minha única relíquia de menino, o meu pião
que foi comigo para o primeiro dia de aulas, hoje estalado e cheio de
marcas das bogueixas de uns piões selvagens de cravo de ferradura.
Há dias em que tenho muitas visitas, outros não. Mas há uma
presença permanente no topo do mastro, a da minha avó,
que aparece como estrela, tão orgulhosa como carinhosa, mas com
um brilho um pouco desvanecido pelo sofrimento de doente no fim da vida.
Soube logo quem era, da primeira vez que lhe ouvi um "João
Manuel" como só ela sabia dizer, ainda por cima com pronúncia
da Praia da Vitoira. Não me podendo fazer as festas com que me
adormecia, ela que quase me criou enquanto a minha mãe trabalhava,
manda-me uns raios de luz que me adoçam a pele. Nos últimos
tempos tem estado um pouco exigente, discutindo comigo as receitas que
devo incluir no meu livro. E não é que lhe deu para querer
ser co-autora? Razão toda tem ela, mas chamavam-me maluco. Ontem,
quando lhe disse que ia escrever esta estória, vi-lhe uma sombra
de palidez no brilho de estrela nacarada. Não me quis dizer o
que era, como nunca se zangava comigo, mas compreendi. Não vou
escrever mais sobre ela, que o muito que há é só nosso,
perdoem os leitores. Falo só da outra alminha de excepção,
que também é estrela e não pássaro. Não
está lá sempre, mas vem muitas vezes visitar a minha avó e
sua querida amiga. É pequenina, toda delicada, como sempre foi
em vida e, com uma luzinha de estrela que raramente me fala, limita-se
a tremeluzir, sorrindo com a doçura da sua afeição
por mim. Para ela, não quero inventar um pseudónimo. É a
minha tia Maricas.
Todas as minhas outras alminhas são pássaros e, às
vezes, que passarões. Na descida, que a viagem é bem longa,
vão pousando e descansando no tal cabo preso ao mastro que agora,
pelos vistos, já sei para que serve, embora nunca consiga ver
onde ancora o outro extremo, que se perde, cada vez mais diáfano,
no azul do céu. Como as minhas alminhas perderam, com a eternidade,
o sentido das horas, vêm por vezes a tempo impróprio. Chego
a irritar-me mas desculpo-os, embora, na minha idade, precise de bom
sono e de não ser acordado quando calha pelo santelmo ofuscante
que os meus visitantes acendem e que me afarola o quarto. E são
exigentes e caprichosos, se lhes faço xu e um gesto de despedida,
ainda mais piam. Pássaros do corisco, gosto muito de vos ver,
mas dêem-me algum descanso. Esta noite, então, foi um reboliço.
Vieram todos, empurravam-se para poderem pousar nas vergas, punham-se
em biquinhos de pata para me chamarem a atenção e poderem
falar antes dos outros. Uma vergonha para quem tem que se portar bem
lá no Céu. Alguém lhes disse que eu ia escrever
esta estória e ninguém quis ficar de fora. Adivinho que
o boateiro, como contarei depois, foi o meu tio Vasco, que ouviu a história
na Pepe. Tive que prometer que falaria de todos. Já não
pode é ser hoje, que fiquei cansado com a perda de sono, fica
para a semana.
Eça também escrevia em folhetins.
Junho 01, 2004
As alminhas da Musalia também querem vir à festa
O meu primo Jacob veio fazer-me uma visita para me dizer alguma coisa
sobre a festa de domingo que ele está a organizar. Para minha
surpresa, contou-me que isso tem dado grande agitação entre
as alminhas que lêem este blogue e que parece que não são
poucas. Agora são as alminhas da Musalia, que também gostavam
que eu falasse delas, à falta de mastro ou árvore que ela
ainda é muito nova para já ter descoberto (mas lá irá).
Está bem, venham cá até ao meu mastro, que também
falarei delas, com a ajuda da Musalia.
Junho 06, 2004
Desilusão
João do Saco e Musalia
Passei esta noite sempre de ouvido alerta, à espera da prometida
procissão das minhas almas, organizada pelo meu primo Jacob, com
a ajuda do meu amigo Amadeu. Olha que dois! Prometia grande festa e eu
já lhes tinha dito que não ia por menos do que o magnífico
cortejo da aldeia, ao som de Mahler, do último sonho do Kurosawa.
Até viriam, por empréstimo, a Dona Zezinha e o Mestre Samuel,
alminhas da Musalia. Lá vir visitar-me, o primo Jacob veio, mas
sozinho, de cabeça murcha e com o cigarro ainda mais caído
ao canto do bico. Vinha com permissão especial do Altíssimo
para me explicar porque é que a festa tinha que ser adiada uma
semana. Ainda por cima, a culpa foi dele.
Com o seu feitio brincalhão e com horror a qualquer tristeza
(coitado, quem o viu, quando a doença fatal já lhe corroía
os ossos, ainda a tentar brincar), dois dos seus grandes amigos lá em
cima são os veneráveis Job e Jeremias, que ele se sente
na obrigação de alegrar. Ontem, estava ele em casa do patriarca,
que nunca se queixa, quando o primo Jacob se deu conta de que a pequena
mas bonita vivenda patriarcal, restaurada pelo meu pai, tinha o frigorífico
avariado. Prestável para os amigos como ninguém, logo o
primo Jacob se prontificou a resolver tão grave problema, para
dali a algumas horas já terem uma cervejinha fresca. Mas o meu
primo não sabe que sempre foi uma desgraça para as máquinas,
que mal conseguia acender um isqueiro?
Resultado, o estouro do curto circuito da antiquada instalação
eléctrica celeste ficará a ecoar durante milénios
(dos nossos, uns minutos para os que lá estão). Foi apagão
geral, mas aí não houve grande problema, porque Jeová ordenou à pombinha
do Paracleto que fosse iluminar uma velinha entre as asas de todos os
anjos. Mais catastrófico foi o efeito no sistema de controlo das
fronteiras celestes, com os discos todos queimados. E parece que não
há lá por cima bons informáticos. Ainda não
chegou o seu momento e, quando chegar, Bill Gates que se cuide! Pior
ainda, para a complicada gestão das relações entre
céu e inferno, de que diariamente se encarregam o diabo e S. Pedro,
decidindo casos complicados como o destino de algumas almas polémicas
(espere-se pelo momento do Bush!), queimou-se até ao último
fio a linha do telefone vermelho, sim, que ainda há por lá guerra
fria.
Concluindo: fronteiras celestes fechadas, S. Miguel e os outros anjos
armados mais em alerta do que as polícias no Euro, contacto quebrado
com a página www.jacob_bensabat.brincalhoes.eternidade.ceu, mas
a promessa solene, transmitida pelo Padre Eterno ao meu primo Jacob,
de que o adiamento da festa é só por uma semana.
Mas o Supremo foi sensível à expectativa especial, nunca
por elas imaginadas, das alminhas da Musalia. E agora percebo que, na
sombra do passarão que é o meu primo Jacob, papagaio de
todas as cores como de todas as cores se faz um portento de humor e inventividade,
mas de penas desgrenhadas de quem não liga a regras e de cigarro
sempre dependurado do bico, esconde-se envergonhada porque desabituada
destas andanças, a Dona Zézinha, especialmente autorizada
pelo Supremo a esta primeira viagem ao meu mastro das almas. E escreve
Musalia:
"...e o lastro das memórias soltou aromas de maçã e
canela e acordou os nossos sonhos de criança. O Verão era
um espaço mágico. Nas dunas, junto à ria, habitávamos
os castelos que a nossa fantasia construía, recolhendo a ponte
levadiça que nos isolava do mundo dos adultos. E o tempo pertencia-nos.
As manhãs escoavam-se entre azuis luminosos de céu e mar
então, cansados e descalços, fazíamos o caminho
de regresso pelo areal extenso na distância que se deixava percorrer,
carregando o sabor da maresia nas pegadas de areia que espalhávamos
pela casa. Lá dentro, resmungando uns amuos de quem defende território,
Dona Zézinha, acertava o lenço na cabeça em sinal
de aprumo e, acalmada a algazarra, a modorra do calor quebrava a resistência
e a casa retomava a paz anterior.
Todos os Verões, ajeitada a faina caseira, Dona Zézinha
ancorava em nossa casa. Mulher de pescador, ao jeito paciente que lhe
vinha do quotidiano árido, acrescia o ar risonho que nos fazia
repetir o seu nome constantemente. Saboreávamos as histórias
engraçadas que sempre acompanhavam o início do dia, imaginando
o pobre gato siamês ensaboado à exaustão para lhe
retirar as manchas ou o "sorvete" que comprara e guardara na
mala para levar à noite, aos filhos. Mas, o que mais nos divertia
era o desencontro dos sabores. Perante a fúria do meu pai e o
olhar benevolente da minha mãe, os nossos risos sufocados redimiam
os esquecimentos, a troca do açúcar pelo sal ou o alecrim
pelo cravinho da Índia. No Inverno, recortava retalhinhos de memórias,
que cosia em espirais de ânsias pelo convívio estival e
nos oferecia desdobrados em pequenas mantas coloridas. Ainda existem
lá em casa...
"Este é o melhor tempo da minha vida", costumava dizer
e nesta frase imensa se teciam os laços dos afectos que nos ligaram
durante tantos anos. Assim como o seu bolo de maçã, acariciado
pelo aroma da canela, enchia as nossas mãos gulosas de ternura.
Ainda hoje, no silêncio da casa se forma aquele "corredor
de tempo", onde ecoam os risos da infância e a tagarelice
da Dona Zézinha."
Junho 10, 2004
Gentes do Pico
Num dos textos da Moriana/Musalia, citando uma canção,
li que nas suas veias corre basalto. Ela lá sabe, mas a minha
ideia é que de basalto, firme mas também esculpível, é feito
o carácter dos picarotos. Nas veias, corre-lhes uma mistura agridoce
de verdelho e sangue de baleia.
Micaelense fanático como já viram, com metade dos genes
e grande parte da educação terceirenses, confesso-me um
admirador porventura idílico das gentes do Pico, os picarotos.
Antes de ir ao principal, anoto que não conheço nenhuma
simbiose tão grande entre mar e terra. Nas outras ilhas, ou se é camponês
ou se é pescador. São mesmo quase duas culturas diferentes,
como Armando Côrtes-Rodrigues tratou com grande mestria dramatúrgica
e um grande sentido telúrico na sua peça, hoje esquecida, "Quando
o mar galgou a terra", quase tão importante como o "Mau
tempo no canal" para se ter uma ideia do carácter das gentes
açorianas. No Pico, o foguete do homem da vigia das baleias transformava
num ápice o camponês em pescador de baleias. Enxada abandonada,
farnel esquecido, era ver quem mais corria pelas ladeiras a chegar ao
cais e tomar o seu lugar na canoa baleeeira: mestre, arpoador, trancador
ou simples remador.
Enquanto vivi em Ponta Delgada, até ir para a universidade, não
tive contactos com jovens picarotos. Conheci-os depois na universidade
e ficaram dos meus melhores amigos. Aliás, não é difícil.
O picaroto, se é amigo, é-o mesmo. O carácter espelha-se-lhes
no físico, frequentemente maciço e entroncado, a que a
tez clara e os olhos azuis dão um ar pouco comum em Portugal.
Há uns anos, o V., assistente universitário, contactou-me
para fazer o seu doutoramento sob a minha orientação. Marcámos
uma conversa e lá ele apareceu. Baixote, largo de ossos, alourado
e de olho muito azul. Um aperto de mão bem firme, e, sem rodeios
nem circunlóquios, entrou directo no assunto, mostrando uma boa
cabeça e uma grande determinação. Acabou por ser
uma das mais difíceis e melhor trabalhadas teses que me satisfaz
imenso ter orientado. Mas, voltando ao primeiro encontro, enquanto o
ouvia, vinha-me à cabeça uma ideia, até que lhe
perguntei se ele era do Pico. E não era mesmo? E também,
como tal, é daqueles meus doutorados de que já falei para
quem eu sei que sou um amigo.
E, ao mesmo tempo, o picaroto é doce, tem uma alma de criança,
uma simpatia natural e espontânea que encanta todos os visitantes.
Parece que não precisam de atitudes de defesa, eles que vivem
sob a protecção do magnífico totem que é a
montanha do vulcão. E, para não falar só das gentes,
tendo eu como insuperável, porque na matriz da minha primeira
memória do mundo, a beleza de S. Miguel, e apesar da difícil
escolha entre a semelhança/diferença das ilhas, acho que
nenhum turista pode ir aos Açores sem visitar essa pérola
da construção telúrica que é a ilha do Pico.
O meu pai também tinha vários grandes amigos picarotos,
do tempo em que o final do liceu tinha que ser feito em Ponta Delgada.
Creio que ele teve uma propensão natural para fazer amigos entre
eles. Partilhava com eles a integridade, o espírito de missão,
a dedicação ao trabalho, a ética inquebrantável,
a profundidade inabalável da amizade e dos sentimentos. Julgo
que também herdei um pouco disto e, daí, como disse, a
minha admiração e a facilidade em lidar com os picarotos,
gente que não precisa de contrato escrito.
Junho 13, 2004
Guisado de gente
Até se ver, terminei por ora as minhas histórias das alminhas.
Este conto em folhetins foi um reeencontro comigo mesmo e também,
do fundo do coração, com todos os que me fizeram e muitos
são. Não há maior injustiça e arrogância
do que pensarmos que nós somos só nós. Como todo
o homem, por mais primitivo que se considere, sou uma mescla que nenhum
tear consegue reproduzir em tecido. Os meus pais fizeram a matéria
prima e deram-me o amor que é necessário para nos sentirmos
apoiados na grande aventura da vida, mas pelo nosso próprio caminho.
Como num bom cozinhado - tinha que vir! - compraram carne de primeira
sem sequer olhar ao preço, talharam-na ao fio da fibra e esmeraram-se
na marinada inicial, volteando-me na vida com cuidados de chefe. Depois
vieram uns que puseram a aquecer manteiga e banha, outros azeite, que
sabiam já que eu adoraria mais tarde terras de imensidão
como a minha, mas a perder de terra em vez de perder de mar, e a mudar
em ouro estival as searas verdes da primavera. E os que picaram a cebola?
Outros esmagaram o alho na dose certa. Uns tais discutiram e escolheram
a quantidade exacta de louro e de salsa. Outros, forçosamente
açorianos, temperaram-me com açaflor e malagueta. Sal e
pimenta, condimentos do humor, foram muitos os que os dosearam. Um outro
decidiu da Jamaica, ainda outro do tomilho, aqueloutro se melhor ia com
o tomilho o estragão, a segurelha ou a salva. Os mais tardios
vigiaram bem o lume. Os grandes amigos de hoje, fazem fila para a colher
de provar e dão um ou outro palpite de correcção
final de temperos. Eu sou eu porque sou todos esses.
O meu mastro das alminhas (FLD, por agora)
(Aviso ao leitor: isto é texto para quem ainda sabe gozar o domingo,
para imprimir e ler com vagar à sombra das tuias, bebericando
um verdelho, que escrita telegráfica só em Morse, não
em palavras saboridas. Aos bloguistas apressados, as minhas desculpas.)
O que o meu primo Jacob promete é devido, para mais que ele já andava
de um lado para o outro do seu celeste Pátio da Alfândega,
a passear-se nervoso com o adiamento da festa, com o empenho que ele
põe nestas coisas. Lembram-se do programa de festas para a família
do coronel Pontiagudo? A festa hoje foi de arromba, só ensombrada
por ele não se ter lembrado de que nem todos são madrugadores
como ele. É verdade que dias de reformado são todos iguais,
mas eu continuo a marcar o domingo como dia especial, em que dou largas
ao meu defeito de ser muito dorminhoco. Necessidade de quem tem que carregar
as baterias para uma actividade sempre frenética, de quem, como
me dizia a minha avó em folgas plebeias ao seu espírito
de finura, "tem bicho carpinteiro no rabo".
Mas hoje houve variante, não foi só o santelmo do costume
que me acordou. Quando rebentou o primeiro foguete, estremunhacordei
e vi de viés que ainda eram seis da manhã. Lá fui à minha
varanda-proa e estava o vigia das Feteiras carregado de foguetes. Foram
sessenta e o primo Jacob disse-me que era só uma amostra para
Novembro (depois conto porquê). Só um vizinho meu é que
deu pelo caso, tenho que falar com ele como quem partilha dotes, mas
a perguntar-me se os traficantes de droga já tinham chegado ao
nosso bairro.
E lá vem a procissão, cabo abaixo. De capitão,
como não podia deixar de ser, o primo Jacob, sempre ajudado pelo
meu ídolo de infância, o meu amigo Amadeu, a fazer macacadas,
de canário muito louro, não podia deixar de ser. Figurão
inesquecível, com nome predestinado. Amadeu, o que ama a Deus
ou o que Deus ama? Ou Theo e philo, em grego? Em qualquer caso, passa
pelas crianças, que Deus só ama os que amam as crianças
e só se ama a Deus se se olha para Deus com olhos de criança.
O Amadeu tinha um carro muito velho, ainda com buzina de corneta e borracha,
que dava sinal logo no princípio da rua. Só se ouvia ao
mesmo tempo, de dentro de uma casa, "ó José, olha
o menino", para o José ter cuidado com o irmão mais
novo, que ainda chuchava sentado na soleira a ver as nossas brincadeiras.
Mas, chegado o Amadeu, parava toda a brincadeira, que tudo o que coubesse
amontoado no carro lá ia brincar para terras mais vastas e de
aventura, como rebolar Monte Gordo abaixo e, às vezes, cair no
Charco da Madeira. Foi com ele que vi os ensaios da companhia de circo
com que estava tão entusiasmado mas que falhou por falta de artistas,
era com ele que ia às cantigas ao desafio. Mas continue o cortejo.
À frente, um grupo de foliões do Espírito Santo,
opas e mitras de bispo, às ramagens vermelhas, rabeca, viola da
terra, pandeireta e ferrinhos, tocando a cantilena que lamento não
poder reproduzir. O meu filho informático tentou pôr a música
em mp3, mas caloiro ainda é caloiro. E até banda de música,
reunida com grande custo pelo Amadeu de entre seus velhos conhecidos
músicos da União Fraternal e da Rival das Musas. Do ensaiador
encarregou-se o primo Jacob, que, com o seu irresistível encanto,
conseguiu que o Karajan, sem cachet, os pusesse a tocar qualquer coisa
pelo menos reconhecível como o triplo concerto.
Logo vêm uns anjinhos, com arcos de grinaldas. Porquê, perguntei-me,
lembrando-me apenas das danças de carnaval da minha terra. Só depois
me lembrei de que hoje é S. António e que o primo Jacob,
sei lá como, deve ter sabido que uma certa noite de S. António,
há muitos anos, deu uma grande volta na minha vida. Os anjinhos,
como os conhecemos, são brancos quase transparentes, mas no meio
lá vem um com ar bem real e morenito. Ah, é o Jorginho!
Aos anos que não pensava nele. Companheiro de brincadeiras na
Rua do Saco, morto atropelado num desfile militar, foi o primeiro cadáver
que vi. E logo de uma criança! Menino de sua mãe, só não
tinha a cigarreira porque ainda não tinha idade. Mas fez-me rir,
falando-me do maluquinho da travessinha. A travessinha da Rua do Saco
tinha uns pilares de pedra a impedir o trânsito. Sobre um deles,
empoleirava-se o maluquinho anónimo, a mais minúscula figura
de gente que já vi, a cantar odes e hinos à Virgem, até que
uma das manas solteironas da janela defronte lhe atirava um chinelo.
Tem agora lá em cima uma peanha dourada para cantar junto à Senhora.
Honras especiais para o primeiro grupo. O doutor Armando vem de asa
dada com o seu grande amigo, o meu querido avô José da Costa.
Riem-se às gargalhadas entre quadras repentistas em latim macarrónico.
Como sempre o conheci, o doutor Armando vem com penas de estamenha do
Nordeste. Diz-me que encontrou finalmente o descanso de uma vida angustiada,
na companhia do seu grande amigo S. Francisco. É mesmo o seu ajudante
oficial na construção do presépio celeste oficial,
mas vai-me contando que o sublime santo fica sempre incomodado ao colocar
o burro e a vaca, porque parece que é aquilo a Companhia de Jesus.
O meu avô, que entre 54 netos se permitia dar-se ao luxo de me
escolher como um dos preferidos, vem como mocho da ciência, em
minha homenagem, mas inconfundivelmente com o peito polvilhado de rapé.
Mocho e ciência, mas para ele, homem cristalizado no renascimento,
primeiro as humanidades. Lá me perguntou se eu continuo a pensar
em cada palavra escrita ou dita, como me ensinou, porque primeiro está o
verbo. Fácil foi fazer lá em cima grande amizade com o
Padre Vieira, para além dumas visitas frequentes a Cícero,
Virgílio, Horácio e muitos outros, sobrando-lhe ainda tempo
para umas discussões teológicas com Tomás de Aquino.
Mas sobre o meu avô não digo mais, que merece outras escritas.
Com eles também, um bando de estorninhos, de olho vivo, gente
querida de que já falei: Ilídio Sardoeira, Lúcio
Miranda, Almeida Pavão, Mário Rego Costa, Isabel Coutinho,
todos aqueles que me fazem ter saudades do meu liceu. Vêm também
saudar-me o João, o Hugo e o Manuel, companheiros de infância
perdidos na guerra. Vêm tios e vêm primos, amigos que se
foram antes de tempo, figuras da meninice como o ferreiro onde me atardava à vinda
da escola, maravilhado perante o rubro da forja e as faíscas das
marteladas, o taberneiro da esquina que lavava na rua as grandes pipas,
com seixos a rolar com um ruído inesquecível, o mestre
torneiro que me fazia ver sair uma obra de arte de um tosco barrote,
o mestre Alfredo que me fazia espadas e pistolas de madeira, tantos mais,
que saudades e que alegria em vê-los.
E, lá ao cantinho, a Sra. D. Assunção, vizinha
de conversa da minha avó, janela com janela. Fez-nos uma partida,
aos três irmãos. Ofereceu-nos um magnífico "jogo
dos 15", em madeira e cortiça, esmeradamente trabalhado pelo
seu marido. Mas, como não disse a quem oferecia, ainda hoje nos
digladiamos sobre a posse do precioso jogo. Só ao domingo e à segunda-feira é que
não conversavam, que o calendário religioso era diferente.
Uma senhora viúva que se preze não pode ir à missa
ao domingo, só à segunda, de braço dado com a vizinha
do café, a mais doce das doçuras que conheci, sempre embiucada
no seu capote e capelo e exímia em fazer à miudagem da
Rua do Saco os moinhos de cana e papel, com um grão de tremoço
a travar o alfinete.
Sebastião preto melrão é que ficou à distância
e não me ligou muito, talvez envergonhado de tão luzida
companhia. Mas vi que estava a gostar, porque comentava muito para a
sua melrinha Lianor. E foi ela que se atreveu, saltitando de lá detrás,
a vir-me pousar no ombro e dar novidades. Com a ajuda da avó Makeba
e de uns oguns que por lá andam - politica de ecumenismo! - Sebastião
deixou o álcool e é hoje o muito apreciado treinador do
Celeste Futebol Clube. E que o pai me mandava dizer que nunca tinha visto
o vaticinado poste de electricidade como este, com paus tão grandes
de través e bocados de pano, onde é que já se viu
tanta bandeira em poste de electricidade, que era o que ele me tinha
prometido. E que eu tivesse cuidado, porque já estou em idade
de começar a pensar a quem é que deixo esta virtude de
ver as alminhas, como ele me deixou.
E pairando acima, porque só poisa para falarmos a dois e essas
conversas não conto, a minha águia real, o meu pai.
Minhas alminhas do corisco, não param quietas? Já disse
que nenhuma fica sem me falar, tenho todo o dia à frente, mas
tenham calma. Não se excitem! Ó tio Vasco, olha que ainda
cais ao chão, com essa ânsia de me vires contar as últimas
novidades e boatarias da Pepe; e tu é que espalhaste o boato desta
crónica, fizeste vir este enorme bando de pássaros, vê lá se
te portas bem, se não ainda te fazem lá no céu aquela
operação dos sessenta anos que nunca quiseste fazer, a
coisa que mais medo te metia! E, depois, vocês são tantos
que não dá para falar de todos. Mas bico calado, que eu é que
escrevo e tenho o direito a estabelecer a ordem de piadura. O que não
posso é pôr tudo isso a escrito, compreendam, que os leitores
dos blogues não gostam de ler mais do que dois parágrafos
e ainda tenho que escrever sobre o mestre Samuel, que promessa é promessa.
E escreve Moriana/Musalia ... e a cumplicidade do mar sempre presente nas nossas
brincadeiras infantis. Mesmo defronte da casa, a "baía",
recanto da praia entre rochedos, era o ponto de partida para tantas viagens
imaginadas nos barquinhos coloridos que lançávamos à babugem
das ondas. Mas havia o Argus. Branco, enlaçado por vivo pintado
a negro, nome orgulhosamente desenhado, saltava na cresta das vagas pela
mão segura de Mestre Samuel, rosto tisnado pelo sol tantas as
horas embaladas no mar e corpo curvado no jeito de lançar as "mourejonas" e
de "safar" as linhas e os anzóis dos "açafates".
Quando o mar se revolvia de fúria e o barco descansava em terra,
Mestre Samuel, animado pelo conforto de uns dedinhos de vinho, encostava
a sua voz ao postigo da porta e entoava risos e quadras que nos deliciavam.
A companheira, "olhos de gata" como ele dizia, acenava a cabeça
em reprovação muda que mais não era que a ternura
envergonhada. A secagem das amêndoas e dos figos era o seu trabalho,
armava o "almanxar" em círculo, onde estendia as esteiras
recolhidas à tardinha negando aos frutos a carícia do "sereno".
Mestre Samuel corria pela praia atrás de nós para nos
lançar na água e nós, em susto e gargalhada, lá mergulhávamos.
O mar, que tanto amava, ajeitava o baptismo da sua mão segura
envolvendo o nosso corpo em golfadas saborosas de sal e espuma. Assim
aprendemos a nadar e a amar esse espaço imenso mas cuidando, quando
de súbito se levantava a brisa de "mar de fora". Tranquilo,
era quando apresentava mais perigos, como no poema de Vinicius, e era
tempo de fugir. E ensinou-nos a magia dos números nos dias de "levante",
eram sete as ondas e só depois o mar permitiria o nosso abraço,
devolvendo-nos à areia em jogos harmonizados.
Em transparências cristalinas, ficaram as memórias de caprichos
infantis nas conchas que Mestre Samuel recolhia e me trazia embrulhadas
num sorriso.
Olhando na distância, imagino que o barquinho ao longe, embalado
pelo mar, é Mestre Samuel sonhando antes de nos vir apanhar no
areal.
E acabo eu. Ao crepúsculo de hoje, mas do meu relógio,
foram-se as alminhas, com as minhas lágrimas de saudade e de alegria
por esta comemoração antecipada dos meus sessenta anos.
Se alguns dos meus leitores também têm mastros de almas,
podemos juntá-los, fazer um navio e com ele umas explorações
por mares de fantasia ainda nunca navegados.
Junho 20, 2004
A escola da Suzete
A Suzete, duas ou três portas abaixo da minha, na R. do Saco, morenita
engraçada, com laçarotes na cabeça, fazia sempre
tentativas vãs para entrar nas nossas brincadeiras, a que o machismo
incipiente das coboiadas e apanhadas resistia ferozmente. Só lhe
dávamos atenção quando ela saía para a escola.
A sua escola, particular, era na vizinha R. de S. Miguel e era a mais
invulgar das escolas que já conheci.
Funcionava numa casa típica daquelas ruas, com porta abrindo
para um corredor que se estendia até ao fundo da casa e para que
dava a correnteza de quartos. Era nesse corredor que funcionava a escola,
com a porta da rua aberta para iluminar e arejar. Junto a uma parede,
um quadro, todo o equipamento da escola. Do outro lado do metro de largura
do corredor, alinhados ao longo da parede, os alunos, ardósia
ao colo e sentados em cadeirinhas ou bancos, que a escola não
fornecia. Não sei já porquê, todos nós lhe
chamávamos a escola da preta. E, à ida ou à vinda,
lá delirávamos ver a Suzete dos laçarotes, pasta
numa mão e cadeirinha na outra.
Julho 04, 2004
Nação açoriana?
Existe uma nação açoriana? Para mim e creio que
para a maioria dos açorianos, decerto que não. Então
porquê esta pergunta, a merecer honras de entrada, em dia de Açorianices? É que,
há dias, a expressão foi usada no Foguetabrase, um blogue
micaelense muito lido, também por mim. Eu critiquei, mas isto
deu origem a numerosos comentários "nacionalistas" que
me preocuparam, primeiro porque, pela linguagem, me pareciam de jovens,
depois porque, como é inevitável, muitos deles saltavam
logo para o independentismo. Achei, por tudo isto, que valia a pena esta
conversa, apesar de ser em dia em que as atenções estão
viradas para outras coisas!.
Embora seguro do que sinto, tenho que admitir que falo com base em senso
comum e naquilo que aprendemos na escola, por estar longe de ser perito
na matéria. Nem sequer sei bem em que disciplina do saber é que
se discute a ideia de nação, se na história, no
direito, na antropologia. Mas, como duvido que os meus patrícios
oponentes saibam mais do que isto, em teoria, vamos à discussão.
Começo por dizer que tenho a ideia de que a ideia de nação
compreende um factor subjectivo, o do sentimento generalizado de se ser
nação (passe a petição de princípio),
e uma série de elementos identificadores objectivos. Comecemos
pelo primeiro, como diria o conselheiro Acácio.
Olho primeiro para a minha experiência e pelo que assimilei de
tantas conversas com as mais variadas gentes. Nunca vi esse tal sentimento
de pertença a uma nação própria. Mesmo em
fases de grande discussão politica, como foram os acalorados debates
de verão na "abertura" marcelista ou a campanha eleitoral
de 1969, o autonomismo - esse sim, lá voltaremos - esteve sempre
na primeira linha da discussão, mas nunca passou pela cabeça
de ninguém falar de nação. Aliás, isso seria
incongruente com o facto de um dos grandes animadores do debate ser um
continental e grande patriota, como a história veio a demonstrar,
o meu saudoso Ernesto Melo Antunes. Mas abro parênteses para lembrar
que há incongruências dessas: o "herói" do
independentismo açoriano, o Dr. José de Almeida, é português
continental. Passando agora a outros, alguma leitura vem em meu favor.
Há muitos anos, li a colectânea de artigos de jornal de
Aristides Moreira da Mota, textos notáveis do expoente da luta
difícil pela autonomia nos fins do sec. XIX, parcialmente ganha
com o decreto de 2 de Março. Em página alguma vejo uma
nota nacionalista. Mais recentemente, a eminência do sentimento
da insularidade, Natália Correia, nunca advogou tal barbaridade
e a sua vivíssima participação na vida politica
portuguesa demonstra o que ela sentia que era, na diferença. Podem
argumentar-me com Nemésio, que tanto prezo, mas isso obriga-me
a dizer uma coisa muito triste: mesmo os génios podem ter uma
fase senil.
Mas não nos sentimos portugueses, os açorianos? Para falar
de coisas triviais, gostaria de estar aí agora para ver se andam
ou não a celebrar na Avenida as vitórias da selecção
portuguesa, se hoje à noite não roem as unhas e se não
haverá por aí este festival de bandeiras que aqui vejo,
até demasiado.
Vamos agora aos definidores objectivos. Alguns, nem vale a pena discutir.
Em primeiro lugar, a língua comum. É certo que há nações
com a mesma língua, mas, em regra, isto deve-se à separação
dos estados, como no caso americano ou brasileiro. Às vezes o
estado faz a nação, depois de roturas politicas. Mas mesmo
isto é tão complicado, que até temos as indiscutíveis
nações australiana e canadiana, com um chefe de estado "estrangeiro".
E há o caso oposto das nações multilingues, como
a Suíça, mas que são construções históricas
sólidas, mesmo que "ilógicas". Também
nos mostra a história como a vontade politica nem sempre é suficiente
para o nascimento de uma nação. Os espanhóis da
América latina aspiravam à independência, por razões
que, como no Brasil, eram politicas e económicas, não nacionalistas.
O sonho de Bolívar era o de uma grande nação hispano-americana.
A história acabou por consagrar um bom número de estados,
cada um a solidificar a sua própria nação. Isto
quer dizer que, se os Açores fossem independentes, com o tempo
emergiria a nação açoriana. Antes disso, não.
Em segundo lugar, a origem étnica. O povoamento açoriano
teve alguns componentes exóticos, com realce para o flamengo,
mas que não são muito significativos. Nós, açorianos
de hoje, somos uma mescla genética de amostras de tudo o que era
português há 500 ou 550 anos. Finalmente, para despachar,
as tradições e a cultura. Ninguém nega a particularidade
muito própria que elas têm nos Açores. Mas só o
viver-se sempre lá e não se conhecer a realidade portuguesa é que
pode justificar que não se distinga o mesmo entre o Minho e o
Alentejo, por exemplo. E lembram-se de uma entrada neste blogue sobre
as comédias açorianas? Os temas eram a Inês de Castro
e outros episódios da história portuguesa.
Outros, valerá a pena discutir com maior cuidado. Realço
a identidade histórica e institucional, porque o espaço
não me dá para outros elementos que me parecem relevantes
para a discussão da nacionalidade. Os grandes momentos da história
açoriana estão ligados à história portuguesa:
o apoio ao Prior, com as batalhas de Vila Franca e da Salga, o levantar
de todas as forças que permitiram a expedição liberal
para o Mindelo. Ao longo de séculos, as relações
económicas externas foram quase exclusivamente com Portugal, mesmo
nos ciclos da laranja e do ananás. O papel dos Açores na
economia da expansão, com a volta do largo, é enquadrado
estritamente na história portuguesa. Mais importante, aquilo a
que chamei a identidade institucional. Sempre os Açores se regeram
pela leis portuguesas, sempre dependeram dos poderes régios e
eclesiásticos portugueses e não há uma única
estrutura histórica de poder que se afaste da concepção
portuguesa do estado ou do poder (o caso dos capitães do donatário
parece-me uma solução prática que não contradiz
a lógica do poder real e senhorial de então). E, hoje,
os açorianos participam com o maior interesse na vida política
portuguesa e nas suas eleições. Voltando à identidade
histórica, é óbvio que é muito mais fácil
escrever uma história dos Açores ou da Madeira do que uma
história do Minho. Mas acho que isto se deve exclusivamente ao
isolamento e à circunscrição espacial muito mais
fácil para o discurso histórico.
E com tudo isto, somos portugueses como os outros? Não, porque
não há os "outros portugueses", há muitas
especificidades no ser português e por isto sou apoiante convicto
da regionalização. E também porque há sempre
uns que são mais iguais do que os outros e creio que nós,
açorianos - e também os madeirenses - somos menos iguais,
que mais não seja por tudo o que o isolamento foi cristalizando
como características muito específicas. O que daqui resulta é a
autonomia, que perfilho inteiramente, tanto que, deslocado há tantos
anos, participo como posso na vida politica regional, que mais não
seja aceitando dar o meu nome, com grande satisfação, para
a comissão de honra da candidatura do PS e de Carlos César,
que espero que ganhe as próximas eleições regionais.
Já aqui escrevi, mas não sei se é fácil de
perceber:sou muito português porque sou muito açoriano e
sou muito açoriano porque sou muito português.
PS - No fim de toda esta conversa, fico com a impressão de que
alguns leitores se perguntarão porquê "gastar cera
com tão ruim defunto". Mas eu tenho uma tendência irresistível
para conversor. Fazer repensar um em cem dos meus contraditores já é gratificante.
Julho 11, 2004
Cartas de amor
Em jovem escrevi muitas cartas de amor, mas não à minha
namorada! Isto envolve um dos meus "cómicos" de estimação,
o W. O meu grupo de mais velhos do liceu tinha um local típico
de encontro, a devanear e a gozar os passantes, a lembrar a Carmen: "Sur
la place / chacun passe, / chacun vient, chacun va; / drôles de
gens que cês gens-là!" Esse sítio estratégico,
de nossa propriedade tácita, era o canto do clube, a esquina da
R. António José de Almeida, antiga Rua Nova da Matriz.
Apesar de sermos um grupo de jovens, reuniam-se a nós algumas
personagens pitorescas, muito mais velhas: o Jorge, o "doutor" do
União Micaelense, o Maximino engraxador e o W, de quem vou falar,
contando uma história de que hoje me penitencio, porque não
abona muito as minhas qualidades morais.
Se bem me lembro, o W era contínuo de uma qualquer repartição
pública. Gostava de ser intelectual; e ser intelectual, para ele,
era dar-se com aqueles rapazes do liceu. As colheradas que ele metia
nas nossas conversas eram de morrer de riso. Claro que nós também
o provocávamos, desafiando-o a arbitrar alguma discussão
entre nós. Era uma delicia! Ora o W tinha uma paixão assolapada
por uma colega minha de liceu. Confiante na minha cumplicidade, pedia-me
para lhe escrever as cartas de amor. Admito a minha maldade e que isso
não se faz, mas quem é que, como jovem irreverente, não
tiraria todo o partido dessa situação? Tenho pena de não
as ter, mas lembro-me bem de que me esmerava na pirosice e no ridículo.
Mas, para ele, eram lindas e tenho a impressão de que a G nunca
chegou a saber quem é que as escrevia. E lá tinha eu que
inventar razões para convencer o W de que as cartas certamente
tinham sido muito apreciadas mas que haveria razões fortes para
que a G não respondesse. Mas que quem porfiasse sempre alcançaria...
E lá ia mais uma carta. Hoje, penitencio-me.
Setembro 05, 2004
O Parque das Furnas
Gosto muito de ler um escrito de um açoriano afastado da sua ilha
e que sente a sua pertença quando lá vai. O meu filho mais
velho, quase quarentão, diz que é mais açoriano
do que eu (como se isto pudesse ser possível!). Parece ser o caso
da Ana Falcão Afonso, filha de um caro amigo bem conhecido neste
blogue, nascida e residente em Lisboa, mas, como ela própria diz,
micaelense de sangue, que é que importa mais - quando se toma
isto como memórias da educação, tradições
de família bem cultivadas. No seu (Indis)Pensáveis, escreveu
uma entrada sobre o Parque das Furnas, hoje visita obrigatória
para todo o turista que se preze. Não chega em dimensão à Pena
ou ao Buçaco, mas não lhes fica nada atrás em beleza
e sentimentos que evoca no visitante.
Ao que diz a Ana, queria só acrescentar três notas. Primeiro,
o parque, apesar de relativamente pequeno (se pensarmos no Buçaco), é feito
de recantos de intimidade. Não admira que sempre tenha sido um
sítio excelente para namorados. Mesmo no auge do turismo, como
o conheço muito bem, consigo sempre encontrar um local onde não
sou perturbado na conversa com o meu livro. O segundo aspecto marcante é o
silêncio. Apesar de o parque estar encravado no meio da freguesia,
há um filtro absoluto que côa qualquer ruído que
nos lembre que estamos no meio de uma vida normal de aldeia. Finalmente,
e isto não se consegue descrever, o magnífico jogo de luzes
e sombras, de claros e escuros, que enriquece toda a panóplia
de verdes do parque.
Mas tenho outro motivo para escrever esta nota, um motivo talvez menos
conhecido pelos visitantes de visita rápida. É a secção
relativamente recente de flora autóctone. O micaelense, orgulhoso
das suas paisagens, não gosta muito de admitir que elas são
artificiais. Os dois emblemas floristicos, a criptoméria e a hortênsia,
são uma introdução do sec. XIX, que rapidamente
dominaram e transformaram a paisagem, mas com um sucesso que ninguém
preveria. A flora endógena é a da laurissilva, típica
da Macaronésia (os arquipélagos do Atlântico temperado
norte, Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde), hoje mantida
significativamente apenas na Madeira. Outrora, antes das glaciações,
ocupava também toda a bacia mediterrânica. Tem uma grande
variedade de espécies arbóreas, loureiro, vinhático,
pau branco, folhado, cedro local, sobre uma camada baixa de variadas
urzes, fetos e musgos.
Em S. Miguel já só resta a vegetação da
Serra da Tronqueira, entre a Povoação e o Nordeste. Julgo
que poucos turistas a conhecerão, e é pena. O principal óbice é a
estrada, linda mas, ao que julgo, ainda de terra e muito estreita. Disseram-me
que não pode ser modernizada por pertencer a uma reserva natural.
Isto tem a ver com o Parque das Furnas porque, há já mais
de uma dezena de anos, segui o plantio de uma secção do
parque dedicada só à laurissilva, com larga representação
de espécies. Foi uma iniciativa a todos os títulos meritória.
Não sei é se os visitantes lá irão com frequência,
porque fica um pouco escondida, nas traseiras da Casa do Parque. Também
não sei como está, se as árvores já cresceram
o suficiente para se ter a ideia real. Quando for a S. Miguel com tempo
suficiente, não deixarei de ir visitar esse canto do parque.
Setembro 12, 2004
Ponta Delgada e Angra do Heroísmo
Nestas férias, alguns dos meus leitores terão estado nos
Açores e visitado pelo menos as duas ilhas mais conhecidas, S.
Miguel e Terceira, a que agora também cada vez mais se vai juntando,
nos programas turísticos, e bem, a ilha do Pico. Vou lembrar-lhes
agora só as cidades, porque comentá-las é menos
subjectivo do que falar das paisagens.
Apesar do meu bairrismo, não tenho de Ponta Delgada uma impressão
que sobreleve o meu gosto por muitas outras cidades portuguesas. A malha
urbana é incaracterística, o centro de ruas estreitas desvalorizado
por um trânsito automóvel caótico. Foi uma cidade
feita toda de costas para o mar e o visitante que chegava de navio só via
traseiras muitas vezes decrépitas. Como ainda tenho uma vaga memória
de criança, a ligação ao mar era reduzida ao cais
e a um pequeno espaço de convívio, o Aterro, com a sua
popular varanda de Pilatos. Isto corrigiu-se, nos anos cinquenta, com
a construção da Av. Marginal, mas sem grandeza e incomparável,
por exemplo, com a do Funchal, e com uma praceta "de honra",
uma minúscula e ridícula inspiração do Terreiro
do Paço.
Comércio banal, falta de espaços de lazer - com excepção
de alguns jardins bem cuidados, alguns no centro da cidade - oferta cultural
pobre, apenas com duas livrarias. A noite, que no meu tempo era animadíssima,
com milhares de pessoas a gozarem o fresco e a vista de mar da Avenida
Marginal ou a passearem-se pelo vizinho Campo de S. Francisco, é agora
a tristeza de um marasmo deserto e silencioso, que os tempos são
de descanso doméstico em frente da televisão.
Mas não deixa de ter coisas notáveis. Ficam, a justificar
bem a visita, muitos exemplos dispersos de excelente arquitectura religiosa
e civil. A igreja da Matriz, equilibrada nos seus diversos estilos, desde
o gótico da capela-mor e do transepto ao manuelino dos seus portais
de mármore, tudo completado com o barroco de cantaria basáltica.
A igreja de S. José, franciscana, de magnífico maneirismo
tardio e a da Esperança, habitação do Senhor Santo
Cristo e do seu magnífico tesouro de arte sacra, magnífico
conjunto equilibrado de azulejaria e de talha dourada. E, depois, os
outros conventos barrocos, como o da Conceição, o de S.
André, ou a ermidinha que resta do de S. Gonçalo.
Ficam-me também na memória as magníficas casas
senhoriais. Não é difícil apercebermo-nos delas,
porque, salvo uma ou outra na periferia da cidade, basta percorrer as
ruas principais para as vermos, na sua imponência de decoração
simples, baseada num jogo minimalista de largas fachadas brancas iluminadas
por belíssimas janelas e varandas de ferro forjado e de cantarias
barrocas de basalto. Para os conhecedores, alguns pormenores interessantes,
como os frisos em diamante, mais vulgares na Ribeira Grande, e as janelas
de avental, de que são bom exemplo as da Câmara.
Já Angra é outra coisa. É toda a cidade que é monumento,
na sua traça urbana pequena na realidade mas grande na concepção
e ambição. Emoldurada pelo Monte Brasil, a cidade abraça
a baía, em anfiteatro. Não tem grandes monumentos, sobressaindo
principalmente a Sé, de um simples mas elegantíssimo renascentismo
já a cair para o maneirismo, o palácio dos capitães-generais
e, nas casas senhoriais, a casa Bettencourt, logo por detrás da
Sé. Mas o que se vive logo em Angra é o ambiente geral
da cidade, de equilíbrio de volumes, de coerência de estilos,
de ruas largas e bem traçadas.
A comparação entre as duas cidades suscita-me, muito de
longe, uma impressão que tenho sempre sobre as mais conhecidas
cidades italianas, Deixo de lado Roma, porque é muito mais uma
cidade para se estar e sentir do que só para se ver. Mas, em relação
a outras duas cidades tão conhecidas, Florença e Veneza,
costumo dizer que Florença é uma cidade bonita cheia de
monumentos magníficos, enquanto que Veneza dilui os seus monumentos
num monumento global que é toda a cidade. Embora o meu bairrismo
micaelense não mo permita dizer, tenho a mesma ideia em relação à comparação
entre Ponta Delgada e Angra.
Setembro 19, 2004
Os artífices do meu tempo
Volto a recordar figuras da minha meninice, agora os artífices,
muitos que conheci. Guardo deles uma memória antiga e desvanecida
mas que ainda hoje me põe a dúvida: artistas menores? Para
mim, esses artífices foram os meus primeiros educadores artísticos,
homens modestos de cujas mãos eu via saírem do bruto coisas
tão bonitas. Ver, em menino, fazer coisas bonitas, é o
começo da nossa educação artística.
Lembram-se dos grandes cartazes de anúncio dos filmes? O Sr.
José Vieira tinha como base uma folha A4 de publicidade do filme.
No chão do sótão do Coliseu, uma grande folha de
papel, de muitos metros quadrados. Em meia dúzia de pinceladas,
escalava a imagem, com mais outras retocava-a, ao fim de umas horas saía
para mim uma maravilha, que depois via desfraldada na fachada.
O ferrador da R. de S. Miguel foi responsável por muitas repreensões
da minha mãe, por atraso no regresso da escola. A forja rubra é uma
memória inesquecível. Mas depois, que mestria nessa coisa
aparentemente tão simples que é ferrar um cavalo. Sai da
forja, às faíscas que foram o meu primeiro fogo de artifício,
uma tira de ferro incandescente. Umas marteladas sábias, com suor
a cair sobre o pão de Vulcano, uns mergulhos na água que
protesta fumegando, e a barra entorta-se e toma a forma. Mais outras
punções delicadas a abrir os furos para os cravos, e vai-se
o ferreiro e vem o sapateiro. Cavalo imóvel como que percebendo
que aquilo é para seu bem, pata imobilizada entre os joelhos do
ferreiro, marteladas certeiras e eu a pensar sempre ver uma grande felicidade
nos olhos do cavalo. E disponibilidade ainda do ferreiro para dobrar
em círculo cravos de ferradura, que a minha geração
usava muito como anel. Para o meu grupo, era quase um sinal tribal.
O torneiro da Rua do Saco maravilhava-me. Colocava no torno um barrote,
ficava calado, dependurado das suas costas reumáticas de velho,
tirava da gaveta duas ou três goivas, ligava o torno e começava
a esculpir a partir de uma ponta. Parecia que aquilo ia ao acaso, mas
eu via que havia em cada movimento, em cada mudar de goiva, um plano
bem presente na cabeça e na imaginação daquele velho
e a concentração de quem sabe que um gesto errado estraga
todo o trabalho. É por isto que eu tenho um grande espanto pelos
escultores directos no mármore. Vi fazer muita escultura, a um
tio meu, do barro ao gesso, depois ao bronze. Mas tudo era emendável.
Agora imaginam o que seria se Miguel Ângelo tivesse falhado uma única
escopradela no David?
Também sempre gostei do trabalho de precisão. Já maduro
e profissional, quando as ideias científicas não me ocorriam,
ia conversar com o meu bom amigo Armindo Canha, mecânico de precisão
do meu instituto e dono de mãos preciosas. No meio da prosa muito
amiga, ia-me deslumbrando com o que ele fazia ao torno. Na meninice,
o meu símbolo da precisão era o pai do Carlos Maria, meu
fronteiro na R. do Saco, gravador de ourivesaria. Na altura, não
havia pantógrafos, era a sua mão firme, apesar de doente
reumático, e a sua arte que inscreviam na prata as dedicatórias
e saudades. E, se falhasse, quanto custaria a peça de ourivesaria
assim ida para o lixo?
PS - E, a propósito, aqui exprimo a minha homenagem a um excelente
grupo profissional que conheci: os sargentos artífices da Armada.
Outubro 03, 2004
Açordas açorianas
Hoje, a açorianice é culinária e talvez interesse
mais aos leitores continentais. Tenho alguma razão para este devaneio,
porque andei numa fase de evocação de memórias,
acentuada pela próxima publicação de dois livros
evocativos das minhas tradições, e aparentemente disparatados
para quem me lê aqui sobre coisas sérias, como a politica
do ensino superior. Um será "O gosto de bem comer",
de que já falei aqui. Do outro, "As alminhas", digo
só que é uma narrativa de ficção que não
sei qualificar bem e a que chamo de imagino-memórias. Nasceu de
algumas histórias aqui contadas aos domingos, foi crescendo e
acabou por dar um livro. A seu tempo, darei notícias e, obviamente,
proporei ao editor uma sessão de lançamento na minha terra.
As açordas, como todos sabem, são um emblema da nossa
cozinha meridional, particularmente da alentejana. Vai por aí é muita
confusão. Açorda é uma sopa de pão numa infusão
de cheiros e alho. Por estas bandas da capital, chama-se-lhe sopa à alentejana,
quando com coentros, e chama-se açorda a uma coisa sem raízes
que tenta imitar as inigualáveis migas alentejanas. A cozinha
açoriana tem muitas reminiscências do povoamento meridional
e abunda em açordas (sopa), com muitas variantes locais, adaptadas
aos produtos da terra. Não se usa azeite, produto de importação,
nem o coentro, pouco usado nos Açores.
Faziam as minhas delicias em miúdo. Cheguei a fingir-me de doente,
a quem sabia muito uma açorda, porque a família achava
que aquilo era comida demasiadamente vulgar. A minha avó, muito
perspicaz, é que me piscava o olho e se encarregava de satisfazer
o capricho do neto querido! Como nunca vi uma das muitas açordas
açorianas (fazem-se em todas as ilhas e tenho para cima de vinte
receitas genuínas) nos restaurantes de Ponta Delgada - hei-de
escrever sobre a grande falha turística da oferta de cozinha regional
genuína - vou dar duas receitas muito simples. A primeira é a
da açorda de hortelã, a tal que fazia as minhas delicias
e que ainda hoje faço tantas vezes. A segunda, em recordação
do meu pai, que sempre me dizia que era das coisa de que mais gostava
em criança, das que a minha avó lhe fazia.
Açorda de hortelã
Penso ser uma curiosidade para quem está habituado às
açordas alentejanas. Vejam que a técnica é exactamente
a mesma, provavelmente secular, mas com a variação dos
produtos locais.
Para 4 pessoas: 1 pão rústico, 3-4 cs de manteiga, 4 ovos,
um grande ramo de hortelã, 1 cabeça de alho, sal e pimenta.
Numa terrina, colocar a manteiga, o pão aos pedaços, os
alhos bem pisados e picados grosseiramente, sal e pimenta. Escalfar os
ovos deixando a gema líquida e usar a água a ferver para
embeber bem todo o conteúdo da terrina, que se deve tapar e deixar
abafar durante alguns minutos, antes de servir a sopa para pratos em
que se colocou um ovo escalfado.
Açorda de cebola e tomate
Para 4 pessoas: 1 pão rústico, 3-4 cs de manteiga, 4 ovos,
2 cebolas grandes, 1 tomate, 1 cabeça de alho, sal e pimenta,
1 c. café de açaflor (no continente, tem que substituir
este magnífico tempero por menor quantidade de açafrão,
mas não se compara).
Refogar na manteiga a cebola às rodelas finas, o alho pisado
e esmagado e o tomate picado. Acrescentar a água e os temperos
e escalfar os ovos. Servir para os pratos com bastante pão aos
pedaços.
Outubro 17, 2004
Turismo sem gastronomia?
Ao domingo, enquanto der a veia, vou continuar nas açorianices
e também, hoje, nas cozinhices. Volto a um tema a que já me
referi: a pobreza da cozinha tradicional micaelense na restauração
local. Há alguma coisa razoável, mas fora de Ponta Delgada.
Mas os turistas, na maioria dos casos, não têm carro e,
fora as excursões, ficam pela cidade. Em Ponta Delgada, ficam
os visitantes com uns vislumbres da riquíssima cozinha micaelense,
ainda por cima completamente diferente das cozinhas continentais que
conhecem. Podem comer uns bons filetes da excelente abrótea açoriana,
um bife barrado de alho e malagueta - num restaurante antes famoso, mas
que se pôs a dormir -, e pouco mais, porque me recuso a incluir
a moda, desde há uns anos, da morcela com ananás, pernóstica
e contra os sabores tradicionais (morcela é com ovo estrelado
ou com inhame, eventualmente com arroz). Ficam-me, para as minhas idas
rápidas a Ponta Delgada, dois restaurantes atascados onde ainda
se come bem e um outro restaurante popular nos arredores, onde o meu
habitual anfitrião me leva com frequência e para meu bom
proveito.
Não vou falar para os restaurantes normais, mas sim para os hotéis
emblemáticos, onde, a meu ver, se come mal. Até aí há uns
anos, no continente, havia a habitual cozinha de hotel, de estilo internacional
ou, mais precisamente, francês, tentando agradar a todos. Esta
cozinha precisa de imaginação e boa técnica, o que,
infelizmente, falta na minha terra. Hoje, no continente, em particular
em Lisboa, a cozinha de hotel reganhou pergaminhos. Basta ver os exemplos
do Hotel do Guincho e do Carlton. Só tenho pena de a carteira
não me dar para ir lá mais vezes. Por isto, os seus restaurantes
estão sempre muito mais cheios do que só com os hóspedes.
Voltamos ao Eça e ao jantar de hotel. Pelo contrário, a
cozinha dos hotéis micaelenses, mesmo os de 4 estrelas onde costumo
ficar, é paupérrima.
O turismo preferencial de S. Miguel devia ser um turismo de qualidade.
Para estes turistas interessados em mais do que "enlagostar-se" ao
sol, a experiência da boa gastronomia local é fundamental
e é um dos fortes atractivos turísticos. Mas o problema
não é simples, porque a cozinha micaelense pode ser demasiadamente
agressiva para os hábitos dos turistas, hoje em boa parte escandinavos.
Há duas possibilidades. A primeira, que é a que aqui se
pratica na boa hotelaria, é adaptar a cozinha tradicional a uma
certa forma de gosto internacional. Nas minhas receitas, para estar certo
de que os meus amigos não vão estranhar a cozinha, tenho
dezenas de exemplos de receitas de boa cozinha com "toque" açoriano,
mas estas não as forneço agora, que preciso delas para
o meu próximo livro. A alternativa, que prefiro, é a de
ementas separadas: uma ementa de alta cozinha internacional e uma ementa
paralela de cozinha local genuína e até perdida. Não
deve é ser muito extensa, para ir abrindo o apetite para a sua
mudança frequente e para permitir uma confecção
esmerada.
Um dia destes, elaborei um projecto meu de uma tal ementa dupla. De
receitas micaelenses genuínas, de entradas a sobremesas, são
quarenta, claro que para ir variando. E são apenas uma selecção
de pratos de que tenho receitas que julgo genuínas, embora talvez
não de origem tipicamente popular. A minha herança gastronómica
micaelense vem da minha avó paterna, cujos cozinhados tinham fama
e merecem ser recuperados com exemplo da melhor cozinha tradicional micaelense,
apurada por um gosto mais educado e elaborado. Mas não bastam
os títulos ou as receitas, é preciso saber confeccioná-las
com rigor e com boa memória dos gostos ancestrais.
Por razões afectivas, gostava que fosse o Hotel de S. Pedro a
adoptar este ripo de ementa dupla que proponho. Além disto, teria
um efeito multiplicador, na formação dos seus estudantes
de hotelaria. Far-lhe-ei uma proposta quando se aproximarem as próximas
férias (depois se verá o que tem a ver uma coisa com a
outra).
Quanto a livros, também acho pobre o panorama. Há um confrangedor,
numa colecção de cozinha das várias regiões
do país. Outro, de edição regional, é um
trabalho esforçado, mas resultante num amontoado de receitas frequentemente
contraditórias, muitas das quais tenho experimentado sem que me
façam lembrar os paladares de infância. Fico com pena quando
muitos conhecidos continentais me pedem a indicação de
um livro. Obviamente, tenho que proteger o meu, mas lá vou dando
uma ou outra receita genuína. Ainda hoje, tive um caso destes,
a que não pude resistir. Um brasileiro com ascendência açoriana
pedia-me uma boa receita de alcatra. Lá foi, com muito gosto em
corresponder a um interesse vindo de tão longe.
E, já agora, hotéis da minha terra, deixem-se dos bufetes.
Pode ser prático mas é uma coisa horrorosa para qualquer
pessoa com bom gosto gastronómico, de que faz parte, obrigatoriamente,
um bom serviço de mesa. Os bufetes só são aceitáveis
em restaurantes de almoço de negócios com pouco tempo e,
nunca por nunca, ao jantar. Os suecos gostam disso? Mau sinal para o
que deve ser um turismo micaelense de alta qualidade. Deixem cair esses
suecos e procurem mercados de qualidade.
PS - Já aqui tenho falado do meu livro, "O gosto de bem
comer", mistura de normas gastronómicas, indicações
de boa técnica, conselhos para uma cozinha do dia-a-dia de boa
qualidade, muito para cima de uma centena de receitas da minha autoria,
receitas de família até agora em segredo, uma selecção
de cozinha açoriana, tudo embrulhado em muitas histórias
e recordações. Vai ser publicado pela Caminho, a minha
editora. Eu queria um livro simples, mas eles acham, para meu agrado,
que o livro merece uma edição especial. Por isto, vai demorar.
Só para fotografias, com que não contava, vou ter que cozinhar
muito por estes próximos tempos - proveito para os meus amigos.
Provavelmente, só sairá em Outubro de 2005. Fica para prendas
de Natal.
Outubro 31, 2004
Poetas açorianos esquecidos
Vou abrir hoje uma nova série de entradas temáticas do
dia de açorianices. Portugal é um pais de poetas, mas,
como em muitas outras coisas, os açorianos estão na primeira
linha. Antero, Nemésio, Côrtes-Rodrigues (Violante de Cysneiros),
Natália Correia e outros tiveram projecção nacional
e entraram na história da literatura portugueses. Mas há inúmeros
outros, com mérito, que não tiveram essa projecção.
Quero dá-los a conhecer, servindo-me essencialmente de um livro
que não sei se ainda se vende, "Antologia poética
dos Açores", extensas 522 páginas compiladas por Ruy
Galvão de Carvalho, insigne professor de liceu e, depois, da Universidade
dos Açores.
Por razões sentimentais, compreenderão que comece por
José da Costa, apesar de também ter a isenção
suficiente para dizer que, com tudo o que lhe devo e com a memória
inexcedivelmente veneradora que dele tenho, não é dos meus
poetas favoritos. Acho que, às vezes, a excessiva preocupação
com o rigor formal lhe tolhia um pouco a livre imaginação
poética, que tinha. Segue-se a nota biográfica de Ruy Galvão,
que omite um aspecto relevante. José da Costa era um homem de
profunda religiosidade, que impregna toda a sua poesia. Daí o
título de um dos seus livros: "Acordes Místicos".
"Nasceu na freguesia da Ponta Garça a 19 de Junho de 1881 e
faleceu, em Ponta Delgada, a 10 de Maio de 1963. Professor da Instrução
Primária e Explicador de Português e Latim de sucessivas gerações
de estudantes liceais e mesmo de pessoas interessadas no conhecimento dos
segredos e particularidades da língua-pátria. Mestre no verdadeiro
e elevado sentido da palavra, dotado de uma memória prodigiosa e
de uma inteligência aguda. Culto bastante. O seu lugar devia ter
sido numa universidade ensinando Humanidades.
Foi o Prof. José da Costa publicista, colaborou na imprensa e
fez versos. Poeta, um poeta clássico, um poeta que faz versos,
e fá-los segundo as regras da Poética. Com medida e perfeição
formal. Foi também pintor-miniaturista.
Dele são: Stabat Mater, poema em latim com tradução
(1926), o poema heróico-cómico Saltapíada ou a Casula
Negra (1949) e Acordes Místicos (1963). Estes os volumes que publicou.
Os versos não incluidos e dispersos pelos jornais, dariam para
mais volumes." (RGC)
RESIGNAÇÃO
(Junto à sepultura de meus filhos)
Julguei que minhas mágoas iludia
chorando-vos aqui, em soledade;
mas só quando vos vir na eternidade
há-de ter fim a Dor que me crucia.
Já vejo aproximar-se, lesto, o dia
em que tem de morrer esta saudade;
já vislumbro a perene alacridade
em que se há-de volver esta agonia.
E a minha alma não olha, sucumbida,
para a terra em que estão bebendo vida
raizes de ciprestes e de túias...
A Cruz, que é glória minha e é meu norte,
diz-me que além da Noite, além da Morte,
brilham clarões de eternas alelúias.
Dezembro 12, 2004
O meu 8 de Dezembro
Devia ter escrito no dia, mas guardei para as açorianices de domingo.
Como sabem os que me conhecem, esta data não me toca como festa
religiosa, mas o dia diz-me muito, por memórias da minha infância.
Nem sei se era originalidade micaelense ou se também se passava
em outras terras. Era o dia das montras, costume que, ao que leio, ainda
se mantém. Começava aí o período das compras
de Natal e todo o comércio de Ponta Delgada se engalanava, com
requintes de decoração das montras e exposição
dos produtos a apetecer compra de prendas natalícias. Mais para
o fim da tarde e à noite, toda a cidade, de fato domingueiro,
vinha para o centro. Era difícil passarem automóveis, tal
era a multidão a ocupar as ruas. Via-se as montras mas também
se faziam grupos de pessoas amigas, a conversar em plena rua.
Era uma noite de alforria, para mim e para os meus irmãos habituados
a deitar com as galinhas. Separávamo-nos dos meus pais, com reencontro
a hora marcada. Eles iam ver as montras das poucas lojas de boa costura,
de artigos domésticos ou, à falta de livrarias, as secções
de livros da Papelaria Âmbar e de outras papelarias. Não
faltava também a Ourivesaria Martins do Vale, para eles a melhor,
dos tios do actual Presidente do Governo Regional. Que bem que ainda
me lembro dos simpatiquíssimos irmãos Martins do Vale,
provavelmente já falecidos. A compra de ourivesaria, sempre a
acrescentar à prataria da casa, era para os meus pais, na época,
o melhor meio de investimento.
Os três miúdos, ataviados de festa, fatinho igual e já de
gravata, faziam a ronda das lojas de brinquedos mas tinham uma atracção
especial por uma espécie de loja dos 300, que de tudo vendia,
a Loja das Variedades, na R. do Valverde. E, sobretudo, o célebre
pato, sobre um grande espelho debruado a prata. Mistério da física
que ainda não dominávamos, o pato ia aquecendo e, com a
dilatação do líquido interior, inclinava-se até um
pequeno tanque de água. Arrefecia então e voltava à posição
inicial.
Ah, pato querido da minha infância, bem gostava de o ter!
Dezembro 25, 2004
Presépio (I)
Já muitas vezes aqui falei da figura emblemática do meu
extraordinário avô prof. José da Costa. O prof, com
minúscula, significa um modesto professor primário, mas
com a verdadeira nobreza de um espírito superior e de uma cultura
invulgar. Um pouco aventureiramente, já sugeri que, na sua prole
de quase sessenta netos, eu era o neto preferido. Sei o que isto é.
Filhos são todos iguais, mas netos, às vezes, já é diferente.
Anos e anos, sempre o meu avô fez um presépio magnífico,
com figuras à Machado dos Santos, provavelmente bem antigas, mas
que não sei por onde param, nas partilhas complicadas de uma família
numerosa. Recolhia as melhores pedras do cascalho local para a gruta,
ia ao campo recolher as palhas mais bonitas, e, principalmente, pintava
ele o cenário, a anil e prata, até a cegueira o diminuir.
Era então que me chamava especialmente, como seu sucessor, como
também já tinha sido o meu pai. Quantos céus pintei,
com estrelas e o imprescindível cometa! E quantas vezes o meu
avô, já limitado na visão, confiou na "arte" do
neto!
Dezembro 26, 2004
Presépio (II)
Vou continuar a falar de presépios. Não podia deixar de
recordar o grande presépio da minha meninice, o da Matriz da Ribeira
Grande. Em tempos de automóvel coisa de luxo, os citadinos deslocavam-se
como podiam aqueles longos 20 Km para verem o presépio espectacular,
espalhado por todo o chão da sacristia - não garanto, talvez
fosse outra grande sala. Havia de tudo, até, se não me
engano, um comboio eléctrico e um lago com barquinhos. Em cantos
diferentes, cenas da vida local, da lavoura à faina agrícola
familiar, incluindo - lembro-me bem - uma matança de porco. E
também carrinhos de lata, passeando-se pelas estradas estreitas
do meu tempo. Bandas de música e marcha de soldados também
não podiam faltar. Era difícil os meus pais convencerem-nos
de que eram horas de voltar para casa.
Dezembro 28, 2004
A mijinha do Menino
Continuo hoje em onda gastronómica, agora da minha terra. No meu
tempo de menino, havia uma hierarquia bem definida de formalidades de
Natal. A uns, mais distantes, mandava-se telegramas. A seguir, aqueles
a quem se enviava um postal, com assinatura manuscrita. Depois outros,
pessoas especiais, a quem se enviava uma oferta de doces, no nosso caso
os torresmos doces, segredo de família da minha avó. Lugar
especial tinham os grandes amigos e a família, que mereciam visita
pessoal durante a semana entre o Natal e o Ano Novo.
Toda a gente estava preparada para estas visitas, de mesa sempre posta
com doces e os indispensáveis licores, a "mijinha do Menino".
Cada família se aprimorava na pelo menos meia dúzia de
licores e cultivavam algum secretismo neste primor familiar, muitas vezes
o contributo masculino para as festas. Se juntarmos todas as provas da
mijinha, a colecção de licores açorianos é enorme.
Também eu tenho os meus segredos, incluindo uma boa dúzia
de licores inventados por mim (de maçã; de zimbro; de ovo,
canela e conhaque; de laranja, chocolate e vinho do Porto; de televisão!?...,
etc.). Mas o licor emblemático dos Açores é o de
leite. É o único licor que conheço que não
passa pela preparação convencional do açúcar
em xarope, é apenas um longo macerado. Há milhentas receitas,
mas nunca bebi um tão equilibrado entre o doce e seco como o do
meu avô materno, receita depois legada ao meu pai por falta de
filho varão. Como acho que o património gastronómico
se deve partilhar, embora com direitos de autor, aqui vai a receita.
1 l de leite, 1 kg de açúcar, 1 l de álcool, meia
vagem de baunilha, 1/4 de uma tablete de chocolate de leite, um limão
pequeno.
Misturar todos os ingredientes, com o chocolate raspado e o limão
aos bocados, com casca. Agitar duas vezes ao dia, durante 10 dias. Coar
por papel de filtro ou por um pano, devendo ficar transparente mas com
cor dourada.
Janeiro 02, 2005
O regresso aos Açores
A primeira açorianice de 2005 é dedicada a um velho amigo.
Desde que viemos estudar, poucas vezes nos encontrámos mas, há dias,
viajando juntos, pusemos as recordações em dia, numa excelente
cavaqueira como ele bem sabe fazer. Reformado como eu, já concretizou
aquilo que, para mim, ainda é um desejo: passar metade do ano
nos Açores, a outra no continente. O que é curioso é que
ele, micaelense de gema, optou por se instalar semestralmente noutra
ilha. Diz-me que S. Miguel, para ele, é um sofrimento - já não é a "nossa" gente,
sente-se perdido entre pessoas que não lhe dizem nada, acentuam-se-lhe
as saudades da juventude.
Senti, por mim, que ele deve ter razão. Escrevi num livro que
espero que saia em breve:
"Hoje, a minha cidade já não é da minha gente
real, cansado que estou de desejar inutilmente um encontro casual em plena
rua com um velho amigo ou simples conhecido. Passeio-me na cidade como
se todos os outros fossem simples passantes. Para mim, a cidade é menos
de gente e mais física, ruas e casas, mas todas a evocarem-me a
gente com quem me cruzava e convivia, aquela que para mim, hoje, continua
a ser a minha gente real. Recordo o tempo em que a minha propriedade da
cidade fazia parte de um variado conjunto de pequenas sociedades por quotas,
cada uma, como a minha e dos meus amigos, pretendendo a cidade como sua,
com visão muito própria. Hoje vejo-a como uma grande sociedade
anónima, de accionistas que desconheço inteiramente, o que
me deixa à vontade para assumir a minha própria postura de
accionista anónimo. Os outros vivem abafados na realidade de uma
pequena cidade isolada, votam, discutem a pequena politica local. Eu apenas
recebo os dividendos, não tenho que me preocupar com a realidade
porque até nem tenho voto da assembleia geral dessa sociedade, e
posso imaginar a cidade como me apraz, sabendo que nela estou a conviver
com uma realidade actual, mas em que posso enxertar com liberdade a visão
que desejo".
Esta é a atitude do micaelense que lá vai episodicamente.
Mas concordo com o meu amigo em que, provavelmente, não é atitude
que se possa manter durante seis meses seguidos.
Janeiro 09, 2005
Picuinha histórica
Num artigo do Público, a propósito da guerra jardinesca
para desalojar do Palácio de S. Lourenço o Ministro da
República, escreve o jornalista madeirense Tolentino de Nóbrega
que aquele palácio foi "residência de capitães
donatários, morada dos governadores gerais (1581-1640), dos capitães
gerais (1640-1834) e dos governadores civis (1834-1974)". Esta referência,
que presumo correcta, surpreende-me por mostrar algumas diferenças
na história do governo dos dois arquipélagos. Mas tenho
que discutir isto com cuidado: da história dos Açores sempre
vou sabendo alguma coisa, mas nada da madeirense - com pedido de desculpas
aos meus bons amigos da região irmã. Não sabia que
a instituição do cargo de capitão geral (não
será capitão general?) na Madeira tinha sido muito anterior à dos
Açores, que só aparece com o pombalismo, em 1766.
Mas isto serve-me de pretexto para um esclarecimento sobre uma confusão
muito frequente. Capitão donatário foi coisa que nunca
houve, embora se desculpe a referência por contracção
da verdadeira expressão, capitão do donatário. A
donataria era uma relação feudal que implicava cedência
prática de soberania - esta sempre do rei - e não era,
obviamente, para fidalgos menores ou cavaleiros de baixa estirpe. Dos
bem conhecidos, João Gonçalves Zarco e seus descendentes,
Gonçalo Velho, Rui Gonçalves da Câmara, Jácome
de Bruges, Álvaro Martins Homem, João Vaz Corte-Real, etc.,
nenhum foi donatário. Primeiro donatário foi o Infante
D. Henrique, que legou a donataria e a administração da
Ordem de Cristo, intimamente ligada às descobertas, ao seu sobrinho
D. Fernando, depois transmitida aos filhos deste. Quando o último,
D. Manuel, ascendeu ao trono, incorporou a plena posse das ilhas no património
da coroa.
O que os referidos governantes das capitanias foram foi capitães
do donatário, seus representantes, por ele nomeados e a ele subordinados,
embora com largos poderes, inclusive o de usufruírem alguns direitos
senhoriais, como a cobrança de impostos sobre as moagens e outras
actividades. Portanto, meus patrícios, embora isto possa ser uma
picuinha, para sermos correctos, digamos sempre capitão do donatário.
Janeiro 16, 2005
Uma tradição micaelense de carnaval
Quinta feira, dia marcante da minha adolescência, mandei uma mensagem à minha
lista de amigos (incluindo os internéticos):
Há um costume de carnaval da minha terra que creio que não
tem correspondência cá. As quintas feiras que precedem o
carnaval são de amigos, de amigas, de compadres e de comadres.
As pessoas visitam-se em assaltos, todas mascaradas, e o anfitrião
tem que prever que vai ser assaltado e ter a mesa bem fornecida, especialmente
dos fritos, que cá são de Natal, e com destaque para as
excelentes malaçadas micaelenses. Hoje, é dia de amigos
na minha terra. Sei que hoje, aqui, não vai haver nenhum "assalto" à minha
casa. Bem gostaria. Mas é dia de manifestar a amizade.
As muitas mensagens de retorno desvaneceram-me. Sou um sentimental e
a misantropia horroriza-me. Eu sou um "parasita" psicológico
dos amigos. Bem gostava de ter um enterro à Big Fish, lembram-se?
Nesse dia, recordei para mim uma impagável memória de
infância. Quem conheceu o meu pai, sabe que ele era sisudo, muito
sério e pouco dado ao humor, a não ser umas anedotas de
estlo "british", uma influência que ele cultivava. Mas
tinha um amigo impagável de alegria e humor, o meu querido amigo
Teófilo. Com outro nome, será personagem importante do
meu livro "O mastro do Pamir". Um dia, amigo Teófilo
obrigou o meu pai a mascarar-se e decidiu da mascarada. O meu pai foi
de bebé, com uma grande fralda, touca na cabeça e uma grande
chucha. O riso dos filhos ecoou por toda a R. do Saco. O meu pai visita-me
sempre como nobre águia real. Um dia, vou exigir-lhe que venha
naqueles apetrechos.
PS - A escrita "malaçadas" tem muito que se lhe diga.
Eu fiz um híbrido de melaçadas (de melaço) e de
malassadas (mal assadas). Como gastrónomo, não tenho ideia
firme de qual a origem da palavra e da ortografia correcta. Como os fritos
de carnaval não têm nada a haver com pior ou melhor assados,
inclino-me para as melaçadas. Elas, no meu tempo, comiam-se normalmente
apenas polvilhadas de açúcar mas também, como na
minha casa, com calda, como os sonhos. Talvez, em tempos antigos, na
frustrada tentativa de introduzir em S. Miguel, ida da Madeira, a cultura
da cana, se servissem com melaço.
Janeiro 30, 2005
As lagoas de S. Miguel
A açorianice de hoje, mais uma vez fotográfica, não é para
os meus patrícios - e porque não? É principalmente
para os que já se deliciaram com estas paisagens ou que ainda
desejam vê-las.
Mas outras há, bem bonitas mas muito menos conhecidas: a do Canário,
as Empadadas, a de S. Tiago, a do Congro, a dos nenúfares (um
pequeno mimo da natureza).
Mas volto às três principais. Provavelmente morrerei com
a dúvida de escolher qual é a minha preferida. As Sete
Cidades perderam definitivamente a estranheza do contraste entre uma
azul e outra verde, recordação inesquecível da minha
meninice. Apetece-me vê-la se também quero pensar no homem,
naquela pequena mancha de casas que vislumbramos entre as duas lagoas
- e que gente magnífica -, lembrando-me sempre da Luísa
taberneira da minha juventude, padeira de Aljubarrota transplantada para
aquele covão de terra, mestra na escolha do queijo de S. Jorge
com que nos recheava um grande pão, quando lá acampávamos.
A lagoa do Fogo é toda outra coisa. Nem voz de homem, nem sinal
de presença animal, é pura natureza, no mais sublime, no
desenho do espaço, na conjugação com um simples
piar de milhafre. E, acima de tudo, o desafio ao turista apressado para
se deixar estar e ir vendo muitas e muitas lagoas diferentes, que cada
nuvem ao passar lhe modifica o retrato.
A lagoa das Furnas, outra diferença indescritível. É obrigatório
vê-la do Pico do Ferro (melhor ainda, do Salto do Cavalo). Ela
não vale por si, tem que ser vista no conjunto do vale magnífico.
Os turistas visitam as Furnas num dia, vêem as surpreendentes caldeiras
e comem o célebre cozido enterrado. Eu, conhecedor, posso dar-me
ao luxo de ir a férias a S. Miguel só para ficar uns dias
no hotel das Furnas (encantador no seu estilo modernista), descontrair-me
no parque, relaxar-me junto à fonte da piscina térmica,
absorver os vapores sulfúricos das caldeiras e explorar cada canto
e cada nascente daquele paraíso.
Como é que posso terminar? Só parodiando uma canção
pimba: "Eu tenho três amores, não sei de qual gosto
mais".
Janeiro 31, 2005
Se bem me lembro...
Que delícia! A esta hora, ganhei plenamente o meu dia. Sem nada
de jeito na televisão, fui fazendo zapping até me aparecer
a RTP Memória e logo com um velho "Se bem me lembro..." de
Vitorino Nemésio. Quem me dera saber conversar assim! E que comoção
ao ouvir-lhe aquele tão típico "Praia da Vitoira",
emblema da pronúncia praiense partilhado pela sua boa amiga e
minha querida avó.
Fevereiro 06, 2005
As memórias de infância
A açorianice de hoje é um pouco intimista. A infindável
reescrita do meu futuro livro de histórias cada vez me remete
mais para a revivência das minhas memórias de infância.
Na construção da minha açorianidade, e de mim próprio,
são um alicerce tanto ou mais forte do que a impressão
viva da diferença da paisagem, do mar, da arquitectura urbana,
de tanto mais. Um homem faz-se até aos vinte e, nesses vinte,
bem importantes são os da meninice. Depois, é como um vinho,
ou se fez muito bom e o envelhecimento só o melhora, ou é banal
e a vida estraga-o.
Quando é que acaba a infância? Podemos desenvolvermo-nos
em homens-meninos, coisa muito diferente de continuarmos meninos-homens?
Assunto complicado, que tem a ver com o perecimento do adquirido. Diz-se
que ninguém se esquece de nadar, patinar ou andar de bicicleta,
depois de aprendido em miúdo. Isto é prosaico. Há outras
coisas muito mais importantes que a vida oblitera, como saber voar em
fantasia, namorar aos cinco anos de forma tão diferente, sempre
com a pergunta inquieta de como é o pipi das meninas, saber apreciar
como néctar o dedo final da cerveja do pai nas festas do Senhor
Santo Cristo. Acima de tudo, a roturante morte da infância que é dizerem-nos
que o Pai Natal não existe. Na minha terra, era o Velho do Natal.
Não existe? Essa agora, quantas vezes eu o vi, escapando-se rapidamente
da despensa onde tinha deixado as prendas, depois de tocada a campainha
a chamar a miudagem? Confesso, no entanto, que sempre me ficou a atormentar
que o meu Velho do Natal não fosse a rotunda personagem a quem
eu escrevia as cartas dos desejos. Coitado, o meu tio Carlos não
podia fazer melhor, era magro que nem um espeto.
Há quem me diga que não teve uma infância marcante.
Não há infância imarcante, pode haver é infância
esquecida. Ela está lá sempre, para quem sabe ser sempre
um pouco menino no fundo dos modos de adulto. Conversando melhor, tenho
muito prazer em ver, frequentemente, que as minhas histórias vão
evocando as desses meus amigos mais preocupados com a vida do dia-a-dia.
Todas as nossas infâncias são marcantes, todos nos lembramos
dela; o problema é que, em geral, as arrumamos no lugar devido
de todas as memórias. São diferentes conforme a vida, mas
são todas marcantes, sejam as de "gente feliz com lágrimas",
sejam as que depois acordam como "raiz comovida".
Podem dizer-me que a sua infância foi vulgaríssima. Esquecem
a escola, fosse ela nos Açores ou no Alentejo, as reguadas de
uma qualquer D. Salete, o ranho sempre a correr de um tal Francisco,
os traques constantes de um Zé Gordo e a cabeça sobre a
carteira de um António, atascado com o seu pequeno almoço
de mata-bicho, uma sopa de pão e vinho. O que é preciso é um
sempre balançar entre a paixão pelos interesses que nos
motivam e uma memória viva das origens.
Fevereiro 08, 2005
O meu Carnaval
Apesar de não ser domingo, este dia não pode deixar de
ser de açorianice, sobre o meu carnaval. Vou falar no passado,
mas dizem-me que ainda hoje é assim. Não havia corsos nem
desfiles de mascarados. Na Terceira, em tempos de jovem da minha mãe,
havia umas batalhas de flores, coisa poética mas de meninas bem.
Em S. Miguel, era a valer, interclassista, as batalhas de água.
E tinham muito de militar, na distribuição entre combatentes
de infantaria, de cavalaria e entrincheirados nas fortalezas.
A infantaria era dos grupos ou independentes isolados que saíam à rua
com as suas duas armas principais. A seringa era um grande cilindro de
lata, com um êmbolo e uma extremidade afunilada. Levava uns bons
dois litros de água e havia sempre as tabernas abertas onde nos
podíamos reabastecer. Depois, as granadas, as limas, grandes cápsulas
de estearina cheias de água - havia uns selvagens que as faziam
sólidas - preparadas numas formas próprias que se vendiam
por toda a cidade. Eu, os meus irmãos e mais um dos amigos do
meu pelotão, passávamos os dias anteriores a fazê-las às
centenas. Combatíamos na rua, peonagem contra peonagem, mas também
contra os entrincheirados em casa. Estes, eram mais vítimas da
cavalaria motorizada, grupos reunidos em camiões de caixa aberta,
com grandes bidões de água, bombas e mangueiras potentes.
Mal sabia eu que, mais tarde, também iria reencontrar os camiões
de água, no Rossio, mas em condições muito menos
carnavalescas!
Havia duas tácticas quanto ao uniforme. Ou fato de borracha de
pescador, ilusão de armadura, ou então, como eu, mangas
de camisa à bárbaro porque, fato especial ou não,
ficava sempre molhado à mesma. E não havia salvação.
Quem saía à rua neste dia sabia bem qual era a regra do
jogo. Imunes à molhadela geral só as crianças pequenas,
os soldados fardados, os mascarados e as danças.
As danças eram impagáveis, descidas à cidade de
todas as freguesias. À frente o general, de farda de gala, com
um indispensável apito a marcar as ordens. Depois os pares de
homens e de "mulheres". Que mulheres! Façanhudas e às
vezes até de bigode, peito enorme, maquilhagem o mais garrido
possível, sapatilhas porque os pés de camponeses não
davam para calçado feminino. Havia duas modalidades: as danças
de arcos em grinalda, como aqui as marchas dos santos populares, e as
de cadarços. Coisa curiosa, vemos estas também na Catalunha,
danças à volta de um mastro, de que pendem fitas seguradas
pelos dançantes e que a coreografia vai enrolando à volta
do mastro.
O mal é que as danças terminavam sempre prematuramente.
Com paragem obrigatória em cada taberna, ao fim já nem
apito de general dava para compor o grupo e o vinho pesava mais do que
a vontade de entrudar.
Fevereiro 13, 2005
Os romeiros de S. Miguel
Hoje é o primeiro Domingo da Quaresma, o que impõe um tema
para as açorianices: os romeiros de S. Miguel. Mesmo para um não
crente, a açorianidade não se pode dissociar da especial
religiosidade do povo açoriano, profundamente ligada ao Deus judaico-cristão
mas também com muitos vestígios de paganismo medieval,
cristalizado em séculos de isolamento. É a religiosidade
ancestral da necessidade de socorro em relação às
malfeitorias da natureza. Senhores e camponeses, ricos e pobres, fidalgos
povoadores e plebeus que com eles foram à aventura, todos ficavam
igualados na pequenez indefesa de uma fúria telúrica, hoje
muito atenuada, mas ainda bem viva nos primeiros tempos do povoamento.
Os primeiros ranchos de romeiros formaram-se em consequência de
calamidades que açoitaram o povo micaelense e que, na linguagem
popular, têm o nome de "castigos". O micaelense de 500
nada sabia das forças da natureza, mas tinha consciência
dos seus pecados, cujo castigo era a ira divina, terramótica ou
vulcânica. Segundo a tradição, os romeiros tiveram
origem no grande sismo de 1522 que parcialmente destruiu Vila Franca
do Campo, destruição completada pelo desabar de um monte
que lhe ficava a cavaleiro. De facto, parece que as romarias são
um pouco posteriores e datam de outro cataclismo, as enormes erupções
vulcânicas de 1563, que atingiram praticamente toda a ilha. A lava
escorria por todos os montes, iluminando a noite, enquanto as cinzas
e fumos toldavam o dia. O melhor é ler Gaspar Frutuoso.
Castigos de Deus, ainda hoje assim os vê o micaelense e pede misericórdia
nas romarias da Quaresma. São dezenas, cada ano, os ranchos de
romeiros, grupos só de homens, não só populares
mas também, com frequência, gente abastada. Confessados
e comungados na manhã do domingo de partida, percorrem a pé toda
a ilha, subindo e descendo montes para visitar todas as igrejas e ermidas
de invocação da Virgem. A indumentária é uniforme:
sapatos grossos, roupa simples, um xaile de lã aos ombros e um
lenço enramado na cabeça, saca de pano à bandoleira
para os víveres, um bordão e, inevitavelmente o terço,
aliás dois, um na mão e outro ao pescoço - já vão
ver porquê. Formam em duas filas, de cada lado da estrada. Ao meio,
só algumas figuras destacadas. À cabeça, o porta-cruz,
o mais novo do rancho, geralmente uma criança, que isto de romeiro
começa de pequenino, quase que como um rito de iniciação.
Até nisto há regras; a cruz está erguida e virada
para a frente enquanto os romeiros rezam cantando, mas o porta-cruz vira-a
para si e reclina-a sobre o braço esquerdo enquanto os romeiros
descansam. Ainda ao meio, mas atrás, vem o mestre, obedecido por
todos os romeiros como se fosse abade medieval. A fechar, o procurador
das almas, o que recebe os pedidos de oração das pessoas
que vêem passar o rancho.
A disciplina é rigorosa. A boca do romeiro só se abre
para cantar as rezas, qualquer outra conversa necessária só depois
de autorizada pelo mestre; regra cumprida mesmo nos momentos de descanso,
deitados nos taludes de leiva à beira da estrada, abrigados debaixo
de uma criptoméria da chuva incessante de Abril.
Nas conversas excepcionalmente consentidas, nunca o tratamento pelo
nome. Durante a romaria todos têm só um e o mesmo nome,
irmão. Mesmo à noite, recolhidos por quem os acolhe, evitam
conversas uns e outros, quase que só um agradecimento pelo jantar
obrigatoriamente frugal, banho e cama que lhes são dados. E é sagrado
dar-lhes abrigo, como sempre fez a minha mãe. Muitas vezes fui
eu dormir para o sótão - a falsa, como se diz na minha
terra - para um romeiro dormir na minha cama, não sem antes rezar
um terço pela família de acolhimento. Este terço é rezado
com aquele que eles trazem ao pescoço e é deixado à guarda
da dona da casa - que frequentemente também reza por ele, com
a família - até ser recolhido antes da partida para mais
uma jornada.
Uma das obrigações dos romeiros é a encomendação
das almas, cantada como que num lamento vindo ainda dos tempos medievais.
As gentes por que passam os ranchos de romeiros limitam-se a um código
simples, pergunta quase silenciosa do procurador das almas, "Quantas?" E é uma
troca de deveres, orações por quem pede, no número
de romeiros, e, tantas quantas as almas encomendadas, ave-marias cantadas
pelos romeiros, ao longo da estrada, a terminar, à chegada a cada
igreja ou ermida, pela tal linda e comovente oração medieval
da encomendação das almas. Curioso é que o número
real de romeiros é sempre acrescentado de três, porque com
eles vão também três romeiros invisíveis,
Pai, Filho e Espírito Santo, outras vezes Jesus, Maria e José.
Nas igrejas por onde param, e onde se vê que há um rancho
pelos bordões todos alinhados no adro, cantam a encomendação
das almas. Ao longo do caminho, naquela contabilidade complicada de almas
encomendadas e de orações, gerida pelo procurador, que
as vai abatendo da lista terço a terço, vão recitando
incessantemente a sua característica Ave Maria, completamente
diferente da litúrgica, que acho que vale transcrição:
Sempre o Senhor é convosco
Bendita sois vós Senhora
Entre todas as mulheres
E a todas superiora.
Bendito é o fruto
Do vosso ventre Jesus!
Jesus que por Vosso Amor
Morreu nos braços da Cruz.
Santa Maria que sois
Mãe de Deus e nossa esperança
Nossa Mãe, nossa alegria
Nossa paz e segurança.
Rogai por nós pecadores
Ó doce estrela do Norte
Agora, sempre e depois
Na hora da nossa morte
Assim seja, assim o espero,
A minha alma em Vós confia,
Ave, Maria assim seja
Assim seja Ave, Maria!
Ave, Maria de Deus Padre
Ave do Filho e Sacrário
Do Espírito Santo Esposa
Da Trindade o Santuário.
Com esta vivência infantil e com os meus hábitos de família,
não admira que um impenitente incréu, como eu, me continue
a impressionar tanto com as manifestações religiosas do
meu povo, genuínas e ancestrais. É uma dimensão
cultural que não enjeito.
Fevereiro 27, 2005
O meu professor de Moral
Há coincidências curiosas. Pessoas de que não nos
lembramos há muitos anos e que, subitamente, nos são evocadas
por mais do que uma vez, em breve espaço de tempo. Numa viagem
recente com um amigo, ri-me com o que ele me fez recordar de uma figura
da nossa vida de liceu. Voltei a recambiá-la para o esquecimento,
mas ontem a minha mãe, ao que creio pela primeira vez, referiu-me
outra vez o nome. Tomei isto como um sinal de sentido obrigatório,
a exigir-me que fale do meu professor de Moral.
Foi um precursor de alguns dos conhecidos padres mundanos. Creio que
a humildade não era virtude cristã de sua grande estimação.
Normalmente, era ele que celebrava a missa dominical a que ia a minha
família. As suas homilias eram um portento, não só pelo
empolamento pomposo de uma entoação de fala que cultivava,
começando a frase em dó menor e acabando em si maior, mas
por coisa mais invulgar: a exibição de cultura. Entre a
explicação de uma parábola ou a citação
de um evangelista, mais de metade da prédica eram citações
que iam desde Pascal até, pasme-se, Einstein. Até fazia
critica de Freud, imaginam bem a que propósito!
No desabrochar da minha adolescência, quando ainda me confessava
(quase sempre o mesmo pecado), era o porta-voz de um anúncio terrível
de inevitável eternidade de fogo e enxofre.
Tinha uma coisa positiva... Entendia que o seu ensino devia incluir
a formação cívica. O problema é que este
cívico tinha para ele um significado muito particular, ao seu
estilo mundano: o da etiqueta de vida social. Aí era impagável.
As histórias que me foram ocorrendo durante esta escrita são
demais para uma entrada, mas não resisto a contar - ou a recordar
aos do meu tempo - a mais emblemática, sobre o tema de como nos
sairmos bem de situações embaraçosas.
"Viajava eu no Vulcânia e serviram ao jantar uma entrada
de camarões, coisa então desconhecida nos Açores.
Entretido em conversa científica com um prémio Nobel americano
(JVC: esta é minha, desculpem lá meter a colherada), mal
reparei que o criado me pôs junto ao prato uma taça com água
e uma rodela de limão e, logicamente, comi o limão. Pareceu-me
então que os companheiros de mesa me olhavam surpreendidos e reparei
que estavam era a molhar os dedos. Ora vejam, meus meninos, como é que
devemos proceder nestas alturas. Virei-me, chamei o criado e disse: gosto
tanto de limão que primeiro como-o e só depois é que
o uso para lavar as mãos. Traga-me outra taça, por favor."
PS - Nas nossas festas de liceu havia sempre o número imprescindível
da impagável imitação pelo José Salomé.
Por onde andará o Salomé? Se algum leitor o souber, diga-lhe,
por favor, que este escriba lhe envia um abraço saudoso.
Março 06, 2005
Restaurantes de cozinha regional micaelense
Já aqui referi a pobreza da oferta gastronómica tradicional
na restauração da minha terra. Há bons restaurantes, às
vezes quase tascas, onde se come bem. Mas ou são fora da cidade
ou então não adequados a um convite a um hóspede
de cerimónia. Não estou a ver o reitor da Universidade
levar um convidado a um dos meus preferidos de Ponta Delgada, bem popular,
o Avião (tasca infecta no meu tempo). Também não
ao balão da Ribeira Grande, à tasca de peixe da Relva de
que já não recordo o nome (mas que bela abrótea,
de todos os feitios), ao Zé da Atalhada, mas, porque não,
já com melhor aspecto, ao muito bom Jaime da Vila Franca.
Nesta minha última ida à minha terra, tive uma surpresa.
Não vou fazer publicidade, mas espero que as agências de
viagem o conheçam e recomendem aos turistas de qualidade. É um
restaurante de hotel. Ao almoço, os clientes têm, em bufete,
larga escolha. Podem ir para tudo o que é convencional, mas também
podem fazer uma entrada como eu fiz: morcela (pena que mal frita e de
qualidade mediana (então não há as do Costa e as
do Cavalo Branco?), linguiça aceitável (há muito
melhor), torresmos (têm que ser mesmo de molho de fígado!),
queijo fresco com malagueta, sarrabulho e uma pasta de linguiça
(ambos muito bons). Imperdoável, faltou o pé de torresmo
e uns "charrinhos" de molho de vilão, servidos frios,
no dia seguinte. Intenções muito boas mas, como vêem
pelos parênteses, algumas falhas.
Passando aos quentes, o mesmo critério. Alguns pratos para turistas
que não querem aventuras gastronómicas, já nem lembro
quais, mas, em destaque, o nosso polvo guisado e a feijoada assada, tipicamente
micaelense. Faço os mesmos reparos. Quanto à feijoada,
muito bem, embora lhe faltasse o mel e a canela, imprescindíveis.
O polvo é que não! Molho mal apurado, ausência do
indispensável cravinho (ou da pimenta da Jamaica), batatas no
próprio guisado (concordo que o turista quer acompanhamento, mas
façam umas simples batatas cozidas à parte, porque não
há nenhum polvo guisado com esmero que resista à junção
das batatas ao guisado).
Desilusão na mesa das sobremesas. Não conhecem a riquíssima
doçaria açoriana? E os bons queijos? Nem sequer um bom
Topo, muito menos um Pico que não se encontra cá.
Em conclusão, iniciativa muito meritória, oportunidade
para um micaelense poder mostrar a um amigo, em ambiente de qualidade,
a nossa gastronomia. Mas muito a melhorar, na qualidade e confecção
genuína. Onde estão os bons cozinheiros de S. Miguel, herdeiros
da cozinha de família? Grupo Bensaúde, não querem
um bom contrato de consultoria, idealização de ementas
e fornecimento de receitas genuínas?... Sugiro também uma
pequena secção da cozinha aristocrática açoriana.
Tenho muito a fornecer!
Saudades da Terra
Hoje arrisco-me a uma entrada sentimentalista,
talvez piegas. Quinta feira, em época de Quaresma, passeando-me
por Ponta Delgada, tive uma grata mas comovente surpresa. Comecei a ouvir,
ao longe, uma toada familiar, que se foi revelando como a tradicional
ave-maria dos romeiros. Pouco depois, lá os vi, em plena rua central.
Que saudade, desde há mais de quarenta anos! Calculando para
onde iam, lá os segui até à igreja da Esperança
e assisti a toda a cerimónia, primeiro no adro, depois dentro
da igreja. Relembrei cânticos esquecidos, enquanto conversava com
um velho da Lomba da Maia, origem do rancho, que chorava porque uma artrose
já não o deixava ir no rancho, mas que tomava diariamente
a camioneta para se encontrar com os seus romeiros, a maioria dos quais
na casa dos trinta, sinal da pujança desta tradição
micaelense, única.
Ouvi a encomendação, as orações pelas almas
- que, mesmo à última hora, já no adro, as pessoas
iam depositar na conta do procurador das almas -, o pedido de protecção
contra os castigos, o louvor à Senhora da Esperança, anfitriã de
momento daquele rancho. Para terminar, a emoção do pungente "Senhor
Deus, misericórdia!", que está no meu "site" como
oração mista, de mulheres e homens, no terço do
Espírito Santo, mas em tudo igual à dos romeiros.
Porque é que falei em pieguice? Porque não posso deixar
de fazer uma confissão: bem bom que tinha comigo um lenço,
porque bastantes foram as lágrimas de comoção que
tive que enxugar. Quando a açorianice dá para sentimentalismo...
Desculpo-me com o tal velho, também com olhos rasos de água.
PS - Que pena não ter tido comigo nem gravador nem máquina
fotográfica. Aqui fica uma que googlei, com agradecimentos a um
autor desconhecido.
PS 2 - Falando sobre isto com o Reitor da Universidade, meu anfitrião,
disse-me ele que tinha acabado de despachar uma licença de uma
semana para um professor poder ir num rancho de romeiros. Não
admira, é filho de um professor de liceu, romeiro inveterado,
amigo de família, Hoje já com idade impeditiva de tal esforço
físico. Herança de família não são
só dinheiros, são também as tradições.
Os pícaros açorianos
Em alguma coisa temos que ser quadrados. Para mim, é no respeito
auto-submisso por alguns hábitos estabelecidos, entre os quais
a sesta de Sábado. Das duas às quatro, sem falta. Às
vezes, estes hábitos querem ter vida própria, libertarem-se
do nosso domínio e foi o que me aconteceu ontem, quando o sono
se aborreceu de estar ao meu serviço e desertou meia hora antes
do regulamento. Como sou teimoso, cumpri em semi-modorra, crepuscular,
o tempo faltante. Nestas alturas, vêm-me à cabeça
ideias tontas ou palavras fora de qualquer lógica. Ontem, não
sei porquê, foi "picaresco".
Gosto muito das novelas picarescas. Releio sempre com prazer o "Lazarillo
de Tormes" ou o "Chapéu de três bicos". O
significado de picaresco tem variado e não merece unanimidade.
Os interessados podem ler na internet um bom mini-ensaio sobre o tema.
Eu uso-o impropriamente num sentido muito largo: uma narrativa, novela
ou romance sobre personagens que alguns diriam "simplórias",
ou tipos populares vivaços e extravagantes, tudo recheado obrigatoriamente
com muito humor. Até mesmo, numa noção muito irregular
e cortesã do picaresco, para um certo estilo de narrativa sarcástica,
de que destaco, como exemplo o meu muito relido "A crónica
do rei pasmado", de Ballester.
O que é que isto tem a ver com açorianice? É que,
para mim, muita da literatura regionalista/universal açoriana
me evoca, com imprecisão, confesso, a literatura picaresca. Os
contos de Nemésio estão cheios disso, bem como a trilogia
de romances de Cristóvão de Aguiar, "Raiz comovida" -
desculpa lá, meu querido amigo, se levas isto a mal, mas é um
grande elogio. Mesmo autores desconhecidos, como Tomás Vieira,
essencialmente um bom pintor, mas que se aventurou pela escrita numa
narrativa pitoresca/picaresca, "Herdar estrelas". Vou deixar
aqui um exemplo, o final do conto "A burra do Lexandrino",
de Nemésio. Aquele Lexandrino conhecido do tio Matesinho, que
ia dar água à burra à meia noite.
Em vão João Calceta, prático e piteireiro, queria
obrigar as ventas do garrano, mal babadas da água, ao tanque espelhento
de lua e sonoro das bicas a correr. Cego para fontes de amochar, sedento
sim mas da burra, o Fadistinha fincava-se nas ferraduras de trás
e sacudia o focinho.
- Ah, filho da mãe! - careteava o Calceta, passando a arreata à mão
esquerda para o esmurrar com a. direita: - Come-te a natura, estapor?!
A fome é tanta, exquemungado, que já uma burra te serve
prò pulga-piolho, ladrão?! Olh' ... olh' ... olha! ...
- Fuge, sô Lexandrino! Fuge! ... - grita-lhe Camarinho. Mas já não
foi preciso, nem. ao Calceta o reparo, nem ao Camarinho o arreda. Certeiro,
decisivo, o garrano do Calceta fez o que tinha a fazer. E, diante do
Camarinho e do Furão dobrados a rir pelos rins, diante do Çalceta
varado ao ver o seu rico garrano em acção (com licença!)
de padrear, Lexandrino fitava os cabeções_ do capote como
quem se livrou de boa. Depois, fitou Carlota. Não mais me há-de
esquecer o seu olhar dorido ante a burra já dona, seu ar de decepção,
de escândalo e de engulho! Nem noivo preterido, nem amante logrado
fizeram jamais a cara siderada de Lexandrino diante da trela caída,
da burra serena e fecundada...
Do coito nocturno e escandaloso - sacrílego, se atendermos ao
que Lexandrino, pajem de boa fé, ia cantando à ilharga
dela - nasceu (para encurtar). a mula do Jé Inácio. Como
saísse rabeira, cor de café com leite, e sendo o garrano
do Calceta negro como azeviche,- a burra do Lexandrino perluxosa e alvacenta,
Joaquim Camarinho declarou rudemente, coram populo :
- Sai ò pai e atira à mãe...
(Eram assim, cândidos e brutais, os velhos com quem me criei e
que meu Pai me ensinou a estimar.)
Que a burra do Lexandrino foi leviana e devassa?! Mas se ela é que
era a mãe da mula do Jé Inácio, casta, redonda,
rabeira, que me levou de carroça à primeira entrevista
de amor, com o coração aos pulos? ? E se o Sr. Lexandrino,
que ensinou meu Pai a cantar, a criou como a uma filha? ... Façam
o favor de me dizer como é que a hei-de julgar...
Perdoem-me o gosto fora de moda, o desprezo pelos prémios. Para
mim, a literatura portuguesa do séc. XX, fora o caso especial
de Pessoa, teve dois gigantes: Aquilino e Nemésio. Mas esta leitura
tem efeitos pessoais negativos. Relendo "A burra do Lexandrino",
perdi a vontade de continuar a trabalhar na minha interminável
narrativa de "imagino-memórias". Há que ter a
noção dos limites. Não podemos ser bons em tudo.
Março 13, 2005
Viagens para os Açores
Nunca viajei na Air Luxor, não sei como serve, só tem para
mim a desvantagem de ser madeirense (bairrismo entre ilhéus...).
Agora que houve novo contrato de viagens para os Açores, diz-se
que ficou afastada por arranjos entre a TAP e a Sata. No novo contrato,
impôs-se como condição o serviço a cinco ilhas.
Na minha recente ida a Ponta Delgada, já fiquei prejudicado, por
uma incrível escala em S. Maria, aterragem e descolagem (parece
que não, mas o físico ressente-se), um quarto de hora metido
no avião sem ar condicionado, para saírem três passageiros
e entrarem quatro.
Talvez em consequência deste novo contrato, o serviço ficou
intolerável, sem que me pareça ter havido diminuição
das tarifas. Seja qual for a hora do voo (por exemplo os voos Lisboa-Ponta
Delgada das 12:20 às 13:35 ou das 19:10 às 20:25) acabaram
as refeições quentes. Serve-se apenas um pequeno cacete,
de pão banal, com os mais vulgares recheios de sandes, e uma pequena
sobremesa, tudo a temperatura frigorífica. E isto com a assinatura
de Vítor Sobral, que vergonha para um chefe que respeito. A partir
de agora, convite só em executiva!...
Sobra uma vantagem. O Pico passa a destino dos voos nacionais. É uma
ilha magnífica, que só fica atrás do Faial e de
S. Jorge numa coisa: a vista do Pico! É das ilhas mais preservadas
da corrupção da antiga paisagem pelas exóticas criptomérias
e pelo domínio paisagístico das pastagens. Não vou
descrevê-la, nem falar dos biscoitos, dos mistérios, dos
currais de vinha, da bela arquitectura popular. Tudo isto vem nos guias
turísticos ou na internet.
Prefiro falar dos homens, repescando uma entrada antiga. Micaelense
fanático como já viram, com metade dos genes e grande parte
da educação terceirenses, confesso-me um admirador porventura
idílico das gentes do Pico, os picarotos. Não conheço
nenhuma simbiose tão grande entre gente do mar e da terra. Nas
outras ilhas, ou se é camponês ou se é pescador.
São mesmo quase duas culturas diferentes, como Armando Côrtes-Rodrigues
tratou com grande mestria dramatúrgica e um grande sentido telúrico
na sua peça, hoje esquecida, "Quando o mar galgou a terra",
quase tão importante como o "Mau tempo no canal" para
se ter uma ideia do carácter das gentes açorianas. No Pico,
o foguete do homem da vigia das baleias transformava num ápice
o camponês em pescador de baleias. Enxada abandonada, farnel esquecido,
era ver quem mais corria pelas ladeiras a chegar ao cais e tomar o seu
lugar na canoa baleeeira: mestre, arpoador, trancador ou simples remador.
Enquanto vivi em Ponta Delgada, até ir para a universidade, não
tive contactos com jovens picarotos. Conheci-os depois na universidade
e ficaram dos meus melhores amigos. Aliás, não é difícil.
O picaroto, se é amigo, é-o mesmo. O carácter espelha-se-lhes
no físico, frequentemente maciço e entroncado, a que a
tez clara e os olhos azuis dão um ar pouco comum em Portugal.
E, ao mesmo tempo, o picaroto é doce, tem uma alma de criança,
uma simpatia natural e espontânea que encanta todos os visitantes.
Parece que não precisam de atitudes de defesa, eles que vivem
sob a protecção do magnífico totem que é a
montanha do vulcão. E, para não falar só das gentes,
tendo eu como insuperável, porque na matriz da minha primeira
memória do mundo, a beleza de S. Miguel, e apesar da difícil
escolha entre a semelhança/diferença das ilhas, acho que
nenhum turista pode ir aos Açores sem visitar essa pérola
da construção telúrica que é a ilha do Pico.
Tenho a impressão de que esta ligação directa para
o Pico vai mudar substancialmente o turismo das ilhas centrais. Até agora,
ia-se e ficava-se no Faial, num dia tomava-se o barco para a Madalena
para uma breve volta ao Pico e regresso vespertino à Horta. Afinal,
o Faial vê-se num dia, incluindo uma breve ronda pela cidade da
Horta, vila engraçada mas minúscula, promovida a cidade
pelo seu filho Duque de Ávila. Agora, aconselho o inverso aos
turistas. Vão é daqui directos ao Pico, por três
dias e façam a viagem inter-ilhas ao contrário, para uma
ida ao Faial de manhãzinha até ao fim da tarde.
Março 20, 2005
A Loja Correia
Provavelmente já foi há bastante tempo, mas só na
minha última ida a Ponta Delgada é que reparei numa coisa
tristemente marcante, o desaparecimento da Loja Correia, emblema do comércio
chique, na Rua Nova da Matriz (aprendi com a minha avó, para António
José de Almeida já tenho a de Lisboa), em que se esfumaram
fortunas de gastadoras compulsivas.
Fez-me logo lembrar a velha D. Guidinha Pimentel, figura bem simpática
da minha juventude. A Guidinha era um encanto de pessoa, mas mais surda
do que uma pedra. Admiravelmente, isto não a impedia de fazer
a sua vida como professora de piano, de casa em casa de gente bem que
queria as suas meninas bem prendadas. Lá que o Beethoven compusesse
surdo, compreende-se, mas como é que a Guidinha corrigia os desafinanços
das suas alunas? Também para aquilo em que elas o usavam, para
umas exibições do "Für Elisa" para tios
duros de ouvido, qualquer coisa servia.
Grande vício seu, para que não tinha meios, era embonecar-se.
Não lhe bastavam os vestidos e chapéus ratados oferecidos
pelas amigas, era também cliente diária da Loja Correia.
Ainda a loja não abrira, Guidinha já estava a marcar o
ponto. Deixavam-na à vontade na sua pesquisa de novidades, sempre
indecisa entre o vestido salmão e o saia-casaco lilás,
porque a sua paleta de cores, adequada a uma virgindade serôdia,
era limitada, entre os extremos inadmissíveis do cor-de-rosa de
calafona e do roxo episcopal.
Mas não era bem aquele, lá o voltava a pendurar e a tentar-se
por outro. Finalmente, a escolha semi-definitiva e a sala de provas,
mas sempre algumas dúvidas. "D. Mariana, parece-me que este
me cai bem, mas se calhar fica melhor com o laço daquele outro". "Não
há problema, D. Guidinha, vamos já experimentar".
Meia hora de costura até à prova final. "Sr. Correia,
acho que não me fica mal, mas tenho que pensar. Amanhã volto
cá". "D. Guidinha, por quem é, estamos sempre às
ordens. A loja é sua!".
PS - Twilight zone... talvez mais para lá do que para cá!
Ainda a Guidinha
Como a DK, em comentário, ficou na dúvida sobre a veracidade
da Guidinha, e como estou em veia de imaginação, vou então
contar outra estória, lembrando-me da sua surdez, mas esta sem
ambiguidades. É mesmo inventada.
A Guidinha, para quem as poucas lições de piano mal davam
para pagar a renda de casa, jantava em ronda pelos muitos amigos e, frequentemente,
na minha casa. Um dia, vi que a Guidinha, sentada ao meu lado, mirava
com curiosidade um grande penso que eu tinha na mão. Então,
expliquei-lhe, em longa conversa porque não consigo contar nada
em duas palavras, o que tinha sido aquilo. Eu tinha resolvido, pela primeira
vez, fazer um bolo. Belo bolo de chocolate, às camadas de massa
e creme de chocolate, esmeros de vigilância do forno a vigiar a
assadura, com ajuda da Ascensão. Eu, esbraseado com o calor do
saudoso fogão de lenha monumental, de ferro e latão, ao
centro da cozinha. Tanto abri e fechei o forno, a espetar palito no bolo,
que uma vez me distraí e encostei a mão à chapa
quente, com resultado numa profunda queimadura. Durante a explicação,
a Guidinha mostrou a maior atenção, com muitos "Ah", "não
me digas", "foi assim?". Acabada a conversa, a sua curiosidade
tanto tempo reprimida pelo meu falar incessante, não se conteve: "Ó meu
filho, tenho estado a reparar, o que é que tu fizeste nessa mão?"
Abril 10, 2005
Um ícone da cozinha açoriana
A açorianice volta-se hoje, outra vez, para a cozinha. Vício
meu. Já aqui escrevi que é difícil falar de cozinha
açoriana, tão diversa ela é, embora com traços
comuns. No entanto, há muitas semelhanças - semelhanças,
só - entre algumas coisas tradicionais, como sejam os enchidos,
os torresmos de porco, as lapas de molho Afonso e o arroz de lapas, o
peixe recheado, o peixe frito com molho de salsa verde, pouco mais, que,
com muitas variantes, se comem em todas as ilhas. Sobressai, na identidade
do arquipélago como um todo, um prato comum a todas as ilhas,
certamente ancestral, com pequena variedade de ilha para ilha: o polvo
guisado. Ainda por cima, é o prato de cozinha açoriana
mais fácil de "imitar" pelos meus amigos continentais.
Ainda há dias, elogiando uma ementa regional de um hotel de Ponta
Delgada, abri reparo para a má qualidade do seu polvo. Comecemos
por uma receita típica, que vos vai mostrar como, aparentemente,
este prato excelente é tão fácil de fazer. Conheço
muitas receitas, mas agora, perdendo talvez clientes para o meu próximo
livro, vou revelar a da minha avó paterna, uma especialidade.
Aparentemente, a receita é simples, tal como a publicarei:
Um polvo com cerca de 2 kg, 1,5 dl de óleo, 3 cebolas, 3 dentes
de alho, cerca de 0,5 l de vinho de cheiro, uma folha de louro, 1-2 cs
de massa de malagueta, um ramo de salsa pequeno, sal, pimenta preta e
4 cravinhos.
Cortar em pedaços pequenos o manto e os tentáculos do polvo.
Refogar as cebolas e os alhos, tudo picado, a folha de louro, o ramo
de salsa, inteiro, a massa de malagueta, sal, pimenta preta e os cravinhos.
O polvo pode ser juntado logo no princípio do refogado ou uns
minutos depois (eu prefiro), quando a cebola começar a alourar.
Deixar reduzir um pouco a água destilada do polvo (5 minutos em
lume alto) e cobrir com vinho de cheiro. Apurar bem, a lume médio-baixo,
juntando um pouco de água quando necessário.
Agora vêm os problemas para os meus leitores do continente. Primeiro,
como atenrar o polvo, coisa essencial? A técnica tradicional é batê-lo
fortemente com o rolo da massa. Puxa pelo físico. Aquilo que faço
sempre, adaptando uma velha técnica laboratorial, é simplesmente
congelá-lo e descongelá-lo, o que parte bem as fibras,
sem prejuízo do sabor.
A seguir, outra coisa esquisita da receita, o vinho de cheiro, que entrou
nos Açores depois da praga da filoxera. No continente, este vinho,
chamado morangueiro, compra-se - clandestinamente - a produtores individuais
no Minho e também na zona da Bairrada. Mas, sendo muito difícil
de encontrar, pode-se substituir pelo vinho mais próximo em travo
e acidez, que é o verde tinto, o mais carrascão possível.
Problema mais difícil é o da malagueta, a pimenta da terra.
Não se vende cá. A malagueta açoriana, que uso em
muitas receitas, não tem equivalente. Hoje vejo com frequência
nos supermercados malaguetas vermelhas, grandes, com cerca de 10 cm,
produzidas em Portugal. São uma razoável aproximação
da malagueta açoriana, embora muito mais picantes e com menos
sabor. Se as encontrarem cá, abram-nas ao meio, retirem completamente
as pevides que são muito picantes, deixem em bastante sal durante
duas semanas no frigorífico, a macerar e moam no mixer. Usem esta
massa em muito menor quantidade do que indico para a malagueta açoriana
porque, como disse, é muito mais picante, mesmo sem as pevides.
Com parecença distante com a malagueta, mas mesmo assim a menos
afastada por parte de todas as "pimentas" que conheço,
sugiro a pimenta da Caiena, que se encontra facilmente entre nós,
em pó, usada em dose que resulte num picante marcado mas não
excessivamente forte. Ainda outra possibilidade, muito menos canónica, é a
de misturar um pouco de malagueta picante com massa de pimentão.
E não esqueçam que, se a malagueta for muito salgada, não
devem salgar demais o guisado.
Depois, a cozedura do polvo é o ponto critico deste prato. A
altura do lume deve ser a adequada para que, ao fim de cerca de 45 minutos,
o polvo esteja bem tenro e o molho muito apurado. Se, para apurar o molho,
o que é essencial, tiver que se prolongar a cozedura, corre-se
o risco de o polvo começar a endurecer. É melhor retirar
o polvo e apurar mais o molho. Apurar significa um ponto muito critico,
questão de minutos, entre um molho muito líquido e um molho
detestável de óleo com manchas de escuro do vinho. O ponto
certo é um molho aquoso mas grosso, com olhos bem visíveis
de gordura. Só a experiência é que domina isto.
Finalmente, o acompanhamento. Como é muito vulgar em pratos da
cozinha açoriana, este come-se sem acompanhamento, só com
o pão ao lado a embeber no molho (não é indelicadeza,
na minha terra, se não como é que se podia comer alcatra?).
Há quem guise batatas aos cubos no molho do polvo, coisa que horrorizava
a minha avó e a mim também. Penso que "enfarinha" o
molho e o degrada e nunca o faço. Mas, como os leitores estão
habituados a acompanhamentos, sugiro umas simples batatas cozidas à parte
ou um puré de batata. Ou então que não façam
o polvo como prato mas sim como entrada, sem acompanhamento. Duvido é que
os convidados consigam comer qualquer coisa a seguir!
Estão a ver como uma receita aparentemente simples se pode tornar
complicada? Nenhum livro de cozinha é supletivo da boa técnica
culinária. É isto que faz os chefes, para além do
bom gosto, obviamente.
Abril 17, 2005
Turismo de S. Miguel
Não há mais de dez ou quinze anos, comecei a ver em S.
Miguel um turismo especial. Já então havia programas de
verão para continentais, por vezes programas modestos em hotéis
de 3 estrelas, mas o que mais notava, nos meus passeios, eram os turistas
de elite, abominando Algarve e Benidorm. Ingleses, alemães, franceses,
nórdicos, de carro alugado a descobrir a ilha, com aquele ar indefinível
de comportamento e vestuário que aponta para gente educada. Muitos
diria que eram universitários. Encontrava-os às vezes nos
miradouros, já eles lá estavam e ficavam depois de eu partir,
agarrados a leituras que iam intervalando com a contemplação
da paisagem. Encontrei-os sempre no museu - quantos turistas o visitam
hoje? - e nas livrarias. Vi-os comprar, sem discutir preços, bordados
e louças regionais. Presumo que fossem clientes de bons restaurantes
e que procurassem a gastronomia tradicional. Dizia para comigo: este é o
turismo que quero para a minha terra: poucos mas bons.
Hoje, é uma desgraça. O novo boom turístico fez-se
tipicamente com vagas de escandinavos de classe baixa. Dizem-me que há vários
charters semanais que despejam estes turistas para bons hotéis,
desperdiçados, e que só vêem a ilha em excursões
programadas. Raros alugam um carro, coisa imprescindível para
quem quer conhecer verdadeiramente S. Miguel. Do tal aspecto educado,
nem vislumbres. Nem fazem despesa que fique na ilha, a não ser
uma cerveja se o calor aperta. É só vê-los pela cidade,
depois de uma ida ao Manteiga, cheios de sacos de plástico com
víveres para todo o dia. Lembro-me de uma vez, ao pequeno almoço
no mais famoso hotel micaelense, haver um grande grupo destes e uma senhora,
arranhando inglês, me dizer: "eat, eat, it's for all the day".
Provavelmente, isto já é irrecuperável e afecta
a imagem do turismo de qualidade. No entanto, há dois nichos de
qualidade que julgo que deviam ser explorados pelo turismo micaelense,
com uma campanha bem dirigida. Um é o turismo de empresa, seja
para reuniões de trabalho, seja para férias de "fringe
benefits" aos seus quadros. O outro é o "turismo" científico,
congressos e "meetings". Neste caso, como nenhuma reunião
científica internacional dispensa hoje a presença tanto
de europeus como de americanos, S. Miguel tem uma localização
geográfica privilegiada. Precisa é de ter infra-estruturas
adequadas para essas reuniões, um mini-centro de congressos e
um serviço de "organização de eventos",
seja uma empresa especializada seja uma das agências de viagens.

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